Convite a quem nos visita

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

De Deus. O futuro.

 Deus e eu
     De Deus aprendo a esperança. Sobretudo uma desmedida esperança. E uma procura de plenitude. Uma busca de um novo horizonte de sentido e de realização. 

 O mais fundo do coração humano é habitado pelo futuramente novo, o "para onde" que alimenta a esperança. Um futuro mais esperado do que conhecido. Uma esperança menos vista que desejada: o futuro. Em vez dum permanente "durante", é o "vermelho quente" de um futuro humano e cósmico, que obriga a transcender de maneira inelutável as conquistas realizadas.

     Tocados pelo sopro do futuro, pela promessa, em direcção ao ulteriormente novo, um dia não muito longe não muito perto, acontecerá a festa de alegria sem fim.

Edgar Silva
Fev.2017

O vendaval de uma noite de diversão

1. Há um chão coberto de copos de plástico, uns inteiros, outros já esmagados, cá e lá ainda cheios, outros meio cheios em cima dos muros e também nos recantos do chão. A seguir vejo garrafas de aguardente de cana partidas, outras inteiras ainda direitas, mas totalmente esvaziadas. Até pensei que por ali tinha passado um vendaval. Havia uma alma que por ali já estava de mangueira em punho a juntar tudo e a lavar aquele chão do tsunami banhado pela noite dentro com urina. O cheiro nauseabundo faz-se sentir por todo lado naquele enorme local convertido durante a noite em mictório.

2. Não faltam turistas a passar pela zona, que podem apreciar o cartão de visita, cheiro intenso de urina e bela vista para os olhos contemplarem um chão sujo de plásticos e guardanapos usados, atirados ao chão como se aquele lugar da cidade fosse a bodega espanhola onde se pode deitar tudo para o chão. Uma imagem desoladora e um péssimo cartaz turístico, para quem chega de barco à cidade ou para os que frequentemente se dirigem por aquela zona vindos dos hotéis e que não dispensam a bela caminhada a pé até ao centro da cidade que nos dias normais aquele locar tão aprazível da nossa cidade proporciona.

3. Este é o ambiente circundante na zona da Praça do Mar, feito com coisas usadas durante a noitada. Mas, pior ainda são os bandos de jovens e adolescentes deitados no chão, sentados em cima dos muros ou a pastar de um lado para outro aos berros não escondendo de ninguém o que foi a noite bem regada. Alguns adolescentes, particularmente, raparigas têm umas olheiras de caixão à cova completamente bêbadas. Cigarro atrás de cigarro e entremeio goles de algum resto de bebida que por ali ainda sobra. Temos uma lei que proíbe bebidas alcoólicas a menores. O que não seria se a não tivéssemos…

4. Já cansa ter que falar sobre os pais desta gente. Não quero passar com esta minha reflexão uma ideia de conservadorismo parolo. Mas devia inquietar a sociedade inteira, particularmente, os pais dos jovens e adolescentes que andam a dar este espectáculo de bandos de jovens vagando pelas ruas a madrugada inteira, tão bêbados a ponto de nem conseguirem falar ou andar direito. Este devia ser um tema de importância social, não só por causa da violência que o álcool representa e gera, mas por causa da fragilidade dos adolescentes, especialmente, as raparigas, que às vezes são molestadas ou violadas, porque não estão em condições de se defenderem. Calculo que sejam alguns dos pais destes adolescentes e jovens, que devem ser daqueles que vão à escola insultar, agredir e participar dos professores porque o seu menino ou menina queixou-se porque a professora falou alto durante a aula com ele ou marcou uma falta por mau comportamento.

5. O álcool tornou-se tão quotidiano que hoje ninguém precisa de se explicar por que bebe, mas tem que dar explicações por não bebe. Estas bebedeiras de cavalo dos mais novos não tem propósito nenhum, são apenas para deixá-los bêbedos para curtir a noite. O ambiente que circunda os lugares da diversão é bem revelador da degradação em que estamos e da irresponsabilidade que a sociedade apresenta, especialmente, os casais que são pais e as entidades que deviam fiscalizar o consumo de álcool entre aqueles que ainda são menores. 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A exuberância da festa do Carnaval

1. A festa do Carnaval já existe desde a Antiguidade. De facto, não se conhece ao certo a origem do Carnaval, assim como a origem do nome. Historicamente é uma festa popular colectiva, transmitida através dos séculos como herança de  antiquíssimas festas pagãs realizadas entre 17 de dezembro (Saturnais – em honra ao deus Saturno, na mitologia grega) e 15 de fevereiro (Lupercais – em honra do deus Pã, na Roma Antiga).

2. Não há unanimidade quando à origem do Carnaval. Tem origens diferentes segundo os investigadores. Há os que defendem que a comemoração do Carnaval tem as suas raízes em alguma festa primitiva, de carácter orgíaco, realizada em honra da primavera. Em certos rituais agrários da Antiguidade (10.000 A.C. ), homens e mulheres pintavam os rostos e os corpos e entregavam-se à dança, à festa e à embriaguez. Outros autores acreditam que o Carnaval tenha se iniciado nas alegres festas do Egipto em honra da deusa Ísis (2.000 aC).

3. O Carnaval pagão começa quando Pisistrato oficializa o culto ao deus Dionísio na Grécia, no século VII aC. O primeiro foco de grande concentração carnavalesca de que se conhecem fontes seguras acontecia no Egipto, era dança e a cantoria em volta de fogueiras. Os foliões usavam máscaras e disfarces simbolizando a inexistência de classes sociais.

4. Depois, a tradição espalhou-se pela Grécia e Roma, entre os séculos VII e VI D.C. Nessa época, sexo e embriaguez já se faziam presentes na festa. Em seguida, o Carnaval chega a Veneza para, daí, se espalhar pelo mundo. Diz-se que foi lá que a festa tomou as características actuais, com máscaras, fantasias, carros alegóricos, desfiles.

5. No início do Cristianismo, a Igreja deu uma nova orientação à festa do Carnaval, conferiu-lhe um sentido mais de acordo com a mensagem cristã, tendo em conta que esta festa estava  associada ao calendário cristão, porque antecedia a Quaresma. A festa do Carnaval fazia jus ao seu sentido literal: "carne-vades" (adeus à carne), para que os cristãos logo no dia seguinte (quarta feira de cinzas) entrassem em clima de oração, penitência e jejum de quarenta dias, como preparação da gente festa cristã, a Páscoa (Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo).

Via blogue "Fiel Católico"

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Saudação

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre, nunca prejudicando ninguém.
Não foi demais ter te pedido
que dormisses na enxerga dos teus sonhos,
para que eu contemplasse em silêncio uma face
quando a estrela da manhã cintila na janela da tua casa.
Nesse dia ao som do mar,
ensaiei ser um ermita em plena meditação 
a olhar o que a luz me revelava.
Estas horas vigilantes de êxtase e desprendimento material,
fizeram-me sentir a imensidão do cosmos infinito
no umbral da porta que se abriu generosamente
na primeira saudação de uma manhã.

Com todas as forças do mundo
vejo-me todo entregue ao sangue vivo
e tomarei o cálice do sorriso
que balbucia uma criança na hora da festa
como a árvore desfolhada que parecendo seca
rebenta outra vez pacientemente 
porque esta é a ocasião da flor renascida.
JLR

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O Papa não disse que é preferível ser ateu do que cristão hipócrita

Com a devida vénia, faço minha esta reflexão...
Fomos invadidos por uma torrente de notícias sobre umas (supostas) declarações do Papa Francisco. Os títulos gritaram em uníssono: "Papa diz que mais vale ser um ateu do que um cristão hipócrita / cristão com vida dupla". 

Desconfiando do que noticiavam os nossos amigos jornalistas - como aliás recomendo a toda a gente - fui ler a homilia da Missa hoje de manhã no Vaticano, na qual o Papa teria proferido essa afirmação.

Em primeiro lugar a palavra 'hipócrita' ou 'hipocrisia' não consta. É um insulto bastante repetido por parte dos que não acreditam em Deus ou dos que até acreditam mas não lhes apetece ir à Missa: "Esses que vão à Missa são todos uns hipócritas, andam ali a bater com a mão no peito e depois vêm cá para fora e são os piores!" Isto mostra que, mesmo os que não acreditam, associam o ir à Missa a uma maior responsabilidade moral que não atribuem a outras actividades: "Pois, vais ao cinema e depois nem sequer pões a mesa!" Simplesmente não tem o mesmo impacto. 

A relação entre ir à Missa e ter uma vida perfeita existe na mentalidade das pessoas, mesmo na nossa sociedade, que de cristã já não tem muito. E perante comportamentos menos bons, erros, cobardias, egoísmos, enfim todas as diferentes 'caras' que pode ter o pecado, por parte dos tais que vão à Missa, está o caldo entornado: "Hipócritas!" 

O erro nesta crítica está no pressuposto que quem vai à Missa já é perfeito, o que não é de todo verdade. Alguém que vai à Missa tem o direito a ser visto como alguém que está a tentar ser perfeito, embora possa ainda estar muito longe de o ser. Ao mesmo tempo, essa pessoa tem o dever de realmente tentar ser perfeita (ser santa) mesmo que sabendo que poderá cair e terá de voltar a levantar-se, se necessário for recorrendo à Confissão. 

O que não pode fazer é ter comportamentos escandalosos, como se não se soubesse filha de Deus, templo do Espírito Santo, sal da Terra e luz do Mundo. Foi isto que o Papa criticou na sua homilia de hoje: os escândalos criados pelos cristãos junto dos outros, que os podem afastar ainda mais de Deus.

Em segundo lugar, a palavra 'ateu' aparece apenas uma vez na homilia, e a frase é esta: «Quantas vezes já ouvimos na rua ou em outros locais alguém dizer: "Para ser católico como aquele é melhor ser ateu!" É isto o escândalo, que destrói, que manda abaixo.»

Expliquem-me, meus senhores, onde é que o Papa disse aquilo que vocês dizem que o Papa disse. Na única vez que fala do 'ateu' o Papa está a citar uma frase, bastante comum, não a afirmá-la. As verdadeiras 'fake news' são os 'media'. Não precisamos de mais.
João Silveira, in ZENZA PAGARE

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Os bens são destinados a toda humanidade

Comentário à missa do domingo VIII Tempo Comum. Pode servir a quem vai à missa habitualmente, mas não só...
S. Paulo dá-nos uma grande lição sobre a função do «chefe» ou da «chefia», se quisermos, da comunidade, que deve ser sempre assumido como um serviço à pessoa de Cristo e do Seu projecto. O «chefe» vai ajudando a comunidade a perceber a vontade de Deus. A sua fidelidade prende-se a Deus.
Quando fazemos juízos a respeito das pessoas, nem sempre somos justos ou imparciais. O nosso julgamento é, quase sempre, fruto da nossa visão (ou deformação) do projecto de Deus. Paulo tem a certeza de que a sua consciência não o acusa.
O Evangelho ensina-nos a viver o desprendimento e a liberdade face aos bens deste mundo, particularmente, perante o dinheiro. Este deve ser sempre um bem ao serviço e nunca uma pressão que escravize o pensamento e a liberdade de acção.
Quando faz parte da vida este desprendimento, emerge a partilha e a vontade de justiça como valores essenciais. O mundo seria menos injusto, isto é, mais fraterno, teria muito menos pobres, famintos e indigentes se estivesse organizado como uma casa comum, um lugar onde fosse possível a festa do amor partilhado. Onde ninguém ficaria para trás. Todos teriam oportunidades iguais.
Neste banquete, os bens não seriam só e apenas para alguns, mas para todos, porque não faltaria lugar à mesa para ninguém. Todos estariam convidados e entrariam nessa grande festa da fraternidade universal.
Alguns perguntarão, um sonho? Um desejo? - Sim ambas as coisas, sonho e desejo, que devem fazer parte do coração de todos os povos, especialmente, nós cristãos, que lemos e celebramos as palavras de Jesus.
É preciso lutar para que o mundo seja estruturado, não apenas na simples caridade, mas na justiça e na partilha dos bens. De que serve o mundo estar a saque por uma minoria que nunca se farta de dinheiro e por isso suga quanto mais pode os recursos naturais, que pertencem a todos, e com eles monta negócios chorudos só e apenas em seu benefício e dos seus familiares? - Serve esta lógica para acentuar mais a pobreza, a fome e a indigência. A seguir a raiva e a revolta. Urge uma outra lógica, mais de acordo com o bem comum, para que o mundo seja conduzido para o ideal da paz e da justiça que chegue a toda a humanidade. É este o sonho de Deus, é este o nosso sonho.

10.000 000 000, 00 €

1. Leram bem. Dez mil milhões de euros, que a Autoridade Tributária deixou sair de Portugal para paraísos fiscais (offshores), sem que grande parte dessas quantidades fossem devidamente escrutinadas para pagarem ao Estado o devido imposto. A soma é tão «irrisória» que passou ao lado de toda a gente, particularmente, ao lado de quem devia fiscalizar estas transações.

2. Esses tais não viram ou fizeram que não viram. Estavam entretidos a vascular os papéis ou os programas informáticos dos serviços fiscais onde morava uma viúva, uma família mergulhada no desemprego, uns idosos esquecidos ou qualquer coisinha para aí que mexesse e que estivesse a escapar ao fisco. O tempo urgia para penhorar a casa, fechar o negócio, pressionar os «bandidos» que não tinham dinheiro para pagar algum imposto de algumas poucas centenas ou poucos milhares de euros. Bonito serviço, atentos aos tostões distraídos dos milhões. 

3. Esta loucura contra o povo vinda de um desgoverno que parecia odiar as pessoas, esqueceu-se dos poderosos, os endinheirados, por isso, eles passaram ao lado e sacaram do país os milhões que se vê sem que os zelosos cobradores de impostos vissem tamanho montante. Assim, se vê o dinheiro das falcatruas bancárias por onde anda. Os enganados ou lesados dos bancos podem ver onde anda o seu dinheiro e como saíu do país, diante dos olhos fechados das autoridades.

4. Esta economia de casino andou à solta, desregulada onde os poderosos puderam fazer o que bem entenderam com somas avultadíssimas de dinheiro, porque não havia ninguém para fiscalizar, alias, havia, mas fecharam os olhos e deixaram a rua livre para poderem passar com os sacos de dinheiro sem que contribuíssem como deviam para o bem comum. O capitalismo selvagem no seu melhor.

5. Tudo isto é irritante e cada vez mais faz-nos aliar-nos dos políticos e da política. Porque falta seriedade, falta a contribuição justa e na devida proporção para o bem comum, especialmente, dos poderosos. Deve ser apurada toda a responsabilidade e quem tinha que fazer o que devia e não fez, deve ser responsabilizado.  

6. Face a tudo isto vem outra vez à memória aquele ar tão sério de governantes que tanto bradaram a necessidade que tínhamos de ir além da troica, que era preciso empobrecer ou que sem a máquina tributária zelosa e a tenta a tudo o que mexesse não chegávamos lá. O rol da perseguição é imenso, mas diante deste escândalo faz-nos perder a cabeça e pensar o seguinte, esta gente por quem nos toma e o que pensa sobre o povo em geral? - Não são as raras as vezes em que o meu pensamento me vai dizendo o seguinte, no horizonte da cabeça de alguns governantes não há mais nada para além disto: «Eu tenho horror a pobre» (personagem de Caco Antibes, do programa Sai de Baixo, Miguel Falabella). 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Deus e eu - Com Carlos Vares

 Deus e eu - Um texto exclusivo do Carlos Vares para os leitores do Banquete... 
Frente a frente. Adorá-lo ou Desafiá-lo? Como entidade de bem não levará a mal um exercício de dúvida. Será que olho para Ele nos olhos? Será um ser, uma luz, uma metáfora, uma mandala, uma consciência, um valor ou uma ética? O que finalmente será?

Enerva aquele modo de Ser que encerra em nós as perguntas e as respostas, um monólogo em presença de dois com todos. Se vê, ouve e sabe tudo só poderei jogar com a verdade nos limites da compreensão humana. A verdade com Deus é como uma arma de dissuasão pela positiva, não haverá um passo em falso sem ter a certeza. É incrível que haja esta solução e ninguém a tenha usado. Deus parece aqueles que nunca perdem a razão porque nunca vão a votos. Será? Que silêncio.

Não será naïve jogar honesto para perder quando outros jogam sujo e ganham, ficando com a razão e a importância através da vitória suja? Se vitórias assim ditam as regras, como pode o mundo triunfar se o mal é tão fácil e o mérito tão desafiante na complacência do próprio Deus? Será que Deus é uma matriz de consciência que surge com a evolução do ser humano? Existe enquanto tivermos consciência ou existência?

Custa ter coragem de reclinar o olhar e finalmente ter a certeza de que existe quando sentimos tanta injustiça, quando parece que os piores ganham sempre e que os males afectam só a boa gente. Será que notamos o benefício dos maus e omitimos o dos bons? Será de novo a consciência? Onde acaba o sentimento e começa o pecado?

Como responderia Deus aos desafios dos maus materializando a sua presença na Terra? Penso em momentos da história universal que nos poderiam ter levado ao extermínio se o bem não lutasse com maus modos. Imagino a Segunda Grande Guerra, com os bons a lutar com as palavras e não com armas, como ganharíamos à besta? Não teremos vencido por via do pecado para alcançar o bem? Proponho um desafio, ver as suas soluções em aulas práticas. Há uma condição, teria que actuar como ser humano, sem truques. Será que Deus na ausência da harmonia e da perfeição, na presença de toda a maldade deste mundo, também perderia as estribeiras? Chegaríamos ao limite da legítima defesa para cometer um pecado inimputável? Seria prova da Sua imagem e semelhança em relação a nós? Só me lembro do sofrimento de Cristo e o que disse na cruz enquanto homem. Somos experiências de Deus para alcançar a perfeição?

Como ser perfeito, supremo, infinito, a causa primária de tudo mas também o fim das coisas, Deus nunca esteve sujeito a um início onde decorre o espaço, o tempo, a matéria e o transcendente. Se nascemos mas nunca temos fim, passando da matéria para o espírito e Deus é a origem, onde somos a imagem e semelhança, qual a génese do Criador? Se Deus é a origem de tudo como existe Deus e o conhecimento? Será que regressamos, de novo, à matriz de consciência onde Deus derrama a evolução do homem nesta imensidão do universo? Deus é autodidata ou faz experiências connosco?

Somos os únicos à Sua imagem e semelhança no universo? Porquê só nós ou porquê tantas imagens e semelhanças? Porque a fé é profusa em metáforas num labirinto que nos impede de chegar a ideias claras? Para criar o mistério da fé? Porque temos tantas perguntas ao fim de tanto tempo?

Num mundo com tantos deuses, muitas vezes fonte de discórdia, porque terei eu o original e os outros não? O meu Deus não sucumbirá como os deuses dos egípcios, dos gregos, dos astecas ou por acção da ciência? Porque ficamos instantaneamente devotos quando a ciência falha ou não é suficiente? Deus existe porque precisamos de acreditar, nos referenciar em algo e ter a resposta universal quando desconhecemos?

Por vezes agoniamos tal como seu Filho na cruz e ficamos a pensar se sente, apesar de ter criado o que, por vezes, estes terrenos sentem de dor e injustiça.

O leitor é crente por fé, por devoção, por via das dúvidas, não vá o diabo tecê-las ou só quando está aflito? Porque é que sendo uma questão para se levar muito a sério há muitos intermitentes na sua fé? Porque é que se a fé salva o espírito para todo o sempre somos tão humanos, com defeitos e virtudes, no dia-a-dia? O que falha em algo tão imprescindível?

Que certezas ficam? Deus é um enigma que cada um assume com maior ou menor profundidade, para distinguir o bem do mal, e nos transportar do plano material da nossa dimensão humana para a espiritual? Deus faz-nos viver pelo melhor prisma da humanidade? A Sua existência serve para nos provocar a dúvida e termos a humildade da pequenez na imensidão do desconhecido? Será que é a dúvida sobre Deus que nos faz melhores pessoas? Se a humanidade falhar será à sua imagem e semelhança? Se Deus exerce efeito, existe? Como? A descoberta é a missão da vida.

Caro Deus gostei muito deste bocadinho, agora que virei do avesso a fé, as consciências ou existências, deixo-te por afazeres terrenos. Abana esses Santos acomodados porque vivemos tempos desafiantes onde a descrença substitui a dúvida. Dizem que o Padre José Luís convidou o Trump para um “Deus e eu”, vou ver como te desenrascas! Já percebeste que é mentira, pequei por uma boa causa, a de desafiar-te a ser melhor Deus. Que heresia.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Filosofia inscrita nas pedras

A filosofia está na rua. Encontrei esta inscrição numa pedra. Achei interessante e partilho convosco. Afinal, é tão fácil...
Vai daí... Que me lembrei de Fernando Pessoa, que diz ao autor da inscrição: 
- «Se estiver tudo errado, comece novamente. Se estiver tudo certo continue. Se sentir saudades, mate-a. Se perder um amor, não se perca. Mas, se o achar, segure-o». 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O diálogo é o alicerce da democracia

1. A democracia é impossível sem diálogo. Entre nós enfermamos bastante da falta de diálogo para que se possa saborear uma democracia mais abrangente e que contemple a vida de todos os cidadãos. Parece ser uma derrota e uma humilhação ouvir-se e ter em conta aqueles que são de outra cor partidária ou que pertençam a outras correntes que não aquela cor e corrente de pensamento onde estamos inseridos. O partido do poder que nos governa foge como o diabo da cruz dos partidos da oposição, porque sendo minoritários não têm legitimidade para serem escutados e o que pode vir daí para aprendermos deles... Pobre e pouco de acordo com os tempos novos em que vivemos.

2. Estamos muito mal habituados quanto a essa riqueza que o diálogo nos pode trazer. Muitas asneiras poderiam ser evitadas e menos dissabores para todos se a abertura para o diálogo de quem governa estivesse sempre presente. A reconstrução de uma sociedade requer esforço de todos. E todos devem ser considerados mediante aquilo que pensam e valorizadas as suas propostas. Um clima de «guerra aberta ou submersa» não nos leva a sítio nenhum. Melhor, leva sim aos atentados ecológicos, à acentuação da desigualdade e ao desbaratar do bem comum, gerando com isso mais injustiça e conflitualidade social.

3. Entre nós devíamos ter uma Igreja Católica mais consciente desta  prerrogativa do diálogo. Não existe, infelizmente. Há uma Igreja calada ou silenciada porque os poderes assim desejam. O Papa Francisco, submetendo-se às mais ignóbeis acusações interferiu claramente no conflito dramático em que mergulhou a Venezuela. Tem sofrido os mais diversos ataques, que vão de «comunista» para cima  e até muitos aproveitaram a dica para o definir como «bode expiatório» dos conflitos. No entanto, não deixa de manifestar o que deseja da Igreja da Venezuela, particularmente, dos bispos, que vivem na realidade, que devem acompanhar a população no sofrimento em condições desumanas, devem exigir responsabilidades, denunciar as armadilhas do «falso diálogo» e construir pontes.

4. Achei interessante este desejo do Papa Francisco, porque deve ser aplicado não só na Venezuela, mas em todo lado. Por exemplo, entre nós, nada tem sido dito sobre as misérias que o poder gera, nada sobre obras mal feitas, nada sobre a destruição de património, nada sobre o desbaratar de dinheiros em coisas que não são prioritárias, nada de pedir responsabilidades. Entre nós, estão à solta os políticos. Falam o que querem, pensam que têm terreno livre para enganar e que podem fazer tudo como muito bem entendem sem dialogar com ninguém porque se acham legitimados para tudo. Começa, felizmente, a emergir uma sociedade civil, que reclama, aponta caminhos e vai esperneando alguma coisa. Um sinal, que, esperemos, não esmoreça...
 
5. Este caminho não tem futuro. Esta democracia assim tem os dias contados. Hoje, seguindo o pensamento do Papa Francisco, cabe aos políticos, à sociedade civil e a todos os seus sectores sociais concretizar a acção da unidade e a estratégia do diálogo como caminho indivisível para vivermos um verdadeiro espírito democrático. Com esse espírito democrático não há envergonhados, não pode haver humilhados nem muito menos derrotados, porque levaram à prática qualquer medida que eventualmente tenha vindo de outro grupo, de outro partido e de outro sector social que não esteja afecto ao poder em vigor.
 
6. Parece que para alguns é mais fácil rotular ou então ofender-se quando alguém aponta outra luz e outro caminho, porque viu que este que se segue não é benéfico para todos, é injusto e atentatório da história. Tanta desgraça poderia ser evitada se essa abertura democrática tivesse estados na cabeça de quem governa. Uma sociedade democrática faz-se com todos e para todos. Enquanto durar a exclusão do diferente e enquanto as medidas continuarem a serem mais meios e formas para a discriminação, a paz social e o bem continuarão a ser só e apenas para alguns. Isso não é democracia. É um carnaval todo o ano.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Ansiedade na margem sobre a água

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre, nunca prejudicando ninguém...
Eram todas líquidas as palavras,
que dizem água e ansiedade 
numa margem qualquer sem nome
quando desembarquei solitário para nada,
com as mãos vazias e os pés descalços
em um lugar desejado mas misterioso
como nos acusa sempre qualquer chegada. 

Eram insólitos os sonhos que as mães
incandescentes de amor divino,
contavam nas histórias às crianças alegres
que vinham da escola cheias de fome
e traziam seguramente a esperança 
da vida toda do futuro do Homem. 

Uma ansiedade na margem sobre a água,
são todas as nuvens que não cabem no céu
quando o sofrimento é desmedido e cortante
no círculo dos dias na ponta de uma faca,
se ela verte sangue de uma vida que as mulheres
cheias de graça geraram para sempre no amor.

Mas, no fim da tarde aqueles homens gastos
enrugados pelo tempo e pelo trabalho
serenaram esta inquietude do momento,
pois fui vê-los trocarem palavras e gracejos 
enquanto lambiam os dedos entre meios 
para jogarem a próxima carta, 
nisso percebi que só tem valor o jogo
das palavras se elas nos fazem sorrir.
JLR

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Pode ser possível ser como Deus nalguma coisa

Reflexão sobre a missa do domingo VII Tempo Comum. Pode interessar a quem vai à missa habitualmente ao fim de semana, mas não só...
Segundo S. Tomás «Deus é simples e uno». Perante tais atributos essenciais de Deus, descobrimos a perfeição divina e nisso consiste a indefinição de Deus, porque Deus não é isto ou aquilo, Deus é e ponto final.
Na medida em que descobrimos a criação de Deus, começamos a considerar que Deus é demonstrável, como ensina S. João Damasceno. Toda a obra de Deus manifesta os sinais da Sua presença. Por esta via compreende-se o apelo de Jesus: «sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito». Mais, se somos criação de Deus, qual o porquê deste apelo? - Porque se, por um lado, participamos na vida divina, por outro, pela natureza, carregamos ainda a limitação essencial de sermos realidade física, material. Nesta contingência da vida deste mundo, Jesus deseja que os seus discípulos sejam capazes do amor, do perdão, da amizade e da fraternidade com todos (e como grande desafio, viver esses sentimentos/valores até com os piores inimigos - esta é a grande novidade da religião cristã).
Em nenhum momento do Evangelho Jesus nos pede que sejamos uns «coitadinhos» que se sujeitam a todas as maldades. Esta ideia tão famosa e utilizada nos discursos: «se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda», nada tem que ver com essa ideia que devemos ser uns insubmissos, «agachados» que se sujeitam a tudo e a todos.
Jesus ensina-nos, em particular, que a intolerância e a repugnância pelos nossos semelhantes, são atitudes contra o Reino de Deus. Os cristãos são chamados a viver mediante uma abertura constante para o perdão e para o acolhimento dos outros tal como eles são. Não é legítimo que sejamos muito exigentes com os outros e que não sejamos capazes de viver connosco próprios, isso que se exige aos outros. 
Ninguém tem autoridade para pedir aos irmãos aquilo que não é capaz de fazer. De que nos serve se manifestamos muitos escrúpulos e intolerância desnecessária diante das atitudes dos outros se depois realizamos o mesmo ou o pior contra o bem despreocupadamente e sem pudor absolutamente nenhum? - O cristianismo que nós professamos não é uma religião de simples seguidores de um plano ou projecto político ou social. É antes uma forma de vida que nos toca por dentro, porque nos convoca para o seguimento de uma pessoa concreta que nos fala e nos desafia para atitudes de amor, isto é, os outros deixam de ser só semelhantes, para serem irmãos que devemos acolher e amar desmedidamente.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Nenhuma forma de violência é normal

1. A palavra normal não pode entrar nesse descampado onde se semeia dor, lágrimas, sangue, manchas negras e morte... Qualquer forma de violência, nunca pode ser normal. Não tem detalhes nem ocasiões aceitáveis, normais. E ponto. Se alguém admite que os insultos, as humilhações, as proibições, as ameaças e as perseguições não são violência, precisa urgentemente de tratamento psiquiátrico ou então sou eu que afinal vivo num mundo errado. Inaceitável estupidez.

2. Não é normal o que diz um inquérito  de 2015, feito nas escolas da Madeira, onde são revelados dados curiosos, mas deveras preocupantes. A Secretaria Regional da Inclusão e Assuntos Sociais, do Governo Regional da Madeira, revelou que 23% dos jovens inquiridos já assistiram a actos de violência doméstica nas suas casas e 13,7% considera normal a violência no namoro. Normal, onde?

3. Um outro estudo da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) publicado a nível nacional, deixa a nu outra realidade dura e preocupante: há crianças de 13 anos vítimas de violência no namoro e um em cada 6 jovens considera normal ter relações sexuais forçadas. Isto não pode ser normal... Tudo muito anormal e frustrante.

4. A crueza dos números é preocupante. Mas salta-me à vista e provoca-me um arrepio haver gente que considera existir atitudes violentos que podem ser consideradas de normais. Tem que haver causas, que necessariamente, conduzem a isto. Tem que existir instâncias e pessoas culpadas desta vergonha. O ambiente de casa também deve estar a ajudar imenso neste descalabro. A escola faz o que pode, mas os alunos são o espelho do que receberam em casa, do que vão vendo na televisão e na internet. Obviamente, que não quero ser injusto e ofender ninguém, mas os pais devem ser colocados à cabeça dos responsáveis por esta tragédia social. Porém, e essencialmente, tudo isto é bem revelador do desastre da falta de valores em que vivemos em toda a linha. E nesta crise, destaco o vazio de autoridade a que o ambiente geral condenou todas instâncias da educação.

5. Muitas vezes à sexta feira à noite gosto de descer à cidade e apreciar o ambiente que uma noite de fim de semana oferece. Nos locais da farra juvenil, são imensos os grupos de jovens com 12, 13 e 14 anos aos bandos, alguns bem cedo já apresentam sinais bem evidentes de consumo alcoólico. Pergunto-me tantas vezes, onde estão e como estarão os pais desta gente? 

6. Não me admira nada que venham para aí dizerem que temos a melhor legislação do mundo sobre o consumo de álcool e que este está proibido a pessoas com menos de 18 anos. Em que planeta é que isto se aplica? - Outra hipocrisia de um país que não protege as pessoas e que recorre à banalidade de fazer leis só porque sim, mas não cria ao mesmo tempo mecanismos que permitam que as leis se apliquem convenientemente.

7. Outro dado prende-se com a banalização sexual. O ambiente geral favorece a perversão sexual, ridiculariza a virgindade, a fidelidade e desvaloriza a dimensão do respeito pela dignidade sexual de si próprio e do outro. Há uma certa perversão que se tornou normal e isso sim é uma enorme anormalidade. 

8. É preciso despertar. Os dados são preocupantes. Nada é normal quando se trata de violência, porque a violência por si mesma é o que de mais anormal existe na relação entre as pessoas, ainda mais se se trata da relação amorosa entre casais que se predispõem à partilha do que são e têm no caminho que sonham para serem felizes. É preciso junto dos jovens reflectir, sensibilizar e prevenir para que esta tragédia social, que considera o anormal normal em determinadas ocasiões no âmbito da violência tenha fim à vista de uma vez por todas.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

- Deus, quem és Tu? - ... (Só silêncio!)

"Deus e eu" 
- Esta semana com Francisco Sidónio Figueira. Um texto exclusivo é inédito para os leitores deste blogue. Melhor é impossível... 

     De pequenino, acompanhas-me. Nesse tempo, porém, quando era pequenino, estavas tão próximo. Vias e ouvias tudo. Sabias quando era bom e os teus anjos brincavam comigo. Fugiam, quando dizia “palavras feias” ou praticava qualquer “acção” que não devia. Se alguma vez, percebia que algum fugia, ficava triste. Pedia-Te perdão. Eles voltavam. Entendíamo-nos muito bem. Eras o “Pai do Céu” para todos lá em casa. Dizíamos juntos muitas vezes: “Pai nosso que estás no céu”.

     Depois, fui crescendo e Tu também em mim e à minha volta. Estudei e li tanta coisa de Ti, com paixão, na Filosofia, na Teologia, na Literatura, sobretudo no dia-a-dia. Encontrei-Te de “tantas formas e deformado.” Cada vez Te entendia menos! Então entrámos em discussão... Que longos diálogos e amuos! Nunca me deixaste, nunca Te deixei…
     O que me “fazias sofrer”, quando algum dos meus irmãos, Teus filhos, me procurava (procura) para falar de Ti! Sabes que tudo fazia para Te deixar bem colocado. Tu, contudo, continuavas e continuas silencioso…

     Deus, procuro-Te, vivo Contigo e Contigo respiro na grandeza do Universo, na celebração inefável do amor humano, na sucessão das estações, no progresso fantástico da Ciência, na beleza das Artes, nas flores, na música e… Mas também Te procuro, na profundidade trágica do sofrimento dos Teus filhos, no ódio entre eles, na guerra, nas catástrofes, na doença, na morte, e…

     Deus, busco-Te, continuamente, na alegria e na tristeza, sem angústia, na certeza de que um dia, “transformado” embora, entrarei “nessa magnífica composição do cosmos” que quiseste “concriar” com todos os seres…
      Assim, eternamente Contigo, “aprenderei, aprenderemos” a purificar, no cadinho da (con)criação, o – AMOR -  que é o -  CÉU -  que Tu prometes.
                                          fsf

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Pai e Mãe, acordem enquanto é tempo

Encontrei esta mensagem para os pais num blogue chamado "Quiosque Digital". Deixo aqui no Banquete da Palavra esta mensagem/alerta para que os pais comecem a ver com mais atenção cada momento da vida dos seus filhos. Como se enganam os pais que acham que podem contentar, calar, satisfazer ou simplesmente deixar fora das suas vidas as crianças com a abundância de coisas materiais. É por causa desta mensagem que noto que está a emergir uma geração nova, que começa a valorizar "coisas" que até agora os pais consideravam serem desnecessárias. Encontro crianças que apreciam ir à missa, os seus pais não. Outras vão à catequese porque batem o pé contra a "falta de pachorra" dos seus pais. Sei de criança que fazem anualmente uma escolha nos seus brinquedos e nas suas roupas para partilhar com as crianças mais pobres... Por aqui, se vê que os verdadeiros bens estão a ser reclamados pelas novas gerações. Este "Sinal dos Tempos" pode ser ainda muito ténue, mas é um sinal que começar por hora a fazer o seu caminho e estou seguro que promete uma geração que no futuro irá valorizar mais o ser do que o ter. 

É muito IMPORTANTE que todos os Pais e Mães leiam isto!
Era quarta-feira, 8:00 h. Cheguei a tempo à escola do meu filho –“Não se esqueçam de vir à reunião de amanhã, é obrigatória!” – Foi o que a professora disse no dia anterior.
-“O que é que esta professora pensa! … Acha que podemos dispor facilmente do tempo que ela quer? … Se ela soubesse o quanto era importante a reunião que eu tinha às 8:30 h” … Dela dependia uma boa negociação e tive que a cancelar!
Lá estávamos nós, mães e pais, e a professora.
Começou a tempo, agradeceu a nossa presença e começou a falar. Não me lembro o que ela dizia, a minha mente estava a pensar como iria resolver aquele negócio tão importante, já me imaginava a comprar uma televisão nova com o dinheiro.
“João Rodrigues!” – escutei ao longe – “Não está o pai do João?” – diz a professora.
“Sim, eu estou aqui” – contestei ao ir receber o boletim escolar do meu filho.
Voltei pro meu lugar e disse ao abrir o boletim … “Foi para isto que eu vim … o que é isto???”
O boletim estava cheio de seis e sete. Guardei rapidamente, para que ninguém pudesse ver como se tinha saído o meu filho.
De volta para casa, aumentava ainda mais a minha raiva, cada vez que pensava:
“Mas, se eu lhe dou tudo, não lhe tem faltado nada! … Agora ele vai ver!” Cheguei, entrei em casa, fechei a porta com uma forte batida e gritei: “Vem aqui, João!”
João estava no quintal, correu para abraçar-me … “Papá!”
– “Nada de papá!” Afastei-o de mim, tirei o meu cinturão e não me lembro quantas vezes bati ao mesmo tempo que falava o que pensava dele.
– “Agora vai para o teu quarto!”
João foi a chorar, a sua face estava vermelha e a sua boca tremia.
A minha esposa não falou nada, só mexeu a cabeça num gesto de negação e entrou na cozinha.
Quando fui para cama, mais tranquilo, a minha esposa entregou-me o boletim do João, que tinha ficado dentro do meu casaco, e disse:
– “Lê devagar e depois pensa numa decisão …”
No início estava escrito: BOLETIM DO PAPÁ.
Pelo tempo que o teu pai dedica a conversar contigo antes de dormir: 6
Pelo tempo que o teu pai dedica a brincar contigo: 6
Pelo tempo que o teu pai dedica a ajudar-te com as tarefas: 6
Pelo tempo que o teu pai dedica para levar-te a passear com a família: 7
Pelo tempo que o teu pai dedica para ler-te um livro antes de dormir: 6
Pelo tempo que o teu pai dedica para abraçar-te e beijar-te: 6
Pelo tempo que o teu pai dedica para assistir à televisão contigo: 7
Pelo tempo que o teu pai dedica para escutar as tuas dúvidas ou problemas: 6
Pelo tempo que teu o pai dedica para ensinar-te coisas: 7
Média: 6,22.
As crianças tinham qualificado os seus pais. O meu filho deu-me 6 e 7 (sinceramente eu merecia 5 ou menos).
Levantei-me e corri para o quarto dele, abracei-o e chorei.
Queria poder voltar atrás no tempo … mas isso não já não era possível.
João abriu os olhos, ainda com os olhos inchados pelas lágrimas, sorriu, abraçou-me e disse:
– “Eu amo-te papá!” … Fechou os olhos e dormiu.
ACORDEM PAIS!
Aprendam a dar o valor certo àquilo que é mais importante em relação aos vossos filhos, já que disso depende o sucesso ou fracasso nas suas vidas.
Já pensou qual seria a ‘nota’ que o seu filho lhe daria hoje?
Autor desconhecido

Olhar o que nos rodeia com os olhos da profundidade

Hoje vou tentar saltar ribeira abaixo sobre as pedras, espero não me falhar a passada para não cair dentro da poça.
1. A montanha que se eleva deixa-nos pequeninos no chão, neste chão irregular que nos pertence e de onde cresceu a montanha. Ela, a montanha, traduz o que significa a majestade quando se revela enorme diante do serviço e do amor. Nada é mais nobre do que estas qualidades postas ao serviço do outro, aquele que foi nomeado o nosso próximo, porque sem ele não seríamos nada e a vida não teria sentido nem valor algum. A única majestade que importa para o mundo e para a vida é a da montanha que se elevou do chão para tocar as nuvens.

2. Olhemos, porém, o mar que banha a terra e os nossos pés. Ele, evoca a imensidade e a sublimidade de um mistério que não é nosso, mas fazemos parte dele. Mesmo que tantas vezes a nossa vida seja "como o lírio entre os espinhos" (Cant 2,1ss; Mt 6,28). Porém, o lírio estoicamente nunca deixou de nascer e florescer todos os anos para nos alegrar a alma e fazer sorrir o pensamento. Uma manhã e outra manhã, uma vaga e outra vaga ondulante e fria, que sempre vem ao nosso encontro marulhando o silêncio que as encostas imponentemente geram quando me concentro com os olhos da cara fechados mas com os da alma bem abertos.
Nesta profunda oração consolei-me surpreendentemente com as palavras de Goethe "A man sees in the world, what he carries in his heart" (O homem vê no mundo o que ele carrega no seu coração). Como seria tão eficaz para a felicidade do nosso mundo, haver mais tempo e mais predisposição para olhar para "o mar imenso" - utilizando uma expressão de Fernando Pessoa - do coração e nele entrar com a barca da vida até ao porto seguro do amor, porque "Deus ao mar o perigo e o abismo deu, / Mas nele é que espelhou o céu" (Fernando Pessoa, Mensagem. Poema X Mar Português. Edições Ática: Lisboa. 1959).
Melhor sobre este mar da vida que o coração de cada um de nós tem, seria impossível dizer tão magistralmente como o nosso mestre da poesia.

3. No terceiro ponto lembrei-me de um céu estrelado, que para além de nos fazer entrar na casa do mundo com esse teto ricamente enfeitado de luzes, remete-nos para o infinito, que tantos outros no passado inquietos como nós idealizaram e sonharam, dizendo que esse presépio de luzes imensas que brilham sobre as nossas cabeças seria o cosmos, o ponto Alfa e Ómega.
Esta infinidade tem o brilho das estrelas e nós maiormente não nos encantamos com isso, porque o chão que pisamos está sujo e gastamos tempo demasiado a reparar nos nossos sapatos e nos dos outros. Seria bom pôr-se descalço de alma e coração, porque "o chão que pisas é sagrado", dizem os anjos quando chamam pelo nome os amigos de Deus.
Haverá sempre um nome que alguns desejavam que pronunciasse aqui como receita, mas esse não cabe neste texto, porque é do infinito que falamos. Todo o cozinheiro de sucesso sabe cozinhar segredos que por nada deste mundo os revela.

4. Não querendo ficar apenas pela dádiva da criação que nos rodeia, lembrei-me dos olhos profundos de uma criança, que para o meu singelo entendimento é o mistério mais sério do mundo, porque é a profundidade da vida humana e do universo. Nada seriamos sem esta dádiva. Por isso, como pode ser possível que os loucos dos adultos sejam capazes de perverter tão elevada delicadeza ou se escandalizem com o ruído de uma criança que chora ou brinca esbaforida com enormes gargalhadas de alegria? - Sim isso mesmo, é uma riqueza que sem ela, seriamos os mais pobres dos pobres.  Os olhos de uma criança são o sentido da vida, o reflexo do mistério e a imensidão do universo.
Por fim, permitam-me um apelo para quem se sinta deprimido, desencantado, frustrado, traído, amaldiçoado, negativo, vazio... Vá ao encontro de uma criança e olhe para os seus olhos. Seguramente, que verá Deus diante si. Não exagero se disser que esta é a "receita" para muitos dos males que nos perseguem.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Regresso

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre, nunca prejudicando ninguém...
Eliseo d'Angelo Visconti , Moça no Trigal - c.1916
Tomara que volte o som de pressa
para que ninguém por mim tropeça  
no meu esquecimento chore
e diga nunca mais a solidão
porque não merece essa sorte
pois de que vale estar feliz
se ainda são tantas as mãos
que semeiam dor e morte.

Seria bom pensar na paz
ver sempre o que nos compensa
e mais ainda saber bem
que nenhuma indiferença 
ao amor verdadeiro não compensa
faz por hora o que te compraz
ousa desbravar o mundo da trama
que o ódio empurra para dentro da lama.

Sempre devia ser assim 
que o mais sagrado do mundo
é viver cada segundo
livre do medo sempre primeiro
e como se fosse o derradeiro.
JLR

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O tirano da família

1. O presidente russo Vladimir Putin já assinou a lei que descriminaliza alguns actos de violência doméstica na Rússia. O projeto de lei já tinha sido aprovado pelas duas câmaras do parlamento e poderá agora ser implementado. Face ao exposto, nunca imaginaria ter que ler uma notícia deste teor, ainda mais se pensarmos naquilo que nos tem sobressaltado face as notícias de maus tratos que têm levado à morte algumas mulheres pelos seus maridos ou companheiros e crianças violentadas pelos seus progenitores.

2. O jornal Moscow Times diz que com esta lei, os actos de violência doméstica que não causem ferimentos graves, não obriguem as vítimas a procurarem tratamento hospitalar ou que não as obriguem a faltar ao emprego ou à escola, são tidos como contraordenações. Nesse chavão estão incluídas agressões que provoquem «queimaduras, contusões, feridas superficiais ou lesões dos tecidos moles». A penalização para estes casos é uma multa e a agressão só será considerada crime se ocorrer mais que uma vez. Só me ocorre uma simples palavra perante isto, inacreditável...

3. Porém, mais ainda é inacreditável as palavras que formam as justificações que os defensores desta lei apresentam. Vamos então aos seguintes detalhes, soberbamente curiosos. A lei foi aprovada na câmara do parlamento, com 385 votos a favor, com um, sublinho um voto apenas contra e uma abstenção. Os defensores da nova lei argumentam que a lei anterior limitava os pais de exercerem o «poder» na educação dos filhos e que a lei não permitia que eles impusessem aos filhos uma conveniente disciplina. Agora, o Estado não pode intrometer-se nas famílias. Bonito serviço. 

4. Mais ainda fiquei boquiaberto com as declarações de uma mulher, Yelena Mizulina, a deputada conservadora que apresentou a lei. Disse o seguinte: «Na cultura familiar tradicional da Rússia a relação entre pais e filhos é baseada na autoridade e no poder dos pais e as leis devem apoiar a tradição familiar, não queremos que as pessoas sejam presas por dois anos ou consideradas criminosas para o resto da vida por causa de uma chapada». Se não visse esta frase entre aspas e devidamente identificada, custava-me acreditar no que lia. Assim está o mundo em que vivemos.

5. O que pensa esta gente da violência doméstica que provoca distúrbios irreparáveis na alma, na dignidade, na personalidade e no carácter das pessoas e que deixa traumas para toda a vida? – Sim, aquela violência que insulta e humilha, com palavras, com traições, com a calúnia, a mentira, o jogo psicológico, a perseguição, as ameaças, as promessas de vingança, a impaciência, a falta de compreensão, de perdão  e todas as formas de violência que pode não recorrer à pancada física, é certo, mas que na realidade ainda é mais dura e mais prejudicial ao bem estar das pessoas no presente e no futuro… Será que estamos num tempo novo, o do «tiranos da família», que sob o efeito do álcool, das drogas e com as suas manias de poder absoluto pode dominar tudo a seu belo prazer, que ninguém tem nada com isso? – Mais um retrocesso grave que fará sofrer muitas famílias russas. 

6. A humanidade está em marcha atrás e vai para aquele ponto de onde, felizmente, tínhamos saído da violência famosa que várias vezes ouvimos, «quanto mais me bates, mais gosto de ti», ou da pancada com o ramo de flores, ou ainda da fatalidade do «tirano no seio do lar» que tanta instabilidade emocional provocava nos membros da família. 

7. Não posso crer nesta desordem mundial. Mais ainda se considerarmos que os poderes do mundo estejam a patrocinar e a legitimar esta nova desordem mundial que já sabemos o quanto de mal está a fazer às sociedades e neste caso da violência doméstica, às famílias. Fundo até sabemos tudo isto começou, não sabemos ainda onde tudo isto vai parar e para onde nos vai levar. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A Sabedoria é a fraternidade

Comentário à missa domingo VI Tempo Comum. Pode servir a quem vai à missa habitualmente e não só. 
O cristianismo que nós professamos não é uma religião de simples seguidores de um plano ou projecto político ou social. É antes uma forma de vida que nos toca por dentro, porque nos convoca para o seguimento de uma pessoa concreta que nos fala e nos desafia para atitudes de amor, isto é, os outros, homens/mulheres, deixam de ser apenas semelhantes, são irmãos que devemos acolher e amar. Cristianismo é igual a fraternidade.
Os mandamentos que Jesus nomeia no Evangelho deste domingo servem para nos despertar para a dimensão essencial do Reino de Jesus, que assenta numa irmandade, porque todos são filhos do mesmo Deus Pai/Mãe e abraçados pela mesma força espiritual que vem do coração de Deus, que se define pelo amor desmedido pelos outros, onde o respeito e a fidelidade à vida são valores essenciais que se destacam. Quer Jesus ensinar-nos, que diante de Deus mais vale não condenar e não julgar ninguém, porque no mundo não existe pessoa nenhuma que seja perfeita ou que não tenha defeitos. Devemos sim estar atentos às atitudes dos nossos irmãos e sempre que seja necessário procurar fazer o bem mesmo que a troca recebida seja desagradável.
Nisso consiste a Sabedoria de Deus, embora «misteriosa e oculta», como refere São Paulo, mas sempre do lado da humanidade para a salvar e a levar à felicidade. Face a essa Sabedoria divina, perguntemos: porque permite Deus acontecimentos trágicos, como atropelamentos, doenças incuráveis, acidentes terríveis com pessoas maravilhosas, guerras intermináveis em muitos cantos do mundo e desordens de todo o género? - A criação, para fazer-se jus à sua definição, fez-se limitada, frágil e sempre instável. Daí a sua beleza e riqueza. Mais ainda, muitas das desgraças acontecem porque, quem as devia evitar, não se deixou penetrar pelo «que há de mais profundo em Deus e no seu coração».
O desafio é este, pede-nos Jesus que sejamos misericordiosos e que não nos deixemos levar pelos instintos primários das emoções. Face à instabilidade do mundo e da vida, sejamos seguros na confiança, na esperança. E que a alegria da Sabedoria de Deus esteja no nosso coração, porque soubemos escolher a «glória» que Ele nos destinou. Assim, viveremos na Sabedoria e descobriremos o quanto é benéfico para a felicidade ser capaz de fraternidade.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Deus e eu

Texto exclusivo para os leitores do Banquete da Palavra de Filipa Fernandes, técnica de Turismo/ Guia Intérprete.
Deus e eu
Desde que me lembro de ser gente, sempre falei com Deus, sobretudo quando lhe pedia para trazer o meu pai para casa em segurança, isto quando ele tinha de ficar a trabalhar até mais tarde. E pedia a Deus assim:
- “Deus, vou contar até 10… e o meu pai tem de chegar.” Contava, ao início, mais rápido, e depois mais devagar… e nada acontecia. Então, voltava a falar com Deus:
- “Vou contar outra vez e agora tem de ser!” E, então, contava novamente até 10 mas lentamente. Já não tão rápido como da primeira vez, que era para desta vez ter mais tempo… e contava mais dez, e mais 10, até adormecer. Mas durante a noite – e com a desculpa de um sonho mau – levantava-me e corria até ao quarto dos meus pais a ver se ele já lá estava, e se estivesse, então, podia voltar a dormir e agradecia a Deus.
- “Obrigado meu Deus, por teres trazido o meu pai para casa!”, dizia.
Sempre tratei Deus por “Tu”, acho que não se importa!?…
Há uns anos, numa altura de grandes provações na minha vida, de grande ansiedade, daquela maldita ansiedade que não nos deixa dormir à noite, que nos tira a vontade de comer e quase de viver, passei ainda a conversar mais com Deus e ele comigo. Sim! Porque Deus fala connosco através de pequenos sinais do dia-a-dia, como aquela vontade de fazer alguma coisa ou ir a algum sitio, que nos aparece do nada!…
(…)
Estava sentado e quando lhe dei os “bons dias” vislumbrei o mais belo olhar, não só porque os seus olhos eram azuis, mas porque os mesmos sorriam e era um olhar amável, que transformou o resto do meu dia.
Durante cerca de 3 meses, encontrei-o todos os sábados, à mesma hora e no mesmo local, na entrada da Sé Catedral, com as suas roupas velhinhas, gastas e sujas, aquele olhar que sorria e o diálogo entre nós era sempre o mesmo: “Deus a abençoe” – dizia ele, e eu respondia com um sorriso – e dizia “a si também”.
Intrigava-me de certa forma que uma pessoa com uma vida tão difícil, pudesse ter um olhar tão amável. Pessoas em circunstâncias iguais têm um olhar “vazio”, algo “cínico” até, e pensava: aprendeu a sofrer!?
Foi a lição que apreendi nos vários sábados em que o encontrava. É preciso aprender a sofrer, é preciso aprender a carregar a “nossa” cruz e a partilhar com os outros – nem que seja um sorriso – que têm o poder de mudar o nosso dia. É preciso aprender a deixar nas mãos de Deus o que não conseguimos mudar e, acredito, que cada um de nós carrega a cruz que consegue suportar! 
Acredito em Deus e tenho muita fé. Creio, sobretudo, que nada acontece por acaso e que as coisas más que nos acontecem não duram para sempre.
Hoje em dia, não peço nada a Deus, agradeço simplesmente.
Que Deus vos abençoe!