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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Os ideais religiosos ou não e a vida concreta

As expressões religiosas são complexas por natureza. Os seus seguidores são incentivados a levantar voos, sem que se tenha em conta que a vida quotidiana está amarrada aos pés. Escusado será dizer que a maioria não possui as asas dos iluminados ou dos predestinados a altos voos. Ninguém consegue ser ave ágil nas alturas, quando diariamente tem que lutar e labutar pelo «pão nosso de cada dia», por isso, tantas vezes são condenados à partida por quem tem o «poder» de guardar a moral, as regras e os bons costumes. Não é justo que assim seja. Mas, lá terá de haver linhas orientadoras que nos permitam iluminar os trilhos da vida, mas que ninguém se tome por guardião de ninguém nem se assuma como «o dono disto tudo», porque defeitos e virtudes há-os em todos os lugares e na humanidade inteira.  
O sofrimento que advém quando alguém é considerado desprezível porque não chegou ao alcance dos ditames dos guardiões do moralismo, é incalculável, porque, foram votados à condição de «condenados» por causa das suas fraquezas e misérias. Assim, arrastam-se pelo chão como vermes desgraçados.
Obviamente, que não esquecemos o quanto há de esforço para superar as limitações e as misérias deste mundo levado a efeito por tanta gente, porém, a distância entre o ideal e a realidade é insuperável para a maioria daqueles que seguem os cultos e as expressões religiosas. Pior é que se faça vingar por causa disso, o veneno da hipocrisia. Por isso, é que tantas vezes seja ressuscitada a ideia de que aqueles que praticam a religião são piores do que os outros. Não será bem assim. Praticantes ou não praticantes, com ideais ou sem eles, haverá de tudo em todos os domínios.
Então o que se pretende? E quais as devidas diferenças? – Pretende-se que em nenhuma instância se instale o fanatismo a favor dos bons contra os maus, pelos de dentro contra os de fora, para que não se cai no perigo do desprezo, da indiferença e radicalmente na guerra de uns contra os outros.
Mas então e as diferenças? - Não existem no essencial, porque tanto em uns como nos outros, religiosos ou não, deve haver uma luta quotidiana pela paz, pela justiça e com a consciência da honestidade que edifica o bem comum. Só isso e apenas isso, seria suficiente para que o mundo fosse melhor e todas as pessoas pudessem sorrir todos os dias porque estavam verdadeiramente felizes. É isto o conta para o bem estar de todos nós.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Protestos salutares

Blogue Fénix do Atlântico de Luís Calisto
Nada me satisfaz mais do que ver protestos nas nossas ruas, precisei de mais de trinta ou quarenta anos para saber o que era um protesto a sério. Sim, isso mesmo, um protesto a sério, repito. Tudo funcionava baixinho, mesmo que as razões para protestar fossem muitas, porque havia empregos para salvaguardar ou algum filho ou neto para encaixar na máquina. Por isso, protestos com cartazes e gritos estridentes eram só na televisão feitos no Continente ou em algum país do mundo.  
Agora não, já existem protestos à semelhança dos de lá de fora com cartazes, faixas com dizeres e gritos contra os responsáveis que devem responder pelas necessidades reclamadas. Nada mais justo e salutar em democracia, desde que o respeito por uns e por outros não saia beliscado.
Vamos então ao barulho. Começo a reparar que na nossa terra reclama-se muito só por determinados barulhos. Os ruídos relacionados com a religião e agora os ruídos dos bares na Zona Velha do Funchal. Obviamente, que se compreende o incómodo. Ninguém gosta de ver o seu descanso perturbado altas horas da noite. Mas que o faça também com as situações e não apenas naquelas que diz respeito ao seu terreiro e ao aconchego do seu egoísmo.
Parece que há protestos cuidadosamente preparados por gente que procura saciar a sua vingança e lançar a desordem só porque sim. Se assim não fosse teria que haver protestos por tanta situação nesta cidade muito mais ruidosa e prejudicial para um número muito maior de cidadãos do que aqueles que eventualmente se sentem lesados com o ruído da Zona Velha.
Alguns exemplos, a desgraça das ribeiras e as lacunas nos hospitais, nas escolas de onde veio a última sobre o descalabro da colocação de professores.
Mas, vamos ao barulho com os protestos dos moradores da Zona Velha. Quem se lembra da zona velha não de há muito tempo, sabe que aquilo estava numa grande tristeza, com edifícios degradados, lixo e misérias de toda a ordem antes das várias requalificações levadas a efeito naquela zona da cidade. Agora tem movimento, tem restaurantes, bares, tascas que levam lá pessoas de todas as idades e melhor ainda não faltam por lá os turistas, que são a joia da cora. É óbvio, que tem ruído e quiçá outros males também igualmente degradantes e perturbadores. Mas qual é o progresso que não trás consigo coisas boas e coisas más? – Por isso, lembro algo que não é novidade nenhuma, as entidades que devem dar resposta às queixas dos habitantes daquela zona e de todas as zonas da cidade, devem ser absolutamente exigentes no cumprimento da lei, especialmente, a lei do ruído. Nada de facilitismos nem muito menos deixar andar os abusos.
Aos que andam a alimentar estes protestos cirúrgicos, carregados de interesses e de simbolismo, é melhor começarem a ver também outras situações muito mais graves para futuro noutras pontas da vida dos cidadãos e façam vir daí protestos e manifestações contra todas as entidades sejam elas de que cor for. Nada é mais salutar e importante para a maturidade democrática que tanto almejamos.

Tributo às crianças de Alepo

Contra a guerra absurda de Alepo - Síria... As crianças fazem orações. 
Há crianças que brincam entre escombros, crianças que morrem sob as bombas e granadas, e outras crianças que rezam para que a «guerra suja» termine.
«Confiamos que as suas orações sejam mais poderosas que as nossas», disse um bispo de Alepo, o armênio-católico Boutros Marayati, referindo-se às crianças de Alepo, cristãos e muçulmanos, que no próximo dia 6 de outubro se reunirão para pedir em oração a libertação da sua cidade da espiral de morte que a envolve.
E porque li esta notícia, que me comoveu profundamentedeixo aqui a minha oração e tributo a todas as crianças vítimas do absurdo da guerra interminável em que mergulhou a Síria.
Crianças Sírias brincando num buraco
 formado pelo rebentamento de uma bomba.
Oração às crianças de Alepo
És semente
és futuro
és gente..
porém, choras brincando
sobre os escombros
da indiferença
que te mata o sonho nesta hora
porque vês estilhaçado
sem sorriso nenhum
a frase de todas as crianças do mundo:
«quando eu for grande»…
JLR  

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Os trilhos da paz são difíceis mas não possíveis

Eis a minha leitura do discurso de encerramento do Papa Francisco no final do encontro da semana passada em Assis, Itália, sobre a paz no mundo, perante os líderes religiosos. Destaque do meu texto de opinião no Funchal Notícias:
As balas mortas podem ser húmus fértil
para fazer sorrir a vida 
Neste sentido, quem nos dera que as sociedades, os políticos e os líderes religiosos, hoje pensassem nisto: «O nosso futuro é viver juntos. Por isso, somos chamados a libertar-nos dos fardos pesados da desconfiança, dos fundamentalismos e do ódio» (Papa Francisco). Esperemos que este tempo de reflexão entre os vários líderes religiosos em Assis, sob a inspiração do gigante S. Francisco de Assis, venha a dar os seus frutos e que a humanidade cada vez mais perceba que sem desbravar os trilhos da paz, a pobreza, a exploração do homem pelo homem, a violência nunca acabarão, porque a humanidade não pode viver na injustiça e no desrespeito pelo bem comum.
Pode ser lido na íntegra AQUI

O acesso das mulheres ao diaconado

Há uma brisa refrescante e nova a partir de Roma pela mão do Papa Francisco. O Papa nomeou uma comissão para analisar o acesso das mulheres ao diaconado, como já ocorre com homens solteiros ou casados, o denominado diaconado permanente. É uma pena muito grande que entre nós esta forma de ministério esteja esquecida ou até quase extinta. Não é por causa do Papa nem muito menos por causa dos padres em geral, unicamente e exclusivamente, por causa dos bispos que não quem maçadas à sua volta.
O diaconado, na hierarquia, é um grau abaixo do sacerdote. Podem presidir a casamentos e baptismos. Só não podem consagrar o Pão e o Vinho na Eucaristia, de resto podem fazer tudo o que seja necessário para animar as comunidades religiosas. Em muitos lugares do mundo, devido à escassez de sacerdotes, muitos religiosos e religiosas, autorizados pelos bispos, presidem à vida das comunidades. Alguns são diáconos, outros não, no caso se forem mulheres, porque as mulheres não têm acesso ao Sacramento da Ordem em nenhum dos três graus. O Papa tenta permitir nem que seja para já o primeiro grau, o diaconado.
O Papa Francisco, nesta e noutras matérias, podia levar a efeito na Igreja uma verdadeira implosão, mas prefere paulatinamente tirar pedra a pedra os temas congelados pela doutrina católica há séculos: os divorciados e os segundos casamentos, a homossexualidade, o celibato obrigatório, a ordenação das mulheres, a corrupção no Vaticano, a pedofilia, a sexualidade e as questões sobre a vida humana em geral…
Não há fundamento bíblico nenhum para excluir as mulheres do sacerdócio, e até a possibilidade de serem bispas e papisas. O maior obstáculo radica no machismo ou patriarcalismo que perpassa a Igreja desde os primeiros séculos do Cristianismo até aos nossos dias.
Para quem advoga limitações de ordem puritana e fundamentos bíblicos inventados para a exclusão das mulheres, reparemos que na genealogia de Jesus há cinco mulheres: Tamar, Raab, Rute e Maria, e ainda a mãe de Salomão, que foi «mulher de Urias». Esta dimensão feminina da genealogia de Jesus não é assim tão perfeita como se desejaria para o Filho de Deus.
A viúva Tamar seduziu o sogro para ter um filho do mesmo sangue do seu falecido marido. Rute, a Moabita, é uma estrangeira, bisavó de David, pagã aos olhos dos hebreus. A «mulher de Urias» foi seduzida por David enquanto o marido estava na guerra. Raab era uma prostitua assumida em Jericó. Por fim, Maria, a mãe de Jesus que aparece grávida antes de contrair matrimónio com José, ou seja, uma mãe solteira, que não deve ter-se livrado de comentários ferozes de desprezo.
Jesus convive com os doze, mas no grupo não faltam mulheres. Não faltam nomes bem concretos: Maria Madalena, Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, Susana «e várias outras», diz o evangelista Lucas. Como se nota claramente, Jesus não era exclusivista nem muito menos machista, frequentava a casa de Maria e Marta, as irmãs de Lázaro. Depois há o diálogo com a Samaritana à beira do poço de Jacob, que em seguida, tornando-se missionária e discipula, anuncia o Messias salvador, em casa de Pedro em Cafarnaum, cura a sua sogra, demonstrando que Pedro era casado e que por isso não deixou de servir para ser o primeiro Papa. Maria Madalena é a primeira a anunciar a Ressurreição de Jesus.
Por aqui se vê como falta muito à Igreja Católica aprender com Jesus e seguir os seus passos. As suas palavras foram duras com fariseus e escribas, mas com as mulheres em geral era acolhedor, afectuoso e fazia-lhes sobressair a sua fé e o seu amor.
Não podemos continuar com este machismo anacrónico que impõe um patriarcalismo absurdo à Igreja e ao mundo, fazendo dela uma instituição desumana e completamente fora do contexto histórico que vivemos hoje. Não deve ser permitido que o macho, só porque nasceu macho, mesmo que demonstre sinais exteriores efeminados (sabe Deus e nós os problemas que às vezes advém daí…) possa ser sacerdote e a mulher não.
A humanidade, se quisermos falar assim, tem duas metades, forma uma realidade única e indivisível, mas no acesso ao sacerdócio só uma metade é que tem direito a recebê-lo. Nunca seremos verdadeira Igreja, iluminada pelo exemplo de Jesus, se persistir esta discriminação completamente absurda.

Ainda vamos a tempo de reverter a decadência

Será que já chegou este tempo... Eles há sinais preocupantes que nos fazem vislumbrar este retrato, porém, penso, que ainda vamos a tempo de arrepiar nas andanças e encetar caminhos novos que valorizem a existência com dignidade para todos e a inversão dos valores não pode sair vencida.
“Quando a tecnologia e o dinheiro tiverem conquistado o mundo; quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com rapidez; quando se puder assistir em tempo real a um atentado no ocidente e a um concerto sinfónico no oriente; quando tempo significar apenas rapidez online; quando o tempo, como história, houver desaparecido da existência de todos os povos, quando um desportista ou artista de mercado valer como grande homem de um povo; quando as cifras em milhões significarem triunfo, – então, justamente então — reviverão como fantasma as perguntas: para quê? Para onde? E agora? A decadência dos povos já terá ido tão longe, que quase não terão mais força de espírito para ver e avaliar a decadência simplesmente como… Decadência. Essa constatação nada tem a ver com pessimismo cultural, nem tampouco, com otimismo…
O obscurecimento do mundo, a destruição da terra, a massificação do homem, a suspeita odiosa contra tudo que é criador e livre, já atingiu tais dimensões, que categorias tão pueris, como pessimismo e otimismo, já haverão de se ter tornado ridículas”.
Martin Heidegger (1889-1976), em Introdução à Metafísica.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A música das pedras

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre sem nunca prejudicar ninguém.
A sinfonia do mar
Escorre sobre as pedras soltas
Num marulhar firme
No interior do coração.
Esta mística mesmo pouco ou nada ensaiada,
Levou-me suave na crista do pensamento.
É esse eterno baloiçar
Que fez algumas pedras serem redondas
Como circular deve ser o nosso tempo
Se passo ante passo construo
Um trilho que me leva até à luz.
Neste centro luminoso
Antevejo o mistério do amor
Que enrolou todas as pedras do mundo.
Vai daí pacientemente sinto agora
Como uma dádiva dessa criação
Também me pertence.
JLR

Mundo cão

Muitas vezes ouvia esta expressão pronunciada pelos meus avós. Qualquer situação injusta para alguém merecia que fossem aplicadas sem piedade estas duas palavras, «mundo cão». Sem ofensa para os verdadeiros cães, o amigo mais fiel do Homem.
Três notícias que circulam nos meios de comunicação social, fizeram também circular os meus neurónios mais incrédulos que procuro alimentar devotamente todos os dias. São estes que me fazem tomar de assombro com tanta coisa bonita que o mundo se não for cão, pode tantas vezes fazer sobressair. Mas também são esses tais neurónios que me fazem manter a incredulidade, a admiração que tantas vezes diz aquela palavra mágica que alivia o interior pasmado, porquê?
Primeira notícia: O militar que morreu durante o curso de comandos terá sido forçado a comer terra quando já estava em convulsões. A revelação foi feita por testemunhas e pela família de Hugo Abreu à RTP.
A família do militar acusa o exército de ocultar as agressões e privações de água e sono a que o jovem foi sujeito. A investigação é do programa Sexta às 9.
Tem alguma ponta por onde se pegue numa barbaridade destas? Então isto não é terrorismo? Não é uma tremenda desumanidade nas nossas barbas, nós que andamos tão rápidos a julgar os refugiados, os jihadistas e todos os fundamentalistas que este mundo faz crescer como cogumelos? – Não consigo entender que tenhamos gente que devia ser responsável e que se deixe comandar por pensamentos desta natureza. Um «mundo cão», que me perdoem os verdadeiros animais que se chamam de cães.
Segunda notícia: O Tribunal de Contas autorizou a compra de 167 viaturas táticas ligeiras para o Exército, num investimento de cerca de 60 milhões de euros, e cuja aquisição decorrerá através da agência de compras da NATO (NSPA).
Serão mesmo necessárias tantas viaturas para o exército? A termos necessidade hoje de nos defendermos contra ataques belicistas será com estas viaturas? Não seria mais prudente em tempos de crise e austeridade, comprar menos carros para o exército e reservar alguns milhões para a educação, que parece estar a necessitar de algum material para funcionar em condições? - Mais uma que não se percebe, srs. governantes... Aliás até se percebe, os lóbis que pressionam os governos a esquecerem as prioridades continuam bem vivos e firmes a fazerem o seu jogo em nome do lucro, mesmo que isso implique desviar as atenções das verdadeiras prioridades e do bem comum. Um «mundo cão», que à custa do empobrecimento da educação e da saúde da população, investe em brinquedos caros e quiçá desnecessários para os tempos em que vivemos.
Terceira notícia: A PayDiamond é a nova marca de um esquema centenário. Vem ao Funchal no próximo sábado mostrar «valor» e é promovida por gente que esteve ligada ao Telexfree. Após a escaldadela que muitos madeirenses levaram com a bronca do Telexfree, pensei que a coisa amainasse e que a lição tivesse surtido efeito. Qual quê. Nada disso.
Neste sábado está previsto um mega encontro numa unidade hoteleira do Funchal sobre uma outra rede, a PayDiamond. A campanha agressiva para este evento que tem sido feita, já em si é insultuosa e continua a demonstrar que por mais burlas que existam e que o rol dos burlados seja interminável, quando se trata de lucro fácil, a ganância toma conta da mente e do coração das pessoas. Sigam em frente e continuem a meter nas mãos dos profetas do el dourado que este mundo pare como formigas as vossas parcas economias.
As palavras doces e encantadoras trazem sempre água no bico e quem não desconfia é porque gosta de ser comido ou então não lhe custa nada as poupanças que amealha sabe Deus como. Um «mundo cão» que não aprende e que facilmente se engana com falsos profetas, basta que lhes prometam este mundo e o outro repleto de ouro ou diamantes. Qual a diferença de hoje para o tempo de Moisés quando desce da montanha e encontra todo o povo a adorar o bezerro de ouro? 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A provocação de Jesus

Domingo XXVI tempo comum. Um singelo comentário à missa do fim de semana. Pode servir para quem, vai habitualmente e não só...
Uma parábola. Duas figuras. Um rico e um pobre. A parábola do rico e de Lázaro. Ou ainda, e, porque não, «a parábola dos seis irmãos ricos». 
Para que serve a riqueza se não for para fazer o bem, para promover a vida e a felicidade? E quanto vale a pobreza se não for assumida com humildade e simplicidade de coração?
Esta parábola ensina claramente que Deus optou pelos mais pobres. A fortuna material não vale muito para o coração de Deus. Por isso, devemos desprezar os ricos e a riqueza? – A resposta só pode ser não! Porque todos podem assumir a radicalidade da pobreza, mesmo sendo ricos materialmente falando, basta que o coração manifeste os valores do reino de Deus. A pobreza que Deus aprecia não é a miséria, o não ter absolutamente nada para viver, mas o saber viver perante os bens de uma forma solidária e aberta à promoção da vida para todos.
Esta história é uma clara provocação. Jesus manifesta que a partilha da vida é um valor essencial do reino novo que Ele inaugura. Assim, recusar a vida partilhada, tem como fim a desgraça, isto é, a infelicidade que é a ausência total da graça de Deus. Neste sentido, encaramos a parábola do homem rico e do pobre Lázaro como um convite ao discernimento.
O rico do Evangelho, parece ser um homem carregado de todo o tipo de luxo. Não se compadece com a contenção, é um homem que esbanja luxo e requinte nas roupas finas e elegantes (púrpura e linho, que eram artigos muito caros e luxuosos importados da Fenícia e do Egipto). Faz banquetes diários com abundância de comidas e bebidas.
Porém, à porta deste homem senta-se um pobre, chamado Lázaro, é aqui o seu lugar de mendicidade. A sua situação é de total marginalidade, o seu corpo tem feridas graves que são lambidas pelos cães. É literalmente um mendigo, um faminto, um impuro que não tem onde cair morto. Diz o texto: «Bem desejava saciar-se do que caía da mesa do rico», isto é, desejava comer os pedaços de pão que eram atirados para debaixo da mesa, para serem recolhidos pelos cães.
Este pobre ferido na sua dignidade, um verdadeiro marginalizado e um excluído do prazer da vida abundante, encontra solidariedade em Deus. Este personagem é o único, em todas as parábolas, a ter nome, que significa «Deus ajuda». Deus optou decididamente por ele.
No entanto, a morte, é o caminho que nivela todos. Ninguém é mais ou menos diante da realidade da morte. A sorte da salvação de Deus é bem diferente para uns e para outros. Lázaro, é levado pelos anjos e é colocado junto de Abraão, está ao lado do grande amigo de Deus e tornou-se íntimo daquele que foi solidário com o mais fraco.
Não podemos pensar que afinal os ricos estão perdidos e que mais vale ser pobre ou miserável na vida do que ter alguns bens materiais. O texto não nos diz nada disso nem insinua tal barbaridade. Jesus, ensina-nos que é necessário discernimento, ou seja, a partilha dos bens leva à promoção da vida para todos. A ambição e o acumular egoísta gera morte. Por isso, é preciso saber discernir e optar pela partilha dos bens antes que seja tarde.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Hoje pensei na paz contra toda a violência

Hoje pensei na paz e associei-me em oração pela paz no mundo ao encontro pela paz que de decorreu em Assis, Itália entre os vários líderes religiosos. Gostei muito de ver e ouvir o Papa Francisco proclamar: "Santa é a paz, a guerra nunca é santa". Pois, como pode ser santa uma realidade tão profundamente diabólica...

Palavras e sinais violentos,
Todos os dias acontecem,
Abatidos mortos são imensos
Os corações não amolecem!

Que ao menos a mão, acariciando
Outro rosto que por ela passe,
Sinta que o calor brando,
A paz da alma a exaltasse!

A vida é nossa o mundo também
Venha a toda a gente a vontade,
De ser contra a guerra sem desdém,
O futuro urge antes que seja tarde!
JLR

terça-feira, 20 de setembro de 2016

O sem abrigo também é gente como a gente

Todas as noites são um suplício e ainda mais se forem as noites outonais ou as do inverno, que sempre são as piores de passar no olho da rua. O dia até se passa bem, o movimento faz esquecer esta condição de sem teto e sempre aparecem almas caridosas que partilham moedas, pão e comida. Quando isto não acontece vamos lá até às portas das igrejas da cidade a ver se os fiéis reservaram alguma moedinha para colocar sobre estas mãos gretadas e sujas. Nem sempre a sorte derrete aqueles corações, mas em tantos que por ali entram e saem, algum no fim das contas sempre abre o coração à bolsa. O dia até se passa bem. Há movimento. Há luz. Há pessoas. Há de tudo um pouco que ainda ninguém conseguiu que quando vêm não fossem para todos.
Pior é sentir que a horas passam e a noite vem aí implacável de rajada como se precisamos de sofrer ainda mais um castigo todos os dias por causa da fatalidade do pedaço de vida que o criador reservou para estes vencidos da vida. Mas, aceitam e esquecem essa tal má sorte. Não serve para anda andar para aí revoltoso contra um nada que não responde nem menos se lhe ouvi alguma vez um ai que fosse. Daqueles que desse falam não creio numa palavra deles, são todos uns mentirosos, desabafa quem não tem nada a perder, porque já perdeu tudo.
Mas, apesar tudo, sem revoltas e sem rancores vamos todos os dias e todas as noites fazendo pela vida. A pedra que nos acolhe sempre está pronta e disponível para receber este corpo mais uma vez deitado sobre os cartões e os trapos que outro desamparado ainda não se lembrou de surripiar.
O teto é amplo e o terreiro é enorme. Uma rua inteira só para três e um céu do tamanho do infinito para cada um, é o teto do «apartamento» que me permitiram escolher. E reparem, por favor, como este teto tantas vezes se enfeita com estrelas cintilantes que nas noites frias permitem algum sorriso.
Enfim, cada dia e cada noite de um sem-abrigo são uma história sempre nova. Não há rotinas. O dia é uma luta por comida, alguma roupa e bebida (vinho de pacote, porque custa menos que um litro de leite). A noite cai vertiginosa e inquietante, porque não sabe se virá chuva, embora ela se adivinhe nas noites de inverno, frio virá sempre seguramente, a pedra-cama também não está garantida, pode ser que outro tenha chegado primeiro e roubado o seu lugar.
Esta é a vida de muitos desafortunados da vida que as estrelas iluminam carinhosamente, mas tantos com responsabilidade sobre os demais, passam indiferente como se uma pessoa alguma vez pudesse ser lixo.  

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Uma brasa que queima a alma

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre nunca prejudicando ninguém.
Não disfarço a compaixão
que me provoca a tua raiva
ainda mais se sei que foi fruto do bem
que fiz em nome da misericórdia.
Aceito serenamente
e engulo as tuas provocações,
o sangue a ferver-te dentro do corpo hirto
coluna de fogo incandescente do ódio,
e poder espumado pelo ciúme.
És terreno baldio solitário
que cavo, rego e planto pela paz,
não crio confusão, não faço escândalo
porque passada esta noite escura
vou te mostrar como foram inúteis
todas as palavras azedas aprisionadas,
reflexo da brasa que te queima a alma.
JLR

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Deus e o dinheiro

Domingo XXV tempo comum. Pode servir para quem vai à missa ao domingo e não só...
Os negócios do dia a dia muitas vezes são feitos ao abrigo da mentira e da falsidade para que se consiga os melhores resultados em bens materiais. A desonestidade é uma constante na vida da humanidade. O mundo inteiro seria mais feliz se a honestidade iluminasse as palavras e as letras quando os negócios ou as transações materiais acontecem.
É por causa desta constatação que Jesus conta-nos uma parábola, para ensinar que é mais importante para a felicidade e para a salvação de todos procurarmos caminhos que nos centrem na fidelidade e na honestidade. Trata-se da parábola do administrador infiel que foi chamado à atenção pelo seu senhor, mas que se safou muito bem e mereceu por isso um grande elogio, porque desonestamente procedeu com astúcia. Do ponto de vista humano e da lógica deste mundo, está muito bem a sua atitude, mas do ponto de vista de Deus não tem qualquer valor proceder com desonestidade. Para Deus o importante é descobrir nas coisas pequenas ou grandes o sentido da fidelidade, da honestidade e da verdade.
Muitas vezes pensamos que as pessoas mais importantes, com cargos de elevada responsabilidade devem ser os mais honestos e os mais fieis. Mas segundo a palavra que escutamos neste evangelho, todos, devem procurar viver a honestidade de uma forma radical. Ninguém deve sentir que pode, por ser mais humilde ou por não ter tarefas de muita responsabilidade, fugir às regras e ludibriar os outros com a mentira e a desonestidade. A palavra de Jesus confirma que esta maneira de pensar é um engano puro: «Quem é fiel nas coisas pequenas também é fiel nas grandes; e quem é injusto nas coisas pequenas, também é injusto nas grandes». Diante desta clarividência não pode haver qualquer tipo de pretensão.
Não é possível servir a dois senhores, quando se trata de Deus e do dinheiro. Jesus mostra que muitas vezes o dinheiro em vez de ser um instrumento de trabalho e de base ao serviço da vida, pode tornar-se um «senhor» muito idolatrado. De facto, é bem verdade que assim é. A nossa sociedade está cheia de gente que não vê outra coisa à sua frente senão o dinheiro. São os escravos do vil metal. Não são capazes de perceber que a felicidade não está em ter muita fortuna material, mas em servir-se dos bens da terra para investir na promoção da vida para todos, como garantia de futuro seguro para a salvação de Deus. E esta é a maior felicidade que se pode ter. Procurá-la é dever de cada pessoa.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Que mais nos irá acontecer…

Já não sei o que pensar perante tanta incompetência e tanta trapalhada em todos os quadrantes da sociedade madeirense. Ora vejamos.
1. Estamos a ser governados ou, melhor, desgovernados, por um desgoverno que destrói património secular como se nada fosse. «Quem a ferro mata, a ferro morre».
2. Há uma Cáritas que se desviou do seu verdadeiro espírito, organismo absolutamente ligado à Igreja, Diocese do Funchal, para ser um organismo do desgoverno Regional (lembram-se?), mas como o desgoverno já não está tão interessado que a Cáritas continue a ser um dos seus braços, porque tem em vista outras instâncias, outros lóbis e outros tachistas da caridade, desviou-se desta Cáritas. Esta por sua vez, agora prova o veneno amargo da traição por se ter desviado do seu verdadeiro espírito e do seu «dono». «Deus não castiga nem com pau nem com pedra, mas com o seu divino poder».
3. As trapalhadas gerais na educação, na saúde, no desrespeito pelo nosso património secular, a caridade envolta no maior descrédito e a contribuir para a péssima imagem da Igreja da Madeira, são situações demasiado preocupantes e levam-nos à conclusão que estamos perante um bando de incompetentes e inábeis à frente dos organismos que a sociedade madeirense precisa para o seu funcionamento. «Se as fezes (m… para os mais entendidos popularmente falando) valessem dinheiro, os pobres nasciam sem ânus».
4. Tudo isto resulta que não aprendemos nada com as tragédias, com os maus exemplos, com as asneiras que perseguem a Madeira há tanto tempo. «Não é o tempo que abana as canas, mas o vento».
5. Precisamos de tempos novos onde se possa renovar a esperança. Não sei como isso será possível, apenas sei que não pode de forma nenhuma ser com os actuais protagonistas a todos os níveis, tanto político e também ao nível das lideranças religiosas. «A esperança é a última coisa a morrer».
6. Que Deus nos ajude. Estamos bem precisados, porque não pode valer tudo, «até tirar olhos», como acontece neste fatídico tempo em que vivemos.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Porque será tão difícil perdoar?

Obviamente que para uns é mais fácil do que para outros. Gosto de pessoas que repentinamente parece que vão destruir o mundo todo e matar a humanidade inteira, mas passados poucos segundos, tornam-se os seres mais delicados e dóceis que há na face da terra.
Mas, outros há que pouco falam e não esperneiam nada. Ficam-se manhosamente em silêncio, mas mordem, provocam e roem frequentemente até não poderem mais. Destes sempre se pode ouvir «cheguei primeiro não me falou, por isso, não vou ser eu a ir ao encontro para me rebaixar, então era isso...». Estas são pessoas das mais perigosas que existem.
Tantas vezes é preciso uma desculpa para perdoar, é preciso uma humilhação do outro, um rebaixamento como frequentemente se diz. Nada é mais bonito quando o perdão acontece sem condições e quando todos saem por cima sem que ninguém tenha sido humilhado ou rebaixado na sua dignidade. Tanta guerra se evitaria se existissem muitos a percorrerem esta vereda da sensatez do amor que conduz ao perdão.
Quando o perdão não acontece, dificilmente esquecemos, por isso, tantas vezes quando ouvimos «perdoo mas não esqueço», é sinal que ainda não está perdoado. Porque quem perdoa não tem necessidade de dizer, nem se lembrará de dizer esta frase «perdoo, mas não esqueço». Porque se não esquece não tarda nada estará no caminho do ressentimento, que leva a um sítio chamado amargura e a outro chamado de tristeza. As pessoas que não perdoam e que fazem questão de não perdoar convictamente são das mais amargas e tristes que se pode encontrar. Logo depois sem se aperceberem estarão no abismo do ressentimento, do rancor, da raiva e do ódio. Estas são bombas atómicas que reduzem a grandes desertos inférteis o interior das pessoas.
Porque é tão difícil perdoar? – Porque não esquecemos facilmente as coisas, especialmente, se forem negativas. As coisas positivas e boas facilmente se esquecem e pouco ou nada conta nos momentos cruciais, mas se forem experiências negativas causadas pelas outras pessoas, como pesam na mente e no coração de quem passou por elas! Por isso, todos acreditam que perdoar é uma forma de humilhação perante os outros e é difícil acreditar que é o gesto de amor mais libertador que existe no mundo.
«Dar a volta» às coisas negativas, ajuda sobremaneira a deixar para trás a carga das emoções negativas que tanto fizeram sofrer, mas se as alimentamos ainda mais, continuarão a multiplicar o sofrimento e como sabemos o sofrimento gera cada vez mais sofrimento se encontra terreno propício para tal.
Não esperemos por nada para perdoar nem condições nem humilhações de ninguém, porque não pode haver desculpas para que todos os dias possamos transformar o negativo em positivo. 

sábado, 10 de setembro de 2016

Voltar acreditar

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre: Nunca prejudicar ninguém.
Voltar depois de juntar os cacos
Dos dias sem ter ouvido um grito
Apenas silêncio e encontro.
Porque voltei,
Terá momentos que não duvido
E terá muitos dias felizes
Não fora estar seguro desta luz:
Sempre haverá pessoas em quem acredito.
JLR