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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A «pós-verdade»

1. O dicionário de Oxford elegeu para palavra do ano de 2016 a palavra «pós-verdade». Não parece ser uma palavra muito usado na linguagem comum, mas gosto da palavra e da escolha, porque revela-nos uma prática muito comum na humanidade de hoje, a construção ou manipulação da sociedade não em factos e conclusões verdadeiras, mas com base em possibilidades, promessas e estereótipos que entram facilmente na moda. Por isso, vamos tomar dois exemplos, a política e a religião, para ilustrar como esta palavra está bem presente na vida da sociedade de hoje.

2. No domínio da política, em todos os seus contornos, vemos exemplos que nos fazem perceber claramente como esta palavra tem toda a razão de ser. Daí que não nos admira que as sociedades estejam hoje a eleger figurões com discursos idiotas, xenófobos, populistas e com promessas absurdas que se forem cumpridas mergulham o mundo num apocalipse.
Por isso, já vimos o discurso do medo utilizado até à saciedade contra os negros, contra os refugiados ou deslocados da guerra e do terrorismo. Mas, não nos falta também o discurso do diabo e agora dos Reis Magos que vão seguramente trazer a desgraça negra em vez de trazerem ouro, incenso, mirra. Há um presépio na cabeça de cada idiota feito com as figuras habituais, mas de canelas para o ar.
Neste campo da política a «pós-verdade» sorri quotidianamente e ainda mais se diverte quando se aproximam eleições. Elas só promessas e mais promessas que ninguém acredita e até dá azo à criatividade geral dos mais atentos, fazendo anedotas ou piadas sobre as mesmas e sobre os seus autores. Por exemplo, até de cacifos para os sem abrigo se lembraram… Não seria melhor lembrarem-se de emprego, casa, pão, roupa… Numa palavra, dignidade.
Por aqui, na política, também se vê como os poderes uma fez eleitos se esquecem claramente das promessas, do povo, da justiça e do bem comum. Volta tudo ao mesmo, políticas que beneficiam os grupos instalados e as famílias que sempre se alimentam à conta do bem público que nasceu para ser destinado a todos, mas uma vez usurpado por alguns perde a sua originária vocação. A «pós verdade» na política não morre solteira, mas convive feliz e enamorada todos os dias.   

3. No campo da religião predomina o discurso da «mudança», da «comunhão», da «caridade» e da «fé». São palavras fortes e sempre recorrentes. Mas que depois na realidade prática não têm consistência nem muito menos expressão visível que nos faça seguir como exemplo e dizermos, benza-te Deus... A «pós verdade» no campo da religião encontra seguramente uma certeira aplicação.
Tudo continua na mesma, porque «mudança de coração» é bom, mas para os outros, funciona como a inscrição das tascas com os bonecos bonacheirões de manguito em punho a dizerem aos distraídos clientes: «fiado só amanhã».
Outra palavra da moda e também muito badalada, mas que é uma excelente «pós-verdade» é a palavra que nenhum discurso dispensa, a «comunhão». Faz bem aos olhos, mas prejudica o juízo, porque quem enche a boca com tal palavra não se trava de fazer aceção de pessoas, a menosprezar a diferença e a não saber conviver com o contraditório. Até porque, diálogo e transparência, são virtudes boas mas sempre para os outros.
Mas há mais, por exemplo, os estereótipos sobre a «caridade». A religião, considera esta a menina dos seus olhos. Mas, faz brinca à caridade, deixa apodrecer património que pertence a todos, não fazendo nem deixando fazer nada para que tal esteja ao serviço dos mais pobres. Por isso, continuam jogados no olho da rua uma porção de gente desabrigada e esfomeada. E a tal caridade pouco ou nada se importa com isso.
Outra palavra que manda sempre lá para os fundos a «pós-verdade» é a palavra fé. Sim a fé, porque a maioria dos discursos que a pronuncia, tem em vista a ideia absurda que ela apague o raciocínio, de tal forma, que a inteligência é um bem que se pode atrofiar e que a dedicação, o esforço que a inteligência exige, sejam canalizados para o domínio da fezada, da ignorância e da dependência, porque tal faz bem à imposição do poder e ao domínio de meia dúzia que se destacou ou foi destacada pela sorte.

4. A «pós-verdade», é um sinal da verdade de hoje, que não é assumida pelo uso da palavra na linguagem comum, mas pelas atitudes que comandam a vida de todos nós. Ela vem pela política, pelos partidos, pela religião, pela economia, pela família, pelos grupos, por cada um individualmente e por tudo o que faz mexer a vida e mundo.

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