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segunda-feira, 10 de abril de 2017

Terça feira 11 abril: o dolorismo das celebrações pascais

Semana Santa (pode ser lido o seguinte texto também no Funchal Notícias, AQUI)
1. A quadra da Páscoa é um tempo interessante espiritualmente falando. Serve para nos revermos interiormente. Serve para pensarmos na vida e na sua dimensão divina e espiritual que ela contém. Serve para nos interligarmos com Deus e o transcendente face à radicalidade da vida material nas suas limitações mais sentidas: o sofrimento e a morte.

2. Porém, não gosto tanto das várias celebrações da Semana Santa quando nalguns momentos nos colocam perante a celebração da condenação de Jesus, como se nós fôssemos os culpados e por isso temos que sofrer para espiar o sofrimento que Lhe foi imposto. Obviamente, que esta catequese hoje pouco ou nada entra no ouvido da camada mais jovem em geral. Neste sentido, considero que a condenação de Jesus à morte e a sua «vontade» em assumir esse radicalismo foi precisamente para acabar com todo o sofrimento e com todos os esquemas de injustiça que este mundo teima em manter que fazem vítimas sofridas e mortais.

3. A festa da Páscoa devia ser uma festa. Uma grande festa da vida. A alegria e a felicidade deviam ser o «prato» principal desta quadra festiva. Os cânticos deviam ser todos alegres, sem nenhuma palavra que nos fizesse pensar em condenação, em sangue, em dor, em morte... Tudo seria festa, sempre festa. Porque basta o «calvário» da vida quotidiana.

4. Os passos da via sacra diária são mais que suficientes para termos dor e confronto com os limites que a vida física nos oferece de bandeja sem que muitas vezes façamos muito para receber essa tenebrosa oferta. Não faltam quadros da via sacra diária onde estão as traições, a maledicência, as perdas das outras pessoas que morrem e que nos eram queridas, a violência, a insegurança, a irresponsabilidade, o poder opressivo que nos humilha, a perda do sentido da vida, a morte de crianças, a fome, o terrorismo, a depressão, o suicídio e tantas desgraças que as circunstâncias da vida concreta nos oferece cruelmente sem qualquer resquício de compaixão.

5. O dolorismo que algumas manifestações destes dias, que por aqui e por ali vamos presenciando, são ainda vestígios de uma catequese de séculos imposta pelas várias mediações cristãs para que fossem dominadas as populações. Daí que hoje não fazem sentido. Perante a teologia da alegria e da festa que está subjacente ao processo de Jesus, penso, que seria tempo para de inovar sem medos nos textos bíblicos, nas orações litúrgicas e até mesmo nalguns ritos que toda a liturgia da Semana Santa continua a sugerir, profundamente anacrónicos e fora da vida dos tempos de hoje.

6. A vida dos tempos de hoje está mais voltada para a alegria, para libertação de tudo o que seja opressão e para a liberdade de expressão de cada pessoa individualmente. Há uma autonomia dos fiéis que devia ser respeitada e até incentivada. Mas, não sendo, pouco se vão importando e pouco ou nada sofrem com isso. Fazem muito bem. Por isso, devia a Igreja Católica inteira ter a coragem de inovar neste domínio, porque para as gerações mais jovens, as celebrações cerradas, profundamente hierarquizadas, nubladas com incenso à imagem dos tempos medievais, não lhes dirá nada seguramente. É preciso inovar nos textos, fazer com que sejam mais curtos e deviam ser selecionadas partes bíblicas que tenham uma implicação clara na realidade concreta do nosso tempo.

7. As pessoas que participam nas celebrações da Semana Santa e Páscoa são na sua larga maioria as pessoas idosas que foram fortemente educadas sob pressão face àquilo que as igrejas cristãs ditavam. Não estarei aqui seguramente para ver, mas como será a participação nestas celebrações daqui a alguns anos, quando forem idosas as crianças, os adolescentes e jovens de hoje… Será diferente, estou seguro disso. Não ligarão nenhuma e se ligarem será por causa do medo da morte, coisa que parece nunca ter estado em crise nem parece que venha a estar no futuro.

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