Convite a quem nos visita

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

A fé e as lágrimas

Notas dos dias
Não sei o que é a fé. Muitos perguntam. Mais grave é que até já escrevi um livro sobre este assunto, mais precisamente sobre «o que a fé não deve ser». Hoje provavelmente não o escreveria. Mas está escrito, anda por aí.
Perante isto dirão alguns, um padre não saber o que é a fé é muito estranho. Mas já não estranharei tanto se vos disser que ela é importante para a vida. Nessa ordem de ideias, a fé é como aquela lágrima gorda ao canto dos olhos quando a tristeza corta cerce na profundidade do corpo e da alma ou também quando a vida presenteia um bem que emotivamente nos alegrou.
Da fé Jesus disse: «se tiverdes fé do tamanho de um grão de mostarda, direis a esta montanha: ‘Vai daqui para lá’, e ela irá. Nada vos será impossível». (Mt 17,20). Magnífico.
Das lágrimas Rabindranath Tagore afirmou: «As lágrimas que choras na noite pela ausência do sol, não te deixarão ver as estrelas». E é tudo.
As lágrimas e a fé convivem juntas, será preciso aprender a lavar o caminho da vida que se faz guiado pela fé e lavado com as lágrimas. Ambos os dons são fruto da acção de Deus em cada pessoa.  

Vigiai. Chegou o tempo do Advento

Pão quente da Palavra
1. A liturgia do primeiro Domingo do Advento, abre-nos a porta do coração para «o Deus que vem». A nossa história pessoal com esta luz, torna-se mais brilhante e mais luminosa no que toca à nossa felicidade. Por isso, Esta primeira liturgia do Advento ponta caminhos e alguns conteúdos para que possamos viver com intensidade espiritual este tempo de espera e vigilância que é o Advento.

2. A primeira leitura é um apelo à mudança de vida e a uma compreensão autêntica do que Deus é. O autor do texto concentra-se no essencial e diz que Deus é amor e misericórdia. Estes valores constitutivos do que Deus é são seguramente a garantia que Deus vem salvar a humanidade e que não O assiste qualquer ensejo que conduza à condenação. É da natureza de Deus perdoar e salvar sempre. É o Deus libertador da miséria, porque nos reclama a libertação dos escravos e apela à verdadeira dignidade para todos. É este o sonho de Deus, que deve ser também o nosso sonho, se Nele encontramos sentido para vida e luz para o acreditar.

3. A segunda leitura mostra como Deus está presente nos dons e nos carismas dos membros de uma comunidade. Nesta riqueza concedida à humanidade Deus revela-se em cada homem e mulher quando exercem para todo o bem os seus dons e carismas. Por isso, mantem o apelo à vigilância para que sejamos capazes de ver e ouvir onde Deus se mostra pelo concreto da vida, para que possamos acolher, amar e levar à prática toda a sua mensagem de salvação e de felicidade.

4. No Evangelho os discípulos de Jesus são convidados a não terem medo e a enfrentaram a vida com toda a coragem. Um cristão verdadeiro distingue-se dos outros pela sua determinação, pela sua esperança. O alimento do ser cristão é o seu ânimo. Esta densidade interior de uma fé segura em um Deus que vem e que fará levantar a justiça, a paz e a vida em abundância no coração daqueles que O seguem determinados. Em corações assim não podem existir hesitações comodistas nem muito menos calculismos cegos. Este tempo em que estamos no mundo, é o tempo da espera vigilante, que não nos demite da realidade, mas que nos conduza ao compromisso activo na construção da vida feliz para todos. Esta realidade nova começa sempre hoje. É esta a vigilância que se alimenta pela esperança no amanhã que se concretizará definitivamente quando for feito o mergulho no oceano imenso do mistério.

5. O Tempo do Advento, é aquele tempo que nos prepara para o encontro com o homem empoeirado, de barbas raladas e grandes, passando ao lado de um rio, que está ali diante de mim. E Ele da outra margem faz-me um aceno afectuoso, certo que em mim existe abertura suficiente para acolher uma graça, um dom ou uma possibilidade de redenção. Eis, o tempo que nos prepara para o novo, o sempre novo da vida. Por isso, chegou a hora para este mundo que parece andar perdido, nas entranhas tenebrosas do medo, da insegurança, da corrupção, da tristeza e toda a miséria que corrói a vida. Portanto, «vigiemos» para que possamos acolher o verdadeiro presente, Jesus Cristo, o Salvador do mundo. Mais uma vez chegou o Advento.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Deus e eu

«Deus e eu», esta quarta feira com a Sílvia Vasconcelos, deputada na Assembleia Legislativa Regional pela CDU. Muito obrigado Sílvia.
Mesmo tendo tido uma educação católica tradicional, em que Deus se centrava na determinação de todas as formas de vida, e quase numa predestinação condicional à nossa vivência, hoje concebo-O de forma distinta e no entanto tão paralela ao Deus cristão. Foi desta entidade invisível e criada pelos homens (adianto-me em desculpas aos crentes no “Deus divino”, mas creiam, eu também sou crente, mesmo que aos vossos olhos dissemelhante) que brotou todo o legado ético e humanitário onde ainda hoje encontro amparo.
Já não idealizo um Deus “Omnipresente e Omnipotente; o mais poderoso criador e venerado por todas as coisas”, mas é certo que ainda idealizo uma essência capaz de promover a igualdade entre os homens e de alavancar a justiça social. Ainda presumo o significado de se ser livre, num mundo onde ninguém é subjugado ou explorado. Onde os direitos humanos são sagrados. Onde nenhuma forma de violência tem expressão. Onde a infância é protegida. Onde a condição de género não é discriminatória. Onde a sexualidade assenta na vontade, consentimento e definição privada de cada um. Onde não há marginalização social pela cor de pele ou hábitos culturais. Onde a liberdade de se expressar é ponto assente. Onde o acesso à educação é universal. Onde a saúde não distingue classes. Onde a pobreza não é uma fatalidade incontornável. Onde a habitação é um direito. Onde a natureza e todas as formas de vida são estimadas. Onde a arte e a cultura são de fruição abrangente e global. Onde a ciência e a tecnologia estão ao serviço do Homem. Onde cada um escolhe a sua própria forma de ser feliz. E onde a própria espiritualidade se pode manifestar espontaneamente de tantas formas, remexendo na natureza, na poesia, na arte, na filosofia como alcance da sublimidade.
O “meu Deus” não é assim tão distinto do Deus religioso (em analogia a religiões cristãs, que são as que conheço melhor), e a minha “fé”, não sendo religiosa, traduz-se por uma amplitude que tento preservar: a capacidade de Acreditar. E eu acredito, ainda, na Humanidade, esta entidade complexa e ainda assim grandiosa, embora não divina. É imperfeita, sim, mas é também admirável pelas suas inúmeras criações ao serviço do Homem e pela capacidade de evolução na concepção de direitos humanos, mesmo que morosa, mesmo que marcada por retrocessos e barbaridades.
O meu Deus é assim, este entendimento colectivo do Homem, em que os valores e direitos de cada um e de todos se sobrepõem a qualquer ordem ou doutrina. E é esta esperança na Humanidade. E esta arrebatadora herança cristã. 

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O jovem rico do Evangelho e os nossos jovens

Escrever nas estrelas
1. A Jornada Diocesana dos Leigos, que decorreu neste último sábado dia 25 de novembro de 2017, no Colégio de Santa Teresinha, contou com a presença do Padre Nuno Tovar Lemos, sj, que apresentou uma palestra subordinada ao seguinte tema: «o jovem rico do Evangelho e os nossos Jovens».
2. Após a leitura do episódio bíblico do Jovem rico (Mt 19, 16-23), deixou também esta passagem do filósofo Sócrates que nos 470-399 A.C., já se lamentava da seguinte forma:

OS JOVENS DE HOJE segundo Sócrates
Os jovens de hoje gostam do luxo.
São mal comportados,
desprezam a autoridade.
Não têm respeito pelos mais velhos
e passam o tempo a falar em vez de trabalhar.
Não se levantam quando um adulto chega.
Contradizem os pais,
apresentam-se em sociedade com enfeitos estranhos.
Apressam-se a ir para a mesa e comem os acepipes,
cruzam as pernas
e tiranizam os seus mestres.
SÓCRATES (470-399 A.C.)
3. Para que a pastoral para os jovens não se reduza a uma pastoral de jovens, mas feita com os velhos, começou por fazer uma leitura da realidade dos nos dias. O Jovem de hoje:, tem telemóvel de última geração, iphones, nenhum está fora de uma rede social, especialmente, no facebook.
Diálogo de Jesus um jovem de hoje, com linguagem dos nossos tempos, poderia ser destro deste género:
 - Ó Jesus, ouvi dizer que és bué da fixe, olha, o que devo fazer para andar contigo, meu?- Ah… Também ouvi dizer que falas na «vida eterna», como faço, meu, para ter essa cena!
Jesus retorquiu: - Já conheces os mandamentos?
O jovem, intrigado diz: - manda, quê? Em mim ninguém manda!
4. Mais ou menos assim poderíamos presenciar um diálogo entre Jesus e um jovem de hoje, porque cada época tem as suas características, devemos viver nesta época e não noutra.
É sempre difícil compreender os jovens de cada época, mas sempre foi comprovado que é possível compreender os jovens, porque eles são importantes e interessantes.
5. Hoje o mundo vive numa incerteza... Trabalho incerto... Vida incerta... Experiências multifacetadas... Opções reversíveis contra as definitivas do passado... Nada é seguro… Tudo é volátil… Tudo munda a uma velocidade desenfreada… Mundo plural... Valores diferentes... Homossexualidade... Mundo digital... O fim dos livros... Param no facebook quase todo o tempo... Estes alguns dados entre tantos outros que é preciso considerar quando se fala dos e com os jovens. 
Como desafios à Igreja apresentou as seguintes características dos jovens, que é preciso ter em conta na pastoral juvenil.
1. Os jovens vivem a grande relatividade, não há nada de absoluto. Faz impressão aos menos jovens. Como fica a Igreja? - Obviamente que lhe compete dar conteúdos.  Mas devemos aprender a dialogar com eles... Temos certezas a mais. Não podemos deixar de escutar as perguntas, humildade para escutar as questões... Uma igreja triunfante com todas as respostas não está minimamente preparada para lidar com os jovens.
Os jovens são profundamente pragmáticos. "O que é que eu ganho com isso?" - Pergunta que está na cabeça de qualquer jovem quando se lhe propõe algo. Somos especialistas da autoridade, mas eles não. A autoridade hoje é o seu pensar e o seu querer.
Perguntas a considerar: 
A) O que leva para casa uma pessoa quando vem à igreja? O que encontram na Igreja? - A territorialidade hoje não existe, teima nesta é ideia é tempo perdido e não dará frutos... 
B) O que temos para dar aos jovens, acabou o tempo "não podes é pecado", "se fizeres vais para o inferno".... Não adianta nada. É preciso mostrar o que é que se «ganha com isso». Tudo o que temos é para a salvação. Dar razões da nossa fé e da nossa esperança, dos nossos valores. Com o testemunho concreto mostrar como se vive e como se ganha muito mais com estes valores e muito menos sem eles. 
2. Os jovens hoje não vão falar com Deus ao templo, não recorrem à instituição. Hoje os jovens têm uma grande desconfiança nas instituições (política, igrejas, etc...). Procuram cursos de meditação, livros de auto ajuda, algum líder carismático, buscam a espiritualidade mas fora das instituições. Têm grande alergia à igreja, às instituições... A Igreja precisa de sobre valorizar o seu lado comunitário, ao contrário das regras, dogmas, ritos, postos de poder. Por nada disso diz absolutamente nada aos jovens de hoje. A Igreja precisa de se reinventar. 
3. Para os jovens a verdade está nas emoções. A verdade não está nas palavras. Por exemplo, reparemos nas promessas dos políticos que passam e os jovens não acreditam, porque não basta falar. As palavras não valem nada para aos jovens. Vejamos a insistência, do « tens que ir à missa" , não pega, não lhes diz nada. Então chega o suspiro dramático dos adultos desencantados e vencidos, «”a juventude está perdida”, mas nós é que andamos perdidos a lidar com os jovens» Afirmou o conferencista. Por isso, menos doutrina e mais experiências pessoais, reclamam os jovens. 
4. Os jovens desejam novidade. Em geral estão fartos. Querem novidade. Boa notícia para nós, porque o Evangelho é novidade, não suscita coisas novas. Os jovens vêm na Igreja uma incapacidade para a novidade e para a mudança. O «sempre se fez assim», não funciona mais com os jovens. Hoje precisamos de nos alegrarmos com o que é novo. Fidelidade à tradição, mas com criatividade... Grande sentido do essencial, tudo não é essencial, esta mania não deve existir. É preciso ser fiel, mas com imaginação, criatividade... E com uma abertura ao que é puramente essencial.
5. Para os jovens é muito importante a sinceridade. Significa autenticidade, naturalidade (segundo a linguagem dos jovens). Fazer as coisas como somos, ser autênticos. Sinceridade e autenticidade sincera sempre quando se lida com os jovens.
6. Finalmente, instituição e disciplina. Tudo óptimo, mas a Igreja precisa de três coisas fundamentais para os nossos tempos:
a) Comunidade
b) Mística 
c) Compaixão
7. Caso não se considere com coragem as mudanças que os tempos requerem, nuca passaremos de um pastoral para jovens, feita com velhos. Ora isso é o drama que temos vivido há muito tempo. Esperemos que estas iniciativas sejam um toque de alerta e nos façam despertar para a novidade com toda a alegria e contra todo todas as formas de derrotismo que têm marcado toda a pastoral da Igreja em todas as suas vertentes.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Estavas aí

Amanhã sábado dia 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres. Assinalamos aqui este dia com este texto-poema, com a firme convicção de que um dia esta eliminação seja uma realidade. 
Estavas aí entre uma luz e uma sombra
cada passo envolto na insegurança 
que a noite cobre na timidez e no segredo 
do escuro que toda a indignidade vomita.
Foram mulheres que sorriram como crianças
estava lá o sonho e a esperança 
mas não estiveram lá naquele momento certo
o amor e uma mão que toca no ombro
para dizer, estavas aí...
És sorriso e paz. 
JLR

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Uma realeza ao contrário

Pão quente da Palavra
Reflexão para o domingo XXXIV tempo comum, Cristo Rei do Universo
1. A solenidade de Cristo Rei coincide com o último Domingo do Tempo Comum ou com o último Domingo do Ano Litúrgico da Igreja. O Ano da Liturgia da Igreja não coincide com a organização temporal do Ano Civil. O início do ano, para a liturgia da Igreja não começa no primeiro de Janeiro, mas no primeiro Domingo do Advento, tempo de quatro Domingos que antecedem o Natal, como preparação efectiva desse grande acontecimento que é o Nascimento do Salvador.

2. Como vemos Cristo Rei? – A nossa vida deverá estar em sintonia com esta realeza diferente que Cristo nos revela. Por isso, reparemos em que podemos realmente perceber e viver essa dimensão fundamental da fé cristã. Ele é Rei. Mas um rei que não se coaduna com as injustiças sociais, pessoais e institucionais. E a sua morte na Cruz é o resultado da sua acção contra tudo o que não promove a dignidade da vida e do amor entre os homens. É o preço a pagar pela sua radical preferência pelos desafortunados deste mundo.

3. S. Gregório de Nazianzo: «Enquanto nos é dado fazê-lo, visitemos Cristo, cuidemos de Cristo, alimentemos Cristo, vistamos Cristo, hospedemos Cristo, honremos Cristo. E não só com a nossa mesa, como alguns fizeram, nem só com os unguentos, como Maria Madalena, nem somente com o sepulcro, como José de Arimateia, nem só com as coisas que servem para a sepultura, como Nicodemos que amava Cristo só a meias, e nem só, finalmente, com o ouro, o incenso e a mirra, como já tinham feito, antes destes, os Magos. Mas, pois que o Senhor de todos quer a misericórdia e não o sacrifício, e uma vez que a misericórdia vale mais do que milhares de gordos cordeiros, ofereçamos-lhe precisamente esta nos pobres e naqueles que são abatidos até ao chão» (S. Gregório de Nazianzo, Discurso 14, 40).

4. A interpelação de Jesus insiste que a verdadeira realeza reside no paradoxo da grandeza do amor de Deus em nós que se partilha com os irmãos, sobretudo com os pobres, os débeis, os desprotegidos. A questão é esta, o egoísmo, o fechamento em si próprio, a indiferença para com o irmão que sofre, não têm lugar no Reino de Deus. Quem insistir em conduzir a sua vida por esses critérios ficará à margem do Reino.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Deus e eu

«Deus e eu» 
Esta semana, com Duarte Caldeira... Muito obrigado caro amigo pelo seu contributo. 
Faz hoje precisamente 67 anos que fiz a minha primeira comunhão, no dia em que começo a escrever estas linhas que se seguirão com o título Deus e eu. Poderá ser uma coincidência, pois esse foi o segundo contacto com Deus, como nós pensávamos nesses tempos: que só havia um Deus e que era o adorado pela Igreja católica. Com o andar dos tempos e do estudo ficamos a saber, principalmente através da disciplina de História, que haviam outros deuses em especial na antiga Grécia, na Antiga Roma, no Egipto, em Israel, etc… e que todos os povos adoravam sempre um qualquer deus, em qualquer local do nosso mundo, que havia, portanto várias religiões, mas que a única verdadeira era a católica…
Desde muito criança que ouvia falar em Deus, o Deus adorado pelos católicos, o único que se escrevia com letra maiúscula e quem não o fizesse na escola, teria um erro no ditado. Assim fomos crescendo, fomos formando a opinião própria, educado segundo as regras da Igreja Católica, com a ideia que existia um Deus físico no céu, mas havia um tema que me deixava sempre muito confuso: aprendíamos que Deus era um “ser” infinitamente bom e se assim era porque razão criou o bem e o mal? Porque não criou só o bem? Também ouvia, quando estava um dia de Sol,  que estava um dia do “criador” e os outros dias de muita chuva, de frio e de relâmpagos de quem eram? Quando passávamos por um familiar mais velho, pai, mãe, tio, dizia-se: “ a sua bênção” e obtínhamos sempre a mesma resposta: “Deus te abençoe”. Se pedíamos a bênção ao familiar porque razão transferiam a resposta para Deus?
Toda esta vivência fazia com que vivêssemos sempre com Deus, no nosso coração, na nossa cabeça e tínhamos tanto receio que Ele visse, alguma asneirita que fizéssemos, ou seja era um Deus que nos incutia mais medo do que “amor”…
Hoje em dia vejo as coisas diferentes e acho que o mais importante será ter “Fé”, acreditar em algo de transcendente, que nos mantém vivos e com muita esperança, especialmente num mundo melhor e nunca esquecerei as palavras do meu amigo Almeida Santos, agnóstico, que dizia que as pessoas que têm “Fé”, são mais felizes, porque têm sempre algo a se agarrar, que lhes aumenta a esperança.
Sou um homem de “Fé” que acredita, que tem muita esperança e penso que de facto existe um só Deus, mas com muitos nomes em que cada civilização o “ batizou” com o nome que achou mais conveniente e acho que todos se deveriam escrever com letra maiúscula, pois na realidade são muito mais as coisas que as une do que as separa…

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A opinião pública católica da Madeira

Comensal divino
1. Vale zero. Estamos num tempo em que a mensagem católica não passa de forma nenhuma. Melhor, esclareço, passa se forem escândalos e todas as coisas que sejam negativas. O debate público sobre a religião está inquinado e reduz-se ao comum bota abaixo - utilizando a linguagem vulgar -, onde cada um ao abrigo da suprema autoridade de «esta é a minha opinião» e que o «que tem a dizer, diz pela frente e não pelas costas», procura encostar às cordas o seu próximo e as instituições, mesmo que isso traga dissabores e graves sofrimentos para as vítimas. O que vale é sempre fazer valer o que se pensa, esse é um «direito absoluto», quem não aceita isso, remata-se levianamente: «temos pena»!

2. Esta forma de debater conduz a maior divisão, formando grupos que se confrontam entre si ferozmente com prós e contras à mistura, sem que nunca se chegue a consensos e muito menos à verdade, e ainda mais se considerarmos que o único objectivo é ferir de morte a opinião contrária e abater o alvo onde se fixou a polémica ou o eufemisticamente chamado, debate.

3. Porém, na hora da responsabilidade, não aparece ninguém, porque muitos falam, mas consequências são zero. Porque falar é fácil, envolver-se, comprometer-se e contribuir para a solução e para a verdade, poucos ou nenhuns estão disponíveis. Um verdadeiro sinal dos tempos que é preciso saber ler e delinear estratégias para apresentar caminhos que nos façam vencer esta pobreza tão deficitária de verdade como se tem revelado a opinião pública católica da Madeira, particularmente, naqueles momentos quando a Igreja passa por maiores dificuldades, porque chegaram os problemas, os escândalos entre outras situações perfeitamente mornais nesta caminhada humana.

4. Nesses tais momentos os debates sempre terminam numa algazarra, com todas as armas apontadas ao outro considerado como inimigo, com generalizações injustas, com insultos brejeiros, insinuações injuriosas e até com ameaças graves que nos fazem pensar se vivemos num meio democrático ou num país desgovernado pelo fundamentalismo mais anacrónico possível.

5. Neste ambiente confuso, a boa opinião não passa, a memória histórica é remetida ao esquecimento, o universo de boas acções quotidianamente e anonimamente mantidas são propositadamente desprezadas, ignoradas e até chegam ser vistas como nulidades de gente palerma. O ruído é ensurdecedor, levado a cabo pelas tais opiniões de contestação, inconsequentes, escondidas, mas que ferem depreciativamente uns e outros, denegrindo quem não merece, até chegar ao puro e duro insulto.

6. Na Madeira, precisamos de uma escola, que prepare cristãos conscientes da sua condição e que façam valer em todos os lugares da sociedade opiniões consistentes, que não fujam à verdade para que sejam agentes que que não têm vergonha do que são e façam prevalecer a nível elevado, o teor do debate e das conversas. Todos, na Igreja devemos tomar a sério esta causa como sendo essencial para alterar esta tão depauperada opinião pública católica da Madeira que temos assistido nos últimos tempos. 

domingo, 19 de novembro de 2017

Glória a Deus nas alturas

Escrever nas estrelas
O Dr. António Fontes na sua habitual e incontornável crónica-sátira Trum Trump, no Dnotícias da Madeira, este domingo discorre sobre o caso do Pe. Giselo, aproveitando para achincalhar pessoas e instituições, com uma linguagem de baixo nível e com generalizações muito injustas. Vamos a três pontos.

1. Tantas vezes me farto de rir com as piadas certeiras e engraçadas, que como se costuma dizer "não lembra ao diabo". Muito aprecio o género da sátira e acho que o Dr. António Fontes tem jeito para a coisa. Até lhe fico grato pela boa disposição logo bem cedo em cada manhã de domingo, antes de entrar em modo liturgia dominical com as missas habituais da manhã de cada domingo - são logo três seguidas para três assembleias de extraterrestres que escolheram a Madeira para serem esquisitos, gastando um pedaço do  precioso domingo para fazerem umas coisas esquisitas dentro das igrejas. Olhem que tem gente de todas as idades. Por isso, não venham com a conversa do "só para meia dúzia de velhos".

2. Adiante. Algumas vezes a escrita do Dr. António Fontes resvala da sátira engraçada e certeira, para a brejeirice e para o calão sem freio na língua a propósito e a despropósito. Quando tal acontece, fico-me por um singelo sorriso, porque me coloco na pele dos visados. O Dr. António Fontes tem graça e jeito para dizer brincando coisas muito sérias. Admiro essa qualidade - ou talento,  parafraseando o Evangelho daquele "louco de Nazaré" que anda para aí há dois mil anos a enganar meio mundo e esse meio mundo engana o outro meio mundo que falta. Repito, muito me divirto e considero necessário que entre nós este género da sátira exista, precisamos que nos digam com graça, com sátira, aquilo que é sério demais, sobretudo, quando diz respeito ao bem comum, a toda a sociedade. 

3. A sátira-crónica deste domingo, o Trump Trump, do Dr. António Fontes, teria piada se não tivesse entrado pela brejeirice com expressões altamente ofensivas e caluniosas para pessoas e instituições. A liberdade de expressão é um valor, é um direito, mas devem ser exercidos com o respeito e com a dignidade que todas pessoas merecem e, particularmente, as instituições, que sempre estão muito para além das atitudes deste ou daquele membro, mesmo que ele tenha a mais elevada categoria dentro da estrutura. Por exemplo, a Igreja Católica não é o Papa, não é um bispo ou os bispos em geral, não é um padre e os padres em geral... É uma realidade que está acima, muito acima desta ou daquela pessoa, deste ou daquele grupo, desta ou daquela classe, desta ou daquela família... Portanto, mesmo que já seja gasto dizer-se, relembro, o ramo não é a floresta nem muito menos a floresta é o ramo
Enfim, para terminar, vamos agora a três lembranças.

1. É verdade que como em todas as instituições a Igreja Católica e, particularmente, a Diocese do Funchal têm pessoas que, podemos considerar (mesmo que injustamente), que «não servem para nada» ou podemos ir ainda mais longe, com a expressão popularmente generalizada e proficuamente utilizada na gíria, «não prestam para nada». Tudo muito certo, mas uma coisa são algumas (sublinho, algumas) pessoas quando tomam decisões, fazem opções e assumem determinadas atitudes, outra bem diferente, são as instituições a elas associadas. Generalizar é perigoso, injusto e desonesto intelectualmente. 

2. A par de tudo o que é dito na primeira lembrança, é verdade sim senhor que a Igreja Católica e, particularmente, a Diocese do Funchal, estão carregadas de defeitos, de falta de transparência, com negócios esquisitos, heranças mal geridas ou desviadas do fim a que se destinavam, padres por todo lado com mais direitos e outros com menos, tantos deles a não cumprirem os seus deveres, alguns que não falam com os colegas, pouco solidários, malcriados, ganância pelo poder e pelos dinheiro, carreiristas ou trepadores, intriguistas, maldizentes, maldosos, conservadores, anacrónicos, pedófilos, tarados sexuais, moralistas e zelosos com regras quando são para os outros, bispos medrosos, calculistas e alguns acomodados como príncipes em seus palácios… Ora, como se vê, uma infinidade de maus exemplos por todo o lado vindo dos Papas, dos bispos, dos padres, dos frades e freiras e da enorme multidão de leigos que não raras vezes cheiram mais a mofo do que os religiosos.

3. No entanto, face à descrição mais tenebrosa e negra que se possa fazer da Igreja Católica em qualquer parte do mundo, ela é também porto de abrigo de uma imensa multidão de pessoas que são sérias, têm fé verdadeira, porque acreditam ser possível a fraternidade, a justiça solidária, a dignidade e a paz para todos. Por isso, ajudam (tantas vezes com enormes sacrifícios pessoais, gratuitamente e voluntariamente) os pobres, os doentes, os idosos, as crianças abandonadas, as que participam na catequese, os jovens nos grupos juvenis (por. ex. Escuteiros, só para lembrar o mais conhecido) e as famílias e tanta gente que vai por aí, que se não fossem as pessoas ligadas às igrejas (comunidades) as suas cruzes seriam muito mais pesadas. 

Conclusão: Dr. António Fontes, a sua crónica deste domingo (19 de novembro de 2017) foi uma das que não me fez rir, mas até podia, dado que o tema tem enredo para uma excelente sátira, mas esta desceu ao nível da linguagem do calhau, ofendeu pessoas e instituições, tendo em conta que as desconsidera levianamente e meteu tudo dentro do mesmo saco. Foi pena este domingo para mim não ter começado com umas valentes gargalhadas. Ficam em dívida até que venha a próxima crónica com verdadeira graça, que até pode ser sobre o autor que subscreve este escrito, desde que não resvale para a ofensa caluniosa, a brejeirice e o insulto. Glória a Deus nas alturas e paz na terra a toda humanidade por Ele amada. 

sábado, 18 de novembro de 2017

O ensino deve ser aprendizagem e educação

Ao sétimo dia
1. Nesta última sexta feira (17 de novembro) participei numa conferência na Escola Gonçalves Zarco, vulgo Escola dos Barreiros, proferida pelo pediatra Mário Cordeiro, sobre «Ensinar, aprender ou educar?». Mário Cordeiro conta já uma longa caminhada de estudo à volta da educação. Por isso, lançou uma série de reflexões que devem ser tomadas em consideração por todos os educadores, mas particularmente, os professores. Neste texto deixo alguns dados que retive e que considerei terem alguma relevância.

2. A sociedade hedonista pôs de parte a espiritualidade e a frugalidade, para dar lugar única e exclusivamente à procura insaciável do «ter», levado até ao limite. A nova «religião», que alguém já chamou de «tecnologismo», veio corresponder à fome do «ter» descontrolado dos tempos modernos. A escola deixou de ser lugar de aprendizagem, para ser depósito de pessoas onde passam algum tempo diário. Quando devia a escola ser um meio onde se aprende desde logo a «saber gerir o tempo». O tempo é sempre curto e poucos, muito poucos sabem gerir o seu tempo convenientemente. Urge uma matéria que versasse sobre a gestão do tempo.

3. O mais importante da escola, o lugar do ensino, é educar para a cidadania, aliás, isto é o mais importante de todo o saber académico. De que nos valerá se tivemos excelentes alunos, mas virmos a ter péssimos cidadãos? - Daí que ao ensino compete ensinar (salve-se a redundância) o rigor, a ética e a estética. E porque é necessário não perder a memória os currículos escolares devem principalmente privilegiar as disciplinas de história, geografia, filosofia e uma outra que ainda não existe, mas que devia existir, a história da arte. A cultura e arte têm que entrar na aprendizagem.

4. O pediatra Mário Cordeiro defendeu o fim, aos «quadros de honra», porque os alunos não podem ser aferidos com base nas notas. Quanto esta forma de avaliação dos alunos provoca exclusão e quiçá profundas injustiças? – Por isso, devia desaparecer das escolas, porque faz mergulhar professores e alunos numa tremenda pressão. Nenhum aluno devia ser avaliado pelas notas que produz. «Se for só por aí, para entrar no quadro de honra, prefiro ser desonrado» - espicaçou o palestrante. Os «quadros de honra» nas escolas são um péssimo serviço à educação e não contribuem em nada para a verdadeira aprendizagem.

5. Mário Cordeiro, categoricamente defende também o fim «dos trabalhos de casa», para permitir que os alunos tenham tempo livre para respirar, descansar, relaxar, poupar tempo e ganhar tempo para outras ações que não são possíveis serem feitas durante o tempo escolar. Por exemplo, estarem juntos com os pais no ambiente familiar. Hoje uma realidade tão necessária para o crescimento das crianças e a integridade dos jovens.

6. Enfim, desafios ou lembranças em tanta quantidade que se conclui com a questão, o tema da conferência: «Ensinar, aprender ou educar?», que até se pode conjugar com mais duas perguntas que devem andar na cabeça de muitas pessoas nos dias de hoje: para que serve a escola? O que andamos a fazer na escola? – Ensaio, responder… Deve a escolar estar ciente de que pode e deve realizar a sua missão que se concentra naquele misto que deve ser toda a beleza que é a aprendizagem: ensinar, aprender e educar. Não só para uns, mas para todos os agentes que fazem a escola. 

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Uma boa governação

Escrever nas estrelas
1. Os sucessos ou os insucessos, os acertos ou os erros de quem governa depende o bem do país, da região, do município ou de qualquer colectividade que implique serem governados por eleitos, nomeados e escolhidos para serem os principais responsáveis pela administração dessa realidade. 

2. Por causa das azias que hoje fazem roncar os estômagos do povo em geral contra os políticos e as suas políticas, algumas pessoas começam a se manifestarem contra o facto de algumas vezes rezarmos pelos governantes. Dizem que não vale a pena, eles não merecem, porque continuam na mesma e até cada vez piores.

3. Vamos então lembrar que quando se reza pelos governantes, rezamos para que o bem comum seja bem administrado. Obviamente, que desejamos o melhor para todos em termos de saúde, paz e tudo o que se deve desejar de bom para qualquer pessoa, seja ela quem for e tenha qualquer função e missão na vida e no mundo. Com toda a certeza que é tudo isso, mas muito mais está em causa quando nos compenetramos nessa interioridade, que se chama rezar.

4. Assim, quando se reza pelos governantes, pensamos neles claramente, mas pensamos também nos bens que pertencem a todos, isto é na necessidade de vermos boas medidas de governação que tenham em conta a inclusão de todos os cidadãos, que gerem ou promovem o trabalho digno para todos, que promovam a família, façam desaparecer a pobreza, tenham vista um sistema de educação com qualidade para todos os cidadãos que por hora começam a sua história de vida e, enfim, que possam, os governantes, serem promotores de verdadeiras medidas que proporcionem aos cidadãos uma qualidade irrepreensível de vida em termos de saúde…

5. Enquanto não vermos sinais de que há da parte dos governantes um verdadeiro interesse quanto à boa administração do bem comum e uma dedicação zelosa quanto a essa causa ou missão, cada vez mais, o descrédito dos agentes da governação irá ser cada vez maior e a simpatia pela democracia uma miragem cada vez mais distante do olhar dos cidadãos. A oração pela boa governação é sempre necessária, porque não são eles os principais visados, mas a sociedade em geral que almejam ter vida como convém e como tem direito. 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

A esperança e os talentos que não são para enterrar

Pão quente da Palavra
1. A esperança no futuro, que em Deus, será sempre glorioso, dá sentido à vida presente. Assim, os cristãos não são uns desesperados agora, mas contagiam o mundo para a esperança e para a certeza de que o futuro que nos espera não é de condenação, mas a alegria da festa do amor de Deus em plenitude.

2. Neste sentido Jesus no Evangelho manifesta claramente de como devemos esperar a Sua vinda. Em primeiro lugar não deve assistir-nos qualquer sombra de medo e depois fazer todo o empenho para fazer frutificar os «bens» que Deus confia a cada um, os chamados talentos. E a seguir «condena» aqueles a quem Deus entregou talentos, mas tomados pelo medo instalam-se no comodismo, na apatia e não foram capazes de fazer render os dons de Deus e privaram a humanidade dos frutos que tais bens vinham proporcionar.

3. Reproduzo aqui o diz o teólogo do País Basco, António Pagola comentando precisamente esta parábola: «A mensagem de Jesus é clara. Não ao conservadorismo, sim à criatividade. Não à obsessão pela segurança, sim ao esforço arriscado para transformar o mundo. Não à fé enterrada sob o conformismo, sim ao seguimento comprometido de Jesus. É muito tentador viver sempre evitando problemas e procurando tranquilidade: não se comprometer em nada que possa complicar a vida, defender o nosso pequeno bem-estar. Não há melhor forma de viver uma vida estéril, pequena e sem horizonte. O mesmo acontece na vida cristã. O nosso maior risco não é sairmos dos nossos esquemas de sempre e cair em inovações exageradas, mas congelar a nossa fé e apagar a frescura do evangelho».
 
4. Todos nós devemos ser responsáveis e com toda a honestidade assumir cumprir os nossos deveres com dignidade, com a consciência de que por mais pequena que seja a tarefa, ela contribui para a beleza do mundo e da vida. Já a Madre Teresa de Calcutá tinha ensinado assim que «por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota». Que a vida de cada um de nós seja um hino ao bem fazer em cada dia, para que aquilo que somos faça sorrir alegremente todos os que são bafejados com as nossas acções. Que nada nos faça enterrar os talentos. 

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Deus e eu

José Edgar Marques Da Silva, enfermeiro... Uma descoberta interessante e importante em «Deus  e eu»... Simplesmente saboroso. Obrigado pelo seu sentido testemunho.

A vida ensina, o erro o nosso mestre. Deus observa.

Respeito-O nessa qualidade de observador.

Uma mente aberta, num corpo, com um espirito que observa para além do horizonte, consegue apreender com o erro e nas relações que estabelece com outros seres, permite-lhe fazer escolhas, sem se deixar manipular: julgo que Ele que observa assim o quer.

Nas relações entre os Homens, sem dúvida emerge sempre uma relação com Ele; uma relação que surge de forma natural, e que emerge, muitas vezes perante situações da vida aflitivas, ou com os tais medos, alguns, concebidos por nós mesmos, outros impostos, e que a maldade e a intriga humana, Lhe atribui a uma divindade que outros “lhe faz jeito” ser castradora, com o objectivo de subjugar , subverter e impor.

 Algumas vezes, perante situações de risco da vida, ou de perda de saúde, uma ameaça clara, à convivência  com o sofrimento, e a dor; as quais devemos encarar como provas a vencer,  na aquisição de uma maior capacidade de resiliência, algo que treina e nos molda o espírito, e que orienta para uma relação de proximidade em conversas com Ele; monólogos interiores, que esporadicamente extravasam para fora, frases soltas, que querem apenas cativar a atenção numa procura desesperada de respostas, a dúvidas só nossas.

O ser humano, quando “tudo lhe corre bem”, tem a tendência para subvalorizar as grandes coisas da vida, e sobrevalorizar, as pequenas coisas, muitas das quais, sem valor, no cimentar, realmente aquilo que o impele, a uma  luta, diária e titânica, para construir e amadurecer, um ser e um espírito, forte, sensível, em harmonia com a realidade que o rodeia, e com aquela que o transcende, que eventualmente é, o seu acreditar, em algo mais além: por isso não pode nem deve, se deixar distrair, tem de se fazer ao caminho, estar atento a quem observa.

Esta caminhada, que faço, escolho-O, como um amigo, para me acompanhar e guiar, o meu amigo espiritual, com o qual, se conversa no silêncio das horas mais problemáticas, mas também, nas horas festivas; devemos estar agradecidos sempre, não só em, dividir os problemas, mas agradecer, a Ele, o  encontrar os trilhos e os caminhos, que ensinam a viver, e a saber, aceitar as escolhas que fazemos: são todas da nossa inteira responsabilidade, falhar e assumir o erro, é digno dos grandes Homens, assim como insistir, e sempre se levantar a cada queda ou rasteira.

Incrível, na minha profissão de enfermeiro, muitas dessas “horas problemáticas” me são emprestadas por seres que sofrem, no físico e no emocional, não são poucas as vezes, que temos de construir elos de entendimento e compreensão; sozinhos não fazemos o caminho, são poucos os que o conseguem.

A minha relação com Deus é assim, amizade, conversas num silêncio que conforta e ajuda a crescer na espiritualidade, amadurecendo a forte convicção de que algo, mais além, vale a pena apostar, e fortalecer um espírito que vencerá a barreira da vida, mesmo que longa, ela um dia será libertação de um invólucro, de um corpo que cumpriu a sua função: viver em plena felicidade e harmonia.

Não existe nesta relação, obrigação, que vá para além da minha vontade, assumo que nesta relação, não existem regras, a não ser as que unem os “bons amigos”, numa disponibilidade, que julgo, e acredito ser recíproca, não existem medos, inclusive o único pecado aceitável, entre nós, seria de alguma forma, trágica e jamais aceitável, perder uma amizade da qual depende o futuro do meu ser espiritual, aquele que terá um dia, também de aprender a crescer, nada que meta medo a ninguém, se a vida for assim, num acreditar que algo, de melhor, nos aguarda... Acreditar é uma questão de esperança... Não de confirmação.

A via é bela, sim, mas apenas e só, se conviver com o amor e Deus é isso, simplesmente só isso, Ele manifesta-Se, quando o outro retribui... Precisamos apenas de estar atentos, talvez se tenha a sorte de encontrar a tal confirmação desejada por muitos.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A sexualidade dos padres

Comensal divino:

1. Eis o extraordinário mundo novo que se inicia a partir da Madeira, Diocese do Funchal. As mudanças que se anteveem parecem ter gestação na «pérola do Atlântico». Nada melhor para encher ainda mais o orgulho de muitos madeirenses que sempre acharam a Madeira o centro do mundo e que deste umbigo universal está toda a razão de ser da existência. A meu ver deve ter sido precisamente aqui neste lugar, que ao sétimo dia, Deus com as suas mãos estafadas de moldar o barro para fazer o exemplar Adão e Eva, recuperou as forças de tão afanada obra criadora.

2. Sempre me fez muita confusão ver os Papas, os bispos e os padres a serem os convidados de honra nos encontros, pequenos ou grandes, sobre a família, para falarem precisamente sobre família e como nela se vive a fidelidade no casal, a educação dos filhos, a ensinarem como se resolvem todos os problemas inerentes ao ser família tal como a conhecemos. Sempre evitei ao máximo falar do que não tenho experiência e muito raras vezes encetei viagem por esse caminho. Desperta-me muita perplexidade que os ensinamentos venham de quem teve que abdicar de constituir família em nome da causa e da missão pelo Reino de Deus. É assim e ponto.

3. Esse festim era o que tanta gente pode testemunhar, principalmente, os grupos e movimentos ligados à família sejam mais ou menos religiosos. A conversa versava sobre família assim, família assada, educação assim, educação assada... Com regras e mais regras sobre a vida sexual, procriação, matrimónio civil, matrimónio canónico, regras e mais regras para padrinhos, regras e mais regras para procriar, exclusão e excomunhões se algo falhasse... Mas, despertou agora a opinião pública e a da Igreja Católica - e todos sabemos o que foi, não necessito de reafirmar - a realidade da vida inverteu-se, e como que a talho de vingança, todos sabem de tudo sobre a vida do clero. Será caso para dizer-se «o feitiço voltou-se contra o feiticeiro»? – Porque estou para ver o que isto vai dar e como reagirá quem sempre achou que podia ensinar o melhor dos mundos a partir da sua «sabedoria» sobre a família com muita teoria, mas em fuga da experiência prática familiar.

4. No mesmo patamar, por estes dias, adensou-se ainda mais a minha confusão, por ver uma onde crescente de leigos especialistas em padres, sexualidade dos padres, celibato dos padres, castidade para os padres, vida geral dos padres, filhos dos padres (não imaginava que existia tanto padre por aí a procriar, honra lhes seja feita, já que quem deve procriar não o faz, então que sejam estes a contribuir para o rejuvenescimento da nossa tão envelhecida população) e a infinidade de doutrina relacionada com a vida do clero. É caso para humildemente manifestar aqui a minha mais sincera gratidão, mas fica claro, que se antes me fazia remover as tripas a doutrinação sobre a família e a vida em casal, feita pelos solitários, não menos elas se removem com a doutrinação sobre castidade, celibato e fidelidade e moralismo sexual, produzida pela plêiade de gente, adúltera, recasada uma, duas, três e quatro vezes… Portanto, vamos com calma e que a vida se faça com serenidade, porque sobre tudo e sobre todos ainda temos muito que aprender, até porque cada pessoa é um oceano imenso, sempre como construção inacabada e imperfeita.

sábado, 11 de novembro de 2017

A Igreja agitada e a comunicação social excitada

Ao sétimo dia
1. É verdade que o tempo da Igreja Católica não se acertou com o tempo da comunicação social. Também é verdade que a história da Igreja é milenar. A história da comunicação social é apenas quase centenária. Porém, nesta guerra do tempo e o modo, sem equipas de padres e leigos bem preparados para lidarem convenientemente com estes novos sinais, a Igreja como instituição perderá sempre, mas toda a sociedade sairá irremediavelmente perdedora. A acção do segredo e a tentação de esconder o que não dá jeito, o escândalo e as más notícias, hoje não cola e não serve ninguém. A transparência e a antecipação devem ser as «armas» utilizadas contra a surpresa e o impato mediático, estes que são o limento da comunicação social dos tempos de hoje.

2. Noutro âmbito, mesmo que relacionado com o tempo, podemos constatar. Uma, a Instituição Igreja Católica, leva muito tempo a ponderar, a responder a perguntas e, nomeadamente, reage e muito raramente age por antecipação. Isto levanta todos os problemas e dissabores sobejamente conhecidos… Um verdadeiro drama, difícil de solucionar, ainda mais quando os principais responsáveis da Igreja Católica, que podiam encetar alguma alteração deste modus vivendi não estão para aí virados ou simplesmente não se deixam sensibilizar por este sinal dos tempos.

3. Outra, a comunicação social, tem sempre muita pressa, tudo é para ontem, porque é necessário não permitir que o adversário (outro órgão de comunicação social) se adiante e «roube» a novidade, o efeito surpresa e o impacto da notícia. Este é um retracto da realidade. Mais há mais.

4. Por um lado, a Igreja Católica, concorre com a responsabilidade milenar e centenária entre nós, o que lhe confere a exigência de ter que ponderar e responder com aturada consistência para que ao problema não junte mais problemas, mais ruído e mais nuvens negras. Muito compreensível em tantas situações, especialmente, quando estão em causa pessoas inocentes, que devem ser preservadas na sua dignidade, privacidade e tranquilidade. A sofreguidão noticiosa não pensa nisso. A vontade de «dar primeiro» fala mais alto, mas provoca muitas situações de profunda injustiça e fere o bom nome das pessoas e das instituições.

5. Por outro, a comunicação social que vive da «última hora» e do «em primeira mão», não conjuga os verbos ponderar, esperar e responder na ocasião certa com a devida consistência das várias pontas do acontecimento. A pressa, mesmo que se saiba que é inimiga da verdade, faz parte do perfil de qualquer órgão de comunicação social hoje.

6. Para a comunicação social excitada a hora certa é sempre agora. No fim, a Igreja Católica não compreende e custa aceitar a pressa da comunicação social, esta por sua vez, também muito menos compreende o silêncio e a eterna ponderação…

7. Enfim, andamos nisto! Uma, que se excita com a pressa, outra que se agita (diz sempre alguém) mergulhada na morosidade. 

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

A vigilância e a preparação

Pão quente
Domingo XXXII Tempo Comum

1. Neste domingo somos convidados à vigilância. Devemos estar atentos aos sinais de Deus em todas as coisas da vida. Porque fomos colocados no mundo, para apreciar e saborear tudo o que ele apresenta sem destruir. Não cabem aqui egoísmos e nenhuma forma de ganância que ponham em causa os bens do mundo que nos foram oferecidos para sermos felizes e em tudo fazermos de tudo para que os outros também sejam felizes. Procuremos estar vigilantes para descobrir o que nos dá a vida e o que ela nos pede para darmos tudo o que for possível à construção do bem. Vamos pincelar os três textos que serão lidos nas missas.

2. A primeira leitura, oferece-nos a «sabedoria», o maior dom de Deus para nós. Mesmo que poucos pensem nisso, a grande preocupação de Deus é a felicidade da humanidade, por isso, coloca à sua disposição a fonte da vida, onde pode beber a sua felicidade. À humanidade basta estar atenta, vigilante e com o coração disponível para acolher em cada momento da sua vida essa oferta da salvação. 

3. Em São Paulo, aprendemos mais uma vez que a vida cristã assenta numa Pessoa, Jesus Cristo. O sentido da fé nessa realidade, confirma a esperança de que Ele virá ao encontro da humanidade inteira, para que seja salva e entre num tempo novo de paz e de fraternidade. Tudo isto pode ser possível se muitos de nós começarmos a viver o «misericordiar» do Papa Francisco nas palavras e obras, quando se trata de lidarmos com todos aqueles que nos rodeiam.

4. Devemos estar preparados não apenas para a morte, porque isso seria um pouco mórbido, mas para todas as coisas da vida. Por isso, a ideia que aqui se explana é que devemos nos preparar para acolher a vida a partir de Deus, seguindo aquilo que Jesus ensina e com Ele e por Ele, estarmos verdadeiramente empenhados na prática dos valores do Reino de Deus. O exemplo das cinco jovens que não se prepararam com o azeite suficiente para manter a luz acesa o tempo que era necessário, para esperarem o noivo, previne-nos que a mensagem de Jesus quando vivida com seriedade e verdade, faz-nos aptos a participar na festa da eternidade que Deus reserva para todos nós. A vigilância e preparação que aqui se fala, estão relacionadas com a fé e a esperança, o «azeite» que faz brilhar o coração no meio do mundo, onde as trevas por vezes são densas e assustadores. Sejamos luz para nós e para os outros. 

terça-feira, 7 de novembro de 2017

O Deus da alegria! – Deus e Eu - Banquete da Palavra

João Francisco Kiko no espaço «Deus e eu» esta semana. 
Este rapaz, jovem de corpo franzino, é um vulcão em constante irrupção. Uma força da vida e da natureza que não deixa ninguém indiferente.... Bem vindo ao Banquete e o obrigado pelo teu testemunho de fé tão exemplar para mim. És um «apóstolo da alegria de Deus». Bem hajas por intuíres isso e nos contagiares tanto com essa dádiva. 

Sem dúvida é uma alegria receber um convite destes do meu amigo e pároco José Luís, a quem agradeço pela lembrança e confiança, mas também pela oportunidade de olhar um pouco a minha vida e ver a quantidade de vezes que as pegadas na areia era apenas 2, porque Deus me levava ao colo. Parabéns por esta rúbrica. 
Desde muito novo, pelas circunstâncias da vida, muito em concreto uma doença que caminha desde sempre comigo, tinha muitas pessoas que me diziam que tinha e devia rezar muito, a Deus e a Maria, que “eles” ajudavam e não abandonavam ninguém, e se fechavam uma porta abriam uma janela. E apesar destas circunstâncias, sentia dentro de mim, e visível na minha forma de viver uma alegria, especial, a tal janela que Deus abriu, mas que só muito mais tarde viria a perceber. E todos nós temos uma vontade intrínseca de dar nome às coisas. 
Com as oportunidades que a vida me deu, uma educação numa escola cristã como os salesianos, ser escuteiro desde muito cedo, e outras experiências, de âmbito cristão e não só, e tantos em quem ao longo destes anos conheci e vi no rosto esse Jesus, descobri que essa minha mesma alegria e energia tinham e têm um nome, tem um rosto... Jesus! 
Por vezes impressiona-me quando conhecemos cristãos tristes, enfadonhos. Não pode ser esta a cara, a vida de uma pessoa que conhece realmente este Jesus que é caminho, verdade e vida. Este Jesus que vive todos os dias em nós. Um Deus que é um Deus da vida, e não da morte, como muitas vezes “à boca cheia” proclamamos, mas nem sempre o vivemos. 
A minha relação com este Deus não tem muito que se lhe diga, e quem não a tem não pode perceber o conteúdo, mas pela sua simplicidade, é difícil de explicar, mas acho que isso torna-a tão especial, próxima e genuína. É um Deus com quem posso conversar, com quem posso simplesmente brincar, e ser verdadeiro, e até contar piadas das mais estúpidas que podem haver. Mas também um Deus com quem discuto, com quem desabafo, a quem exijo tanto por vezes, com quem amuo e com quem faço as pazes. 
Um Jesus na 2ª pessoa do singular, Tu, Jesus! E não o “Senhor” Jesus que por vezes nos distância de um Jesus tão próximo, tão genuíno, tão humano mas ao mesmo tempo tão sagrado. Aquele Jesus que me permite entrar numa igreja e sorrir-lhe, piscar-lhe o olho, até acenar apesar de poderem pensar que estou louco, e perguntar: “Como é Jesus, está tudo bem contigo?”. E mais do que isso, um Jesus que está presente no rosto de tantos que comigo caminham. 
E tal como um bom bolo tem o seu segredo, o ingrediente especial desta relação é apenas um: a Alegria. E é uma alegria que Ele me leva a partilhar, de muitas formas, como é a música uma das formas privilegiadas e que tanto nos aproxima um do outro e dos outros, mas acima de tudo a partilhar com a minha vida, para que através dela muitos possam também se aproximar e conhecer este Deus da alegria! Como se costuma dizer e assim finalizo: HAJA ALEGRIA!
João Francisco Kiko