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terça-feira, 21 de março de 2017

Deus e eu

Deus e eu
Isabel Cardoso, com texto exclusivo para o leitores do Banquete da Palavra. Obrigado Isabel, por esta viagem à sua interioridade. Valeu...
Antes de tudo, Tu estavas comigo. Sabia-Te comigo. Eramos um só. A Tua ternura guiava a menina que eu era. Não havia ruído, só o Teu silêncio. Não havia ruído, só a alegria e a Esperança. Quando os ruídos aumentaram, a Tua voz foi ficando distante, pelo menos, parecia-me que ecoava, cada vez, mais longe. Os ruídos fazem parte do crescer e no meio das coisas inúteis a que atribuímos tanta importância, esqueci-me, muitas vezes, de Te ouvir. Falávamos mas andava tão entretida a usar de soberba com a Vida que as nossas conversas caíam no esquecimento. Mas Tu ficaste sempre lá. Fazias-Te presença no riso dos meninos, na imensidão do céu, na profundidade do mar, nas palavras dos sábios e dos inocentes, no grito do próximo, à mesa com os aflitos. A Tua voz nunca se impõe e houve momentos em que escolhi não ouvi-La ainda que Te soubesse lá. Reconhecia-Te no sopro do vento, na música e na poesia, na lágrima que se partilha, na mão que se estende, no hálito do recém-nascido, nos sonhos que se comungam, no olhar dos que estão preparados para partir. Por tudo isso, queria ser participante na construção do Teu Reino e buscar a Tua Justiça mas fui mais a filha pródiga do que a comungante da Tua promessa. Agradecia-Te as dádivas distraidamente. Perdoa-me, afinal, não sabia verdadeiramente que conheces todos os caminhos e todas as necessidades e que a todos ofereces, sem condições, o Teu Amor. Cobardemente cheguei a zangar-me Contigo. Quando a amargura e a tristeza me visitaram, a Tua presença fez-se fraternidade. A Tua misericórdia trouxe-me de regresso a casa. Tu estás sempre aqui. Já não temo tanto as fraquezas e as falhas, sei que nos amas nas imperfeições. Tento abafar o ruído e ouvir-Te. Tento. Tento pela Fé, na Esperança, aceitando o Teu Amor. Tento.
Isabel Cardoso

A camarada Zita Seabra

Não fui eu que escrevi a frase seguinte, mas como concordo totalmente com ela aqui vai: "A camarada Zita Seabra aparece num vídeo da Igreja Católica celebrando o 13 de Maio, estabelecendo a relação entre o centenário das aparições e o da revolução russa, para declarar a vitória de Fátima sobre Lenine. Depois de ver um modelo de virtudes proletárias, a mais dura dos comunistas no tempo de Cunhal, convertida numa beata devota da Nossa Senhora de Fátima, sou capaz de acreditar que um dia destes Maria Cavaco Silva ainda se vai inscrever na JCP, fazendo o percurso inverso ao da camarada Zita".
Mas, acrescento o seguinte, que tal sugerir ao alto dos céus, que façam acontecer um "milagre" assim tão piedoso como o da camarada Zita, que veio da linha mais dura do PCP, suponho que ferrenha fiel do ateísmo, salta para o colo do PSD e agora já está como defensora piedosa de Nossa Senhora de Fátima e do milagre da conversão da Rússia.  Que tal, face a este exemplo tão luminoso, rezarmos todos para que a mesma entidade que trouxe a luz à Russia, que a camarada Zita agora admira tanto como admirava antes de se converter, ao tempo de Lenine, converta todos os hereges que ainda fazem peso sobre a terra, especialmente, aqueles camaradas que ainda não fizeram o mesmo percurso de piedade como fez a camarada Zita e que estão em ninhos de perdição, por ex. o seu antigo partido PCP, onde uma grande parte se confessa pouco ou nada adeptos de religiões e religiosidades tipo as da Cova da Iria. Eu ficava tão comovido como me comove, não a tão propalada conversão da Rússia, mas a conversão da camarada Zita e o seu esquisito percurso político, mas também o seu percurso de vida iluminado pela fé. Aprontem-se camaradas, Deus não dorme...
Podem ver o vídeo AQUI

segunda-feira, 20 de março de 2017

Caminhando pela vida de Conceição Pereira

1. Andam para aí a dizer que hoje é o dia da felicidade. Como se pudéssemos intervalar a felicidade e remetê-la para celebrá-la apenas num dia só do ano. A felicidade é para sempre, com altos e baixos, é certo, mas existe sempre e até na solidão, em algum sofrimento pode transparecer a felicidade. Os lugares da oração quotidiana e da provável infelicidade, segundo crê a lógica deste mundo, têm sido desconcertantemente as maiores ofertas de felicidade. Os dias da felicidade só podem ser todos os dias.
2. Tenho em mãos um livro magnífico, «Caminhando pela vida», de Maria Conceição Pereira. Um enorme surpresa que tem sido uma felicidade enorme estar a ler. Mais ainda, é uma felicidade, se  vos testemunhar que chegou às minhas mãos pela mão generosa da autora, com uma simpática e bonita dedicatória. Gostaria de alinhavar aqui algumas ideias em jeito de comentário para que muitos mais madeirenses desfrutem do prazer desta leitura. Para facilitar a minha vida e dar-vos a possibilidade de percorrerem comigo o livro, estruturo o que pretendo dizer desta forma: a) a infância da autora e o apego à sua terra, o Seixal; b) a descoberta da cidade (Funchal) - e a vida que a cidade implica; c) A emigração; d) a intervenção política; e) estamos, seguramente, perante uma mulher de causas...
3. Caminhando pela vida, Conceição Pereira, conduz-nos pela mão aos cantos do Seixal, calcorreando veredas, as casas, os poios, as pessoas, a igreja, a catequese, a escola e a vida toda da sua freguesia onde ela viu a luz do dia. O cenário deste quadro bucólico está bem delimitado pelo mar e pela imponente montanha que a norte do Seixal se impõe. Dessa infância e juventude retém tudo o que o Seixal oferecia, os usos e costumes, a ruralidade sem que nada venha proibir o inconformismo e a vontade de progredir, vindo futuramente a construir o futuro da sua vida que as páginas do livro nos revelará.
4. A descoberta da cidade do Funchal, apresenta-se como  o segundo passo na história da sua vida. Abrem-se novas possibilidades. Embora as limitações do «Estado Novo» fossem tão cerceadoras, particularmente, para as mulheres,  na cidade pode aprender mais e permitiu-lhe a experiência do emprego. Mesmo face ao ambiente repressivo e à marginalização geral das mulheres da vida cívica, dá os primeiros passos na política e na mundo sindical, na acção Católica, Oposição Democrática e no Sindicato de Empregadores de Escritório e Caixeiros. Esta acção é já bem reveladora da mulher de causas em favor dos outros, especialmente, naquilo que se vai revelar depois, na lutadora intransigente pelos direitos e dignidade das mulheres.
5. Nos anos 60 e 70, a perseguição da ditadura, a pobreza generalizada, determinaram que uma porção enorme de portugueses emigrassem. Conceição Pereira foi para França, Paris. Aqui ainda mais sentiu a necessidade de aprender, porque confrontada com as condições miseráveis das mulheres emigrantes, especialmente, as empregadas domésticas, viu-se tomada pela sua veia de lutadora inconformada com a injustiça.  Movida pelo entusiasmo da Revolução do 25 de Abril, regressou à Ilha da Madeira, onde vai continuar os seus estudos para que possa vir depois a assumir o ensino como professora. Mesmo assim, nunca deixou de estar presente no mundo da política partidária e sindical, a causa da luta pelos direitos dos trabalhadores e a dignidade das mulheres foram o seu horizonte, pois nunca deixou de ter como elementos inspiradores essa causa na sua acção e nas suas opções, quer pessoais quer partidárias.
6. No prefácio o professor Nelson Veríssimo, traça o essencial da sua intervenção política: «sempre encontramos Conceição Pereira em manifestações, comícios, debates e acções cívicas, a distribuir propaganda e a colaborar na imprensa». Sempre contra as diatribes do Jardinismo, contra ao regime da colonia, pelas mulheres e trabalhadores, no Sindicato dos Professores,  foi militante da UDP e hoje do Bloco de Esquerda, foi deputada à Assembleia Regional da Madeira. Sempre sem parar de lutar, é uma mulher empenhada nas lutas pelo bem comum, a igualdade, a inclusão e por todos os direitos que sempre são coarctados pelos poderosos às classes mais frágeis, especialmente, os trabalhadores e as mulheres. Mais claro é impossível: «Cada um coloca-se do lado que quer, mas um Bispo pôr-se ao lado daqueles facínoras era coisa que não cabia na minha cabeça» (p. 96). Refere-se ao Bispo Saraiva que puxou as orelhas aos movimentos da Acção Católica, por causa do posicionamento político que assumiram nas eleições de 1969 para a Assembleia Nacional, aos tempos da Primavera Marcelista.
7. O livro é apenas uma parte da vida intensa e grande de uma figura que nos revela uma vontade sempre maior que a sua terra natal, mais vasta que o segundo lugar onde chegou, a cidade do Funchal. E até a cidade de Paris, parece não caber a inquietação de Conceição Pereira. Feliz a hora em que regressa para a ilha, para que entre nós ponha em acção toda a sua vontade e o seu saber em prol do bem comum e da justiça. Conceição Pereira, certamente, ficará na história do povo da Madeira, como uma  mulher guerreira e como um exemplo a nunca ser descorado por todos/todas as pessoas que implementem a luta pelos direitos dos mais fracos, particularmente, quando confrontados com a violência que consume o mundo feminino. No âmbito do clero, faz uma pequena referência à obra incontornável do Padre Marques na Paróquia de Fátima e na Lombada da Ponta de Sol. Um prazer enorme estar a passar algum tempo na leitura deste livro.

sábado, 18 de março de 2017

Diálogo improvável sobre a água viva

Comentário à missa do próximo domingo III da Quaresma...   
Neste domingo, somos confrontados com um encontro, entre uma mulher e um homem. Jesus e a Samaritana. É o resultado de duas pessoas que procuram o mais delicado e profundo da existência. Jesus encontra fé onde ninguém espera que tal aconteça, no coração de uma Samaritana (uma estrangeira repudiada pela religião e cultura judaicas). Lembro que os samaritanos eram considerados de «cachorros» pelos judeus ao tempo de Jesus.
A mulher, que no desenrolar do diálogo, descobre-se a si mesma, se sente livre, restaurada e encontra o Messias esperado há tantos séculos. Este encontro fura todas as regras. Jesus nunca poderia fazer diálogo fora de casa com uma mulher. Uma ousadia. Os samaritanos eram considerados impuros. Qualquer aproximação entre os povos desavindos seria considerada uma ousadia criminosa. Porém, o mais importante é que Jesus entra em diálogo com uma pessoa de quem não se espera nada de relevante e pede ajuda material, para logo depois conceder o mais importante para vida, alimento espiritual. Jesus argumenta que todo aquele que beber da água do poço de Jacob, voltará a ter sede, mas qualquer um que beber da água que Ele lhe der, nunca mais terá sede.
O caminho que a mulher samaritana percorre é o nosso caminho de cristãos em busca de Deus. Face à tentativa constante da samaritana que regressa ao passado, Jesus faz olhar para o futuro e tomar consciência de que ao mundo chegou uma novidade e que esta renova toda a vida. A experiência desta mulher revela que cada um pode ter a sua experiência pessoal com Jesus, basta acolher a água viva do amor que Jesus nos oferece.
Para que a nossa vida não se consuma na depressão dos dias e para que tenhamos horizontes largos que nos façam ir mais longe daquilo que nos rodeia apresento-vos a seguinte parábola: um homem sentia-se continuamente oprimido pelas dificuldades da vida. Foi lamentar-se com um mestre espiritual e disse-lhe: — Não posso mais! Esta vida é-me insuportável! O mestre pegou então numa mão-cheia de cinzas e deixou-as cair num copo de água límpida que tinha sobre a mesa, dizendo: — Estes são os teus sofrimentos. Toda a água ficou turva e suja. O mestre entornou-a. Em seguida, pegou numa outra mão-cheia de cinza, e mostrou-a ao homem. Depois, aproximou-se da janela e atirou-as ao mar. As cinzas dispersaram-se imediatamente e o mar continuou exactamente como era antes. O mestre perguntou-lhe: — Entendeste o significado do que eu fiz? Ele respondeu: — Não. O mestre explicou: — Todos os dias deves decidir ser um copo de água no mar.
Os nossos dias reservam-nos alegrias, tristezas, desafios e dificuldades de toda a ordem. A questão está em saber gerir as dificuldades, de modo a não nos deixarmos perturbar por elas. Deixemos que o tempo seja como o mar onde elas se vão diluindo. Chico Xavier soube dizer isso de forma interessante e completa: «A gente pode morar numa casa mais ou menos, numa rua mais ou menos, numa cidade mais ou menos, e até ter um governo mais ou menos.
A gente pode dormir numa cama mais ou menos, comer um feijão mais ou menos, ter um transporte mais ou menos, e até ser obrigado a acreditar mais ou menos no futuro.
A gente pode olhar em volta e sentir que tudo está mais ou menos... Tudo bem!
O que a gente não pode mesmo, nunca, de jeito nenhum... É amar mais ou menos, sonhar mais ou menos, ser amigo mais ou menos, namorar mais ou menos, ter fé mais ou menos, e acreditar mais ou menos. Senão a gente corre o risco de se tornar uma pessoa mais ou menos». 
A mensagem que Jesus dirige à Samaritana tem muito que ver com isto, a água da mulher, é água deste mundo, que mata a sede humana e física - importante também - mas a água viva que Jesus oferece preenche o sentido da vida e faz-nos voar até ao alto da plenitude da existência, a eternidade que Jesus nos oferece. Sejamos lúcidos, acolhendo esta realidade como sentido para a nossa vida enquanto estamos neste mundo para que sejamos sempre muito felizes e com isso ajudemos os outros a serem também felizes como nós.

sexta-feira, 17 de março de 2017

A mensagem

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre, nunca prejudicando ninguém...
Os meus sentimentos agarraram a palavra 
que em silêncio foi conjugada por dentro
e como se eu fosse Deus recriei-a 
dando-lhe som e luz para que falasse

Ela é parte de um livro segurado pelas minhas mãos
que trazia todas as histórias do mundo
mais ainda o sentido 
de uma mensagem luminosa
que por momentos me fazia descansar o olhar
pela tarde no crepúsculo secular em cima da água

Nunca foi pretensiosa como tantas outras palavras
que reduzem a escombros as casas
por isso devemos ao seu autor 
letra a letra a sua reabilitação colocando-a devagar
no sentido original do som

Tantas vezes foge-me a palavra 
nos momentos da infelicidade
porém como caçador que remexe a mata toda
para levantar a lebre 
eu sou esse persistente homem que procura por ela
para a saborear inteira na mensagem 
JLR

quarta-feira, 15 de março de 2017

Quatro anos de Papa Francisco

1. Celebramos no dia 13 de março de 2017, 4 anos da eleição do Papa Francisco. Um pontificado excelente. Porém, melhor do que ninguém, o Papa Francisco, sabe que não é fácil enfrentar uma instituição cimentada em alicerces seculares.

2. Eles são uma plêiade de religiosos que vivem confortavelmente em comunidades ricas e luxuosas. Eles são o clero aburguesado que não estuda e que não sai da catequese mais corriqueira, devocionista e infantil. Eles são as mulheres poderem receber todos os Sacramentos, que são sete, menos o Sacramento da Ordem. Eles são o estigma contra os casais que falharam no casamento, o drama das mães solteiras, as famílias monoparentais, que são cada vez mais e os recasados ou unidos de facto em segunda relação ou mais.

3. Mas eles são também, os leigos que vivem num infantilismo confrangedor a sua fé e a base mais visível da pastoral está exclusivamente no devocionismo. Eles são preconceitos graves contra a homossexualidade e receio que em muitas franjas da Igreja Católica exista uma homofobia horrível, que exclui sob a batuta do desprezo doentio, embora albergue tantos clérigos com tendências homossexuais bem evidentes e tantos «pecados» (escândalos insuportáveis) relacionados com a pedofilia.

4. E ainda, eles são o facto de reinar uma insensibilidade enorme perante aquilo que se designa hoje «os pecados sociais»: a injustiça, a corrupção, a desigualdade, a pobreza, a ecologia, as migrações (refugiados) e todas as situações/desafios deste nosso tempo que deviam ser a principal preocupação de toda a Igreja para que se fizesse jus à magnífica expressão do Concílio Vaticano II quando fala dos «Sinais dos Tempos».

5. Por fim, eles são a nível político, aquilo abala sobremaneira as democracias, os desafios dos populismos que varrem o mundo todo, que levanta muros contra os estrangeiros e os deslocados da guerra, do terrorismo e do fundamentalismo religioso. A par de tudo isto impõe-se ferozmente a «economia que mata», com a austeridade para os mais frágeis, geradora de corrupção desenfreada e mentiras atrozes que prejudicam a vida de todos.

6. Por conseguinte, em termos religiosos, mais voltados para dentro das Igrejas Católicas, devemos dizer honestamente que a continuarmos assim, vai continuar a aumentar em todo o mundo a ideia de que aquilo que Roma prega não é praticado pela maioria dos fiéis, como está bem claro no caso da doutrina sobre a sexualidade, as questões sobre a vida em geral, a opção pela pobreza e a teologia do encontro, temas mais que badalados pelo Papa Francisco. Em todo o caso nada está perdido, se existir coragem e muitos seguirem os passos do Papa Francisco, que procura responder a todas as situações com a Palavra de Jesus e com a mais pura naturalidade faz como Jesus faria se estivesse em carne e osso no meio de nós neste século.

terça-feira, 14 de março de 2017

Deus e eu

Esta semana com Miguel L. Castro Fonseca Henriques...



Se falo de mim e de Deus, tenho de falar do outro que me revela Deus em mim. Deus e eu é uma relação que deriva da relação que tenho com o outro, onde vejo a presença ou a ausência de Deus. Se o inferno são os outros, o inverso também é verdade, Deus vê-se nos outros. Mas quer a presença, quer a ausência de Deus nos outros, pode derivar não dos outros, mas da ausência de Deus em mim, que não o faço presente na vida dos outros, e, sobretudo, me abstenho de tornar presente Deus na vida das outros quanto e quando mais pressinto que Deus está ausente da sua vida. Os outros são os que gravitam na periferia do eu, e, como cada eu tem a sua periferia, eu sou também os outros e os outros fazem parte de mim. Se nos retirarmos, Deus está ausente. Retiramo-nos quando ignoramos o outro nas suas necessidades corporais e espirituais: Deus está ausente se há fome, sede, frio, no corpo e na alma, falta de tecto ou de palavra, ignorância, horizonte, alegria, perdão, paciência, perda de memória. Mas logo o coração se abre ao outro e eis que Deus está de volta. Ou seja, as ausências de Deus são as nossas ausências. É a mim que me cabe trazê-lo de volta. Deus é essa realidade imanente que deriva das nossas ações. É aqui e não lá que se quebra essa linha que, epistemologicamente, separa os que creem na transcendência, pois que ele vive ou não vive, aqui e agora, por exclusiva decisão e responsabilidade nossa. Mesmo se o devirmos em valores universais, seja a liberdade, o amor, a caridade, enfim, a transcendência, que, como abóboda, não se sustenta se não assentar em pilares de base, fuste e capital erguidos sobre as nossas ações. É legítimo dar-lhe um perfil antropomórfico, cada um de nós, com a ideia de Vítor Hugo de que, se o Universo é infinito, tinha de ter um eu, senão não seria infinito. Podemos até lhe darmos um rosto à medida dos nossos conhecimentos. Jesus é o ser amável que conheço para ser o rosto de Deus. Através de Jesus, posso me relacionar com Deus, mas devo aceitar que cada um estabelecerá esse diálogo como bem entender, desde que os valores universais superem a linha que me dilacera e que divide os designados, pela sua forma de relação com os valores, em crentes e ateus, e todos compreendam que esses valores universais partem da imanência de cada ato. Cada ser realiza-se em unidade com os outros, o que se pode traduzir na oração que une habitantes de todo o universo, Pai Nosso e assim na terra como no céu. Somos todos filhos do universo. 

segunda-feira, 13 de março de 2017

Domingo passado foi dia de indignações com graça

1. Entre todas as notícias que nos chegaram no domingo passado, a mais engraçada de todas foi a que nos presenteou o JM-Madeira: «Estrangeiros não querem galos a cantar no Jardim do Mar». Aprendi que os barulhos altos e mudanças nos níveis das luzes, tudo isso é tido em conta pelo galo como uma ameaça e ele não deixa por menos, canta para mostrar quem é que manda. Nesse caso, a função é bradar mais alto frente ao inimigo. E isso não acontece apenas nas primeiras horas do dia, mas sim em qualquer hora em que o animal considerar que está correndo perigo. Por isso, quanto mais reclamarem, mais cantarão os galos do Jardim do Mar e do mundo inteiro.   

2. Pelo meio também se leu uma Carta do Leitor, que está a provocar um aluvião de indignação na Madeira comparável ao aluvião de 20 de fevereiro de 2010. Não ligo a este tipo de descrição anónimo, porque o signatário da dita carta, é tão turista de Coimbra, que veio à Madeira passar férias de três semanas pendurado nas asas dos pais à conta de amigos da ilha, como eu vir a ser natural de Marrocos.
Paulo Pereira, só pode ser nome falso, sabe muito da Madeira, para falar tanto e mostrar-se tão conhecedor de tantas coisas madeirenses que não se aperceberia apenas em três semanas, a não ser que tenha visto o mais recente filme sobre o Feiticeiro da Calheta e tenha aprendido algumas técnicas da feitiçaria. Muito exagerado nalguns aspectos, é claro, mas cheio de razão em tanta coisa que diz. Quanto à indignação que veio por aí abaixo, ficamos também conversados, porque há tanta coisa que merece a mesma indignação e vejo que deixam passar em branco sem tugir nem mugir. Este madeirismo exaltado vale tanto como aquele que se vê quando as equipas grandes do futebol português (Benfica, Porto e Sporting) jogam na casa das equipas madeirenses, alguns adeptos regionais das equipas grandes lascam-se se estas perdem face às equipas da região. 
Tiro o chapéu ao escriba coimbrã ao engenho de se ter tomado como turista que veio de Coimbra na companhia dos pais à boleia dos amigos ilhéus dos pais. O embrulho foi bem embalado e serviu bem para que muitos caíssem que nem patos, melhor, galos, já que este texto pretende fazer dos galos protagonistas.

3. Vamos então aos galos. Os estrangeiros não querem galos a cantar à sua porta no Jardim do Mar. No Arquivo de Fernando Pessoa, com o pseudónimo de Bernardo Soares, num texto inédito com este título: «Eu nunca fiz senão sonhar», destaca-se esta passagem que transcrevo e alguém, se quiser, que se encarregue de fazer chegar aos galos, desculpem, aos novos habitantes do Jardim do Mar, que vieram ajudar a compor a nossa tão debilitada e minguante natalidade…
Diz assim, o poeta do «Livro do Desassossego»: «Ah, não ter tudo isto um sentido em Deus, uma realização conforme o espírito de nossos desejos, não sei onde, por um tempo vertical, consubstanciado com a direcção das minhas saudades e dos meus devaneios! Não haver, pelo menos só para mim, um paraíso feito disto! Não poder eu encontrar os amigos que sonhei, passear pelas ruas que criei, acordar, entre o ruído dos galos e das galinhas e o rumorejar matutino da casa, na casa de campo em que eu me supus... e tudo isto mais perfeitamente arranjado por Deus, posto naquela perfeita ordem para existir, na precisa forma para eu o ter que nem os meus próprios sonhos atingem senão na falta de uma dimensão do espaço íntimo que entretém essas pobres realidades...». Alguém que enfie o barrete!
O que queriam afinal os estrangeiros quando escolheram uma casa de campo no Jardim do Mar? E o que devem dizer quanto aos outros prováveis barulhos do Jardim do Mar, por exemplo, os cães, os grilos, o bater das ondas, o vento nas encostas, os passos das pessoas que sempre viveram ali e sei lá todo o ruído que envolver qualquer lugar onde se esteja? – Bom, é melhor não ligar mais a isto… Salientei pela graça que me provocou e queria partilhar com os leitores do Banquete esta passagem de Bernardo Soares, onde ele fala do «ruído dos galos e das galinhas e o rumorejar matutino da casa, na casa de campo em que eu me supus...». 

O filme Feiticeiro da Calheta - um hino à miséria e à beleza da Madeira

Desde que começou a ser notícia o filme: O Feiticeiro da Calheta, não dei muita importância e até nos últimos tempos, depois de estrear, estava decidido não ver o filme. Porém, num daqueles repentes que às vezes me dá, peguei em mim e lá fui ver o filme na sessão de ontem na sala do Casino da Madeira. A película é da autoria do realizador madeirense Luís Miguel Jardim e situa-se nos anos 40 e 50 do século passado.

É um filme datado e vai servir para deixar um registo de um feiticeiro e ou feiticeiras que o atraso cultural do povo da Madeira foi elegendo ao longo da sua história. São várias as freguesias na Madeira que têm o seu Feiticeiro ou feiticeira. Quem não nunca ouviu falar no Feiticeiro do Norte... 

O filme é a história de alguns dados biográfica do Feiticeiro da Calheta (poeta popular madeirense João Gomes de Sousa), que descreve as características essenciais de todos os feiticeiros e ou feiticeiras madeirenses. É alguém, sempre pobre e analfabeto, mas tem sabedoria oral e manifesta uma capacidade extraordinária para rimar quadras sobre a vida popular, é um contador de histórias nato, declama ou canta as quadras nas conversas e nos despiques nos arraiais típicos da Madeira, porque o feiticeiro é um cantor nato dos seus versos, toca um instrumento (o Machete), vai à cidade frequentemente, é sonhador, ajuda os outros pobres e faz premonições.

O filme pretende essencialmente homenagear o criador do «bailinho da Madeira», porque descobriram que afinal o pai dessa tão popular canção madeirense é o Feiticeiro da Calheta.  Segue-se estas quadras como exemplo, do seu génio criativo:

«Ainda há uma coisinha d'arroz
Porque vem de fora em saco
É guloso de comer
mas é um pouco mais fraco

Agora está a oito patacas
Quando em tempos era barato
Há muita falta de azeite
e o bacalhau de quarto».

O filme Feiticeiro da Calheta, de acordo com o meu singelo observar, tem quatro elementos que merecem devido destaque: 1. o falar (sotaque) madeirense, 2. a denúncia certeira do regime da colonia, 3. a pobreza miserável, 4. a intriga (a "bilhardice") quotidiana à sombra da religião.

Um à parte. A Igreja Católica da Madeira, no filme até fica bem representada com alusão à obra magnífica do padre Laurindo Leal Pestana (1883-1951), que era Diocesano, padre da Diocese do Funchal, e pároco de Santa Maria Maior, Socorro. É o Fundador da escola de Artes e Ofícios, que futuramente será entregue aos Salesianos, ao contrário do que é referido no filme que já nessa altura já estaria sob espírito da pedagogia dos salesianos.
O Padre Laurindo, é uma figura, que merecia um filme sobre a sua vida e obra. Fica aqui o desafio ao realizador do filme Feiticeiro da Calheta, Luís Miguel Jardim.

Vamos agora aos elementos que me permitem fazer a leitura do filme.
1. O falar (sotaque). Está muito bem apanhado, está cheio de expressões típicas do nosso falar, mas que se vai perdendo à medida que o tempo passa e as novas gerações vão recebendo as influências da sociedade massificadas, o poder da comunicação social fez o seu caminho. Ri com vontade quando os diálogos entre os autores se fazem recorrendo a expressões do género: «levei uma malha, que esmigalhou-me o corpo todo»; «vou partir-lhe as ventas»; «1 kl de açucre para marcar no role»; «vais pagá-las todas nem que seja a arder no inferno»; «raio da peste»; «maldito»; «cruzes, credo abrenuncia»... Entre tantas outras.    

2. O mais importante do filme é a denúncia do regime da colonia. Os senhorios têm uma interpretação brilhante e retratam claramente como era o proceder dos «senhores donos disto tudo» da Madeira velha, que exploravam as famílias a todos os níveis, a terra pertencia-lhes e pagavam com pobreza, exploração e promiscuidade aos seus colonos. O melhor pertencia-lhes. Até o «direito» de abusarem sexualmente das filhas das pobres famílias trabalhadoras das terras colonizadas. Um regime terrível que merecia ser melhor estudado nas nossas escolas, para que mais nenhuma forma de exploração viesse acontecer ao nosso povo, até porque hoje temos outras formas de exploração que os poderosos inventaram para usarem e abusarem da dignidade dos mais frágeis, como era o caso, da «maldita» colonia.  

3. A pobreza roça a miséria. As crianças passam fome, andam descalças e o pormenor dos pés descalços das crianças é das cenas mais tocantes do filme. Neste domínio deve-se destacar o papel das filhas  do senhorio, porque percebem que a pobreza radica aí e quando se aproximam das crianças dos seus benfeitores (as filhas dos colonos) tiram os sapatos, roubam pão das suas mesas fartas e levam às crianças esfomeadas.


É muito interessante que são as crianças, filhas dos senhorios, que fazem a leitura clara da injustiça e que fazem sentir aos seus pais e avô que há fome e miséria nas casas das famílias que eles exploram, os seus colonos.

4. A juntar a tudo isto o povo entretém-se com intriga (a «bilhardice») uns contra os outros. O único que nos parece ter um comportamento irrepreensível é o feiticeiro. O merceeiro, o leiteiro, roubam «à má cara», um na balança e o outro junta água ao leite que vende porta à porta. Entretanto, divertem-se com as suas amantes («amigas») nos palheiros ou nas casas sem maridos emigrados ou viúvas.


A imagem que passa do povo em geral é negativa. São roubados, explorados, mas também à sua medida fazem o mesmo, uns contra outros. A honestidade e a manhosice do povo madeirense saem bem escarrapachadas sobre a tela. Tudo isto a coberto de uma sombra religiosa, que se manifesta nos diálogos, através das várias expressões que são invocadas para exorcizar a maldade, a intriga e as malfeitorias que acompanham o quotidiano do povo. 

São confrangedores alguns papéis. Por exemplo, o de Alberto João Jardim (o pastor) e de João Carlos Abreu (o barbeiro). Compreende-se a necessidade do chamariz propagandístico do filme, mas não seriam necessários.

Não posso deixar de destacar com entusiasmo as imagens aéreas sobre a paisagem da Calheta e a banda sonora. Belíssimo. 

sexta-feira, 10 de março de 2017

Os ouvidos da alma

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre, nunca prejudicando ninguém. 
Sempre ouvir-te-ei
ainda que me rasguem a carne
os espinhos dos silvados
pendidos pelas amoras que me chamam

Conta-me pausadamente
das lágrimas que chorei na solidão
e das que vou verter na velhice

Mesmo que tenhas que despertar 
os olhos todos do mundo

- Não te cales
na injustiça
faz a coragem
ser pão todos os dias

Certamente alguém 
com os ouvidos da alma
ouvir-te-á
JLR

quinta-feira, 9 de março de 2017

A transfiguração que nos eleva para o sentido da vida

Comentário à missa deste fim de semana para o próximo domingo II Tempo da Quaresma...
"Enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto e as suas vestes ficaram de uma brancura refulgente...", a brancura significa que o lugar de onde é Jesus, é puro e santo. Tudo o que se refere à transcendência, à divindade de Jesus, apresenta-se com uma brancura refulgente. "Dois homens falavam com Ele: eram Moisés e Elias...", duas personagens do Antigo Testamento, que nos atestam claramente que tudo o que se está a passar com Jesus enquadra-se com o conjunto de toda a História da Salvação. São eles que falam da morte de Jesus em Jerusalém. 
Os personagens do Antigo Testamento, mostraram e viveram a expectativa do Messias, está Ele agora presente na humanidade para salvar a todos com a sua acção redentora que passa pela experiência da morte em Jerusalém. "O sono", este aspecto mostra-nos como todos nós facilmente nos deixam levar pela sonolência e nos desligamos daquilo que Deus tem para nos mostrar. Repare-se que, quando os discípulos despertaram, maravilharam-se com o poder e a glória manifestada em Jesus, que levou Pedro a pronunciar o seguinte: "Mestre, como é bom estarmos aqui!...", estar na presença de Deus é bom. Pedro revela-nos que esse calor de amor que emana da presença amorosa do lugar de Deus é sempre uma experiência que dá prazer e realiza plenamente as pessoas na felicidade.
"veio uma nuvem que os cobriu com a sua sombra...", a nuvem simboliza a presença divina, que abraça todo o mistério da transfiguração que acaba de se dar neste lugar. A nuvem na cultura Bíblica tem a força da presença de Deus que envolve com o Seu amor a realidade onde deseja manifestar-se.
"Eles (os Apóstolos) ficaram cheios de medo...", a presença de Deus, por vezes, provoca medo, porque o nosso coração se ocupa de coisas desnecessárias em relação à fé, isto é, em vez de acreditarmos de verdade no Seu amor e na Sua misericórdia, concebemos no nosso coração um Deus todo-poderoso que castiga e se vinga contra nós. Esta visão de Deus é totalmente distorcida e não tem sentido diante das palavras e gestos amorosos de Jesus. Repare-se na expressão que pronuncia a voz de Deus: "Este é o meu Filho, o meu Eleito: escutai-O". Deus apresenta-nos o seu Filho muito amado e pede a cada um de nós que se deixe envolver pelas suas palavras, isto é, que seja capaz de o escutar porque a Boa Nova que Ele nos trás, é uma notícia que nos salva do sofrimento e da morte.

quarta-feira, 8 de março de 2017

A cultura do respeito pelas mulheres todos os dias do ano

1. Nada me move contra o «dia internacional da mulher», como nada tenho contra os outros dias internacionais disto e daquilo. Mas, tenho contra o que esses dias implicam de hipocrisia e artificialidade. O dia da mulher é bem revelador disso. Calava-me se não fossem tão dramáticos os números da violência contra as mulheres em todos os dias do ano. Por isso, admiro-me que sejam as mulheres as primeiras a se prestarem a isso.

2. Quanto ao dia Internacional da mulher, que teve uma origem muito interessante e foi necessário para que a mulher visse os seus direitos serem respeitados no trabalho, na vida social e na política. Mas, hoje está a converter-se em mais um dia carregado de hipocrisia e artificialidade, cujo centro das atenções são as mulheres. E pelo que vejo elas são as primeiras a tomarem a dianteira nisso. Gostam de receber jóias, flores, chocolates, participar em jantares só com elas, onde haverá strippers masculinos e bebedeiras. É o dia e a noite delas, começa a convencionar-se, pois até partilham «parabéns, é o teu dia»; «feliz dia da mulher» e «vivam as mulheres», entre outros mimos meio descabidos que o ambiente proporciona. E reforço a ideia, as mulheres são as primeiras a se prestarem a isto.

3. A maior parte das mulheres não sabe porque há um dia dedicado a elas. É como os outros dias mundiais, serve para receber prendas, andar com flores na mão que os homens lhes deram e participar numa jantarada, que em ano de eleições até dá jeito porque os partidos políticos aproveitam para fazer um comício. E reforço a ideia, as mulheres são as primeiras a se prestarem a isto.

4. A sociedade em geral é machista e patriarcal, institui e valoriza práticas sociais que desqualificam ou menorizam as mulheres. Estas práticas contribuem para que todos os dias do ano tenhamos uma cultura da violência contra as mulheres, particularmente, a violência doméstica e a violação, porque, por mais que se pinte de cor de rosa um dia do ano dedicado à mulher sempre haverá homens que são levados a crer que têm o «direito» de cometer diversos tipos de violência contra a mulher, inclusive a violência sexual. E reforço a ideia, as mulheres são as primeiras a se prestarem a isto.

5. Nada mudará enquanto se continuar a fazer dos dias assinalados, dias de carnaval hipócrita, maquilhados com flores e festanças. Neste sentido, os meios de comunicação social, as entidades públicas, a escola e a própria família, vão legitimando a desigualdade entre géneros, legitimando papéis que só pertence a uns e não aos outros e fazendo passar a ideia de que os papéis das mulheres são sempre subalternizados, só porque são da mulher. E reforço a ideia, as mulheres são as primeiras a se prestarem a isto.

6. O dia da mulher devia ser um dia de profunda reflexão, porque os dados da violência contra ela são absurdos e exigem de todos a consciência de que é preciso mudar tais comportamentos. A escola, as entidades públicas e a própria família precisam de acolher este debate, ajudando homens e mulheres, jovens e mais velhos, a compreenderem que não podemos continuar nesta guerra quotidiana onde o elo mais fraco é sempre a mulher, porque facilmente se converte numa serviçal, um objecto sexual ou num bumbo onde companheiros, namorados e maridos descarregam a sua agressividade. E reforço a ideia, as mulheres são as primeiras a se prestarem a isto.

7. Tomara que as mulheres acordassem e fossem as primeiras a não se prestarem a tanto acessório disparatado neste dia, para que não fossem também elas a legitimarem as investidas machistas e a ditadura da masculinidade que ainda impera na família, nas instituições e na sociedade em geral. A mulher deve ser a primeira a dar-se ao respeito para ser respeita. Tal como aconteceu há 200 anos, onde as mulheres foram as protagonistas do movimento emancipador, movidas por razões válidas foram elas que contribuíram prioritariamente para a criação do Dia Internacional da Mulher. Não me parece que hoje as correntes se quebrem só com jantaradas com strippers, flores e bebedeiras femininas. Nem muito menos seja esse o ambiente mais adequado para gritar-se vivas às mulheres. 

terça-feira, 7 de março de 2017

«Deus e eu»...

«Deus e eu»... Texto inédito de Luis Filipe Malheiro, escrito exclusivamente para o leitores do Banquete da Palavra. 
A minha relação com Deus é uma coisa estranha, talvez mesmo contraditória. Verdade seja dita que ela nunca foi estreita, constante ou entusiástica. É instável, sempre foi, mas procurando ser o mais exemplar possível, em termos de cumprimento das exigências impostas aos crentes.

No fundo, bem vistas as coisas, somos interesseiros. Recorremos a Deus sempre que estamos à rasca ou quando precisamos de algum apoio mais divino ou mais extraordinário, em última instância. Mas logo O esquecemos e passamo-Lo para trás. Há muito que percebi que Deus não é para muitas conversas. Tal como acho que Ele nunca perdeu tempo comigo. Por isso não perco tempo à procura de portas.

Quando me questiono, com retroatividade temporal (e factual), sobre a razão de ser de determinados acontecimentos relacionados com a minha vivência - e que marcaram todo o meu percurso de vida - e não encontro as respostas que acho que seriam as minimamente plausíveis, a minha primeira reação foi a de virar a página e esquecer tudo. Acho que essa minha (des) relação com Deus é vítima desse vazio, dessa falta de resposta, dessa contradição entre a quase obrigação de acreditar e a realidade pragmática desse silêncio.

Mas não sou capaz. Há qualquer coisa que me recomenda bom senso e muita tolerância na procura dessas respostas que continuo a não encontrar. Provavelmente delas dependeria muita coisa. A necessidade de perceber as causas de tudo, já que ficaram para sempre as marcas da incompreensão.

À medida que fomos crescendo, tudo o que nos ensinaram na infância e na juventude começa a esbater-se e a perder sentido. Passamos a perguntar muito esbarrando na repetida falta de respostas. Isso levou-me a querer perceber a essência de uma religião assente muito na teoria de mensagens legadas por textos que atravessaram os tempos, mas que não consegue evitar o impacto negativo decorrente de dificuldades complicadas e a sua incapacidade de afirmação e de aceitação junto das pessoas. Há, cada vez mais, muito pragmatismo na sociedade dos nossos dias que conduz-nos ao egoísmo de encarar também esta questão sob uma lógica interesseira.

As pessoas querem perceber a diferença entre a mensagem original de Cristo e a alegada manipulação dessa mensagem, das regras e das práticas introduzidas pelos homens ao longo dos séculos, para que a religião se adaptasse a cada tempo, porventura pressionada pela necessidade de imperiosa sobrevivência.

Por um lado, penso muitas vezes que essa relação com Deus é uma desnecessidade. Admito que o faço, impulsionado pelo facto de perceber que Ele não nos responde quando precisamos Dele ou Lhe pedimos a sua intervenção. Aliás todos nós temos a sensação de que Deus se está nas tintas para nós. E nem todos toleram isso. Mas provavelmente somos os únicos culpados disso. Ou não? É tudo uma questão de crença e de fé.

Faz sentido, admito, assumirmos que há Alguém presente no nosso quotidiano mesmo estando ausente, mesmo sem darmos por Ele, Alguém que não vemos, que não sentimos, que provavelmente nunca nos falou nem alguma vez nos dirigirá a palavra. Mas que uma certa “praxis” nos impede de colocá-Lo à margem da nossa vida.

Em situações normais, projetando uma espécie de deve e haver, o saldo dessa minha relação é o que é, pouco convincente. Reconheço que não sou muito dado a falar com Deus. Admito que essa relação poderia ser melhor, poderia ser até mais eficaz. Mas não me parece que hoje a minha crença assente numa perspectiva tão aberta como foi no passado.

Ao invés, gosto de Fátima. Sempre que passo em Fátima, e há anos que o faço sempre que vou ao Norte, sinto-me bem. Não sei explicar porquê, mas ali sinto-me bem. Sinto que há naquele imenso espaço, qualquer coisa de muito especial… Trata-se de um local de oração e de expressão da fé de pessoas, de homens e mulheres, de jovens e de mais velhos, de doentes e de pessoas sãs, de nacionais e de estrangeiros, etc, que de uma forma ou de outra olham para Fátima como um ponto de encontro com qualquer coisa de místico, de transcendente.

Recuso render-me às reflexões mais polémicas e radicalizadas sobre os acontecimentos históricos no Santuário que este ano celebra o centenário, talvez porque em Fátima sinto-me como se estivesse em casa. Aqui sim, falo muitas vezes não sei com quem, na expetativa de que alguém me oiça e anote os meus pedidos. Obviamente que temos que merecer por isso. E provavelmente esse meu desmerecimento explica o fracasso das minhas expetativas.

É fatual a minha desilusão, porque continuo, pragmaticamente, com a mania de que as coisas precisam de acontecer para então podermos acreditar nalguma coisa.

Se o diálogo não acontece, então nesta relação com Deus alguma coisa deixou de funcionar e de fazer sentido. Egoísmo? Provavelmente. Mas suficiente q.b. para condicionar muita coisa e influenciar as minhas opiniões.

Tenho pena, porque poderia ser uma relação melhor, mais estabilizada, funcional e até pragmática. Deixei há muito de acreditar que isso alguma vez seja possível.

LFM
6.3.2017

Perplexidade democrática

1. Esta tarde (terça feira) iria decorrer uma conferência na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, que tinha como convidado o historiador Jaime Nogueira Pinto, mas foi cancelada devido à pressão contra a entidade responsável pela organização, a "Nova Portugalidade", considerada pela Associação de Estudantes como "nacionalista e colonialista". A conferência tinha como título: "Populismo ou Democracia: O Brexit, Trump e Le Pen". Face à pressão de alguns alunos, a direção da faculdade resolveu cancelar a dita conferência. O director da faculdade, Francisco Caramelo, deu a cara e assumiu claramente que a conferência podia suscitar um ambiente de violência ao seu redor. Vai daí que a melhor opção seria cortar a palavra, suponho, democraticamente, ao conferencista e ao grupo organizador. 

2. Nada tenho contra o senhor e conheço-o apenas da televisão em alguns programas de debate. Nunca me provocaram nenhum sobressalto ou surpresa de maior os seus pronunciamentos. Mas, seja como for, esta situação é intolerável. Mais uma vez temos um sinal da crise em que mergulhou o mundo democrático. Em nome do medo e das desconfianças desmedidas parece valer tudo, para que o combate contra os valores democráticos aconteça assim descaradamente. 

3. Sem ouvirem, zelosamente, catalogaram a conferência de "fascista, reacionária e colonialista". Mas, o que dizer da "solução democrática", longe de ser reacionária e nada fascista, coarctando a palavra, o direito à opinião e à liberdade de expressão? - Quer dizer então, que silenciar um convidado que ía falar de um assunto que não agradava a alguém é exercício democrático? - Estamos falados caros alunos e zelosa direção da faculdade de Ciências Sociais e Humanas. 

4. Esta medida trumpista diz muito sobre o estado de coisas em que estamos quanto aos valores da democracia. O respeito pela liberdade dos outros parece ser zero. O futuro com meninos estudantes destes também não nos garante nada e somos assaltados pelo assombro de uma profunda perplexidade, não fosse tudo isto revelar-nos o quanto o amanhã pode ser assustador. 

segunda-feira, 6 de março de 2017

Somos vítimas da mediação do negro

1. Somos vítimas do martelamento da comunicação social em geral. Um telejornal é um bombardeamento essencialmente de más notícias. O gosto mórbido pelo negro. Todos o apreciam e ninguém pode gabar-se que está imune a esse gosto.

2. Tantas vezes tenho a sensação que se as notícias negativas faltassem não havia nada para dizer. Um drama que faz enfermar e morrer todos os dias o melhor que a humanidade tem, a capacidade de comunicar a verdade com honestidade.  

3. Nunca como hoje a humanidade foi tão agredida. Todas as horas do dias somos literalmente bombardeados com anúncios maus, que nos mostram sangue, mortos, feridos, escombros e tudo o que vai acontecendo de pior no mundo. Vale ainda salientar que as coisas acentuam-se particularmente às horas da refeições, facto que me faz inquietar ainda mais. Nessa hora da partilha do pão e do convívio familiar, chega também a avalanche dos alarmes do horror das guerras e os estrondo das armas dos terroristas.

4. Alguns podem derrotar esta reflexão com a ideia de que temos de saber das coisas e dos acontecimentos, é verdade que sim. Pois, pior ainda será que andemos alienados do que se passa à nossa volta, não podemos tapar os olhos e os ouvidos quando outros semelhantes a nós perto ou longe sofrem. Porém, o que salienta à vida e aos ouvidos também é que as notícias acarretam sempre uma desproporção entre o que é positivo e o que é negativo. Uma bomba que rebenta em qualquer parte do mundo sempre vai consumir mais horas de comunicação social do que o remédio que algum cientista tenha descoberto para minorar a dor ou curar alguma doença. Os fracassos da humanidade despertam mais atenção do que os êxitos e é nessa questão que gostaria de colocar esta minha reflexão ou a minha pergunta: porque tem que ser assim?

5. Também alguns justificarão que a sociedade continua a preferir o negro ao branco, os fracassos aos sucessos e a escolha entre o bem e o mal recai sempre no que de pior acontece. Os programas que as televisões têm nas manhãs e nas tardes são também preenchidos com o que há de pior da vida humana. Eles são violações, roubos, assassinatos bárbaros e toda uma panóplia de acontecimentos cada um pior do que o outro, para que se permita depois comentar, fazer directos e explorar ao máximo toda a envolvência das tragédias ou do pior que a humanidade produz.

6. A comunicação social tem o dever de informar, certo. Mas, também tem o dever de educar, elemento frequentemente esquecido pelos agentes da comunicação social. A desproporção entre branco e negro, entre leve e pesado, entre bem e mal, induz as mentalidades em geral para o pessimismo e para o catastrofismo. Hoje a mentalidade geral é negativa e as pessoas olham o futuro com pouca ou nenhuma esperança. Por isso, tal comportamento não permite o melhor que a sociedade devia ter, a bondade e a felicidade. Infelizmente, são cada vez mais os passos que temos que dar para encontrar tais valores à nossa porta. A mediação do negro tem feito o seu caminho e cada vez será pior se entretanto não acordarmos.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Uma palavra só foi o meu alimento

Ensaio de poema para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre, nunca prejudicando ninguém. 
Uma palavra só foi o meu alimento
Sem que outra palavra servisse de mantimento
Nem muito menos outro impulso a gerar o som
Fosso do tempo que fizeste dentro de mim
Que escavaste no meu silêncio, amo
A música de um violino a tocar nas tuas mãos.
Faz o favor de proclamar o dom do pó
Sob uma ordem sincera
Para todo o homem que visitas
Numa casa em chamas dentro e fora
Do lume que veio da paisagem
E gerou cinzas que resultam das labaredas do fogo.
Agora sou pedra antiga de uma soleira
Onde era a porta para entrar no aconchego de uma mãe
Candelabro que me ofusca a visão 
Se venho da noite para a intensidade do sol.
É por isso que hoje ando seguro
Com a luz do futuro dentro das minhas mãos.
JLR

A urgência da conversão convoca-nos

Comentário para a missa do fim de semana... I domingo da Quaresma:
Os textos da missa deste primeiro domingo da Quaresma são um convite à «conversão», isto é, deixarmos tantas coisas desta vida e deste mundo que nos desviam de Deus e da nossa dimensão espiritual. Pois, os textos chamam-nos a colocarmos Deus no centro da vida, aceitar que seremos mais humanos e mais felizes se estamos em comunhão com Ele, escutar o quais são as suas propostas de salvação para o mundo e tudo fazermos para levar à prática os Seus planos de uma vida mais justa, mais fraterna, com mais igualdade e oportunidades para todos e a lutarmos com toda a convicção pela amizade e pela fraternidade humana.
A primeira leitura afirma que Deus criou o homem para a felicidade e para a vida plena. Por isso, quando inventamos esquemas de egoísmo, de orgulho e de prepotência e construímos caminhos de sofrimento e de morte, é sinal que não cumprimos a nossa principal vocação, sermos felizes e tudo fazermos para que os outros também sejam felizes connosco.
A segunda leitura propõe-nos dois exemplos: Adão e Jesus. O esquema de Adão gera egoísmo, sofrimento e morte, este esquema está ainda profundamente impregnado no mundo e em tantos homens e mulheres que escolhem este caminho para fazerem vingar os seus esquemas pessoais, mesmo que isso conduza ao sofrimento e à morte. O esquema de Jesus gera vida plena e definitiva. O Seu exemplo ajuda-nos a descobrirmos o sentido da vida verdadeira, que nunca se reduz a um pensamento só sobre si próprio a favor do mal contra alguém. Vai ao encontro de todos, mesmo até daqueles que às vezes nos querem mal.
O Evangelho apresenta, de forma mais clara, o exemplo de Jesus. Ele mostra-nos que uma vida que aposta apenas em esquemas de realização pessoal egoísta é uma vida perdida e sem sentido, e que toda a tentação de ignorar Deus e as suas propostas é uma tentação diabólica e que o cristão deve, firmemente, rejeitar para que seja exemplo para tantos outros que eventualmente ainda não conhecem estas propostas.  

quarta-feira, 1 de março de 2017

Preocupações quaresmais

1. No blogue "Fénix do Atlântico" do meu amigo Luís Calisto saiu na segunda feira passada (27/02/2017) esta cara dirigida ao clero da Madeira, que PODE SER LIDA AQUI.

2. Já que a carta é dirigia ao clero da Madeira e eu faço parte do clero, vou ensaiar aqui uma reflexão acerca da missiva clerical cheia de «preocupações quaresmais».

3. O nosso povo costuma dizer que quem anda à chuva molha-se e a nossa Diocese do Funchal tem andado muito debaixo de chuva, isto é frequentemente se põe a jeito. Ele é a caridade, ele é o seminário, ele é o património, ele são as suas misteriosas contas, ele é o Jornal da Madeira e ele é o seu silêncio em tantas coisas importantes para a vida dos madeirenses...

4. Mas, antes mais, devo colocar um ponto de ordem. Não devemos responder a cartas anónimas, por mais interessantes e sugestivas que tais missivas sejam.

5. Porém, esta missiva assinada pelo «Francisco Falante», até tem algum interesse. Primeiro, porque parece ter vindo de um clérigo católico, ainda mais porque nos trata como «caro irmão e colega em Cristo…» e a linguagem denuncia tiques clericais e aturado cuidado em fundamentar todas as suspeitas relativamente às «renúncias quaresmais» dos últimos anos. Das duas uma, ou estamos diante de um padre escondido atrás de um arbusto e isso será muito grave, ou então estamos perante alguém que conhece muito bem como funciona a Diocese do Funchal. Será que podemos qualificar de algum infiltrado na casa episcopal? – As várias informações vieram da comunicação social, «amplamente publicitada em órgãos oficiais tal como tem sido habitual nos últimos anos…», e quanto às preocupações vieram da condição do escriba ou da sua ligação bem familiar ao ambiente diocesano.

6. A carta não tem muita novidade, porque reincide num tema mais que badalado nesta praça, a prestações de contas que só meia dúzia sabe onde param relativamente ao deve e haver da Igreja da Madeira. Por isso, levam com esta brisa espirituosa a levantar suspeitas, desconfianças e «preocupações».

7. Não gosto deste género de atitudes à sombra do anonimato. Por isso, não deve ter muito impacto o escrito. Antes seria mais produtivo e mais interessante para o bem da Igreja da Madeira que lá estivesse um nome bem concreto que pudéssemos ver quem concretamente estava preocupado quanto aos assuntos que interessam a todos nós. É pena não sabermos de onde veio e de quem veio esta missiva.