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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

A dança das pedras em tempo de festa

Crónica:
1. O rodopio da festa distrai-nos um pouco da realidade do mundo. Somos vítimas perante a malícia que faz comandar a vida das sociedades. A nossa muito mais, porque é a nossa e todos os dias a sentimos com o coração e com as mãos. As pedras dançam ao som dos instrumentos dos interesses e de acordo com a batuta dos donos do mundo. Mas recuso não ter uma segura consciência disso. Podem levar tudo, é certo, mas quero estar ciente que o levam. É como saber que estamos a ser burlados, mas por dever de caridade deixamos andar. Obviamente, que a vida não funciona assim para tanta gente, que logo esperneia e monta o maior escarcéu para denunciar e castigar devidamente quem assim procede. Mas, alguns não são assim, deixam que as pedras dancem e permitam o engano até certo ponto se notam à partida que ele não é assim tão mau. Outros males estamos cheios e desses devemos ter receio e se possível lutar até morrer contra eles.
 
2. Os presentes são hoje o centro das atenções. Ouve-se muito dizerem que as crianças gostam, a festa é delas, se não fosse eles não fazia nem comprava nada...  Mas a maior loucura é feita pelos adultos. Em que ficamos? - É mais honesto dizer-se que todos gostam. Porém, não devia ser necessário perder tanto a cabeça por causa disso. A burla que são os pais natais por todo o lado, que diz, ó, ó, ó... E faz sorrir com o dinheiro das carteiras de quem é pai e mãe, não me parece justo. Mas, a maioria embarca nisso, dança com essa música enganadora e gosta. Quem sou eu?

3. Não tenho solução para que a dança das pedras seja outra. Até porque não tenho sabedoria para inventar outro modo de pensar, quem sou eu, digo-vos novamente? - Mas encantou-me ver que o olhar de uma criança brilhou porque que estava nas suas mãos um pedaço de pizza quente. Outra desvelou-me mais um «presente», porque se colocou vestida de branco como um anjo por detrás do presépio sentindo-se útil e a fazer sorrir os seus pais e todos os que se assombravam com a cena divinal. Não é muito, mas é um tudo que nos alegrou porque se refere ao presente mais importante: a vida com sorriso e com encanto se começa a ser feita a parte das crianças.

4. A dança das pedras faz-me lembrar a casa vazia quando às vezes regressava àquele lugar onde nunca vivi com os pés, mas onde morou o meu pensamento e o desejo de que essa casa seria minha por herança. Nunca foi e nunca será, porque simplesmente não existe essa casa dos meus encantos. Mas foi esse imaginário que me ensinou a olhar. A ver a noite e o seu luar, o sol como um irmão tomado pelo ensinamento de São Francisco de Assis, a ver as coisas e as pessoas todas que me rodeavam como dádivas de origem misteriosa. Aprendi com isso o que é a liberdade, o dom para ver que há um direito em mim que me enriquece, não só fisicamente, mas também espiritualmente, até ao ponto de perceber que há um mundo cheio de imperfeições que me convoca para a lutar contra as injustiças. Nessa casa dancei tantas vezes com os amigos para perceber como era a consistência das pedras. Nunca mais esquecerei essa alegria da minha festa interior.

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