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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Deus e eu

Esta semana com Raquel Gonçalves... Muito obrigado Raquel.
A mão da minha mãe guiava a minha pelo sinal da cruz. Cabeça, coração e os dois lados do peito.
Aquele sinal transportava a crença das mães numa entrega das crianças a um cuidado que queriam que fosse eficaz, na medida certa de uma fé guiada mais pelo temor do que pela certeza.
Era noite e havia o medo de que o sono nos levasse para longe. Selavam o medo com esse sinal de uma Trindade Divina e misteriosa.
Que Pai? Que Filho? Com que Espírito pretendiam selar esse medo primordial de uma morte pelo sono?
Compreendo hoje que esse gesto inaugural era uma senha de esperança da minha mãe, reforçada por um “Deus te guarde” murmurado, inseguro, mas que, ainda assim, era empunhado com a coragem possível contra os mistérios, os medos e a fragilidade da vida a começar em nós.
Esse primeiro sinal de Deus em mim também marcou a geografia da minha relação com o divino. A mão que embalava a fé da minha mãe entre a minha cabeça e o meu coração, ditou essa relação de quem por um lado queria acreditar com o coração inteiro, e por outro duvidava com a cabeça toda. Dividindo a fé pelos dois hemisférios de mim. Em cruz.
À medida que crescia e o mundo se revelava, veio a rebeldia natural contra todos os gestos e palavras e veio também a rebeldia contra a ideia de Deus. Era o tempo da afirmação que se fazia contra as coisas divinas e terrenas, e até contra aqueles que amamos profundamente.  Principalmente contra aqueles que amamos profundamente, os que estão mais próximos, os que vivem em nós. E Deus, assinalado desde esse tempo inaugural na minha cabeça e no meu coração pela mão da minha mãe, estava suficientemente próximo para ser envolvido na tempestade de quem crescia por todos os lados.
Não sei se por teimosia, feitio, curiosidade, insatisfação, medo, ou por todas estas coisas juntas, a minha relação com Deus ficou ali: no desequilíbrio entre cabeça e coração, num lugar cheio de dúvidas, desamparado e turbulento.
Uns anos mais tarde, já adulta, confessei todas estas incertezas a um padre que é também poeta. Do fundo de uma calma e de uma fé que ainda não vive  em mim, José Tolentino Mendonça disse-me que não acreditar (ter dúvidas) é um lugar mais solitário do que acreditar. E é.
Disse também que Deus só pode ser encontrado nos baldios, e que todos nós “amassados de poeira, de sangue e de sonhos, fomos feitos não apenas para o visível, mas para saber contemplar o invisível, saber escutar a música inaudível, aquilo que neste momento está a ser entoado, e que todo o ruído do mundo e de nós próprios nos impede de ouvir”.
Mais recentemente, afirmou que Deus não é uma resposta, é uma pergunta. E, se calhar, é essa a minha relação com Deus: uma pergunta colocada pela mão e pela fé inabalável da minha mãe, ou pela esperança impossível de conciliar entre a minha cabeça e o meu coração.
Deus e eu somos uma pergunta infinita, mas talvez também uma música inaudível no baldio onde fica a cabeça, o coração e a mão da minha mãe ainda a inscrever-se em mim. 

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