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segunda-feira, 20 de março de 2017

Caminhando pela vida de Conceição Pereira

1. Andam para aí a dizer que hoje é o dia da felicidade. Como se pudéssemos intervalar a felicidade e remetê-la para celebrá-la apenas num dia só do ano. A felicidade é para sempre, com altos e baixos, é certo, mas existe sempre e até na solidão, em algum sofrimento pode transparecer a felicidade. Os lugares da oração quotidiana e da provável infelicidade, segundo crê a lógica deste mundo, têm sido desconcertantemente as maiores ofertas de felicidade. Os dias da felicidade só podem ser todos os dias.
2. Tenho em mãos um livro magnífico, «Caminhando pela vida», de Maria Conceição Pereira. Um enorme surpresa que tem sido uma felicidade enorme estar a ler. Mais ainda, é uma felicidade, se  vos testemunhar que chegou às minhas mãos pela mão generosa da autora, com uma simpática e bonita dedicatória. Gostaria de alinhavar aqui algumas ideias em jeito de comentário para que muitos mais madeirenses desfrutem do prazer desta leitura. Para facilitar a minha vida e dar-vos a possibilidade de percorrerem comigo o livro, estruturo o que pretendo dizer desta forma: a) a infância da autora e o apego à sua terra, o Seixal; b) a descoberta da cidade (Funchal) - e a vida que a cidade implica; c) A emigração; d) a intervenção política; e) estamos, seguramente, perante uma mulher de causas...
3. Caminhando pela vida, Conceição Pereira, conduz-nos pela mão aos cantos do Seixal, calcorreando veredas, as casas, os poios, as pessoas, a igreja, a catequese, a escola e a vida toda da sua freguesia onde ela viu a luz do dia. O cenário deste quadro bucólico está bem delimitado pelo mar e pela imponente montanha que a norte do Seixal se impõe. Dessa infância e juventude retém tudo o que o Seixal oferecia, os usos e costumes, a ruralidade sem que nada venha proibir o inconformismo e a vontade de progredir, vindo futuramente a construir o futuro da sua vida que as páginas do livro nos revelará.
4. A descoberta da cidade do Funchal, apresenta-se como  o segundo passo na história da sua vida. Abrem-se novas possibilidades. Embora as limitações do «Estado Novo» fossem tão cerceadoras, particularmente, para as mulheres,  na cidade pode aprender mais e permitiu-lhe a experiência do emprego. Mesmo face ao ambiente repressivo e à marginalização geral das mulheres da vida cívica, dá os primeiros passos na política e na mundo sindical, na acção Católica, Oposição Democrática e no Sindicato de Empregadores de Escritório e Caixeiros. Esta acção é já bem reveladora da mulher de causas em favor dos outros, especialmente, naquilo que se vai revelar depois, na lutadora intransigente pelos direitos e dignidade das mulheres.
5. Nos anos 60 e 70, a perseguição da ditadura, a pobreza generalizada, determinaram que uma porção enorme de portugueses emigrassem. Conceição Pereira foi para França, Paris. Aqui ainda mais sentiu a necessidade de aprender, porque confrontada com as condições miseráveis das mulheres emigrantes, especialmente, as empregadas domésticas, viu-se tomada pela sua veia de lutadora inconformada com a injustiça.  Movida pelo entusiasmo da Revolução do 25 de Abril, regressou à Ilha da Madeira, onde vai continuar os seus estudos para que possa vir depois a assumir o ensino como professora. Mesmo assim, nunca deixou de estar presente no mundo da política partidária e sindical, a causa da luta pelos direitos dos trabalhadores e a dignidade das mulheres foram o seu horizonte, pois nunca deixou de ter como elementos inspiradores essa causa na sua acção e nas suas opções, quer pessoais quer partidárias.
6. No prefácio o professor Nelson Veríssimo, traça o essencial da sua intervenção política: «sempre encontramos Conceição Pereira em manifestações, comícios, debates e acções cívicas, a distribuir propaganda e a colaborar na imprensa». Sempre contra as diatribes do Jardinismo, contra ao regime da colonia, pelas mulheres e trabalhadores, no Sindicato dos Professores,  foi militante da UDP e hoje do Bloco de Esquerda, foi deputada à Assembleia Regional da Madeira. Sempre sem parar de lutar, é uma mulher empenhada nas lutas pelo bem comum, a igualdade, a inclusão e por todos os direitos que sempre são coarctados pelos poderosos às classes mais frágeis, especialmente, os trabalhadores e as mulheres. Mais claro é impossível: «Cada um coloca-se do lado que quer, mas um Bispo pôr-se ao lado daqueles facínoras era coisa que não cabia na minha cabeça» (p. 96). Refere-se ao Bispo Saraiva que puxou as orelhas aos movimentos da Acção Católica, por causa do posicionamento político que assumiram nas eleições de 1969 para a Assembleia Nacional, aos tempos da Primavera Marcelista.
7. O livro é apenas uma parte da vida intensa e grande de uma figura que nos revela uma vontade sempre maior que a sua terra natal, mais vasta que o segundo lugar onde chegou, a cidade do Funchal. E até a cidade de Paris, parece não caber a inquietação de Conceição Pereira. Feliz a hora em que regressa para a ilha, para que entre nós ponha em acção toda a sua vontade e o seu saber em prol do bem comum e da justiça. Conceição Pereira, certamente, ficará na história do povo da Madeira, como uma  mulher guerreira e como um exemplo a nunca ser descorado por todos/todas as pessoas que implementem a luta pelos direitos dos mais fracos, particularmente, quando confrontados com a violência que consume o mundo feminino. No âmbito do clero, faz uma pequena referência à obra incontornável do Padre Marques na Paróquia de Fátima e na Lombada da Ponta de Sol. Um prazer enorme estar a passar algum tempo na leitura deste livro.

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