Convite a quem nos visita

sábado, 31 de dezembro de 2016

Santa Maria, Mãe de Deus

Passagem do ano. 1 janeiro é o dia de Santa Maria, Mãe de Deus, Dia Mundial da Paz. Sejam felizes sempre nunca prejudicando ninguém. Basta isso para que o ano seja bom para todos.
Santa Maria, Mãe de Deus
Rogai por nós a Jesus por piedade
filhos teus desamparados mas devotos
umas vezes feridos outras vezes mortos
no chão do mundo pisado pela desumanidade.

És Mãe Santa Maria de Deus e nossa
bem precisados Te invocamos na verdade
olha as lágrimas do mundo com suavidade
há fome e falta o pão de amor não há mesa posta.

Por este singelo poema oração Te invoco
que Sejas nas horas colo suave onde me ponho
porque por Ti vi na luz terna no meio da noite
o Menino Deus Jesus que dorme nas palhas do sonho
- Ó quanta ternura resplandece naquela luz da verdade
se pelas mãos formos filhos constrói-se a fraternidade.
JLR

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

10 frases do Papa Francisco sobre os membros da família

Hoje é o dia da Sagrada Família Jesus, Maria e José. Celebremos com estas significativas frases sobre a família do Papa Francisco...
1. “É na família onde aprendemos a abrir-nos aos outros, a crescer em liberdade e em paz." (Audiência Geral, 18 de fevereiro de 2015)

2. “E esta é a grande missão da família: arranjar lugar para Jesus que vem, receber Jesus na família, na pessoa dos filhos, do marido, da esposa, dos avós, porque Jesus está aí." (Audiência Geral, 17 de dezembro de 2014)

3. “Sim, ser mãe não significa só trazer um filho ao mundo, mas é também uma opção de vida: o que é que uma mãe escolhe? Qual é a opção de vida de uma mãe? A opção de vida de uma mãe é a opção de dar vida. E isto é grande," isto é belo." (Audiência Geral, 7 de janeiro de 2015)

4. “As mães são o antídoto mais forte contra a difusão do individualismo egoísta. "Indivíduo" quer dizer "que não pode ser dividido". As mães, pelo contrário, "dividem-se", a partir do momento em que acolhem um filho para o dar ao mundo e fazê-lo crescer". (Audiência Geral, 7 de janeiro de 2015)

5. “Para ser um bom pai, o mais importante é estar presente na família, partilhar as alegrias e as penas com a mulher, acompanhar os filhos à medida que vão crescendo." (Audiência Geral, 4 de fevereiro de 2015)

6. “O pai procura ensinar ao filho aquilo que ele ainda não sabe, corrigir os erros que ainda não vê, orientar o seu coração, protegê-lo no desânimo e na dificuldade. Tudo isso com proximidade, com doçura e com uma firmeza que não humilhe." (Audiência Geral. 4 de fevereiro de 2015)

7. “Ser filhos permite-nos descobrir a dimensão gratuita do amor, de ser amados antes de nada ter feito para o merecer, antes de saber falar ou pensar e, mesmo, antes de vir ao mundo. É uma experiência fundamental para conhecer o amor de Deus." (Audiência Geral, 10 de fevereiro de 2015)

8. “Uma sociedade que descarta os seus idosos é uma sociedade sem dignidade, perde as suas raízes e vigor; uma sociedade que não se rodeia de filhos, que os considera um problema, um peso, não tem futuro." (Audiência Geral, 10 de fevereiro de 2015)

9. “Que belo é o alento que o idoso consegue transmitir ao jovem em busca do sentido da fé e da vida! É verdadeiramente a missão dos avós, a vocação dos idosos. As palavras dos avós têm algo de especial para os jovens. E eles sabem-no." (Audiência General, 11 de março de 2015)

10. “As crianças recordam-nos outra coisa bela; recordam-nos que somos sempre filhos. Mesmo se nos convertemos em adultos ou idosos, mesmo se nos convertemos em pais, se ocupamos um lugar de responsabilidade, por baixo de tudo isso permanece a identidade de filho. Todos somos filhos. E isso reconduz-nos sempre ao facto de que a vida não fomos nós que a demos a nós próprios, mas que a recebemos." (Audiência General, 18 de março de 2015)
In Fraternitas Movimento

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A paz sempre no final e no princípio do ano

1 janeiro de 2017
Dia de Santa Maria, Mãe de Deus e dia Mundial da Paz.
1. Tanto para o ano que termina tanto para o ano que começa, no final de um e no início do outro, temos necessariamente que eleger a palavra PAZ, como valor essencial e do que mais precisamos para o ano que chega, porque ela faltou muito no ano que se vai. A paz faltou no ano que terminou e pelos sinais que os tempos nos revelam seguramente vai faltar no ano que se inicia. É uma constatação terrivelmente evidente e que nos faz ensombrar a vida, quando cada ano devia ser uma festa, uma alegria, uma felicidade para toda a humanidade. Bastava que o ambiente positivo, fraterno, amigo e solidário que se gera no final de um ano e no início de outro perdurasse pelos anos fora. Mas, tristemente, não é isso que acontece.

2. Em cada dia 1 de janeiro também celebramos na liturgia cristã católica, Santa Maria, Mãe de Deus, a mulher que nos guia até ao nosso encontro com Jesus, Ela é o modelo do crente que é sensível aos projectos de Deus, que sabe ler os seus sinais na história, que aceita acolher a proposta de Deus no coração e que colabora com Deus na concretização do projecto divino de salvação para o mundo. É a mulher da paz, é a Mãe da paz. É a serenidade materna de Deus que abraça a humanidade inteira, como celebrizou com a sua sua teologia, o grande teólogo alemão Urs Von Balthasar. Ser devoto de Maria, Mãe de Deus e Rainha da Paz, deve tornar-nos pacíficos e adeptos da não-violência. Isso não significa deixar de lado a luta pela justiça ou de exigir os nossos direitos, muito pelo contrário. O papa Paulo VI afirmou que o nome actual para a paz é justiça. Devemos fazer essa luta de forma evangélica. Antes de mais, procurando sempre ser justos (correctos e honestos na administração dos nossos bens, dos bens públicos, na nossa casa ou no trabalho), e procurando os meios correctos para isso (usando as instâncias legais, e não recorrendo à violência). Mas é preciso sermos também activos pacifistas, não nos acomodando frente às injustiças e violências que sofrem tantas pessoas semelhantes a nós.

3. Os últimos Papas todos os anos para o dia mundial da paz escrevem uma mensagem. O Papa Francisco não foge à regra e para este ano em que se celebra o 50 º dia mundial da paz, enviou-nos um texto magnífico com o seguinte título: «A não-violência: estilo de uma política para a paz». O Papa justifica o título com estas palavras: «desejo deter-me na não-violência como estilo duma política de paz, e peço a Deus que nos ajude, a todos nós, a inspirar na não-violência as profundezas dos nossos sentimentos e valores pessoais. Sejam a caridade e a não-violência a guiar o modo como nos tratamos uns aos outros nas relações interpessoais, sociais e internacionais. Quando sabem resistir à tentação da vingança, as vítimas da violência podem ser os protagonistas mais credíveis de processos não-violentos de construção da paz. Desde o nível local e diário até ao nível da ordem mundial, possa a não-violência tornar-se o estilo característico das nossas decisões, dos nossos relacionamentos, das nossas acções, da política em todas as suas formas» (Nº 1).
Quem desejar ler na íntegra a mensagem do Papa Francisco para o dia 1 janeiro deste ano, pode abri AQUI.

4. Não é fácil dizer o que é a paz. Provavelmente é como tantas coisas da vida que estão aí a cumprir anonimamente e silenciosamente o seu dever para nos salvarem todos os dias, isto é, nos fazerem sorrir, nos fazerem felizes, nos alegrarem… A paz é uma realidade interior e exterior que faz bem a todos, ao mundo e à criação quando acontece verdadeiramente. Deve ser por isso, que Albert Einstein definiu com toda a clareza que a «paz é a única forma de nos sentirmos realmente humanos». Esta ideia pode estar naquela, que já vinha do pensamento de Platão que considerava que «A paz do coração é o paraíso dos homens». Deve ser por causa de tudo isto que nunca devemos nos cansar de finalizar os anos e iniciá-los a pensar, a rezar e falar na paz, para que este valor não nos falte em cada dia do resto do ano e para que não tenhamos de ver imagens horrendas de tantos lugares onde a violência e as armas comandam a vida quotidianamente. Desejo um ano cheio de paz pata todos.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O poder de distorcer contra a misericórdia e o amor

Cardeal Burke. É um cardeal que deve saber até mais do que Deus. O problema é que temos em todos os lugares da Igreja cabeças deste género que as chefias em determinado momento, porque dá jeito pessoal e por amizade, em «nome do Espírito Santo» promovem com títulos honoríficos e poder, depois leva toda a gente com esta desgraça. O homem é uma «dubia», como o militar desalinhado dos restantes, mas que sua mãe considera ser o único que acerta o passo.

Devemos também lamentar quando perdemos um dos nossos

José Pracana - Lenda das Rosas. A minha homenagem ao músico e cantor do fado. Este é nosso e muita falta nos fará. Se nos tomamos de assombro com o que morre lá fora, também não podemos, é proibido, não nos assombrarmos com o que perdemos por aqui. Não deixem de ouvir esta belíssima voz... Por isso, o Guilherme Leite alertou e denunciou o seguinte, fez muito, porque adormecemos facilmente ou andamos sedados com o que selecciona interesseiramente a comunicação social dominante. Pobre país o nosso que assim vive ou se deixa conviver... Vejam aqui o vídeo do Guilherme Leite. 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

A dança das pedras em tempo de festa

Crónica:
1. O rodopio da festa distrai-nos um pouco da realidade do mundo. Somos vítimas perante a malícia que faz comandar a vida das sociedades. A nossa muito mais, porque é a nossa e todos os dias a sentimos com o coração e com as mãos. As pedras dançam ao som dos instrumentos dos interesses e de acordo com a batuta dos donos do mundo. Mas recuso não ter uma segura consciência disso. Podem levar tudo, é certo, mas quero estar ciente que o levam. É como saber que estamos a ser burlados, mas por dever de caridade deixamos andar. Obviamente, que a vida não funciona assim para tanta gente, que logo esperneia e monta o maior escarcéu para denunciar e castigar devidamente quem assim procede. Mas, alguns não são assim, deixam que as pedras dancem e permitam o engano até certo ponto se notam à partida que ele não é assim tão mau. Outros males estamos cheios e desses devemos ter receio e se possível lutar até morrer contra eles.
 
2. Os presentes são hoje o centro das atenções. Ouve-se muito dizerem que as crianças gostam, a festa é delas, se não fosse eles não fazia nem comprava nada...  Mas a maior loucura é feita pelos adultos. Em que ficamos? - É mais honesto dizer-se que todos gostam. Porém, não devia ser necessário perder tanto a cabeça por causa disso. A burla que são os pais natais por todo o lado, que diz, ó, ó, ó... E faz sorrir com o dinheiro das carteiras de quem é pai e mãe, não me parece justo. Mas, a maioria embarca nisso, dança com essa música enganadora e gosta. Quem sou eu?

3. Não tenho solução para que a dança das pedras seja outra. Até porque não tenho sabedoria para inventar outro modo de pensar, quem sou eu, digo-vos novamente? - Mas encantou-me ver que o olhar de uma criança brilhou porque que estava nas suas mãos um pedaço de pizza quente. Outra desvelou-me mais um «presente», porque se colocou vestida de branco como um anjo por detrás do presépio sentindo-se útil e a fazer sorrir os seus pais e todos os que se assombravam com a cena divinal. Não é muito, mas é um tudo que nos alegrou porque se refere ao presente mais importante: a vida com sorriso e com encanto se começa a ser feita a parte das crianças.

4. A dança das pedras faz-me lembrar a casa vazia quando às vezes regressava àquele lugar onde nunca vivi com os pés, mas onde morou o meu pensamento e o desejo de que essa casa seria minha por herança. Nunca foi e nunca será, porque simplesmente não existe essa casa dos meus encantos. Mas foi esse imaginário que me ensinou a olhar. A ver a noite e o seu luar, o sol como um irmão tomado pelo ensinamento de São Francisco de Assis, a ver as coisas e as pessoas todas que me rodeavam como dádivas de origem misteriosa. Aprendi com isso o que é a liberdade, o dom para ver que há um direito em mim que me enriquece, não só fisicamente, mas também espiritualmente, até ao ponto de perceber que há um mundo cheio de imperfeições que me convoca para a lutar contra as injustiças. Nessa casa dancei tantas vezes com os amigos para perceber como era a consistência das pedras. Nunca mais esquecerei essa alegria da minha festa interior.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Festa das palavras em tons de Natal

Sejamos Natal. Desejo um Santo e Feliz Natal para todos... Que o Natal seja uma chegada e mas também uma partida. 

I
Salvação é tudo
vida nova acontecimento
foi ontem e é hoje -
em cada partilha doce
no inocente ferido pela lança
do Herodes podre
que é todo o adulto que desaprendeu de ser criança.

II
É Ele mistério que na pequenez de um Deus
uma luz cintila um brilho suave no meio da noite
foi e é cada gesto simples de perdão que ilumina 
é o fulgor do amor que nasceu nas palhas imortal
se pela esperança deixo os dedos entregues às palavras
nomes soltos e frases saborosas em tom de Natal.
JLR

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Como será a geração Pai Natal?

1. Um ponto de ordem. Não tenho nada contra o Pai Natal, mas tenho contra a injustiça de não haver uma Mãe Natal tão famosa e querida como é o Pai Natal por todas as crianças.
Nada tenho contra este imaginário, porque considero que o Pai Natal, até pode ser uma bela homenagem e um incentivo ao respeito pelas pessoas idosas. É sempre estranho que as crianças sejam incentivadas a «adorarem» o Pai Natal e que recebam péssimos exemplos dos adultos de falta de respeito em relação aos idosos que estão lá em casa. Por isso, o velhinho de barbas brancas, vestido de vermelho, para além daquilo que fizeram dele - um frenético caixeiro viajante despachante de prenda - pode ser, também uma ótima imagem que convida a olhar todos os idosos com carinho, alegria e respeito, mesmo que não deem prendas materiais, podem dar a beleza do seu passado, recheado de valores: a bondade, a fé e a esperança. Eles são oceanos imensos de memórias que se encontrarem corações disponíveis para as escutarem e beberem podem ser muito interessantes para construção da vida e do mundo futuros.

2. No entanto, gostaria de pensar hoje, neste banquete, um pouco sobre a geração Pai Natal. Sobre esta geração de crianças levadas ao colo pelos pais aos aeroportos e centros comerciais para assistirem à «chegada do Pai Natal» - que por ser tão importante merece reportagem de televisão - por isso, vemos o Pai Natal de saco carregado de prendas a sair do avião, a descer por uma corda do teto para baixo e a misturar-se no meio das crianças em grande algazarra.
Como será esta geração? Que valor transmite este imaginário, esta encenação irrealista que não beneficia as crianças, mas a lógica comercial e mercenária do hedonismo e do capitalismo em que estamos mergulhados? Como será uma criança que cresce a pensar que há um velhinho que lhe trás prendas pelo Natal, mas que depois mais tarde descobre que os seus pais é alimentavam essa falsidade? Não seria mais benéfico, pensarem desde tenra idade, que os presentes são fruto do trabalho, da poupança e do amor dos seus pais?

3. Não tenho respostas seguras para estas perguntas. Porém, podemos ensaiar alguma coisa a partir do que vamos vendo no comportamento de tanta gente, que vive a sua bela etapa da adolescência e da juventude e, alguns que mesmo ainda nessa fase etária, já são pais. A maior parte não tem culpa, não reflete muito sobre os seus comportamentos, deixa-se seduzir pela publicidade, pelo ambiente geral que se vive e não tem noção daquilo que faz, embarca por arrasto, dando aos seus filhos aquilo que os outros têm para que os seus não se sintam inferiorizados ou desprezados. Infelizmente, não é difícil ser arrastado pelo ambiente predominante, pensar e agir como a maioria age.

4. Penso que a geração Pai Natal, é uma geração muito exigente com os outros e pouco ou nada exigente consigo mesma. Não admira nada que às vezes encontremos crianças que são autênticos pequenos ditadores em casa dos pais, exigindo em termos de prendas o mundo e o fundo, sem que muitas vezes os seus pais não possam dar. A geração Pai Natal é a geração das facilidades, habituada a ter tudo sem trabalho e sem esforço. Uma geração frágil em termos de saúde física, psicológica e espiritual. Qualquer situação adversa os deita a baixo, desesperam facilmente ou entram em depressão com frequência, porque não aprenderam a conviver com o «não», com as frustrações e com os insucessos.
A geração Pai Natal é aquela que aprendeu a abrir o saco e tirar tudo de lá dentro. A vida não é assim que se constrói, deve existir muito mais do que o tudo presenteado.
E porque estamos em clima de Natal, que este Natal nos traga os verdadeiros presentes, que sejam mais da ordem espiritual e menos materialistas, para que tenhamos uma nova geração, que dê valor ao esforço, ao trabalho, à partilha, à amizade, a partilha dos bens e da vida em relação aos outros. Estes presentes não existem dentro do saco do Pai Natal.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Deus não estava em casa

Conto de Natal...
Um homem rico, muito devoto, cumpridor dos seus deveres humanos e religiosos, desejava tanto encontrar-se com Deus pessoalmente que um dia disse para consigo que era capaz de dar a vida para que esse encontro se realizasse. Viveu muitos anos com essa esperança.
Desejo manifestado desejo realizado. Um dia o homem cai à cama com uma valente pneumonia que lhe cerceou a vida material. Morreu com aquele pensamento que lhe alimentou a oração e os passos durante muito tempo da sua vida neste mundo.
Ao chegar ao céu andou por todos os lugares paradisíacos desse lugar que tanto lhe tinham falado na vida inteira enquanto andou pelo mundo, cada lugar do céu era mais bonito do que o outro, olhava para todos os cantinhos, procurava a face de Deus. Os anjos que encontrava, a cumprirem os seus deveres em nome de Deus, respondiam seguros à pergunta onde está Deus, que estaria onde gosta de estar todos os dias. Muito bem, a informação foi confirmada por todos os anjos, em nenhum deles encontrou contradição. 
Perante tão seguras indicações, imaginou os aposentos de Deus, ricamente ornamentados, com belos sofás, candeeiros de talha dourada em folha de ouro fino, uma estante com os livros delicadamente impressos com a vida dos grandes santos desde os apóstolos até aos últimos Papas, rodeado de criados bem apresentados, bem vestidos pelos modistas famosos, algumas bebidas num canto da sala principal num luxuoso bar com a melhor garrafeira do céu para onde tinham sido levadas todas as espécies de bebidas caras e as mais apreciadas pelos humanos... Imaginava que devia haver nos aposentos de Deus um quarto de dormir fora de série e que só podia ter lá as melhores comodidades, pois, a importância de Deus assim o exigi.
Alguns dias passaram e já tinha visto mais ou menos tudo e conversado com imensa gente no céu. Mas faltava-lhe cumprir o seu desejo, encontrar Deus face a face. Finalmente chegou ao corredor que o leva aos aposentos de Deus. Ao fundo lá estavam os sinais que pareciam indicar que aqui seriam os aposentos de Deus.
O seu coração pulsava mais forte que nunca, mas não sentia medo de Deus, sempre desejou este encontro, nada o podia deter para que se realizasse o que o moveu durante o tempo em que viveu a sua religião com uma piedade irrepreensível. Finalmente ia estar com Deus face a face. 
Chegando ao lugar que seguramente lhe parecia serem os aposentos de Deus, entrou pé ante pé para dentro de um quarto enorme, que estava escuro e vazio. Deus não estava neste lugar.
Saiu de rosto caído e triste. Ao primeiro anjo que encontrou perguntou-lhe por Deus, que prontamente e em júbilo lhe respondeu, os aposentos de Deus são estes aqui, mas Ele nunca está em casa, anda pela terra no coração de tantas pessoas, às vezes alegre, outras triste, umas com saúde, outras doente, muito doente, nalguns dias é criança, jovem, adulto e idoso, tantas vezes está alimentado e feliz, outras vezes fica esfomeado e infeliz, também numa porção do seu tempo tem abrigo, mas outras tantas ocasiões deita-se no canto da rua à chuva e ao frio, quando há guerra, está em todos os lados, derrama sangue e morre, por isso, Ele é o olhar que brilha, o olhar melancólico de tristeza, é o sorriso e as lágrimas, as mãos que cuidam e os pés imparáveis para encontrar a vida em todos o recantos da existência… Ele é um tudo em todos e para todos.
Assim sendo, o anjo concluiu o diálogo com o seguinte exemplo: acabei de ler no jornal do céu, que neste preciso momento, Ele tinha nascido numa gruta e que estava cheio de frio deitado nas palhas, envolto em panos e aquecido pelo bafo dos animais.
Depois da brilhante reflexão do anjo, o nosso homem, percebeu que foram imensas as vezes em que se tinha encontrado com Deus face a face ao longo de toda a sua vida. Sorriu feliz e quis ser também um anjo para ajudar Deus a ser tudo em todos.
JLR

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Manifesto de Natal contra a paz dos túmulos

1. A paz não pode ser uma farsa. Quando a paz é uma farsa não é paz e se for é como a paz dos túmulos. Bela por fora podre por dentro.

2. A avalanche natalícia de jantares solidários e a prática geral da cabazada para ajudar as famílias no Natal, são uma manifestação dessa tal farsa da paz. Os farsantes dessa paz, desejam-na e a alimentam-na para que tudo se mantenha sossegado, para que ninguém reclame que tem direitos, que precisa de trabalho e dignidade. Uma vergonha cada reportagem na televisão sobre estes eventos. Porque, são momentos humilhantes para quem é vítima de uma instrumentalização indecente. Esta paz fica bonita na televisão. Está o presidente. O secretário. O jogador. O líder. O chefe… Esta paz é branca. Esta paz é pálida. Está moribunda.  

3. Estas ações servem para criar uma cortina onde se esconde a miséria de um povo espoliado e votado à desgraça da desigualdade que estes zelosos farsantes da paz levaram a cabo pelas medidas injustas, pela incompetência diariamente confirmada, pela insensibilidade do que é precisar de um trabalho digno para vencer as dificuldades e ser autor da sua própria história. É um crime a paz podre dos túmulos quando a sociedade é desigual e quanto está repleta de injustiças.

4. O discurso de que haverá um Natal mais feliz para alguém porque se dá um cabaz perante as câmaras da televisão, é uma infâmia, porque se pretende esconder as graves necessidades que passam diariamente tais pessoas. Assim, com estas práticas não se dá conta, não se pensa nem se faz pensar como resolver as graves violências que são levadas a cabo contra as pessoas, incluindo várias vezes o próprio Estado. Deveríamos suspender o Natal durante alguns anos até que terminasse esta lógica da paz dos túmulos.
5. O lugar do povo que recebe bem, a exaltação das paisagens e do clima temperado ou de microclimas, é por vezes, uma só face de uma moeda, que ajuda a distorcer a realidade e que ajuda a esconder os perigos que nos assistem, o desmazelo, a incivilidade e a desigualdade social. A paz que se anuncia é apenas um rebuçado. Por isso, a paz devia ser proibida, quando só aparece no Natal para salvar a pele e a face de alguém. Esta paz que se organiza interesseiramente não é seguramente a do Natal. Também não é a que desejo nem muito menos aquela de que almeja o mundo e a sociedade onde vivemos, porque se for, nunca passaremos da paz dos túmulos.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Mais um Natal ensanguentado?

1. Infelizmente, esta pergunta não me sai da cabeça. Os natais, são sempre a festa da vida, da tolerância, da universalidade, do apelo ao amor para todos e entre todos. Porém, não é isso que se vê e que se sente. As matanças continuam, porque a desvalorização da vida humana é uma sombra que sempre acompanhou e não parece que vá deixar de fazer parte da humanidade. Mata-se um ser humano como se mata um mosquito que poisou sobre a parece onde dormimos e ameaça vir contra nós com uma ligeira picadela.
2. Os avanços tecnológicos que nos assistem são surpreendentes, a investigação e criatividade científica são maravilhosas, a beleza de tanto altruísmo é desconcertante por todo o lado, a riqueza humana é incalculável… Mas, persiste o pior da humanidade, que se define pelo seu contrário, a sua desumanidade, que a faz matar, desalojar e esfomear com uma descontração que nos deixa boquiabertos. A frieza com que se mata não encaixa nos meus parâmetros humanos.

3. Mais terrorismo, mais feridos, mais mortos inocentes todos os dias… Tantos semelhantes nossos a quem lhes é roubada a dignidade e a vida, que deve fazer pensarmos e rezarmos com muita confiança no Mistério da vida. Porque, até deve ser isso mesmo a razão principal desta desvalorização da do ser pessoa em mim e nos outros. A perda da transcendência e o horizonte divino do ser gente conduz a humanidade para esta tragédia, que faz dobrar os sinos da morte quotidianamente.

4. Os nossos olhos já estão ficando cansados. O nosso coração sabe o que é essa a dor dos outros e faz-nos infelizes por não podermos fazer nada, por não estarmos lá para limpar as feridas, para amparar quem não queria morrer e chorar com tantos que nesta hora choram porque o ódio, a insensibilidade perante o valor da vida, rasgou-lhe a carne e cortou-lhes cerce os sonhos. Não podemos continuar a fazer festa enquanto esta tragédia da desumanidade continuar. Não terão todo o sabor e a magia as iguarias do Natal enquanto outros com o mesmo direito do que nós, não tiverem tudo aquilo que nós temos. É justo que assim seja. 

5. Se reivindicamos a beleza do mundo e tudo o que a humanidade tem de bom, é importante que saibamos que tudo o que há de mau também nos diz respeito. A criança ferida ou morta, é também por «minha» causa, diz respeito a todos nós. Não posso ser feliz se sei disso, se vejo isso. Se um membro do nosso corpo sofre, todo o corpo sofre, por isso, enquanto uma parte da humanidade, por mais pequena que seja, for esmagada pelo ódio, pelo terrorismo ou pelo fanatismo, toda a humanidade sofre e em termos de responsabilidade, toda a humanidade é responsável por toda a humanidade. Nada de transcendente, é certo, mas relembro isso mesmo, o que nos devia fazer mover como seres humanos que somos tudo em todos e por conseguinte, responsáveis uns pelos outros.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

O sangue de São Gennaro não se liquefez este ano

1. O sangue de São Gennaro ou São Januário, Patrono de Nápoles, liquefaz-se três vezes em cada ano, sempre que tal acontece os crentes aspiram boa sorte. Por sinal, uma dessas vezes, acontece a 16 de dezembro de cada ano. As outras duas, acontece no primeiro domingo de maio e 19 de setembro dia da festa do santo. Este não aconteceu, o sangue manteve-se inamovível. Assim sendo, varre agora um arrepio sobre os crentes que levam o fenómeno muito a sério, má sorte vem por aí abaixo para a humanidade.

2. O mais inquietante é que algumas vezes no passado quando não aconteceu a liquidificação, surgiram desgraças graves para a humanidade. Num determinado momento no passado, não se liquidificando, abateu-se sobre a Europa uma Peste Negra e quando se deu a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, o sangue manteve-se congelado.

3. Mais curioso ainda, foi que no ano passado o sangue de São Januário liquefez-se nas mãos do Papa Francisco, pela ocasião da sua visita a Nápoles, após um discurso forte contra o desemprego jovem e contra a Máfia, que em Nápoles tem grande implantação.

4. Não quero com isto alarmar ninguém. Mas apenas dar conta do fenómeno e se quisermos, alertar para o mundo em que vivemos, onde predominam sinais inquietantes de desgraças por todo o lado. Não precisamos que o Sangue de São Januário se liquefaça ou se mantenha endurecido, para vermos que a tragédia da humanidade continua a marcar o ritmo da vida. Basta mirar com olhos de ver a desgraça de Alepo, na Síria, (nada de mais tenebroso do que ver as imagens de crianças, abandonadas, feridas, em lágrimas e mortas pelo chão), o drama dos refugiados, o terrorismo e a insegurança do mundo… Mais ainda todos os focos de violência por todo o lado, as injustiças, a desigualdade, o desemprego e a pobreza. Sem contar com a calamidade da propaganda, da caridade fingida e instrumentalizada, os ódios de uns contra os outros, a falsidade que engana meio mundo, as divisões familiares, as crianças alimentadas com valores falsos tipo presentes à pai natal e tudo um conjunto de dramas que conduz a humanidade para a desumanidade.  

5. Oxalá que a humanidade aprenda a ler a realidade e que aprenda que toda a desgraça diz respeito a todos e que cada um pode dar um bocadinho de si para minorar o sofrimento daqueles que estão à sua volta.

Um obrigado universal

De nada, Papa Francisco...
O Papa Francisco perante os cardeais que lhe deram os parabéns há dois dias pela ocasião do seu aniversário (80 anos):
«Há alguns dias, me vem à cabeça uma palavra que parece feia: velhice. Assusta. Mas lembro do que disse a vocês em 15 de março, no nosso primeiro encontro. A velhice é sede de sabedoria, esperamos que também para mim seja assim. Também penso em como chegou tão depressa, e penso no poema de Plínio: passo silencioso, e a velhice chega de uma só vez. Mas se pensar como uma etapa da vida para ter alegria, sabedoria e esperança, alguém começa a viver. E penso em outro poema que disse a vocês naquele dia: a velhice é tranquila e religiosa. Rezem para que a minha seja assim: tranquila, religiosa e fecunda e também alegre. Obrigado».

sábado, 17 de dezembro de 2016

Um Natal como se fosse hoje

Porque já vai sendo Natal... Sejam felizes sempre, nunca prejudicando ninguém.
Aquele Menino Deus
com olhar terno e suave
chora sem palhas e sem panos
ali no meio dos escombros
da indiferença
e do ódio,
foi despojado 
não tem patrono
nem luz nem mãos de sua mãe
que levante aquele corpo rei
nu e sujo pelo pó do abandono.

Os "Herodes" de hoje e seus grilhões
também não querem saber de estrelas
matam crianças aos milhões,
as hospedarias fecharam sem jus  
jazem cheias de ganância e de egoísmo
Não há lugar para Jesus!

A história conta que há porém
um Menino Deus que dorme
é a ternura desejada pelo sorriso
é a serenidade na ponta dos dedos frios
nas barbas do poder
que não o encontrou
está cego o seu olhar sem compaixão
são os poderosos confundidos na vaidade
gritam não pode ser
um Deus nascer na maior simplicidade.

Mas é real
a frieza de uma gruta naquele além
testemunhou Belém para os séculos
e até vimos por toda a parte
a notícia que nos satisfaz
nasceu para sempre o sinal divino
Jesus é a paz!

As estrelas falam com amor
sobre o Mestre do sonho
de que todos somos Magos Reis
que pela visita são humanidade universal
no presépio que se constrói entre o céu e a terra
engalanado pela luz dos corações
Onde está Jesus?
- tão simples e pequenino
se é gesto, se é palavra, se é pão, se é casa, se é roupa e se é paz
tudo se bem vivido
ao mundo inteiro satisfaz.
JLR

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A «pós-verdade»

1. O dicionário de Oxford elegeu para palavra do ano de 2016 a palavra «pós-verdade». Não parece ser uma palavra muito usado na linguagem comum, mas gosto da palavra e da escolha, porque revela-nos uma prática muito comum na humanidade de hoje, a construção ou manipulação da sociedade não em factos e conclusões verdadeiras, mas com base em possibilidades, promessas e estereótipos que entram facilmente na moda. Por isso, vamos tomar dois exemplos, a política e a religião, para ilustrar como esta palavra está bem presente na vida da sociedade de hoje.

2. No domínio da política, em todos os seus contornos, vemos exemplos que nos fazem perceber claramente como esta palavra tem toda a razão de ser. Daí que não nos admira que as sociedades estejam hoje a eleger figurões com discursos idiotas, xenófobos, populistas e com promessas absurdas que se forem cumpridas mergulham o mundo num apocalipse.
Por isso, já vimos o discurso do medo utilizado até à saciedade contra os negros, contra os refugiados ou deslocados da guerra e do terrorismo. Mas, não nos falta também o discurso do diabo e agora dos Reis Magos que vão seguramente trazer a desgraça negra em vez de trazerem ouro, incenso, mirra. Há um presépio na cabeça de cada idiota feito com as figuras habituais, mas de canelas para o ar.
Neste campo da política a «pós-verdade» sorri quotidianamente e ainda mais se diverte quando se aproximam eleições. Elas só promessas e mais promessas que ninguém acredita e até dá azo à criatividade geral dos mais atentos, fazendo anedotas ou piadas sobre as mesmas e sobre os seus autores. Por exemplo, até de cacifos para os sem abrigo se lembraram… Não seria melhor lembrarem-se de emprego, casa, pão, roupa… Numa palavra, dignidade.
Por aqui, na política, também se vê como os poderes uma fez eleitos se esquecem claramente das promessas, do povo, da justiça e do bem comum. Volta tudo ao mesmo, políticas que beneficiam os grupos instalados e as famílias que sempre se alimentam à conta do bem público que nasceu para ser destinado a todos, mas uma vez usurpado por alguns perde a sua originária vocação. A «pós verdade» na política não morre solteira, mas convive feliz e enamorada todos os dias.   

3. No campo da religião predomina o discurso da «mudança», da «comunhão», da «caridade» e da «fé». São palavras fortes e sempre recorrentes. Mas que depois na realidade prática não têm consistência nem muito menos expressão visível que nos faça seguir como exemplo e dizermos, benza-te Deus... A «pós verdade» no campo da religião encontra seguramente uma certeira aplicação.
Tudo continua na mesma, porque «mudança de coração» é bom, mas para os outros, funciona como a inscrição das tascas com os bonecos bonacheirões de manguito em punho a dizerem aos distraídos clientes: «fiado só amanhã».
Outra palavra da moda e também muito badalada, mas que é uma excelente «pós-verdade» é a palavra que nenhum discurso dispensa, a «comunhão». Faz bem aos olhos, mas prejudica o juízo, porque quem enche a boca com tal palavra não se trava de fazer aceção de pessoas, a menosprezar a diferença e a não saber conviver com o contraditório. Até porque, diálogo e transparência, são virtudes boas mas sempre para os outros.
Mas há mais, por exemplo, os estereótipos sobre a «caridade». A religião, considera esta a menina dos seus olhos. Mas, faz brinca à caridade, deixa apodrecer património que pertence a todos, não fazendo nem deixando fazer nada para que tal esteja ao serviço dos mais pobres. Por isso, continuam jogados no olho da rua uma porção de gente desabrigada e esfomeada. E a tal caridade pouco ou nada se importa com isso.
Outra palavra que manda sempre lá para os fundos a «pós-verdade» é a palavra fé. Sim a fé, porque a maioria dos discursos que a pronuncia, tem em vista a ideia absurda que ela apague o raciocínio, de tal forma, que a inteligência é um bem que se pode atrofiar e que a dedicação, o esforço que a inteligência exige, sejam canalizados para o domínio da fezada, da ignorância e da dependência, porque tal faz bem à imposição do poder e ao domínio de meia dúzia que se destacou ou foi destacada pela sorte.

4. A «pós-verdade», é um sinal da verdade de hoje, que não é assumida pelo uso da palavra na linguagem comum, mas pelas atitudes que comandam a vida de todos nós. Ela vem pela política, pelos partidos, pela religião, pela economia, pela família, pelos grupos, por cada um individualmente e por tudo o que faz mexer a vida e mundo.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Um veneno chamado clericalismo

Nota da redação do blogue: Mais umas «vergastadas» sobre o clero, os padres. Homilia do Papa Francisco na Casa Santa Marta 13 de dezembro de 2016, que fazemos eco neste banquete. Foi tirado da Rádio Vaticano. Vale a pena ler com atenção. Serve para padres, mas também para todos os cristãos. Muito mal andamos com a chama do clericalismo em punho, porque parece ser a resposta mais fácil ao anticlericalismo. E como andamos tão errados. A principal culpa do anticlericalismo está dentro do clero. Ainda esta semana alguém me contava que a sua filha jovem não quer ouvir falar de igrejas e nem muito menos de padres, porque na primeira comunhão foi literalmente massacrada 3 horas dentro da igreja… Oxalá, estas palavras do Papa nos façam despertar para a sobriedade nas palavras e que o mistério sacerdotal exista sempre em função do bem das pessoas. Vaidades, soberbas e prepotências, são males, «pecados» anacrónicos que não libertam ninguém, mesmo que por momentos encham o ego de alguém. Vamos a isto…  
«Mas uma lei que eles refizeram inúmeras vezes: tantas vezes até chegar a 500 mandamentos. Tudo era regulado, tudo! Uma lei cientificamente construída, porque essas pessoas eram sábias, conheciam bem. Faziam todas essas nuances, não? Mas era uma lei sem memória: tinham esquecido o primeiro mandamento, que Deus deu ao nosso pai Abraão: “Caminha em minha presença e seja irrepreensível”. Eles não caminhavam: sempre estiveram parados nas próprias convicções. E não eram irrepreensíveis!»
Eles – prossegue o Papa – “haviam esquecido os Dez Mandamentos de Moisés”: “com a lei feita somente por eles”, “intelectual, sofisticada, casuística”, “cancelam a lei do Senhor”. E a vítima, assim como foi Jesus, todos os dias é o “povo humilde e pobre que confia no Senhor”, “aqueles que são descartados”, destaca o Papa, que conhecem o arrependimento também se não cumprem a lei, mas sofrem estas injustiças. Sentem-se “condenados”, “abusados”, sublinha outra vez o Papa por quem é “presunçoso, orgulhoso, soberbo”. “Um descarte destas pessoas”, observou o Papa, foi Judas:
“Judas foi um traidor, pecou fortemente, eh! Pecou com força. Mas então o Evangelho diz: “Arrependido, foi a eles dar de volta as moedas”. E eles o que fizeram? “Mas você foi nosso ‘sócio’. Fica tranquilo... Nós temos o poder de perdoar tudo!”. Não! “Te vira. É um problema teu”. E o deixaram sozinho: descartado! O pobre Judas traidor e arrependido não foi acolhido pelos ‘pastores’. Porque eles haviam esquecido o que é ser um pastor. Eram os intelectuais da religião, aqueles que tinham o poder, que levavam adiante as catequeses do povo com uma moral feita pela sua inteligência e não a partir da revelação de Deus”.
“Um povo humilde descartado e surrado por esta gente”: também hoje, é a observação de Francisco, acontecem estas coisas na Igreja. “Há aquele espírito de clericalismo”, explica: “os clérigos se sentem superiores, se afastam das pessoas”, não têm tempo para escutar os pobres, os que sofrem, os presos, os doentes”:
“O mal do clericalismo é uma coisa muito feia! É uma nova edição desta gente. E a vítima é a mesma: o povo pobre e humilde, que tem esperança no Senhor. O Pai sempre procurou se aproximar de nós: enviou seu Filho. Estamos esperando, uma espera alegre e exultante. Mas o Filho não entrou no jogo desta gente: o Filho foi com os doentes, os pobres, os descartados, os publicanos, os pecadores – é escandaloso isso... – as prostitutas. Também hoje Jesus diz a todos nós e também a quem está seduzido pelo clericalismo: “Os pecadores e as prostitutas entrarão primeiro no Reino dos Céus”. 

São João Cruz e os seus pensamentos cheios de luz

Espiritualidade...
Santa Teresa de Ávila disse ser «uma das almas mais puras da Igreja». Por isso, deixe-se encantar pela sua divina sabedoria… A preparação para o Natal, deve exigir-nos alimento espiritual, para que não fique só e apenas o folclore da festa.
  1. Ao entardecer desta vida, serás examinado no amor.
  2. Onde não existe amor, coloca amor e amor encontrarás.
  3. Quanto mais uma alma ama, tanto mais perfeita é naquilo que ama.
  4. A alma que caminha no amor não se cansa.
  5. Com mais abundância e suavidade se comunica Deus nas adversidades.
  6. Sem caridade, nenhuma virtude é graciosa diante de Deus.
  7. Um só pensamento do homem vale mais que o mundo todo; portanto, só Deus é digno dele.
  8. Procurai lendo e encontrareis meditando; chamai orando e abrir-se-vos-á contemplando.
  9. Para se enamorar de uma alma, Deus não põe os olhos na sua grandeza, mas na grandeza da sua humildade.
  10. Deus não obra as virtudes na alma sem a sua cooperação.
  11. Um ato de virtude gera na alma suavidade, paz, consolação, luz, pureza e fortaleza.
  12. Deus humilha muito para elevar muito.
  13. Quem age com tibieza está próximo da queda.
  14. Grande mal é olhar mais aos bens de Deus que ao próprio Deus.
  15. Se queres chegar à posse de Cristo, jamais O procures sem a cruz.
  16. Mais do que quantas obras possas fazer, Deus prefere de ti a pureza de consciência, ainda que no menor grau.
  17. Quem cai estando só, caído a sós fica; e em pouca conta tem a alma, pois unicamente em si mesmo confiou.
  18. A sabedoria entra pelo amor, pelo silêncio e pela mortificação; grande sabedoria é saber calar e não olhar aos ditos, aos feitos e às vidas alheias.
  19. Quem não procura a cruz de Cristo não procura a glória de Cristo.
  20. Agrada mais a Deus uma obra, por pequena que seja, feita às escondidas e sem desejo de que saibam, do que mil feitas com desejo de que os homens as conheçam.
  21. A maior necessidade que temos para progredir é calar o apetite e a língua diante do grande Deus, pois a linguagem que Ele mais ouve é o amor calado.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Breve apontamento sobre as Missas do Parto

Começam já amanhã... 
Puuuuuu… Puuuuu. Puuuuu…. Não é para agrupamento de povo, pagamento de leite ou casa a arder, que o búzio chama às duas horas da madrugada nas Fontes e Furnas da Ribeira Brava. Todos conhecem aquela voz a tais horas da noite.
Traduzida numa linguagem popular, quer dizer: Para a "Missa do Parto"… Para a "Missa do Parto"… Para a Missa do Parto". E em todas as casas acordam pessoas e luzes. (…). Reúnem-se todos no terreiro da vereda do João Pequeno ou da do Manuel das Ascensões e, quando já não esperam mais ninguém, põem-se em marcha para a Vila. Duas horas de viagem, por caminhos serenados e ladeiras de matar. Avançam ao som dos instrumentos regionais, dos búzios e de muitas dezenas de castanholas. (…).
Todos tocam acordando as gentes. À medida que o grupo avança, outros se vêm juntar, de modo que ao chegarem ao Pico da Banda de Além e à Cruz, ecoam na Vila, dando a impressão de que um bando de grilos gigantescos a vêm invadir. Contudo, ninguém tem medo. (…) Reunidos todos os tocadores de castanholas, começam então a dar voltas à pequenina Vila e não há quem resista, quem deixe de ir à "Missa do Parto". São as festas do Natal que começam. Daí a momentos, às quatro e meia da manhã, estarão todos, ricos e pobres, senhores e plebeus, na igreja, pequena de mais para tanta gente, a cantar com todo o calor: «Ao Menino nascer./ Que gosto teremos! / Oh! Quanto felizes /Todos nós seremos! / Anjos e pastores, / Vinde em harmonia, / A louvar o parto / Da virgem Maria».
In O Natal na Madeira, Pe. Pita Ferreira

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Papa Francisco afirma estar para pouco tempo

1. Está a fazer grande furor novamente na comunicação social a seguinte afirmação do Papa Francisco: «Tenho a sensação de que o meu pontificado será breve, quatro, cinco anos. É como uma sensação, algo vaga», refere, numa das entrevistas citadas no documentário ‘Papa Francesco: come Dio comanda’ (Papa Francisco: como Deus lidera), que foi transmitido ontem na ‘Sky Atlantic’.
Nada de novo debaixo do sol. Várias vezes o Papa desde o início do seu pontificado afirmou isso. Não por nenhuma razão especial, mas pelas evidências da natureza. Primeiro, no próximo dia 17 de dezembro completa 80 anos. Segundo, porque sempre acusou uma certa debilidade de saúde, embora nos surpreenda o seu imparável movimento e a sua agenda todos os dias está completa.

2. No entanto, não podemos descartar a certeza que a missão do papado deve ser uma tarefa muito envolvente e que deve provocar um desgaste extraordinário, ainda mais quando se trata sempre de pessoas de idade avançadas. Por isso, não me admira nada que o Papa frequentemente faça afirmações deste teor se para tal lhe for solicitado. Ainda mais se considerarmos ser um homem que não faz rodeios para dizer as palavras nem muito menos olha de esguelha para ver se pode falar assim ou assado, como fazem tantos outros eclesiásticos que se limitam a dizer generalidades por causa do medo da comunicação social e dos poderes políticos onde exercem o seu múnus apostólico.

3. Um outro dado que não devemos descurar para a análise desta frase, relaciona-se com a sua ação reformista, a preocupação ecuménica, as críticas certeiras quase quotidianamente aos cardeais, aos bispos e aos padres. Obviamente, que não se deve meter tudo no mesmo saco. Há de uns e outros. Todos sabemos de uns desleixados, regídos apegados à letra da lei, desumanos, distantes da realidade, insensíveis aos cansaços e problemas das pessoas concretas, comodistas e pecadores como toda a gente. Mas, há outros dedicados e que carregam a cruz da pastoral todos os dias de forma irrepreensível e que merecem uma palavra de apreço por essa causa do amor ao trabalho de Cristo. Porém, certo é que o Papa não tem medido as palavras para denunciar a rigidez, a vaidade, os luxos e a sede de poder que tantas vezes comanda o clero em todo o mundo. Antes que me acusem do que quer que seja, deixo já aqui a confissão do meu pecado, devo ter um pouco dessas coisas todas e às vezes devo estar num campo ou noutro. Não sou perfeito, mas esforço-me para vencer muitas tentações e sempre que possível tomar o partido do bem das pessoas. Sempre com muitas falhas.

4. Seguro é que tudo isto deve provocar anti corpos e reações terríveis que devem cair como chuva em cima da mesa de trabalho do Papa Francisco. Daí que não me admira que acuse cansaço e até desencanto ou que tenha a sensação que está nesta missão para poucos anos. Nós que não estamos envolvidos diretamente no ver e sentir do Papa, sentimos esse desalento quando vemos que a rigidez continua e que uma porção do clero pouco ou nada liga àquilo que diz o Papa. Que me perdoem quem não merece que se diga o seguinte, mas parece que não leem, não ouvem notícias e se sabem do que proclama o Papa Francisco fazem ouvidos de mercador ou encolhem os ombros, como que dizendo «ele está longe não sabe que eu existo». É caso para dizer-se, podem pensar assim em relação ao Papa, mas com Deus não.

5. Apesar deste ambiente esquisito que envolve a Igreja Católica, deve ser salientado que devemos acreditar que muitas das reformas começadas pelo Papa Francisco são imparáveis e não haverá nenhuma força integrista que faça parar este tsunami que varre a Igreja, que de certeza a conduzirá pelos caminhos de Deus, do amor pela vida e pelo mundo. Esta riqueza chamada Francisco, ninguém deste mundo vai conseguir sonegar nem muito menos os que sentem saudades da imagem poderosa e imperialista da Igreja Católica.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

António Guterres, o "Papa Francisco civil"

Nos melhores tempos da minha vida, quando fazia a licenciatura em Teologia, na surpreendente Lisboa, algumas vezes saboreei o prazer de estar na Assembleia da República para ouvir o Primeiro Ministro António Guterres, eram os tempos da "picareta falante", expressão que definia a eloquência do governante António Guterres. Realmente, o homem brilhante no confronto parlamentar, vencia todos os debates aos seus adversários com uma facilidade impressionante. 
Nesse momento de entusiasmo do espetáculo que era assistir aos debates, podíamos perceber a bagagem cultural e a sensibilidade social de António Guterres. Depois comoveu-me a sua regular pratica religiosa católica, o seu sofrimento com a doença da esposa e consequente morte e a preocupação constante com os mais débeis deste país, cujas políticas sociais, levadas a cabo nos seus mandatos, segundo dizem, contribuiu para aumentar o défice. 
É este homem que hoje será entronado como Secretário Geral das Nações Unidas. O padre Vítor Melícias, o seu amigo e confessor, já disse o que este feito representa para António Guterres e para humanidade: "Ele tem desenvolvido imensas funções, presidente da Internacional Socialista, foi primeiro-ministro, alguns queriam que se candidatasse a Presidente da República. Eu julgo que este tipo de funções são aquelas que ele sempre desejou e para os quais tem um perfil efectivamente, estar ao serviço da Humanidade e dos valores". 
É esta vertente de Guterres, tão profundamente humana e sempre disponível para memorar o sofrimento dos outros, que nos garantem que será o homem certo num lugar tão importante para a paz no mundo e o progresso da humanidade. E oxalá que a expressão "o Papa Francisco civil" brilhe tanto para o mundo, como brilhava imenso a outra da "picareta falante", que permitiu ao antigo Primeiro Ministro de Portugal ser tão assertivo e combativo na Assembleia da República. Felicidades para António Guterres e para o seu mandato em proveito da paz no mundo e a tranquilidade dos povos. 

sábado, 10 de dezembro de 2016

O poema é uma terra

à terra que me fez do barro cozido na roda do amor, é o Jardim da Serra...
Um poema acontece numa Serra
que é terra sobre terra 
por onde emerge o Jardim
- árvore a árvore -
pomares e florestas
o acompanham.

Bendita a hora 
em que palavra a palavra
o poema vemos 
- como se Deus com os anjos
pelo espelho nos reflete
e nós humildemente o fazemos.
JLR 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O amor e o perdão o essencial do ser cristão

Embora esteja esta advertência "em exclusivo para os seguidores desta página", na página do Facebook do Luís Osório, não resisti a não surrupiar-lhe o texto da jornalista Alberta Fernandes, que cheguei a ver pessoalmente nas missas da paróquia onde eu participava em Lisboa nos tempos em que estudei Teologia. O tema quase que se impõe por si mesmo, para que eu cometa este "pecado" contra o Luís Osório, porque sei que pela pessoa que ele é me irá perdoar seguramente. Serviu este texto para as minha homilias do dia da Imaculada Conceiçao... Por isso, fica aqui a mensagem da Alberta Fernandes para as pessoas que a pediram e que não têm acesso à página no Facebook do Luís Osório. Também tomei a liberdade de lhe dar um título. Aproveitem bem as seguintes palavras. Obrigado caro Luís Osório pela sua liberdade e abertura de espírito e cara Alberta Fernandes, grato pelo seu testemunho livre e tão conscientte do que é ser cristão de verdade... Esta dos "cristãos em part time vai ficar"...
Há pouco tempo dei-me verdadeiramente conta que, embora Portugal seja um país tradicionalmente católico, é cada vez menor o número de pessoas que se sentem cristãs e que praticam a sua religião. 
É ainda menor o numero de pessoas que se assumem como católicas no seu dia a dia, que o fazem naturalmente como algo que faz parte intrínseca da sua forma de estar na vida.
Olho em volta, e vale o que vale, sinto que pertenço a uma minoria que é vista como conservadora, beata e ultrapassada. 
A Irmã Guadalupe viveu 5 anos em Aleppo durante a guerra e há uns dias tive o prazer de a ver e ouvir. Interpelou-me violentamente. Falou dos horrores da guerra e na autêntica perseguição que está a ser feita aos cristãos na Síria e no Iraque sem que o mundo sequer pestaneje. 
Mas o que mais me atingiu foi a forma como falou de nós, cristãos do Ocidente, da nossa vida confortável, dos nossos valores tantas vezes invertidos, da forma como estamos a criar os nossos filhos. 
Falou em cristãos envergonhados, escondidos, em part-time. Cristãos de missa de domingo. 
A Irmã Guadalupe conheceu muita gente com orgulho em afirmar-se cristão, descreveu o sorriso de quem está enamorado por esta forma de vida e o demonstra nas acções diárias. 
Quem dera que fosse fácil, mas é mesmo um convite radical. 
Quem o aceita a sério torna-se Santo, capaz de dar exemplo com a própria vida.
E não são precisas condições excepcionais como no Médio Oriente, onde, como diz a Irmã Guadalupe, ser cristão é ser testemunha e ser testemunha é ser mártir.
No Ocidente tornamo-nos cristãos acomodados.
Falo de cristãos como eu, pecadores com um longo caminho a percorrer.
Um caminho que às vezes se traduz num passo em frente e dois atrás.
Cristo disse que veio pelos doentes, pelos pecadores. Ou seja, a questão não é sermos menos cristãos porque pecamos.
Somos cristãos porque, com Cristo, tentamos viver sem ficar condicionados pelo nosso pecado, descobrimos que o nosso pecado não nos define e por isso, com Ele, encontramos mais sentido para a vida, para os outros e para nós mesmos.
Daí a possibilidade de podermos sempre recomeçar.
Daí também a radicalidade de cristianismo, Amar (como somos Amados a cada momento, conscientes de que Deus nos quer bem e da a vida a cada instante) e Perdoar (como somos perdoados, todos os dias, se o pedirmos).
Seriamos tão mais felizes se tivéssemos no topo dos nossos valores durante as 24 horas do dia o Amor e o Perdão.
No entanto são tantas as vezes que nós cristãos O interpelamos com a frase “Oh God make me good but not yet.“
PS : Obrigada Sacha A Ramos ;-)
Um Santo Natal
Alberta Marques Fernandes