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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O diabo anda à solta

Depois de Passos Coelho anunciar nos dias escaldantes de final de Agosto que lá para setembro e outubro deste ano da graça viria seguramente o diabo para Portugal. Por isso, o diabo tornou-se um personagem incontornável a partir da daí. Felizmente, o diabo não veio e as más previsões saíram goradas, aliás, até parece que os resultados são precisamente ao contrário. Porém, não é disso que venho aqui tratar neste banquete, porque essas análises, deixamos para quem de direito, que sabe verdadeiramente delas. Vou antes fazer uma apresentação daquilo que é o diabo na nossa tradição e na nossa vida.
O diabo é, na tradição cristã, a significativa encarnação do mal. O termo diz muito, diabolos, do grego, «aquele que divide». Nesse sentido, enquanto Deus age para unir, harmonizar, trazer paz, o diabo trabalha na oposição, divide, confunde, traz violência.
O diabo anda solta quando o ódio entra na vida social, especialmente na política, quando há hipocrisia quanto às imposições morais, quando o racismo marca a agenda dos povos, quando o sexismo orienta as opções políticas, empresariais, religiosas e toda a dinâmica da vida em sociedade. O diabo anda à solta quando a homofobia está presente nos comportamentos e vitimiza as pessoas por causa da sua orientação sexual diferente. O diabo anda à solta na aversão à religião só porque fica bem no momento em que se está com alguém que nos obrigada a enveredar por aí. Mas o diabo ainda está mais solto quando se combate a religião do outro, só porque não embarca naquilo que «eu» penso, rezo e anuncio em termos religiosos.
Tudo o que seja intolerância no espaço público e privado em relação aos outros naquilo que eles são ou têm, é mais que manifesto que o diabo está à solta, porque gera divisão, confusão e violência. Estas são as marcas diabólicas que se personificam nessa figura imaginativa que enformou e enforma a cultura cristã e a vida socia em geral. Quem segue por estes caminhos vive diabolicamente porque promove e pratica as marcas da divisão. São diabólicos os meios de comunicação social quando dominados pelos interesses económicos e interesses puramente político partidários, controlam e negam a informação que deviam passar com autenticidade, mas não o fazendo negam a verdade, tomam partido, incitam à confusão e promovem o ódio e negam o diálogo social. Precisamos muito da cultura do encontro, tão reivindicada pelo Papa Francisco, para que o diabólico desencontro deixe de existir no mundo.
Pelo meio disto às vezes incluem-se lideranças religiosas que ambiguamente se apresentam como mensageiros de Deus e lutadores contra o diabo, mas não se inibem de calar o que deviam falar e outras vezes falam o que deviam calar. Quando há neles desprezo pelos mais pobres. Quando há neles abandono só porque sim de muito património que devia estar ao serviço do bem comum… Sobre estes o Evangelho ensina que, «pelos frutos os conhecereis». As muitas atitudes contra o desprendimento evangélico, provoca na opinião pública aversão, divisão e intolerância. O diabo solta-se por todo o lado.
O diabo pode ser combatido? - É possível fazer com que ele desapareça de todos os domínios da vida. Por isso, é necessário acreditar que sempre aparecerão pessoas ou grupos disponíveis para superar com as suas acções e atitudes a divisão, o ódio, a vingança e todo o género de violência. O que seria do mundo se não existissem, mesmo que poucas, pessoas capazes de perdoar, de unir e de andar para o futuro apesar das misérias que nos rodeiam no presente?
É não é raro encontrarmos espaços culturais onde predomina a paz, a serenidade nas palavras e o diálogo fraterno. Sempre há informação alternativa que conduz à paz com justiça, que é dos bens que mais precisamos nos tempos em que vivemos. Muitas das pessoas envolvidas nesta causa, muitas vezes, são pessoas anónimas, grupos invisíveis ou simplesmente menosprezados pela opinião dominante, manipulada pela informação politizada. Apesar de tudo isto há gente por aí como fermente no meio da massa, sempre fazendo tudo para juntar e não dividir por dividir.
Não preciso de nomear aqui ninguém que anda a fazer esse milagre todos os dias na realidade concreta da vida. Basta que cada um tente descobrir por si mesmo, quem entende que o inspira para o bem, para a união e para a paz com justiça. Quando muitos viverem esta causa o diabo desapareceu da vida ou simplesmente deixará de andar à solta porque não encontrou espaço em nenhum coração para fazer das suas diabruras. 

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