Convite a quem nos visita

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O poder ao serviço da felicidade

Comentário ao domingo XVII Tempo Comum
A 1.ª leitura deste domingo vem dar-nos conta do início da história de Salomão, o filho de David que a memória do povo de Deus consagrou como paradigma de sabedoria, a ponto de lhe atribuir a autoria de boa parte da literatura bíblica sapiencial.
Salomão em sonho - forma de comunicação muito utilizada por Deus com a humanidade na tradição bíblica - implora a adesão interior à vontade de Deus numa total sintonia com o seu desígnio de salvação. Nisto consistia a sabedoria que o rei Salomão ansiava para governar o povo de Deus. Se este sentimento estivesse presente no coração dos governantes, nós teríamos uma sociedade mais justa e mais dentro dos parâmetros do bem-estar que se deseja para todos os povos. O que se deseja seriam governantes interessados apenas e só no bem para todos. Governantes menos envolvidos em negociatas e emaranhados numa infindável rede de interesses do grupo ou do partido a que pertencem. Governantes menos envolvidos na lógica de que os interesses pessoais são a regra para todas as medidas. Salomão revela que só a sabedoria pode fazer com que tenhamos governantes guiados pela lógica do serviço a todas. Precisamos de líderes que governem com a verdade e a justiça como luz que ilumina os dias de quem governa e de quem é governado. Para isto não há alternativas.  
No Evangelho temos as parábolas sobre o Reino de Deus, a do tesouro e a da pérola, a da rede lançada ao mar que é recolhida e a conclusão do discurso com um elogio aos escribas que se tornaram discípulos. Estes serão os mais instruídos do grupo dos discípulos, que são capazes de recolher do tesouro da Palavra de Deus coisas velhas (alusão ao Antigo Testamento) e coisas novas (Novo Testamento), isto é, serão eles que farão a conciliação entre a literatura antiga e a novidade do Evangelho.
De resto, Jesus pretende ensinar que o Reino de Deus é algo muito precioso e para O viver não pode ser de forma marginal e episódica, é algo vital e precioso que requer uma entrega radical como modo de ser e de estar na vida. O desafio que nos é feito, é que sejamos capazes de descobrir todo valor do Reino de Deus e na vida concreta do mundo sejamos capazes de levar à prática, com coragem e firmeza, o sentido da vida que «o tesouro do Reino» nos fez descobrir.
Se somos felizes, façamos os outros felizes, se a verdade nos liberta lutemos contra toda a mentira, se a justiça nos realiza lutemos contra toda a injustiça, se a desesperança deprime lutemos contra toda a esperança, se o amor edifica então edifiquemos com amor... Só assim o Reino de Deus é presença na vida concreta de cada pessoa. Esta é uma definição bem concreta do que é o Reino de Deus neste mundo.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Carta aberta a um Deus desconhecido

«Deus e eu» com Ivo Caldeira. Obrigado por este manjar de Deus...
Para início de conversa, gostava que soubesses que, para alguns dos meus conhecidos, não estás muito bem visto, por estes dias. O pessoal não se conforma com tanta injustiça, com vidinhas menores e, pior, com os horrores das guerras, doenças e de outras situações negativas com que todos os dias somos obrigados a conviver à hora dos telejornais. Para eles há só um responsável pela situação a que chegámos: Tu. 
A fome de justiça e liberdade é tanta que até esquecem as (muitas) coisas boas da vida, as viagens, as amizades, a música, a poesia... Eu nem sei bem como me devo dirigir para falar Contigo. Afinal ninguém pôs a vista no teu Cartão de Cidadão (do Universo, presumo); ninguém sabe de teus pais e outros familiares; nem do local e data do Teu nascimento. Isso era elementar para conversarmos olhos nos olhos, mas está visto que não podemos ir por aí: ficarias demasiado humano, demasiadamente colado à nossa imagem, às nossas fragilidades. Ao que dizem, há um aspeto importante em que Tu não falhas: dás ouvidos a todos, quer sejam ricos ou pobres, quer se dirijam a Ti com um simples sussurro ou em voz alta; sozinhos ou em multidão. Mas o estranho nos homens é invocarem-Te para proclamarem, do fundo do coração, que estão do lado da Paz, para logo a seguir usarem o Teu nome para as mais cruéis campanhas guerreiras. Foi assim desde o início da caminhada da humanidade até hoje. 
Desde a primeira formulação de uma ideia de Deus (vários Deuses) até ao Deus único que És, para milhões de crentes das principais religiões monoteístas, cujos seguidores andam sempre à bulha. Por um pedaço de terra. Por água. Por pão. Por poder. Por sei lá o quê. E Tu assistes a tudo – asseguram. Será que a Tua responsabilidade no que se passa terminou no dia da Criação? A partir daí estamos por nossa conta e risco? Não sei se estamos capazes de assumir tamanho peso. 
Basta olhar para o perigo nuclear. Ou para o desinteresse de Trump para com as alterações climáticas e o mau estado do ambiente. Espero que não te ofendas com tantas interrogações, que são de ontem e de hoje. São muitos os que Te aceitam como Senhor absoluto e sabedor. Mas também alguns suspeitam que não És mais do que uma imagem criada pelo próprio ser humano, para servir de última instância quando não tem resposta para as suas dúvidas ou dramas. Mas, seja qual for o patamar da relação Contigo a que chega cada ser humano, aparece sempre uma pergunta a que gostaria que respondesses: afinal, quem és Tu? Respeitosamente,
Ivo Caldeira

O joguete necrófago com número dos mortos

1. Quero saber quem é o governo, o Ministério Público, a Justiça em geral, a Polícia em geral e a Judiciária deste país... Nem me importo quem seja oposição de direita ou de esquerda e muito menos ainda se o governo é de direita ou de esquerda, importa que governe bem, que seja forte com os fortes e amigo e até benevolente com os fracos. Estou nas tintas para tudo isso de uma forma geral, menos para o que disse sobre os governos.

2. Porém, termos chegado a este nível de joguete imoral sobre a quantidade dos mortos na tragédia dos incêndios de Pedrógão Grande, parece-me de um baixo nível inqualificável, alimentado por alguns meios de comunicação social ao serviço do vil metal, da luta pelas audiências a qualquer preço e sabe Deus senão ao serviço das tendências político partidárias que gostam deste jogo sujo sobre a morte dos outros.

3. Este joguete sobre o número de mortos também existiu após a tempestade de 20 de fevereiro na ilha da Madeira. Agora pegou de galho, sempre que há uma tragédia no nosso país, os mortos nunca são os que as autoridades apresentam, recorre-se até ao Afonso Henriques, para provar que a causa da sua morte também foi provocada pela tragédia do momento. Até parece que se pode esconder mortos dentro do armário. Na ocasião do 20 de fevereiro também ouvia dizer que os mortos escondidos nos armários do Governo do Dr. Alberto João eram superiores aos que foram para os cemitérios. Deixemos de balelas e tenhamos mais respeito por quem teve o infortúnio de ser apanhado pela tragédia. Não basta esse sofrimento?

4. Tudo isto acontece, porque se perdeu os valores quase completamente e fala-se da morte dos outros e dos familiares chegados aos mortos sem respeito nenhum. Por esta mentalidade necrófaga, que desce a este nível de imoralidade, não alinho e devemos todos repudiar esta leveza insustentável que os abutres alimentam com mortos, que infelizmente, as tragédias deixam como rasto. Se vamos a caminho da falta de respeito pelos mortos até este nível e se este jogo da miséria moral é assim tão baixo quanto às quantidades de mortos, como se fosse uma brincadeira, é sinal que batemos no fundo e a sociedade caminha irremediavelmente para a perdição final ou então conclui-se que ninguém é sério e precisamos urgentemente de extraterrestres para tomarem conta disto.  Por favor, poupem-nos… 

segunda-feira, 24 de julho de 2017

O vazio e o rasca

1. Ponto prévio. Tenho muito respeito por todas as pessoas. Não olho às qualificações das pessoas para as cumprimentar e  para corresponder aos seus pedidos não olho a condições, se estiver ao meu alcance. Neste sentido, respeito e considero todas as pessoas que sobem o alto das montanhas para passar frio em pleno verão e assistir à festa do PPD da Madeira ou de outro partido qualquer.

2. No entanto, não me parece decente ainda existirem partidos políticos que se prestam a todo o género de jogadas com os mais vulneráveis, arrastando-os para algum sítio, mesmo que seja para uma festa, para engrossarem os números de presenças e satisfazerem o ego da organização que conseguiu mobilizar alguns milhares, porque ainda não perdeu a capacidade de mobilização. Uma boa porção dos sem abrigo do Funchal na semana passada andaram numa azáfama inabitual porque conseguiram de borla os bilhetes de acesso ao  monte Sinai da Madeira, vulgo, Chão da Lagoa. As várias reportagens deram-nos conta de alguns que andam a ser alimentados pela caridade, porque se não fosse assim provavelmente morreriam de fome, mas lá estavam a dar vivas e louvando os «nossos» poderosos. Ai como eles se sentem bem, nestas migalhas de glória...

3. Vamos ao que devia ser o mais importante, a mensagem. Os discursos são uma dor de alma. Não devíamos sequer estar aqui a falar neles, porque mesmo não querendo acabamos por dar valor ao que pouco valor tem. Os protagonistas destes acontecimentos são os primeiros a desvalorizarem o evento, não dizem uma de jeito, não há uma ideia, um projeto para ser falado e apresentado ao povo, a este povo que vive da mingua e de sobras. Por isso, fala-se em geringonças, nos comunistas e radicais da esquerda, juros, promessas, o novo hospital que é promessa feita cá para os de lá cumprirem... Mas há mais bandeiras, por exemplo, o medo, muito medo, vem aí alguma coisa que não se sabe bem o que é... Fujam... Eles andem aí... Concluímos, realmente, estamos à rasca. Nisto se vê a pouca vergonha que esta gente tem e a nenhuma consideração por todos nós, agitam os papões e lá vai uma porção de nós amedrontados votar neles porque precisamos de estar protegidos. Mas anda alguém por aí a pensar que a porcaria dos discursos ainda rende votos...
 
4. Face a este panorama, temos um vazio generalizado, uma rasquice regada com poncha, maçarocas e bailinhos agachados. Uma brincadeira geral que nos revela o quanto andamos enganados, sem ideias, sem rumo e ao sabor do vento que passa. Por isso, trago aqui à liça uma quadra de «A Cantiga do Zé» (1984) de Jorge Palma: «O Zé podia arranjar emprego / E matar-se a trabalhar / Mas olha em volta e o que vê / Não o pode entusiasmar». Para igual bastava o que estava, não precisávamos de tanto alarido para mudar protagonistas.

sábado, 22 de julho de 2017

Um ovo cozido no borralho

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre, nunca prejudicando ninguém.
o olhar era suave
a liturgia
que na cinza quente coze o ovo

ainda que sejamos estranhos

nenhuma pessoa 
fez tão bem a simbiose
do banquete
com a gênese e o sal
JLR

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A ganância mata

1. A ganância está a conduzir à morte a humanidade e a destruir irremediavelmente a «nossa casa comum», o planeta Terra. O único planeta conhecido que permite o sustento da vida. Mesmo assim, sendo o único planeta que permite a vida para já, a humanidade pouco e em nada arrepia caminho no domínio da ganância e, por isso, continua sem que trave a exploração desenfreada perante os bens da natureza e pior ainda alimenta insaciavelmente a ideia de que para alguns dominarem tudo, têm que subjugar meio mundo.

2. Tanto assim é que alguns elementos tão comuns, mas essenciais para a humanidade, por exemplo, o desporto, a política, a cultura e a religião, que deviam educar a humanidade na fraternidade e na amizade, converteram-se em formas repugnantes de ganância de alguns mais fortes, que acham terem o direito de ter mais que os outros e que podem mandar como muito bem entendem quem está mais abaixo.

3. Tudo isto resulta porque, embora assumindo-se a ideia de que se considera a humanidade toda igual, mas na prática não passa de pura ilusão utópica e moralismo hipócrita, sempre lembrado por alguns para que façam valer as diferenças, o domínio de uns sobre os outros, isto é, uns serem supostamente melhores do que outros. Então, temos a corrupção disseminada, como filha dileta da ganância. Não é que a corrupção seja a fonte da ganância, mas a consequência desta, que origina tantos males para a sociedade em geral.
A raiz dos problemas que temos, especialmente, a desigualdade e a injustiça, é a ganância. Ela não é combatida e pouco ou nada se fala, é muito normal falar-se da corrupção, que é sempre a consequência e nunca a raiz dos problemas, mas nunca é habitual falar-se da ganância como fonte das misérias de uns contra os outros.
Tanta desgraça em nome da ganância, que derivaram de guerras e sistemas fascistas montados sob o alicerce da ganância. Os preços para o nosso planeta são elevadíssimos, quer materialmente e quer humanamente. Não há nada mais terrível para hipotecar o futuro de todos do que a ganância.

4. A ganância faz parte do quotidiano. É uma realidade subjetiva que acompanha os povos, os estados, as famílias e cada pessoa por si mesma. Daí todo o sofrimento que presenciamos numa grande parte das pessoas, porque esse fantasma tormentoso semeia o medo e impede a vontade de viver. A ganância mata, porque em muitas situações é um crime, que devia ser julgado pelas leis dos tribunais. Os seus autores quando a tivessem levado a extremos criminosos deviam ser julgados em conformidade.
A principal razão para a desigualdade do mundo radica na ganância, porque faz de alguns uns privilegiados e outros tantos (a maioria) as vítimas necessárias para que o «bem bom» desses tais possa ser uma realidade. Enquanto o mundo se fizer com privilegiados, legitimados pelo moralismo pacóvio que nos domina, nada de bom virá para o nosso planeta e a humanidade continuará irremediavelmente envolta neste ciclo vicioso de dominadores e dominados sem fim à vista. 

quarta-feira, 19 de julho de 2017

A justiça de Deus é sempre justa e compassiva

Domingo XVI Tempo Comum, 23 julho de 2017
O livro da sabedoria, escrito em Alexandria na 1.ª metade do séc. I (a.C.), é de onde foi tirada 1.ª leitura deste domingo, é a parte final do livro. Nesta passagem descobrimos que Deus, sendo todo-poderoso, podia manifestar-Se com poder, castigar e sanear todos os malvados que não o acolhessem e amassem.
Mas, Deus não se entrega como os pequenos tiranos a manifestações de fúria. Mas, descobre-se um Deus «justo» misericordioso e compassivo. No entanto, o autor afirma que Deus condena todo o mal, mas não o faz com tirania, mas com toda a indulgência de modo que todos se possam arrepender. Assim, devemos nós os crentes ser tolerantes e sempre esperar pacientemente a conversão e a mudança dos outros. Esta esperança deve fazer parte das nossas vidas para que os males dos outros não nos vençam e nos conduzam para a violência ou à inquietação incontrolável perante as limitações que a vida dos outros muitas vezes apresenta, que tanto prejudicam a nossa vida. Devemos seguir o exemplo de Deus e isso nos salvará e nos fará felizes.
Depois dos gemidos que passamos nesta vida material, na expectativa do bem maior que vamos depois alcançar, São Paulo, aponta os gemidos do Espírito para que o destino do cristão à vida nova e à glória são sejam frustrados perante as misérias e limitações da vida deste mundo. O Espírito estabelece uma feliz comunhão entre a aspiração do cristão e a vontade de Deus. Na nossa intimidade, pela oração, descobrimos a acção do Espírito, que nos revela Deus como Pai, para depois sentirmos o abraço do Seu amor como Mãe.
O Evangelho propõe mais três parábolas sobre o Reino, seguidas de uma explicação sobre o trigo e o joio. As parábolas são transmitidas às multidões e as explicações em casa aos discípulos. Muito curiosa esta particularidade do Evangelho. A parábola do trigo e do joio põe em confronto duas atitudes, a do dono do campo (paciência) e a dos servos (impaciência). Só a atitude de Deus – o «dono do campo» – é salvadora. Eis um convite de Jesus aos discípulos para conterem a sua impaciência e dominarem o seu «puritanismo» até ao tempo da «ceifa» (imagem do juízo definitivo de Deus).
Neste mundo, o Reino de Deus deve crescer lado a lado com o mal. Agora é o tempo da espera, não o do juízo nem cabe a nós fazermos a colheita. Só Deus, o «dono» do Reino pode julgar com justiça quem a Ele pertence ou não, por conseguinte, a nós, cabe-nos ter a certeza que a justiça de Deus nunca falha e seguramente será verdadeiramente justa. Ele é um justo e sábio juiz. 

Deus e eu

Deus e eu
“Deus e eu”, esta semana em exclusivo no Banquete com um amigo de longa data, o Donato Macedo. Obrigado pela partilha...
Deus, sempre me foi revelado pela família desde muito cedo. Quando comecei a ter consciência dalguma “entidade divina”, foi logo nas idas à missa, naquele ritual em que eu, filho único e sem grandes convívios com outras crianças, me deleitava. Nomeadamente naquelas missas dominicais cantadas, com conjunto musical (guitarra, bateria, baixo e órgão), na capela da então denominada Escola Salesiana de Artes e Ofícios na Rochinha. Estávamos na década de 70, tempo de memórias difusas, ofuscadas pela névoa do tempo. Passei sempre por colégios de inspiração católica. Primeiro na Apresentação de Maria, cuja lembrança está mais apagada. Depois, nove anos nos “Salesianos” onde conheci grandes “Mestres”. Seguidamente mais três anos na APEL, onde conheci o José Luís Rodrigues – dinamizador deste blogue – nas aulas de latim, do saudoso Pe. Ângelo Caminati. Uma grande “escola” da minha Fé foi-me concedida pelas actividades da “pastoral juvenil” desenvolvida na década de 80, na Paróquia de Fátima, onde após o meu percurso catequético, integrei o grupo de jovens em que, para além das amizades daí desenvolvidas, tomei consciência dalguns dos valores práticos, onde as nossas acções poderão se repercutir nos nossos semelhantes. À medida que crescia, atentei mais no conceito ético, do que a narrativa evangélica revelada pelo Criador. A exegese sempre se me afigurou tendenciosa, parcial. A minha ideia de “Deus”, nem é necessariamente antropomórfica, mas sim uma ideia de “BEM”, duma entidade imaterial que nos proporciona ferramentas, opções, para que possamos ascender a um desígnio de “FELICIDADE”. Muito raramente vou à Missa, mas quando vou, converso com “Ele”, à minha maneira, tal como O questiono em qualquer sítio, se me der nas ganas. Há imensos desafios na Vida em que se cobra de “Deus” o sofrimento, a dor e os percalços. Praguejei “Deus” quando ele me tirou de repente, há tão pouco tempo, o meu Pai. Raramente Lhe agradeço o que de BOM também me acontece, como o simples acordar ao amanhecer, e ter o essencial disponível e assegurado, o que não acontece a tantos milhões de seres humanos neste Mundo cada vez mais assimétrico e desigual. “Deus e Eu” estamos assim, talvez um pouco desquitados, mas tal como acontece nas verdadeiras amizades, não é preciso falar todos os dias, nem todas as semanas, ou meses, para sabermos que habitamos no coração um do outro.
Donato Macedo

segunda-feira, 17 de julho de 2017

A barca de Pedro está agitada mais uma vez

1. As palavras de Bento XVI, lidas pelo seu fiel secretário o arcebispo Georg Gänswein, na catedral de Colónia, na missa do funeral do cardeal Joachim Meisner, abalaram a secular colunata de Bernini do Vaticano e entusiasmaram as ostes que andam meias entretidas a «combater» as intenções de reformas que o Papa Francisco alimenta e que aqui ou ali sempre vai dizendo que precisam de serem feitas.

2. As palavras em causa são estas: «O Senhor não abandona a sua Igreja mesmo quando o navio está tão inundado que quase se afunda», escreveu o Papa emérito Bento XVI. Estas palavras estão inseridas no parágrafo onde faz um rasgado elogio ao cardeal defunto. Diz assim: «Aquilo que mais me impressionou foi que, no período final da sua vida, aprendeu a deixar-se estar e a viver cada vez mais na crença de que o Senhor não abandona a sua Igreja, mesmo quando o navio está tão inundado que quase se afunda».

3. Acho que não se deve dar muita importância a estas palavras e devem ser enquadradas no contexto de um elogio fúnebre, que em qualquer circunstância, é sempre um pau de dois bicos. Mais ainda este de Bento XVI. Porque, pode servir para atirar contra o Papa Francisco, mas também pode servir para atirar contra o Papa Bento XVI, porque ele foi o primeiro a abandonar «o navio que se afunda» há quatro anos. Se pretende criticar o Papa Francisco, pelos desejos que manifesta em fazer reformas, então não são bem vindas estas palavras e mais uma vez saltam de contentes todos os oportunistas que não aceitam as ações do Papa Francisco.

4. No entanto, estas palavras são bem vindas, se no pensamento do Papa emérito estavam os escândalos sexuais do cardeal George Pell, terceira figura mais importante no Vaticano, com a pasta da Economia, que foi acusado de abusos sexuais na Austrália. Uma semana depois, a polícia italiana interrompe num apartamento da Congregação da Doutrina da Fé uma orgia homossexual. Era o apartamento, onde também foram encontradas drogas, pertencentes ao secretário pessoal do cardeal Francesco Coccopalmerio, que é um dos principais conselheiros do Papa Francisco. Deve ser claramente esta tempestade que está na cabeça do Papa emérito quando escrevia o elogio fúnebre e que ele considera que está meter água dentro do «navio que quase se afunda».

5. A relação entre o Papa emérito Bento XVI e o Papa Francisco tem sido marcada por respeito público e fraterna cooperação. Por isso, acredito que estas palavras não têm qualquer intenção de beliscar o caminho do Papa Francisco nem muito menos serem um incentivo para os seus detratores.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

As ondas apressam-se sobre mim

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre, nunca prejudicando ninguém.
um braço redondo quase geometricamente elaborado
entre calhaus sublimes sem bicos redondos e iluminados
pelas mãos que o ventre da terra germinou sobre este pensamento
que as letras desvelam como poema em cada palavra que nasceu
no mistério da vida e da luz.

nesse momento que me enleva e me leva sobre a firmeza
vejo uma mãe feita de água pontiaguda de alegria
no mar imenso que se faz presente nesta ausência do olhar
para o além da barra que chora disponível os sonhos que faltam
porque convencionaram os paquetes não virem no verão.

depois eu parado e pequeno sobre o pontão de cimento
olho para o grande infinito além daquela linha imaginária
da visão que vem de longe, nítida, promissora de cada tarde
que sonha com o despertar de outra manhã na trama do amor.

deve ter sido Deus que nos fez da terra e da água
porque olho dentro de mim com grande independência da alma
e digo ó mar largo com fundos negros e abismos fundos
sou eu só que neste mundo lembro os teus segredos
como puro cristal nobre retratado oblíquo e receoso?

uma após outra cada onda enrola a pedra toda
e chia a espuma vagarosa no regresso sem fim pelo tempo
mas uma vaga parou há muito tempo na porta do meu coração
mesmo que por esse encontro vagamente desvende a sorrir quase nada.

por isso bastou sim o sorriso reconfortante para sempre
era a alegria imaginária da tua face que dentro de mim com firmeza
por chamamento no interior da alma sempre me convoca
como um assombro a voltar a crer no poder divino da natureza.
JLR 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Uma cama pronta sobre a erva verde

1. Está pronta a cama sobre o atapetado verdejante no meio do campo, um quarto de dormir do tamanho do mundo. Há fado em fundo que ecoa de um restaurante, que liberta sons de talheres, copos, pratos, odores, gargalhadas, palmas, palavras desconexas e muita indiferença. O dono desta cama vagueia apetrechado com tantos tempos, todos os tempos que a vida permite dar, nunca soube nem muito menos sabe agora qual o tempo a que pertence. É dono da praça toda e do teto que é feito de azul nos dias quentes do Verão, escuro nas noites de inverno e sombrio em todos os tempos quando vagueia, perdido, só… Ah, mas há verde, para alguns dizerem, que o verde é a esperança.  

2. Aquele campo ou praça tem tantos caminhos, atalhos que a maioria considera ser ornamento. Todos nós vagueamos por eles, também indiferentes a uma cama que serenamente espera o coração que não para, mas que pulsa forte mesmo que se veja apenas trapos e farrapos sobre aquele corpo. Ele dói tanto como dói qualquer coração se lhe cravam pontiagudo o silêncio e o encolher de ombros cheio de penas inconsequentes. Tão aprumada e certinha a cama. Quantos de nós não desejariam saber fazer assim uma cama sobre a esperança!

3. Aquele corpo anónimo no meio de tanto povo, igual a todos, à noite deposita ali mesmo naquele descanso simples os seus sonhos despojados e a esperança de algo que nunca mais chega. Muitas vezes chora se olha em volta e vê tanto chão verde para ser pisado com os pés e com o corpo - se falamos do seu, quando se reclina para o merecido descanso da alma. Contudo, mais que certo, é que soluça o frio nos invernos rigorosos. E Transpira as noites quentes e abafadas do calor dos verões. Aquele travesseiro fica quieto, recebe e ensopa cada lágrima que se desaguasse como aluvião, ao fim de todos os tempos seria suficiente para inundar a cidade. Por fim, deve chegar o corpo todo, o olhar inquieto e melancólico, a pergunta, «porque eu e não outro qualquer?» É o aconchego possível, mas merecido, que uma injustiça incerta reservou… Mas somos todos ao relento, porque estamos abandonados de nós próprios. O corpo todo horizontalizado, com sonhos ou sem eles, dorme…

A Palavra de Deus é o alimento da alma

Domingo XV Tempo Comum
A Liturgia deste Domingo, apresenta-nos uma mensagem sobre a Palavra de Deus. Somos convidados a pensar sobre a Palavra de Deus. Que importância lhe damos? Que estudo fazemos dela e quais as formas que escolhemos para a estudar? A Palavra de Deus, é o centro da minha religiosidade? Procuro esclarecer a fé na Palavra que me é anunciada? Ponho em prática a Palavra de Deus, como se fosse uma luz que inspira todo o meu viver? - Estas são apenas algumas das questões que podemos colocar diante da mensagem Bíblica sobre a Palavra que as leituras deste Domingo nos apresentam. 
São abundantes as metáforas sobre a Palavra de Deus, lembremos Jeremias que compara a Palavra ao fogo e ao martelo. O autor de Heb recorre à ideia da «espada de dois gumes». O profeta Isaías inspira-se no mundo rural, um camponês que se inquieta perante a terra árida, nada mais deseja e ama do que a chuva, início e condição para o ciclo da vida. À Palavra de Deus, o profeta dá-lhe tal importância que nos faz pensar Naquele que é a Palavra plena, definitiva, criadora de Deus, Jesus Cristo. 
A nossa vida está cheia de exemplos de práticas de instrumentalização da Palavra de Deus. São muitas as pessoas, ditas de muito crentes, que não seguem a Palavra de Deus, mas antes a palavra dos homens. São muitos os que não se guiam pela luz da Palavra Divina, mas pela doçura das palavras de alguns, os idolatrados pelos interesses deste mundo.
São Paulo ensina que a Palavra de Deus não se deixa encadear, mas pela força do Espírito Santo, corre veloz como uma gazela e é penetrante como uma espada de dois gumes. Por isso, não deixemos que nenhuma lógica deste mundo, nem nenhuma divisão da vida, nem nenhum interesse material, nem nenhuma palavra, por mais doce que seja, nos faça desviar o coração da verdade que a Palavra de Deus nos transmite.
Quando nos guiamos pela Palavra de Deus, nada nos desvia do caminho que Jesus traçou para nós. Aconteça o que acontecer, estamos seguros na rocha firme que é a Palavra Divina inspirada por Deus. A Palavra de Deus, deve ser bem interpretada, e melhor do que a interpretar é preciso reza-La, porque a Palavra de Deus se serve para nos guiar para a vida plena, também quando mal digerida serve para cometer as piores atrocidades e violências. A Palavra recria-nos sempre para o amor, que depois permite que as nossas atitudes estejam em consonância com todo o bem e de acordo com a vontade de Deus. Nisto consiste a nossa missão.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Mais um aviso sobre o futuro da humanidade

1. Estamos em estado de alerta. Nesta última segunda feira (10/07) foi divulgado um estado que atesta que estamos a sofrer uma «aniquilação biológica». É um fenómeno biológico, que devido às alterações climáticas, a poluição e a depredação humana, está a colocar em risco as várias espécies de animais e plantas que existem na Terra. Afinal, trata-se do único habitat conhecido que permite a sobrevivência da humanidade.

2. Segundo o estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), há investidas cada vez maiores contra a biodiversidade do planeta, oferecendo uma visão «sombria sobre o futuro da vida, inclusive a humana». O motivo desta triste realidade, afirma o estudo que se prende com os «problemas ambientais globais causados pelo homem». Um terço das espécies está em declínio populacional acelerado.

3. Entre as populações de vertebrados há grandes perdas; os mamíferos estudados, apresentam perdas de 30%, «diversas espécies de mamíferos que estavam relativamente seguras há uma ou duas décadas estão agora em perigo», diz o estudo. A lista contempla, por exemplo, leopardos, orangotangos, leões, pinguins e girafas…

4. Durante o tempo de vida da Terra, calculado em 500 milhões de anos, já houve cinco «extinções em massa», a última ocorreu há 66 milhões de anos atrás, quando foram extintos os dinossauros, devido ao movimento vulcânico, alterações do clima e a ação dos asteroides.

5. Porém, esta «extinção biológica» que se assiste, tem uma nuance curiosa, parece não estar a acontecer, daí que muitos ainda não se deram conta e se já foram avisados, fazem de conta que não sabem ou simplesmente não acreditam. Arrepiar caminho nem pensar. Perante a falsa impressão de que o habitat da Terra não está ameaçado, lentamente toda a biodiversidade entra num declínio «silencioso», por isso, muito perigoso, porque quando a humanidade despertar, pode já ser tarde. Esta neglicência trará graves consequências para a diversidade da Terra, a maior riqueza e única que se conhece até hoje. Obviamente, que não será necessário dizer que o desequilíbrios ecológicos, afetam diretamente a vida humana em todos os seus componentes. Por tudo isto, devemos estar em estado de alerta.

Já está tudo escolhido

Escutemos atenciosamente Eduardo Lourenço:
- «O que é para nós um Deus que foi pensado muito por Santo Agostinho e definiu que Deus é aquilo que é mais interior a nós próprios. Nós somos uma centelha do divino, qualquer coisa como uma alma».
- «A coisa mais dramática do Ocidente como história ética, religiosa foi termos descoberto o facto que nós já não somos fundamentalmente uma alma, somos alma, o que nos carateriza é que somos alma, seres que não seres profundamente naturais, um corpo igual a todos os outros corpos que nós conhecemos na natureza».
- «A morte é aquilo que nos acompanha sempre e nós a fazermos de conta que não percebemos. É um jogo perpétuo. Mesmo em sonhos nunca morremos. A morte do outro é a nossa própria morte, essa é a verdadeira morte. A morte é negação de tudo. Passamos a vida a inventarmos estratégias que retardam esse encontro com a morte. Mas nós necessitamos disso para viver. Não temos escolha. Já está tudo escolhido. Não há escolha. Nós não existimos por nós próprios, por isso a verdadeira morte é a morte do outro».

sábado, 8 de julho de 2017

Profecia do tempo que passa

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre, nunca prejudicando ninguém.
Há tantos donos do mundo
e tão poucos donos de si mesmo
poucos a comandar o seu pensamento
a sua criatividade
a sua vontade
o seu amor
a sua vida…

Porque é mais fácil ser guiado
e comandado pela mão dos outros
ser infértil na ousadia de criar
preso sem asas e sem pés
ao que os outros dizem ou disseram
numa hora qualquer cheia de manhosice
foi a criação da loucura
da vida pelo mais fácil
mesmo que sejam
cegos a guiar outros cegos…

A inconsciência da estrada
trava os passos e a razão
não há amigo que reflita
nem mão que segure a paixão de quem chora
o desalento e o desencanto
de ver tantos com livros fechados
por agora e para sempre
eis o motivo que me consome neste pranto...

As palavras são sangue
o último reduto ardente
de uma tristeza teimosa sobre a carne
qual remorso cortante e incontido
que escorre nas veias o fel amargo e quente
gota a gota foi uma visão
que alguém impiedosamente
sangra deste pobre coração…

Neste desabafo a vida corre
e pelos lábios balbucio enrouquecido
a constatação do mundo amargo
tantas vezes ferido pela dor e pela morte
mas mesmo assim nos versos teimarei
digo o que sei pela revolta
até ao fim quando do corpo já morto
pela alma para sempre viverei...
JLR 

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Crise de Francisco, crise no Vaticano e crise na Barca de Pedro

A tempestade abala outra vez a «Barca de Pedro»...
1. A onda de escândalos que assola a Igreja Católica a partir do seu topo, revela a fragilidade de uma estrutura formada por homens feitos da mesma massa que todos os demais. Não há sobre humanidade («super homens») mesmo que alguns sejam consagrados, iluminados e bafejados pela sorte da inteligência, do poder e da importância hierárquica… Tudo é deste mundo, tudo é desta vida, cheia de misérias e limitações, que ninguém por mais importante que seja pode dizer que está livre.
O Papa Francisco está confrontado com uma crise grave, que deve abalar profundamente o seu interior e mais do que nunca precisa da nossa oração para que se mantenha firme e Deus o fortaleça na coragem para continuar animado na condução da «Barca de Pedro».

2. Os casos de misérias sucedem-se e têm sido denunciados pela comunicação social. É primeira verdadeira crise do Papa Francisco.
A renúncia de Marie Collins da Comissão para a Proteção dos Menores, em março, o adeus repentino de um profissional de primeiro nível como Libero Milone do seu cargo de Auditor Geral das contas do Vaticano, o caso do neocardeal do Mali, Jean Zerbo, incapaz de explicar o destino de 12 milhões depositados em seu nome em bancos suíços, o brusco afastamento do cardeal George Pell – membro do conselho da coroa dos nove cardeais que aconselham o papa e responsável pela Secretaria económica da Santa Sé –, forçado a viajar para a Austrália para responder às acusações de abuso sexual, a inesperada remoção do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Gerhard Ludwig Müller, a sua substituição à frente do ex-Santo Ofício pelo jesuíta Luis Ladaria Ferrer, que se revelou signatário de um documento que convidava o bispo de Lucera a não escandalizar os fiéis com a notícia da renúncia do estado sacerdotal do padre pedófilo Gianni Trotta (que, aproveitando-se do silêncio, se tornaria treinador de uma equipa juvenil de futebol, cometendo novos crimes), denúncia de que a polícia do Vaticano interrompeu uma orgia gay, com drogas, no apartamento do secretário de um cardeal que é um dos conselheiros do Papa…

3. Esta crise revela claramente também que estamos perante uma crise do Vaticano. Uma estrutura pesada, onde se instalaram uma porção enorme de hierarcas vindos de todo o mundo e que ali assentaram arraiais no bem bom das mordomias que todas as estruturas bem cimentadas sempre proporcionam.
O Vaticano tem que ser uma estrutura limpa, onde aqueles que são chamados a colaborarem têm que sentir que estão por ali de passagem e que a sua missão está ao serviço da humanidade. Não podem ser entregues graves responsabilidades a corruptos, tarados sexuais, prepotentes que nunca souberam o que é a humildade e gente que nos lugares de onde provêm já deram provas que não são dignos de assumirem qualquer cargo dentro da Igreja Católica em nenhuma parte do mundo.
O Vaticano tem que se tornar uma mediação de serviço exemplar, onde se respira Evangelho do Mestre Jesus de Nazaré e onde se concretiza em primeiro lugar as ideias do Papa Francisco de uma «Igreja em caminho», sinal de que é um «hospital de campanha», para tratar a feridas da humanidade, especialmente, todos os que as sociedades descartam. Sem este exemplo de cima para baixo pouco ou nada será possível quanto à reforma que o Papa Francisco tanto almeja para toda a Igreja Católica.

4. A «Barca de Pedro» está a ser fustigada com mais esta tempestade tremenda, ao seu leme está o Papa Francisco, aquele que veio do «fim do mundo», para segurar o leme em circunstâncias bem difíceis, tão difíceis que Bento XVI, se demitiu porque já não tinha «forças e saúde» para comandar a barca face às investidas da tenebrosa tempestade. Aí vemos como as coisas estavam e como continuaram a descambar mesmo até com todo o afã reformista e a acutilância da mensagem de Francisco.
Estamos então perante elementos profundamente chocantes, porque mancham, uma realidade que se espera exemplar e que seja inspiração todas as estruturas humanas.
Esta crise prova mais uma vez que não basta proclamar que vamos reformar, é preciso concretamente escolher equipas de pessoas que comunguem dos mesmos desejos de reformas. Aqui pode ter havido uma falha grave do Papa Francisco e que lhe está a ser tão custoso.  
Todos sempre dizem que caindo um chefe em qualquer serviço da Igreja, cai toda a máquina, na prática quase nunca é assim. O Papa Francisco fez o que toda a gente faz quando é nomeada para qualquer missão dentro da Igreja, mas que depois, com o tempo, possa revelar-se cruelmente dissaboroso para quem mantém tudo como está, as mesmas estruturas e as mesmas pessoas, em nome da caridade e com o pretexto de que ainda não se conhece o meio, muito menos as pessoas que lá estão. É aceitável que isto aconteça a um simples pároco, que chega e não conhece as pessoas nem o lugar, e se dispensa o organista ou a pessoa da ornamentação e limpeza da Igreja corre o risco de ficar desarmado. Porém, nas grandes estruturas como o Vaticano e até mesmo numa Diocese, já não é aceitável que assim seja, porque há muitas possibilidades com muitas pessoas ao dispor para organizar da forma como pretende conduzir a sua missão o Bispo e o Papa.
O Papa Francisco, em nome da caridade, do respeito pelos seus antecessores Bento XVI e João Paulo II, que construíram uma estrutura vaticanista cerrada, deixou que se mantivessem nas cúpulas dos serviços as mesmas pessoas com as mesmas equipas. Mas, uma Igreja dinâmica e sempre reformada, como deseja o Papa, não pode manter-se assim fechada com as mesmas ideias e as mesmas pessoas anos e anos, correndo-se o risco de se manter os vícios e as mordomias eternamente. Assim, pode ter falhado o Papa Francisco, em não ter nomeado logo no início pessoas que comungassem dos mesmos objetivos reformistas e de acordo com a Igreja que se pretende para os nossos tempos. Neste sentido, a máquina trava o Papa Francisco e com resultados desastrosos. Os rombos estão à vista de todos, é preciso coragem, vontade e sabedoria para que o Espírito Santo revele, especialmente, ao Papa Francisco, quais os caminhos seguir para que a tempestade amaine e a «Barca de Pedro» possa seguir viagem sobre as ondas suaves do amor e da paz.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

A humildade salva e o sentido da festa

Domingo XIV Tempo Comum
Esta passagem da 1ª leitura, famosa, é obra do chamado “Segundo Zacarias”, um profeta anónimo do séc. IV-III a.C.. Toda a lógica da guerra e da corrida aos armamentos, porventura alimentada pelos sonhos de um messianismo político e triunfalista, são agora abandonados. O Rei que vai chegar, é um «pacifista», contra toda a violência e injustiça.
O capítulo 8.º da carta aos Romanos é uma das páginas mais densas da teologia paulina. Este Espírito é não só um novo princípio de vida, mas também um princípio de vida nova e, portanto, penhor da vida futura da Ressurreição.
Jesus e os primeiros cristãos experimentaram a recusa dos chefes e dos “sábios” (escribas, fariseus, saduceus...) em acolher o projecto salvador de Deus que em Jesus, com Jesus e por Jesus se realizava (nisso consiste o “mistério do Reino”). Mas ao mesmo tempo viviam a alegria de ver os pobres, os simples e os humildes a acolher essa Boa Nova. Daí, que aos sábios e prudentes risíveis, aos arrogantes, aos grandes na aparência mas, na verdade, inchados, opôs não os ignorantes ou os imprudentes, mas os pequenos. Jesus ensina-nos que devemos ser pequenos para conhecermos a grandeza do amor que Ele nos revela. A humildade salva-nos.
 
Estamos em tempo de festas populares, os nossos arraiais. São importantes para congregar as comunidades à volta de acontecimentos que requerem sempre alguns gastos avultados. Por isso, é sempre muito importante a pequena partilha de cada um para juntar o muito que é preciso gastar para ser realizada a festa. Mas, dado que os tempos são de dificuldades financeiras para todos, devemos ser comedidos, sóbrios para que não escandalizemos os que passam maiores dificuldades e necessidades.
Os nossos arraiais têm esta função essencial, congregam e apelam à partilha. Sabe bem sabermos que é um acontecimento de todos e não uma manifestação egoísta, que antigamente servia para alguns se pavonearem no exibicionismo, felizmente esse tempo vai passando.
A nível espiritual, a festa serve para louvar e invocar o mistério maior da nossa fé, a Eucaristia e os santos padroeiros das nossas comunidades. A eles a comunidade junta-se para agradecer, pedir e aprender o seu exemplo de vida cristã.
As nossas festas paroquiais devem servir para nos sentirmos alegres, renovados na esperança e justificados pela fé que professamos em Jesus Cristo.
O arraial acontece no exterior das Igrejas, como sinal dessa alegria que convida ao convívio e à fraternidade. Este momento deve ser aproveitado para retemperar forças e extravasar a alegria de se saber pertencente à comunidade que acolhe na celebração da fé. O arraial serve os comes e bebes; a música com a respectiva dança; as conversas animadas e o riso. Tudo isto serve para proporcionar o ambiente da festa. As comunidades precisam disto e cada pessoa individualmente também precisa, porque não podemos estar sempre sobrecarregados com as contrariedades da vida do dia a dia. É Jesus que ensina: «O Meu jugo é suave e a Minha carga é leve». Assim, a festa serve para aprender que a missão e a condição de ser cristão devem ser vividas e acolhidas com a maior das alegrias.

«Descobrimento» e «agachamento»

Também ando de alguma forma implicado na exposição, que a Madeira organizará no Museu Nacional de Arte Antiga, sob o título «As ilhas do ouro branco – arquipélago da Madeira: do século XV ao século XVI». Será inaugurada no próximo dia 15 de Novembro e, de acordo com fonte oficial, marcará o arranque das comemorações dos 600 anos do «descobrimento» deste arquipélago. A Igreja de São Roque possui um precioso cálice do séc. XVI e por isso fui contactado pelas entidades organizadoras deste evento, para que a Igreja de São Roque emprestasse por algum tempo o referido cálice. Obviamente, que remeti o assunto para a Diocese. Pelos sinais, tudo indica que as coisas estão salvaguardadas dentro da normalidade esperada.
Acolhi com entusiasmo a ideia e achei inicialmente que seria uma iniciativa interessante e que podia servir para dar publicidade à nossa terra e chamar visitantes à Madeira. Todas as iniciativas neste âmbito são bem vindas. Porém, depois de ler a opinião amais que aturada do professor Nelson Veríssimo e dando-me conta de que seria esta evento a abertura das comemorações dos 600 anos da «descoberta» do Arquipélago da Madeira, fez-se luz e começo a sentir que não havia necessidade deste «agachamento» custoso a todos os níveis. O texto do Professor pode ser lido AQUI.
Destaco o seguinte: «Pensando assim, custa-me aceitar que as comemorações arranquem fora do nosso território, longe dos madeirenses e porto-santenses.
Planeia-se uma embaixada cultural em Lisboa. Pretendem alardear as jóias madeirenses na capital. Que deslumbramento! Mas por que razão não hão-de ser mostradas primeiro ao nosso povo? Ou acham que os madeirenses e porto-santenses conhecem o seu património cultural? Neste domínio, há tanto por fazer, e essa planeada exposição, exibida em primeiro lugar no Funchal, num sítio acessível e devidamente publicitada, poderia ser uma excelente forma de dar a conhecer o património artístico, arqueológico e arquivístico da RAM».

Na mesma linha de pensamento descubro hoje o texto de Hélder Melim, que nos sacode a alma, chamando os bois pelos nomes e alertando para o estado das coisas em que vivemos na Madeira, sob um teimoso regime de «agachamento», eufemisticamente denominado «leitor devidamente identificado». Ninguém deve perder este texto e juntos levantarmos um debate sobre esta maneira de sermos que nos tem consumido o pensamento e a liberdade de o expressar com coragem. Podem abrir o texto AQUI.
Destaco o seguinte: «Depois de 500 anos de inquisição, 50 de fascismo, com o 25 de abril, em vez de uma efetiva liberdade, nasceu um regime cozinhado pela igreja mais retrógrada e pelos restos dos poderosos do regime fascista. Este regime, o jardinismo, aproveitando o caldo de cultura resultante da inquisição e do salazarismo, manteve e aprofundou nas pessoas o medo atávico de assumir posições, de defender direitos, de lutar contra as injustiças. Não ser afeto e sobretudo, manifestar discordância com o regime de Jardim, pagava-se caro». 
Obrigado a ambos pelas magníficas reflexões. São alertas que vão ficar...  

terça-feira, 4 de julho de 2017

“Deus e eu”

Esta semana «Deus e eu» com o professor Rui Caetano. Muito obrigado caro amigo Rui. Retive tudo o que dizes tão bem, mas mais ainda o seguinte: «Deus está num aqui e num ali, à beira de tudo, a responder a cada uma das minhas inquietações».  É isto... Que Ele nos ajude sempre.
Deus é metáfora. É vida. Cresci num ambiente familiar onde era hábito questionar tudo, inclusive, a existência do divino afastado do susto da realidade e fora do alcance das mãos. À volta de um ar de esperança, Jesus, além de se encontrar preso a um prego, nas paredes de cal branca dos quartos, ao lado de Nossa Senhora, com o coração à vista, ambos a contemplarem o Menino estendido em cima de um tampo de mogno brilhante, estava presente em algumas das nossas conversas que surgiam a propósito de um acontecimento ou quando estávamos  a divagar, sentados no chão da soleira da porta. Tentávamos perceber, por um lado, o sentido da Sua ausência nos momentos de enorme sofrimento e, por outro, alimentar a nossa desilusão perante a lógica da Sua vontade que não corrigia as situações de profunda injustiça na Terra.
Longe das certezas, cheios de nadas, acreditávamos no mundo de seres humanos que nasceram do Verbo em berços de inocência, embora não nos espantássemos com as vozes gastas daqueles que, sem exemplo nem espelhos de água, falavam do amor de Deus ao mesmo tempo que nos benziam com a cruz do medo. Duvidávamos dos paradoxos dos milagres e do excesso de santos de pedra dura que enchiam o espírito da sociedade.
Por vezes, ainda ando perdido entre os escombros das palavras, com falta de tempo para ler os silêncios que cobrem o mistério dos meus caminhos, mas nunca perco a razão do amanhã, porque não me contento em viver à tona de uma qualquer luz. Deus está num aqui e num ali, à beira de tudo, a responder a cada uma das minhas inquietações. A vida, apesar de crescer sobre os acasos dos instantes, surgiu com a convicção de que um dia conhecerá o que existe no lado de dentro do barro que nos moldou. 
 Rui Caetano

Entrevista do padre Mário de Oliveira

Saiu no Diário de Notícias do Funchal impresso no dia 2 de julho de 2017...
 1. Poucas novidades. Os temas que o acompanham sempre. À cabeça Fátima; a questão do poder; o Papa ou os Papas; o Cristianismo que veio dos apóstolos e não de Jesus e as pessoas (umas que se aceitam porque são livres e as outras, a maioria que são ovelhas mansas telecomandadas).

2. O fenómeno de Fátima é uma obsessão para o padre Mário de Oliveira. Por um lado, ainda bem, porque mantem a chama acesa de que é preciso refletir sobre o que se passou e passa no Santuário de Fátima. Negar a reflexão e o pensamento, a favor e contra Fátima, é fundamentalismo.
Nesse domínio tiro-lhe o chapéu e digo que faz avivar frequentemente o pensamento de muitos vir a lume a sua opinião acerca do fenómeno de Fátima. A forma como o diz, é discutível e quiçá podia surtir outro efeito se fosse dito com menos radicalismo e menos dando a ideia de que ali está implantado um «poder» tenebroso que esconde sabe lá Deus coisas deste mundo e do outro. Também podia ser mais benéfico se dissesse as coisas que diz sobre Fátima, sem considerar que todos os que lá vão são todos uns doentes mentais que se deixam dominar pelo tal poder açambarcador e dominador deste mundo e do outro. Enfim, um tema delicado que incendeia cabeças e corações. Eu vou perdendo a paciência para falar sobre Fátima…
3. Outra questão que sempre acompanha o pensamento do padre Mário de Oliveira é o tema do Papado.
Os Papas são todos uns papões, que são sempre maus. Não se lhes tolera que errem algumas vezes apenas, mas que estão sempre a cometer erros a todas as horas. Nenhum Papa só porque é Papa presta. Não vejo assim.
Há muitas coisas criticáveis nos Papas e também acho que eventualmente podiam fazer mais pela fraternidade na Igreja e menos pelo poder, até podiam reclamar um poder verdadeiramente serviço que incluísse todas as pessoas, tenham as condições que tiverem, os pecados e todas as misérias que acompanham a humanidade.
É injusto o que diz sobre o Papa Francisco, que continua a remar contra ventos e mares a «barca de Pedro». Não se lhe vê nenhum gesto de desprendimento? Nenhum sinal de que quer mudar a Igreja, apelando para que Ela se torne um «hospital de campanha»? A guerra declarada e escondida contra o Papa Francisco, surge porque ele anda só a rezar e a celebrar missas, ou porque ele tem apelado à inclusão de todos os que falharam no projeto matrimonial e tem feito ver aos poderosos da Igreja e do mundo que precisam de conversão? Não trouxe nada de novo o Papa Francisco ao mundo e a uma instituição milenar, apegada aos costumes e tradições muito antigas, que custa tanto mudar e acabar com elas? Não é ele que tem denunciado e apelado à simplicidade nas vestimentas, nas rezas, nas devoções e nos sacrifícios exagerados? Não é ele que tem feito apelos para que a Igreja seja pobre e esteja com os pobres? – Enfim, tanta coisa que está mal, é bem verdade, mas que precisa de muita cautela, inteligência e sabedoria para mudar… A corte de machado, não me parece que cheguemos lá…   

4. O Cristianismo que temos é o que veio dos Apóstolos e não o que Cristo deixou, diz o padre Mário de Oliveira. Daí a conclusão: «o Cristianismo é império», «o Cristianismo é todo corrupto». É um tema interessante, mas não me parece estar bem colocado.
Eu creio que o Cristianismo que temos veio de Cristo e que continua a merecer ser vivido e aperfeiçoado. Obviamente, que a instituição que temos não deve ser a que Cristo idealizou, mas é esta que temos e que a tradição fez. Mas também, é óbvio que precisa de conversão constante até que um dia se torne verdadeiramente sinal para o mundo de que a fraternidade é possível. É um sonho que devemos perseguir com coragem.
Não foram deste Cristianismo as grandes figuras que o seguiram e o estudaram com verdade e sinceridade? – Eram tolos: São Paulo; Orígines, Santo Tomás de Aquino, São Agostinho, Mestre Eckhart, São João da Cruz, Santa Teresa de Ávila que foi a primeira mulher a receber o título de doutora da igreja, Santa Teresa de Lisieux ou Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face, que viveu neste mundo só 24 anos, no final do século XIX, Pascal, São Francisco de Assis, Thomas Merton, Charles de Foucauld, Edith Stein, Dietrich Bonhoeffer, Dom Helder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga, o Santo Papa João XXIII e até em tantas coisas o Santo Papa João Paulo II e Santa Madre Teresa de Calcutá… Estes apenas entre tantos outros que beberam do Cristianismo vindo de Cristo e dos Apóstolos, que nos devem inspirar a uma prática de um Cristianismo que radique no bem, na amizade e na fraternidade do Evangelho de Jesus Cristo.
Enfim, não me parece justo considerar-se uns porque não encaixam nos parâmetros pessoais de alguém, serem considerados anormais, até porque ficou dito tão claramente: «As pessoas são liberdade. Nós somos liberdade essencialmente. Se sai a liberdade em nós, desaparecemos como seres humanos. A liberdade é tipo vento, é como o vento. Eu gosto muito de dizer que já fui homem e agora sou o vento». Aqui está o cerne da questão, se um é, porque não são também os outros? Ou porque têm que ser os outros, ovelhas mansas telecomandadas sem cabeça e sem coração?