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segunda-feira, 13 de março de 2017

O filme Feiticeiro da Calheta - um hino à miséria e à beleza da Madeira

Desde que começou a ser notícia o filme: O Feiticeiro da Calheta, não dei muita importância e até nos últimos tempos, depois de estrear, estava decidido não ver o filme. Porém, num daqueles repentes que às vezes me dá, peguei em mim e lá fui ver o filme na sessão de ontem na sala do Casino da Madeira. A película é da autoria do realizador madeirense Luís Miguel Jardim e situa-se nos anos 40 e 50 do século passado.

É um filme datado e vai servir para deixar um registo de um feiticeiro e ou feiticeiras que o atraso cultural do povo da Madeira foi elegendo ao longo da sua história. São várias as freguesias na Madeira que têm o seu Feiticeiro ou feiticeira. Quem não nunca ouviu falar no Feiticeiro do Norte... 

O filme é a história de alguns dados biográfica do Feiticeiro da Calheta (poeta popular madeirense João Gomes de Sousa), que descreve as características essenciais de todos os feiticeiros e ou feiticeiras madeirenses. É alguém, sempre pobre e analfabeto, mas tem sabedoria oral e manifesta uma capacidade extraordinária para rimar quadras sobre a vida popular, é um contador de histórias nato, declama ou canta as quadras nas conversas e nos despiques nos arraiais típicos da Madeira, porque o feiticeiro é um cantor nato dos seus versos, toca um instrumento (o Machete), vai à cidade frequentemente, é sonhador, ajuda os outros pobres e faz premonições.

O filme pretende essencialmente homenagear o criador do «bailinho da Madeira», porque descobriram que afinal o pai dessa tão popular canção madeirense é o Feiticeiro da Calheta.  Segue-se estas quadras como exemplo, do seu génio criativo:

«Ainda há uma coisinha d'arroz
Porque vem de fora em saco
É guloso de comer
mas é um pouco mais fraco

Agora está a oito patacas
Quando em tempos era barato
Há muita falta de azeite
e o bacalhau de quarto».

O filme Feiticeiro da Calheta, de acordo com o meu singelo observar, tem quatro elementos que merecem devido destaque: 1. o falar (sotaque) madeirense, 2. a denúncia certeira do regime da colonia, 3. a pobreza miserável, 4. a intriga (a "bilhardice") quotidiana à sombra da religião.

Um à parte. A Igreja Católica da Madeira, no filme até fica bem representada com alusão à obra magnífica do padre Laurindo Leal Pestana (1883-1951), que era Diocesano, padre da Diocese do Funchal, e pároco de Santa Maria Maior, Socorro. É o Fundador da escola de Artes e Ofícios, que futuramente será entregue aos Salesianos, ao contrário do que é referido no filme que já nessa altura já estaria sob espírito da pedagogia dos salesianos.
O Padre Laurindo, é uma figura, que merecia um filme sobre a sua vida e obra. Fica aqui o desafio ao realizador do filme Feiticeiro da Calheta, Luís Miguel Jardim.

Vamos agora aos elementos que me permitem fazer a leitura do filme.
1. O falar (sotaque). Está muito bem apanhado, está cheio de expressões típicas do nosso falar, mas que se vai perdendo à medida que o tempo passa e as novas gerações vão recebendo as influências da sociedade massificadas, o poder da comunicação social fez o seu caminho. Ri com vontade quando os diálogos entre os autores se fazem recorrendo a expressões do género: «levei uma malha, que esmigalhou-me o corpo todo»; «vou partir-lhe as ventas»; «1 kl de açucre para marcar no role»; «vais pagá-las todas nem que seja a arder no inferno»; «raio da peste»; «maldito»; «cruzes, credo abrenuncia»... Entre tantas outras.    

2. O mais importante do filme é a denúncia do regime da colonia. Os senhorios têm uma interpretação brilhante e retratam claramente como era o proceder dos «senhores donos disto tudo» da Madeira velha, que exploravam as famílias a todos os níveis, a terra pertencia-lhes e pagavam com pobreza, exploração e promiscuidade aos seus colonos. O melhor pertencia-lhes. Até o «direito» de abusarem sexualmente das filhas das pobres famílias trabalhadoras das terras colonizadas. Um regime terrível que merecia ser melhor estudado nas nossas escolas, para que mais nenhuma forma de exploração viesse acontecer ao nosso povo, até porque hoje temos outras formas de exploração que os poderosos inventaram para usarem e abusarem da dignidade dos mais frágeis, como era o caso, da «maldita» colonia.  

3. A pobreza roça a miséria. As crianças passam fome, andam descalças e o pormenor dos pés descalços das crianças é das cenas mais tocantes do filme. Neste domínio deve-se destacar o papel das filhas  do senhorio, porque percebem que a pobreza radica aí e quando se aproximam das crianças dos seus benfeitores (as filhas dos colonos) tiram os sapatos, roubam pão das suas mesas fartas e levam às crianças esfomeadas.


É muito interessante que são as crianças, filhas dos senhorios, que fazem a leitura clara da injustiça e que fazem sentir aos seus pais e avô que há fome e miséria nas casas das famílias que eles exploram, os seus colonos.

4. A juntar a tudo isto o povo entretém-se com intriga (a «bilhardice») uns contra os outros. O único que nos parece ter um comportamento irrepreensível é o feiticeiro. O merceeiro, o leiteiro, roubam «à má cara», um na balança e o outro junta água ao leite que vende porta à porta. Entretanto, divertem-se com as suas amantes («amigas») nos palheiros ou nas casas sem maridos emigrados ou viúvas.


A imagem que passa do povo em geral é negativa. São roubados, explorados, mas também à sua medida fazem o mesmo, uns contra outros. A honestidade e a manhosice do povo madeirense saem bem escarrapachadas sobre a tela. Tudo isto a coberto de uma sombra religiosa, que se manifesta nos diálogos, através das várias expressões que são invocadas para exorcizar a maldade, a intriga e as malfeitorias que acompanham o quotidiano do povo. 

São confrangedores alguns papéis. Por exemplo, o de Alberto João Jardim (o pastor) e de João Carlos Abreu (o barbeiro). Compreende-se a necessidade do chamariz propagandístico do filme, mas não seriam necessários.

Não posso deixar de destacar com entusiasmo as imagens aéreas sobre a paisagem da Calheta e a banda sonora. Belíssimo. 

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