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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

A vida interior

Escrever nas estrelas
1. Todos nós temos uma vida interior. Uma pessoa faz-se com estas duas dimensões: a vida interior e a vida exterior. A comunhão entre as duas realidades, também é um tema interessante. Mas não vou tratar dele por hora. Agora interessa-me relevar que a vida interior tem três características que são muito importantes para o nosso bem estar e felicidade: uma correcta concepção de Deus, a harmonia psicológica e as circunstâncias do meio que nos rodeia.
 
2. O transcendente tem uma influência muito grande na nossa vida. Se a relação interior com essa dimensão não for bem enquadrada e se não estiver bem definida, os prejuízos que daí possam advir para o próprio e para os outros com quem convive, podem ser verdadeiros fardos que levam à desgraça. Deus não pode ser uma entidade encarada com suprema violência nem muito menos como um conjunto de regras morais que obrigam a comportamentos mecanizados ou previamente programados, sem liberdade e com o medo cerceador de vir a errar. Deus tem que ser um mistério inabarcável, próximo e inacessível ao mesmo tempo. Deus é mistério de liberdade, misericórdia, suma bondade, desafio estético e beleza, porque caso não seja visto com estes atributos conduz ao sofrimento, ao medo e ao cerceamento da ousadia da liberdade criativa. Aliás, que fique claro, fora destes parâmetros Deus não existe.

3. Outro elemento para uma saudável vida interior, é a harmonia psicológica. Quando tal não acontece, temos aquilo que vamos presenciando todos os dias, violência generalizada. O ódio comanda vida, mesmo que já se saiba que este é um veneno que mata quem se alimenta dele. A paz exterior não está presente, porque ela secou na fonte, que é o interior de cada pessoa. Assim, porque falha essa harmonia psicológica, as pessoas não se suportam, não toleram as falhas, os insucessos e não sabem conviver com as derrotas pessoais e com as dos outros. A falta de harmonia psicológica deriva por sua vez de uma desequilibrada vida espiritual, onde se percebe que há religiosidade distorcida, péssima concepção acerca da divindade, confusão entre o bem e o mal, com a ajuda de que tudo é pecado, porque há um vigia castigador em cada esquina. A desarmonia psicológica conduz à mania da perseguição que faz desequilibrar totalmente as relações fraternais. Os outros tornam-se inimigos, porque o amor secou. E chegados a esta fase pouco falta para o desespero e a consequente desgraça do fim da existência neste mundo, que pode ser levado a cabo pelas suas próprias mãos. A desarmonia psicológica conduz ao desgosto pela existência, à fealdade de tudo, à incapacidade de fazer silêncio, à não contemplação da natureza e à inutilidade do ser gente. O mundo é um lugar todo tenebroso, feio e perigoso, que é preciso fugir dele para sempre.

3. Ambas as situações, quer a correcta ou incorrecta relação com Deus, a harmonia ou desarmonia psicológica, leva-nos às circunstâncias do meio que nos rodeia. O contexto familiar, social, político e religioso, fazem e muito o que somos e ajudam a construirmos o que sentimos e somos em cada momento da nossa vida. O ambiente que nos rodeia e as pessoas com quem convivemos vão influenciar a ideia que temos sobre Deus, a forma como nos relacionamos com o transcendente e vão sobremaneira influenciar o estado psicológico. Precisamos de saber viver neste ambiente, a inteligência, a serenidade, a honestidade não nos devem faltar quando temos que seleccionar o que vamos reter daquilo que nos chega da família, do ambiente social, da mediação política e das práticas religiosas onde estamos inseridos (se for o caso que não estejamos inseridos nelas, podemos vê-las na acção dos outros). A realidade circundante é muito importante para o que venhamos a sentir, que depois influenciará naquilo que vamos viver pessoalmente e no convívio com os outros.

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