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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O Templo

«Pão quente da Palavra» no domingo III Tempo da Quaresma
Quem é Jesus? - São Paulo responde assim: "pregamos Cristo crucificado, escândalo para os Judeus e loucura para os Gentios, mas, para aqueles que são chamados, tanto Judeus como Gregos, força de Deus e sabedoria de Deus" (1Cor. 1, 23-24). Extraordinária esta formulação do Apóstolo dos Gentios. Jesus como "escândalo" e como "loucura". Como encarar estes atributos aplicados a Jesus, quando todos nós a maior parte das vezes acreditamos e pregamos um Jesus longe da vida, muito das orações intimistas e do comodismo da consciência?
A história da Igreja está muito marcada por uma catequese acerca de Jesus totalmente desencarnado, apenas divino, sem história e sem este mundo, onde nós habitamos. A catequese forjou um Jesus pacato, muitas vezes somente tristonho e afeminado como se pode constatar nalgumas pagelas e na iconografia que a história das confissões religiosas cristãs edificou. 
São Paulo com a sua acutilância e a seu apurado zelo missionário, destrona essa realidade e mostra que Jesus é o Cristo do alto da Cruz, que acolheu esse destino para ser escândalo e loucura. Não esteve com ponderáveis tolos, quanto às suas opções e destrona todo o pietismo patético para se apresentar radicalmente a favor da transformação da vida e do mundo.
O Evangelho deste domingo, mostra que, afinal, este Jesus, está bem dentro da história do mundo e da vida. A purificação do Templo de Jerusalém é prova de que estamos diante de um Cristo activo e bem empenhado na construção do mundo e da História. Jesus não é apenas o reformador do Templo mas Aquele que o substitui. Jesus é o Templo novo. A nova religião que convida à libertação e à eternidade, é a religião Cristã. Desta feita não temos um Jesus inativo, pacato ou submisso, mas um Jesus que intervém na História, para a transformar em realidade libertadora para todos.
Para nós seria mais fácil um Jesus apenas remetido à sua divindade, lá das alturas, que legitimasse os poderes deste mundo e que autorizasse alguma igreja ser patética com as excomunhões anacrónicas e com as condenações de alguns dos seus membros, porque ousaram pensar de modo diferente do institucional.
Somos levados a procurar diariamente a verdade sobre a nossa vida espiritual. Porque, também diariamente somos confrontados com as raivas absurdas que nos descontrolam o pensamento e as palavras. As teimosias nas nossas ideias fixas e manias pessoais são frequentemente uma propensão que nos ataca e que requerem uma dose elevada de limpeza ou de arrependimento. 
Diante das brigas inúteis entre vizinhos, colegas e companheiros de trabalho, o arrependimento deve estar sempre presente para que a reconciliação da amizade seja também uma constante na vida de cada pessoa e, sobretudo, se são pessoas que acreditam na pessoa de Jesus. Com tudo isto, Jesus Cristo em nós será "escândalo e loucura" para muitos. Porque a lógica de Jesus nada tem a ver com a lógica guerreira e concorrencial que este nosso mundo apresenta, onde predomina a força dos poderosos, a «economia assassina» e a produção de pobreza em massa. Por isso, deixemos que o verdadeiro sinal da libertação se faça realidade no nosso coração, para que a vida toda se torne o verdadeiro sacrário onde o amor de Deus habita eternamente.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

A vida interior

Escrever nas estrelas
1. Todos nós temos uma vida interior. Uma pessoa faz-se com estas duas dimensões: a vida interior e a vida exterior. A comunhão entre as duas realidades, também é um tema interessante. Mas não vou tratar dele por hora. Agora interessa-me relevar que a vida interior tem três características que são muito importantes para o nosso bem estar e felicidade: uma correcta concepção de Deus, a harmonia psicológica e as circunstâncias do meio que nos rodeia.
 
2. O transcendente tem uma influência muito grande na nossa vida. Se a relação interior com essa dimensão não for bem enquadrada e se não estiver bem definida, os prejuízos que daí possam advir para o próprio e para os outros com quem convive, podem ser verdadeiros fardos que levam à desgraça. Deus não pode ser uma entidade encarada com suprema violência nem muito menos como um conjunto de regras morais que obrigam a comportamentos mecanizados ou previamente programados, sem liberdade e com o medo cerceador de vir a errar. Deus tem que ser um mistério inabarcável, próximo e inacessível ao mesmo tempo. Deus é mistério de liberdade, misericórdia, suma bondade, desafio estético e beleza, porque caso não seja visto com estes atributos conduz ao sofrimento, ao medo e ao cerceamento da ousadia da liberdade criativa. Aliás, que fique claro, fora destes parâmetros Deus não existe.

3. Outro elemento para uma saudável vida interior, é a harmonia psicológica. Quando tal não acontece, temos aquilo que vamos presenciando todos os dias, violência generalizada. O ódio comanda vida, mesmo que já se saiba que este é um veneno que mata quem se alimenta dele. A paz exterior não está presente, porque ela secou na fonte, que é o interior de cada pessoa. Assim, porque falha essa harmonia psicológica, as pessoas não se suportam, não toleram as falhas, os insucessos e não sabem conviver com as derrotas pessoais e com as dos outros. A falta de harmonia psicológica deriva por sua vez de uma desequilibrada vida espiritual, onde se percebe que há religiosidade distorcida, péssima concepção acerca da divindade, confusão entre o bem e o mal, com a ajuda de que tudo é pecado, porque há um vigia castigador em cada esquina. A desarmonia psicológica conduz à mania da perseguição que faz desequilibrar totalmente as relações fraternais. Os outros tornam-se inimigos, porque o amor secou. E chegados a esta fase pouco falta para o desespero e a consequente desgraça do fim da existência neste mundo, que pode ser levado a cabo pelas suas próprias mãos. A desarmonia psicológica conduz ao desgosto pela existência, à fealdade de tudo, à incapacidade de fazer silêncio, à não contemplação da natureza e à inutilidade do ser gente. O mundo é um lugar todo tenebroso, feio e perigoso, que é preciso fugir dele para sempre.

3. Ambas as situações, quer a correcta ou incorrecta relação com Deus, a harmonia ou desarmonia psicológica, leva-nos às circunstâncias do meio que nos rodeia. O contexto familiar, social, político e religioso, fazem e muito o que somos e ajudam a construirmos o que sentimos e somos em cada momento da nossa vida. O ambiente que nos rodeia e as pessoas com quem convivemos vão influenciar a ideia que temos sobre Deus, a forma como nos relacionamos com o transcendente e vão sobremaneira influenciar o estado psicológico. Precisamos de saber viver neste ambiente, a inteligência, a serenidade, a honestidade não nos devem faltar quando temos que seleccionar o que vamos reter daquilo que nos chega da família, do ambiente social, da mediação política e das práticas religiosas onde estamos inseridos (se for o caso que não estejamos inseridos nelas, podemos vê-las na acção dos outros). A realidade circundante é muito importante para o que venhamos a sentir, que depois influenciará naquilo que vamos viver pessoalmente e no convívio com os outros.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

A religião e o mundo


Tarefa difícil. Mas lá terá que ser. Um trabalho em todos os tempos inacabado...
Rubem Alves no seu «Enigma da Religião» (1975) diz: «A intenção da religião não é explicar o mundo. Ela nasce, justamente, do protesto contra este mundo descrito e explicado pela ciência. A religião, ao contrário, é a voz de uma consciência que não pode encontrar descanso no mundo tal qual ele é, e que tem como projeto transcendê-lo».

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Um pequeno sinal do que está para vir

Ao sétimo dia
Não tenho saudades das veredas
que me conduziam ao deserto -
com sede e sem pão ansiado 
era o vazio do alto 
que na pobreza me deixou. 

diz-me que existirão lágrimas para chorar
na solidão e na dor.

mas finalmente alguém pelo sacrifício se imolou,
foi dom que trouxe um tempo novo
que em nós mesmo na ausência,
nunca mais passou.
JLR

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Prioridades invertidas

Escrever nas estrelas
Este nosso país, provavelmente, é o melhor do mundo para viver e quiçá para sobreviver. Digo isto, porque nunca experimentei outro para esta mesma função. Porém, não deixo de reconhecer que andamos com as prioridades invertidas. Será que era necessário tanta energia e tanto tempo perdido, não digo a debater, mas a mandar conversa fiada sobre o aborto, a eutanásia, a entrada ou não de animais domésticos nos restaurantes e todas as modas que o nosso tempo é profícuo a inventar?
Deveria ser prioritário governar convenientemente as condições de vida das nossas populações, principalmente, a camada mais idosa que está votada ao abandono por esse país adentro… Não cuidamos do nosso povo.
Por isso, digo firmemente, enquanto não formos capazes de cuidar e governar a natureza que temos e o que povo que somos, não vale, a meu ver andar, a fazer leis e mais leis sobre esta ou aquela moda, só para que passe a imagens que somos modernos e que estamos no pelotão dos países que se convencionou estarem na senda do progresso e na vanguarda civilizacional.
E agora, quando bastava um simples telefone de rede fixa para salvar uma pessoa da morte, o que vamos dizer? – Pois, logo vi que se vai dizer tudo e mais alguma coisa: as pessoas assim, as operadoras assado, o governo ou os governos mais isto, a vida, os velhos, o abandono dos idosos, as famílias, a desertificação do país, as alterações climáticas, os incêndios, as chuvas, o frio… Tanto que durante uns dias vai ser dito até passar a moda até vir outra coisa. Logo esta ficará para trás como tem acontecido a tantas outras desgraças que têm desgraçado o nosso povo.
É com tristeza que vejo o meu país vendido ao desbarato para ser gerido por multinacionais cegas pelo lucro, mesmo que isso seja feito à conta do sofrimento e da morte das nossas populações. Até quando Portugal? 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A transfiguração

Pão quente da Palavra para o domingo II Tempo da Quaresma...
Transfigurar-se significa modificar-se ou passar por alguns poucos instantes por uma outra pessoa ou figura; significa passar por uma breve mudança instantânea. Seja essa mudança consciente ou inconsciente.
Ao tratar-se de seres divinos ou místicos a transfiguração é frequente na revelação do divino aos humanos. A ideia comum sobre a questão é de que durante o dia passamos por muitas mudanças físicas e mentais. Por isso, em cada minuto não somos a mesma coisa. Nós somos fruto do tempo e das circunstâncias. O ambiente quotidiano vai fazendo muito daquilo que somos e responsabiliza em muito as nossas atitudes. Quer dizer, somos fruto do momento. Assim se pode explicar um pouco o que é a transfiguração.
No texto do Evangelho de São Marcos que será lido neste próximo domingo nas missas, a transfiguração de Jesus, literariamente, a narração da transfiguração é uma teofania – quer dizer, uma manifestação de Deus. Portanto, o autor do relato vai colocar no quadro todos os ingredientes que, no imaginário judaico, acompanham as manifestações de Deus (e que encontramos quase sempre presentes nos relatos teofânicos do Antigo Testamento): o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino. Isto quer dizer o seguinte: não estamos diante de um relato fotográfico de acontecimentos, mas de uma catequese (construída de acordo com o imaginário judaico) destinada a ensinar que Jesus é o Filho amado de Deus, que traz aos homens um projeto de salvação que vem de Deus, que convida à prática do amor incondicional.
A humanidade do nosso tempo não está virada para a transfiguração daquilo que impede a felicidade e a fraternidade, porque continua dominada pela lógica que este mundo impõe que viola a vida plena, porque não tem em conta o amor como dom total levado até às últimas consequências. As preocupações egoístas na base dos interesses pessoais continuam em força, não importa nada o serviço simples e humilde pelos outros, especialmente, os débeis, os marginalizados, os infelizes, os sem sorte, sem lugar e vez no banquete da vida. Importa assegurar para si o poder interesseiro, o domínio sobre os outros, que alimente o prazer de estar do lado dos vencedores, porque não importa a vida vivida como um dom, com toda a simplicidade e humildade, mas uma vida «enorme» a encher a vista, mesmo que emaranhada no jogo complexo de conquistas, de honras, elogios, palmas, glórias e sucessos a qualquer preço.
São Paulo, ensina-nos, afinal, que nada pode estar contra nós, porque Deus é por nós. Mas, o que mais há neste mundo é medo de Deus. A presença de Deus provoca medo a este mundo, porque os corações desta geração estão ocupados com coisas desnecessárias em relação à fé, isto é, em vez de acreditarmos de verdade no Seu amor e na Sua misericórdia, concebemos um Deus todo-poderoso que castiga e se vinga de nós. Esta visão de Deus é totalmente destorcida e não tem sentido diante das palavras e gestos amorosos de Jesus.
Neste sentido, chega de anunciar um Deus contra o que quer que seja. Vamos proclamar e viver um Deus simples e amigo de todos. Um Deus que não se compadece com a violência, a maldade, a inveja, a exploração, a fome e a nudez.
Neste meu singelo manifesto, quero proclamar um Deus que detesta e vomita, todas as formas de alienação ou ópio, todos os ritualismos desumanos que ainda subsistem na nossa Igreja, todos os apelos aos sacrifícios ou promessas, que são exploração desenfreada dos fracos e dos pobres, todos os caminhos que levam à luta do poder pelo poder, todas as formas de dominação religiosa sem Evangelho, todos os caminhos que estão pejados de escárnio, de discriminação e ostracismo dentro da nossa Igreja e no mundo. Por fim, vamos estar com Deus, para que nada nos impeça de viver com felicidade, realizando a Sua vontade.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O ser humano e a sua condição de ser pessoa

Escrever nas estrelas
O sentido do ser PESSOA tem vários momentos profundamente evangélicos sobre a solidariedade activa, que é outro elemento constitutivo daquilo que nos distingue dos outros seres vivos…
O ser humano é um ser em projecto (a pessoa tem planos e constrói a vida na base da sua capacidade para delinear etapas e estabelecer planos para levar a vida para diante em função do seu bem e o bem dos outros). O ser humano é um ser decidido (tem capacidade de fazer opções e escolhas livres). O ser humano é um ser simbolizante (a atenção a um sorriso, uma lágrima, uma palavra, um silêncio, um gesto…). O ser humano é um ser em relação (os outros são um o caminho nas relações que dão sentido à vida e que se tornam elementos essenciais para a descoberta do sentido do ser pessoa). Um ser humano é um ser em crescimento (o ser pessoa constitui-se com a abertura ao crescimento até ao momento derradeiro da vida, a morte). O ser humano é um ser em necessidade (daí se deduz como é importante o espírito de cidadania militante na responsabilidade de uns pelos outros de coração aberto à partida).
Obviamente que precisamos da lembrança frequente da nossa condição do ser PESSOA, para que a nossa vida seja uma realidade de entrega à dimensão material e à dimensão espiritual na devida proporção, para que sejamos completos e tenhamos o querer e o poder bem conjugados na construção da beleza e riqueza que é estar neste mundo cumprindo o nosso dever com verdade e justiça. Fora desta consciência a humanidade não se respeitará e nunca virá o fim da crueldade de vermos os homens a se matarem uns aos outros.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Aluvião desconexo cheio de lama

20 de Fevereiro de 2018 (passados 8 anos da aluvião de 20 Fevereiro de 2010) 
Eu diante de Maria rezei:
Mãe Fátima peregrina estavas,
Aqui junto de mim
Sobre o meu pecado descrente,
O céu chorou lágrimas abundantes,
Como chuva imparável,
Sobre os montes e vales do meu peito,
Onde nasceram rios de água pelas árvores,
Os poios derramaram terra pelas paredes,
Fazendo das ruas e das ribeiras raiva caudalosa transbordante
Um arrasto estupor de sofrimento e da morte.
Tuas foram as pedras
As casas
As gentes
As almas que se desprenderam dos corpos
A dúvida incrédula
A dor do dilúvio
E o incumprimento da promessa: «nunca mais as águas formarão um dilúvio para destruir todas as criaturas» (Gen 9,15).
Porém, agora nesta piedade bendita,
Deixo-me guiar pela luz das estrelas
Que permitem o caminho estar limpo e iluminado.
Entro nos leitos das ribeiras serenas
Antes que outras aluviões as mascarem de lama.
Por aí procuro abrigo no recanto das paisagens soltas
Nuas pela devastação irracional do egoísmo,
Que fere o mundo com a paranóia de sempre
Que nesta miragem sobre o mar azul
Vi os encantos multicolores da esperança
Que o pesadelo da devastação permitiu,
Hoje estamos na bonança das montanhas peladas,
Para que nunca mais regresse
O momento feio da tristeza
Que mata a fascinante beleza das montanhas e dos vales
Da alma que somos,
Madeira para todo o sempre.
JLR

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A felicidade e a alegria

Escrever nas estrelas
1. São realidades distintas. Frequentemente são confundidas. Não é raro encontrarmos pessoas felizes que não são alegres e pessoas que esbanjam alegria mas não são felizes. A alegria difere da felicidade e vice versa. Apesar de tudo sei o que é a felicidade e sei também o que é a alegria.

2. A felicidade é um estado de espírito, que encontrou a paz consigo mesmo, com a natureza, com Deus e com os outros, mesmo que deles venham as piores atrocidades. Porque as relações entre as pessoas podem ser carregadas de amor, mas são também conflituosas e conduzem muitas vezes à incompreensão, à divisão e à separação. Não deveria ser necessário lembrar o que anda neste momento na sua cabeça caro leitor: as invejas, as mágoas, a concorrência, as disputas, os males entendidos, são tudo pedras dentro do sapato que fazem tantas vezes doer e muito.

3. Por sua vez a alegria é algo que se experimenta ocasionalmente. Podemos ser felizes e não estarmos alegres. Quantas pessoas que desbaratam alegria pelos poros quotidianamente, mas tenho a certeza que não são felizes… Também não tem sido raro encontrar pessoas, carregadas de sofrimento, por causa da doença que as atingiu, doenças crónicas e fatais, problemas de vária ordem com filhos, esposo, esposa, no trabalho, com colegas e com tantas e tantas situações da vida do dia a dia, mas que mesmo aparentando falta de alegria, são um testemunho desconcertante de felicidade. Portanto, a felicidade pode estar em casa sem que a alegria more nos corações apanhados pelos infortúnios da existência.

4. No entanto, o que torna as pessoas felizes é a sua capacidade de entrega aos outros. A nossa felicidade não acontece de verdade quando há pessoas infelizes à nossa volta. Por isso, quem procura fazer tudo pela felicidade alheia, está a construir a sua felicidade. Isto vale de modo especial para os compromissos pessoais íntimos, mas também de igual modo para os que se empenham na luta por um mundo mais humano, sem injustiças gritantes e desigualdades que conduzem à falta da dignidade e da paz.

5. Há quem defenda que a felicidade devia constar da Declaração Universal dos Direitos Humanos, estou plenamente de acordo. Os governos dos países andam sempre tão preocupados com o PIB (Produto Interno Bruto), deviam ter também igual preocupação com FIB (Felicidade Interna Bruta). Sim, eu sei que a felicidade e a alegria, não são produtos que gerem dinheiro, mas, não esquecer, que são uma riqueza sem preço, que ajudam a resolver todos os problemas.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Uma queda livre do coração suspenso

Quase poesia, sejam tolerantes…
as forma das mãos ficaram cravadas sobre a poeira do chão
o dedo grande do pé ficou descascado na ponta
há sangue a verter sobre o pó
a pele levantada chora vermelho toda a dor do universo.

era eu abatido sobre a terra solta abrasada pelo sol
que numa tarde escaldante interrompeu
uma inocente brincadeira
a alegria doce do corpo
que escorria nos rios picos de água
que o meu rosto sentido testemunhava
no convívio dos amigos.

pelo fim do dia nós os dois na soleira da porta
vimos umas mãos que agarram impiedosamente
o dedo em carne viva
e lancinante a lamina do fogo cortou cerce o desperdício da pele morta
há choro e ranger de dentes por todos os poros
mas nada que trave a certeza
de uma mãe que anuncia a cura logo para a manhã.

a queda livre é todo o meu peso
sobre o coração às vezes suspenso
que cai sobre si mesmo.
JLR

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A escravatura branca na Madeira

Escrever nas estrelas
Imagens Google
1. Foi exibido ontem, 15 de Fevereiro, o documentário: «Colonia e Vilões», no Teatro Baltasar Dias no Funchal. Um registo muito importante sobre a história do povoamento da Madeira. Ninguém sabe a origem do «sistema de colonia na Madeira». Porém, no final do documentário seguiu-se um debate sobre o mesmo. Fiquei perplexo com a tentativa de explicação do historiador Alberto Vieira, que ensaia dizer que tendo em conta a orografia da Madeira, a produção agrícola requer investimentos avultados e para tal, consequentemente, só os ricos e grandes latifundiários é que tinham condições para patrocinar tais investimentos. Sim, até pode ser verdade, mas envolto numa injustiça tremenda e à conta de uma subsequente exploração que roça a escravidão dos pobres «vilões madeirenses».

2. O documentário «Colonia e Vilões» realizado por Leonel Brito entre 1976/77, o qual teve a antestreia a 16/05/1978 na Sociedade Portuguesa de Autores, registando-se a particularidade de nunca ter sido visualizado nos cinemas da Ilha da Madeira, local onde foi realizado. O documentário ganhou uma Menção Honrosa no Festival de Cinema de Santarém. Finalmente, chegou a um grande ecrã na Madeira. O documentário é uma «verdadeira enciclopédia sobre a história da Madeira». Esta é uma leitura interessante que devia fazer pensar todos nós, para que procuraremos sempre uma luta militante contra todas as formas de opressão. As escolas deviam estar atentas ao documentário, estudá-lo com os mais novos de forma muito séria. Nele podemos encontrar a história natural da Madeira, a sua orografia, o povoamento, a religião, a vida social, a cultura, a política, agricultura, a pesca, o turismo, a indústria, os homens e as mulheres, os ricos, os pobres miseráveis, o clero, os nobres e o povo domesticado pela religião e amordaçado pelas forças políticas… O seu dever, seria obedecer com paciência e trabalhar de sol a sol sem piar. 
Imagens Google

3. Mas afinal o que foi a colonia? - A definição da estrutura social e económica da Ilha da Madeira ficou traçada desde os tempos do povoamento. As Ilhas da Madeira e Porto Santo, foram divididas em três capitanias atribuídas a três capitães donatário, Bartolomeu Dias, Tristão Vaz Teixeira e Gonçalves Zarco. Estes, por sua vez, dividiram as terras entre os grandes senhores que as «arrendaram» aos colonos a troco da divisão dos produtos da terra entre o colono e o seu senhor. Normalmente, a produção era distribuída em partes iguais, mas não querendo dizer, que em muitos casos seria para os senhorios a melhor parte.

Facebook: Madeira Quase Esquecida
Facebook: Madeira Quase Esquecida
4. Um sistema profundamente injusto. Se quisermos alguma explicação para a sua origem, deve concentrar-se na louca distribuição da riqueza que perpassa a história da Madeira. A exploração dos poderosos sobre os mais fracos, que fazem depender a sua ganância desenfreada na miséria dos pobres que produzem descaradamente. O povo paciente da Madeira revolta-se nos episódios conhecidos como a Revolta da Farinha (1931) e a Revolta da Água na Ponta de Sol (1962), tendo sido todas violentamente reprimidas pelas forças do Estado Novo. A ditadura salazarista não olha o povo na miséria, antes pactua com as elites no sentido de manter o camponês aprisionado à sua condição histórica. A colonia, foi das coisas mais tenebrosas que a Madeira viveu e o seu fim só veio em 1977. Este foi o maior grito de libertação que os madeirenses realizaram. E como referiu magistralmente o Padre Martins Júnior no debate, citando uma frase de um colono (se não me falha a memória, o sr. Ferreira): «a terra é de Deus e o seu fruto é de quem trabalha». Foi este espírito que permitiu uma luta pela libertação contra a opressão dos senhorios. Foi seguramente uma espécie de «escravatura branca», que poucos perceberam existir, pois foram necessário passar mais de 5 séculos para fazerem crer ao povo paciente quanto estava a ser explorado indecentemente. 

5. Nota final, o bispo Francisco Santana que aparece em vários momentos no documentário pregando ao povo, revela claramente que deve ter morrido sem perceber o que era o regime da colonia. Pior ainda nunca se deve ter dado conta o que esse sistema representava de pobreza miserável e sofrimento para o povo da Madeira. Um obrigado a quem teve a iniciativa para que esta visualização fosse realizada no Funchal. Quem desejar ver o documentário pode abrir AQUI.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O deserto

«Pão quente da Palavra» para este domingo I da Quaresma
O baptismo é um dos vários requisitos indispensáveis para a salvação. São Pedro, compara o baptismo ao dilúvio dos dias de Noé. O dilúvio salvou Noé da corrupção e da perversidade do velho mundo. O batismo salva-nos da corrupção e do pecado da nossa velha vida. Uma vez que o texto afirma que o batismo nos salva, a questão é indiscutível. Por isso, vejamos o que diz o texto: "Ser batizado não é tirar a imundície corporal, mas alcançar de Deus uma boa consciência…", isto é, pelo baptismo alcançamos a salvação de Deus.
Depois de recebermos o baptismo a nossa vida não entra num caminho tipo "mar de rosas", sem problemas, sem sofrimentos e sem as peculiaridades de qualquer história pessoal. Todos estamos sujeitos às contingências desta vida. Não devemos temê-las, mas antes devemos robustecer-nos com os ensinamentos de Jesus para as vencermos sempre. O baptismo é o primeiro requisito desta força interior que Deus nos quer oferecer. O deserto pode ser toda a nossa propensão para a esterilidade do amor. Uma vida toda carregada de egoísmo, de violência e de ódio contra os outros é uma vida no deserto árido sem sombra de existência verdadeira.
As tentações fazem parte da vida e podem ser uma constante no nosso pensamento e no nosso coração. Porém, se, sob a condição de baptizada, à maneira de Jesus, acreditamos de verdade na mediação fiel do Espírito Santo, nada nos pode demover daquilo que escolhemos para as nossas caminhadas pessoais.
Após o batismo de Jesus no Rio Jordão, por João Baptista, o Espírito Santo tomou conta de Jesus e conduziu-O para o deserto. O Espírito Santo, é a força do amor de Deus Pai que anima o Filho para o recolhimento do deserto ao encontro do silêncio, da oração e do encontro com o Pai. O deserto de Jesus é uma busca de reflexão como preparação para a missão. O Espírito Santo enche Jesus e protege-O das tentações diabólicas.
As tentações, fazem parte da vida e podem ser uma constante no nosso pensamento e no nosso coração. Porém, se, sob a condição de baptizada, à maneira de Jesus, acreditamos de verdade na mediação fiel do Espírito Santo, nada nos pode demover daquilo que escolhemos para as nossas caminhadas pessoais. Assim, o baptismo não é o único requisito para a salvação hoje, mas não podemos ser salvos sem ele. "Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus" (Jo 3, 5).

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

As palavras fizeram cinzas

Quarta feira de cinzas (ano 2018)
As palavras fizeram cinzas
com todas as cores do mundo
qual fénix as minhas cinzas
ganharam asas que me levaram
às alturas até ao altar das nuvens.

Este foi um dos muitos renascimentos
porque percebi no imenso universo
que dentro de mim estava a grandeza
do mar imenso do intransponível cosmos
de onde nasci…

Sou tudo e nada ao mesmo tempo
cinzas cobertas sobre a matizada alma
que nos permitem renascer sem medo
contra o tempo desesperado
das altivas nuances sem essência desanimada.

Esta é mais uma hora,
para decorar a alma,
desbravar os trilhos,
iluminar o infinito,
encontrar um amigo,
saudar um coração excluído,
fazer florir os campos,
colir o chão vazio,
encher o mundo de esperança.  

Por ti e por mim
encontrei o que é a vida,
círculo míistério de mão em mão
que em todo o tempo
é um sorriso dentro de ti.
JLR

A Igreja de Francisco e a Igreja de Burke

Comensal divino
1. Francisco, toda a gente sabe de quem se trata. É o Papa Francisco. Burke, é o cardeal norte-americano Raymund Burke, que lidera a corrente conservadora do Vaticano e alguma contestação pública ao Papa Francisco. Burke é a personificação de tudo o que o Papa jesuíta repudia em Roma: o fausto, a pompa, o luxo desmesurado de quem se julga superior aos outros mortais. Duas visões da Igreja Católica. Uma tipo pacote e outra que se vai fazendo diante dos contornos multifacetados da vida de cada tempo e contexto histórico da vida da humanidade.

2. A Igreja de Francisco é a Igreja do Evangelho, cuja figura central é Jesus de Nazaré, o Cristo. É esta Igreja que conta, porque seguindo Jesus Cristo, o Papa Francisco reafirma o seguinte: «Deus é um pai zeloso, atento, pronto para acolher qualquer pessoa que dê um mau passo ou que tenha o desejo de dar um passo na direção de casa. Ele está ali a observar o horizonte, espera-nos, está já à nossa espera. Nenhum pecado humano por muito grave que seja pode prevalecer sobre a misericórdia ou limitá-la». Burke e os seus pajens não gostam…

3. A Igreja de Burke, é a Igreja imperialista, do poder absoluto, imutável e seguidora de «receitas» iguais para todas as situações e para todos os tempos. Burke gosta de vestir altas vezes, faustosas e luminosas, frequentemente entra nos lugares com um manto (a "Cappa Magna") com uma cauda tão cumprida que precisa de vários jovens para a segurem. Esta Igreja faustosa não é a «Igreja da misericórdia» e do «encontro» com os pobres, os que falharam, os que não pertencem à Igreja (o ecumenismo não existe), é a Igreja feita com os eleitos que são superiores aos outros, que sabem tudo e de tudo para imporem aos outros, é a Igreja empacotada na doutrina quanto mais antiga melhor, sem a carne do Evangelho. Obviamente, que esta Igreja não é aceitável e deve converter-se à vida tal como ela é hoje.

4. Em síntese, a Igreja Católica é uma diversidade muito grande. Com uma enorme multiplicidade de sensibilidades, por isso, requer sabedoria para que não exista necessidade de se falar em lutas, hereges e excomunhões... Todos têm lugar na Igreja Católica e ninguém deve ser excluído só porque pensa diferente ou faz a interpretação noutro sentido, porém, isso não lhe dá o direito de pretender impor universalmente aquilo que acha ser verdade absoluta e que fora disso está tudo perdido. Assim, apesar de tudo, o sonho continua sem necessidade de abater ninguém. Que o Mestre do Evangelho nos ajude. 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Carta aos irmãos/as em segunda ou mais tentativas para refazer a vida em casal

Caros irmãos/as recasados:
1. Antes de irmos ao essencial desta missiva, ressalvo que a palavra «recasado/as» é das palavras mais infelizes que se poderia encontrar para designar qualquer tentativa para refazer o caminho do amor e da felicidade. Sabe Deus e eles do peso da cruz que tiveram que carregar por causa de experiências passadas no caminho da vida em casal.  A vida hoje tem uma variedade de contornos que nem sempre estão ao alcance da vontade das pessoas. Novas oportunidades devem ser encaradas com alegria, porque é preferível ver pessoas realizadas, felizes do que oprimidas pelo peso da tradição, das normas e outros ditames sociais ou religiosos.  

2. Venho ao encontro de vós por esta via, porque alguns casais vieram ter comigo este fim de semana, inquietos e preocupados com o infeliz e triste «aconselhamento» do bispo/cardeal de Lisboa, sobre «o convite abstinência sexual dos casais recasados» de forma a que estes possam aceder aos sacramentos. Obviamente, contaminados com a ideia de que por ser o Cardeal, ele é o chefe da Igreja Portuguesa e que por isso o que diz tem implicação com toda a Igreja em Portugal. Já expliquei que não é assim… Porém, a respeito dos que vieram comigo pedir satisfação, garanto-vos que chegavam preocupados e tristes, mas foram-se embora libertos e a sorrir.

3. Vamos então ao que nos trás aqui. Alguns pensarão que este esclarecimento é inútil, porque em 10 casais católicos, um apenas é que segue aquilo que a Igreja diz sobre a vida matrimonial. Porém, se nos 10 existe um, esse merece a nossa consideração e respeito, igualmente como todos os outros.

4. No entanto, os casais mais maduros, mesmo que não sigam (e muito bem) nada daquilo que «aconselham» alguns padres sobre as suas vidas íntimas, ficaram confusos com aquilo que disse o Cardeal. Daí, como se adivinhava, vieram interpelar os (seus) párocos neste fim de semana sobre o assunto. Quiseram estar esclarecidos, porque como quase todos os portugueses pensaram que isto é a Igreja, porque ele (o bispo de Lisboa) é o patriarca (cardeal) e Presidente da Conferência Episcopal.

5. Primeiro, é necessário dizer-vos que estão errados quanto a esta ideia e, segundo, dizer-vos com clareza que aquilo que diz respeito à vossa intimidade, nem o Papa nem os cardeais nem os bispos nem os padres, absolutamente ninguém, tem nada a ver com isso… Sejam felizes e amem-se com toda a liberdade e responsabilidade. Porque, não praticar isso é verdadeiro pecado.    

6. Outro momento que deve ficar bem claro é que todos nós temos dias bons e outros menos bons. Umas vezes acertamos outras não. Os bispos também são assim como qualquer um de nós, pois, como dizia ao Expresso Frei Bento Domingues, «Os bispos são um ministério, um serviço à comunidade. Às vezes o serviço é bom, outras vezes o serviço não é tão bom». Neste sentido, vale ainda aqui retomar o pensamento de Santo Agostinho, sempre lembrado quando se trata da comunitária figura do Bispo: «Atemoriza-me o que sou para vós; consola-me o que sou convosco. Pois para vós sou Bispo; convosco sou cristão. Aquilo é um dever; isto, uma graça. O primeiro é um perigo; o segundo, salvação». Como gostam tanto os bispos de Santo Agostinho, deviam recorrer a este pensamento todos os dias.

7. Espero ter contribuído para que a paz se restabeleça nos vossos corações. Não abdiquem do vosso amor e sejam fiéis ao que Deus semeou nos vossos corações e façam frutificar essa graça.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A casa vermelha na encosta da luz azul

Ao sétimo dia
Hotel Quinta do Jardim da Serra
Havia naturalmente um vale verde esplendoroso
entre uma Achada e uma Corrida de dois conjuntos 
de casas, eram de leve arquitectura, mas eram abrigo de sonhos 
e de pobreza que se imponha como rosa murcha
que se desmancha pelo chão frio naqueles campos
colonizados pela injustiça de todos os tempos do mundo.

As flores desprendem-se todos os anos naquele vale
silenciosamente testemunhado pela casa vermelha
para recolher ao húmus do jardim daquele lugar
entre as valas, moribundo, no vasto silêncio.

Na casa defronte de mim e da minha saudade
revejo o tempo e o modo que nesse lugar
eu recebia na festa da luz azul debaixo do céu
tão próximo de mim e das montanhas. 
 JLR

O carnaval religioso 2018

Comensal divino
1. Andava meio mundo descansado a comprar farinha e fermento para as malassadas, os jovens a contorcer-se no samba pelos salões e garagens em ensaios para os desfiles de carnaval, que nos próximos dias irão colorir e encher de carne desnudada as ruas das nossas cidades e vilas por esse país fora. É neste ambiente que surge do cardeal de Lisboa, Manuel Clemente (digo de Lisboa apenas e só e não o «responsável máximo da Igreja Portuguesa», como andam muitos a dizerem erroneamente. É Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, que é um órgão meramente consultivo e de reflexão, não tem a função de gerir nada. Este antístite é "responsável máximo" por si mesmo e pela Diocese de Lisboa, ponto). Numa «nota para a receção do capítulo VIII da exortação apostólica ‘Amoris Laetitia’», considera o bispo de Lisboa no ponto nº 5, alínea d) «Quando a validade se confirma, não deixar de propor a vida em continência na nova situação». A frase caiu como uma bomba, que rebentou ontem de manhã na comunicação social e durante o dia incendiou as redes sociais.

2. O cardeal com esta frase totalmente descabida, desnecessária e profundamente infeliz provocou uma onda geral de indignação, antecipou o carnaval, semeou a chacota da Igreja Católica e remexeu o veneno terrível das injustas generalizações. Não podia ser de outro jeito, porque a sua posição é um retrocesso e uma recomendação errada que viola a dignidade humana e a liberdade dos casais, estejam em que situação for. Nenhum clérigo tem nada com isso, deve respeitar a liberdade e vontade própria de cada pessoa. D. Clemente mais uma vez considera a sexualidade não como um bem, mas, quando exercida fora das regras que foram convencionadas por pretensos celibatários, é um pecado ou algo diabólico que precisa de rectificação religiosa para ser válida e querida por Deus. Nada mais retrógrado e absurdo. A frase ainda choca mais se nos lembrarmos da doutrina da misericórdia, os apelos ao acolhimento e a pastoral da inclusão para os recasados defendido pelo Papa Francisco.

3. O bispo Manuel Clemente é um homem da história, disciplina que nunca devia ter abandonado, porque até tinha algum jeito para isso. Porém, aconteceu-lhe o que acontece a muitos na Igreja Católica, quando caem em graça, tornam-se «menino bonito e sabichão», por isso, servem para tudo, mesmo que tantas vezes se revelem com uma carga de incompetência confrangedora. Relativamente a D. Clemente, por causa dessa lógica amiguista, provavelmente, perdeu-se nas calendas da história um bom professor para termos pastor menor. Algumas vezes compromete a Igreja toda ou pelo silêncio estudado ou por pronunciamentos deste género totalmente descabidos, que descredibilizam toda a Igreja e metem no mesmo saco toda gente.

4. Já vai sendo tempo de os hierarcas não se meterem onde não são chamados, muito menos mexer no que está quieto. A teimosia de que os hierarcas da Igreja Católica sabem tudo e de tudo, cai neste ridículo diante de uma sociedade informada, liberal no domínio da sexualidade e em todas as questões sobre a vida. Daí que não colem estes anacronismos, ainda mais são patéticos perante uma sociedade esclarecida e com tanta gente especializada nas questões sobre a vida e a sexualidade. Porque deve falar sobre um assunto quem não tem experiência nenhuma sobre a matéria, renunciou à família e aceitou a missão que implica viver na solidão? - Nem vou pelo lado dos escândalos que têm assolado a Igreja inteira e que a desautorizaram por completo neste domínio da sexualidade. A famosa diplomacia de D. Clemente desta vez espatifou-se…

5. Face ao escândalo e indignação que se vive mais uma vez por causa de disparates sobre a sexualidade ou mais concretamente a vida dos casais em qualquer circunstância, proponho o seguinte: a) calem-se os hierarcas moralistas encartados de uma vez para sempre de falarem sobre o que não percebem e do que não vivem; b) Paremos de uma vez por todas de impor fardos pesados no âmbito da sexualidade sobre os outros, porque começa a levantar a suspeita de que estão invejosos; c) Vamos purificar-nos desta obsessão doentia pelo sexo e deixar em paz a intimidade dos casais; d) Deixemos de considerar as pessoas em geral como se fossem infantis e de que precisam de umas dicas para não caírem em pecado; e) Deve calar-se para sempre quem não é capaz de compreender a vida de hoje cheia de contornos multifacetados e que não vai ser capaz de assumir uma linguagem sempre nova que as mais variadas possibilidades da vida actual apresenta todos os dias; f) Enfim, é preciso deixar quieto o que não nos diz respeito e aceitar as opções de cada pessoa que pretenda refazer e assumir novas opções quantas vezes entender desde que não fira a dignidade de ninguém, mas persegue a felicidade.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A vida sem dignidade não é vida

Pão quente da Palavra para este domingo VI Tempo Comum
Este domingo 6º do tempo comum, o último antes de iniciarmos o tempo da Quaresma, fala-nos de Deus, cuja substância é o amor, a bondade, a misericórdia e a ternura. Não há outra forma de conceber a existência de Deus senão com estes valores que estão claramente disponíveis para o serviço da humanidade inteira. O coração de Deus é imenso. A partir de todas as formas e em todas as ocasiões procura «abraçar» para integrar todos os homens e mulheres dentro da comunidade dos filhos amados de Deus. Não há exclusão no coração de Deus, por isso, pressupõe-se que não aceita que ninguém em seu nome faça vingar sistemas de discriminação ou exclusão. Quando aqueles que rezam, meditam e apregoam esta mensagem acerca de Deus, mas depois inventam normas e regras que excluem ou promovem o narcisismo exclusivista, pecam contra o mundo e contra a riqueza multifacetada da acção do Espírito Santo.   
São Paulo, aponta o caminho, Cristo a todos quer salvar, tenham a cor que tiverem. Tenham a doença ou a mazela que tiverem. Não importa. Basta que cada coração esteja cheio de amor e aberto ao acolhimento do outro de forma desinteressada. Esta é a religião dos irmãos, porque todos filhos de um Pai/Mãe comum. Por isso, dói saber-se que muitas manifestações de racismo e xenofobia ainda fazem parte das nossas sociedades. Esta é a lepra dos nossos tempos. Jesus demonstra claramente que não quer ninguém no chão, mas a todos deseja chamar à vida com dignidade.
Não pensemos que o racismo é só coisa de África ou da América, está muito bem implantado no nosso quotidiano. Silenciosamente provoca muitas injustiças e sofrimentos.
O apelo do Apóstolo dos gentios deve calar fundo no coração de cada um de nós: «não sejais ocasião de pecado…» Não podia vir mais a propósito este apelo, para que cada um deixe de pensar que se salva sozinho e que ser cristão não implica uma abertura aos outros incondicionalmente. A salvação de Deus, nunca acontece individualmente, mas vem ao encontro de todos. E Deus quer que nos olhemos como irmãos.
Também é curioso que a primeira leitura nos mostre como ao abrigo de uma imagem construída e distorcida de Deus, fizeram leis que definiam como se devia lidar com os leprosos. Aqui temos um tema reincidente, para percebermos como neste domínio ainda não avançamos muito, frequentemente as religiões sob a desmedida sede do poder e a vontade de dominar, inventam imagens de Deus deturpadas para fazerem valer os seus intentos, mesmo que a esse custo venha sofrimento, discriminação e morte, que depois são apresentados levianamente como danos colaterais. Deus não é nada disto e está claramente contra isto.
Por isso, no Evangelho Jesus clarifica as coisas. Porque Jesus mostra-nos um Deus que vem ao encontro das vítimas discriminadas e dos excluídos. A sua compaixão é incomensurável com os que caíram na miséria, estende a mão de amor aos pecadores, liberta do sofrimento e chama todos para o Seu Reino. O Deus de Jesus não está nada aí para a marginalização e faz a denúncia clara contra todas as formas de opressão nas famílias, na política e na religião. A sua lógica é a fraternidade. Tudo o que ponha em causa essa nova estrutura não entra no coração de Deus e não devia entrar também no nosso.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Deus e eu

Há muito tempo que desejava apresentar no Banquete da Palavra um cardápio pela mão do amigo Raul Ribeiro. Finalmente, aqui está com a mestria e beleza da escrita que tão bem ele sabe apresentar. Desfrutem… E muito obrigado Raul e sê bem vindo ao nosso Banquete... 

“Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos.”
Hebreus 11.1 
Qual a tua relação com Deus?
A resposta mais comum, nesta era de comunicação virtual e solidão espiritual, é de que “falo com ele, à minha maneira”. A procura activa pela palavra de Deus e pela descoberta ou aprofundamento da Fé, cada vez menos se traduz napresença assídua nos Seus templos e na partilha dessa vivência em comunidade. Neste tempo de querer ter tudo e crer não ter tempo para nada, é quase com naturalidade que nos tornamos passivamente indiferentes a Deus. De quando em vez, por descargo de consciência ou obrigação social, lá arriscamos sussurrar umas breves orações, enquanto desenhamos um mecânico e envergonhado sinal da cruz. Mas quando o nosso castelo, de areia feito, é abalado e ameaça desmoronar-se, é para Deus que nos viramos, em apelos lancinantes e fervorosas juras de eterna devoção. Concedida a Graça e regressados à bonança… “Deus sabe que eu não tenho tempo para Ele agora…”o
Tornou-se, assim, um expediente habitual afirmar que “falo com Deus, à minha maneira”. É uma muleta que desobriga da comparência e do envolvimento, e que prescinde de testemunhas e cúmplices. Ao mesmo tempo, eleva-nos a um estatuto superior à generalidade dos fiéis, que carecem de intermediário, local e hora marcada para comunicar com o Altíssimo.
Eu, pecador me confesso, também sou assim. Quando instado, como agora, a comentar a minha relação com Deus, dificilmente fujo a este lugar-comum. 
Contudo, com o passar dos anos, há um vazio cá dentro que teima em crescer. Há algo que falta, e que não se preenche com monólogos de circunstância. 
Falta-me a FÉ. 
Sim, tenho uma espécie de crença; sim, encontro Deus, o meu Deus, nas pequenas coisas de todos os dias, na simplicidade e na inocência, num olhar dos meus filhos ou no abraço de um amigo. 
Sim, acredito em alguma coisa; acredito na bondade como princípio ético e modelo de vida; acredito no amor e na alegria; acredito que o sentido de humor é uma dádiva, e que o riso nos aproxima do divino.
Mas, repito e insisto, falta-me a FÉ, e quero alcançar o conforto e a confiança que descubro no olhar de quem a tem.
Admiro aqueles que abrem a porta a Deus de sorriso aberto, sem fazer perguntas nem esperar contrapartidas, sem racionalizar nem questionar.
Eu ainda não o fiz, porque é sempre mais fácil rejeitar do que aceitar aquilo que não vemos nem conseguimos demonstrar. 
Curiosamente, este texto tomou um rumo totalmente diverso da minha intenção inicial, mas escrevê-lo teve o efeito de aproximar-me da essência de algo que me andava a escapar.
Hoje, acreditem, dei mais um pequeno passo em direcção a Deus.