Convite a quem nos visita

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A beleza da vida quando somos positivos

Pão quente da Palavra - domingo V Tempo Comum
O impulso de Jesus no Evangelho é sintomático: «Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de pregar aí também, porque foi para isso que Eu vim». Temos de redescobrir a urgência da missão, a qual não se identifica com o proselitismo, constrangendo os outros a adoptar o nosso modo de pensar e de ver, nem se reduz a uma mera inculturação do Evangelho, mas que antes é uma encarnação da Palavra de Deus na multiplicidade de condições humanas, línguas e costumes das pessoas que se vão encontrando.
A exclamação Paulina «Ai de mim se eu não anunciar o evangelho» (1 Cor 9, 16), é igualmente válida para todo aquele que, sendo leigo, presbítero, bispo ou Papa, recebeu das mãos da Igreja o Evangelho, esse mesmo Evangelho que deve propagar como se difunde «o perfume de Cristo» (2 Cor 2, 15) entre aqueles que estão perto e os que estão longe.
Jesus não quer que acabemos por desvalorizar o Evangelho que foi depositado em nós como «um tesouro, em vasos de barro» (2 Cor 4, 7), mas quer antes que arrisquemos tudo para o fazer atractivo e útil ao sentido da vida da humanidade inteira. Jesus Cristo em pessoa é o tesouro, achado no meio do campo, pelo qual vale a pena vender quanto possuímos e somos, a fim de o adquirir. Por ele somos chamados a considerar tudo como «lixo, a fim de ganhar Cristo e Nele encontrados» (Fl 3, 8-9).
O Evangelho completa a sua carreira com os pés cansados, cobertos de pó e não raro feridos, mas como Paulo diz, o que mais importou foi precisamente isto: «nada mais quis saber, a não ser Jesus Cristo e este crucificado» (1 Cor 2, 2).
Neste suspiro de São Paulo, todo o cristão se revê. O Evangelho, é a grande Palavra para o cristão - qual terreno, onde se mostra o tesouro Jesus Cristo - para ser depois apresentado por cada um de nós que já alimentamos o sentido da vida com as pérolas do seu ensinamento.
A descoberta deste tesouro de alegria, de paz, de amor e de plenitude, deve fazer de todos os cristãos, pessoas inquietas enquanto a mensagem do Evangelho não chegar a todos os corações. Por isso, façamos do desabafo de Paulo a nossa respiração e que todos possam dizer, não sei viver neste mundo se não dou aos outros tudo o que Jesus já me deu. Esta oferta pode, se nós quisermos, embelezar o nosso mundo e a vida toda.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

O sofrimento dos outros

Escrever nas estrelas
1. As situações limite que a vida apresenta frequentemente lavam-se com lágrimas e com perplexidade. Pior se for com a revolta contra tudo e contra todos. A primeira acontece sempre quando a dor é fundo, a segunda também acontece muitas vezes, mas no que adianta, podemos dizê-lo, é zero.

2. Tantas vezes os meios humanos esgotam-se e não correspondem à solução que se busca. Nada deste mundo é perfeito e todos os que no passado já garantiam as soluções definitivas, estão a dormir o sono eterno nos cemitérios.

3. Havia uma mulher desenganada, que tinha batido em todas as portas do mundo, é verdade que todas se abriam e até davam o melhor que tinham para que a cura acontecesse. Mas nada. Anos e anos a fio nesta canseira inglória. Mas, certo é que neste vaivém deambulou esta mulher sobre um oceano de lágrimas que o sofrimento fazia verter sobre a fétida chaga dolorosa.

4. Noutro momento havia um pai aflito sem saber mais o que fazer, o que pedir e muito menos a quem pedir. Há uma filha à porta morte em casa sobre a enxerga do desespero e da dor. Não há cura nem vida suficiente que estanque tanto desespero e perplexidade.

5. Ambos os casos movidos pela força da fé, sentiram que lhes resta o «poder de Deus», que viram em Jesus que passa pelos caminhos do mundo e da vida. A Ele, recorreram humildemente. Obviamente que o «médico divino» curou a mulher e a menina já morta voltou à vida. Todos se riram dele. Porque segundo um estudo bem recente, os que não crêem são mais inteligentes que os se movem pela fé.

6. O melhor remédio para todo o género de sofrimento é a confiança, porque a cura acontecerá sempre, mesmo que seja necessário experimentar algumas vezes a profundidade da morte. Mas o que será isso? – Nada na imensidão da força interior da lista infinita dos verbos «E mesmo se alguns verbos me enchiam os olhos de lágrimas, pelas imagens interiores que espontaneamente acordavam, era impossível não ler essa lista interminável com um profundo sentimento de gratidão» (Tolentino Mendonça).

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

The Post - A Guerra Secreta

Cinema
1. Fica a renovação da ideia: tudo pela liberdade de imprensa nada contra esse direito elementar da democracia.

2. Estreou quinta-feira, o filme The Post, que junta, Meryl Streep, Tom Hanks e Steven Spielberg. Para além dos nomes de peso, este é também um filme sobre o papel e importância do jornalismo e da comunicação em geral.

2. Vamos um pouco à história do filme. Katharine Graham (Meryl Streep) é a dona do «The Washington Post», um jornal local que está prestes a lançar as suas acções na Bolsa de Valores de forma a se capitalizar e, consequentemente, ganhar alguma estabilidade financeira. Ben Bradlee (Tom Hanks) é o editor-chefe do jornal, sedento por alguma grande notícia que possa fazer com que o jornal suba de patamar no sempre concorrido mercado jornalístico. Quando o New York Times inicia uma série de notícias denunciando que vários governos norte-americanos mentiram acerca da actuação do país na Guerra do Vietname, com base em documentos secretos do Pentágono, o presidente Richard Nixon decide processar o jornal com base na Lei de Espionagem, de forma que nada mais seja divulgado. A proibição é concedida por um juiz, o que faz com que os documentos cheguem às mãos de Bradlee e a sua equipa, que precisa agora convencer Katharine Graham e os outros responsáveis pelo The Post sobre a importância da publicação de forma a defender e prevalecer, custe o que custar, a liberdade de imprensa.

3. Conclusão, na luta entre o Presidente Richard Nixon e toda em toda trama, prevalece a frase: «para ter o direito da publicação, publicar sempre». Daí que o filme reafirme o princípio para todos os tempos: «A imprensa existe para servir os governos, não os que governam». E segundo realizador Steven Spielberg: «Senti que existia uma grande urgência de reflectir as conexões entre 1971 e 2017, porque eles foram anos terrivelmente semelhantes. É um filme para os famintos pela verdade». Por isso, o filme vale essencialmente, porque reafirma o principal compromisso da comunicação, que é o de levar a verdade às pessoas.

4. A fonte dos documentos em causa, não aparecendo muito no filme, apenas no início - o suficiente para se mostrar perplexo e inquieto com as mentiras dos políticos – ganha, porém, uma importância crucial, o suficiente para nos pregar uma valente lição, que nos inquietamos com a necessidade da comunicação e com a democracia. A fonte dos jornalistas dando uma entrevista na televisão, embora em segundo plano, diz o seguinte: «Dizem que isso é invasão de privacidade, que é algo que pertence ao governo. Mas o governo deveria pertencer ao povo, trabalhar para - e com - a sociedade. Se eles julgam ser privado algo que afecta as nossas vidas, o quanto estariam eles violando a nossa própria privacidade por esconderem o que deveríamos saber? Isso afecta as nossas escolhas, a nossa casa. Se o que diz respeito a uma única pessoa é mais importante do que o que diz respeito ao povo, essa pessoa está a dizer que está acima de todos, ora isso é ditadura». Nem mais!
 
5. Um filme importante e fundamental. Assim como que num abanão em modo de puxão de orelhas lembra-nos que «quem fica neutro em situações de injustiça, está do lado do opressor». Quem puder que vá ver… Lembra-nos de muito que é importante e outras coisas também se aprende.

As estrelas ditaram as pedras revelaram

Frase do Público deste domingo (28/01/2018), "ESCRITO NA PEDRA":
"A nossa maior glória não reside no facto de nunca cairmos, mas sim em levantarmo-nos sempre depois de cada queda".

Confúcio (551 a.C. -479 a. C.), pensador e filósofo chinês

sábado, 27 de janeiro de 2018

Uma via sacra interior do meu mundo

Ao sétimo dia: 
Mais do que uma fúria desregrada alimento um sentimento,
de silêncio pela mão no caminho
escondido mas interior na paixão do movimento.

O ruído impõe-se da rua,
passa por mim que revejo em cada coisa
que oiço naquele som de praia que me invade
no vai e vem de toda a verdade.

Mais um pouco terminado o ruído,
como que do nada desperto meio perdido
no poema escrito a partir do nada
mas nele recentro o brilho e o afeto
de uma flor que colho na beira da estrada.

Pela razão cheguei naquela hora de abrir a janela,
e de fora ouvi alguém chorar
toda a tristeza do mundo em vão
eram lágrimas Senhor da fome do amor
que estão a fazer verter em cada rosto a privação do pão.

Tanto e de tudo para nos fazer pena,
são a dor que preenche o mar imenso
que banha os corações vazios pelo egoísmo
esta é a hora em que é preciso ter vontade de ver o regresso
da amizade que só o sorriso desmedido
faz vencer todo o dolorismo.

Eu também por aí estou como um cego,
faço-me como sou pela estrada
embora saiba que ela é maior do que eu
e levado pelo passo da esperança
nada anseio mais do que posso por onde vou
e na incontida dor da humanidade
sei também que nada sou.
JLR

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Significado do nome Jesus

O nome “Jesus” é aquele que foi divinamente dado através da mensagem do Anjo Gabriel a Maria: “Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus” (Lucas 1,31). Entre todos os nomes, Deus escolheu este por algum motivo. 
A Enciclopédia Católica afirma: “A palavra Jesus é o latim originado do grego Iesous que, por sua vez, é a transliteração do hebraico Jeshua,Joshua ou ainda Jehoshua , que significa: “[Deus] é a salvação”.
O Catecismo da Igreja Católica acrescenta: “Jesus significa, em hebraico, ‘Deus salva’. Na anunciação, o Anjo Gabriel deu-lhe esse nome para expressar sua identidade e sua missão”.
De acordo com algumas fontes antigas, “o nome grego está conectado com o verbo iasthai (curar); portanto, não é surpreendente que alguns padres gregos conectam a palavra Jesus com essa mesma raiz”.
Por fim, esse é um nome realmente poderoso, que resume quem era Jesus e o que Ele veio fazer na Terra.
In Aleteia

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Os males de sempre que nos perseguem

«Pão quente da Palavra» para o domingo IV tempo comum 
São Paulo na passagem da sua primeira carta aos Coríntios (1 Cor 7, 32-35), convida os crentes a repensarem as suas prioridades e a não deixarem que as realidades transitórias sejam impeditivas de um verdadeiro compromisso com o serviço de Deus e dos irmãos. A vida do dia-a-dia vai-nos empurrando em direcção aos nossos problemas, questionando as nossas opções, fazendo-nos avançar ou recuar. E questiona sobretudo a dimensão daquilo a que nós chamamos problemas.
Por isso, reparemos… Novecentos e sessenta e três milhões de pessoas (963 000 000) vivem situações de fome ou forte privação alimentar, em todo o mundo. E, tudo indica, a tendência é que isto se agrave. São números da FAO. Apesar da abundância de víveres no mundo, mais de 800 milhões de pessoas continuam a ir dormir de estômago vazio; milhares de crianças morrem, a cada dia, devido a consequências directas ou indirectas da fome, da subalimentação crónica. Apenas e só porque a injustiça é muito grande. Acusam que apenas 1% da humanidade vai deter ou já detém 99% da riqueza que há no mundo. Um escândalo que brada aos céus. Por isso, enquanto as riquezas acumuladas no mundo permitem todo tipo de esperanças, a pergunta mantém-se: é possível acabar com a fome?
Às vezes, chegamos à conclusão que o nosso foco está descentrado, e verificamos o quanto privilegiados somos. Continua a ser difícil arrancar de nós mesmos a carapaça dos pequeninos problemas que muitas vezes criamos. Mas estes outros continuam a alastrar, e a aproximar-se, cada vez mais, de nós todos. Face a estes problemas que afectam muitos milhões de seres humanos, devemos deixar de nos consumirmos nos pequenos problemas que levantamos aqui ou ali, como se nisso estivesse o centro do mundo e da vida. É preciso aprendermos a relativizar e a levar a vida com algum sentido de humor. São Paulo procura guiar-nos para o essencial e convoca para «o que é digno» para todos nós e mais ainda apela que o essencial «pode unir ao Senhor sem desvios».
Os grandes problemas do nosso mundo requerem uma união firme de toda a humanidade, para que se acabe com este escândalo da fome e de todo o género de pobreza que ainda consome grande parte da humanidade. E se antes pensávamos que estes problemas, eram só dos outros e distantes, afinal, enganamo-nos, estão aí já nas famílias cada vez mais próximas de nós. Por isso, estejamos atentos para sermos amigos e solidários com quem mais necessita.
Ao menos que se cumpra em nós esta mensagem, o cristão não pode fazer a sua viagem existencial de olhos fechados, indiferente aos outros irmãos. Tem de observar o mundo humano por onde passa, onde reside, onde trabalha.
O Cardeal Cardijn, ao receber um jovem operário que queria ingressar na Acção Católica, entre outras coisas perguntou-lhe quantas janelas tinha a maior casa da sua aldeia.
- Não sei! - Respondeu o rapaz.
- Então vai, conta-as e volta.
Queria ensinar o jovem a observar o mundo para poder transformá-lo num mundo melhor.
Para poder dar-se, tem de observar onde falta amor, onde falta justiça, onde falta perdão, onde falta a paz.
O cristão é um instrumento de melhoria e salvação do mundo humano pela mensagem salvífica de Cristo.
Tem de viver a vida de janelas abertas sem cortinas de cobardia, de medo, de egoísmo, de indiferença.     

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Deus e eu

Esta semana com Raquel Gonçalves... Muito obrigado Raquel.
A mão da minha mãe guiava a minha pelo sinal da cruz. Cabeça, coração e os dois lados do peito.
Aquele sinal transportava a crença das mães numa entrega das crianças a um cuidado que queriam que fosse eficaz, na medida certa de uma fé guiada mais pelo temor do que pela certeza.
Era noite e havia o medo de que o sono nos levasse para longe. Selavam o medo com esse sinal de uma Trindade Divina e misteriosa.
Que Pai? Que Filho? Com que Espírito pretendiam selar esse medo primordial de uma morte pelo sono?
Compreendo hoje que esse gesto inaugural era uma senha de esperança da minha mãe, reforçada por um “Deus te guarde” murmurado, inseguro, mas que, ainda assim, era empunhado com a coragem possível contra os mistérios, os medos e a fragilidade da vida a começar em nós.
Esse primeiro sinal de Deus em mim também marcou a geografia da minha relação com o divino. A mão que embalava a fé da minha mãe entre a minha cabeça e o meu coração, ditou essa relação de quem por um lado queria acreditar com o coração inteiro, e por outro duvidava com a cabeça toda. Dividindo a fé pelos dois hemisférios de mim. Em cruz.
À medida que crescia e o mundo se revelava, veio a rebeldia natural contra todos os gestos e palavras e veio também a rebeldia contra a ideia de Deus. Era o tempo da afirmação que se fazia contra as coisas divinas e terrenas, e até contra aqueles que amamos profundamente.  Principalmente contra aqueles que amamos profundamente, os que estão mais próximos, os que vivem em nós. E Deus, assinalado desde esse tempo inaugural na minha cabeça e no meu coração pela mão da minha mãe, estava suficientemente próximo para ser envolvido na tempestade de quem crescia por todos os lados.
Não sei se por teimosia, feitio, curiosidade, insatisfação, medo, ou por todas estas coisas juntas, a minha relação com Deus ficou ali: no desequilíbrio entre cabeça e coração, num lugar cheio de dúvidas, desamparado e turbulento.
Uns anos mais tarde, já adulta, confessei todas estas incertezas a um padre que é também poeta. Do fundo de uma calma e de uma fé que ainda não vive  em mim, José Tolentino Mendonça disse-me que não acreditar (ter dúvidas) é um lugar mais solitário do que acreditar. E é.
Disse também que Deus só pode ser encontrado nos baldios, e que todos nós “amassados de poeira, de sangue e de sonhos, fomos feitos não apenas para o visível, mas para saber contemplar o invisível, saber escutar a música inaudível, aquilo que neste momento está a ser entoado, e que todo o ruído do mundo e de nós próprios nos impede de ouvir”.
Mais recentemente, afirmou que Deus não é uma resposta, é uma pergunta. E, se calhar, é essa a minha relação com Deus: uma pergunta colocada pela mão e pela fé inabalável da minha mãe, ou pela esperança impossível de conciliar entre a minha cabeça e o meu coração.
Deus e eu somos uma pergunta infinita, mas talvez também uma música inaudível no baldio onde fica a cabeça, o coração e a mão da minha mãe ainda a inscrever-se em mim. 

As minhas bombas atómicas

Escrever nas estrelas
Que mundo inventou a humanidade? Que formidável inteligência assiste a humanidade para ser capaz de inventar o sublime e ao mesmo tempo também a mais horrível fealdade? – São perguntas que me coloco diante do absurdo quotidiano que vou vendo por todo o lado, sem que eu esqueça o formidável que a humanidade é capaz de ser e de fazer.
Tudo isto resulta que esta humanidade que somos trouxe um tesouro que sempre se diz no vocabulário do amor, da paz, da solidariedade, da amizade… Mas também trouxe montanhas de lixo tóxico no vocabulário do ódio, do rancor, da vingança, da violência… O que nos permite resumir-se tudo no que tem de bom a humanidade, resulta na sua capacidade de implementar a justiça e de tomar a consciência do bem comum, mas também do horrível que há nessa mesma humanidade, que resulta na incapacidade para não perdoar e para não resolver sem dramas e sem violência o que deve ser resolvido em nome da dignidade e do valor incalculável que tem cada pessoa.
Teria de existir sempre a consciência do pior que há em nós para não o praticarmos e sermos capazes de fazer sobressair sem hesitações o melhor que cada coração humano enforma.
Então Jesus, Ele que está perto desse recanto interior de cada homem e de cada mulher com a luz da vida, para que o coração bata no ritmo certo pelo movimento sublime do amor. Não devia faltar-nos a coragem para realizar a dádiva do aperto de mão em todas as circunstâncias onde vingou a divisão, a incompreensão e a falta da paz. O olhar e a palavra que ecoa no encontro com os outros a cada hora deste mundo, deviam ser a maior riqueza e as verdadeiras «bombas atómicas» sempre prontas para serem lançadas quando necessário reconstruir o caminho do bem e da felicidade.

sábado, 20 de janeiro de 2018

O que é o Reino de Deus?

«Pão quente da Palavra» do Domingo III Tempo Comum
O Reino de Deus, na Bíblia, designa um governo ou domínio em que tem Deus por soberano ou governante. É sinónimo de teocracia. Segundo o Gênesis, os primeiros humanos rebelaram-se deliberadamente contra a soberania de Deus. O Reino Milenar de Cristo é subsidiário do Reino de Deus.
Entre os teólogos existe conceitos divergentes quanto ao que é concretamente o Reino de Deus, que podemos sintetizar em três pontos:
1. um governo real estabelecido no Céu;
2. uma condição mental existente nos verdadeiros cristãos;
3. a Igreja Cristã.
Segundo uma outra interpretação teológica, o Reino de Deus é o Projecto Criador de Deus a realizar neste Mundo e que consiste na plena realização da Criação de Deus, finalmente liberta de toda a imperfeição e compenetrada por Ele. É interpretado também como o estado terminal e final da salvação, onde os homens irão transcender-se e viver eternamente com Deus.
Lá, a lei do amor incondicional a Deus e ao próximo é finalmente instaurada definitivamente. Não haverá mais tempo, mais sofrimento, mais conflitos, mais ódio, mais vingança, mais crueldade ou barbárie, e o céu e a terra unem-se finalmente.
 Embora Deus seja Todo-Poderoso, Ele quer que nós, humanos, dotados de inteligência e razão, participemos de um modo recíproco, livre e voluntário no Projecto Criador de Deus, o maior de todos os projectos que o mundo jamais viu, englobando todos os tempos, todos os povos e todos os seres do Universo.
Seguindo este pensamento, esta missão torna-nos verdadeiros parceiros de Deus, com muita liberdade e simultaneamente muita responsabilidade. Isto quer dizer que nós temos o poder e a capacidade de acelerar a vinda do Reino de Deus com a nossa fé em Jesus Cristo e com as nossas boas acções.
Os valores principais do Reino de Deus são a verdade, a justiça, a paz, a fraternidade, o perdão, a liberdade, a alegria e a dignidade da pessoa humana. Fica dito o desafio: «Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus» era o tema da pregação de João, o Baptista (Mt 3, 2). O prometido Messias chegara, isto é, quando Jesus de Nazaré foi baptizado e Ungido (Lc 3, 30-31) essa realidade anunciada por João Baptista confirmou-se plenamente.
Todo o ministério de Cristo girou em torno do Reino de Deus. Ele instruiu os seus Apóstolos dizendo: «Pregai que está próximo o Reino dos Céus». Essas instruções seriam repetidas a todos os seus discípulos, a todos os cristãos de todos os tempos e contextos da vida deste mundo (Mt 10, 7; 24, 14; 28, 19-20; Atos 1, 8).
A Bíblia inteira gira em torno da vinda do Messias e do Reino de Deus. Por conseguinte, o Reino de Deus tinha um sentido profético e missionário na vida da Igreja Cristã dos primeiros tempos, é preciso que hoje se retome com convicção esse sentido para que o Evangelho seja hoje realidade viva no meio do mundo concreto dos homens e mulheres deste tempo que é o nosso.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Matrimónio aéreo mas tão próximo de Deus

O Papa Francisco presidiu a uma união matrimónial dentro do avião. E agora como ficam os matrimónios da carga de papéis e papelinhos que infernizam tanto a vida dos casais e dos padres? - Mais umas manchadas na Igreja burocrática que alimentados por todo o lado. Alguns irão considerar inválido, outros que o Papa está sem juízo, outros ainda que é um sacrilégio e quiçá outros ainda vão encontrar mais um elemento para considerar que este Papa é um herege. Por mim, considero três coisas, uma, já afirmei, cortou cerce mais uma vez contra a burocracia na Igreja Católica, outro provoca os zelosos burocratas que exigem papéis e papelinhos para tudo e nada para mostrarem poder e, por fim, a melhor de todas, deu legitimidade à ousadia de alguns (ainda poucos) que vão por aqui e por ali ensaiando facilitar a vida das pessoas. Um vibrante bem haja e um comovido obrigado ao Papa Francisco por esta abençoado dádiva que confirma o amor de um casal em qualquer lugar e circunstância.

As imagens que valem mais do que uma biblioteca

Passo leve, mas seguro, desceu do papamovel, o Papa Francisco, para ir ao encontro da jovem que caiu do cavalo, quando fazia guarda à passagem do Papa. Eis aí o testemunho da Igreja próxima, "em saída", "hospital de campanha"... Valem as imagens por dezenas ou milhares de textos, incluindo os papais...

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Pesar e vergonha

O discurso do Papa Francisco ao chegar ao Chile, no Palácio de La Moneda perante as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático, vincou bem a sua posição quanto aos abusos contra crianças, que têm motivado alguns protestos e ataques contra igrejas ou dependências da Igreja Católica do Chile e até mesmo contra a pessoa do Papa Francisco.

Está bem assinalada a expressão, "pesar e vergonha", com o respetivo pedido de perdão. Ao mencionar numa parte do discurso sobre as crianças, o Papa expressou o seu pesar e vergonha diante dos casos em que elas foram lesadas por ministros da Igreja: "Não posso deixar de exprimir o pesar e a vergonha que sinto perante o dano irreparável causado às crianças por ministros da Igreja. Desejo unir-me aos meus irmãos no episcopado, porque é justo pedir perdão e apoiar, com todas as forças, as vítimas, ao mesmo tempo que nos devemos empenhar para que isso não volte a repetir-se". A determinação do Papa é evidente e o apelo para que toda a Igreja e a sociedade não se descuidem e façam tudo para que os abusos não se repitam e deixem de existir.

Este tema tem sempre uma cruel actualidade. Os abusos contra crianças, venham de onde vieram, são um crime e devem ser punidos com todo o rigor da lei e da justiça. O Papa Francisco, quando se trata de abusadores membros do clero, sempre tem manifestado o seu pesar e vergonha com o consequente pedido de perdão às vítimas e as suas famílias, sem esquecer que devem existir as devidas investigações e o julgamento nos tribunais. Mais ainda se deve salientar que as medidas e as suas determinações no interior da Igreja têm sido duras para serem aplicadas contra os padres abusadores. Neste domínio a Igreja Católica tem sido exemplar.

Porém, os abusos são transversais à sociedade e tem surgido denúncias dos mais inverosímeis abusadores.  A comunicação social todos os dias nos dá conta de situações de abusos sexuais contra crianças. Eles são os próprios pais, tios, vizinhos, padrastos, professores, padres e tantas situações tão surpreendentes que nos deixam boquiabertos quando os tomamos conta de que os abusadores estão nos mesmos espaços que as crianças abusadas. Uma verdadeira tragédia que não parece ter fim à vista. É por isso, que não teremos a real dimensão desta violência e que deve ser incalculável o sofrimento atroz que passam algumas crianças todos os dias sem que venha a ser travada a sua dor e os abusadores devidamente penalizados. 

É necessária uma luta sem tréguas contra esta desgraça que nos impressiona e revolta cada vez com mais frequência. Algo anda mal se apesar de serem cada vez mais denunciados os abusadores e alguns punidos severamente, mesmo assim, ainda não conseguimos travar os abusos e os abusadores.

Todos sentimos dor e pesar. Mas é necessária uma luta constante contra todo o género de abusos que conduzem ao sofrimento das crianças indefesas. É preciso apostar na educação a todos os níveis, especialmente, numa educação para a sexualidade integrada, com respeito e dignidade. Se a tragédia é transversal à sociedade, a luta pertence à sociedade toda, porque a ninguém devidamente educado e ciente do mal deixa de sentir a dor daqueles que o rodeiam quando são vítimas da loucura perversa de alguns, especialmente, se são as crianças.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Deus e eu

O Ilídio Gonçalves, no seu/nosso "Deus e eu", oferece-nos o seu interessante percurso de vida que o conduz ao "conhecimento" de Deus... Muito bonita esta "viagem" pelo exterior para chegar ao seu interior com toda a força da existência que nos rodeia. Obrigado Ilídio por esta "viagem" tão sincera e sentida. 

Com bastante surpresa, recebi um convite do padre José Luís Rodrigues para uma rubrica do seu 'Banquete da Palavra', 'Deus e eu'. Afinal quem sou eu para merecer tal oportunidade?
Passado esse mesmo momento da surpresa, deixei assentar a poeira e, tal como tinha dito num comentário acerca de um outro testemunho, respirei fundo e convenci-me das minhas próprias palavras: tudo o que vem de dentro é válido.
"Deus e eu"
Ainda há poucos dias, num texto para os meus amigos, acerca do meu Natal, falei um pouco da minha relação com Deus e a época Natalícia. Partilho agora convosco algumas palavras de então e outras acerca deste tema.
A minha relação com Deus, sempre foi tumultuosa. Como num verdadeiro amor. Rendi-me sempre a essa paixão desde que possuo entendimento, através do amor pelas pessoas, fossem elas da minha família, amigos ou simplesmente conhecidos e mais recentemente, não menos, pela Natureza que me envolve. Esperei sempre o melhor de todas elas, sabendo eu próprio, das minhas grandes dificuldades em dar o melhor de mim mesmo, aos outros. A força de Deus foi sempre aquela que nunca me deixou desistir após cada queda, cada desilusão. Ainda nos dias de hoje, é ela que me levanta, mesmo quando penso, demasiadas vezes, que me abandonou.
O meu amor por Deus, começa no seio de uma família humilde, onde se respeitava um Deus que se desconhecia. Sempre me fez confusão, esta condição de ter Alguém, que era o nosso maior Amigo e ao mesmo tempo, um Desconhecido. Como todas as crianças da altura, frequentava o ritual da catequese e nem mesmo a minha querida e paciente catequista, conseguia motivar-me para esse Deus, sempre presente, mas inalcançável. A idade não me permitia questionar quem nos ensinava, essa permissão existia apenas com o meu pai e minha mãe a breves espaços e dentro de determinados parâmetros, em casa. Eram tempos de sobrevivência, não de grandes questionamentos.
Convenci-me então que, esta era uma questão que teria de resolver sozinho. Não desiludiria quem esperava de mim uma conduta cordata, mas disponibilizar-me-ia para conhecer esse Deus, tão respeitado e ao mesmo tempo, tão temido.
Pouco a pouco, enquanto o mundo das palavras se abria para mim, fui conhecendo um Deus de outros. Odiado por uns, ignorado por tantos, respeitado por outros, adorado por muitos, era um Deus que apresentava-se de uma forma difícil de entender. Afinal, se Deus era universal, porquê tantas formas diferentes de olhar para Ele? Depois de muito ler, cheguei à conclusão que o meu Deus não poderia ser aquele. Teria de O procurar, dentro de mim mesmo, a Sua essência.  Lembro que este caminho começou, de uma forma prática, quando, nas idas à igreja para a "confissão obrigatória", desviava-me do propósito, ocupando o mesmo tempo a falar com Deus, no meu entendimento de então, de uma forma "directa", em frente do Sacrário da igreja da paróquia. A minha timidez, arranjou assim uma forma de ser o mais verdadeiro possível com Ele. Não precisaria assim de combinar com os meus irmãos e amigos, no adro da igreja, os pecados que iria revelar ao Padre para obter uma absolvição garantida. Tenho a certeza que o Padre adivinhava esses conluios e disso mesmo deu-me conta uma vez em que não consegui escapar à confissão, levado pela mão de minha mãe até dentro da igreja.  Levei assim à letra a palavra do falecido padre Sumares que, uma vez na homilia dominical, ouvi exortando a que cada um estabelecesse o seu próprio diálogo com Deus.
Desde muito cedo o meu primeiro livro de cabeceira foi a Bíblia. Tinha uma predilecção especial pelo Antigo Testamento e só mais tarde descobri a maravilha da mensagem do Novo Testamento. A minha mãe, que me via agarrado à Bíblia, segundo ela, por demasiado tempo, dizia-me assustada que, ainda ia tornar-me numa 'Testemunha de Jeová', igual àqueles que batiam às portas das casas para, segundo ela, "atormentar as pessoas".
A verdade é que, mesmo sem o seu conhecimento, cheguei a conversar com alguns deles, durante a minha juventude. A dado momento, conhecia a Bíblia, principalmente o Antigo Testamento, melhor do que a maioria das pessoas com quem falava e, apesar de discordar da forma e de alguns propósitos, gostava de falar com eles. Talvez porque a igreja católica da altura não me permitia essas conversas. E voltava sempre meus aos diálogos com Ele, apesar dos tumultos, as conversas eram sempre, na maioria das vezes, apaziguadoras.
Estas são conversas que perduram, de uma forma quase assídua, desde esses tempos. Sempre preferi falar com Ele, desta forma. Se tinha que chorar, rir, agradecer, pedir desculpa, pedir ajuda, era com Ele e na sua Presença que preferia fazê-lo sempre. Nos dias de hoje, a única diferença, é que, adicionei a Natureza ao palco das minhas conversas com Ele, contemplando as paisagens impossíveis a partir de sinuosos caminhos e dos píncaros das montanhas da ilha. Trouxe assim Deus para fora de um Sacrário (que ainda não dispenso) para o ar livre aonde O respiro com todo o meu ser e perante a Sua grandeza.
Embora sempre tivesse sido um atento e defensor convicto da Natureza, da qual fazemos todos parte, foi num período complicado da minha vida que me foi mostrada a via de conhecê-la de uma forma directa e profunda. Tomando contacto com a criação d`Ele e sentindo-a no seu pulsar, tanto na perfeição das grandes coisas, como nas mais pequenas, nas quais quase ninguém repara. Isto principalmente, na terra que me viu nascer e que amo profundamente. Não me dei conta da salvação que representou para mim essa predisposição e descoberta na altura, mas a verdade é que, uma nova força surgiu para que eu enfrentasse o mundo e as dificuldades pelas quais então passava.
Foi um caminho que Ele, uma vez mais, me indicou para apaziguar as minhas dúvidas, ajudando-me na via que precisava seguir, não me desiludindo, uma vez mais.
Há uns tempos atrás perguntaram-me porque gostava de caminhar sozinho pelos trilhos de Natureza. Respondi na altura (e ainda mantenho) que, sozinho, a introspecção era maior, não tendo que dar explicações sobre o quanto me emocionava uma gota de orvalho, uma folha caída, uma cascata murmurante, um silêncio apenas interrompido pelo vento na copa das árvores, um trilho ladeado de flores endémicas, ou simplesmente o inconfundível chilrear de um Bis-Bis fugidio. A observação da Natureza e os seus fenómenos como o nevoeiro, a chuva, o vento, a neve, o sol nascente e poente, bem como determinados lugares e paisagens, completam esta necessidade de estar mais perto d`Ele. Compreendo agora a minha avó que não temia andar sozinha e vivia dizendo que andava com Deus por companhia. Sempre com Ele.
Sempre discordamos muito, eu e Deus, sem atribuição de culpas mútuas. Algumas vezes saí e ainda saio das nossas conversas, revoltado e desapontado. Sempre foi assim. Em pequeno, por exemplo, não entendia porque Ele, que podia tudo, simplesmente não ajudava meu pai a entender determinadas coisas, porque não ajudava a minha mãe a ter mais saúde e porque não tínhamos uma vida mais confortável que permitisse uma estabilidade para os meus pais, para os meus irmãos e para mim. Coisa pouca, talvez, como para tanta gente. Mas a verdade é que, mesmo aí nesses momentos, estabelecíamos "tréguas" durante as quais, nem Ele, nem eu, falhávamos. Nem mesmo naquele Natal em que a mãe regressou dia 23 de Dezembro a casa quando já todos não acreditavam, depois de uma longa permanência no hospital, após uma cirurgia complicada. Lembro que não concebia um Natal sem a mãe entre nós e que, era o único que acreditava que ela voltaria para, uma vez mais, celebrar connosco a Festa mais importante das nossas vidas.
Durante esta já longa travessia, foram-me levados familiares e amigos próximos, alguns de formas trágicas para as quais nunca Lhe atribuí culpa alguma. A culpa está e estará sempre em nós. Saber libertar-se dela é um dever nosso, para o qual Ele estará sempre disponível para ajudar. Basta deixarmos.
Hoje tenho a certeza que, as nossas discordâncias mais profundas tinham e terão, sempre, a ver comigo. Afinal, sempre foi Ele quem me conheceu profundamente, desde o início.
A vida ensinou-me a resiliência que me amansou os espasmos da revolta e entretanto, envelheci, ainda com muitas dessas perguntas que me assolavam nesses tempos que passavam, curiosamente devagar.
Com alguma surpresa, é no tempo em que estamos melhor com a vida que menos falamos e agradecemos a ajuda que Ele nos dá, de uma forma que só nós, quando queremos realmente, conseguimos decifrar. Não fujo à regra Humana e sei que fui injusto com Ele tantas vezes. Resta-me o consolo de Ele conhecer-me tão bem e saber que, apesar dessas falhas, Ele foi e será sempre o meu melhor Amigo, no qual eu apoiar-me-ei de forma convicta através das formas que Lhe conheço. Sei que nunca me faltará.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

A ditadura da indiferença

Uma parte do mundo está encurralada pela "ditadura da indiferença", que outra parte do mundo inventou. Má sorte que todo o mundo vê diante de si a desgraça dos que não tiveram sorte, por isso, restou-lhes a marginalidade, a exclusão e, por enquanto, o chão da desgraça e o céu como tecto para quem não tem tecto, são moradores da rua ou "os condenados a dormir na rua". A fatalidade horrível de um crime com vítimas sem que ninguém possa ser acusado de criminoso. 
Este descontentamento tenebrosamente descontente, ditatorialmente implementa às claras a tortura dos tempos modernos, a indiferença.
Se não tivéssemos de chamar exploradores, para não dizer sanguessugas, dos impostos, deviam fazer chegar uma gota que fosse a muitos abrigos que aquecessem todos os corpos famintos de calor e de dignidade. Os famigerados tributados impostos sobre as nossas cabeças, deviam chegar para pagar a conta do abrigo para que ninguém apanhasse frio, mas os irresponsáveis que nos sugam o dinheiro dormem quentes e descansados nas poltronas dos desvios do dinheiro para betonar com cimento armado o nosso pensamento, a inquietude e as dúvidas. 
Resta a ditadura da indiferença de um mundo que continua injusto, cruel e impróprio para dar abrigo aos seres vivos. 
Até quando vamos ser um povo inteiro adormecido diante deste reflexo horrendo do que não devíamos ser, mas que o espelho da incompreensão felizmente não esconde? - Sempre andaremos por aqui enquanto pudermos inquietos, perturbados e perturbando quem não quer ver e pensar.
E sobra por fim uma caridade insultuosa, aquela dos restos que faz pena mandar para o lixo, quando ainda serve para enfiar na barriga do faminto e descarregar a adormecida consciência com poucas ou muitas pílulas religiosas. Coitadinhos de nós sociedade, que ao invés de produzir a riqueza da dignidade para todos, insensivelmente com naturalidade produz a miséria da exclusão pela indiferença.

Tanto pior para a realidade

Para ilustrar o que estamos a viver quanto aos arranjos partidários que assistimos... 

Conta-se que Hegel, cuja filosofia pretendia constituir uma interpretação total e totalizante da realidade, terá sido um belo dia confrontado com um estudante que lhe fez esta simples pergunta: “E se a realidade não for assim?” Hegel, saindo do “Olimpo” da sua complexidade filosófica, terá respondido: “Então, tanto pior para a realidade!”

sábado, 13 de janeiro de 2018

O uso da canábis com fins terapêuticos

Ao sétimo dia:
Imagem Google
É pacífico que todos os medicamentos têm substâncias múltiplas que nós, pobres cidadãos mais do que leigos nesta matéria de drogas, não percebemos patavina. E são tantos os medicamentos com as mais variadas origens. Porém, tinha que existir uma origem (canábis) que precisa do aval dos políticos para ser usada como substância com fins terapêuticos. Não se entenderam na Assembleia da República ainda e por causa desse desentendimento baixou à comissão especializada para ser devidamente discutido até que se chegue a um consenso generalizado. Tudo certo.
Mas não entendo para que é necessária a permissão de uma lei, para que as produtoras de medicamentos com fins medicinais, utilizem a canábis? – Não soubéssemos nós que todos os medicamentos são produzidos a partir de substâncias que se forem usadas fora da dosagem necessária provocam distúrbios da mais variada ordem na saúde do ser humano e, porque são tóxicas, geram dependências graves…
Neste sentido, se a canábis é benéfica nos tratamentos de algumas doenças, então de que estamos à espera! São vários os países que a utilizam nos tratamentos e segundo consta os benefícios que daí advêm têm sido bem relevantes. Por isso, nada contra a utilização da canábis com fins medicinais e, obviamente totalmente contra, em relação à sua utilização como substância fumante para deliciar consumidores e negociantes do fumo. 
Imagem Google
No entanto, trago à liça o seguinte, porque é o que está verdadeiramente em causa: «O uso direto da planta de canábis ou seus derivados com fins medicinais envolve desafios particulares. A sua eventual permissão deve ser alvo de reflexão ponderada e multidisciplinar, integrando as questões legais da sua produção, comercialização, controlo de qualidade, do benefício/risco terapêutico em cada condição clínica», pode ler-se nas recomendações do parecer, que foi homologado pela maioria dos membros do Conselho Nacional Executivo da Ordem dos Médicos, segundo disse à Lusa o bastonário, Miguel Guimarães.
Tudo que faça bem à saúde da humanidade, venha de onde vier, deve ser utilizado e quanto a isso nada deve ser mais pacífico do que isto. Aos cientistas ou especialistas na matéria compete garantir-nos a segurança na sua utilização. Por isso, não entendo determinadas posições opinativas sem analisar bem o que está em causa, a se manifestarem claramente contra só porque sim. Haja bom sendo e já é tempo de deixarmo-nos de luzes e de ingenuidades patéticas. 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Todas as formas de meditação são válidas

Escrever nas estrelas:
Quase todos os momentos da história da humanidade apresentam modas que influenciam o tempo e o modo das várias gerações que vão compondo os vários momentos da história da humanidade. 
Gostaria de trazer aqui à reflexão o meu pensamento sobre as várias formas de meditação, principalmente o "Reiki e o mindfulness", este último está hoje a fazer grande furor e a ganhar muitos adeptos no mundo ocidental. Quase todas as formas de meditação que ganham simpatia e se popularizam no Ocidente são de inspiração budista. 
Para mim todos os caminhos que conduzem à espiritualidade, à descoberta interior e à (re)ligação com a entidade divina, fazem bem e estão de acordo com a vontade de Deus. A meu ver quando as coisas são assim não chocam nada com a doutrina do Cristianismo nem muito menos com a doutrina católica. 
Porém, como tudo, quando estas formas de meditação se convertem em "escolas" ou "clubes" pagos a preços elevadíssimos para que alguém enriqueça com isso, desvirtuam o seu espírito e põem em causa o seu fim. Tudo o que manipula a boa vontade das pessoas e os seus desejos mais puros, não está longe do terrorismo e do aproveitamento criminoso. Por isso, nunca será excessivo alertar para um certo cuidado nesse sentido. 
Todas as formas de meditação são válidas desde que não fujam do seu caminho e dos seus fins. O encontro espiritual pode servir-se de uma multiplicidade de caminhos e formas, que se bem intencionadas e bem conduzidas levam à descoberta do eu de cada pessoa, a revelação e ligação com o transcendente, a educação dos impulsos e a moderação das reações pessoais, a promoção da paz e a assunção de que somos uns com os outros... 
Enfim, se qualquer forma de meditação é caminho de verdadeira terapia física, psicológica e emocional, não me parece que deva ser simplesmente condenada, só porque sai da alçada de uma determinada mediação religiosa. Ninguém é dono de ninguém nem muito menos existem caminhos e formas absolutas e únicas para chegar a Deus. 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

O chamamento à felicidade

Pão quente da Palavra:
Domingo II Tempo Comum
Os textos da missa deste domingo, falam-nos da disponibilidade para acolher os desafios de Deus e para seguir Jesus.
A primeira leitura apresenta-nos a história do chamamento de Samuel. O texto reflete que o chamamento é sempre uma iniciativa de Deus, que vem ao encontro de cada pessoa, chama-a pelo nome e convoca-a para uma missão. A cada um é pedido que coloque a sua vida ao serviço dos desafios de Deus. 
Escutar a voz de Deus, será sempre uma certeza de felicidade e de realização da vida em favor do bem para todos. Os nossos tempos precisam de muita gente que se deixe levar pelo desejo de Deus, que sonha com um mundo mais justo, mais fraterno e mais de acordo com a verdade que faz da vida um bem extraordinário e não um fardo provocado pela injustiça, pela ganância e pela violência da mentira que destrói as pessoas, as famílias e as sociedades.
Somos chamados a ser discípulos.
Quem é o discípulo? - É aquele que reconhece Jesus que «passa», o Messias libertador, que o admira e o segue com todas as forças e convicções. A partir daí envolve-se na vida e no mundo numa luta constante contra tudo o que ponha em causa o Reino da amizade e fraternidade proposto por Jesus.
Por isso, segundo São Paulo, no crente que vive em comunhão com Cristo deve manifestar-se sempre a vida nova de Deus. Este que que radica a vida em Jesus, deve procurar banir de si hábitos e atitudes desordenadas que ferem a dignidade de si e dos outros. Nesta perspectiva, o mundo tornar-se-ia beleza e bondade, porque, os cristãos, em primeiro lugar, seriam esse sinal no meio da massa.    

Deus e eu

Primeiro «Deus e eu» de 2018 com a locutora de rádio, Antena 1, nossa conterrânea ou a «nossa menina da rádio», Noémia Gonçalves. Bem vinda e obrigado pelo seu banquete tão sentido e tão pensado acerca do tema de Deus... Maravilhoso manjar!
Como grande parte dos miúdos da minha geração, tive uma educação católica, com tudo o que isso implicava: catequese, missa aos domingos, oração ao anjo da guarda e até "ameaças" relativamente às coisas que fazíamos e que o "Jesus" podia não gostar... Passaram muitos anos, e a minha relação com Deus mudou, talvez consequência da perda da inocência. Agora que me pedem para pensar nela, acho que é tal qual a que temos com os pais: nos primeiros anos não questionamos, entre os 6 e os 10/12 usamo-los em nossa defesa, na adolescência queremos manter uma certa distância, algum tempo após sairmos de casa já só sentimos saudades do conforto que a mesma nos proporcionava, e quanto mais velhos ficamos mais pensamos neles… Olhando para trás acho eu e Deus já passamos por todas estas fases. Não será a declaração mais politicamente correta, mas é a mais sincera que consigo fazer. Na última década, muitas vezes aproveitei a Sua não resposta para verbalizar a minha raiva perante as situações (de morte) em que me senti absolutamente impotente e injustiçada. Será um ato de ingratidão ou falta de fé, ou apenas reflexo de uma relação que temos com os que nos são mais próximos e que são quem mais facilmente apanha com o nosso mau feitio? Não sei responder! Certo é que iniciei este texto tantas vezes, porque não sabia como dar-lhe corpo, e a cada linha que escrevo mais percebo que é-me particularmente difícil falar deste sentimento, chegando mesmo a praticar um dos pecados mortais- inveja, de outros tantos que li no Banquete, tão elegantes, sem dúvidas, sem interrogações... Voltando ao desafio inicial "Deus e eu", eu cresci no lado católico da família, de uma família com várias fações religiosas que a determinada altura entraram em conflito. Se calhar por isso percebi que qualquer que seja o deus, o credo, a religião, nunca deverá servir para dividir, mas para unir... Não era raro estar na mesma semana com o Padre Sá e com o Pastor Jorge Gameiro (duas pessoas admiráveis). Digamos que foi-me muito fácil lidar com as diferenças e perceber que as semelhanças eram bem maiores que qualquer divergência na forma de assistir ao momento de oração: ambos pregavam a paz, o amor, a solidariedade, a humanidade no seu melhor, e acredito que o mesmo acontecia na terceira religião da família, mas essa esteve durante mais tempo, demasiado tempo, fechada em si! Não consigo atingir o objetivo do desafio lançado pelo Padre José Luis Rodrigues- verbalizar esta relação, mas aproveito para dizer-te: Deus, disseram-me que eras omnipresente e defensor dos mais fracos (em todos os credos), e lamento por vezes passar das marcas contigo, mas talvez por estares exausto de tanta asneirada, andas muito distraído e a confiar no bom senso da humanidade! Só que precisamos de uma ajuda! Olha por nós, envia os teus anjos, reúne os santos porque da forma como estão as coisas precisamos da "tropa toda" no planeta Terra (enquanto ele ainda existe com toda a sua beleza e diversidade). Um dia, se os céus permitirem, teremos todo o tempo do infinito para me explicares porque afinal a tua grande e inteligente obra, o homem, não conseguiu sair dos primórdios da evolução em determinados patamares.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

A incredulidade dos crentes

Comensal divino
Hoje parece ser assim. Qualquer um de nós pode cair num «ateísmo inconsciente» ou numa religiosidade intimista, pessoal, que em privado não é nada, mas em público convém dizer-se que é «a minha religião»; o meu Deus»; «a minha forma de rezar», «a minha forma de reconciliar-me ou confessar»; «a minha religião»… (Quem sabe se a desonestidade que leva à tragédia das crises económicas e financeiras não resultam desta mentalidade?).
Tudo isto compõe o quotidiano de muitos homens e mulheres do nosso tempo. É triste, mas é a realidade. A vida hoje está marcada por um subjectivismo religioso exagerado, que desemboca naquilo que definiu o teólogo espanhol, Luís Gonzalez-Carvajal: «a incredulidade dos crentes». Quer o autor defender que, os não crentes também estão entre os religiosos mais fervorosos, sacerdotes, religiosos e religiosas.
São os crentes os primeiros a desanimarem. São os primeiros a caírem no pessimismo exagerado. Com frequência procuram nas bruxas e nos bruxos soluções impossíveis para as suas mazelas. Facilmente, se deixam manipular pelos trocadilhos balofos da linguagem das seitas. Não dão nada pela formação religiosa, simplesmente a recusam.
Devemos procurarmos caminhos sinceros de verdade e de beleza, que nos libertem da mediocridade, da incredulidade e de tudo o que oprime a dignidade, para edificarmos um ambiente à nossa volta que se apresente com a melhor qualidade para a grandeza da vida.