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terça-feira, 4 de abril de 2017

A Revolta da Madeira

1. A Revolta da Madeira, também referida como Revolta das Ilhas ou Revolta dos Deportados, foi um levantamento militar desencadeado com a finalidade de derrubar o regime do governo da Ditadura Nacional (1926-1933) que ocorreu na ilha da Madeira, iniciando-se na madrugada de 4 de abril de 1931. (Diz a Wikipédia). E faz hoje precisamente 86 anos que se deu esta rebelião na Madeira.

2. O mês de abril de 1931 está cheio de referências de guarnições, de peças de artilharia, de navios de guerra, de deportados, de boatos… Imagine-se a incerteza, a contra informação e todo o ambiente que se viveu nesses dias de revolta e de perseguição.

3. Os anos trinta na Madeira do séc. XX, foram pródigo em revoltas, começa com a Revolta da Farinha (Janeiro de 1930) e depois prolongou-se nos anos seguintes, 4 de abril de 1931 a 2 de maio do mesmo ano, até culminar na Revolta do Leite (meados de 1936). A Revolta do Leite foi um levantamento popular ocorrido, na Ilha da Madeira, no ano de 1936, como protesto contra um decreto lei que estabelecia o monopólio na indústria dos lacticínios, através da criação da Junta Nacional dos Lacticínios da Madeira (JNLM).

4. Gostava muito de descobrir qual o papel da Igreja em todo este processo... A Revolução do Leite conta com a sobejamente conhecida história do Padre César Teixeira da Fonte. No livro de João Abel de Freitas, A Revolta do Leite, o Padre Teixeira da Fonte é apresentado como sendo «a personalidade de maior destaque na Revolta do Leite, quer por características próprias, quer porque as autoridades políticas da Madeira a isso o empurraram» (DE FREITAS, João Abel, A Revolta do Leite, Madeira 1936, Lisboa, Edições Colibri, Abril de 2011, p. 117).

5. A da revolta população rural mereceu o apoio do Padre Teixeira da Fonte. Como consequência disso viria a ser preso, a 11 de setembro de 1936, conjuntamente com muitos dos seus paroquianos na fétida cadeia subterrânea de «Forno do Lazareto». O Padre Teixeira da Fonte foi metido no calabouço do Lazareto, sem que lhe fosse dada qualquer explicação, nem sequer autorização para ser interrogado pelo Governador Militar. Ali permaneceu durante onze longos e penosos meses. Todos os seus movimentos eram observados e estava privado de aceder a qualquer meio de distracção ou orientação espiritual. No dia 14 do mesmo mês foi interrogado pela primeira vez e perante as questões «puramente fantásticas», porque absurdas, percebeu que era vítima de «intrigas» e «mesquinhas paixões dos seus autores». Depois de longos onze meses no Lazareto seguiu para Caxias. Rezam as crónicas que após este calvário da prisão cá e lá, o seu regresso ao Funchal e concretamente à Freguesia do Faial, é curiosa e mais curioso o seu regresso repentino a Lisboa em 1938. Após poucos meses, não dava mais para ficar no lugar onde o poder político e religioso, amancebado, congeminava perseguir o «comunista» diabólico e perigoso que sublevava o povo. Faleceu em Lisboa, a 18 de junho de 1989.

6. Quanto à Revolta da Madeira de 1931, pouco ou nada se fala do papel da Igreja Católica da Madeira e nenhuma figura em concreto parece ter-se destacado no processo. Não será muito difícil de prever qual a atitude da Igreja Católicas em geral se tivermos em conta o exposto no caso do Padre Teixeira da Fonte em 1936, que o abandonou completamente em todo o processo da prisão e que depois até parece ter sido conivente na difamação. Outro dado prende-se com a «sacralização» da Ditadura de Salazar que então começava a acontecer e que vai ter todos os contornos conhecidos de todos nós, calcula-se que por aqui o poder religioso estivesse entre Anás e Caifás, isto é, nem pelo povo revoltoso nem pelas forças que perseguiam os revoltosos. As aparições de Fátima também já contribuíam para entreter o povo português e como é óbvio a Madeira não ficava indiferente ao assunto. O bispo desta época foi D. António Manuel Pereira Ribeiro (1914-1957).

7. Custa a crer, mas este passado de revoltas faz parte da história da Madeira. Qualquer injustiça é intolerável e devia calar fundo no coração de todos nós para que não se repitam atentados à liberdade de consciência e para que a livre expressão do pensamento, o direito de opção e a firmeza das convicções sejam o alimento essencial da Democracia. Não podemos hoje esquecer este espírito de revolta dos nossos antepassados e muito menos permitir que a sociedade se aliene e se silencie perante a nobreza daqueles que souberam assumir riscos sem olhar as consequências, no que diz respeito às suas opções a favor do bem do povo em geral.

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