Convite a quem nos visita

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O silêncio de Deus perante a cruel perseguição

Crítica de cinema
1. Estreou entre nós o filme «Silence» de Martin Scorcese. É um filme que está a suscitar algum debate na comunicação social. Obviamente, que merece ser bem escalpelizado e a reflexão deve ser feita em todos os seus contornos. Já vi o filme. Gostei muito e fez-me pensar em vários elementos que até não são novidade, principalmente se considerarmos que o tema principal do filme prende-se com o sofrimento e o silêncio Deus perante a crueldade que uns homens aplicam contra outros homens em nome de uma divindade ou por causa dessa mesma divindade. O filme «Silêncio» foi também estreado no Vaticano no dia 29 de novembro de 2016 para um grupo de Jesuítas.

2. O filme trata da grande perseguição aos cristãos no Japão no século XVII. Baseou-se no livro com o mesmo nome do escritor japonês Shusaku Endo, publicado em 1966, que conta a história de padres jesuítas enviados em missão ao Japão no século XVII, num contexto de perseguição à fé cristã. Andrew Garfield – o intérprete do Homem-Aranha nos últimos filmes do herói – interpreta o padre Sebastião Rodrigues, Adam Driver – de Lincoln e Star Wars: O Despertar da Força – faz o papel do padre Francisco Garupe e Liam Neeson – famoso pelo papel de protagonista em A Lista de Schindler e pela voz do leão Aslan na trilogia As Crónicas de Nárnia – interpreta o padre Cristóvão Ferreira. O filme é um velho sonho de Scorsese, que o desenvolve há 28 anos. A produção começou 2009. A história é ficcional, mas inspira-se na vida real de Cristóvão Ferreira, um padre jesuíta que viveu entre 1580 e 1650 e que negou a fé cristã depois de ser torturado durante a perseguição aos cristãos no Japão. O cristianismo chegou ao Japão em 1549, através do missionário jesuíta São Francisco Xavier.

3. Porém, o filme tem muito que se lhe diga. Não podemos pegar nas suas várias nuances e avalia-las ligeiramente com os parâmetros da nossa mentalidade. Penso que será útil que vos destaque aqui os elementos que mais me tocaram onde centrei a minha reflexão. Vejamos: a) o silêncio de Deus face ao sofrimento humano, ainda mais se provocado cruelmente por homens contra outros homens; b) a fé «numa verdade» a qualquer preço; c) a evangelização sem inculturação não resulta; d) até que ponto a apostasia não é também uma exigência de Deus quando ela quebra a corrente da crueldade e restitui a liberdade? (…). São estes os itens que considero essenciais para que façamos um leitura sobre o filme «Silêncio».

4. Quanto ao silêncio de Deus perante o sofrimento é um tema antigo. Conta-se que um dia, em Auschwitz, um grupo de judeus levou Deus a julgamento. Acusaram-no de crueldade e traição. Como Job, não encontravam consolação nas respostas comuns ao problema do mal e do sofrimento no meio daquela obscenidade. Não conseguiam arranjar desculpa nem circunstâncias atenuantes para Deus e, por isso, consideram-no culpado e, em princípio, merecedor da pena de morte. O rabino pronunciou o veredito. Depois, olhou para cima e disse que o julgamento estava encerrado: eram horas da oração da tarde. Outro aspeto, um dia, a Gestapo enforcou uma criança. Até os SS se sentiam incomodados perante a perspetiva de enforcarem um rapazinho diante de milhares de espectadores. A criança que, recorda-se Elie Wiesel, tinha o rosto de “um anjo de olhos tristes”, estava calado, extremamente pálido e quase calmo ao subir para o patíbulo. Atrás de Wiesel, outro preso perguntou: “Onde está Deus? Onde está Ele?” A criança levou meia hora a morrer, enquanto os presos eram obrigados a olhar para ele. O mesmo homem perguntou outra vez: “Onde está Deus neste momento?” E Wiesel ouviu uma voz dentro de si que o fez dar a seguinte resposta: “Onde está Ele? Ei-lo - está a ser enforcado no patíbulo”. Não é fácil compreender, somos humanos. Até porque o silêncio de Deus tantas vezes é ensurdecedor e no filme podemos ver muitos desses momentos de silêncio ensurdecedor.

5. A fé «numa verdade» a qualquer preço e a evangelização sem inculturação não resultam. Aliás fica bem clara a evidência desse fracasso num dos diálogos entre o padre Sebastião Rodrigues e o intérprete japonês nomeado pelo temível «inquisidor» japonês, o governador de Nagasáqui. Felizmente, hoje esta não é a nossa mentalidade, mas não seria a do século XVII. A morte em nome da fé contra a apostasia era considerado um «bem», porque se acreditava que após o martírio, a entrada no «paraíso» seria direta. Esta mentalidade hoje não faz sentido. Nenhuma fé é considerada um bem absoluto, mas um dom que em todas as circunstâncias conduz à vida e à luta pela sua dignidade. Se a fé fere ou tira a vida não serve para nada. A fé é geradora de vida, nunca motivo de morte. Não se impõe a ninguém, mas é proposta que entra sempre pela via do diálogo com tudo o que encontra no caminho. Daí a ideia da inculturação e o fim das verdades absolutas.

6. Por fim, pergunto: até que ponto a apostasia não é também uma exigência de Deus quando ela quebra a corrente da crueldade e restitui a liberdade? – No momento da apostasia do padre Sebastião Rodrigues esse confronto fica bem claro na voz que se ouve como diálogo interior entre Deus e o padre Rodrigues. Com isto se conclui, que a fé não pode senão ser uma realidade que liberta do sofrimento e que pode ser negada desde que isso traga um bem maior, neste caso, o fim da perseguição de inocentes. Até chego a esta pergunta extrema, sentir-se-á Deus beliscado na sua divindade ou na sua substância, se em nome da vida e do fim da crueldade, que alguém o negue? – Estou seguro, pelo que sei do Deus em que acredito, que até isso nos permite, porque a Sua opção é sempre pela vida absolutamente e sem condições.

2 comentários:

Aderno disse...

Gostei muito da sua reflexão.

Aderno disse...

Gostei da sua reflexão, e É muito pertinente atendendo ao desafios que a humanidade tem pela frente , sejam eles religiosos ou políticos .