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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Deus não estava em casa

Conto de Natal...
Um homem rico, muito devoto, cumpridor dos seus deveres humanos e religiosos, desejava tanto encontrar-se com Deus pessoalmente que um dia disse para consigo que era capaz de dar a vida para que esse encontro se realizasse. Viveu muitos anos com essa esperança.
Desejo manifestado desejo realizado. Um dia o homem cai à cama com uma valente pneumonia que lhe cerceou a vida material. Morreu com aquele pensamento que lhe alimentou a oração e os passos durante muito tempo da sua vida neste mundo.
Ao chegar ao céu andou por todos os lugares paradisíacos desse lugar que tanto lhe tinham falado na vida inteira enquanto andou pelo mundo, cada lugar do céu era mais bonito do que o outro, olhava para todos os cantinhos, procurava a face de Deus. Os anjos que encontrava, a cumprirem os seus deveres em nome de Deus, respondiam seguros à pergunta onde está Deus, que estaria onde gosta de estar todos os dias. Muito bem, a informação foi confirmada por todos os anjos, em nenhum deles encontrou contradição. 
Perante tão seguras indicações, imaginou os aposentos de Deus, ricamente ornamentados, com belos sofás, candeeiros de talha dourada em folha de ouro fino, uma estante com os livros delicadamente impressos com a vida dos grandes santos desde os apóstolos até aos últimos Papas, rodeado de criados bem apresentados, bem vestidos pelos modistas famosos, algumas bebidas num canto da sala principal num luxuoso bar com a melhor garrafeira do céu para onde tinham sido levadas todas as espécies de bebidas caras e as mais apreciadas pelos humanos... Imaginava que devia haver nos aposentos de Deus um quarto de dormir fora de série e que só podia ter lá as melhores comodidades, pois, a importância de Deus assim o exigi.
Alguns dias passaram e já tinha visto mais ou menos tudo e conversado com imensa gente no céu. Mas faltava-lhe cumprir o seu desejo, encontrar Deus face a face. Finalmente chegou ao corredor que o leva aos aposentos de Deus. Ao fundo lá estavam os sinais que pareciam indicar que aqui seriam os aposentos de Deus.
O seu coração pulsava mais forte que nunca, mas não sentia medo de Deus, sempre desejou este encontro, nada o podia deter para que se realizasse o que o moveu durante o tempo em que viveu a sua religião com uma piedade irrepreensível. Finalmente ia estar com Deus face a face. 
Chegando ao lugar que seguramente lhe parecia serem os aposentos de Deus, entrou pé ante pé para dentro de um quarto enorme, que estava escuro e vazio. Deus não estava neste lugar.
Saiu de rosto caído e triste. Ao primeiro anjo que encontrou perguntou-lhe por Deus, que prontamente e em júbilo lhe respondeu, os aposentos de Deus são estes aqui, mas Ele nunca está em casa, anda pela terra no coração de tantas pessoas, às vezes alegre, outras triste, umas com saúde, outras doente, muito doente, nalguns dias é criança, jovem, adulto e idoso, tantas vezes está alimentado e feliz, outras vezes fica esfomeado e infeliz, também numa porção do seu tempo tem abrigo, mas outras tantas ocasiões deita-se no canto da rua à chuva e ao frio, quando há guerra, está em todos os lados, derrama sangue e morre, por isso, Ele é o olhar que brilha, o olhar melancólico de tristeza, é o sorriso e as lágrimas, as mãos que cuidam e os pés imparáveis para encontrar a vida em todos o recantos da existência… Ele é um tudo em todos e para todos.
Assim sendo, o anjo concluiu o diálogo com o seguinte exemplo: acabei de ler no jornal do céu, que neste preciso momento, Ele tinha nascido numa gruta e que estava cheio de frio deitado nas palhas, envolto em panos e aquecido pelo bafo dos animais.
Depois da brilhante reflexão do anjo, o nosso homem, percebeu que foram imensas as vezes em que se tinha encontrado com Deus face a face ao longo de toda a sua vida. Sorriu feliz e quis ser também um anjo para ajudar Deus a ser tudo em todos.
JLR

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