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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

O mistério do sofrimento e o mistério do mal

Crónica...
1. Ninguém imagina como seria o universo se não existisse a morte. Em todo o caso é ela que vai renovar a humanidade, porque substitui os seres gastos por novos e impede a sobre carga do mundo já demasiadamente povoado.
Mas que serve o sofrimento se estamos perante algo tão necessário e normal? - Porque a vida está edificada sobre alicerces que não são humanos. É um enorme mistério de onde derivam o mistério do sofrimento e do mal. Fazem parte da vida e ajudam a valorizá-la e se quisermos até permitem que a beleza da vida seja melhor saboreada se ela decorre com qualidade e com o prazer da felicidade. Muitos esquecem isto e morrem de saudades disso quando faltou o melhor que a vida pode ter.
Pior ainda quando o drama da dor e do sofrimento recaem sobre as crianças. Não há maior escândalo do que este, por isso, lembra Ivan Karamazov o seguinte: «Não falo do sofrimento dos adultos: esses comeram a maçã e que o diabo os leve a todos!... Mas as crianças! As crianças!...» (In Irmãos Karamazov, Fiodor Dostoievski). É um grito que expressa revolta de todas as pessoas do bem perante o escândalo que é ver uma criança a sofrer.

2. A dor, esteja nas pessoas em qualquer idade, em qualquer circunstância ou lugar do mundo e até mesmo nos animais, não é compreensível. O mal não é justificável. No tempo dos Apóstolos, que acreditavam que o Cego de Nascença, tinha sofrido um castigo por causa dos seus pecados ou dos pecados dos seus antepassados, Jesus responde: «Nem ele pecou nem seus pais» (Jo 9, 3).
Perante todo o género de mal que proporciona sofrimento, precisamos de um grande esforço, para aceitar com humildade a misteriosa irracionalidade do mal e o sofrimento que tantas vezes o mal provoca.
E Deus, como entra nisto? - Não fez muito daquilo que nós fazemos. O Deus feito carne igual à nossa carne, fez-se pequenino e pobre como nós e não teve atitude diferente da nossa perante o sofrimento e o mal. Foi igualmente vítima do mistério do sofrimento e do mal, tentando que elas recuassem ou ganhassem algum sentido. Parece pouco se falamos de Deus, se esperamos Dele ser todo o poderoso. Assim, rezou Jean-François Six:
«Tu não és aquele que estaria acima de tudo,
Tu não és o invulnerável,
Tu não és impassível,
Tu não estás nos céus como num refúgio inatingível,
Tu não és indiferente aos gritos dos homens...
Tu não és surdo».
Afinal, também experimenta descendo da sua grandeza para acolher na nossa pequenez tudo o que a ela pertence. Porque o fez? - Para revelar o mistério maior que nos está reservado, a vida ressuscitada, totalmente espiritualizada, divinizada... É o Mistério que superará todos os outros mistérios. O importante é que ninguém escolha permanecer na morte, lhe é oferecida a vida.

3. O mistério do sofrimento e o mistério do mal, sempre fizeram parte da humanidade. São parte intrínseca da condição humana. Mas, não terá sido essa constatação que tenha feito ficar indiferente ou que não tenha levado Jesus a ser um lutador contra o sofrimento e o mal. Aliás, deve ser Nele que procuramos inspiração para sermos também lutadores de todas as formas de mal e de sofrimento que consomem a humanidade. Faz parte da vida, faz parte do acreditar, paz parte da humanidade nunca desistir da luta contra o mal que provoca o sofrimento, mesmo que tenhamos que conviver amargamente com esses dois mistérios todos os dias da vida.

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