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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Olhar o que nos rodeia com os olhos da profundidade

Hoje vou tentar saltar ribeira abaixo sobre as pedras, espero não me falhar a passada para não cair dentro da poça.
1. A montanha que se eleva deixa-nos pequeninos no chão, neste chão irregular que nos pertence e de onde cresceu a montanha. Ela, a montanha, traduz o que significa a majestade quando se revela enorme diante do serviço e do amor. Nada é mais nobre do que estas qualidades postas ao serviço do outro, aquele que foi nomeado o nosso próximo, porque sem ele não seríamos nada e a vida não teria sentido nem valor algum. A única majestade que importa para o mundo e para a vida é a da montanha que se elevou do chão para tocar as nuvens.

2. Olhemos, porém, o mar que banha a terra e os nossos pés. Ele, evoca a imensidade e a sublimidade de um mistério que não é nosso, mas fazemos parte dele. Mesmo que tantas vezes a nossa vida seja "como o lírio entre os espinhos" (Cant 2,1ss; Mt 6,28). Porém, o lírio estoicamente nunca deixou de nascer e florescer todos os anos para nos alegrar a alma e fazer sorrir o pensamento. Uma manhã e outra manhã, uma vaga e outra vaga ondulante e fria, que sempre vem ao nosso encontro marulhando o silêncio que as encostas imponentemente geram quando me concentro com os olhos da cara fechados mas com os da alma bem abertos.
Nesta profunda oração consolei-me surpreendentemente com as palavras de Goethe "A man sees in the world, what he carries in his heart" (O homem vê no mundo o que ele carrega no seu coração). Como seria tão eficaz para a felicidade do nosso mundo, haver mais tempo e mais predisposição para olhar para "o mar imenso" - utilizando uma expressão de Fernando Pessoa - do coração e nele entrar com a barca da vida até ao porto seguro do amor, porque "Deus ao mar o perigo e o abismo deu, / Mas nele é que espelhou o céu" (Fernando Pessoa, Mensagem. Poema X Mar Português. Edições Ática: Lisboa. 1959).
Melhor sobre este mar da vida que o coração de cada um de nós tem, seria impossível dizer tão magistralmente como o nosso mestre da poesia.

3. No terceiro ponto lembrei-me de um céu estrelado, que para além de nos fazer entrar na casa do mundo com esse teto ricamente enfeitado de luzes, remete-nos para o infinito, que tantos outros no passado inquietos como nós idealizaram e sonharam, dizendo que esse presépio de luzes imensas que brilham sobre as nossas cabeças seria o cosmos, o ponto Alfa e Ómega.
Esta infinidade tem o brilho das estrelas e nós maiormente não nos encantamos com isso, porque o chão que pisamos está sujo e gastamos tempo demasiado a reparar nos nossos sapatos e nos dos outros. Seria bom pôr-se descalço de alma e coração, porque "o chão que pisas é sagrado", dizem os anjos quando chamam pelo nome os amigos de Deus.
Haverá sempre um nome que alguns desejavam que pronunciasse aqui como receita, mas esse não cabe neste texto, porque é do infinito que falamos. Todo o cozinheiro de sucesso sabe cozinhar segredos que por nada deste mundo os revela.

4. Não querendo ficar apenas pela dádiva da criação que nos rodeia, lembrei-me dos olhos profundos de uma criança, que para o meu singelo entendimento é o mistério mais sério do mundo, porque é a profundidade da vida humana e do universo. Nada seriamos sem esta dádiva. Por isso, como pode ser possível que os loucos dos adultos sejam capazes de perverter tão elevada delicadeza ou se escandalizem com o ruído de uma criança que chora ou brinca esbaforida com enormes gargalhadas de alegria? - Sim isso mesmo, é uma riqueza que sem ela, seriamos os mais pobres dos pobres.  Os olhos de uma criança são o sentido da vida, o reflexo do mistério e a imensidão do universo.
Por fim, permitam-me um apelo para quem se sinta deprimido, desencantado, frustrado, traído, amaldiçoado, negativo, vazio... Vá ao encontro de uma criança e olhe para os seus olhos. Seguramente, que verá Deus diante si. Não exagero se disser que esta é a "receita" para muitos dos males que nos perseguem.

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