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sexta-feira, 14 de abril de 2017

Sábado 15 abril: O silêncio entre a ausência e a presença de Deus

Semana Santa 2017
1. Em todos nós há uma perene idade da inocência, ou porque precisamos de ser pequeninos para nos aproximarmos dos pequeninos ou porque a esse tempo da infância sempre regressamos em muitos momentos da nossa vida. Ninguém pode negar isso, porque como sublinha Milan Kundera, a ternura denuncia a veracidade do amor. Por isso, no recôndito silêncio das nossas igrejas, das procissões com andores e velas, o refresco da água benta, a explosão da luz e a força da Palavra, dizemos: «Jesus Ressuscitou»!

2. Eis o dia da festa das aleluias. A nossa razão continua limitada, não alcançando tudo o que cada gesto ritual desvela, vimos e lemos o quanto mergulha na crise a humanidade e o mundo quando despreza ou menoriza os mistérios e se arroga dona dos enigmas. Há sempre uma tragédia quando a arrogância autossuficiente dita o modus vivendi do tempo. Aí o mundo converte-se em cemitério, porque passou a haver mais mortos do que vivos.

3. Até ao Iluminismo, a inteligência ofuscava-se com o incenso. Vieram testemunhos que acenderam a luz perante a natureza e disseram que os seus bens eram reflexo do Criador, por exemplo, Copérnico e Galileu. Newton acertou o relógio pelos ponteiros das catedrais. A presença de Deus acercou-se de tudo o que mexia. Mas a razão veio como centro de toda a existência reduzindo a religião a superstição. Mas o mistério nunca foi decifrado, manteve-se e está vivo sempre vivo no meio do mundo e no coração de cada pessoa. São surpreendentes autores como Voltaire, Baudelaire e Rimbaud, que se acusaram com sede do Absoluto. Veio depois Dostoiévski que despojou os religiosos e escancarou-lhes a alma cheia de demónios e dúvidas. Mas o mais decidido de todos foi Nietzsche que «matou» Deus, concedendo à humanidade o espírito da liberdade total. Nesse contexto Sartre, proclamou que o inferno eram os outros e a morte seria um absurdo fatal que desprovia a vida de sentido. O silencia entre a presença e ausência de Deus manteve-se como nunca.

4. O jogo do silêncio entre a ausência e a presença de Deus viu grandes tormentos angustiantes acerca do nome de Jesus. Muitos O acolheram, mesmo que fosse o um dos enigmas inquietantes: Claudel, Simone Weil, François Mauriac, Chesterton, Péguy, Graham Greene, Alberto Schweitzer etc. No nosso país: Fernando Pessoa, Miguel Torga, Sophia de Mello Breyner, Alçada Baptista, José Saramago (mesmo se dizendo um confesso ateu)… Estes nomes apenas entre tantos outros que disseram tanto sobre as suas inquietações, dúvidas e angústias à volta dessa presença e ausência que o nome de Jesus sempre invoca.

5. O epílogo da Semana Santa é a noite da Vigília Pascal. Por isso, não me seduzem tanto as obras de arte que retratam a visão de Deus ensanguentado, derrotado e morto. Antes mais aprecio todas as visões de Deus que O apresentam menos sisudo, mais alegre e mais descontraído com as coisas deste mundo e do outro.

6. Muitas vezes medito em títulos extraordinários sobre Deus: «E até Deus se ri»; «Deus é humor» e «Deus é alegre». Creio, portanto, que tudo desta vida terá sempre a proteção do infinito humor de Deus, que desatou o riso ao sisudo Abraão e a Sara amargurada (cf. Génesis 17, 17; 18, 12-15). Aliás, quando no presente o deserto é grande e não parece haver futuro, só o riso poderá ser fecundo. Esta foi a conclusão de Sara, a estéril: «Deus fez-me rir e quantos souberem do motivo do meu riso rirão também» (Génesis 21, 6-7). O Deus extravagante enche de alegria aquele que cai no desespero e faz quebrar todo o gelo da solidão.

7. Por isso apesar de tudo descubro na Igreja figuras exímias na arte da extravagância e da descontração, lembro apenas dois nomes bem conhecidos de todos nós, João XXIII e João Paulo I, que souberam quebrar um passado todo ele marcado de forma voluntária ou involuntária pela rigidez de normas inadequadas confundidas com a vontade de Deus.

8. Alguma doutrina da Igreja mais recente dão uma imagem de Deus muito mais aberta e mais de acordo com a imagem dos evangelhos. Deus é festa e alegria. Por isso, partilho com todos os que se impressionam com o sofrimento e com a morte de Jesus os dez mandamentos da alegria: 1. Procura um objectivo para a tua vida; 2. Tens que valorizar o que tens de bom; 3. Aceita as tuas limitações; 4. Trabalha no que mais te agrada; 5. Vai-te preparando em tarefas agradáveis para quando fores velho; 6. Mata o ódio interior; 7. Pensa nos outros; 8. Revê os cálculos das tuas avaliações; 9. Sorri, canta, assobia, faz o que sabes; 10. Descobre que Deus é alegre (cf. Félix Núñez Uribe, Deus é Humor, pag. 137). Pode-se rir de tudo? – Penso que sim. Porque como dizia Voltaire, «o riso humano é, na sua forma primitiva, um cerimonial de salvação». Em todos os casos o riso é fecundo. E já todos sabemos que «rir é o melhor remédio». Boa Páscoa.

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