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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O sossego de uma frase que devia desassossegar

1. «A caridade cristã não resolve nada. O que resolve é a justiça social». Sim, concordo com a primeira frase, embora tenha muito que se lhe diga esta ideia tão impregnada na sociedade de hoje, porque é um bordão para que não se fazer nada. Por isso, podemos também dizer, o que resolve não fazer nada, não partilhar nada, não matar a fome a ninguém, não ir ao encontro, dialogar, saudar, abraçar, estender a mão para cumprimentar, para acariciar, para abafar e para aconchegar entre tantos gestos que podem ser uma pequena luz que se acende no coração de quem nada tem senão a rua para deambular? – Tem muito que se lhe diga… E tantos dizem que um pequeno gesto, uma palavra fazem a diferença e podem ser uma gota de água de um oceano imenso, mas a Madre Teresa de Calcutá bem o dizia, que faltando essa gosta, o oceano é menor. 
2. Porém, a seguir concordo com a segunda parte da frase: «O que resolve é a justiça social». É verdade que enquanto não for criada uma sociedade justa, mais igualitária e que se organiza em função de todos os cidadãos, não deixaremos de ter marginais, pobres, mendigos, sem abrigos… A pobreza é uma forma de terrorismo silencioso que precisa de ser combatido urgentemente.
3. Em todo o caso gostaria de desbravar um pouco a ramagem que ofusca a caridade. A caridade, aquela que partilha o pão, a roupa e outros bens com quem não tenha nada disso, sempre existiu e nunca deve deixar de existir enquanto for necessário que exista. Todos os cristãos, especialmente, devem sentir-se impelidos a exercerem esta prática regularmente. Porém, os cidadãos em geral também devem sentir que têm essa grave responsabilidade, mesmo que sintam que os seus gestos de partilha não resolvem nada. Porque, o «não resolve nada», é fácil dizer-se em relação a tanta coisa da nossa vida. Com isso demito-me da minha obrigação e por mais umas horas descanso a consciência e sossego a minha quota de responsabilidade sobre a mancha negra que é a pobreza que nos rodeia. Por isso, não posso aceitar nem muito menos concordar com esta frase que sossega a consciência da generalidade da sociedade.
4. Obviamente, que concordo plenamente com segunda parte da frase «o que resolve é a justiça social», levada a cabo pelos governantes que não deviam ter vergonha dos pobres e implementarem políticas sociais claras que libertassem as pessoas que caíram na mendicidade. É da responsabilidade dos governantes gerirem os nossos impostos, por isso, é a eles que a este nível devia ser exigido providenciariam políticas justas que não deixavam ninguém para trás.
5. Tal não acontece, porque, por um lado, não há sensibilidade social, dando a entender que concertar políticas igualitárias tanto se dá como se deu. Menos ainda se nota que exista consciência de que a pobreza é uma violação dos Direitos Humanos, porque enquanto isso não acontecer não será combatida com determinação. O encolher de ombros perante esta desgraça, devia ser considerado crime. Por outro lado, a consciência da sociedade eleitora ainda é pouco militante e não se organiza para pressionar os políticos eleitos, para que tomassem a sério a suas graves responsabilidades na igualdade de oportunidades para todos os cidadãos. O bem comum e a justiça são o caminho da libertação dos oprimidos. Que esta ideia vença para que a desgraça dos infelizes e dos sem sorte possam encontrar alguém e algo que lhes acenda a luz da esperança e da dignidade. 

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