Convite a quem nos visita

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Se religião for apenas poder pelo poder

toda a religião tem doutrina a todos os níveis, que até pode ser a mais luminosa e teoricamente a mais lúcida do mundo. Mas, toda a religião com poderes, com hierarquias, com interesses, com vida comoda, com economia e finanças para gerir… Não se lhe distingue diferença alguma, porque tem uma lógica mundana e que se coloca ao mesmo nível de qualquer outra organização humana, viola descaradamente os seus princípios originários e esquece tudo o que ensinou e exemplificou o seu Mestre. Por aqui podemos deduzir, porque anda debaixo de fogo constante o Papa Francisco e tantos outros que em nome do Evangelho reclamam que a religião se torne verdadeiro serviço para todos. Assim, se percebe também que os verdadeiros inimigos do Evangelho não estão fora do âmbito religioso, mas dentro, particularmente em todos aqueles que não abdicam da vida principesca que a oportunidade da religião lhes confere. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

A riqueza de ser cristão

ser cristãos não é fácil. Ser católico é mais fácil. Ser cristão implica estar sempre inquieto, requer uma força de vontade para seguir e pôr em prática o ideal de Jesus Cristo, que não é nada pera doce. Ser católico é mais fácil, porque aquieta a consciência com meia dúzia de orações, umas devoções, umas bênçãos, umas idas à missa algumas vezes no ano ou apenas quando lá tem que ser, a celebração de um baptismo, um casamento, um funeral e uma circunstância qualquer que num determinado contexto não permite a fuga. O Papa Francisco numa das suas missas em Santa Marta exortou os católicos a se tornarem cristãos a levarem «uma vida corajosa» contra a preguiça que invade tantos que estão «estacionados» na Igreja. E definiu o que são e o mal que fazem: «os cristãos preguiçosos, os cristãos que não têm vontade de ir avante, os cristãos que não lutam para fazer as coisas mudarem, coisas novas, coisas que fariam bem a todos se mudassem. São os preguiçosos, os cristãos estacionados: encontraram na Igreja um belo estacionamento». Não se cuidem que estas palavras sejam só para uns ou para alguns especialmente. São palavras que tocam a todos. 

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

A inteligência distingue as realidades

a fronteira entre o picante e o nojento é ambígua. Pode inevitavelmente variar de pessoa para pessoa, de situação para situação e cada um encontrará argumentos para defender-se diante das mentes mais puritanas ou sensíveis. A moral e a ética nem sempre se conjugam no mesmo sentido. É, por isso, que se a descontracção de uma história escandaliza, também repugna e fere a inteligência saber-se que a tentação de espreitar pelo buraco da fechadura e o deixar-se conduzir pela mentira descarada, a falsidade sem escrúpulos e a sujidade interior da inconsciência perante as artimanhas do pecado faz parte do quotidiano de muita gente. São estes mecanismos que pervertem as fronteiras e revelam outras falsidades contrárias à felicidade, esse bem tão ausente neste tempo que vivemos. O desejo rotineiro de contar uma anedota pode provocar reacções várias depende dos espíritos que as escutam. É sempre necessário inteligência para saber distinguir as situações, os momentos e os modos com que se fazem e dizem as pequenas histórias. Se é nojento contar anedotas que alguns consideram picantes ou porcas, também não é menos nojento, perverso e medíocre ver programas de baixo nível na televisão, onde o palavreado rasteiro, de calhau grosso é regra principal e as cenas de nudismo e de sexo são uma constante.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

A partir de uma frase de Saramago

nas errâncias desta vida, encontramos segredos, que se desvelam em palavras orquestradas em frases magníficas que dizem tudo sobre o tudo. Aqui este tudo, é Deus. Esse, de quem nada pode ser dito, pensado, sonhado... É sempre o Outro, o Inominável, a Alteridade por excelência. Então fico-me na sublime frase de José Saramago, que define o máximo sobre Deus e o que nós somos diante dessa realidade que Deus é... Diz assim o autor de o "Ensaio sobre a Cegueira":  "Deus é o silêncio do universo e o ser humano é a voz que dá sentido a esse silêncio". Os ídolos, hoje, parecem desfrutar de uma saúde excelente, enquanto Deus parece suscitar menos fascínio no homem moderno. No entanto, são "ídolos mudos", que não podem salvar o coração do homem na sua mais recôndita necessidade de amar e ser amado. Quantas imitações, quantas distorções do verdadeiro rosto de Deus! Livre-nos, Deus, da crise moderna que é a crise de reconhecer Deus, há o eclipse de Deus, a ignorância de Deus, a aversão a Deus. Muita da esperança humana está a encontrar decepção quando busca respostas fora de Deus. Porque a humanidade subordina a sua vida, o seu futuro e tudo o que possui de bom a outros "senhores", procedendo assim sempre anda longe da felicidade. Faz-nos conscientes desta tragédia, para procurarmos encetar caminhos que nos humanizem de verdade, nos façam perder a vergonha de ter Deus no coração e sermos a voz do silêncio do "amor deste Deus" que nunca falha na Sua justiça.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

A procura do centro da existência

neste albergue onde abrigamos a existência, precisamos de energia partilhável, de olhares que se cruzam, uma alma que nos toque (a nossa e a das outros), compreensão que nos abafe, a compaixão que nos console, o perdão que nos faça sorrir, a palavra que nos faça gente como toda a gente e tudo que anima o convívio e a amizade. Nesse pouco que somos, podemos ser muito se existir muita realidade à volta que nos preencha, nós compreendamos e que nos compreenda. Tudo tão difícil, mas tão nobre e enorme. Os tombos interiores são importantes e necessários, porque purificam a alma e fazem abrir os olhos da interioridade. Já vimos que só o material não chega, porque quando ele se impõe obsessivamente, só por si, faz nascer o vazio e o inútil, caso nunca tenhamos predisposição para a partilha de afetos com aqueles que nos rodeiam enquanto vivemos. Os olhos da cara desvelam muito, mas não nos fazem ver tudo.

domingo, 25 de novembro de 2018

Que reino é o reino de Deus

Nietzsche, no seu "Anticristo", proclamará que o "reino de Deus" é uma "lastimável mentira", que serviu para a Igreja fixar os seus valores que chama "vontade de Deus". Nisso consistia o domínio e o poder da Igreja. Neste sentido, para este autor o Cristianismo é uma religião da "decadência" e não da libertação da humanidade. Em muitos momentos da história da Igreja e ainda nalguns meios da Igreja Católica na actualidade, leva-nos a dar razão ao autor de "Assim falou Zaratrusta". Mas, vejamos como é o «reino de Deus» por Jesus. A aparente derrota de Jesus é a lógica do poder posta do avesso. Jesus é um Rei que não se coaduna com as injustiças sociais, pessoais e institucionais. A sua morte na Cruz é o resultado da sua acção contra tudo o que não promove a dignidade da vida e do amor. É o preço a pagar pela sua radical preferência pelos desafortunados deste mundo. Na escola de Jesus, só se ensina uma única matéria: o reino! Este reino que se aprende da vida e do exemplo do Mestre. O exemplo de Jesus e a Sua vida radicam na partilha que resulta na fraternidade, na amizade e no amor ao próximo. É este reino que sonhamos para o mundo, o nosso mundo. Urge acabar com a lógica do domínio do forte sobre o mais fraco, é preciso acabar com a ganância geradora de pobreza. Urge semear a vida para todos. Urge considerar cada um como um ser único e digno de ser amado, como fazia Jesus.

sábado, 24 de novembro de 2018

O mar imenso que é a existência

olhemos o mar que banha a terra e os nossos pés. Ele, evoca a imensidade e a sublimidade de um mistério que não é nosso, mas fazemos parte dele. Mesmo que tantas vezes a nossa vida seja "como o lírio entre os espinhos" (Cant 2,1ss; Mt 6,28). Porém, o lírio estoicamente nunca deixou de nascer e florescer todos os anos para nos alegrar a alma e fazer sorrir o pensamento. Uma manhã e outra manhã, uma vaga e outra vaga ondulante e fria, que sempre vem ao nosso encontro marulhando o silêncio que as encostas imponentemente geram quando me concentro com os olhos da cara fechados mas com os da alma bem abertos.  Nesta profunda oração consolei-me surpreendentemente com as palavras de Goethe "A man sees in the world, what he carries in his heart" (O homem vê no mundo o que ele carrega no seu coração). Como seria tão eficaz para a felicidade do nosso mundo, haver mais tempo e mais predisposição para olhar para "o mar imenso" - utilizando uma expressão de Fernando Pessoa - do coração e nele entrar com a barca da vida até ao porto seguro do amor, porque "Deus ao mar o perigo e o abismo deu, / Mas nele é que espelhou o céu" (Fernando Pessoa, Mensagem. Poema X Mar Português. Edições Ática: Lisboa. 1959). Melhor sobre este mar da vida que o coração de cada um de nós tem, seria impossível dizer tão magistralmente como o nosso mestre da poesia.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

A família que temos e as outras famílias

não há hoje uma antropologia subjacente no debate sobre o fundamento natural da família como veio a ser referido por Thomas Hobbes (1588-1679) quando afirma «que a aplicação da lei natural, conhecida como lei áurea consiste em, ‘Não fazermos aos outros o que não gostaríamos que fosse feito a nós’». A forte concorrência do nosso mundo, o relativismo radical e a luta frenética do mundo da economia e da finança desumanizou as pessoas e daí adveio um conjunto de contra valores que destruíram o fundamento natural da família e quiçá o equilíbrio psicológico e espiritual dos homens e das mulheres do nosso tempo. Dado que a família tradicional se desestrutura e surgem modelos tão diversificados de constituir e ser família, que precisamos de descobrir o sentido da vida na família que nos foi concedida pelo mistério da existência. E por que não alargarmos o ser família até aos colegas de trabalho que a profissão nos desvelou e todos os que o encontro fraterno no dia-a-dia nos vai proporcionando... Precisamos de ponderar todos os gestos e todas as tarefas que realizamos sempre com viva consciência para que nunca venhamos a fazer contra ninguém o que desejamos que nunca nos seja feito. Procedendo assim teremos já meio caminho andado para sermos instrumentos de boa convivência e de saudável transmissão da fraternidade, que, afinal, percebe-se hoje, ser a principal vocação do ser humano. Precisamos por isso de não vacilar perante o egoísmo e abrir o nosso coração à grandeza da vida partilhada no bem para que sejamos felizes e dessa forma possamos contribuir para felicidade de todos os que estão a viver connosco, seja a família de sangue ou seja família social/humana.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

A crise da democracia

a democracia não está em crise. E de longe estão esgotadas todas as potencialidades da democracia. O jurista francês Dominique Rousseau, numa entrevista sobre a democracia, considerou que não é a democracia que está em crise, mas a sua forma representativa, porque os seus representantes trabalham muito para que a dita crise surgisse. Daí a inevitabilidade dos populismos, com as suas roupagens fascistas e todos os perigos relacionados com a pior forma de governo que é a ditadura. Dominique Rousseau considera que «o populismo é a doença senil da democracia. Não pode ser o seu remédio». O contexto de crise generalizado em que vivemos tem feito surgir figuras no espectro político que ao invés de nos garantir segurança e confiança no futuro tem feito surgir os piores receios. A crise da família, que sofre uma mutação sem precedentes a todos os níveis, por um lado desagrega-se e por outro ganha contornos nunca experimentados no passado e que augura uma enorme incerteza quando às mentalidades e comportamentos que daí advirão. A crise da escola, profundamente politizada e mergulhada numa confusão geral de burocracias, desconfiança, morte da autoridade e inversão de valores, para não dizer incapaz de acompanhar os ventos do tempo moderno que passa. A crise da cidadania, que se desumaniza e mergulha numa apatia cada vez mais acentuada quanto ao bem comum, as questões ecológicas e tudo o que faz parte da vida na cidade. A crise do Estado, que se converte cada vez mais num «estadão», uma máquina eficaz de controle da vida dos cidadãos, com uma eficácia impressionante a cobrar impostos, mas lento e desleixado na assunção das suas responsabilidades quanto às necessidades dos seus cidadãos (basta observar como está o sistema de educação e o de saúde). Este contexto, faz adoecer a democracia e desencanta os eleitores, que cada vez mais se cansam de votar na «desgraça» que os representa. Daí que tenha sucesso o líder paternalista, com discurso duro contra a democracia que ele aproveita para catapultar o poder, que depois menospreza com a sua ação. Tempos novos, que requerem atenção e clarividência dos homens e mulheres sérios que acreditam no futuro da democracia, na fraternidade e na inclusão de todos os seres humanos independentemente da sua forma de ser e pensar.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

A mentira quotidiana

num tempo e num mundo onde se tornou normal mentir, parece, que a vida não tem graça sem uma mentira frequente. A sede e a fome matam-se com a água e com a alimentação respectivamente, a sobrevivência quotidiana mata-se com a mentira descarada, a mentira mais ou menos subreptícia, a mentira às vezes suave ou às vezes forte e a mentira mais ou menos construída, estruturada… Uma grande parte do mundo mente e muita coisa à nossa volta não passa de pura mentira que se reveste de ilusão utópica. O profeta Jeremias há muitos séculos constatou: «É a mentira e não a verdade que prevalece na terra» (Jer 9, 2). Neste sentido advertiu Mahatma Gandhi: «Assim como uma gota de veneno compromete um balde inteiro, também a mentira, por menor que seja, estraga toda a nossa vida». Mas delicio-me no pensamento de Pablo Picasso quando nos ensina: «A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade». Neste sentido, somos chamados cada dia a sermos mestres da verdade, a procurarmos todas as palavras que digam a verdade. Só a educação e a cultura instruem contra o engano fatal da mentira. Deus chama-nos a assumirmos todas as atitudes que enformam o nosso ser e são o reflexo da vida concreta, para nos tornarmos instrumentos da verdade que salva e mediação do amor autêntico que edifica todas as coisas em função do bem. 

terça-feira, 20 de novembro de 2018

O meu espanto com brincadeiras de gente grande

uma reportagem no JM  começa assim: “Exército 'recruta' crianças para mostrar como é a vida militar. O entusiasmo é grande” (JM - 19-11-2018). Quando vi escarrapachado tal brincadeira nas páginas em papel do jornal, espantei-me com tamanha barbaridade, mostrar trincheiras, metralhadores e outros instrumentos de guerra usados por adultos para ferir e matar. As crianças experimentaram brincando, daí a expressão “o entusiasmo é grande”. A coisa faz pensar, ainda mais se implica crianças que foram induzidas a brincarem com armas que matam. Comentei com algumas pessoas o que viam os meus olhos, não se admiraram tanto quanto eu, pensei, que devia ser coisa minha, por isso, decidir estar calado... Porém, felizmente, encontrei um amigo do facebook, Óscar Teixeira, a lamentar o sucedido desta forma: “O exército é, sem dúvida, uma instituição da maior relevância num país. Mas, infelizmente, pelos piores motivos do bicho homem. Poupem as crianças. Não se pode mostrar às crianças a vida militar como uma brincadeira, pois não se brinca com brinquedos que matam, como também já não se admite que se brinque com chocolates que ensinam a fumar. Pior, se o tabaco mata, a metralhadora foi feita para matar”. Fez acompanhar o seu comentário com a foto que apresento em cima. Corroboro plenamente estas palavras e acrescento apenas que gostaria de ver o nosso exército nos tempos de hoje a fazer actividades que promovam a vida e a paz. Todos devemos trabalhar para a paz. Admiro-me muito que pais e educadores destas crianças tenham aceite uma brincadeira do género de ânimo leve. Mas, enfim, provavelmente, os sentimentos belecistas entre nós parecem estar bem vivos no coração de miúdos e graúdos. Coisa grave quando se espera que a guerra seja um assunto bem arrumado nas calendas da história. A guerra mata e destrói, por isso, não se brinca com coisas sérias, porque a vida é importante de mais para que os resquícios da guerra venham atormentar-nos o bem estar, mesmo que seja por brincadeira.


segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A confusão de valores

este domingo, II dia Mundial dos Pobres, fiquei marcado por muitas coisas, mas especialmente, por três frases que devem ser escalpelizadas e fazer-nos a todos pensar o quanto empobrecemos, isto é, o quanto perdemos a noção da hierarquia dos valores e que tudo não se justifica para travar argumentos a favor ou contra as causas, mesmo que estas causas sejam as mais nobres da vida. Recorro a La Palisse para dizer o óbvio, um animal é um animal, uma pessoa é uma pessoa. As duas realidades são distintas. Animais e pessoas merecem todo o respeito e deve ser cuidada cada realidade na sua condição. Não me encaixa bem quando se recorre à causa das pessoas para respeitar e cuidar dos animais. Não me soa bem quando se recorre aos animais para respeitar ou cuidar das pessoas. Precisamos de cuidar, respeitar as pessoas e os animais. Não se menospreza as pessoas quando cuidamos dos animais, não desrespeitamos os animais quando cuidamos das pessoas. Tudo faz parte da criação, tudo faz parte do ser e esse ser inteiro preenche o bocadinho do ser que me pertence. Tudo em tudo e todos com todos, é o que somos e o que devemos ser. Mas vamos às frases e convido os meus leitores a fazerem a vossa interpretação. Primeira: “Dia mundial dos pobres... povo, quem acha que o pobre deve ser mais defendido que gatos e cachorros?” (Por confusões deste género os pobres já foram espancados depois de serem denunciados à polícia e de terem feito pedidos às autoridades para os “limpar” da rua como se de cachorros se tratassem). Segunda, que afinal são duas, ditas por um “poeta”: “A questão das touradas é uma questão de liberdade”; “Mas sou pelas pessoas e sou por qualquer coisa de sagrado que há na corrida, qualquer coisa de sagrado muito antigo. Quem não percebe isso também não percebe a poesia, não percebe a literatura. É difícil explicar isso a quem tem uma posição sectária e fanática”. Enfim, coisas da vida... Aqui declaro que amo as pessoas e gosto muito de animais. Vou continuar a respeitar, a defender e cuidar de ambas as realidades sem que uma condição atropele a outra.

domingo, 18 de novembro de 2018

Os sinais dos tempos movem a vida

a linguagem estalou com o verniz dos tempos que correm, porque a mentira vale muito mais, mas mesmo muito mais do que qualquer verdade. São poucos os que são "escravos" da palavra e muitos os que se limitam a dizer palavras ocas que depois não induzem à fidelidade do seu compromisso. O povo é o bombo da festa. Algumas vezes parece satisfeito até certa medida. Basta-lhe muitas vezes vegetar à sombra da ignorância e comprazer-se com os arrotos da abundância de festas, quiçá, migalhas que caiem da mesa dos corruptos ou dos ditos democratas que este mundo vai gerando para nos desbaratarem a vida. Os tempos andam tristes. Dessa evidência nada nos livra. Ainda estou para crer nas crises que os governantes inventam, para fazer de pretexto para as piores artimanhas contra a vida e a dignidade das pessoas. Por isso, só acredito na crise dos bolsos vazios da generalidade das pessoas. Agora, apesar de tudo fica-nos a garantia (a esperança) de Jesus que, num futuro sem data marcada, o mundo velho do egoísmo, da ganância e do poder pelo poder vai cair e que, no seu lugar, Deus vai fazer aparecer pela nossa ação, coragem e vontade, um mundo novo, de vida e de felicidade sem fim. A nós seus discípulos, Jesus pede que estejamos atentos aos sinais que preanunciam essa nova realidade e disponíveis para acolher os projectos, os apelos e os desafios de Deus, que se assumidos com honestidade conduzem à justiça e à felicidade.

sábado, 17 de novembro de 2018

A alegre surpresa da liberdade em cada dia

o que está em causa e sempre na ordem dia, seja no facto que aponta em relação a Bento XVI seja no que se refere ao papa Francisco, é tão simplesmente a visão da Igreja que se pretende seja o mais próximo do que Jesus anunciou e viveu. Trata-se de uma igreja instalada nos seus privilégios e dogmas que não está em sintonia com a acção de Jesus: acolhimento aos pobres, aos marginalizados, aos rejeitados da sociedade política, social, económica, religiosa. O querer voltar às origens, bem adaptadas ao tempo presente, é o que “trama" o papa Francisco, há quem não queira o desconforto da procura e prefira a instalação no "status quo", o dogmático, o seguro, o cómodo... Dar largas à desconcertante surpresa quotidiana do Espírito Santo é muito desafiador, mas é esse o caminhos do Evangelho. É tempo de nos decidirmos por Jesus e pela Sua mensagem de acolhimento a todos, em especial aos que são mais desprezados.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Ao Padre Martins Júnior

Homem incansável da palavra
Comandante do sonho da fraternidade
Timoneiro do povo nobre da Ribeira Seca
É o «Senso y Consenso» da prestigiosa sabedoria
Indomável nos princípios e valores humanos e cristãos
É Prometeu da Madeira, solto dos grilhões do Tempo e do Templo.

É o padre da palavra profética
É a poesia no chão onde mora o povo
É o homem do mundo e da vida para todos
É a amizade incondicional
É a inquietude inesgotável
É o sonho para o seu povo
É a garantia da esperança
É a alegria da festa
É a luz que aponta o sentido do mundo
É a luz que ilumina «a Igreja é do Povo, o Povo é de Deus»
É a luz na injustiça que verga os pequeninos e os simples
É a luz na libertação da colonia insultuosa
É a luz contra os poderosos que minam tudo
É a luz desobediente na infantilidade «do quero, posso e mando»
É a luz de liberdade diante da opressão
É a luz debaixo deste pedaço de céu carregado de nuvens

- Amado pela simplicidade que pertence ao povo
Cuspido e vilipendiado pelos fascínoras instalados no poder.
Neste chão do mundo é Homem, é Padre, é Teólogo do Verbo
Feito carne no seu povo sujeito último da causa e da missão.
É o mais qualificado da sua geração
E hoje desperdiçado pelo oceano imenso
Deste anacrónio e ignorante incenso bafiento sacrístico
Que nos acompanha os dias. Até ver!

Bem haja por dizer não quando queriam que fosse sim e vice versa.
Parabéns, por mais esta já longa, mas lúcida, Primavera… (JLR)

Movimentos mascarados de bonzinhos

a reportagem da jornalista da TVI Ana Leal sobre o «IRA» (movimento para defesa dos animais, mas que se dedica a exercer verdadeiro terrorismo contra os animais e os seus donos e ganhar dinheiro, muito dinheiro), fez-me lembrar o seguinte. Tantas vezes pergunto a mim mesmo quando os crimes são perpetrados por grupos de bandidos ou marginais, como será possível, num grupo de várias pessoas não aparecer um ao menos que coloque a mão na lucidez e esclareça os demais que vão cometer uma chacina hedionda ou que vão tirar a vida a alguém que desaparecerá para sempre? Porque deixou de ser possível não haver a noção do que é certo e errado? Como é possível entre tantos não aparecer nenhum que saiba fazer a distinção entre o mal e o bem? Como é que são possíveis grupos tão grandes de gente comercializarem a vida humana por apenas uns miseráveis tostões, vendendo, matando, destruindo e rasgando a carne humana? – Não há compreensão possível para tamanha façanha estúpida contra a vida humana. É preciso conter e travar a ira.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A democracia suspensa

nunca houve tanta contradição e tanta ambiguidade na humanidade como neste mundo e neste tempo que nos foi dado viver. No entanto, para bem ou para mal - não me cabe julgar - nunca se viveu envoltos em tanta mentira, em tantos silêncios estudados, em tantos avanços e recuos, em tanta opção ao sabor dos interesses pessoais, em tantas situações que calam diante do escândalo e da corrupção humana, em tantos discursos sem prática, em tanta palavra vã, em tanta infidelidade contra a palavra dada, em tanta ambição de poder, em tanta loucura por causa dos bens materiais, em tanta cegueira sem sentido, em tanta desordem moral e ética, em tanta perversão dos costumes, em tanto jogo matreiro que pretende considerar os outros como tolos, em tanta ordinarice que nos leva a concluir que este tempo não tem precedentes na história humana, mas de certeza quase segura, que terá influência na forma de ser e pensar das gerações futuras. A aldeia global da economia e da informação, dá lugar à «aldeia global do medo» como alertou o jornalista catalão Miguel Rivero Lorenzo de «La Vanguardia». Há uma crise profunda da «democracia representativa» e provavelmente emerge a necessidade de pensar a sério a «democracia contínua», aquela democracia que cada cidadão comparasse «em cada momento» os actos dos poderes Executivo e Legislativo com os direitos declarados e reivindicasse o seu respeito.  «Comparar», «reivindicar», «cada cidadão», «em cada momento», «respeito pelos direitos constitucionais», todas as características da democracia contínua estão aqui, suspensas por dois séculos! É urgente retomar a democracia suspensa em nome dos interesses egoístas de minorias contra o bem comum das maiorias.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Viver sem egoísmo

quem vive exclusivamente para si, egoisticamente falando, sem se abrir ao espírito da relação com os outros, fragiliza-se e a vida mais tarde ou mais cedo converte-se num fardo absurdamente pesado. Toda a vida se não for vivida para o crescimento, para a partilha, para a beleza dos frutos e para a reprodução do amor, acaba na morte, mesmo que continuem a existir muitas pessoas que deambulam sobre dois pés. Não é existência, Se nos encerramos nos nossos prazeres pessoais, se nos sequestrarmos e se nos encerrarmos na vida com um esquema curto de pensamento e de sentimentos, que conduzem à esterilização e à morte... Venham à luz do mundo homens e mulheres que vivam para a vida inteira e para a construção da humanidade sem exclusão, porque dão e se dão generosamente às multiformes maneiras de servir o bem comum e a justiça.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Nenhum caminho fica longe

suaves são os campos diante dos olhos do mistério do amor quando a paz vence a divisão e a guerra. A luz brilha e sorri perante o encontro da beleza da vida quando em cada gesto de amizade e fraternidade, foram vencidas as trevas do ódio, da vingança e da maldade humana. Firmes são os passos que não se deixam abalar porque nada vence a determinação e a atitude quando vieram os desafios, os problemas e as dificuldades. Um caminho só se faz caminho de alegria, quando se caminha na direção do lugar que se pretende chegar, porque só aí descansará segura a alma que não desistiu de fazer caminho. Nada é seguro, nada é fácil, tudo o que somos e temos implica determinação, vontade e coragem. Estes condimentos são à partida metade do caminho realizado. Não desistir nunca e não abdicar dos valores que se comungou naquele encontro com a Palavra, é da pessoa grande. Nem tidos chegam lá. Mas, apesar de tanta perturbação e de tanta perplexidade, penso que o nosso mundo ainda está está de sonhadores que nunca desistem. 

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O apelo do mundo

Saio de mim 
desço aos infernos
da indiferença do mundo
contemplo os olhos pobres
lacrimosos de Deus
abandonado no chão 
das almas sem nome e sem vez.

Ergo a voz 
contra a injustiça
a solidão das mãos
que nos tocam 
o silêncio conivente
e o esquecimento 
propositado
quando a verdade
deixa de ser o pão 
que o sonho 
construiu passo a passo
em cada dia
de uma existência feliz.

domingo, 11 de novembro de 2018

Dar-se por inteiro contra a escravidão

todos os dias somos confrontados com propostas de vida fácil e de felicidade garantida para sempre, mas, quase sempre tais aliciamentos nos conduzem ao desencanto, à frustração, à escravidão, à dependência, à desilusão… Faz algum bem, mas a felicidade não nasce automaticamente, à volta de muito dinheiro, do carro, da casa, do tacho (conseguido sabe Deus como), muito menos com currículo académico que ostentamos, das palmas e honras que nos são atribuídas... O que queremos ser não está em primeiro lugar aí. Só a descoberta do sentido da vida e a verdadeira felicidade nos liberta de toda a forma de escravidão. Neste sentido, o Papa Francisco deu-nos esta frase maravilhosa: «Quantos desertos tem o ser humano de atravessar ainda hoje! Sobretudo o deserto que existe dentro dele, quando falta o amor a Deus e ao próximo, quando falta a consciência de ser guardião de tudo o que o Criador nos deu e continua a dar». Tudo o que é deste mundo se não está ao nosso serviço faz de nós criaturas submissas e vergadas à vontade alheia. Tornamo-nos escravos. Deus não deseja isso para nós, porque não nos quer desgraçados, mas cheios de graça, libertos e felizes.

sábado, 10 de novembro de 2018

Os messias estão por todo o lado

o mito de Sófocles na magnífica “Antígona”, proclamou no ponto alto do diálogo o seguinte: “a teimosia merece o nome de estupidez”. E Hémon, um dos personagens da Antígona dirá alto e bom som: “quem julga que é o único que pensa bem, ou que tem uma língua ou um espírito como mais ninguém, esse, quando posto a nu, vê-se que é oco”. Por isso, muitas vezes tanta inveja para nada face ao vazio que a luz do dia revela. O invejoso pensa com as pernas, como dizia o autor Ambrose Bierse. Este mal sentir algumas vezes assenta na ilusão, outras vezes na estupidez e outras (muitas vezes) na ideia de que o mundo vai acabar ao virar da esquina sem aquela ou aquelas pessoas. Daí existirem os imprescindíveis e os salvadores. Os denominados messias da política e da religião. Certo, o mais certo, é que os cemitérios estão cheios de cabeças que pensavam assim. 

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

A atitude é a marca da liderança

uma pessoa conhece-se bem e passamos a admirar muito quando nos momentos difíceis e de crise revela ter atitude e determinação. Quando tudo corre bem qualquer um liga o piloto automático e a coisa funciona quase por si mesma, não requer nada de engenho e até esquecemos quem está por detrás do movimento da realidade. Se as coisas vão mal, estão a pedir atitude, muitos vão à procura de livros de auto ajuda, que não resolvem nada, porque normalmente foram feitos por gente mal resolvida e que nunca resolveram nada na vida. São pessoas que deram algum saltito na vida, venceram qualquer coisita e toca então dar lições aos outros para que não repitam os mesmos erros ou não sigam pelos mesmos caminhos. Uma boa causa e um gesto de caridade elevada, mas no geral não resolve ninguém. Não esquecer que a vontade de partilhar experiências pessoais não representa ter talento para ser escritor. Não vejam aqui maldade nenhuma. Mas estou a alertar que devemos desconfiar sempre de todo o género de lições, particularmente, aquelas que prometem fazer de qualquer um líder cheio de talento e carisma. Isso não existe. A liderança é um talento que nasce com alguns, aperfeiçoa-se e desenvolve-se o carisma. Todo aquele que sempre um froixo nas atitudes e quer se tornar um grande líder, não anda bom do juízo, ou anda alienado com um sonho impossível de concretizar. Deve ser por isso que a alma rude de António Aleixo definiu tão bem numa das suas quadras os pseudos líderes que o mundo tem: «Há tantos burros mandando em homens de inteligência, que, às vezes, fico pensando que a burrice é uma ciência». A liderança requer atitude, determinação. Por isso, a liderança está para todos, mas nem todos estão para a liderança. É coisa de poucos. Amigo, não sendo capaz de ter atitude, faça um semancol a si mesmo, pense em qualquer cargo de chefia, mas a liderança deixe para quem nasceu com ela. Se a almeja sem que ela tenha nascido consigo e tentando experimentá-la, não imagina o quanto vai ser ridículo e quanto mal vai semear à sua volta. Contente-se com o que é capaz de fazer, mas deixe a condição de ser líder para outro, se lhe faltam a atitude e a determinação.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Os vencidos do catolicismo

1. Não ser cristão como quem vive de uma recordação vai desaparecendo a pouco e pouco, para cada um ser fiel à responsabilidade que o estatuto de filho de Deus confere e que São Paulo exprime: «Se somos filhos, somos também  herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo» (Rom 8, 17). Quem diz herdeiro, diz continuador da missão, da vida.
2. Esta nova visão deve ser esclarecida em todos na Igreja, mas de modo especial na hierarquia eclesiástica a quem compete guiar os fiéis à santidade. Dela deve vir o impulso que permitirá a muitos cristãos desestabilizados a fazerem o funeral do mundo do qual se sentem órfãos e reencontrarem o dinamismo inscrito no centro da sua fé.
3. Os psicólogos verificam todos os dias que os traumatismos sofridos pesam muito, mas mais grave ainda é o seu recalcamento. A dor aumenta quando a pessoa atingida não pode manifestar o seu sofrimento e não tem quem a oiça com atenção. É importante que os cristãos possam manifestar o seu descontentamento e o seu desgosto, a sua impaciência e, por vezes, a sua raiva.
4. Por isso, renovarem-se e saírem do sofrimento faz supor que se purificaram interiormente em relação à crise, o que implica terem sido ouvidos. A hierarquia deve continuar a ver chegar-lhe esta queixa por vezes difícil de escutar. Mas deve compreender que é também sua tarefa acolher os decepcionados (ou os «vencidos do catolicismo» como diria Ruy Cinatti e tantos outros irmãos que se desencantaram com a Igreja ou que simplesmente foram esquecidos por ela) com a Igreja, os desencantados com os tempos, aqueles que a história recente afastou, aqueles que se inquietam com os progressos do mundo. Interessar-se-á por compreender a angústia da alguns cristãos e as suas interrogações. Preocupar-se-á com o acolhimento benevolente tanto das tentações de recuar, como das tentativas de experimentar. Sobretudo, saberão confiar na armadilha de uma atitude de defesa orgulhosa de um equilíbrio passado que se desfaz sem que a isso se possam se opor.
5. No fundo, basta não marginalizar ninguém e centrar toda a missão evangelizadora no acolhimento de todos como irmãos, numa atitude de humildade e desprendimento. Uma Igreja interessada só em bens deste mundo não tem futuro e tem os dias contados. Por isso, requer-se uma Igreja que ponha em prática a expressão tão conhecida e badalada do Papa João XXIII, «a Igreja, deve ser Mãe e Mestra». Mais deve a Igreja toda estar ciente da palavra do Evangelho: «toda árvore boa produz bons frutos, enquanto a árvore de má qualidade produz maus frutos. Uma árvore boa não pode dar maus frutos, nem uma árvore de má qualidade pode dar bons frutos» (Mt 7, 17-18).

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

É preciso decidir-se

cada pessoa tem habilidades ou dons que se desenvolvidos podem fazer um bem enorme à humanidade. Porém, nem sempre assim acontece, hora porque os próprios não querem, ou porque o contexto da vida não o permite ou porque os pais são pobres e não têm condições materiais para proporcionarem o desenvolvimento e progresso das habilidades dos filhos. Mas, o mais grave ainda é que a sociedade se não fosse tão indiferente e tão insensível aos seus membros, teria condições adequadas para não deixar escapar aqueles que um dia contribuiriam muito para o seu bem estar. Tudo isto acontece porque a perda de valores é geral, isto é, não se vive aqueles valores que não precisam de génios nem muito menos de heróis, mas de pessoas concretas que soubessem o que é a vida preenchida com valores. Ninguém disse melhor sobre este pensamento do que o Papa Emérito Bento XVI: «Na realidade, a vida é sempre uma opção: entre honestidade e desonestidade, entre fidelidade e infidelidade, entre bem e mal (...). Com efeito, diz Jesus: É preciso decidir-se». 

terça-feira, 6 de novembro de 2018

As imagens bíblicas sobre a vida

as mensagens bíblicas que nos chegam para fazer pensar que a construção da vida é como erguer um monumento, um edifício, são frequentes. Gosto muito da metáfora que considera a construção da vida como se fosse a edificação de uma torre, uma catedral ou um edifício qualquer. Sempre que alguém pensar fazer uma torre, senta-se primeiro e faz os cálculos necessários para que não corra o risco de chegar a meio e não ter como concluir. Quando tal acontece os outros encontrarão argumentos bem concretos para se dedicarem à zombaria. Ninguém gosta de se sentir envergonhado porque está a ser motivo de chacota. Jesus fez este alerta. Este cuidado deve fazer parte de nós e sempre devemos ponderar seriamente sobre todas as tarefas que vamos realizar. Deus está em todas as coisas da vida e do mundo. Por isso, é sempre uma elevada responsabilidade que nos cabe quando vamos encetar tarefas e trabalhos para a edificação do mundo. É preciso pensar bem sobre todos os pontos de vista.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

O suicídio é golpe fatal na humanidade

qualquer suicídio a pretexto do que quer seja é sempre "perverso" e inquietante, muito inquietante para quem ama a vida e se sente realizado, feliz... Porém, devemos repugnar o gesto e lutar para que ninguém, mesmo que apresente as razões mais válidas e legítimas para se suicidar, o venha a fazer. Sempre pensei que uma pessoa que chega a esta situação limite da sua vida, manifesta uma coragem impressionante, por isso, compreendo e rezo por estas pessoas com consternação e tantas vezes pensando o seguinte, quem me dera ter estado presente antes de acontecer isto para falar a esta pessoa do amor de Deus, da bondade e da beleza da vida. Alguns dirão, nas situações limite não vale a pena, quando acontece a pessoa está muito doente, desesperada e em fase terminal. Mas, certo, é que enquanto à vida, há esperança, dizemos tantas vezes, por isso, diante da «doença» ou desespero devemos lutar até ao último segundo, mesmo que resulte na morte. Mais ainda, que nos livrem a inteligência, a paz, a bondade, o amor e a misericórdia (atributos de Deus) das tentações suicidas e que a paixão pela vida faça superar todas as contingências do sofrimento e que nos faça Deus acreditar que fomos criados para a vida e não para a morte. Assim, nenhum suicídio, mesmo que altamente justificado, vale a pena. E cada suicídio é sempre um golpe fatal na construção intricada do ser humanidade.

domingo, 4 de novembro de 2018

Deus, nós e os outros

Deus faz parte da transcendência e do Mistério. Nós também fazemos parte dessa realidade transcendente e misteriosa, na qual fomos envolvidos pelo dom da existência que nos foi dado. Se nos aceitamos e nos amamos, acolhemos e amamos um mistério. Deus está nesse mistério que amamos e acolhemos. Amar toda essa realidade é possível. Logo a seguir somos convidados a acolher e amar todos os que a vida deste mundo nos permite conhecer e com quem temos a necessidade de estabelecer convivência fraterna, relação humana. Jean Paul Sartre dizia: "o inferno são os outros". A doutrina cristã e a filosofia personalista ensinará que, afinal, os outros podem ser "uma graça", um dom que sem os quais nós seremos os mais tristes de todos. Emmanuel Mounier, o mais famoso personalista afirma: "Se a vocação suprema da pessoa é divinizar-se divinizando o mundo, personalizar-se sobrenaturalmente personalizando o mundo, o seu Pão quotidiano não é mais penar ou se divertir, ou acumular riquezas, mas, hora a hora, criar próximos ao redor de si". Somos comunidade, exactamente, como Deus é. "Os Outros" são todos aqueles que estão, voluntária ou involuntariamente, além de nós, "servem" para revelarem o nós a nós mesmos. Esta é a grande tarefa que não devemos descorar de forma nenhuma.

sábado, 3 de novembro de 2018

A democracia em perigo

o alarme soa quando veio a crua frieza dos atentados terroristas pela nossa Europa fora, que semearam milhares de vítimas. Mas eles já existiam em tantas outras partes do mundo. Passado o efeito do terror entramos em pousio mais ou menos seguros até ao próximo. Todos se escandalizam momentaneamente quando nos dizem que tais atentados têm na sua base orientadora a religião. Porém, paulatinamente a par desta realidade foram sendo eleitos pelo mundo fora, agora mais recentemente, no Brasil, líderes que se serviram da sua profissão de fé para fazer política e alguns numa base gravemente populista que incentiva à violência. Não podemos encolher os ombros e descansar face a mais esta instrumentalização. Muitos analistas, nas diversas áreas do pensamento, inclusive alguns de formação teológica,  começam a ver que esta influência da religião nas eleições é preocupante, põe em causa o princípio da laicidade do Estado e com isso a própria democracia. Pelo que vemos a democracia requer cuidados todos os dias. Porque, notamos que vai sendo todos os dias ferida com desmandos alicerçados na corrupção, na desigualdade do direito e no caso com os populismos inspirados na religião. Mais uma vez, insistimos, o seu a seu dono. O Estado democrático deve procurar a sua equidistância religiosa e a religião não pode converter-se em meio para atingir certos interesses. Deve ser sempre um fim para quem utiliza a religião na sua busca pelo sentido e destino final da existência. A confusão não serve nem os estados nem a religião. 

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Quem precisa de pastor é ovelha

o novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, é evangélico. Juntamente com ele há na Assembleia de deputados um grupo enorme de evangélicos. A designação quer dizer que todos são oriundos dos novos movimentos religiosos, por exemplo, a IURD (“Reino de Deus”). A título de esclarecimento, trago esta curta reflexão, porque surgiu a dúvida entre evangélicos e evangelistas. Por conseguinte, evangélico é tudo o que se relaciona com os textos dos Evangelhos, que são o “relato” da prática de Jesus de Nazaré, que estão contidos na Bíblia Sagrada. Evangélico, é tudo o que se relaciona com o Evangelho da Bíblia Sagrada, que está em conformidade com o Evangelho de Cristo, é tudo o que está de acordo com os ensinamentos de Cristo. Mas, hoje, também passou a designar todos os membros que pertencem às confissões religiosas protestantes, que emergiram do séc. XVI e todos os que pertencem aos novos movimentos emergentes desde a segunda metade do séc. XX. Algumas vezes podemos ouvir dizer: “alguém narrou uma leitura evangélica”, isto é, recorreu aos Evangelhos de São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João (os quatros evangelistas que compuseram o EVANGELHO de Jesus). Porém, também podemos ouvir, como está acontecer com mais frequência agora, com a eleição do Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro: “os evangélicos estão em diversas igrejas”, pois, assim é, porque todos seguem os Evangelhos. Vamos à relação entre Evangelho e evangelistas. Evangélico sim, mas não evangelistas. Conclusão, o termo evangelistas pertence exclusivamente aos quatro nomes que já referi (Mateus, Marcos, Lucas e João), os autores, que a tradição, ensina do Evangelho de Cristo. Repito, evangélico é tudo aquilo que provém do Evangelho e designa aquele que acredita e procura viver em conformidade com os princípios apresentados pelo Evangelho. A palavra Evangelho significa Boa Nova ou Boa Notícia da Salvação. Enfim, face ao exposto, esperamos que esta onda de evangélicos por todo o lado, traga boas novas para as sociedades, mesmo que a experiência nos prove o contrário. Porque sempre que o poder temporal e o altar se misturaram deu miséria da grossa para os povos, por isso, não vejo com bons olhos esta incursão de pastores na política activa brasileira e mundial, até porque, Daniela Mercury atacando os evangélicos, disparou: “Quem precisa de pastor é ovelha”.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O exemplo inspirador dos santos

hoje é dia de todos os Santos. Os Santos estão todos para nós. São poderosos exemplos de fé e de esperança. Mas devem ser para os crentes protecção segura junto de Deus. Mas também são sinais de humanidade virtuosa e apaixonada pela existência ilimitada. Porque, com os santos, aprendemos a contemplar o mistério da vida a partir do quotidiano até ao horizonte da transcendênc. São os santos a certeza de que esta vida não se reduz à crueldade do sofrimento e à frieza do túmulo. Com eles e por eles estamos nós mais seguros, mais apostados na fé e na esperança em relação ao futuro da existência, pese embora, esse futuro ser um denso e profundo mistério. No Evangelho das missas deste dia, são proclamadas as Bem-Aventuranças de São Mateus. São um bálsamo para as nossas almas. Se vividas pela humanidade, o mundo seria muito melhor para todos. Bem-aventurado significa ser feliz. Não significa uma felicidade passageira ou fundamentada apenas em estímulos, que se retirados, levam felicidade à destruição. Mas uma felicidade radicada na bondade e no amor de Deus, que assim sendo enfrentará todas as tempestades e todas as contrariedades que a vida concreta sempre vai oferecendo. Tudo façamos para desempoeirar cabeça da terrível mania de menosprezar e às vezes ridicularizar a santidade e os santos, mais ainda pensando que tal condição não é possível neste mundo onde todos se guerreiam entre si, onde há tantos ladrões, mentirosos, vingativos e tantos diabos à solta que nos perseguem ou infernizam a vida. Afinal, a santidade tem que ver com algo que tanto desejamos, a felicidade. Hoje e sempre precisamos de sentir que somos merecedores da Bem-Aventurança, a mais importante da vida, a felicidade, para que sempre encetemos caminhos alegres que conduzam à prática concreta dos valores que o Sermão da Montanha expressa de forma tão sublime.