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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Os entendidos sobre a lei

Ainda está fresca a frase do Papa Francisco sobre a lei e sobre os que vivem apegados à lei como uma lapa, não para a aplicar a si mesmos, mas sobre os outros, mesmo que isso tantas vezes resulte em hipocrisia e fardos pesados. Disse assim: «Por trás da rigidez há algo escondido na vida de uma pessoa. A rigidez não é um dom de Deus. A mansidão, sim; a bondade, sim; a benevolência, sim; o perdão, sim. Mas a rigidez não! Por trás da rigidez há sempre algo escondido, em tantos casos uma vida dupla; mas há também algo de doentio. Quanto sofrem os rígidos: quando são sinceros e se percebem isso, sofrem! Porque não conseguem ter a liberdade dos filhos de Deus; não sabem como se caminha na Lei do Senhor e são beatos. E sofrem tanto! Parecem bons, porque seguem a Lei; mas por trás tem alguma coisa que não os torna bons: ou são maus, hipócritas ou são doentes. Sofrem!»
O mais importante do ser cristão ou outra forma qualquer de religiosidade passa sempre pela prática livre e deve conduzir sempre à libertação. Religião que oprima não serve para nada. É lixo.
Uma das histórias judaicas que se conta é que um dia, um homem pagão veio ao encontro de Schammai e pediu para ser convertido: «Converter-me na condição de que me ensinas toda a Torá, enquanto eu estou apoiado sobre um só pé», Schammai empurrou-o para fora com a régua na mão. Mas com mais paciência veio o mestre Hillel e que lhe disse: «O que não desejas para ti não o faças aos outros. Esta é a Torá, o resto é comentário. Vai e aprende».
A novidade cristã não está longe desta mesma ideia.
Os fariseus reuniram-se quando souberam que Jesus tinha feito calar saduceus. E um deles, que era mestre da Lei, querendo conseguir alguma prova contra Jesus, perguntou:
- Mestre, qual é o mais importante de todos os mandamentos da Lei? Jesus respondeu:
- «Ame o Senhor, seu Deus, com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente» (Mc 12, 28-32). Este é o maior mandamento e o mais importante. E o segundo mais importante é parecido com o primeiro: «Ame os outros como te amas a ti mesmo». Toda a Lei de Moisés e os ensinamentos dos Profetas baseiam-se nestes dois mandamentos.
Jesus diz-nos que o primeiro mandamento é amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com toda a nossa mente, e é este amor ao Pai  que nos levará ao segundo mandamento de amar os outros como a nós mesmos. É impossível amar os outros se não me amo e não me aceito como sou, assim, o meu amor a Deus é mentiroso se não tenho amor pelos demais e a mim mesmo. Não posso dizer que sigo a Deus se odeio e desejo o que não é bom ao outro. Não posso dizer que sou enamorado por Deus se eu olho para a minha vida e não sou capaz de me aceitar com todas as minhas debilidades.
Este amor que Jesus nos chama a manifestar é um amor dinâmico que amplia os meus horizontes e nos leva a entender que não somos uma ilha e que dependemos do outro para sermos felizes, para nos desenvolvermos como pessoas e que ser Cristão é ser a expressão máxima do amor de Deus «assim como Jesus foi. Basta sempre ir por aqui: “Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo; se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório, assim como se fosse uma parte de seus amigos ou mesmo sua; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti». (Thomas Merton, Homem algum é uma ilha).

sábado, 29 de outubro de 2016

A memória que é futuro e pão

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre, nunca prejudicando ninguém!
ficou um vazio podre,
que o cheiro da injustiça verteu
naquele corpo inseguro e imóvel
nas tábuas do pensamento,
porque chegou o seu momento último
e por isso foi expulso da vida.

tinha chegado a hora da partida
sem regresso e sem tempo,
era a imensidão eterna do cosmos
divino naquela Páscoa ressuscitada,
que na mão de cada Homem acontece, se a vontade
o fizer recolher cereal, nos campos divinos
do amor apaixonado pelas causas da vida.

nunca morrem as ações que venham
da coragem contra o medo
de se perder a memória,
nada é mais fatal para dignidade
e a esperança de um mundo novo,
se não vingar o reino do encontro
das pessoas renovadas dia a dia,
porque sempre fiéis a si próprias...
e sem memória não há futuro,
nem muito menos o pão.

há uma efetiva liberdade
cada vez que um sorriso testemunha,
que fomos capazes de reconhecer nos outros
os nossos próprios defeitos…
nada será melhor para a paz no mundo.
JLR

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A João Lobo Antunes que entrou no mistério

Esta entrevista é muito bonita. O mistério é o que nos abraça e isso basta... Paz à sua alma. Não deixemos de seguir o seu exemplo. «Quando há qualquer coisa que nos diz, vai... Quando ouvir a voz para fazer, faz...» Eis um hino à vida e ao sentido da missão em que deve estar convertido o que fazemos neste mundo. nenhuma forma de morte vencerá vencerá a vida, porque o mistério é a imensidão que vencerá todas as limitações. Uma entrevista imperdível e que se deve guardar religiosamente.

Pensamentos emblemáticos. Contra todo o esquecimento… Para serem pensados, rezados, seguidos e vividos...
João Lobo Antunes: 11 reflexões sobre a vida, a doença e a morte
27/10/2016, In Observador

A vontade de viver “uns anos mais”
Quando olho para a minha vida, diria que o futuro sempre me aconteceu, e eu não dei por isso. Nunca tive uma meta (…) Portanto, quando dava por isso, o futuro já cá estava. De maneira que estou tranquilo. Queria ter uns anos mais, queria ter uns anos mais.”
O medo de perder a memória
No balanço entre as coisas que recordo e as que procuro esquecer ficam sobretudo aquelas em que me afastei de mim próprio, da minha razão de ser. Em que não fui fiel a mim próprio. Essas são irreprimíveis. Tive ocasião de ser eu próprio operário dessa transformação e de perceber como a doença trata a memória das pessoas. As pessoas sem memória são navegadores sem bússola. É das maldições piores que existem.”
Treinado para resolver problemas
Um primeiro-ministro inglês do princípio de século XX dizia que a democracia era o governo pelo diálogo, mas para que funcionasse era necessário que se calassem. O diálogo não pode perpetuar-se sempre, a certa altura é necessário chegar a conclusões. Pessoas como eu, que foram treinadas para resolver problemas, sabem que há uma altura em que é necessário levar as pessoas a fecharem conversas.”
A transformação pela doença
Há anos escrevi que não se pode dizer com os olhos aquilo que se nega com a palavra. Diria que foi a experiência da doença que me tornou mais sensível. Como se tivesse esticado a corda do violino e esta vibrasse ao menor toque, com maior intensidade e frequência. Por isso, mais do que uma mudança sofri uma evolução, que introduziu outra doçura na relação com as pessoas.”
Benevolente, mas não bondoso
A benevolência surge da capacidade de reconhecer nos outros os nossos defeitos. Da irmandade secreta entre as faltas que os outros cometem e as que cometemos. Mas tem limites. Há coisas com que já não sou assim tão tolerante. Nomeadamente, algumas falhas de caráter. Não que isto tenha mérito moral — não tem nenhum.”
Uma vida entre batalhas vencidas e perdidas
Tenho refletido muito sobre o que foi a minha vida e diria que se houve guerra foi vivida com leveza. Perdi muitas batalhas, como médico e cirurgião. Mas ganhei mais do que perdi. Devo dizer que sempre com uma estratégia cautelosa. Nunca me meti numa guerra que não achasse que tinha possibilidade de vencer. Ou seja, fui sempre pragmático, apesar dos meus devaneios literários ou filosóficos. E tive muitas quando voltei a Portugal.”
A doença como “implacável igualizador”
De facto, o meu hospital era um lugar para pessoas importantes, e o reconhecimento do estatuto de privilégio de cada um era um passo prévio e indispensável na relação que se estabelecia. Para o doente, isto era essencialmente um mecanismo de defesa, um grito de apelo adicional, a reclamação da atenção exclusiva, o que não surpreende, pois todos os doentes, sem excepção, se encontram no estado que alguém descreveu eloquentemente como de ‘wounded humanity’. Mas, no fundo, a doença é um implacável igualizador e rise do berço e da fortuna”.
Obra Ouvir com outros olhos (Gradiva) – 2015
O balanço final
A doença convida ao exame da vida, provavelmente a única circunstância em que chegamos próximo da análise lúcida do caminho percorrido. Então regressam à cena os actores esquecidos da nossa biografia. Voltamos a viver os momentos em que subimos mais alto do que alguma vez aspirámos, ou descemos àquela profundidade em que a vergonha nos perdera. Ouvimos novamente as palavras que deveríamos ter contido ou então, pelo contrário, as que ficaram por dizer. Contabilizamos o balanço final e escrevemos, com um sorriso e um travo de amargura, o último currículo.”
Obra Ouvir com outros olhos (Gradiva) – 2015
A rejeição da comiseração piedosa
Prefiro a compaixão ontológica, de bicho para bicho, um sentimento cuja essencial nobreza tem uma raiz biológica que só agora se vai desvendando à comiseração piedosa, um sentimento mais barato. Esta é a minha maneira de ser doente.”
Obra Ouvir com outros olhos (Gradiva) – 2015
A traição do corpo e o refúgio na mitologia da adolescência
Por isso, quando o corpo me traiu, o meu refúgio foi adoptar a impassibilidade do coronel inglês de calças de caqui e pingalim, cuja imagem se gravara, indelével, quando ainda adolescente vi pela primeira vez David Niven na Ponte do Rio Kwai.
Obra Ouvir com outros olhos (Gradiva) – 2015
O futuro da medicina
Não sei o que nos espera, mas sei o que me preocupa: é que a medicina, empolgada pela ciência, seduzida pela tecnologia e atordoada pela burocracia, apague a sua face humana e ignore a individualidade única de cada pessoa que sofre, pois embora se inventem cada vez mais modos de tratar, não se descobriu ainda a forma de aliviar o sofrimento sem empatia ou compaixão.”
Obra Ouvir com outros olhos (Gradiva) – 2015

Mudar de vida sempre que seja necessário

Comentário para a missa deste fim de semana, domingo XXXI tempo comum. Pode servir para quem habitualmente vai à igreja, mas não só... 
Quando conheceu Jesus, foi o que fez Zaqueu. Afinal, fez o que reza a canção interpeladora de os «Humanos»: «Muda de vida se tu não vives satisfeito / Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar / Muda de vida, não deves viver contrafeito / Muda de vida se há vida em ti a latejar».
O coração de Jesus move-se pelo amor misericordioso, que constantemente faz apelo à conversão e à mudança de atitude perante os bens materiais. A resposta de Zaqueu, vibrante de alegria, expressa que a proposta do amor é forte e faz milagres em todos os corações que O acolhem de verdade.
A disponibilidade para o acolhimento do amor nem sempre se faz realidade como, eventualmente, todos nós desejamos. A multidão de coisas que a vida nos proporciona, impede-nos a visão daquilo que é essencial e nem sempre haverá uma árvore por perto que nos permita subir para alcançarmos melhor visibilidade sobre aquilo que é fundamental para a vida de cada um. O medo da novidade e do diferente é sempre cerceador de muita iniciativa, de muita opção e de muita criatividade. Libertemo-nos disso e avancemos, «o caminho faz-se caminhando», como diz o poeta António Machado.
Pensemos no seguinte, por vezes, ainda são muitas as coisas que se aglomeram à nossa volta. Elas são a constante frequência para o egoísmo, que não nos permite ver o verdadeiro horizonte revelado por Jesus, que implica uma total entrega à causa do amor pelos outros. Não são raras as vezes, que é a soberba que nos faz engrandecer perante os bens materiais e perante as nossas qualidades pessoais. Quando a sim é prejudicamos a vida toda e vida de todos.
Frequentemente, somos atacados pela incapacidade para encarar o que se é, o que se tem e o que somos aptos a fazer como serviço para os outros. Esta forma eficaz de ser Homem cristão ainda está muito aquém do que seria possível. A resposta ao chamamento faz-se com alegria. E o desejo de mudar de vida é o sinal consequente da descoberta da partilha proposta pelo Reino de Cristo. Por isso, exultemos todos também porque o mesmo Cristo quer hospedar-se na casa de todos os que o procuram com sinceridade de coração.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Os dois prestidigitadores do momento

Um está reformado, o outro é o antigo amigo, depois o traidor e agora pelos sinais outra vez o amigo. Nada mais lindo o retomar da amizade quando resulta da reconciliação.
Foto Rui Silva/Aspress in Dnotícias 
Quanto ao reformado, todos nós sabemos que obrou pela Madeira dentro como ninguém em 500 anos de vilões e viloas a fazerem esta terra agachados ao mando e desmando que os «donos disto tudo» foram providenciando à medida que o khrónos foi fazendo a triste história deste povo madeirense. Mas também todos nós sabemos as patifarias que foram feitas nos últimos anos do seu reinado e das engenharias que foram necessárias levar acabo para fazer a bruta de uma dívida que empobrece a olhos bem vistos o povo da Madeira e hipotecou o futuro desta terra para uns bons anos e umas boas gerações. Algum decoro e seriedade deviam imperar. Porém, o descaramento não tem medida, tudo funciona como se nada fosse e como se não existissem vítimas da loucura do betão.
Se o sr. Dr. Alberto João tivesse sido eclesiástico, o que faltou pouco, por ter sido um protegido de muitos eclesiásticos que na sua pastoral foram, lhe estendendo o tapete vermelho como se fosse um David dos tempos modernos escolhido pelo anjo enviado por Deus a este mundo. Um favor oportuno para ambas as partes, pagos com palmas, votos e subsídios, foi a prática religiosa e cultural desta vida, uma mão lava a outra, sempre se disse.
Mas, o que quero dizer é que se o sr. Dr. Alberto João tivesse chegado lá, à hierarquia eclesiástica de facto, hoje seria um emérito. Título, aliás, merecido se não fosse pelo brilhantismo da sua governação ao menos pela insistência e coerência como demonstra esta frase: «de uma vez por todas a questão da dívida pública porque é uma dívida histórica do Estado à Região após a extorsão durante cinco séculos». Ainda há alguém que acredita nisto? A par desta coisa quinhentista continua a dizer trocas e baldrocas sobre o Estado Social, que ele e quem veio a seguir tanto contribuem para o destruir.  
O segundo palestrante, do pomposo 1º encontro intergeracional, é o governante atual, o sr. Dr. Albuquerque. Se o homem fosse eclesiástico seria designado de «residencial». Também seria merecido, embora a residência dos governantes mude tantas vezes de sítio, a pretexto das imensas viagens que fazem e que tantos benefícios trazem a alguns madeirenses, refiro-me aos que as fazem, claro!
O nosso atual «residencial», falou de autonomia e democracia política para baixo, social democracia para cima e para o lado o Estado Social, feito unicamente pela direita... A prática demonstra por si mesma que tudo isto é um panegírico de circunstância que não passa de conversa.
Tanta coisa em comum que nos deixa boquiabertos. Os palestrantes são acérrimos defensores destas coisas aqui referidas em comum acordo, tanto que até olham na mesma direção o passado, o presente e o futuro. Mas, só nós é que sabemos, uma boa porção dos cidadãos, que eles vão ficar ambos para já, no bom pedaço da história democrática da Madeira, como os principais responsáveis pela destruição (ou crise, para não ser tão duro) desses valores. Tudo o resto é conversa fiada.  
Ainda o mais interessante do pomposo 1º encontro intergeracional Social Democrata, foi termos visto que a beleza da reconciliação faz milagres e está visto que o lugar onde se realizou tal abraço da paz, para além de estar conotado com a loucura, também se revela como local propício ao milagre da loucura do amor. Não fosse esta casa, uma casa religiosa, feita por frades e clérigos, que se entregaram ao amor pelos mais pobres dos pobres, os doentes mentais.
Venham mais encontros destes onde reine a paz intergeracional que tanto precisamos. Porém, já que mexeram até à saciedade em futuro, guardemos em jubilosa esperança para vermos se o retomar da amizade hoje não será um mau presságio para a política das facas enfiadas nas costas. Lembram-se? 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Três Lázaros enxotados da porta da Secretaria da Agricultura

O sr. Secretário Regional da Agricultura está mandatado por quem de direito para governar a Madeira no que à agricultura diz respeito, compete-lhe gerir o combate às pragas, cada vez mais abundantes e variadas a devastar as frutas e árvores da nossa terra. Mas não pode combater as pessoas que o incomodam na passagem como se fossem pragas a abater.
Venho aqui manifestar o meu repúdio pela medida drástica tomada pela secretaria Regional da Agricultura, que colocou uma porta tipo tapume de mau gosto como se pode ver na foto aqui estampada neste texto para evitar que possam dormir os habituais Lázaros que ali se aconchegavam e dormiam todas as noites no pátio da entrada da Secretaria.
Nesta entrada da Secretaria da Agricultura dormiam há muito tempo três pessoas, três Lázaros dos nossos tempos que foram escorraçados dali como se fossem lixo. Mas como este tipo de lixo tem um corpo que se move vai aparecer seguramente noutro sítio. Assim, ficam tranquilos os senhores bem vestidos que sobem e descem todos os dias o patamar do pátio da entrada da Secretaria da Agricultura onde ganham o seu ganha pão, para terem em casa todos os dias o que estes pobres Lázaros dos tempos de hoje não têm, porque a vida vou-lhes madrasta e a sorte não passou por eles.
Sr. Secretário da Agricultura estas criaturas que se abrigavam à sua porta têm nome, são pessoas e não bichos para serem despejados ou eliminados como são eliminados bicharocos das pragas que estão a assolar a agricultura da madeira e que os senhores engravatados desta Secretaria estão habituados a lidar. As cabeças que ali entram e saem todos os dias sabiam bem da presença destas três pessoas que se abrigavam ali todas as noites. Provavelmente até sabem que estas pessoas têm uma história de vida dramática, cheia de sofrimento e de desgraças que não se quer para ninguém. São pessoas, que até podia nomear aqui, mas sendo necessário reservar-lhes a privacidade, não o faço. Foram despejados dali sem alternativa, enxotados como se de reles bicharocos nocivos se tratassem. Agora até ver estão no pátio do Banco Santander Tota.
O sr. Secretário antes de fechar radicalmente o pátio da sua porta devia pensar um pouco naquelas três pessoas, devia vir ao seu encontro falar-lhes e garantir-lhes alternativa. É governante, faz parte do governo daqueles cidadãos ou pensa que só existe para os engomadinhos e os bem falantes?
Nada me ensinou mais sobre a cidade do que o livro de Eça de Queirós, «A Cidade E As Serras», onde se aprende o seguinte: «A tranquilidade (bem tão alto que Deus com ele recompensa os Santos) onde está, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pela fugidia rodela de ouro! Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de seres que tumultuam na arquejante ocupação de ‘desejar’ – e que, nunca fartando o desejo, incessantemente padecem de desilusão, desesperança ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se desumanizam!» (pág. 77-78).
Mas, continua por ai abaixo a descrever magistralmente todos os malefícios da Cidade, que de entre tantos momentos extraordinários que nos ajudam a perceber como é a cidade no seu pior se nela houver meia dúzia que se auto intitulam «os donos disto tudo». Destaco mais esta ocasião onde diz assim: «Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Inteligência, porque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a extravagância» (pág. 78). Os governantes muita razão estão a dar a esta constatação.
Porém, face à medida ratex levada a efeito pela nossa Secretaria da Agricultura contra três cidadãos desamparados, lembro-me ainda do Evangelho do pobre Lázaro que diz assim: «Ora, havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente. Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele; e desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas. E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e morreu também o rico, e foi sepultado. E no inferno, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio. E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nestas chamas. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em vida, e Lázaro somente os males; e agora este é consolado e tu és atormentado. E, além disso, há um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá passar para cá. E disse ele: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento. Disse-lhe Abraão: Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. E disse ele: Não, pai Abraão; mas, se algum dentre os mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam. Porém, Abraão disse-lhe: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite» (Lucas 16, 9-31).
Voltando «A Cidade E As Serras» de Eça de Queiroz, ficou dito a determinado momento: «Na cidade [para o homem] findou a sua liberdade moral: cada manhã ela lhe impõe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependência: pobre e subalterno, a sua vida é um constante solicitar, adular, vergar, rastejar, aturar… a Sociedade logo o enreda em tradições, preceitos, etiquetas, cerimónias, praxes, ritos, serviços mais disciplinares que os de um cárcere ou de um quartel…» (pág. 77).
Portanto, sr. Secretário da Agricultura e todos os que o rodeiam, que fique claro, pessoas não são pragas… Pode ainda escudar-se que não é da sua competência? – Muito bem. Faça valer junto dos seus colegas esta urgência em que mergulhou a nossa cidade, onde deambulam noite e dia excluídos sem pão e sem abrigo, que merecem respeito, dignidade e atenção. Por isso, entre nós todos os dias são violados gravemente os direitos humanos e os principais responsáveis por essa violação são os governantes que temos. 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

O fastidioso Festival de Órgão da Madeira

O festival de Órgão da Madeira vai morrer por si mesmo. Já vi maior participação. As igrejas onde habitualmente se realizam os concertos, este ano não têm apresentado a afluência de outros anos. Estão sempre compostas. Mas de longe têm estado a rebentar pelas costuras como em alguns anos no passado.
O órgão é um instrumento interessante e faz ecoar uma musicalidade que nos eleva e nos convida à introspeção. Mas, é um instrumento repetitivo que se for muito tempo cansa. A música é muito igual, melódica, seguramente, mas algumas vezes agressiva, sobretudo, quando os tubos graves se metem em ação ou quando a música sobe o volume sobretudo nas partes finais quando terminam as peças, pelo menos isso, senão não saberíamos quando termina a peça. Não são raros os momentos em que as palmas rebentam e a música ainda não terminou.
Deve ser por isso que este ano, o Festival de órgão, esteja a ter muitos outros instrumentos convidados, Orquestra Clássica da Madeira, barítono, Coro de Câmara da Madeira e Corneto. Por isso, eis onde se pretende chegar. O órgão é um instrumento que fica bem, muito bem dentro da liturgia, cumprindo o seu dever nos momentos determinados, fora disso ele perde o seu valor, o seu contexto. Por isso, torna-se fastidioso, monótono e muito igual.
Já estou a ver o filme que possa vir daqui. Alguns que nunca põem os pés na igreja em mais nenhum dia do ano, mas que não falham um concerto de órgão, dirão cobras e lagartos de mim e virão para aí dizer que na ocasião dos concertos descobrem o fundo do mundo e o outro mundo, que se encontram com o transcendente e que até contam estrelas, que os santos lhes falam e os anjos transmitem-lhes mensagens importantes. Deixem-se de coisas que o azeite está caro. Digo, sinceramente, nos dois concertos que assisti do princípio ao fim por duas ou três vezes andei a boiar para um lado e para outro cheio de sono.
Este ano já assisti a dois concertos do festival 2016, o de abertura que achei interessante, até porque o organista assim exigia, o concerto de sábado na Sé com a Orquestra Clássica da Madeira, que achei confuso e que me desapontou bastante, praticamente não me dei conta do toque do Órgão, só apenas quando ele tocou uma peça a solo. Para ontem (25/10) tinha também planeado assistir ao concerto na Igreja do Colégio, aliás, a única igreja que temos na Madeira que reúne todas as condições para este tipo de eventos.
O programa de ontem convidava, dois órgãos em simultâneo ou alternados e juntamente com o Coro de Câmara da Madeira. Sai logo que ouvi duas ou três peças. Estava de pé, por culpa minha que cheguei mesmo em cima da hora e todos os lugares sentados estavam ocupados, mas o pior até não foi isso, o som de um dos órgãos, não sei se o órgão do coro alto ou o outro que está na primeira capela lateral à direita quem entra a contar da capela mor para fora (num sítio que não fica bem e destoa do conjunto da igreja e esconde um dos altares laterais e uma grande parte desta primeira capela) ecoava um som agressivo, sempre igual, fastioso. Por isso, porta fora comigo.
O Festival de Órgão vai morrendo assim, por estas razões e se não fosse a pipa de massa que a Direção Regional de Cultura (DRAC) reserva para isto já tinha morrido de vez e o também não descurar o facto de as entradas serem gratuitas, porque quando assim é o público adere sempre.
Resumindo e concluindo. Deixem os órgãos em paz e que sejam utilizados no seu contexto próprio, com conta peso e medida, ao menos não dá sono e continua a cumprir a missão que lhe está destinada, embelezar a liturgia da Igreja.

A política e a economia ao serviço da vida

A cruzada anti Papa Francisco dirá: «Mas que raio de Francisco, Papa, sempre a se meter na política e na economia, assuntos que não percebe nada e que não lhe diz respeito nenhum»... - Tomem para aprenderem a fazer da prática religiosa vida concreta para a humanidade concreta deste mundo... Twuíte do Papa Francisco publicado hoje dia 25 outubro 2016: «Hoje, mais do que nunca, precisamos que a política e a economia se coloquem ao serviço da vida».

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

como o lírio entre os espinhos

Fez-me bem ouvir isto...
(Cant 2,1ss; Mt 6,28)

Na madruga começavas cada dia na certeza
de só os pobres serem a Tua riqueza.
Não era o sol que mais teus dias clareava
porque a ferida que tratavas muito mais te alumiava.

Foste mulher em cuja boca o sim não cessa
e sempre amaste a aventura da surpresa e da promessa.
Tu foste a apaixonada por quem não tem nada
e te fizeste irmã de quem vai só na caminhada.

Tu cultivaste os lírios nos pântanos onde a vida se perdeu
e na face dos charcos cintilaram reflexos do céu.
Olhai os lírios, disse-te Jesus, e não viste mais nada.
Lírios os viste em monte e vale é pela estrada.

Nunca ninguém olhou tão puramente os rostos engelhados,
em que tu vias faces de crucificados.
Teu coração ardia pelos pobres em labaredas de paixão,
e eras ditosa quando lhes davas o teu pão.

Ias o teu rosário desfiando por teus passos
sem nunca te deterem teus grandes cansaços.
Ofereceste aos inimigos o teu cândido sorriso
e ele acendeu no rosto teus clarões do paraíso.

Nunca nenhum inverno resfriou teu coração
e davas sombras ao nu que o sol queimava no verão.
Eram imaculadas e fecundas as tuas palavras
e pelos campos ias pobrezinha abençoando as lavras.

O pão multiplicava-se nas tuas mãos abençoadoras
e eras a atenta mãe dos pobres a todas as horas.
Era o teu rosto um sol resplandecente e um fogo ardente
em eucarístico êxtase de encanto permanente.

Tuas eram as dores todas e todo o calvário,
e à escuridão das almas dava luz teu lampadário.
Chegavas sempre plena ao termo dos teus dias,
e junto a ti dormia o pobre um sono de alegrias.

"Liliodia", livro de oração e de meditação, lido e cantado, das irmãs Franciscanas da Divina Providência. 

sábado, 22 de outubro de 2016

Antes que seja tarde

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre sem prejudicando ninguém. 
Palavras e sinais violentos,
Todos os dias acontecem,
Abatidos mortos são imensos
Os corações não amolecem!

Que ao menos a mão, acariciando
Outro rosto que por ela passe,
Sinta que o calor brando,
A paz da alma a exaltasse!

A vida é nossa o mundo também
Venha a toda a gente a vontade,
De ser contra a guerra sem desdém,
O futuro urge antes que seja tarde!
JLR

Deus não se compra nem se vende

Pode servir para quem vai à missa no fim de semana. Pode também servir para os outros, com toda certeza. É o domingo XXX Tempo Comum...
São muitas as tentativas para comprar Deus. O que está por detrás de tais gestos pouco humildes é a tentativa de manipular Deus. Isto é, não são raros os que pensam que é possível fabricar um Deus à maneira de cada um e que com palavras benévolas a seu favor e contra os outros, podem dar a volta à misericórdia de Deus e à sua bondade.
Provavelmente, pensamos que podemos desviar a atenção de Deus escondendo os nossos desmandos com palavras mansas e rezas piedosas. Esta lógica da manipulação não se coaduna com o agir de Deus Pai/Mãe de Jesus, que abre a porta do seu coração de par em par para todos, bons e maus, contraindo assim as nossas pretensões justiceiras.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O semeador da boa semente

Este é um «remédio» para alma e que faz bem ao corpo, o nosso e o dos outros...
Deus não é a recompensa dos bons e o castigo dos maus: Ele é o médico dos doentes e o semeador de boa semente. Ele tem semeado muito em mim para que eu semeie muito.
Pai, que as nossas palavras e os nossos gestos contribuam para curar-nos e aos outros.
• Pai, que a nossa Igreja se sinta chamada a ser médico e luz para todos os homens e mulheres, especialmente para aqueles que estão mais doentes.
• Pai, que nós crentes passemos, como Jesus, fazendo o bem: curando os enfermos, libertando os cativos, amparando os cansados e dando amor àqueles que não se sentem queridos.
• Pai, que todos os homens e mulheres que vivem a vida com austeridade nos encontrem de mão estendida e coração generoso.
• Pai, que os nossos idosos se sintam pertença e ativos nas nossas comunidades e famílias, que os nossos gestos sejam de hospitalidade, de interesse, de valorização da dignidade de cada um.
• Pai, que as nossas palavras e os nossos gestos contribuam para curar-nos e aos outros.

Vicky Irigaray, psicóloga e especialista em acompanhamento de doentes terminais, em Fé Adulta

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Um embuste chamado novo hospital

Afinal, o que pretendem com esta novela chamada novo hospital para a Madeira.
Começou por ser uma promessa da governação Regional, já se ouviu falar em expropriações, depois, parece, que num determinado momento deixou de ser promessa e as expropriações foram anuladas. Depois veio novo governo, vestido de renovação, hospital novo para frente. Mas… Mas… Mas, não há dinheiro na Região que chegue para uma envergadura destas.
Não havendo dinheiro por aqui, o retrato mancha-se, vamos embrulhar nisto o governo da Metrópole. O de lá, sabendo, provavelmente, das espertezas, descarta-se… Mostra alguma vontade de apoiar, mas de concreto zero, nem um cêntimo para a Madeira para novo hospital. Quase que diz, a promessa é vossa, cumpram-na vossas excelências, não temos nada com isso.
A seguir veio o pior, o infantilismo feio da política baixa. Começa o joguete de atira culpas para que o fato não fique conspurcado e acentua-se assim a propaganda para que mais este incumprimento não deixe ficar mal quem lançou a lebre e agora não consegue acertar-lhe o tiro.
Pelo entremeio surgem relatórios de algumas entidades que vão dizendo coisas. Uma que o governo regional não foi convincente com os argumentos que apresentou aos governantes nacionais. Outra instituição «arrasa» as condições de funcionamento dos dois hospitais que temos em funcionamento. Mas, o pior da festa vai sendo experimentado pelos utentes que diariamente se confrontam com situações atrás de situações graves de faltas de material necessário nos hospitais para serem atendidos convenientemente.
Numa outra frente temos uma oposição que adormeceu. Basta para alguns o que têm, salário no final do mês e o resto são favas contadas. Não quer dizer com isto que alguma oposição não esteja atenta e algumas vezes abre uma brecha a ver se consegue sair-se bem com a propaganda.
A par dista tragicomédia a agonia dos pacientes agudiza-se cada vez mais. Os ecos das más condições nos hospitais que temos (lembro que são dois e não três) são de bradar aos céus. Não vou aqui elencar outra vez as falhas e as faltas de material nos nossos hospitais, essencial para dar dignidade a quem tem necessidade de recorrer aos serviços de saúde.
Saliento aquela que me parece ser a mais grave. Se há faltas de material e de pessoal, das duas, uma, ou há má gestão ou há falta de dinheiro para que se possa governar como deve ser os hospitais. Ou será que não temos pessoas devidamente preparadas para gerir dois hospitais? - (Só estou a perguntar, não é para ofender…).
Por isso, acho que chegou a hora de se deixarem de brincar aos hospitais novos ou velhos. É urgente dedicação empenhada na gestão dos hospitais que temos (lembro que são dois e não três). Por este andar, começa a impor-se a ideia de que se não somos capazes de gerir dois hospitais como vamos gerir três… Esta é uma questão pertinente e que não deve ser descurada, face às más notícias que se vai tomando conta relativamente aos atuais hospitais. Se não funcionam como deve ser os dois que temos para que queremos mais um?  
Por fim, reafirmo, a causa da saúde não deve fazer parte de joguetes partidários e não deve obedecer a interesses de género nenhum. A saúde é um bem muito precioso, nada justifica que se brinque com essa realidade. A doença quando surge não escolhe raças nem muito menos a condição social das pessoas, nada é mais universal que a doença, por isso, não deve faltar tratamento igual e universal. Mais um hospital sim, se com os que já temos, vamos garantir condições de funcionamento em todos os hospitais como deve ser, se for para espalhar a má gestão, as faltas disto e daquilo, a desordem geral por mais um, então, novo hospital não.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O alicerce da felicidade é ternura do amor

O nosso mundo não se concerta sem que as atitudes de cada pessoa no desempenho do seu papel e missão no viver quotidiano sem a ternura do amor. Não ter medo de falar disso, testemunhar isso com sinceridade e verdade. Faço minhas as palavras do padre Rui Santiago, que escreveu um texto sobre este tema a partir de uma jovem da Guiné-Bissau que se converteu ao Cristianismo ao ler algumas frases do Cântico dos Cânticos. Tomem nota da última parte do texto e se quiserem ler na íntegra podem abrir por AQUI
«Faz-nos falta esta ternura, o encanto de quem ama, a evidência de sermos gente fascinada e acarinhada! Fazemos vezes demais da Vida Consagrada um lugar de vidas desgraçadas. Tornamo-nos pesados e sisudos, perdemos a graça e a beleza. É tão feio ser feio!
Há umas semanas, nas minhas andanças missionárias, pus-me a ler, num encontro de formação para catequistas, o Cântico dos Cânticos. Entre os risinhos e os comentários para o lado, algumas caras torcidas e um ou outro que se levantou, lembro-me melhor daquele que se foi embora desabafando: “Não vim aqui p’ra ouvir poesia!”
Somos uns toscos. Fazemos da Fé uma doutrina ou uma moral, um culto insípido ou um ritual de devoções, e depois vê-se na nossa cara que damos ares de gente mal amada. Há mulheres consagradas que explicam a sua vocação dizendo que se “casaram com nosso senhor”, mas quem as vê deve desconfiar muito desse marido, porque elas têm cara de gente que sofre de violência doméstica! Há homens consagrados que explicam a sua vocação como uma “doação total a deus e aos outros”, mas depois não conseguem não se comportar como solteirões embrutecidos, atabalhoados nas emoções e mais afectados que afectuosos.
Era tão bom se nos vissem como gente especializado em ternura! Gente d’amores e d’esperanças: essa é a nossa vocação. Consagrar-se é atrelar-se a um grande amor, dar-lhe trela e ir atrás. Preferia que fôssemos trapalhões no cerimonial litúrgico, mas fôssemos mestres nas coreografias do cuidado e da atenção aos outros. Preferia que nos enganássemos nas páginas e nas fitinhas todas dos breviários, mas conversássemos com Jesus com a naturalidade e o carinho com que se fala com quem se partilha vida, mesa e cama. Às vezes parece que ainda nos estorva o amor! Queremos mais ser sérios do que amáveis, e essa seriedade torna-se uma inimiga do Testemunho do Reino e da Alegria do Evangelho.
Deus sabe de Amor. A maior prova é Jesus. Amor que ganha corpo e voz e toque e pele e hálito e movimento de gente! Podemos levar a vida toda a perceber que não nos convertemos a Jesus por dever ou por repetição. A gente só se converte por fascínio! Mudamos quando nos mudamos para a vida de outro. Consagrar a Vida é “juntar os trapinhos”.
“Um Deus que fala de amor assim, tem de ser O verdadeiro!”
Para quê escrever tanto? Está tudo aqui».
Padre Rui Santiago, in Fraternitas Movimento

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Para que a pobreza deixe de ser paisagem

A pobreza é um flagelo para quem cai nessa desgraça e uma vergonha para a outra parte da sociedade. E à luz da frase chave do Padre Francês Joseph Wresinski é uma clara «violação dos direitos humanos».
Ontem teve lugar no Funchal o lançamento de uma delegação do Movimento Erradicar a Pobreza na Madeira. Nesta ocasião foi lido o manifesto deste movimento onde se propõe agir para «ajudar a combater as causas deste flagelo, reconhecida violação dos direitos humanos, consagrada nos seus princípios, estabelecidos no manifesto que esteve na sua origem, que o combate pela erradicação da pobreza passa por uma política para o país que tenha como prioridades o pão e os direitos de quem trabalha, a produção e a justa distribuição da riqueza, o direito ao trabalho, ao salário, à educação, à saúde e à segurança social publicas, universais e solidárias». Não mais justo, para que as desigualdades não sejam tão acentuadas.
Propõe-se «levar a efeito, um conjunto de iniciativas a nível nacional (e regional), visando que a pobreza deixe de ser aceite como uma fatalidade».
Muitos acham que quem se inquieta com estas questões pretende fazer os ricos pobres e os pobres ricos, como se estivéssemos na granja do George Orwell no Triunfo dos Porcos. Nunca ouvi de ninguém a sentença de morte aos ricos ou empobrecimento para estes, para verem o que é bom. Este género de argumento mina o debate e conduz-nos a um beco sem saída ou à conclusão fatal que tranca a porta de vez, ficas na minha e eu fico na tua.
Como está dito no manifesto, trata-se de acabar unicamente com o flagelo da pobreza ou dar seguimento ao slogan que ficou famoso numa manifestação: «não faças da pobreza uma paisagem». Neste sentido, consideramos que o Movimento Erradicar a Pobreza deve ser uma ação entre tantas outras formas de organização dos cidadãos, para que sejam o toque da consciência e façam pressão nos partidos políticos para que implementem medidas governativas que combatam a exclusão e a desigualdade. Obviamente, que a pobreza é uma questão eminentemente política e devem ser os políticos os primeiros a lutarem contra ela.
Não vi neste encontro quem deveria estar presente, a plêiade de movimentos de caridade que pululam nesta cidade. Pois, provavelmente não desejam o fim da pobreza, porque se tornaram «empresas» nos pobres está a sua matéria prima.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

A maior vergonha do mundo é a pobreza


José Ângelo Gonçalves de Paulos disse...
Se há sofrimento que me provoca mal-estar, num sentido mais holístico, a POBREZA está à frente de todos os outros sofrimentos. Viver sem trabalho, sem dinheiro, sem moradia, sem alimentos, sem água portável, sem saneamento básico, sem vestuário, sem assistência na saúde: desde o nascituro aos velhos, sem escolaridade, é uma afronta à dignidade da pessoa humana. E, todavia, tantas cartas e documentos, conferências, debates, através dos meios de comunicação social e noutros areópagos, através dos quais se problematizam EXISTENCIALMENTE estas questões, que urge pôr termo. 
Basta vontade, eminentemente, política. Obrigado, Amigo e Irmão Padre José Luís Rodrigues por mais este seu blogue que nos instiga fazer mais e melhor pelas nossas irmãs e pelos nossos irmãos mais pobres. Por isso, sou cristão e socialista. Parabéns! E seja um Oásis nesta secura toda na sociedade e na igreja madeirense, que tem uma "Caritas" feita por ricos e nem sequer existe uma Comissão de Justiça e Paz.

Nota: no ano passado, precisamente neste dia mundial da Erradicação da Pobreza, o pensador José Ângelo de Paulos, entretanto falecido, deixava este comentário no Banquete da Palavra, que no mesmo deste ano 2016, retomo e publico aqui para relembrar a inquietação principal do Ângelo e assinalar deste modo a vergonha que este dia assinala. 

sábado, 15 de outubro de 2016

Sacramento

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre nunca prejudicando ninguém.
por aquela encosta verde
a deusa jovem passa
foi difuso o meu olhar
diante da confusa desgraça
que uma gente dita ferida
sobre a mesa uma taça
que me pedem no cálice nesse momento
mas logo veio por sinal
outro Deus solene e triste
que na paixão quotidiana do mundo
elegeu eternamente em divino sacramento.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Com o Papa Francisco não há palavras polidas

A liberdade cristã vem de Jesus, “não das nossas obras”. O Papa desenvolveu a sua meditação matutina nesta terça-feira (11/10), a partir da Carta de São Paulo aos Gálatas para então refletir sobre o Evangelho do dia, no qual Jesus repreende um fariseu que só dava atenção às aparências e não à substância da fé.
Àquele doutor da lei, disse o Papa, que havia criticado Jesus porque não havia feito as abluções antes do almoço o Senhor responde claramente: "'Vocês fariseus limpam o exterior do copo e do prato mas por dentro vocês estão cheios de avidez e de maldade’. Jesus repete isto muitas vezes no Evangelho a esta gente: ‘vocês são maus por dentro, não são justos, não são livres. Vocês são escravos porque não aceitaram a justiça que vem de Deus, a justiça que nos deu Jesus’”.
Noutro trecho do Evangelho, prosseguiu o Papa, Jesus pede que se reze sem que se seja visto, sem aparecer. Alguns, notou o Papa, eram “caras de pau”, “não tinham vergonha”: rezavam e davam esmolas para que lhes admirassem. O Senhor, ao contrário, indica a estrada da humildade.
“O que importa – reflete o Papa e nos diz Jesus – é a liberdade que nos deu a redenção, que nos deu o amor, que nos deu a recriação do Pai”:
“Aquela liberdade interna, aquela liberdade de se fazer o bem escondido, sem tocar os trompetes, porque a estrada da verdadeira religião é a mesma de Jesus: a humildade, a humilhação. E Jesus, segundo Paulo diz aos Filipenses, humilhou-se a Si mesmo, esvaziou-se a Si mesmo. É a única estrada para nos tirar o egoísmo, a cobiça, a soberba, a vaidade, a mundanidade. Ao contrário, esta gente que Jesus repreende é gente que segue a religião da maquiagem: a aparência, o aparecer, fingir parecer mas por dentro… Jesus usa para esta gente uma imagem muito forte: ‘Vocês são túmulos reluzentes, bonitos por fora mas dentro cheios de ossos de mortos e podridão’”.
“Jesus – retomou Francisco – nos chama, nos convida a fazer o bem com humildade”. “Você – disse – pode fazer todo o bem que quiser mas se não o faz humildemente, como nos ensina Jesus, este bem não serve, porque é um bem que nasce de você mesmo, de sua segurança e não da redenção que Jesus nos deu”. A redenção, acrescentou, “vem pela estrada da humildade e das humilhações porque não se chega à humildade sem as humilhações. E vemos Jesus humilhado na cruz”:
“Peçamos ao Senhor que não nos cansemos de caminhar por esta estrada, de não nos cansarmos de rejeitar esta religião da aparência, do parecer, do fingir ser… E caminhar silenciosamente fazendo o bem, gratuitamente como nós gratuitamente recebemos a nossa liberdade interior. E que Ele proteja esta liberdade interior de todos nós. Peçamos esta graça”.                     In Aleteia

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

JPP pede classificação das missas do parto como património cultural imaterial

Será que li bem? - Caros leitores, leiam bem e segurem-se à cadeira. Anda tudo maluco, acabou o trabalho ou anda tudo com fome de criatividade? - Anda pra aí qualquer coisa no ar que não percebo o que seja... Aliás, até percebo, mas não digo para já.
As missas do parto ganharam fama e muitos aderentes, não pela espiritualidade que deveriam representar. São uma borga geral com comes e bebes, animação musical q. b. de gosto duvidoso. Não quero com isto menosprezar aquele grupo de pessoas que vai às missas do parto para rezar e preparar-se espiritualmente para o Natal. Se não sabiam que há muitas pessoas que o fazem com este propósito, ficam a saber que o grupo é ainda muito grande. E muitos entristecem-se e não valorizam nada o forrobodó exterior.
Sem pretender julgar ninguém, há um resto de Israel que anda a fazer gincanas de missas do parto para dançar, encher a barriga e embebedar-se, maiormente sem sequer entrar nas igrejas nessa ocasião nem muito menos nos restantes dias do ano. Basta estar atento.
Por isso, senhores JPP's, o que pretendem com esta proposta, definir como património cultural imaterial o que se passa dentro ou fora das igrejas na temporada da novena das missas do parto? Porque não se lembraram também da noite do mercado e de outros costumes que o característico Natal Madeirense tem? A moda do património imaterial para tudo pegou de galho, por favor, não se lembrem de mais baboseiras que pra aí andam salivando por tamanha qualificação?  
Srs JPP's que fique claro, se pretendem fazer património imaterial o que se passa na verdadeira celebração das missas do parto no interior das igrejas, desistam, não é necessário, ainda mais se considerarmos que o nosso Estado é laico e que se saiba a Madeira também faz parte do mesmo Estado. Como enquadram isso no dever de laicidade do Estado? - Aguardo para ver... Mas, fica já a conclusão, definitivamente estará provado se for aceite o vosso pedido, que de manifestação religiosa pertencente a uma confissão religiosa as missas do parto já nada têm a ver. Adiante...
Porém, se pretendem declarar cultura imaterial o folclore à volta de algumas igrejas por ocasião das missas do parto, avancem, porque, nada será melhor para que acabe um dia o que andam para aí dizer ser cultura e tradição sem o ser. Verdadeiras tradições e cultura da nossa terra começaram a definhar desde o momento em que as entidades públicas meteram nelas o bedelho. 
Deixem estar quieto o que está quieto, não abusem da qualificação "património cultural imaterial", porque alguma vez pode ser bem necessário para o que precisa mesmo de tal qualificação e nessa altura ninguém vos leva a sério. Ao que chamam "cultura" à volta das missas do parto, são apenas costumes que nem 30 anos contam, aliás, maus costumes que ajudam a manter o permanente circo de festas para tudo e nada em que há alguns anos anda a Madeira metida de Janeiro a dezembro. 

Deus é mais que qualquer religião

Antes de qualquer dizer sobre o assunto, Deus, fica desde logo claro que o meu crer radica nesta ideia, Deus é um mistério e tudo faz parte desse mistério. Não seriamos nada sem que essa ideia nos comandasse. Ou, aliás, sem tal horizonte, pode ser que engrossaríamos ainda mais o rol dos desesperados que, tristemente, nos rodeiam e vão tentando acabar com o tesouro mais extraordinário que existe, a vida.
Vamos ao que nos trouxe até aqui hoje para servir no banquete. A frase do exemplar religioso Mahatma Gandhi, é bem ilustrativa: "Deus não tem nenhuma religião". Quer dizer, Deus não é cristão. Deus não é judeu. Deus não é muçulmano. Deus não é hindu nem budista... 
Tudo isto foram denominação que a humanidade inventou para definir culturas, etnias, países e sensibilidades na diversidade dos povos do mundo. Servem estas designações para ajudarem a humanidade a encontrar-se com o mistério. Quando se desvia disso, não serve para nada, é mais lixo que polui o mundo e inferniza a vida. 
Estou dentro de uma destas tradições. Eu tento honrar a minha designação. Mas eu não não estou convencido que a minha tradição define Deus e que seja o único caminho absoluto para chegar a Deus. Há mais caminhos, há mais possibilidades, tantas quanto é enorme o mistério de Deus e que envolve cada homem e cada mulher nas suas circunstâncias. A minha designação aponta-me para Deus e isso chega...
São João ensina e com isso "manda" acreditarmos que Deus é amor. O poeta libanês, autor de "O Profeta", completa o ensinamento: "Quando o amor vier ter convosco, / Seguros embora os seus caminhos sejam árduos e sinuosos. / E quando as suas asas vos envolverem, abraçai-o, embora a espada oculta sob as asas vos possa ferir. / E quando ele falar convosco, acreditai, / Embora a sua voz possa abalar os vossos sonhos como o vento do norte devasta o jardim". Parece fácil, mas nem sempre é.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Esperar o silêncio

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre, nunca prejudicando ninguém.

os homens antigos
fizeram pontes
emparelhadas na rocha
da luz

hoje a quietude
incandescente do apóstolo
sente e reza 
com as mãos firmes
na passagem sobre o mundo
que eu não sabia serem os átomos
um reflexo do mistério
feito como alimento
do pão partido na mesa de Deus
na ocasião da despedida

Os homens antigos
foram uns pais anónimos
de todos nós
para que víssemos hoje
a carne viva e o sangue
escorrendo pelas veias
até ao dedo
que escreve o saber pelo chão
nas pedras quebradas
pelo raio do sol revezado
à vez da voz que vai dizendo
- é bom esperar o silêncio
JLR

Guterres, a ONU e a Alemanha

Uma das melhores reflexões que li sobre a eleição de António Guterres para Secretário Geral das Nações Unidas, que a alguns perece ter provocado uma azia de caixão à cova, sobretudo, para quem vive dominado por interesses egoístas, nomeadamente, aqueles que estão sempre com o pensamento dentro da carteira ou na conta bancária... Vamos lá, outros valores se alevantam para o mundo e nós estamos contentes por isso, não fosse hoje, segundo dizem, o dia do sorriso. E para já fica esta ideia que cabo de ler algures: "um homem possuído pela paz está sempre a sorrir" (Milan Kundera).

A eleição da Merklina búlgara para a ONU representava entrada da Alemanha para o grupo dos grandes atores internacionais e a rutura da Europa em dois blocos, um pró-russo a Leste e outro pró-americano a Oeste. Representava a rutura com o equilíbrio de forças atual, um triangulo cuja base ainda são os EUA. Os 3 grandes decidiram manter o status quo e resolver bilateralmente os seus conflitos no Médio Oriente e no Mar da China, como têm feito. Ba...teram a porta na cara da Alemanha. A Europa sairia sempre mal deste jogo em que a Alemanha a meteu. Junker, o pianista do cabaré alemão em que Barroso deixou a Comissão Europeia transformar-se deve estar de ressaca, um estado que lhe passa sem deixar marcas de vergonha. Guterres não é um secretário geral sponsored pela União Europeia, é apenas o clister que a Alemanha teve de tomar. Guterres chega a secretário geral contra a Alemanha, por mérito próprio e por ser cidadão de um estado simpático e de ph neutro. Tem a vantagem de valer por si e esse é estatuto valioso perante os poderes e as opiniões públicas para exercer o seu magistério de influência – o que vai bem com o odor de santidade que gosta de transmitir desde jovem católico. A Merklina búlgara seria sempre vista como a mulher a dias da patroa Merkel e da Alemanha. Portugal – entendido como uma entidade dotada de valores – sai bem desta pugna. Guterres resgata o país da imagem de Barroso, um videirinho que se fez lobista do mais que suspeito Golman Sachs para meter uns bons cobres na conta bancária.
Guterres desinfecta Portugal dos Barrosos e da sua trupe de pequenos rufias. Não é assim tão pouco. Quanto à ONU, os cães grandes continuarão a rosnar uns aos outros longe dali.

Carlos Matos Gomes, in facebook, 05/10/2016

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A pior crise que nos podia chegar

Não sei se devemos dizer "a pior crise que nos podia chegar" ou se "o pior da crise chegou". Deixo isso à consideração dos comentadores sociólogos dos meandros trilhados pela humanidade nos vários contextos históricos.
No meu singelo ver, deduzo que atravessamos uma grave crise de humanidade, transversal a todos os quadrantes que a compõem. Acabou o dinheiro (emprestado, lembremos...), estamos falidos de valores a todos os níveis. Por isso, impera o desnorte, o populismo, a mentira e todo o género de campanhas que induzem a enganos terríveis que comprometem o futuro de toda a humanidade, dos povos e do mundo inteiro. 
É terrível o descrédito em que vão caindo todas as mediações governativas pelo mundo fora, à cabeça com o que se estava a passar com a eleição do próximo Secretário Geral das Nações Unidas (ONU), que conta com um excelente candidato, o nosso compatriota Engenheiro António Guterres, mas que parece que vinha a ser preterido a favor de uma candidata de última hora, fruto de um "arranjinho" político patrocinado pela Alemanha, que faz parte da meia dúzia de países com direito a veto - outra coisa meia impensável numa organização que se deveria supor ter membros iguais entre si, tendo em vista o fim tão nobre a que se propõe, manter a paz no mundo. É mais que absurdo, a ONU ter alguns que são mais do que os outros, a maioria. 
Sem a intenção de menosprezar as qualidades de ninguém, parece que vai imperar o bom senso e vai vencer o respeito pela instituição, pela humanidade inteira em nome da paz. Não quis crer logo que a ONU estivesse manietada ou sequestrada pelos poderosos. Ainda bem. A Alemanha e alguns euroburocratas levam uma lição valente.
Apesar de algumas nuvens sombrias, a esperança renasce mesmo que timidamente. À sexta votação o Engenheiro António Guterres vence por unanimidade no Conselho de Segurança e seguramente será eleito por aclamação Secretário Geral das Nações Unidas hoje. Vence um humanista para uma liderança mundial a par com o Papa Francisco no Vaticano que fez acreditar de novo no futuro da humanidade contra a mediocridade da maioria das lideranças que hoje governam os países. A esperança renasce apesar de tudo.
Porém, vamos a mais alguns sinais da crise da humanidade. Em outras partes do mundo houve no primeiro domingo de outubro dois referendos. Um na Hungria, que levou a sufrágio a pergunta se o povo concordava com a entrada de refugiados no seu território, mas a propaganda do medo, a desinformação e a confusão entre refugiados e terroristas, foram de tal ordem que quase por unanimidade o povo votou não, valeu que o referendo é nulo dado que os eleitores numa larga maioria não compareceram para exercer o seu direito de voto. Não houve quorum.
Mas, é bem revelador o seguinte, só não venceu a manipulação e a mentira mais uma vez, porque o povo se demitiu, o que demonstra que consentiu. Só uma humanidade perdida, falida, indiferente e insensível aos dramas dos seus semelhantes é que pode proceder assim.
Noutro lado do mundo, na Colômbia, outro referendo ditou a não aceitação do acordo entre o governo e as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). É estranho que mais de 50 anos de assassinatos, terror e todo o género de violência, não cheguem para algum povo e assim revele que prefere que a luta armada continue. Não é isso de todo a meu ver. É antes a campanha do medo e da mentira que fez vencer o que o mundo inteiro esperava que saísse derrotado. É pena que assim seja.
Por outras bandas, nas Filipinas, outro povo elegeu um líder político há três meses que se autodenomina de Hitler e que insulta meio mundo todos os dias. Nos três meses de liderança já foram assassinadas quase 4000 mil pessoas, sob a ideia do combate ao narcotráfico e em nome de uma sociedade limpa de criminosos ou outros extraterrestres que por ali vegetem no meio da população que ele sonha tornar pura. Eis um louco que sob a égide do populismo o povo vergado pelo medo colocou à frente dos seus destinos.
Entre nós os gritos de desespero de tantas pessoas mal atendidas, para não dizer maltratadas nos nossos hospitais, estão a tornar-se ensurdecedores e crescem em flecha as situações inconcebíveis, criminosas contra as pessoas. No entanto, da boca de alguns saem interessantes elogios à forma como são tratados no hospital. Há um rol de contrastes que nos levam a considerar que ir ao hospital já não é um assunto de direitos humanos nem muito menos gozar do direito universal à saúde, proclamado pela nossa Constituição da República, mas torna-se uma questão de sorte ou um jogo de beleza ou fealdade de acordo com a cor dos olhos do cidadão. Ou será que terá também a ver com a disposição azeda ou doce de quem atende naquela hora as pessoas necessitadas de cuidados de saúde? - Conclusão, tudo mau demais...
Estes são apenas alguns exemplos que nos deixam inquietos e de sobreaviso quanto ao caminhar trágico da humanidade neste tempo que é o nosso. Eis, provavelmente, a pior crise que nos podia chegar, revelando uma humanidade perdida, sem rumo, coisa que não é de somenos e bem reveladora de que o futuro da humanidade mergulhou numa grande incerteza.