Convite a quem nos visita

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Deus e eu

Rubrica «Deus e eu», esta semana com o Flávio Matta. Obrigado Flávio por teres aberto a sala do teu coração para que Deus entrasse e nós com Ele...

Não consigo imaginar a minha vida sem Deus. Preciso d’Ele para viver em harmonia comigo próprio e com os que me rodeiam. Preciso d’Ele para conhecer-me e aperfeiçoar-me, cada dia mais, como ser humano, seja na minha condição de pai, esposo, filho, colega ou amigo.
O Rei Salomão dizia que a vida é uma dádiva de Deus. Logo, como poderemos viver sem Ele? Como poderemos usufruir desta dádiva na sua máxima plenitude se não O tivermos lado a lado connosco? Não é possível! Viver com Deus não significa que tenhamos de viver alheios às provocações do Mundo como muitos poderão pensar, antes pelo contrário. Se a nossa Fé for forte, nada devemos temer, independentemente do tamanho das tentações. Se Deus estiver em nós, nada nos desviará do rumo que nos conduz a casa d’Ele.
Numa sociedade que se depara com inúmeras tentações e em que o conceito de moral e o de bom senso é, muitas vezes, apelidado de caduco e ultrapassado, reconheço que não é fácil dar testemunho da presença de Deus na nossa vida, como companheiro do nosso dia a dia. É assim que O vejo: não alguém pronto a castigar-me mas Alguém que me ajuda a não errar e que me fortalece quando perante determinados obstáculos desistir seria a saída mais fácil.
Sempre que os nossos amigos visitam-nos em casa, temos a tendência de recebê-los na nossa sala, que é o lugar mais nobre da nossa habitação. Então, porque é que não fazemos o mesmo com Deus na nossa vida? Se o lugar mais nobre em cada um de nós é o nosso coração, saibamos convidá-Lo a entrar e a permanecer connosco todos os dias. E quando a vida nos correr menos bem, saibamos ir ao encontro d’Ele e pedir-lhe aquela luz que ilumina o nosso Caminho. Deus sabe o que é melhor para cada um de nós mas deu-nos a liberdade de escolhermos tê-lo ou não connosco. Eu decidi tê-lo!

Todos os Santos

Poema:
Hoje é dia de todos os santos: dos que têm auréola
e dos que não foram canonizados.
Dia de todos os santos: daqueles que viveram, serenos
e brandos, sem darem nas vistas e que no fim
dos tempos hão-de seguir o Cordeiro.
Hoje é dia de todos os Santos: santos barbeiros e
santos cozinheiros, jogadores de football e porque
não? comerciantes, mercadores, caldeireiros e arrumadores
(porque não arrumadoras? se até
é mais frequente que sejam elas a encaminhar o espectador?)
Ao longo dos séculos, no silêncio da noite e à
claridade do dia foram tuas testemunhas; disseram sim/sim e não/não; gastaram palavras, poucas, em rodeios, divagações. Foram teus
imitadores e na transparência dos seus gestos a
Tua imagem se divisava. Empreendedores e bravos
ou tímidos e mansos, traziam-te no coração,
Olharam o mundo com amor e os
homens como irmãos.
Do chão que pisavam
rebentava a esperança de um futuro de justiça e de salvação
e o seu presente era já quase só amor.
Cortejo inumerável de homens e mulheres que Te
seguiram e contigo conviveram, de modo admirável:
com os que tinham fome partilharam o seu pão
olharam compadecidos as dores do
mundo e sofreram perseguição por causa da Justiça
Foram limpos de coração e por isso
dos seus olhos jorrou pureza e dos seus lábios
brotaram palavras de consolação.
Amaram-Te e amaram o mundo.
Cantaram os teus louvores e a beleza da Criação.
E choraram as dores dos que desesperam.
Tiveram gestos de indignação e palavras proféticas
que rasgavam horizontes límpidos.
Estes são os que seguem o Cordeiro
porque te conheceram e reconheceram e de ti receberam
o dom de anunciar ao mundo a justiça e a salvação.
Maria de Lourdes Belchior

O dia das bruxas – coitado do 31 de outubro

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1. É sempre bonito ver as escolas em festa. Aprecio as festas do Natal, as do Carnaval, as da Páscoa, as do desporto e todas as que estão relacionadas com os aniversários da escola e com tantas outras actividades culturais e recreativas que as escolas levam a cabo. Porém, entristece a festa das bruxas que várias escolas celebram neste dia.

2. As crianças – algumas porque as diferenças económicas de muitas famílias criam sempre um ambiente de descriminação e de diferença muito grave também neste aspecto – passam vestidas de bruxas, de bruxos, de zorros e outras figuras aberrantes e negativas. A carga negra que isto implica não me convence nada que seja benéfico para educação das crianças. Entendo que serve mais à causa do medo. Também serve para que as pequenas cabecinhas inventem fantasmas e negativismos que os irão acompanhar na vida toda.

3. Falo do que sei e da experiência concreta nas minhas lides com pessoas marcadas por bruxarias e todas as macaquices deste género que os adultos semearam na infância. Daí terem que percorrer todas as seitas religiosas, movimentos carismáticos, exorcistas, bruxos ou mágicos, para que as libertem dos medos e das desgraças que carregam na cabeça. Também vale a pena não esquecer o que é já um dado mais que badalado, o mercantilismo que esta festa implica.

4. Mas nem tudo é mau. Ouvi a notícia que por estes dias algumas escolas católicas no Norte da Europa iriam vestir as crianças neste dia de santos. Interessante e educativo, porque marca os pequeninos com uma memória positiva e com ensinamentos baseados em pessoas concretas, históricas e com vidas exemplares.

5. Assim sendo, seria necessário chamar à colação um certo discernimento às cabeças adultas e para que não se cansem de transmitir às crianças o que de melhor tem a vida e tudo o que ela implica de bom e de belo. Mais importa que saibamos todos sermos sempre positivos e apresentar imagens de luz no coração das crianças. Dará o mesmo trabalho, até penso que custa menos dinheiro e tempo, ser mais positivo e menos negativo. 

sábado, 28 de outubro de 2017

O Dia das Bruxas e o Pão por Deus

Ao Sétimo Dia
1. O Dia das Bruxas ou Halloween é festejado na noite de 31 de Outubro. Foi levado para os Estados Unidos pelos colonizadores, o Halloween é, hoje em dia, uma das festas mais populares do país. Fantasiados conforme manda o figurino fantasmagórico, meninos e meninas percorrem as casas vizinhas repetindo a frase: "Trick or Treat?" (travessuras ou gostosuras), e recebem doces em troca do sossego dos donos da casa. O marketing e o imperialismo americano encarregaram-se de expandir este costume para todo o mundo, fazendo com que as tradições locais, como a nossa do «pão por Deus», fossem perdendo sentido. Algumas escolas e alguns professores encarregaram-se de fazer esse serviço às bruxas.

2. O Dia das Bruxas teve origem há centenas de anos atrás, onde é hoje a Grã Bretanha e no norte da França. Lá viviam os celtas. Os celtas comemoravam o Halloween. Eles tinham uma religião chamada Wicca. Os sacerdotes wiccas eram chamados druidas. A palavra halloween é originária do inglês, onde é a contração de duas palavras: hallowed - santo e o final "e'en" - noite, ou "All Hallow Eve", que significa Noite de Todos os Santos. É comemorada no dia 31 de Outubro, véspera de Todos os Santos. O Halloween pretende exorcizar as almas ou os fantasmas que se acreditava estarem por esta altura do ano a vaguear pelo mundo. Por isso, as pessoas vestiam-se com roupas andrajosas e assustadoras, com máscaras feitas de aboboras, para que ao saírem de casa os espíritos não os reconhecessem.

3. O Pão por Deus reveste-se de uma ideia mais positiva, menos relacionada com o mundo dos mortos e mais ligada aos vivos. Na manhã de Todos os Santos, as crianças juntavam-se, saíam à rua batendo de porta em porta a pedir o «Pão por Deus». No fim do dia, os sacos de pano das crianças ficavam cheios de romãs, maçãs, doces, bolachas, rebuçados, chocolates, castanhas, nozes e algumas vezes, algum dinheiro… Muitas dessas dádivas eram para as próprias crianças saborearem, mas outras iguarias estavam destinadas aos pobres.

4. O mundo é o que é. A vida passa e os costumes alteram-se. Porém, vemos com pena a morte da tradição do Pão por Deus, para dar lugar a outro costume que é menos educativo, mais sedutor, provavelmente, mas de longe mais exemplar para o que deve ser a vida em sociedade e em família, onde se deve coexistir com a partilha. As imagens que ilustram este texto, já por si são bem reveladoras, do que uma e outra imprimem. Deixamos aqui esta reflexão «Ao Sétimo Dia» no Banquete da Palavra, para que pensemos nas duas formas de educação e que cada um tire a sua conclusão. Bom Halloween e bom Pão por Deus.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

A ambivalência da noite

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A ambivalência do termo «noite» é qualquer coisa que nos intriga sobremaneira. Mas percebe-se se nos pomos a pensar no que nos dá e no que nos ensina essa rica ambivalência.
Por um lado, sem ser contra o dia, é o melhor tempo para a libertação, para o repouso, para o silêncio e para muitos a ocasião propícia para dar largas à sua criatividade. Tantas vezes se ouve dizer que a criação literária nasce mais fértil durante a noite e que para os estudantes não resta melhor tempo fora das aulas senão o tempo da noite para estudarem as várias matérias dos seus cursos… Para a maioria, a noite retempera as forças e apaga do mundo por horas os cérebros que se recompõe mais uma vez para dar vida e realidade aos projetos e aos sonhos.
Por outro lado, a noite ao contrário do dia é símbolo do mal. Pela calada da noite, a violência fere a dignidade e conduz à mansão dos mortos. A noite esconde os maus comportamentos e normalmente é o tempo da libertinagem. Os jovens aproveitam a noite para se embriagarem, drogarem e pisarem o riso no domínio do sexo. É pela noite que se fazem os roubos, embora nos tempos que correm a cortina da noite já não seja necessária para os cobiçadores do alheio. Não admira que sejam tantos a ter medo da noite. São incontáveis as formas que nos ajudam a combater as trevas, essa dimensão do escuro, que eternamente a humanidade combate.
A noite serve para tudo e para todas as coisas da vida, sejam boas ou sejam más. A noite é a geradora das trevas, a contraposição que nos permite saborear a luz. Por isso, salva-nos a luz que cada manhã oferece sempre. Já está dito e rezado por São Francisco de Assis no maravilhoso «Canto das Criaturas»: «A longa noite escura / É gémea da manhã».

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Deus e o próximo

Pão quente
Domingo XXX Tempo comum
Neste domingo, a liturgia deixa bem claro que a salvação do mundo ou passa pelo amor ou então andará sempre assim tão desarranjado tal como se apresenta desde sempre e mais ainda no nosso tempo. Os crentes, especialmente, têm esta tarefa essencial, dar testemunho de que se deixam conduzir pela força transformadora do amor.
O Apóstolo São Paulo dá conta à comunidade de Tessalónica a grande alegria que sente, pelo facto de a comunidade se ter tornado exemplar, pois abdicou dos ídolos e converteu-se, sob a ação do Espírito Santo, a Deus.
Esta mensagem encontra um eco muito grande no mundo de hoje, são muitos os ídolos que se fabricam por todo o lado. Por isso, este regozijo de São Paulo em relação à comunidade dos Tessalonicenses, para nós converte-se em apelo. O mundo de hoje precisa de descobrir que os ídolos que se fabricam por todo o lado, são efémeros, não salvam e muito menos conduzem à felicidade verdadeira.
As frequentes modas que a lógica mercantilista que o nosso tempo fabrica, facilmente manipulam as pessoas, especialmente, os jovens, que se encontram perdidos sem oportunidades de emprego e sem puderem dar resposto ao seu anseio de constituírem família.
No livro do Êxodo Deus deixa bem claro que não aceita de forma alguma que continuem as situações intoleráveis de injustiça, a violência arbitrária, a opressão e o desrespeito pelos direitos e pela dignidade dos mais pobres e dos mais frágeis, vítimas da loucura do poder que se instala nos tronos não ao serviço do bem comum, mas dos interesses familiares e dos grupos que se alaparam aos partidos políticos. Como exemplo, o texto fala dos estrangeiros, dos órfãos, das viúvas e dos pobres vítimas daqueles que só pensam em números e no lucro pelo lucro, sem olhar às pessoas concretas.
O Evangelho atesta, então, claramente, que só o amor a Deus e ao próximo faz a vida ser uma felicidade e para a salvação do mundo não há alternativa a esta. Porque pelo amor, a solidariedade vai acontecer, a partilha fará parte da vida e o serviço será luz em todas tarefas que venham a ser realizadas. 

Deus e eu

Se corresponderem aos convites, vamos continuar com esta interessante rubrica. Retomamos a nova temporada com a Linda Camacho. Obrigado amiga pelo seu pronto testemunho.
Deus e Eu
Pede-me o padre José Luís Rodrigues — que faz a gentileza de ser meu amigo — que escreva sobre a minha relação com Deus.
Hesitei porque a minha relação com Ele é muito pouco ortodoxa; como tal, receio não ser capaz de a expressar aos outros. Aliás, penso que todos nós temos uma relação com Deus, só nossa e difícil de a transmitir. Mesmo assim vou tentar.
Nasci uma criança doente, com grave problema de saúde, tanto que, dos dois aos nove meses fiz três operações. Certamente Deus queria-me cá porque, contra todas as expectativas, eu “safei-me”…
Fui crescendo com uma mãe que todas as noites me ensinava a pedir pela minha saúde, por isso habituei-me desde cedo a falar com Ele, num diálogo de criança; portanto, era tu cá, tu lá.
Cresci, fiz-me mulher e mãe e, com o frenesim duma vida de correrias entre o trabalho e as tarefas de dona de casa, passei a só falar com Ele quando estava aflita, o que me parece que deve acontecer a muito boa gente.
Os anos passaram e agora, nesta última página da minha vida, voltei a dialogar com Ele a qualquer hora; passei a tê-lO sempre perto de mim, no sorriso ou choro duma criança, nas flores que me rodeiam, na contemplação do céu e do mar e aprendi que não só Lhe devemos agradecer tudo, até o simples dom da vida que me parecia negada logo à nascença.
Agora Ele está presente a todo o momento da minha vida.
E é curioso que não me sinto lá muito bem a pedir o que quer que seja… e quando Lhe peço algo, ressalvo sempre o “se achares que é o melhor…”
Maria Linda Camacho

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Padre Manuel Nóbrega o sr. Botânica da Madeira

Comensal divino
Foto: Notícias Magazine
1. É normal que perante a morte dos que foram vivos até há pouco tempo, nos tome o impulso para escrever ou dizer alguma coisa, até ao dia em que alguém dirá também algo sobre nós mesmos. A lei da vida material é esta. Mas, é com enorme vontade que ensaio dizer algo sobre o Padre Manuel Nóbrega, que neste dia 24 de outubro de 2017, Deus fez entrar na Sua imensidão divina, após uma caminha longa embrenhado na natureza. Foi a meu ver o «sr. Botânica da Madeira». A forma como falava apaixonadamente sobre a natureza, nomeando de cor cada planta, a sua espécie e a família, era bem revelador. Um gosto ouvi-lo… Aqui pode ser lido.

2. O seu sacerdócio foi exercido principalmente no altar da botânica, a sua enorme paixão foi a natureza. Era um conhecedor exímio de cada folha, cada raiz, cada musgo, enfim, cada planta. A natureza foi a sua amada, que lhe deu o saber científico, as descobertas, a luz, os vestígios de Deus e o segredo do mistério criador que ele tentava decifrar com o mais aturado estudo científico. Não raras vezes começa a sua conversa: «mas isso explica-se cientificamente»...

3. O Padre Manuel Nóbrega era um naturalista apaixonado pelo mundo, pelas plantas e por tudo o que rodeia a vida natural, que quando respeitada, discorre equilibradamente. Não era muito valorizado pela sociedade e muito menos era valorizado pela Igreja Católica. Mas, não nos surpreende, que assim seja, o hábito há muito que nos calejou e sempre nos lembra que enquanto vivos, os sábios, não têm lugar, porque a lógica dos interesses e da inveja comandam a mesquinhez da vida. Os sábios não estão para isso. O Padre Manuel Nóbrega estava acima disso, porque o seu sacerdócio estava vincado e marcado pelo mistério da natureza, onde Deus fala com o seu poder criador, que ele incansavelmente procurava desvendar cientificamente. Não havia tempo para os golpes baixos do quotidiano.   

Foto: Notícias Magazine
4. Os tempos do Seminário seduziram-lhe a alma para o gosto pelas coisas da natureza. Na sequência disso calcorreou vales e montes, veredas, cabeços, caboucos, levadas, abismos… À procura da planta que faltava no museu, a pedra que nunca ninguém tinha visto e o tronco que a lava tinha petrificado há milhares de anos. Foi o nosso botânico ou o maior naturalista da Madeira. Ele, como é comum dizer-se, foi uma biblioteca que ardeu. Porém, deixa um espólio invejável. Esperemos que seja convenientemente aproveitado e que se faça dele um instrumento de estudo e que ajude as gerações vindouras, já que esta que passa, só sabe valorizar o que tem depois de estar morto.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Vou jantar fora com os cães

Escrever nas estrelas
1. O título soa um pouco mal, mas nos tempos que vivemos mais nada nos pode soar anormal, a não ser que abdiquemos de viver sem sabermos das coisas da vida que corre.

2. Os animais podem agora estar junto dos donos nos restaurantes numa zona fechada para o efeito, penso que será algo idêntico àquilo que se fez para fumadores. Nada tenho contra isso. Mas faço a seguinte ressalva em forma de pergunta, suponho que a lei contempla apenas gatos e cães, porque não estou a ver o meu amigo que cria um boi que chega atingir os 300 quilos a tentar levar o bicho ao restaurante para jantar?

3. Todos os animais devem ser bem tratados e não devem ser tolerados abusos e maus tratos contra nenhum animal. Mas começa a existir um certo exagero. Depois da obsessão legalista com os animais proliferaram clínicas, consultórios, hospitais, hotéis, amas secas e todo o género de coisas que só eram concebidas para pessoas. Tudo bem, se cuidássemos de igual forma as pessoas.

4. Tenho cães e procuro cuidar bem deles, na medida do possível, não lhes falta comida, o veterinário uma vez no ano, lavagem do pêlo de vez em quando e o espaço onde estão várias vezes por semana é limpo convenientemente. Estão bem. Mas não sei como vou encaixar nos meus parâmetros mentais a nova expressão: «vou jantar fora com os cães»…

5. Serve a minha inquietação para reclamar que há tanta gente - sim gente - daquela que tem dois pés e duas mãos e que anda na verticalidade, mas que nunca entrou num restaurante. Ou porque nunca ninguém se lembrou disso; ou porque não ganha o suficiente para gozar o prazer de comer num restaurante; ou porque moram longe dos centros urbanos, nas redondezas não há restaurantes; ou porque este mundo está tão desigual, com gente sem direitos, porque quem devia fazer valer os seus direitos canaliza-os exclusivamente para os animais e para hobbys caros, prevalecendo os prazeres mesquinhos contra o interesse comum da humanidade. Também gostava muito que os nossos representantes na «casa das leis» pensassem nisto com a mesma premência com que pensam nos animais.

6. Tomara que nunca percamos o gosto de estar juntos em família e com os amigos à volta da mesa, seja dentro de casa, seja fora de casa, para comer e para conviver fraternalmente, mas que os animais estejam nos seus lugares, obviamente, devidamente cuidados.

Parece um hippie que só fala de amor

Comensal divino
Uma breve explicação para justificar o interessante cognome «hippie que só fala de amor» que me foi aplicado. O que não seria se eu falasse de guerra…
1. O dom supremo de Deus é o amor. Viver o amor verdadeiro e habitar num lugar onde se é sujeito na vivência do amor, conhecemos incondicionalmente a presença de Deus. A condição única de salvação é a vida no amor, que não se consegue só e apenas por simples meios humanos, como o confirma o apóstolo João: «Quem não amar não pode conhecer Deus, porque Deus é amor» (1Jo 4, 8).
2. O amor exorciza o medo e torna-nos livres diante do nosso ser e diante dos nossos semelhantes. Diante desta base, o amor é sempre um verdadeiro milagre. É sempre o dom que Deus nos faz de Si mesmo, é sempre uma experiência divina. Na comunidade de amor que pode ser a nossa, a presença de Deus é-nos oferecida sem preço algum livremente todos os dias. Se nos abrimos a esse milagre, podemos partilhá-lo com os outros mesmo sem sinal de gratidão. É que nós gastamos o coração e a inteligência com lógicas matreiras e maquinações interesseiras que nos perdem e nos envolvem no esquecimento fatal da perdição. O coração e a inteligência, segundo a perspetiva de Deus por Jesus Cristo, são para gastar no que é fundamental, isto é, no que salva e no que nos conduz ao bom, ao belo e ao estético...
3. O amor de Deus é forte como a morte, dirá o Cântico dos Cânticos e onde não há amor ponha amor, dirá São João da Cruz. Pois, então, que melhores caminhos podemos delinear para nós próprios senão estes que nos requerem um bom uso da liberdade, da inteligência, da alma e do coração.
Não devemos entregar-nos ao amor como se fosse um negócio com regras e condições, mas como o único modo que nos identifica com Jesus. Desta forma compreendemos que o amor não é moeda de troca que requer condições, mas algo que nos envolve por dentro, nos anima e nos carateriza totalmente. Por isso, ainda bem que não sei ser de outra forma.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O jornalixo

Ao sétimo dia
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1. No filme «A vida é Bela» de Roberto Benigni, um senhor já de idade (o tio do protagonista) dizia esta frase lapidar, quando percorria a sua casa cheia de objetos estranhos, mais ou menos inúteis mas cheios de memória, como que antecipando alguma pergunta curiosa de quem se surpreendesse com aquela coleção de velharias: «Nada é mais necessário do que o supérfluo».
2. Ponto de ordem, sei ver e reconhecer muito boa informação e bons jornalistas em todos os órgãos de informação, que nos dão a conhecer histórias novas e notícias frescas todos os dias. Esse trabalho implica muita entrega pessoal, muito sacrifício e tantas vezes injustiças contra as suas vidas pessoais e familiar.
No entanto, continua a existir trigo e joio. Todas as redacções têm trigo e joio. Grandeza e pobreza. Respeito e desrespeito pela ética. Sentido do dever de informar, mas também vontade de destruir, dividir… Enfim, os órgãos de comunicação são essenciais para um bom funcionamento das sociedades democráticas. Mas também são a outra face, que tantas vezes permite ao abrigo da liberdade de expressão, tanta vontade de influenciar e ganhar dinheiro a todo o custo.
Toda a informação de qualidade será sempre ética e educativa. Ao contrário, nenhuma informação que careça de ética pode dizer-se que tem qualidade e que alguma vez seja educativa.
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3. O jornalixo, é uma expressão que designa alguns trabalhos informativos ou programas noticiosos, que não cumprem em nada o dever de informar e muito menos ajudam a formar opinião verdadeira sobre os acontecimentos e as pessoas. O jornalixo, é quando os únicos propósitos são a conquista de audiências, o lucro desenfreado e a loucura de chegar primeiro, com o alto custo de destruir vidas de pessoas, instituições, partidos políticos, movimentos e grupos de qualquer índole social.
4. Perante este panorama não se trata de propor mecanismos de censura ou de autocensura, pelo contrário, trata-se antes de situarmos a discussão no âmbito da seriedade e da honestidade intelectual que qualquer profissão implica, ainda mais quando se trata de uma função que tem como fim principal comunicar. Isto é, os agentes da comunicação devem ter uma vigilância permanente na sua atividade informativa no que diz respeito ao controlo de qualidade. O mesmo se passa com os restantes produtos do mercado. Qualquer agente comercial sério, procura não vender no seu estabelecimento produtos impróprios para consumo.
5. Os produtos de qualquer órgão de comunicação social, também são «produtos de consumo», por isso, devem estar sujeitos ao controlo de qualidade que deve ser feito pelos próprios meios de comunicação social. E mais, todos nós temos direito a uma informação verdadeira. A liberdade de expressão está também associada ao direito de informação verdadeira. Para a saúde da vida democrática e para o futuro das comunidades esses equilíbrios são sempre desejáveis.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O abraço de Portugal

Imagem do site da SIC Notícias
A resposta aos que tanto disseram mal do Estado por estes dias... O Estado falha, nós todos falhamos, mas na hora da tristeza da desolação, do sofrimento, o Estado abraça, o Estado solidariza-se, o Estado pede desculpa, o Estado responsabiliza-se... O Estado é, enfim, um Abraço para dizer tudo, exatamente, como é na vida pessoal de cada um de nós. Obrigado pelo sinal, sr. Presidente da República... Pode ser que exista - falha minha - mas sinto pena não ter visto ainda nenhum bispo de Portugal abraçar assim, uma das suas «ovelhas»...

A clareza entre César e Deus

Pão quente
 Domingo XXIX tempo comum
Desafiado, um dia, a pronunciar-se sobre a legitimidade de pagar o tributo a César, Jesus pediu que lhe mostrassem um denário. Sabia claramente que tanto a moeda, cunhada com a efígie de (Tibério) César, como a inscrição, Tiberius Caesar divi Augusti filius Augustus, ofendiam a sensibilidade judaica de quem o interpelava.
À humilhação de ter em circulação, uma moeda duma potência estrangeira e de com ela ter de pagar imposto a um imperador gentio, havia a acrescentar a indignação religiosa provocada pelo epíteto de «divino» atribuído a outro que não ao Deus de Israel.
Jesus parece jogar todos estes elementos à cara de quem lhe colocou a questão. Por isso, Jesus pronuncia a frase que ficará célebre em todos os tempos com um rigor teológico exemplar: «Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus» (Mt 22, 21).
O desejo de poder e de domínio nada são perante a sublimidade de Deus. A escolha não tem meio-termo na frase de Jesus: ou César ou Deus. Por isso, os «casamentos» entre poderes produzem amigalhaços e subjugam a verdade a favores mútuos que cerceiam a liberdade e a dignidade. Estão fora de Deus o poder temporal que manda rezar, mas também está fora o poder religioso que manda votar tendenciosamente ou acarinha preferencialmente esta ou aquela opção política.
A afirmação de Jesus é clara e não deixa margem para dúvidas. Dar a César o que é de César, é devolver-lhe uma moeda com a sua efígie, para que o poder imperial possa manter a administração e os laços de comércio que a moeda representa. Mas, dar a Deus o que é de Deus, é recusar a César o poder absoluto que de si mesmo se atribui, mas concentrar-se também no poder da justiça e do amor de Deus.
A moeda representa tudo o que de bom se pode construir, mas também representa tudo o que de mau se implementa nas relações sociais. Com a moeda constrói-se o bem, edifica-se tudo o que o homem precisa para se promover como tal, mas também com ela nasce o que não presta: os negócios comerciais com drogas e com toda a espécie de crime. Quanta morte indiscriminada e injusta por causa do dinheiro?; Quanta desordem nas famílias e nas comunidades por causa da moeda?; Quanta luta feroz nas empresas, na política e em todas as instituições sociais por causa do vil metal?(…)
A religião é desafiada a centrar o seu pensar e atuar na fidelidade a Deus e na prática da construção do mundo. Tarefa nem sempre bem clara para os mais responsáveis, mas que é essencial ser praticado, para que se faça jus à clareza que Jesus define no Evangelho. Os pratos da balança chamam-se César e Deus, é preciso que o produto de um de outro não se confundam e cada um esteja no seu devido lugar para que o serviço de um e de outro não resultem em sério perigo para o bem comum do mundo e das sociedades humanas.  

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A Catedral do Funchal é a Sé para os madeirenses

Comensal divino:
500 anos da Dedicação da Sé do Funchal (1517-2017)
 1. A Sé Catedral do Funchal, entre todas as igrejas da Madeira, é a principal. Desde 1910, foi classificada como Monumento Nacional. Devem ser raros, muito raros, os madeirenses que não falem da sua Sé com carinho e até muitos não admitem vir à cidade sem que não reservem um tempinho para visitar a Sé. Os turistas também não sabem estar na cidade sem colocarem o pé dentro da Sé. A Sé é o coração da cidade, ela impõe-se aos cidadãos e a todos que no Funchal circulam. Ninguém precisa de buscá-la é ela que se oferece, é ela que nos procura e nos convida a entrar em si, para que entremos depois em nós.

2. A primeira vez a sério, digamos assim, que entrei na nossa Sé, ela me «encontrou», tinha eu 11 ou 12 anos, por ocasião de uma visita de estudo pela mão da minha saudosa professora de geografia do secundário. Um momento único que eu guardo com a maior das saudades. Após a participação na missa, lá fomos em grupo saboreando as palavras e enchendo os olhos pelas suas naves e parando aqui e ali nas diversas capelas que a compõem. Eis o sinal de paragem demorada nas capelas do Amparo e do Santíssimo Sacramento, ou ainda, a título de exemplo, os altares do Senhor Bom Jesus e de S. António, como pedaços de uma revelação sublime que a professora sábia alimentava nas suas pequeninas almas que a rodeavam.  

3. O valor histórico, arquitectónico e artístico, da nossa Sé, destaca-se no retábulo da capela mor, um pequeno sobrecéu espectacular que nos toma a visão e que quase nos levita tomados pela soberba talha dourada, onde sobressaem as pequenas esculturas de pequenas dimensões e as pinturas a óleo sobre madeira. Este retábulo foi mandado fazer pelo Rei D. Manuel em 1510-1515. Dizem as crónicas, que é o único retábulo existente na íntegra e que permanece no seu local de origem do período manuelino.

4. A Sé Catedral do Funchal foi mandada construir pelo Rei D. Manuel para dar lugar à Igreja de Nossa Senhora do Calhau, primeira igreja paroquial da ilha, o seu arquitecto foi Pêro Anes, mestre das obras reais. A estrutura da Sé é quase toda em estilo gótico, tem uma planta em cruz, com três naves. Foi a Igreja grande como lhe chamavam os fiéis desse tempo, estava situada junto do Largo do Duque. Foi dedicada em 1517 a nossa Senhora da Assunção, que dará origem à maior devoção da ilha da Madeira com título de Nossa Senhora do Monte, que perdura até aos nossos dias com grande expressão na Paróquia de Nossa Senhora do Monte. Outro dado interessante é que sob os auspícios desta Igreja Catedral do Funchal, o Papa Leão X, instituirá o bispado do Funchal, que na época se tornou a maior diocese do mundo, porque englobava os territórios descobertos pelos portugueses, desde o Brasil até ao Japão.

5. Outro elemento de grande valor é o tecto da Sé do Funchal. Tecto de alfarge, um dos mais belos de Portugal, feito em madeira de cedro da ilha e trabalhado ao gosto mudéjar com douramentos e incrustações em marfim, bem como os retábulos do séc. XVI e os azulejos do séc. XVIII. É também considerado pelos entendidos e a professora também o referiu, que os seus autores se inspiraram no fundo das naus que rasgavam as águas dos «mares nunca dantes navegados» ao tempo das descobertas. O tesouro da Sé também sobressai em beleza e valor histórico. Podem ser apreciadas a maioria das peças no Museu de Arte Sacra do Funchal. Entre a panóplia de pratas e dourados, destaca-se a cruz processional em prata dourada oferecida pelo Rei D. Manuel I e atribuída a Gil Vicente.
 
6. A Sé, como lhe chamam os madeirenses, pelo seu valor e carinho, é toda branca de sol divino, que aparece naquele lugar onde o céu sorri e a paz acontece no sonho das almas que cruzam o seu pórtico. As brumas que as almas carregam, lá dentro viram a aurora raiar como luz nas velas cintilantes sobre os seus altares e no alimento do pão da missa, que nos seus 500 anos interligou o céu e a terra. A Sé é o lugar do descanso das almas, é mistério antigo que renova a estrada e retempera das canseiras do quotidiano todas as almas. É lugar da arte, é verdade, mas é acima de tudo, o lugar da descoberta de Deus para o encontro da fraternidade humana.  

7. A nossa Sé é como um astro glorioso no coração dos madeirenses, que os tem guiado nas curvas, nas subidas e descidas íngremes que constituem as encostas e os vales da nossa Diocese do Funchal. A Sé que me descobriu, foi e é aquele primeiro lugar sagrado deste mundo que me mostrou a estrada do céu, onde tantas vezes me abriguei os meus olhos cansados, que no aconchego grandioso receberam a bênção de Jesus. Assim, 500 anos da nossa Sé são 500 anos da vida de Jesus entre nós, que com as perplexidades da história, deu a comer o Pão vindo do céu e anunciou a Palavra segura do amor do Evangelho, sem que faltasse, também nos vetustos 500 anos, a palavra que denunciou toda a exploração do mundo, que teimava sanear pela exploração os filhos da Sé. É, por isso, a Sé do Funchal é como uma «mãe». Todos os madeirenses sabem muito bem o que isso é. Parabéns à Sé.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Os incêndios semeiam morte mais uma vez

Escrever nas estrelas:
16 outubro de 2017
Não se tenha ilusão, vai continuar assim. A fragilidade assiste-nos e vai continuar. Temos que aprender a conviver com isso... O sofrimento, a dor, a fragilidade a todos os níveis… Deixou-se de aprender nas famílias e nas escolas. Temos que regressar a essa educação para que o sofrimento e a morte sejam encarados com esperança e não como fatalidade desesperante que merece sempre ter culpados como bodes expiatórios que justifiquem a nossa irresponsabilidade e insucesso.
Mas vamos aos incêndios, que resultam de tanta coisa. Todos estamos cientes disso, mas há razões que são as principais. A falta de políticas a sério que deviam ser implementadas pelos governos, visível no desornamento do nosso território, na prevenção e no ataque aos fogos quando eles acontecem; a perda da rentabilidade da floresta; o gás butano engarrafado e canalizado; o desleixo das populações, governos e autarquias; os interesses lucrativos das grandes empresas madeireiras; os incendiários pirónamos que quando apanhados são entregues à justiça e nunca se viu que levem penas exemplares; enfim, um dado que se tornou comum dizer-se, a perda de valores e principalmente o desrespeito pelo bem comum e a inconsciência ecológica. Pois, esquecia, deve estar a pensar nas alterações climáticas, também, com certeza, mas já que sabemos delas preparemo-nos para elas...
Todas estas razões entre todas as outras, resultam no terrorismo ambiental sem precedentes que estamos a viver, com consequências trágicas em termos de vítimas mortais, feridos, desalojados e na perda de património pessoal e das famílias. Tudo isto significa mais pobreza, mais doenças, mais seca e um país feio, sem manchas verdes tão importantes para os ecossistemas, para a beleza paisagística tão importante para os nossos olhos, para a nossa sobrevivência e economia. 
Culpados? - Somos todos nós, que nos desleixamos nos períodos em que não acontece nada, toca a construir como apetece, deitar lixo para o chão e nas encostas, não limpar o que está à volta das casa, não reclamar com os vizinhos nem muito menos com as autoridades que devem perseguir quem pisa o risco...
Nos momentos de calamidade só grita por culpados, quem nunca esteve numa situação de incêndio com altas temperaturas e vento forte descontrolado.  O poder do fogo num contexto desses, nada o apaga. Gostei de ouvir um dos autarcas, com o seu concelho todo queimado e com nove mortos contabilizados, dizer com clareza, as labaredas e o vento eram forças divinas de tal ordem, que podiam estar ali mil bombeiros que não as conseguiam apagar, o monstro era muito grande. 
As tragédias não precisam de demitidos, mas de responsáveis que assumam inteiramente as suas responsabilidades para que o cuidado com os que sofrem esteja a ser realizado em pleno. Após o período da tragédia, se se comprovar que houve responsáveis que não estiveram lá, não disseram o que deviam dizer e não fizeram o que deviam fazer, isso sim, olho da rua com eles. Fora isso, a procura insaciável de culpados, não passará de bodes expiatórios e isso nada resolve, mas complica ainda mais. 
Aqui deixo duas modestas propostas para as matas e florestas. 
Primeira, entregar uma boa parcela da floresta às populações, para que possam tirar algum rendimento daí, a floresta é importante de mais e não deve estar apenas e só na mão de latifundiários, que se alimentam do lucro desmedido e que não olham a meios para o conseguir. O território pode ser dividido em parcelas e entregue às famílias e ou populações para que cuidem e retirem algum rendimento do seu trabalho e cuidado. 
Segunda, as zonas onde não tenham árvores importantes, mas ervas, arbustos e todo o género de plantas infestantes devem ser feitas queimadas controladas nos períodos com menos calor no final da Primavera e no final do Inverno. Assim, nos períodos de calor forte mesmo que surgissem incêndios não se propagavam tanto e provavelmente ficariam circunscritos. 
Conclusão, que sejam chamados à responsabilidade quem lucra com os incêndios e caso tenham algo a ver com o terrorismo que nos assola devem ser obrigados a pagar todas as despesas e indemnizações às famílias que estão desoladas com os seus entes mortos e com a perda dos seus bens. Tudo deve ser pensado, para que tudo possa ser combatido. 

sábado, 14 de outubro de 2017

A humildade

Ao Sétimo Dia
Imagem Google
No poema «Exercício Espiritual» Miguel Torga, in «Diário (1939)», reza assim: «Ouço-os de todo o lado. / Eu é que sou assim. / Eu é que sou assado, / Eu é que sou o anjo revoltado, / Eu é que não tenho santidade... / Quando, afinal, ninguém / Põe nos ombros a capa da humildade, / E vem». Este pequeno, mas maravilhoso texto vai ajudar-nos a pensar sobre a humildade neste nosso «Ao Sétimo Dia».
A humildade é o que há de mais importante no mundo, é como uma luz, que ilumina a vida de quem a pratica e a vida de quem venha a saborear dessa prática. Porém, é das luzes mais difíceis de acendermos. É bem verdade que é uma pérola rara, mas quando ela brilha na vida de qualquer pessoa, dá nas vistas sem esforço e faz encantar quem reparar que nessa pessoa ela fez habitação.
A humildade é perseguida pelo egoísmo, a ganância e a inveja. Estas armas destroem o mundo e esterilizam tudo à sua volta. A política, a religião, a vida familiar, os grupos, as comunidades e todas as mediações onde se congregam pessoas, estão cheios destes eucaliptos que estendem raízes a todos os recantos, matando a igualdade de oportunidades, o direito que assiste a todos participarem, a fidelidade a princípios e o cumprimento das promessas. A falta de humildade ou a humildade sufocada pelos intentos demoníacos citados, faz valer um vale tudo, que atropela as regras e faz fervilhar a corrupção, a tristeza, a falta de paz e todas as desgraças que consomem a vida da humanidade.
A falta de humildade está a corroer a vida de todos e a fazer nascer um mundo desastroso, sem luz que ilumine as sombras que nos escapam, aquelas que não podemos evitar, porque fazem parte do escorrer histórico. É uma grave irresponsabilidade não tomar a sério a missão, o emprego, o mandato e tudo o que faz a vida em sociedade com verdadeiro sentido de humildade.
A humildade é o bem maior do mundo. Somos pouco ou mesmo nada, como frequentemente dizemos, por isso, devemos tomar tudo o que somos e temos com verdadeira humildade, para que sejamos acolhidos no momento do sucesso e no momento do fracasso.
A humildade é um alimento que devemos ter sobre a mesa e nunca nos esquecermos de tomar a devida parte desse alimento que vai orientar o caminho em cada dia.
A humildade não é humilhação, mas uma grandeza que aos pés dos outros, os reconhece como o bem mais precioso para que eu seja o que sou e faça o que fui chamado fazer. Não deve ser por acaso que Rabindranath Tagore nos confirme esta ideia com a seguinte afirmação: «Quanto maiores somos em humildade, tanto mais próximos estamos da grandeza». Nunca é feio ser humilde, mas altamente vergonho, é alimentar-se de humilhações. 

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

A perseguição religiosa está imparável

Comensal divino:
1. Mais um inquietante relatório sobre a perseguição religiosa no mundo. O relatório da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), sobre a perseguição religiosa no mundo, dá-nos conta da tragédia em que mergulharam tantas comunidades religiosas, particularmente, as cristãs. A AIS apresenta este relatório de dois em dois anos, constata-se que do último para cá a perseguição religiosa aos cristãos aumentou exponencialmente.

2. O relatório tem como título «Perseguidos e Esquecidos». Analisa a situação em 13 países, entre Agosto de 2015 e Julho de 2017, concluindo que «houve um declínio da liberdade de expressão da fé da comunidade cristã, que está a ser vítima de uma perseguição “nunca vista na História”, e de uma violência sem precedentes».

3. Iraque e Síria são os países onde os ataques têm sido os mais graves, movidos pelo grupo terrorista auto dominado Estado Islâmico. Aqui «Os cristãos são uma minoria pobre, desprotegida e sem acesso aos direitos mais básicos, e muitos tiveram de fugir por causa da ameaça dos radicais islâmicos», disse à Renascença Catarina Martins Bettencourt, que alerta: «O cenário que apontamos neste relatório é o da possibilidade de em três anos as comunidades cristãs pura e simplesmente desparecerem nestes dois países. O que me choca muito, porque estamos a falar do berço do cristianismo».

4. Se pelo Médio Oriente os ataques são perpetrados pelos grupos jihadistas, outros lugares é o próprio Estado, por exemplo, China e Correia do Norte. O panorama em África também não deixa de ser tenebroso. A Nigéria destaca-se na perseguição religiosa. «Há uma limpeza étnica, sobretudo no norte do país, levada a cabo pelo Boko Haram, um grupo terrorista filiado do auto-proclamado Estado Islâmico». O relatório indica que a onda de violência já causou «mais de 1,8 milhões de refugiados ou deslocados». Só na diocese de Kafanchan, e só nos últimos cinco anos, o Boko Haram assassinou 988 pessoas, destruiu 71 aldeias – na sua maioria cristãs –, e mais de 20 igrejas. Os relatos são impressionantes pelo teor da brutalidade.

5. O relatório, «Perseguidos e Esquecidos», mais uma vez põe a nu que está em curso um genocídio no médio oriente, e em alguns países de África, especialmente. No entanto, não quer dizer que em todas partes do mundo a perseguição religiosa não exista. Há a violência que se destaca na prática dos grupos fundamentalistas, mas há também a das leis dos Estados e as suas acções políticas em nome dos interesses económicos, armamentistas e outros de ordem estratégica que levam ao silêncio ou ao simples encolher de ombros perante a violência exagerada contra a liberdade religiosa.

6. Outro dado prende-se com o silêncio das opiniões públicas mundiais, embriagadas com a ditadura do futebol e o silêncio da comunicação social. Assim, resta confiar no poder protector de Deus, já que os poderes do mundo, só servem maiormente para saciar interesses de ordem egoísta. Lutemos pela paz e pela liberdade religiosa.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

O banquete de Deus

Pão quente:
Domingo XXVIII tempo comum
A liturgia do 28º Domingo do Tempo Comum utiliza a imagem do «banquete» para descrever esse mundo de felicidade, de amor e de alegria sem fim que Deus quer oferecer a todos os seus filhos. Com o profeta Isaías tomamos conta do «banquete», que um dia Deus, na sua casa, vai oferecer a todos os povos. O convite está feito, acolher esse mandato é reconhecer que o convívio fraterno é o sinal da comunhão com Deus e que a felicidade está presente como valor essencial para enriquecer a vida de todos.
O Apóstolo Paulo está preso e recebe uma ajuda monetária razoável, recolhida na comunidade de Filipos. Porém, embora a ajuda seja bem-vinda, porque alivia a "aflição" de Paulo, mas não é o mais importante para ele, porque se sente preparado para viver na fartura e para passar fome, e assim, acontece, porque, "Tudo posso por Cristo, que me dá força".
Neste contexto, São Paulo apela aos filipenses que é muito importante partilhar e interessar-se pelas aflições dos outros e viver a solidariedade com os mais necessitados. Quem abre o coração à partilha, Deus provém a todas as suas necessidades. Deus não falta com tudo o que seja necessário em relação a todos os que abrem o seu coração à solidariedade e partilha. Já vem de longe o ensinamento, "quem dá aos pobres empresta a Deus".
Este texto dá-nos uma grande lição em duas vertentes. Primeira, devemos ser solidário e sempre que as necessidades à nossa volta apareçam devemos procurar ajudar na medida do possível. Segunda, devemos aprender a viver em cada circunstância com aquilo que a vida nos oferece. Quantas pessoas, encontramos revoltadas, porque não têm abundância de dinheiro e de bens materiais? Quantos vivem amargurados porque a vida não lhes acena com a sorte de ter muito? Quantos vivem a contragosto porque a vida não lhes sorri com tudo aquilo que a publicidade seduz? - O desespero é grande, porque se desaprendeu a viver com pouco e com aquilo que é absolutamente necessário para a vida.
No Evangelho fica clara a ideia de que é preciso segurar o convite de Deus e que as mediações deste mundo e da vida material não podem distrair-nos desse horizonte de Deus. A fidelidade ao compromisso com uma condição que recebemos deve ser levada a sério todos os dias, e deve fazer-nos coerentes, consequentes na busca de um mundo mais humano onde todos cabem à volta da mesa do amor e da paz. É este o banquete de que se fala.  

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Cair em si todos os dias

Escrever nas estrelas:
A vida é curta. Somos tão pouco diante de uma grandeza que não sabemos medir, não sabemos onde começa, como está e onde acaba. Não sabemos medi-la nem pesá-la. Somos o que somos, é óbvio. Por conseguinte, em nós há sentimentos, somos alma, não basta um corpo e aquilo que vemos e agarramos com as mãos, para sermos a vida, a existência de um eu que orgulhosamente ostentamos tal como se apresenta ao mundo e aos outros.
Nesse albergue onde abrigamos a existência, precisamos de energia partilhável, de olhares que se cruzam, uma alma que nos toque (a nossa e a das outros), compreensão que nos abafe, a compaixão que nos console, o perdão que nos faça sorrir, a palavra que nos faça gente como toda a gente e tudo que anima o convívio e a amizade. Nesse pouco que somos, podemos ser muito se existir muita realidade à volta que nos preencha, nós compreendamos e que nos compreenda. Tudo tão difícil, mas tão nobre e enorme.
Os tombos interiores são importantes e necessários, porque purificam a alma e fazem abrir os olhos da interioridade. Já vimos que só o material não chega, porque quando ele se impõe obsessivamente, só por si, faz nascer o vazio e o inútil, caso nunca tenhamos predisposição para a partilha de afetos com aqueles que nos rodeiam enquanto vivemos. Os olhos da cara, desvelam muito, mas não nos fazem ver tudo.
O amor é necessário para esse mistério do mar imenso que é o nosso interior. Ele não é materializável, não se compra nem se vende, mas existe dentro e multiplica-se desmedidamente quando os sentimentos são sinceros e verdadeiros. É tão bom cair em si muitas vezes na vida.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Manifesto contra a letra da lei

Papa Francisco, homilia na Casa Santa Marta, 10 de outubro de 2017, lapidar...

«Os teimosos de alma, rígidos, não entendem o que é a misericórdia de Deus. São como Jonas: ‘Devemos pregar isso, estes devem ser punidos porque fizeram o mal e que vão para o inferno...’. Os rígidos não sabem abrir o coração como o Senhor. Os rígidos são covardes, têm um coração fechado, apegados à justiça pura. E se esquecem que a justiça de Deus se fez carne em seu filho; se fez misericórdia, se fez perdão; que o coração de Deus está sempre aberto ao perdão».

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O Padre António Vieira sob grande suspeita

Comensal divino:
  1. Estou perplexo como provavelmente uma boa porção do mundo, que já teve o prazer de ler os belíssimos pensamentos que o Padre António Vieira expressa nos seus famosíssimos sermões. 
  2. Levantou-se um movimento de radicais contra o pensamento do Padre António Vieira, acusando-o de ser um "escravagista seletivo". As ações contra Vieira têm se manifestado através de manifestos com dizeres ofensivos e têm sido vandalizadas as estátuas representativas desta figura ímpar da filosofia e da literatura portuguesas.  Afinal, segundo Fernando Pessoa, "é o imperador da língua portuguesa". 
  3. O problema para estes radicais idiotas que se levantam agora contra o Padre António Vieira está na negra batina, porque se fosse um maltrapilho revolucionário nada disto se passava e provavelmente já seria aceitável o seu pensamento. Tem azar Vieira pertencer a uma ordem religiosa, os jesuítas, que ao invés de apontar armas de fogo, aponta a palavra que anuncia a "revolução" do mundo e da humanidade com as armas do amor do Evangelho. 
  4. Como podemos acusar alguém de ser "escravagista" se nos seus sermões se pode ler o que há de mais belo contra a escravatura, a desigualdade e as injustiças? - Reparemos no que ele diz logo, no décimo quarto sermão - uma afirmação deste calibre é mais do que prova contra as investigas injustas contra Vieira, a afirmação vem a propósito de quem são os filhos da festejada Nossa Senhora do Rosário: “Se um destes Homens nascidos de Maria é Deus; o outro Homem, nascido de Maria, quem é? É todo o Homem que tem a fé e o conhecimento de Cristo, de qualquer qualidade, de qualquer nação, e de qualquer cor que seja, ainda que a cor seja tão diferente da dos outros Homens, como é a dos pretos.” 
  5. Num outro momento ensina o seguinte dirigindo-se aos escravos: “Os [mistérios] dolorosos são os que vos pertencem a vós, como os gozosos aos que, devendo-vos tratar como irmãos, se chamam vossos senhores”. O Padre António Vieira proclama a igualdade entre todos os homens ao ponto de elogiar desmedidamente a cor da humanidade negra e como lição para todos os tempos deixou este reparo como denúncia veemente: "Falando na linguagem da terra, celebram os brancos a sua festa do Rosário e hoje, em dia e acto apartado, festejam a sua os pretos e só os pretos. Até nas cousas sagradas, que pertencem ao culto do mesmo Deus, que fez a todos iguais, primeiro buscam os Homens a distinção que a piedade”.
  6. Enfim, deve ser por isso que na obra do Padre António Vieira também se pode encontrar a resposta aos seus acusadores de hoje e de todos os tempos: "Muitos não têm o coração dentro de si, senão fora de si e muito longe. Fora de si, porque não cuidam em si e muito longe de si, porque todos os seus cuidados andam só atentos e aplica­dos às coisas temporais e mundanas que amam". Deixo o apelo a toda a idiotice que por ai anda a semear a desordem e todo o mal injustamente, mais algum tempo de reflexão e estudo, podem fazer toda a diferença neste caso e em tantas outras situações desta vida.

sábado, 7 de outubro de 2017

O universo é um imenso altar

Ao Sétimo Dia
A grande Simone Weil, há mais de 60 anos pronunciava-se deste modo: «Eu reconheço quem é de Deus, não quando me fala a respeito de Deus, mas pelo modo como fala e actua nas coisas deste mundo». Este pensamento é extraordinário e confirma a mesma ideia da frase da Carta de São Tiago 2, 26: «Assim como o corpo sem espírito está morto, também a fé sem obras está morta».
O acontecer de Deus é sempre pela mediação do amor. Nunca pela imposição nem muito menos pela violência. Tudo errado quando se faz passar a ideia do castigo e que do alto se abate implacávelmente o devido corretivo quando as falhas do mundo acontecem. Um sacrilégio que violenta a misericórdia infinita e a única substância que enforma o Deus de quem estamos falamos, o AMOR.
Por esta via a teologia devia ser feita por cada pessoa pelo jeito como olha as coisas deste mundo e como fala delas. Só pode verdadeiramente vê-las e falar delas pela óptica do amor, se os seus olhos desbravarem sinais ou vestígios divinos.
A verdadeira espiritualidades não é apenas e só deixar-se cobrir com o manto do religioso, mas é antes assumir atitudes de amor que permitam considerar como bom, belo e estéticamente divinos, toda a imensidão das criaturas que o universo nos dá a contemplar.
O universo inteiro é um imenso altar, onde podemos perscrutar a presença de Deus. É urgente que a humanidade inteira se volte para a natureza em geral e cuide dela, porque nela está a mão e o coração de Deus.
A vida está ameaçada e não será seguramente só e apenas Deus a salvar o que há para salvar, mas todos e cada um de nós, somos convocados a nos reunirmos à volta do altar da criação e celebrar o encontro do amor que nos leva à prática da fraternidade com tudo o que nos rodeia.