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terça-feira, 27 de setembro de 2016

O acesso das mulheres ao diaconado

Há uma brisa refrescante e nova a partir de Roma pela mão do Papa Francisco. O Papa nomeou uma comissão para analisar o acesso das mulheres ao diaconado, como já ocorre com homens solteiros ou casados, o denominado diaconado permanente. É uma pena muito grande que entre nós esta forma de ministério esteja esquecida ou até quase extinta. Não é por causa do Papa nem muito menos por causa dos padres em geral, unicamente e exclusivamente, por causa dos bispos que não quem maçadas à sua volta.
O diaconado, na hierarquia, é um grau abaixo do sacerdote. Podem presidir a casamentos e baptismos. Só não podem consagrar o Pão e o Vinho na Eucaristia, de resto podem fazer tudo o que seja necessário para animar as comunidades religiosas. Em muitos lugares do mundo, devido à escassez de sacerdotes, muitos religiosos e religiosas, autorizados pelos bispos, presidem à vida das comunidades. Alguns são diáconos, outros não, no caso se forem mulheres, porque as mulheres não têm acesso ao Sacramento da Ordem em nenhum dos três graus. O Papa tenta permitir nem que seja para já o primeiro grau, o diaconado.
O Papa Francisco, nesta e noutras matérias, podia levar a efeito na Igreja uma verdadeira implosão, mas prefere paulatinamente tirar pedra a pedra os temas congelados pela doutrina católica há séculos: os divorciados e os segundos casamentos, a homossexualidade, o celibato obrigatório, a ordenação das mulheres, a corrupção no Vaticano, a pedofilia, a sexualidade e as questões sobre a vida humana em geral…
Não há fundamento bíblico nenhum para excluir as mulheres do sacerdócio, e até a possibilidade de serem bispas e papisas. O maior obstáculo radica no machismo ou patriarcalismo que perpassa a Igreja desde os primeiros séculos do Cristianismo até aos nossos dias.
Para quem advoga limitações de ordem puritana e fundamentos bíblicos inventados para a exclusão das mulheres, reparemos que na genealogia de Jesus há cinco mulheres: Tamar, Raab, Rute e Maria, e ainda a mãe de Salomão, que foi «mulher de Urias». Esta dimensão feminina da genealogia de Jesus não é assim tão perfeita como se desejaria para o Filho de Deus.
A viúva Tamar seduziu o sogro para ter um filho do mesmo sangue do seu falecido marido. Rute, a Moabita, é uma estrangeira, bisavó de David, pagã aos olhos dos hebreus. A «mulher de Urias» foi seduzida por David enquanto o marido estava na guerra. Raab era uma prostitua assumida em Jericó. Por fim, Maria, a mãe de Jesus que aparece grávida antes de contrair matrimónio com José, ou seja, uma mãe solteira, que não deve ter-se livrado de comentários ferozes de desprezo.
Jesus convive com os doze, mas no grupo não faltam mulheres. Não faltam nomes bem concretos: Maria Madalena, Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, Susana «e várias outras», diz o evangelista Lucas. Como se nota claramente, Jesus não era exclusivista nem muito menos machista, frequentava a casa de Maria e Marta, as irmãs de Lázaro. Depois há o diálogo com a Samaritana à beira do poço de Jacob, que em seguida, tornando-se missionária e discipula, anuncia o Messias salvador, em casa de Pedro em Cafarnaum, cura a sua sogra, demonstrando que Pedro era casado e que por isso não deixou de servir para ser o primeiro Papa. Maria Madalena é a primeira a anunciar a Ressurreição de Jesus.
Por aqui se vê como falta muito à Igreja Católica aprender com Jesus e seguir os seus passos. As suas palavras foram duras com fariseus e escribas, mas com as mulheres em geral era acolhedor, afectuoso e fazia-lhes sobressair a sua fé e o seu amor.
Não podemos continuar com este machismo anacrónico que impõe um patriarcalismo absurdo à Igreja e ao mundo, fazendo dela uma instituição desumana e completamente fora do contexto histórico que vivemos hoje. Não deve ser permitido que o macho, só porque nasceu macho, mesmo que demonstre sinais exteriores efeminados (sabe Deus e nós os problemas que às vezes advém daí…) possa ser sacerdote e a mulher não.
A humanidade, se quisermos falar assim, tem duas metades, forma uma realidade única e indivisível, mas no acesso ao sacerdócio só uma metade é que tem direito a recebê-lo. Nunca seremos verdadeira Igreja, iluminada pelo exemplo de Jesus, se persistir esta discriminação completamente absurda.

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