Convite a quem nos visita

terça-feira, 27 de junho de 2017

DEUS E EU

Para esta quarta feira, temos no Banquete da Palavra, Guida Vieira com um texto sobre a temática «Deus e Eu» com um texto exclusivo para os leitores deste site. Simplesmente brilhante... A fé é uma dúvida (Miguel de Unamuno), a Guida confirmou isso... Muito obrigado pelo seu belíssimo texto.
A minha relação com Deus tem sido, ao longo da minha vida, uma espécie de um diálogo de surdos. Eu passo a vida a questionar, mas Ele não me responde. Mesmo assim, consegui criar uma relação próxima, pois sempre o tratei por tu e ele nunca se manifestou, nem contra nem a favor.
Quando era apenas uma criança e andava na escola primária, acreditando piamente na sua existência, muitas vezes lhe perguntava: ó meu Deus, por que razão eu e os meus irmãos, vamos descalços para a escola e a maioria das restantes crianças vão calçadas? Por que razão temos que comer aquela sopa horrível, com massa escura e milho, todos os dias, e a maioria das outras crianças não? Estas interrogações muitas vezes foram colocadas em redações que fazia na escola, e claro, a professora não dizia nada. Estávamos nos anos cinquenta.
Quando cresci, continuando a acreditar, e aos 17 anos fui ofendida por um padre num confessionário, voltei a perguntar-lhe: Porque deixas que isto aconteça, em teu nome na tua casa? Mas Ele, não só não me respondeu, como o tal padre continuou a ofender outras mais… Continuei a crescer e a ver a pobreza das mulheres que, como a minha mãe, trabalhavam até altas horas da noite para ganhar uns tostões que não davam para nada, voltava a perguntar-lhe: Achas isto justo? E elas, e eu, e as minhas irmãs, e as minhas familiares e amigas lá continuávamos a tentar melhorar a vida, mas com as maiores carências do mundo.
Fui trabalhar para uma fábrica, conheci outras realidades, algumas ainda piores que a minha, e as minhas perguntas não tinham fim. Eu bem perguntava mas Ele nunca me respondia. Mesmo assim nunca desisti de perguntar. A fé já não era tanta mas nunca desisti de O enfrentar com as minhas interrogações.
Depois enfrentei a vida com os seus acontecimentos que, em certos momentos, nem me davam tempo para O interrogar. Foi uma luta dura, pessoal e colectiva. Trabalhava 48 horas por semana e estudava à noite. Depois veio a luta reivindicativa, a conquista de direitos e o tempo ia passando a uma grande velocidade, e o meu diálogo com Deus foi rareando cada vez mais.
Agora que tenho mais tempo livre, dou por mim novamente a interrogar. A perguntar. Porquê? Porquê? Porquê? Porque deixas que a humanidade esteja a destruir-se a si própria? Porque deixas que sejam sempre inocentes a serem vitimados? Porque deixas isto, aquilo e aquele outro???…Ele não me responde, mas vou continuar a perguntar, porque não sou pessoa de desistir de nada.
Guida Vieira

A aventura do sangue

1. Ontem (26 de junho de 20017), fui dar sangue ao Banco de Sangue do hospital distrital do Funchal (Serviço de Sangue e Medicina Transfusional). É um desafio voluntário que assumi como dever de cidadania e por solidariedade com os que mais sofrem, deve ser por isso que sempre me acompanha a seguinte lembrança, que é uma frase que uma das enfermeiras me disse e ainda diz todas as vezes que lá vou: «com esta dádiva, ajuda três pessoas». Calou fundo esta frase e nunca mais a abandonei do meu pensamento.

2. Dar sangue é a melhor dádiva que se pode fazer. Um bem tão necessário à nossa vida, mas que de quando vez se pode partilhar um pouco dele com quem passa pelo infortúnio da doença, porque não lhe permite que a vida circule com a qualidade necessária. Gosto de o fazer, especialmente, sempre que chega o Natal e a Páscoa, é a minha oferta natalícia e pascal ao bem comum. Este ano não tive oportunidade de o fazer na Páscoa passada, só agora é que foi possível. Estas duas últimas vezes foram uma verdadeira aventura, essencialmente, pelo que implicou de morosidade.

3. A primeira foto que acompanha este texto, comprova o tempo que demorei (entrada no estacionamento 08;48 m e saída 11;25 m). Uma manhã quase toda para esta função, ao contrário do que apontam as campanhas para angariar dadores, 50 minutos. Um serviço voluntário, gratuito, caridade da mais radical, não pode demorar tanto, o tempo de espera para cada passo é demasiado. Um tempo infindo para chegar ao enfermeiro e outro tanto para chegar à consulta do médico, mais outro ainda para chegar ao bloco da recolha, onde se está cerca de 20 minutos. Se não fossem os dois dias de folga que são concedidos aos dadores, provavelmente, a crise de sangue seria bastante grave, particularmente, para quem precisa que exista este serviço de dádivas célere e bem organizado.

4. Porque acontece isto? – Perguntarão os leitores. Porque a falta de pessoal é bem notória. O reduzido pessoal de enfermagem não tem mãos a medir e claramente vê-se que tudo fazem para que as coisas decorram com celeridade, mas não podem dar mais. Curiosamente, face ao que vamos provocando quando o diálogo é possível, são eles mesmos a assumirem que é humanamente impossível fazer com mais celeridade as coisas. Face ao que os meus olhos viram nesta aventura do sangue, deixo aqui uma palavra de incentivo e um forte obrigado à dedicação e ao esforço do pessoal do bloco de recolha de sangue, que tudo fazem com um zelo irrepreensível pelo bem de quem lá vai e pelos doentes que anseiam o líquido salvador das suas vidas.

5. Mais um elemento que desmente sob experiência própria a propaganda oficial, que nos pretende fazer crer que os investimentos na saúde têm sido avultados e que tudo está a funcionar dentro do normal. Se assim for, então das duas uma, ou tudo não passa de crua mentira ou então o hospital está a ser administrado por um bando de incompetentes…

6. Não posso calar esta partilhar convosco, esta minha experiência relacionada com uma coisa tão singela nos tempos que correm, dar sangue. Pois devia funcionar em tempo razoável, para que nunca houvesse falta de pessoas suficientes todos os dias para partilharem esta dádiva preciosa. Os doentes necessitados o exigem e merecem que nós partilhemos este pedaço da vida. Não será pelas várias secas que já apanhei que deixarei de dar sangue, vou continuar a fazê-lo, porque o farei pensando em quem precisa dele e não serão as circunstâncias que me irão travar o sentido da solidariedade dando um pedaço de mim se Deus para já me permite fazê-lo.

sábado, 24 de junho de 2017

Elegia da pós morte

Para o nosso fim de semana. Neste ambiente de consternação e em memória das vítimas das tragédias fica este reflexo em poema como elemento sinal da nossa atitude orante perante os mistérios da vida e do mundo. Sejam felizes nunca prejudicando ninguém.

Caminhamos silenciosamente
sobre um chão sujo de cinzas
ladeados pelas carcaças de árvores 
que atestam o cheiro do carvão
a dor incandescente da morte
porque a carne frágil contorcida 
foi queimada por labaredas lado a lado
no calvário do fogo ardente
excessivamente descontrolado 

Calor imenso,
vindo não se sabe de onde
trouxe a morte de boca em boca
e enraivecido falando
estremeceu o corpo sobre os ossos dos pés

vento forte,
que misteriosamente sai das entranhas do tempo
foi sopro de morte impiedosa
em círculo cortando cerce
a cobertura de todos os nomes
  
fogo devorador,
o deus todo poderoso que domina
a simplicidade da água
que nesse momento chora o desespero
da humanidade suplicante
fez um momento dominador por covardia
porque é senhor que no terror é tudo

naquela hora
a morte entra pelos poros e pela alma
a fragilidade da vida não tem nome
será mistério para sempre
no silêncio em mim
que alteio um pouco acima do chão
JLR

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Ninguém consegue matar a alma

Comentário à Liturgia do domingo XII tempo comum...
1. A mensagem bíblica nas missas deste domingo continua a dar-nos conta da mensagem iniciada no domingo passado, com o chamado «discurso apostólico» ou do «envio para a missão», é o segundo dos cinco grandes discursos do Evangelho de São Mateus.

2. Um elemento interessante da mensagem da missa deste domingo, consiste nos receios e nas dificuldades que sempre podem acontecer aos discípulos de Jesus. O poder religioso e político instalados, dominadores e zelosos das suas mordomias insultuosas, sempre reagiram a qualquer ideia que liberte a maioria dos membros da comunidade. Por isso, Jesus fala com voz forte: «Não temais…». Neste sentido, os apóstolos de Jesus não podem ficar no comodismo aconchegante das mordomias principescas, não pode faltar-lhes a coragem, não se devem esconder, muito menos pode ficar circunscritos a uma intimidade escondida daquilo que Jesus lhes ensinou e mandou anunciar. Devem ser vozes vibrantes, corajosas perante a injustiça, a desonestidade e o desrespeito pelo bem comum. São crentes convictos e disponíveis para acolher o martírio se necessário. Nada os amedronta, só e apenas devem viver de pé diante dos homens e de joelhos diante de Deus.

3. Este apelo à coragem associa-se à confiança na certeza da assistência de Deus que nunca desampara aqueles que lhe são fieis e que vivem a radicalidade do amor. Deus não é um ausente nem muito menos um alienado da sorte daqueles que se entregam à causa da paz e da felicidade para todos. É óbvio que esta opção não faz lucrar louros imediatamente, mas é o único caminho que faz história e o único que faz sentar à mesa do convívio fraterno as pessoas.

4. A perseguição e a morte está reservada muitas vezes para quem defende a verdade, porque nunca desiste de delimitar as fronteiras do que é bom e do que é mau, porque não confunde desgraça com graça, guerra com paz e sempre sabe defender para si e para os outros a honestidade, a sinceridade e a transparência. Este sofrem perseguição, mas devem estar preparados para a injustiça, o desprezo, a maledicência, a calúnia e a indiferença, entre tantas outras coisas que farão ecoar muito forte o sofrimento, que parecerá ser um desastre ou uma fatalidade sem sentido, porém, nunca morrerão órfãos de Deus, porque Deus ama as vítimas e providencia para que a gloriosa vitória sempre aconteça, mesmo que algumas vezes seja necessário acontecer a morte.

5. A perseguição mata o corpo, mas não mata a alma. Jesus apresenta-se como defensor, o advogado, que confirmará junto de Deus todo aquele que se apresenta como seu discípulo fiel. Jesus garante aos seus a Sua presença contínua, a pronta ajuda e o amor de Deus, ao longo de toda a sua caminhada pelo mundo. Por isso, fica a dica: «Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma» (Mt 10, 28).

terça-feira, 20 de junho de 2017

Deus e eu...

Deus e eu... Com a Fátima Ascensão. Um texto para ler, rezar e meditar porque nos toca seriamente e quase que dizemos: «este texto é meu». Obrigado Fátima pela beleza e pelo despojamento... Nós ficamos contentes, Deus também, seguramente, porque Ele não fica nada mal... 
Acreditar que Deus existe é uma questão de fé. Ou se acredita, ou não se acredita. Eu acredito.
Eu acredito que Deus é Luz e acredito que Deus está em nós. Sabiamente os mais antigos falavam do parto como o acto de Dar à Luz. É como vejo o nascimento de todos nós. Recebemos o sopro de Deus que mais não é do que recebermos um pouco da Luz que é Deus, e, quando partimos deste mundo, acredito que retornamos à Luz, mais sábios e mais fortes.
Falo com Deus todos os dias. Não estou a falar de Avé-Marias e Pai-Nossos, mas conversas pessoais sobre a minha vida, das pessoas que me rodeiam, da sociedade onde estou inserida e, algumas vezes, sobre o Mundo. Como é possível acontecer certo tipo de coisas? Como permite?...
Injustiça e morte. São os dois temas que mais incompreensão e perturbação causam no meu relacionamento com Deus. Nem sempre temos conversas amenas sobre estes temas...
Para os mais ortodoxos, cometo um grande erro ao questionar Deus. Mas, se Deus nos deu inteligência e liberdade, não foi para pensar sobre as coisas? A fé para ser legítima tem de ser cega? Mas não foi o próprio Deus pelo Seu filho - Jesus Cristo - que revolucionou o mundo e deu outra interpretação aos textos biblícos? Ele não negou os textos do Antigo Testamento. Apenas revolucionou com novos mandamentos que se resume a um só - “Amar a Deus sobre todas as coisas e aos outros como a si mesmo”.
Deus quer-nos a pensar, a questionar e a actuar! Tendo por base o amor. Sentimento tão simples, mas tão complexo.
Da minha experiência de vida constato que só há uma coisa no Mundo que não tem limite – é a maldade. E é aqui que, muitas vezes, confundimos a actuação de Deus com a dos Homens, atribuindo-Lhe culpa que não tem.
A vida não é difícil. Quem faz a vida difícil são os outros Homens. Homens que decidem mal ou decidem fazer maldades.
Compreendendo isto, Deus dá-nos a liberdade de decidir o que fazer e como fazer. Cada qual com a sua capacidade para actuar e na medida em que pode fazê-lo. Por alguma razão é que na liturgia dominical somos lembrados que “pecamos por actos e omissões”. Não fazer o que está em nossas mãos é também reprovável porque actuar pode fazer toda a diferença. O Mundo está cheio destes exemplos. E depois culpamos Deus de certos acontecimentos...
Quantas vezes a História se repete? Quantos Judas existem neste mundo? Quantos julgamentos são injustos? Porventura, fazemos, hoje em dia, escolhas inadequadas, preferindo “Barrabás” aos “bons”?
Questionarmo-nos desta forma faz-nos compreender o nosso Mundo, as situações por que passamos e a diferenciar Deus da culpa dos Homens.
Em miúda, dei por mim a pensar e se Jesus Cristo mentisse, cruzasse os dedos, negasse quem era e depois de solto fazia o que queria? Qual o efeito disto? Nos dias de hoje, muitos classificariam esta atitude de inteligente e sábia.
Hoje compreendo que Deus, através da morte e ressurreição de seu filho, Jesus Cristo, mostra-nos que esta vida não é um vale tudo. Que existem valores que temos de defender. E que mesmo que sejamos abandonados por todos, há sempre alguém em quem podemos confiar – Deus.

Temos que tirar lições é urgente que assim seja

1. As calamidades sucedem-se cada vez mais agressivas e fatais para as pessoas. A humanidade cada vez se vê mais frágil. A existência assenta sobre um chão quebradiço que perante qualquer falha natural ou de outra ordem faz vacilar a humanidade na tragédia. Um drama que nos acompanha sempre. Temos pés de barros.

2. É com imensa surpresa que as contingências dos nossos tempos ditem que não parece valer a pena tirar ilações e lições para que se encetem outros comportamentos, outras opções e outros caminhos que nos tornassem mais humanos, mais sensíveis ao sofrimento, atentos à natureza circundante e ao cuidado aturado com o meio ambiente. Muito paleio e conversa fiada enquanto não se enterram os mortos, mas passado esse efeito da consternação, do luto, da solidariedade e da compaixão, já seremos bombardeados contra outras coisas que irão fazer esquecer a última tragédia até à próxima que logo virá.

3. Passado o efeito do drama, começa tudo de novo. As complicações. As zangas por ninharias. Os ódios de estimação. O perdão torna-se coisa de fracos e de estúpidos. As relações cortam-se por pura inveja. O egoísmo volta ao quotidiano, porque é preciso atropelar para vencer e ganhar dinheiro, porque isto de ser grande não vai com palavrinhas mansas. O amor é coisa de piegas, não de gente trabalhadora e empreendedora. Sofrer por amor, humilhar-me pelo bem dos outros, nunca! - Tantas coisas que ninguém se lembra depois do efeito já esquecido que causou a tragédia.

4. O que é preciso todos os dias é que me gaste com os filhos na dedicação ao desporto. Nisso posso perder todo o tempo do mundo que não me cansa nada. Vida espiritual, oração, estudo, ler um livro, contemplar a natureza, escutar o silêncio, a contemplação da verdade, dar exemplo do que é a justiça e o respeito pelo bem comum, isso não, porque dá trabalho e é preciso tempo, muito tempo… Tanta invocação de falta de tempo e de pachorra para estas últimas coisas que mete dó, para não dizer nojo. Reparem, não falta tempo para computadores, smartphones, telemóveis… Há tanta companhia largada, ignorada e desprezada por causa do telemóvel e de todas as maquinetas que hoje acompanham a vida inteira das pessoas. As pessoas têm menos valor que as coisas, é assim o nosso tempo.

5. A humanidade, mesmo com a verdade diante dos olhos, de que vive numa fragilidade cada vez mais evidente, continua a considerar-se imortal, autossuficiente, dominadora de tudo de todos. Nada toma o lugar da humanidade. É forte e é poderosa. Obviamente, até à próxima tragédia, quando voltar o paleio ao contrário por mais algum tempo. Santa ilusão que nos acompanha todos os dias.

6. Todas vezes que acontecem as desgraças que fazem estragos materiais, há perdas de vidas humanas e feridos, penso que isto acontece, para despertarmos e pelo menos durante algum tempo pensarmos que todas as manias de grandeza que nos dominam são uma pura e crua ilusão. Parece que cada calamidade devia servir para pensar seriamente e arrepiar caminho, tomando a sério a vida em todas as suas dimensões, a dimensão material, mas também a espiritual, porque é por aqui que humanidade se salva, se reconhecendo frágil, limitada e por mais que progrida, há coisas do viver que nunca resolverá em absoluto e que precisa de um transcendente que lhe dê sentido à vida, ao sofrimento e à inevitabilidade da morte. Tantos desesperos derivam precisamente da falta destes elementos.

7. A grande lição que se tira das calamidades naturais que se tem assistido nos últimos tempos, é que são avisos que a natureza nos faz, para que todos revejamos os caminhos que andamos a trilhar. Deve ser de que precisamos de usar a inteligência e a sabedoria, que foram extraordinariamente concedidas à humanidade, para que as usem no caminho do bem, no cuidado connosco mesmos, com os outros e com a natureza, sem a qual não seremos nada nem muito menos sobreviveremos. A vida é tão curta, passa depressa demais, por isso, que não deixemos por mãos alheias o que temos que fazer. Vamos juntos, convertermo-nos à paz pessoal, social e ambiental e lutar por mundo onde todos possam viver com dignidade.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Não vale tudo e não pode valer tudo Judite de Sousa e os outros

Recuso-me a reproduzir aqui a imagem de Judite de Sousa
que circula na internet com o cadáver em fundo, porque
não podemos alimentar mais esta indignidade e falta de censo. 
Face ao exagero da cobertura das televisões aos incêndios com imensas reportagens  repetidas que até já enjoa, directos ridículos com pedidos de pronunciamentos patéticos claramente desnecessários e com imagens à mistura de labaredas que nos assustam, porque são terrorismo puro e duro. Há bombeiros saturados, lágrimas, sofrimento e gente angustiada correndo de um lado para o outro... Tudo se torna espetáculo, mas que nós cidadãos devíamos exigir mais decoro e respeito pelas vítimas. 
Neste ambiente tenebroso veio Judite de Sousa com a imagem horrível com um cadáver em fundo. Não quero acusar de nada Judite de Sousa, até porque melhor do que ninguém Judite sabe muito bem o que é ser confrontado com uma tragédia e lembro-me que na altura, quando morreu o seu filho num acidente fatal numa piscina, para além da sua voz, outras vozes se juntaram, pediram dignidade e respeito pela sua privacidade e respeito pelo defunto que já não estava entre nós para se defender. Parece que a teve e que muita gente correspondeu ao seu desejo. Ainda bem.
Mas agora Judite de Sousa, esquecida da sua tragédia, parece que já não se importa nada que ali esteja um cadáver de uma pessoa, mesmo que ainda não se saiba quem era, mas porque sendo de uma pessoa seja lá de quem for, devia merecer respeito e não ser utilizado para preencher o espetáculo em que as televisões converteram esta tragédia. Alguns dirão que compete às televisões anunciarem e mostrarem o que se passa, sim é verdade, devem fazer isso, mas não pode valer tudo e devem todos os agentes da comunicação saber até onde podem ir e como o devem fazer. 
A forma como se comunica hoje as tragédias que vão acontecendo, são um dos sinais dos tempos, tudo é espetacular, os que morreram, os que se salvam e os que de alguma forma contribuem para salvar alguém. As televisões convertem todos em seus actores. 
Por isso, Judite de Sousa, indignou-me com a sua reportagem. Aqui fica o meu protesto. 

CARTA AOS PADRES DE PORTUGAL

Caros colegas da Madeira. Está a circular no facebook esta carta de um colega do Continente, Diocese de Lisboa, Pe António Teixeira. Não podemos ficar indiferentes a mais esta tragédia. A ideia parece-me excelente, doarmos o nosso salário de junho, o meu já tem este destino. É exemplar e como Igreja solidária que devemos ser vamos a isto... Obrigado Pe António Teixeira pela ideia e pela pronta sugestão. 
Caros Padres, Pastores do Povo de Deus que nos foi confiado:
decerto temos todos gravadas no coração e na alma as repetidas palavras do Papa Francisco: "pastores com cheiro a ovelha". 
Esse e apenas esse pode ser o nosso caminho, a nossa opção pastoral, a nossa vida de cada dia. 
Vivemos horas dramáticas e inimagináveis neste nosso Portugal, com perdas, lágrimas, desesperos e angústias indiscritíveis, diante do fogos que devastam e destroem, sufocam e matam!
Homens e mulheres, crianças e jovens, sentem-se agora sem rumo, horizontes, esperanças e sonhos. 
Decerto que rezamos e pedimos que rezassem pelas vítimas desta tragédia. E sabemos e cremos no poder da oração. 
Mas creio e peço que não nos fiquemos por aqui. Que passemos das preces, das homilias, das palavras, dos "pesares", a actos de profunda solidariedade, comunhão e cumplicidade para com essas "ovelhas" que se sentem tresmalhadas, abatidas, destroçadas! 
De mais perto ou mais longe, urge que mostremos a nossa missão de
Pastores comprometidos com esses irmãos; a compaixão e a misericórdia, a comunhão e a solidariedade têm de se tornar gesto, vida, oblação, gratuidade, começando por nós próprios. 
Que peço a cada um de nós?
A caridade, a ousadia, a beleza, de um gesto que nos mobilize e comprometa com essas gentes amarguradas e abatidas!
Que sejamos capazes de renunciar à nossa remuneração/ordenado, deste mês, e a ofereçamos às gentes de Pedrógão Grande. 
Do menos ou mais que possamos receber como fruto do nosso ministério, ousemos a renúncia disso mesmo em favor desses filhos de Deus que também o são nossos. 
Muitas migalhas fazem um grande pão. Pão de vida, de esperança, que trave os desesperos, as perdas, as lágrimas que correm por demasiados rostos e corações. 
Cada um de nós saberá fazer chegar esse gesto de amor e abnegação a esse Povo. 
Vivamos a experiência da doação com os sentimentos da fé, do amor, que todos os dias pregamos nas nossas igrejas, grupos, comunidades...
Mesmo que nos custe, sejamos sinal de uma Igreja que passa das palavras aos gestos nobres e proféticos. 
Que aquilo que recebermos este mês como fruto do nosso trabalho seja, pois, partilhado sem medos, com esses nossos irmãos. 
Hoje mesmo desejarei viver essa experiência da comunhão e da solidariedade. E comigo, sejamos muitos, sejamos todos, Pastores que desta forma também dão a vida pelas suas ovelhas...

sábado, 17 de junho de 2017

As cinzas são dúvidas de pó

Dedicado a todas vítimas do incêndio do edifício de habitação social, Grenfell Tower, Londres, 14 de junho de 2017


A morte ardeu
a carne e as palavras
pois há um grito infantil
que denuncia a tragédia 
e as cinzas são o pó
do último destino
do silêncio diante do mistério
que as chamas devoraram
sem piedade o ventre
de uma mãe grávida 
de todas as vidas
e de todos os sonhos do mundo. 
mesmo assim assombrado 
pelo fogo em brasa nas tuas mãos
amo o caminho por dentro das minhas dúvidas. 
JLR

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Desafios da homilia de D. António Carrilho no Corpo de Deus

Corpo de Deus, Sé do Funchal, 15 junho de 2017
1. A mensagem que fica da celebração do Corpo de Deus do ano de 2017, destaco-a da homilia do Bispo do Funchal, D. António Carrilho, por ocasião da sua homilia. Há uma boa parte que consiste em palavra de circunstância, relevando a explicação sobre a Eucaristia, o Corpo de Deus, pão e vinho, que na Eucaristia passam a ser Carne e Sangue de Cristo, pão vivo descido do céu e os 500 anos da Sé do Funchal…
 
2. Vamos ao sumo mais ou menos novo e surpreendente se quisermos. Uma breve explanação sobre a Igreja condensa-se nesta chamada de atenção: «A Igreja é chamada a ser o rosto de Cristo neste tempo». Fica o desafio para todos e que todos possam ser esse «rosto», mas que todos possam também ver claro em quem tem mais responsabilidade, que reflete em primeiro lugar «o rosto de Cristo» com a sua prática concreta. Está lançado o desafio, vamos lá não esquecer que Cristo precisa de rosto e que todos e cada um pode ser esse «rosto neste tempo». No fundo, deve este desafio fazer jus e completar a outra máxima bíblica: «a fé sem obras é morta» (Tiago 2, 14-26).

3. Escutemos esta frase: «A Eucaristia tem sempre um carácter e compromisso social, que é uma exigência de comunhão com os outros. E a Igreja porque vive da Eucaristia é chamada a saciar as novas sedes e fomes da humanidade, oferecendo o dom da alegria, da amizade, enfim, a intensificar a solidariedade, a fraternidade neste tempo de profundas mutações». É um desafio interessante e que merece ser aqui reproduzido, para que toda a Igreja diocesana do Funchal comece a considerar que a Eucaristia sem carne, sem vida, sem pessoas, simplesmente não existe. Perante mais este desafio desmoronam as manias patéticas que às vezes parece menosprezar e desqualificar quem procura viver a Eucaristia nesse compromisso social com verdadeira militância, procurando «a humanidade que sente fome e sede». Referiu o prelado. Mas, tomara que o sentido da fraternidade e da amizade, aqui tão bem salientados, fossem o alimento da Igreja hierarquia que se gosta de considerar «rosto de Cristo». Infelizmente, ainda não é assim.  

4. Mas melhor é o seguinte pronunciamento da homilia de D. António Carrilho. Escutemos: «Aquele que encontra Cristo, não pode deixar de dizer como São Paulo, “para mim viver é Cristo”, quando o encontra em toda a sua extensão e profundidade, descobrimos a dignidade de cada pessoa, aprendemos o respeito pelo outro, ousamos ir ao encontro de todos sem fazer exceção de pessoas, aproximamo-nos das feridas dos nossos contemporâneos e como o Samaritano da parábola de São Lucas, procuraremos deitar sobre as feridas o óleo da consolação e o vinho da esperança e crescerá em nós a generosidade e a gratidão – valores tão necessários nos nossos dias». Vem muito a calhar esta reflexão do Bispo do Funchal, porque ainda recentemente soubemos, pela comunicação social, que algumas coisas não ficariam bem para ninguém se tivessem seguido para diante, por exemplo, alienar património em segredo destinado à vida de luxo de alguns. Também só falta entre nós uma pastoral de conjunto mais visível, no campo dos mais necessitados, por exemplo, os sem abrigo, como neste passo da homilia foi aludido, porque nesse domínio ainda não se viu grande empenho e vontade para se dar passos largos nesse sentido. Não têm faltado propostas e disponibilidade de algumas pessoas para ir ao encontro e estarem nas periferias.

5. Por isso, conclui-se a nossa atenção e registo da homilia do prelado diocesano do Funchal com a seguinte declaração desafio para todos: «O amor solidário que dimana da Eucaristia lança-nos nos caminhos das periferias existenciais, numa atenção vigilante de ajuda aos mais pobres, aos doentes, aos desempregados, aos sem abrigo, às vítimas da injustiça e da violência, do terrorismo e da guerra, das calamidades naturais, enfim, a todos aqueles irmãos e irmãs que Deus ama e que a nossa sociedade descartável, como costuma dizer o Papa Francisco, tantas vezes esquece». Concluiu. Vamos a isto, para que não fiquem apenas mais palavras, fazendo-se valer afinal o esquecimento, os calculismos, os adiamentos… Entretanto o sofrimento marca a ordem e a vida do dia de tanta gente jogada no chão da indiferença, que tem falado mais alto do que todos os discursos e homilias da sociedade inteira.

A seara é grande faltam trabalhadores

Domingo XI tempo comum...
1. No tempo em que vivemos parece não existir tempo para acudir a humanidade que Deus criou. Por isso, foi mais fácil começar a dizer que «Deus morreu», para que muitos se demitissem da realidade e não terem que aceitar a presença de Deus na vida e no mundo concretos. Mas antes uma realidade das «manias» de alguns que se entretêm com ilusões. No entanto, é preciso também reconhecer que Deus não está ausente de nenhuma situação da vida concreta. A história da humanidade é a história de Deus. Não é Deus que se afasta da comunhão e do amor, mas é a própria humanidade que entretanto cria e recria os seus deuses, se desviando dos caminhos do bem para trilhar outros caminhos que conduzem ao ódio, à guerra e a todo o género de violências que fazem vítimas inocentes todos os dias. A auto suficiência não é boa mestra, isola e conduz aquele que se isola à sua própria destruição e à do mundo à sua volta. 

2. Como vimos no primeiro ponto, descobrimos que há uma seara grande e que todos os «trabalhadores» serão sempre poucos para dar resposta a todas as necessidades. Mas, ninguém pode ficar indiferente ao que o rodeia, deve sentir-se convidado ou chamado a tomar a peito uma causa e fazer valer que pode ser possível «trabalhar» em função do bem comum, não deixando ninguém excluído da mesa da amizade, do pão e da paz. As propostas de Deus interpelam-nos e interferem nas nossas opções, mas não nos travam as decisões de acordo com o interesse da vida inteira. As indicações de Deus não colidem com os interesses pessoais, mas antes devem ser uma luz para que nos empenhemos verdadeiramente no «trabalho» da missão.

3. O Jesus que passa, olha, olhos nos olhos e convida a «entrar» na aventura do serviço do cumprimento dos nossos deveres com dedicação e responsabilidade. É assim que se está ao serviço de Deus. A missa de cada pessoa, no seu canto concreto, deve assumir o compromisso do testemunho da compaixão, do perdão, sempre ao serviço da paz e da vida que sorri para todos. A seara é grande, todos são chamados a participar com dedicação, seriedade e honestidade na construção de mundo onde todos possam alegrar-se todos os dias. Nada melhor para Deus fazer valer a sua presença.  

O Corpo de Deus mutilado

Sim, é disso que se trata. O Corpo de Deus está mutilado na humanidade por todo o mundo, vou alumiar aqui alguns exemplos:
1. Hoje especialmente está mutilado em Londres nas vítimas do grave incêndio que consumiu um edifício residencial, Grenfel Tower, em Londres. Pomo-nos em silêncio perante tamanha hecatombe infernal.

2. Na Venezuela onde a violência, a fome e a falta dos bens essenciais são uma realidade quotidiana, Deus fica mutilado perante a barbárie, a prepotência e a teimosia. Sim, a teimosia ditatorial que faz o seu caminho e não se importa que mutile o Corpo de Deus nos seus cidadãos, deixando-os a morrer à fome, na pobreza e na violência, especialmente, suscitada pelas forças de segurança. Um drama que não se imagina onde vai parar.

3. O terrorismo semeia a morte por todo o lado, fazendo vítimas inocentes, especialmente, crianças indefesas e tantas pessoas que estava no lugar errado e na hora errada, porque alguém sem amor à sua vida e muito menos à dos outros faz explodir as bombas do ódio e da vingança, às vezes invocando-se erroneamente o nome de um deus. Um absurdo que não limpa nenhum terrorista da condição de criminoso.

4. Entre nós o Corpo de Deus está mutilado nos serviços da saúde que falham em muitos domínios, não por causa do nosso dedicado corpo de pessoas que se dedica aos doentes, médicos/as, enfermeiros/as e todo o pessoal auxiliar que fazem das tripas coração para salvar o mais que podem os seus/nossos doentes. Mas o Corpo de Deus não deixa de se mutilar por causa da consulta que não veio a tempo razoável, faltaram os medicamentos, faltou a máquina do coração, os medicamentos, o mamógrafo e todo o material para ser feita a urgente e a tão desejada cirurgia, que iria salvar ou adiar o momento derradeiro deste mundo.

5. O Corpo de Deus fica mutilado todas as vezes em que se recorre à violência por ódio, por vingança e para impor uma vontade pessoal, mesmo que seja a mais absurda do mundo. Daí que tenhamos que contar com tantas pessoas com o coração negro porque foram espancadas, violadas sexualmente ou simplesmente escravizadas de alguma maneira para que vingasse o gosto mórbido dos pequenos e grandes ditadores que existem por todo o lado.

6. O Corpo de Deus está mutilado por tantos que estão sem pão e sem chão, jogados no olho da rua do desespero, na exclusão do trabalho digno, nos sem abrigo, nos toxicodependentes, na solidão e depressão infernais, na indiferença que é o pior veneno dos tempos atuais, nos excluídos das decisões que vêm a ter implicação na vida de todos… A mutilação do Corpo Divino está nas feridas e nas chagas de tantos idosos jogados ao abandono de lares, hospitais e alguns até completamente exilados nas suas próprias habitações bem perto de familiares próximos.

7. O drama dos refugiados. É a maior chaga do nosso tempo. São multidões em fuga dos métodos de violência que regrediu ao tempo da pedra lascada, levada a cabo por grupos rebeldes, que nasceram como cogumelos, resultantes de políticas erradas das grandes potenciais mundiais, o negócio das armas e as posições hipócritas de muitos governantes de países ditos civilizados.
 
8. Por isso, há este dia do Corpo de Deus, para que no pão e no vinho, que se transubstanciam em Corpo e Sangue de Cristo na Eucaristia, para que daí venha a radicalidade transformadora da vida e do mundo para que o sonho nos torne militantes da construção de um mundo mais humano e fraterno.

9. O Papa Francisco numa das suas catequeses sobre a Eucaristia escreveu e termino com isso: «Por vezes, alguém pergunta: “Por que deveríamos ir à igreja, visto que quem participa habitualmente na Santa Missa é pecador como os outros?”. Quantas vezes ouvimos isto! Na realidade, quem celebra a Eucaristia não o faz porque se considera ou quer parecer melhor do que os outros, mas precisamente porque se reconhece sempre necessitado de ser acolhido e regenerado pela misericórdia de Deus, que se fez carne em Jesus Cristo. Se não nos sentirmos necessitados da misericórdia de Deus, se não nos sentirmos pecadores, melhor seria não irmos à Missa! Nós vamos à Missa porque somos pecadores e queremos receber o perdão de Deus, participar na redenção de Jesus e no seu perdão». Vamos todos contribuir com a nossa medida de bondade empenhada para que tenhamos menos o Corpo de Deus mutilado à nossa volta.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Deus e eu

Deus e eu
Nesta semana temos na rubrica «Deus e eu» o jornalista Roberto Ferreira, que tem andado nas bocas do mundo recentemente, porque foi nomeado subdiretor do Diário de Notícias do Funchal. Obrigado pelo contributo excelente e bem vindo ao Banquete. Já agora, desejamos os maiores sucessos neste novo desafio.
À primeira vista é difícil falar sobre Deus. Muito menos da nossa relação com Ele, esse Ser abstrato(?), que não vemos, não tocamos, não cheiramos. Mas que podemos sentir.
Discorrer sobre a nossa ligação/relação com Deus é forçosamente uma tarefa intrínseca, metafísica, mas, ao mesmo tempo, ternamente simples. Basta abrirmos o coração.
Deus é amor, acima de tudo, e é tolerância também. Mas é responsabilidade. É respeito, mas não é medo. Que filho deve temer seu Pai?
Deus consubstancia a necessidade emergente do ser humano acreditar em algo, na eternidade. Contra a fugacidade e a transitoriedade que marca a nossa vida. E Ele mantém-se, permanece, por mais sinuosa e subterrânea que seja a nossa caminhada na Terra. Basta deixá-Lo entrar.
Mas, afinal, onde está Deus? Onde fica o Céu, a Casa do Pai? Desde pequenino que olho de imediato para cima. Nós olhamos todos para cima, para o firmamento. Frei Bento Domingues diz, com o sorriso que o caracteriza, que não sabe se o Céu está lá em cima ou se está cá em baixo. Está com certeza entre nós. No meio de nós. Nas coisas simples, em nossa casa e no nosso trabalho. Mas sobretudo nas nossas atitudes e no nosso relacionamento com o outro.
Deus é o porto de abrigo a que regresso. O colo onde descanso e onde nos reconfortamos, em silêncio, após um extenuante dia de trabalho.
É o sagrado. A morte. A ressurreição. E a vida.
E depois há os rituais e a procura de respostas concretas, que nenhum cientista ainda encontrou, apesar de toda a (r)evolução tecnológica.
O meu Deus tem um rosto e acompanha-me. No Seu filho encarna a esperança que procuro seguir no meu quotidiano, a libertação que me faz acreditar nos homens de boa vontade. Serei ingénuo?
Pouco importa as amarras e convicções restritivas de clérigos antiquados, acomodados, bem como as intrigas da Cúria Romana. Nem o comportamento hipócrita de alguma padralhada me faz diminuir a convicção em Deus e em Jesus Cristo.
Durante a minha vida tenho sempre conseguido extrair uma palavra, uma frase, um exemplo, que a cada domingo escuto do Evangelho, por mais desatento que esteja.
Isso faz-me sempre acreditar que vale a pena, que a vida é mais que isto.
E que tem de ser vivida com alegria, contra a pesarosa forma de estar que tanto caracteriza os nossos queridos conterrâneos, que corporizam a legião do “vai-se andando, do mais ou menos ou do vai-se indo”.
Deus é “ama e faz o que quiseres”, como deixou dito Santo Agostinho. Está aqui tudo nestas seis palavras. Basta ler e aplicar. 

Pensamento à solta

Há quem ache normal gerar filhos em «barrigas de aluguer», comprados a preços dos olhos da cara ao abrigo das leis deste mundo e da ditatorial imposição sacro santa «vida de cada um que ninguém tem nada com isso». Eu, não acho!
Esses que tais, também devem achar normal fugir ao fisco - mesmo que ainda estejamos em processo de averiguação e presumindo-se a inocência que todas as pessoas acusadas têm direito até prova categórica. Eu não acho, porque sei de velhinhas - nada de aproveitar o termo para lançar flechas, pretende ser o mais carinhoso possível - que passam fome para não falharem com os seus impostos.   

Santo António

António que fostes santo
Primeiro Fernando de Bulhões
Para quem foi pobre e tanto
Ver a sua festa com ricos foliões.

Denunciador da injustiça
Viveu o dom tão prazenteiro
Não sabia o que é preguiça
Mas foi reduzido a casamenteiro.

Há um contentamento ilusório
Não precisa de nenhum altar
Fizeram dele um reportório
Mas melhor seria no coração ficar.

Para os pobres deste mundo
Recomenda uma oração
Peçam lá bem dentro no fundo
Santo António nunca diz que não.

Tantos balões e arcos
Música e dança a desfilar
Na rua do amor somos parcos
Onde estão os rostos a partilhar?

Isso que António ensinava
Uma missão cheia de zelo
Aos pés de quem precisava
Tinha a fé de ver o mundo belo.

Santo António de Lisboa
Há dizeres sem maneira
Eventos e festas por ti à toa
Ao que tu eras são pura asneira.

Triste sina esta vida tem
Os poderosos dominam tudo
É a tradição que de longe vem
Venha o milagre mate o absurdo.  

Santo António aos peixes falas
É sol de esperança sem falha
Faz cada pessoa sem palas
A liberdade é precisa sem tralha.

Por fim nos encomendamos
A Santo António com devoção
A felicidade toda almejamos
Ela está na mestria de cada mão.

Façamos festa com alegria
Ao santo da mensagem do pão
Que os poderes só por mania
Não façam dele o jogo do sermão.

Estas singelas quadras aqui estão
Para a reflexão são um contributo
Desejo um Santo longe do padrão
Que o seu exemplo não seja diminuto.
JLR

sábado, 10 de junho de 2017

Recuperação

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre, nunca prejudicando ninguém.
Paisagens despojadas e soltas
como os desempregados da vida
jogados na berma dos caminhos
sem cama e sem pão 
mas porém corajosos
contam histórias grandes
do passado deles e dos povos.

Há Homens a rirem nos momentos
da viagem de todas as horas
que o pulsar das almas sente
nas pedras que escondem segredos
dos vendavais da planície e do monte
que contornei com palavras no poema.

É uma solidão irregular a dos campos
que o amor dos meus olhos recupera
nos sobreviventes dos escombros
quando reencontram nas mãos que curam
de um sítio longínquo e infecundo
a vida toda para os vivos redimidos 
vinda de lugares inesperados
mas ainda luminosos deste mundo.
JLR

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Um desmentido bem vindo

Tendo em conta que me indignei e propalei a notícia do «Funchal Notícias» que dava conta da venda do antigo Seminário da Encarnação a um grupo hoteleiro da nossa praça, aqui faço eco do comunicado do Gabinete de Informação da Diocese do Funchal, para que conste o que aqui é negado para que possamos lembrar o que venha acontecer ao futuro deste imóvel. É importante salientar para não esquecer: «a Diocese do Funchal não irá proceder à venda do Seminário da Encarnação, nem nunca participou em negociações com essa finalidade. Aliás, como já referido em outras ocasiões, a alienação nunca foi hipótese»
No entanto, mantenho tudo o que afirmei quanto à forma como os padres em geral e os leigos são tratados quanto ao património da Igreja da Madeira. Não desejando que o antigo Seminário da Encarnação se mantenha tal como está, abandonado e degrado, mas que venha a ter um destino que corresponda à ação e missão da Igreja, afirmo com alegria, graças a Deus que não se confirmaram os zunzuns que circularam na nossa praça.  
ESCLARECIMENTO SOBRE O SEMINÁRIO DA ENCARNAÇÃO
Tendo em vista repor a verdade sobre notícias publicitadas recentemente no órgão "Funchal Notícias", este Gabinete vem esclarecer que a Diocese do Funchal não irá proceder à venda do Seminário da Encarnação, nem nunca participou em negociações com essa finalidade. Aliás, como já referido em outras ocasiões, a alienação nunca foi hipótese.
Ao longo dos anos, vários órgãos da Diocese do Funchal têm procurado uma solução para aquele imóvel, tendo sempre em atenção a sua história, simbolismo, mas também as possibilidades legais para a zona e a viabilidade a longo prazo de qualquer projeto que ali seja implementado.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

O Seminário da Encarnação e a Diocese do Funchal

Oxalá esta notícia seja desmentida...
Dizem para aí que anda no ar a concretização de um «grande negócio» entre alguns da Diocese do Funchal e o Grupo Pestana. Após a minha compenetrada oração da manhã,  a notícia que leio no Funchal Notícias, parece confirmar o zunzum. Oxalá seja mentira.
Mas, vamos a algumas ressalvas que nunca devemos esquecer. O património da Igreja Católica da Madeira é do povo da Madeira. Ponto final. Alguns fingem que esquecem isso ou que não sabem disso.
Obviamente, que compete à Igreja hierárquica administrar esse património, é o rosto visível para que saibamos a quem recorrer para o fazer funcionar em prol do bem comum e da justiça. Isto é, o bem do maior número de pessoas.
Todo o património da Igreja Diocesana do Funchal, pertencente ao Seminário Diocesano, às paróquias, às congregações religiosas e aos grupos e movimentos religiosos, não é desta ou daquela pessoa, deste ou daquele bispo, deste ou daquele padre... Repito, o dono do património da Igreja da Madeira, é o povo da Madeira.
Por isso, o património de todos nunca deve ser utilizado para fazer-se negócios nem muito menos ser vendido para nos livramos dele, porque é um estorvo e não há criatividade em um determinado momento para o fazer render humanamente, colocando-o ao serviço do bem comum.
Para que sejam evitadas as tentações capitalistas e a vontade de fazer lucro pelo lucro, o património da Igreja Diocesana da Madeira não deve estar na mão de uma pessoa só, mas ser gerido por uma equipa multidisciplinar com pessoas de vários quadrantes, para que todas as decisões tomadas sobre o património que é de todos, seja o mais concordante possível. No entanto, volto a salvaguardar que o património da Igreja Diocesana do Funchal pertence ao povo da Madeira e existe para que o povo seja o seu principal beneficiário. Ninguém tem o direito de fazer dele o seu terreiro, usando e abusando a seu belo prazer fazendo negócio secretos. O que é de todos não é só de um ou de meia dúzia.
A venda do Seminário da Encarnação à socapa da maioria dos padres da Diocese do Funchal é uma indecência e um atentado grave contra a história da Igreja da Madeira. Uma venda que fere o significado daquele espaço para tanta gente que por ali passou e ainda mais violenta a memória de tantos bispos e padres que lutaram por aquele património - já esqueceram as peripécias do 25 de abril na Madeira? - Não me parece decente que alguém se tenha lembrado, fazer negócio com aquele lugar, um dos mais nobres da nossa cidade e com excelentes possibilidades pastorais, que isso sim serviriam uma grande porção do povo da Madeira.
Porque não para ali uma casa para os pobres, uma clínica com parecerias a nível nacional e internacional neste domínio, uma casa para o clero com uma parte sendo hotel, um centro de pastoral geral com um auditório grande aberto a todos os acontecimentos culturais e religiosos, um lar para a terceira idade, quando se sabe que na Madeira os serviços da Segurança Social têm mais de 600 idosos à espera de um lar… Qualquer coisa voltado para o social, parece que não feria nada e até permitiria levantar uma onda de simpatia na opinião pública madeirense em relação à Igreja Católica da Madeira, que neste momento se apresenta com uma imagem tão desgastada. Mas, negócio por negócio para se desfazer de património tão importante, correndo-se o risco de ser vendido ao desbarato e incompetentemente, para um grupo que tem em vista o lucro e o luxo (consta que será para nascer ali uma pousada luxuosa), não parece ser evangélico nem muito menos honesto em relação às imensas necessidades que mancham o corpo, o coração e a alma do nosso povo.
A história o Seminário da Encarnação foi muito bem escalpelizada pelo Professor Nelson Veríssimo no Funchal Notícias no dia 1 de março de 2017Era bom que os autores do negócio procurassem ler com atenção este texto.
Agora vamos um pouco ao bispo atual, D. António Carrilho, que parece querer ficar para a história da Igreja da Madeira como o bispo que enterrou o Jornal da Madeira e como o vendedor do património mais importante e significativo da Diocese do Funchal. Provavelmente, de um bispo em vias de deixar de ser titular da Diocese, esperávamos mais decoro. Porque, no fim da sua missão como bispo na Madeira, não me parece de bom tom permitir uma desgraça deste género, isto é, permitir que alguém sem visão, completamente obcecado, vender um espaço sem que se tenha um fim concreto em vista para aplicar os milhões da venda, que não seja um fim nobre a favor do bem comum. Aliás, até pode não ser vendido pelo seu real valor, tendo em conta que os timoneiros desta armada percebem tanto de negócios patrimoniais como qualquer um de nós percebe de mecânica de automóveis, salvo o devido respeito pelos mecânicos.
Assim sendo, apelamos à serenidade, à transparência e que se faça um verdadeiro debate com todos os responsáveis pela Diocese, bispos diretamente relacionados com a Diocese que ainda estão vivos, todos os padres diocesanos e religiosos e muitos leigos, particularmente, os mais empenhados na vida da Igreja diocesana. Um leque enorme de gente deve ser chamado a dar o seu contributo e deve saber com a maior transparência tudo o que está relacionado com o património da Igreja da Madeira e, particularmente, com o caso do antigo Seminário da Encarnação.
Mau será que o negócio seja apresentado como assunto consomado, como foi o Jornal da Madeira, sendo tudo feito em segredo como se uns fossem «donos disto tudo» e os outros só têm que abanar a cabeça porque sim.
Ninguém com o seu perfeito juízo deseja que aquele espaço continue assim como está, degradado e votado ao abandono, viveiro de plantas infestantes e ratos no logradouro que constituem uma ameaça à saúde pública. Tal como está é uma zona de risco, pois em caso de incêndio pode suscitar uma grave propagação urbana.
No Evangelho Jesus diz ao jovem rico: «Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me» (Mt 19,21). Não me parece que seja esta luz a comandar quem pretende vender o Seminário da Encarnação, porque a história recente da Diocese do Funchal, dita que a única coisa que vai fazendo com o dinheiro que recebe do património consiste em puro armazenamento e a caridade que faz tem sido exclusivamente com as dádivas dos fiéis.
Certo é que tem vendido património e parece manter esse gosto pelos negócios, sem transparência e sem ter em conta a generalidade dos sacerdotes, que de alguma forma também representam o povo da Madeira.
Enfim, esperemos que o bom senso prevaleça e que se estude um destino condigno para o Seminário da Encarnação, para que esta trágica venda não seja mais um negócio de alguns milhões, para engordar as contas da Diocese sem que esteja previsto um destino que corresponda ao bem mais elevado do nosso povo, o verdadeiro dono do património da Igreja da Madeira.
Também muito mau será que ali nasça mais um mamarracho luxuoso para achincalhar e debochar o miolo dos madeirenses em nome do progresso e de tantas outras coisas que inventam para nos enganar constantemente, fazendo da Madeira o eterno paraíso de alguns e o inferno da maioria. É triste que tenhamos que colocar neste mesmo saco alguns que desgovernam a Diocese do Funchal.