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quinta-feira, 23 de março de 2017

As cegueiras que nos tomam a visão da alma

Comentário à missa do domingo IV da Quaresma. Pode servir a alguém...
La feliz ceguera (S. Bustamante)
Santo Agostinho diz o seguinte: «As obras do Senhor não são apenas factos: são também sinais. E, se são sinais, para além do facto de serem admiráveis, devem certamente significar algo. E encontrar o significado destes factos é por vezes bem mais trabalhoso do que lê-los ou escutá-los».
A cura do cego de nascença é um desses sinais. Este milagre revela que Jesus é a luz do mundo e vem libertar a humanidade de todo o género de cegueira. É óbvio que esta cura resulta da fé daquele homem. Só a fé conduz ao milagre do sentido da vida, à esperança na plenitude da luz.
Hoje precisamos deste horizonte no coração da humanidade como o pão para a boca. A crise de fé na dimensão da transcendência humana é muito grande e conduz à cegueira do desespero. Quanta infelicidade há por aí, que podia ser simplesmente convertida em felicidade se a justiça, a solidariedade e a amizade fossem os ingredientes da vida quotidiana de muita gente. Ainda não é, porque as escamas da cegueira estão bem impregnadas e não permitem a visão clara.
O simbolismo do gesto de Jesus radica no desejo que devemos sentir quando a cegueira interior nos persegue e nos faz mergulhar na escuridão do sem sentido da vida. O mundo que nos rodeia não enxerga o bem que Deus quer edificar a favor de todos. A humanidade cega-se com a ganância e o egoísmo que levam à injustiça, à falta de respeito pelos outros, em especial, os mais fracos. Daí que os espírito da vingança seja tão grande e vá ditando as regras da conduta humana.
Todo este ambiente traduz a ausência do respeito que é o abandono dos idosos, a violência doméstica, a exploração das crianças, o desemprego, a mentira, a calúnia, a vingança, o desgoverno das autoridades públicas e, numa frase, estamos com uma ausência de valores em todos os domínios da sociedade. Assim, falta-nos a todos olharmos Jesus de Nazaré, o verdadeiro libertador e dizermos: «Eu creio, Senhor» para que a libertação das nossas cegueiras seja uma realidade e todos possam convergir para um mundo mais fraterno e justo.
A violência das palavras e das atitudes, a insegurança perante o terrorismo, a desconfiança sobre os outros quer ao nível da sua religião e das duas opções políticas, estão a minar a boa convivência social e a fazer com que a humanidade se encegueire com o ódio, com o rancor e com o espírito de vinganças. Precisamos de descamar os olhos da alma para ver claro o essencial que está centrado na paz e na fraternidade.

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