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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

O clericalismo

1. Tantas vezes se diz, com toda a propriedade, que onde existe anticlericalismo há seguramente clericanismo. O Papa Francisco voltou a referir-se ao clericalismo com palavras nada brandas na entrevista que deu ao El País. Disse sentenciando que «O clericalismo, a meu ver é o pior mal que pode ter hoje a Igreja». Partilhei no fecebook esta frase e uma pessoa perguntou o que é o clericalismo. Fez bem ter feito a pergunta, porque muitas vezes, consideramos que os termos que usamos são todos percetíveis por todas as pessoas. Mais uma vez provou-se que não é assim. Neste caso, já que tal pergunta apareceu, aproveito para apresentar aqui algumas considerações sobre o que é o clericalismo.
 
2. O clericalismo é o domínio exagerado do poder do clero, dentro e fora da Igreja Católica. O Concílio Vaticano II definiu que a Igreja é formada pelo conjunto do povo de Deus, todos os batizados pertencem e são a Igreja. O clero quando se destaca, saindo fora dessa realidade, chama-se clericalismo. Por isso, o Papa Francisco considera que o clericalismo é «fruto de uma má vivência da eclesiologia exposta pelo Vaticano II».

3. A atitude clerical não produz fraternidade. É mais uma forma de poder que ao invés de servir gera, dominados e dominadores. Só isto é suficiente para repararmos que esta atitude está totalmente contra o espírito de Jesus de Nazaré e do Seu Evangelho. Assim, o Papa Francisco faz o grave rol das consequências do clericalismo. «Esta atitude não só anula a personalidade dos cristãos, mas também gera uma tendência a diminuir e desvalorizar a graça batismal que o Espírito Santo colocou no coração das pessoas. O clericalismo anula a personalidade dos cristãos e leva a uma ‘homologação’ do laicado. Tratando-o como mandatário, limita as diversas iniciativas e esforços e, ousa negar, as audácias necessárias para poder levar a Boa Nova do Evangelho a todos os âmbitos da atividade social e sobretudo política».

4. Penso que será mais que suficiente considerar o seguinte como elementos bem reveladores do veneno fatal que é o clericalismo e que tem toda a razão o Papa quando afirma que o clericalismo é o pior mal que afeta a Igreja Católica hoje. Vejamos o seguinte: «O clericalismo longe de impulsionar as distintas contribuições, propostas, pouco a pouco vai apagando o fogo profético que a Igreja toda está chamada a dar testemunho no coração dos seus povos. O clericalismo esquece que a visibilidade e a sacramentalidade da Igreja pertencem a todo o povo de Deus (cf. LG 9-14) e não só a poucos eleitos e iluminados». O clero é povo, nasce do povo e o seu «sangue» só pode ser o povo. Quando o clero não está ciente disto e não pratica isto, estamos claramente, perante o veneno do clericalismo.

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