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sábado, 13 de maio de 2017

O que nunca dirão os discursos oficiais ao Papa Francisco (4)

Termina hoje a nossa incursão sobre as mensagens oficiosas que nunca chegarão ao conhecimento do Papa Francisco...
1. Gosto de apreciar Nossa Senhora como a Mãe de Jesus, a mulher de Nazaré que mais tarde se junta aos Apóstolos para acolher o tsunami que representou a chegado do Espírito Santo, depois da Ressurreição de Jesus Cristo. Gosto de ver a mulher de Nazaré, aquela que questiona o anjo: «Como será isso se não conheço homem?» (Lc 1, 34). Gosto daquela que se liberta das lides quotidianas de Nazaré e foi apressadamente às terras montanhosas da Judeia, à vila onde Zacarias morava, para visitar Isabel. Gosto ao contrário da imagem de Fátima, da mulher de Nazaré que canta o Magnificat, onde está dito com toda a força e coragem, tudo o que Deus fez e vai fazer, segue-se a oração de Maria:

A minha alma glorifica o Senhor *
E o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.

Porque pôs os olhos na humildade da sua Serva: *

De hoje em diante me chamarão bem aventurada todas as gerações.
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas: *
Santo é o seu nome.

A sua misericórdia se estende de geração em geração *
Sobre aqueles que o temem.
Manifestou o poder do seu braço *
E dispersou os soberbos.

Derrubou os poderosos de seus tronos *
E exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens *
E aos ricos despediu de mãos vazias.

Acolheu a Israel, seu servo, *
Lembrado da sua misericórdia,
Como tinha prometido a nossos pais, *
A Abraão e à sua descendência para sempre.

2. O que se diz ou prega sobre Maria de Nazaré reveste-se de uma desumanidade impressionante. A iconografia mariana é disso um exemplo. As imagens que se contemplam de Maria de Nazaré revelam uma mulher assexuada, nada próxima da condição do ser mulher. Um rosto sempre tristonho, cabisbaixo e de mãos sempre voltadas para o céu como se o inferno estivesse aí junto aos pés. Esta visão do ser mulher em nada tem que ver com a condição feminina e não espelha a dignidade que esta condição expressa de riqueza e diversidade. A feminilidade ainda continua a ser um perigo para as igrejas profundamente masculinizadas que a tradição máscula arquitetou baseada na imbecilidade de se dizer que é a vontade de Deus. A divinização de tais argumentos é um sacrilégio e uma ofensa ao Deus da universalidade bem patente no Evangelho da Cananeia e no diálogo extraordinário de Jesus com a Samaritana junto ao poço de Jacob. 

3. Maria de Nazaré, antes de ser Mãe, é a Serva de Deus, que participa do plano libertador que Deus quer levar adiante a favor da humanidade inteira. É Ela que se levanta como profeta ou discípula ou apostola para dizer «NÃO» a tudo o que se opõe a esse plano libertador de Deus. O Seu «SIM» não é uma manifestação submissa, mas compromisso ativo, militante nessa obra de Deus. Ela é a Maria do povo, um povo concreto, a mulher do nosso chão, a companheira que faz caminho connosco nas veredas deste mundo e que em cada esquina nos toca com o Seu abraço de amor. O Evangelho prova-nos que esta mulher é a Maria pobre, que vem do meio do povo, da aldeia, da cidade… Ora integrada no sangue que escorre nas encruzilhadas dos caminhos ora desprezada por ser mulher e por manifestar a diferença, exatamente, como acontece ainda hoje a qualquer mulher que assuma ativamente a sua condição feminina e que se preze porque quer ser diferente do status machista que a sociedade convencionou.

4. No canto de Maria «Magnificat», acolhemos Maria como a mulher pobre vergada ao carinho dos pobres desta vida, que procuram Deus e gritam por justiça. É desta mulher que se aprende o que é a fé, a escuta, a reflexão e a capacidade de decidir, mesmo que muitas vezes a compreensão das coisas não seja assim tão clara e tão óbvia como Ela desejaria. Assim, mais valia para uma humanidade mais justa, fraterna e amiga dentro das igrejas cristãs se Maria de Nazaré fosse olhada como a discípula ou a apostola, que Jesus como Mãe relativiza frequentemente em muitos momentos do Evangelho. Por isso, Maria não se valeu da sua condição de Mãe para contrariar o Filho e fez-se discípula.

5. As bebedeiras religiosas são perigosas. Muito bem andaríamos se esta correria religiosa representasse mais humanidade, mais fraternidade nas comunidades e sociedades portuguesas, que fossem exemplares para o mundo. Também seria bom que representasse mais honestidade em todos os quadrantes. 
O país católico vê-se frequentemente a braços com antros de corrupção que violentam o bem comum e desgraçam o nosso povo em geral, há uma impaciência geral que quotidianamente gera violência, desrespeito pelos semelhantes e pelos seus bens, a falta de civismo e má educação pela natureza e pelos caminhos que são de todos está aí diante dos nosso olhos todos os dias. Há uma panóplia de coisas que deviam deixar de existir se os picos religiosos fossem sérios e representassem depois consequências melhores para o bem de todos, no domínio da solidariedade, da amizade e na luta contra a pobreza. 
Não devem ser poucos os que andam neste país a roubar tudo quanto podem, são violentos, corruptos, pedófilos, violadores e depois vão aos santuários acender velas à Virgem Maria… Os pontos seguintes são alguns exemplos do que anda mal e que deviam estar melhores, se os picos de religiosidade geral fossem mesmo levados a sério.   
  
6. O nosso sistema de saúde anda pelas ruas da amargura. Os cuidados de saúde estão numa penúria confrangedora. Será que esta onda gigante de devotos está consciente destes problemas? - Ora se está! Até reza isso... Provavelmente, revolta-se entre portas e nas esquinas das ruas escondidos para que só eles próprios oiçam o seu maldizer, a sua pequena rede, os muito próximos da sua relação humana.
Neste domínio da saúde ouve-se falar de exemplos esporádicos que nos merecem apreço de grandes profissionais ligados à saúde. Mas ouve-se falar de irresponsabilidade, desorganização, má gestão e falta de dinheiro para o que é necessário ao trabalho dos agentes da saúde para que os nossos hospitais deixem de ser antecâmaras da morte anunciada.
Não é raro saber-se que muitos doentes entram com uma doença e saem para o cemitério com outra contraída dentro do hospital, que resulta da escassez de materiais necessários às desinfeções e aos cuidados básicos para curar as doenças. Não há verba, como se convencionou rematar a partir da famigerada crise, para justificar a injustiça, a desordem e o muito desleixo.

7. A nossa educação também está como está. Os professores andam em pânico por causa da violência e do mau comportamento dos alunos. Há crianças que chegam à escola com fome. Mas não falta dinheiro para a mesma clientela e para alimentar os famosos vícios adquiridos. Ao pé de Maria não oiço ninguém rezar e muito menos pregar isso.

8. Ainda há desemprego elevado, o que vai gerando uma rede de pobreza cujo número de pobres só Deus sabe, porque aos governantes o flagelo da pobreza pouco ou nada interessa. E aos devotos parece que nada disso conta nas piedosas intenções nas contas do rosário.

9. Vamos ao ambiente de violência em que vivemos todos os dias. Todo este ambiente de desemprego e de pobreza estão a criar homens, mulheres, jovens e crianças cada vez mais violentos, desocupados, sem perspetivas de futuro, desorientados sem valores, que se apresentam agressivos, desordeiros e cheios de desrespeito por si próprios, pelos outros e pela natureza. Basta dar uma volta pelas nossas cidades ao cair da noite para nos apercebermos a olho nu como a prostituição de rua está a crescer enormemente.
A violência doméstica vai revelando o descalabro da educação no desarranjo familiar, a ganância pelas miseráveis pensões dos idosos vai semeando o medo, a insegurança nesta porção enorme da nossa população. Houve-se falar de graves maus tratos contra idosos indefesos e desprotegidos à mão de familiares sem escrúpulos que não se inibem de cometer atrocidades contra os seus entes fragilizados pelo peso da idade.

10. E por ter falado na rua, lembrei-me que andam a vaguear nas nossas cidades pessoas sem abrigo, embriagadas e maltrapilhas. Esta grande vergonha de um país que se gaba de ser turístico, asseado e todo a Católico, permite-se ter cidadãos a vaguear nas suas artérias ao deus dará. Um escândalo que nos devia envergonhar a todos. Passam fome e tremem de frio sobre as pedras nos recantos da rua. A verdadeira devoção a Nossa Senhora devia impelir os devotos ao cuidado daqueles que estão excluídos e que caíram na desgraça. A religiosidade ou tem prática, obras, ação ou então não serve para nada.

11. No livro belíssimo do Papa Francisco, «O nome de Deus é misericórdia». Aqui está reafirmado pelo Papa que «pensando no testemunho dos papas que me precederam, e pensando na Igreja como um hospital de campanha, onde se curam prioritariamente as feridas mais graves. Uma Igreja que aquece o coração das pessoas com a proximidade» (pág. 25). Ah pois os problemas são tantos e tudo se mantém na mesma, um sossego pouco desassossegado. Por aqui se vê que enquanto andarmos perdidos, «bêbados» com excessiva religião popular, porque mobiliza multidões, não restará tempo para escutar o Mestre, exatamente, como manda claramente Maria de Nazaré, a Mãe de Jesus.

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