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sexta-feira, 6 de abril de 2012

A Morte Chega Cedo

Sexta Feira Santa...
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Passagem bíblica:
«Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém Me quiser servir, que Me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. E se alguém Me servir, meu Pai o honrará. Agora a minha alma está perturbada. E que hei de dizer? Pai, salva-Me desta hora? Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta hora. Pai, glorifica o teu nome» (Jo 12,24-26).
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A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.
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O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.
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E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.
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Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'

quinta-feira, 5 de abril de 2012

«Desce o Verbo de Deus»

Liturgia Latina das Horas
Hino de Laudes da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo
«Antes de morrer, o Salvador entrega-Se aos discípulos»
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Desce o Verbo de Deus à nossa terra,
Sem deixar a direita de Deus Pai
E, lançada a semente do Evangelho,
Chega o Senhor ao ocaso da vida.
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Um discípulo O entrega aos inimigos;
Mas, antes de morrer, o Salvador
Entrega-Se aos discípulos, dizendo:
Sou o Pão vivo que desceu do Céu (Jo 6,51).
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O Corpo de Jesus é alimento,
O Seu Sangue, bebida verdadeira.
Viverá para sempre o homem novo
Que tomar deste Pão e deste Vinho.
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Nascendo, quis ser nosso companheiro,
Na Ceia Se tornou nosso alimento,
Na Morte Se ofereceu como resgate,
Na Glória será nossa recompensa.
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Hóstia Santa, penhor de Salvação,
Perene manancial de eterna Vida,
O inimigo teima em combater-nos;
Salvai-nos com a Vossa fortaleza.
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Ao Senhor Uno e Trino dêmos glória,
Cantemos Seu louvor por todo o sempre;
A todos nos conceda a Vida eterna,
Abrindo-nos as portas do Seu Reino.
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Nota: Que Jesus alimento Eucarístico nos preencha interiormento com a sabedoria da paz e da felicidade... Bom Tríduo Pascal...

A Páscoa tira o medo de existir

Comentário às Celebrações desta Páscoa - 2012
Os cristãos celebram a Páscoa de forma vibrante, porque Cristo, o fundador da Religião Cristã, ressuscitou, manifestou-se glorioso às mulheres e aos homens – digo assim, porque Jesus não precisou de cotas - que o acompanharam no anúncio da Boa Nova da salvação. O sinal visível e histórico de que a Ressurreição é uma verdade fundamental do Cristianismo, é o túmulo vazio. A pedra retirada e lá dentro o vazio do túmulo manifestam que neste Domingo em cada tempo começa um existir novo para todos.
A palavra Páscoa significa passagem. Em Jesus Cristo deu-se essa passagem pelo sofrimento e pela morte até à vida ressuscitada. E tomando as palavras de São Paulo, descobrimos que essa passagem não foi só para Jesus Cristo, mas para todos os crentes. Ora vejamos: «Se com Ele morremos, com Ele viveremos; se com Ele sofremos, com Ele reinaremos» (2Tm 2, 11-12). Nesta palavra descobrimos o sentido para esta vida terrena e uma resposta para a inquietação da realidade «invisível» (palavra utilizada por São Paulo) depois da morte.
Mas o que importa saber da Páscoa de há 2012 anos para hoje, é o seguinte: que sentido faz falar em alguém que morreu e ressuscitou por causa da salvação do mundo? – A Páscoa é um sinal e um apelo para o sentido da vida. Mas gosto ainda mais de pensar e celebrar a Páscoa e, particularmente, o dia da Ressurreição, como provocação à coragem de existir perante os desafios desta vida. Com a Ressurreição de Cristo nada desta vida material nos pode vencer, mas tudo se vencerá. Porque, outra vez São Paulo diz: «Se a nossa esperança em Cristo é somente para esta vida, nós somos os mais infelizes de todos os homens» (1Cor 15, 19). Por isso, o sofrimento e a morte não têm a última palavra nem são um fim em si mesmos, mas sempre mediação de mais e melhor.
Mas, apesar de tudo falta-nos uma linguagem objectiva e clara sobre estas matérias. As Igrejas Cristãs, sentem sempre uma dificuldade tremenda para falar claro quanto ao conteúdo da fé. A verdade da fé e de modo especial a verdade sobre a Ressurreição de Jesus Cristo não deve compadecer-se com longos textos doutrinários com linguagem difícil e pesada, que só os iniciados compreenderão.
O sentido da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo descobre-se não apenas nas circunstâncias históricas do tempo passado, mas nos emaranhados históricos do nosso hoje e do nosso amanhã. Cristo está nos pobres, nos simples, nos desprezados e em todas as vítimas da lógica deste mundo que cerceiam a dignidade da vida. A entrega de Cristo à Paixão e à Morte, é um grito contra tudo o que em todos os momentos da História sempre teima em ser opressão dos mais fracos e dos desafortunados deste mundo. A Ressurreição de Cristo, é a vitória para todos, tanto para os que foram vítimas e outro tanto sinal de conversão para os dominadores desta vida.
É perante os retratos de dor e de sofrimento que as Igreja Cristãs, tomadas pelo gozo alegre da Ressurreição, são chamadas a proclamar alto e bom som, que este mundo pode ser um lugar de paz e de amor entre todos. Não basta proclamar e reclamar pelo cumprimento de leis - muitas vezes, totalmente obsoletas e anacrónicas. Nunca uma lei deu sentido a uma vida.
As Igrejas Cristãs são propagandistas de uma Boa Nova, a Boa Nova de que Deus existe e é um Pai para cada um dos habitantes domundo. Não é missão de ninguém, que acredite na Ressurreição de Cristo, defender uma ordem moral contra um mundo totalmente perdido. Só o reconhecimento do amor que emerge da Ressurreição, liberta o homem do pecado e da morte. Boa Páscoa para todos.
José Luís Rodrigues
(Imagem Google - Salvador Dali)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Um caminho simples

Bem-aventurada Teresa de Calcutá (1910-1997), fundadora das Irmãs Missionárias da Caridade.
«Somos servos inúteis»

Não vos inquieteis, procurando a causa dos grandes problemas da humanidade; contentai-vos em fazer o que puderdes pela sua resolução, ajudando aqueles que precisam. Há quem me diga que, praticando a caridade com os outros, libertamos o Estado das suas responsabilidades para com os pobres e os necessitados. É coisa que não me preocupa porque, em geral, os Estados não dão amor. Por mim, faço tudo o que posso; quanto ao resto, não me compete.
Deus foi tão bom connosco! Trabalhar no amor é sempre uma maneira de nos aproximarmos Dele. Reparai no que Cristo fez durante a Sua vida na terra: passou fazendo o bem (Act 10, 38). Eu recordo às minhas irmãs que Ele passou os três anos da Sua vida pública a cuidar dos doentes, dos leprosos, das crianças e de muitos outros. É exactamente isso que nós fazemos, pregando o Evangelho com os actos.
Consideramos que servir os outros é um privilégio e procuramos fazê-lo, a cada instante, com todo o nosso coração. Sabemos perfeitamente que os nossos actos são uma gota de água no oceano, mas sem eles faltaria essa gota.
Nota: Para nos retemperarmos para o que serve celebrar a Semana Santa...
(imagem Google)

Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
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Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
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Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.
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Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
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Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
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José Saramago
(Imagem Google)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

As armadilhas da Semana Santa

Meditemos nas situações em que Jesus foi sendo armadilhado. Pedro opunha-se à sua ida para Jerusalém para ser preso e morrer; e na sexta-feira negou-o com medo da troça de uma criada.
Os fariseus apertavam o cerco e não aceitavam a evidência do que viam. Jesus discordava deles, era Senhor do Sábado, curava os doentes, perdoava, chamava-os de gente sem fé na sua divindade, e eles chamavam-no de possesso, ao serviço do demónio, de blasfemo por dizer que era o Filho de Deus, e Caifás disse que devia morrer para eles se salvarem de uma chacina dos romanos.
A multidão, do entusiasmo de serem curados e perdoados, de hosanas e gritos de aclamação no Domingo de Ramos, deixou-se manipular como estúpidos anestesiados; e uma das monstruosidades humanas mais incríveis aconteceu: foi preferido a Jesus o facínora assassino Barrabás. A Jesus, Aquele que fazia bem a todos!
Os seus amigos mais chegados pintaram um quadro sujo e indigno: Judas deixou-se levar pelo diabo e traiu Jesus por ambição passando-se para o lado dos assassinos de Jesus. No Jardim das Oliveiras os outros apóstolos fizeram figura de cobardes e medrosos. Jesus foi abandonado pelos três apóstolos mais chegados a Ele, Pedro, Tiago e João, em vez de vigiar adormeceram como os outros, e todos fugiram.
Para Herodes Jesus era um louco com que não valia a pena perder tempo. Pilatos, o cobarde e arranjista, declarou-O inocente, mas castigou-O com a flagelação mais cruel e condenou-O à cruz como desprezível e criminoso escravo. No meio destas armadilhas de cerco inimigo, e vazio de amigos, Jesus ficou cada vez mais só a sofrer. Algumas pessoas sem poder nenhum ainda ousaram levantar a voz para o defender ou por compaixão. Nicodemos disse que era preciso ouvi-lo antes de o condenar; algumas mulheres choraram-no por o verem maltratado mas sem compreenderem o que se passava; três ou quatro seguiram-no e mantiveram-se junto à cruz com Maria sua Mãe e João, a testemunha chave.
E o Pai em quem Jesus estava e a quem era igual? Manteve-se em silêncio! A sua vontade de amor pelos homens de todos os tempos, era que Seu Filho aceitasse morrer e nisso coincidia com a vontade de Jesus que tinha vindo para aquela hora da Cruz.
Ninguém mais disse uma palavra de defesa, ou se manteve junto dEle; nem o Pai que esperou que morresse só, despojado de tudo, como vil escravo, desprezado; só depois de morto o ressuscitou. Tinha de morrer para salvação de todos. Tinha de morrer por amor de nós para tirar da escravatura do pecado e do demónio, os que O aceitam e a Ele se entregam. Ninguém além dEle podia resolver a crise do homem. Quem não acredita que é Ele o único que pode libertar continua em pecado, morto, escravo do demónio e não há esperteza, bruxaria, feitiçaria e satanismo que o liberte do sofrimento, do mal e da crise das crises. A Páscoa é este momento único de cada um dizer sim ou não a Jesus ressuscitado e vivo no meio de nós.
Páscoa de 2012, Aires Gameiro

domingo, 1 de abril de 2012

COMO EVANGELIZAR A SEMANA SANTA?

Frei Bento Domingues, O. P.
Nota do autor do blogue: Para ler e rezar com espírito aberto a todas as mudanças que sejam necessário fazer-se no que diz respeito à evangelização. Para tempos novos métodos e formas novas... Princípio elementar do mínimo de inteligência.
1. A chamada Semana Santa, ou Semana Maior, não tem mais nem menos dias do que as outras. Designa, numa “sociedade pós-cristã”, um tempo de férias escolares e de viagens, com destinos e programas marcados pela publicidade, agora, adaptada aos tempos de crise. As celebrações cristãs desta semana são mais ou menos frequentadas segundo as zonas do país e as tradições locais, muito abaladas pela desertificação rural.
Somos filhos de uma herança cada vez menos conhecida e que também já não sabemos comunicar de modo criador. No entanto, a realidade vai-se construindo, com mais ou menos êxito, numa transfusão de memórias, recebendo e dando sinais de geração em geração para viver e fazer algo de novo. Não sei o que sou e não sou o que julgo ser (A. Silesius). Estamos sempre mergulhados no sensível, no racional e no incompreensível.
Em contexto de “Nova Evangelização”, a pergunta inevitável é esta: como evangelizar a Semana Santa? Que fazer para que se torne um intenso retiro consagrado à revisão e transformação da vida? O seguimento de Cristo não é um ritual nem sequer o ritual da Semana Santa. Os fanáticos das rubricas nas cerimónias religiosas ficam satisfeitos ao cumprir um regulamento. Chamam àquilo a Liturgia da Igreja, embora sejam os seus coveiros paramentados.
É verdade que o ser humano, como os outros animais, não pode viver sem rituais, mas quando não procura o seu sentido profundo, torna-se seu escravo. É a lição que a liberdade de Jesus, em relação ao culto do seu povo, nos deixou.
Numa celebração comunitária não se pode prescindir da beleza dos ritos enquanto fontes poéticas e musicais da vida nova. A improvisação, aliás, prevista nos começos do cristianismo, só é possível quando é fruto de um sopro divino e não da negligência.
2. Em todas as celebrações, a referência primordial é o que aconteceu, há dois mil anos, com Jesus de Nazaré: o seu percurso, a sua palavra, as suas opções e o preço que teve de pagar, para não trair o que nele havia de mais íntimo. A fé das comunidades do Novo Testamento nunca conseguiu desligar-se dessa história, mas não era só para a evocar e interpretar, ainda que de mil maneiras. O que nessa história há de salvífico atinge todos os tempos e lugares, se for acolhido no processo de transformação da vida, na liturgia ou no quotidiano: “estarei convosco até à consumação dos séculos” Quais são os gestos, as palavras, as atitudes, os acontecimentos, os estilos de vida que nos dizem hoje que Cristo é nosso contemporâneo?
Não há celebração da Semana Santa sem a dupla leitura da Paixão de Cristo e a Adoração da Cruz. Quem vê de fora pode julgar que é para alimentar um cristianismo sacrificial, mil vezes denunciado. Mas quem nelas participa também se sente interrogado. Jesus sofreu muito, mas pode-se ficar com a ideia de que ele já sabia o desenlace feliz “ao terceiro dia”. Por outro lado, se tinha de passar por aquilo para fazer a vontade de Deus, que Deus ou que Pai era aquele? Adorar a cruz? Jesus alguma vez a adorou? Afinal, a cruz foi-lhe imposta pelos judeus, pelos romanos ou por Deus?
Antes de mais, os textos do Novo Testamento nasceram para superar o absurdo de um Messias crucificado. O que é que realmente se passou com Jesus para chegar aquele ponto? Foi apanhado de surpresa? E Deus, porque o deixou passar por aquela tragédia?
Só um pretensioso insensato poderia tentar responder, em algumas linhas, a este monte de interrogações. Direi, apenas, a minha convicção.
3. Nietzsche, que tanto atacou o cristianismo sacrificial, reconheceu que o Nazareno gostava da vida. Perante a crucifixão de Jesus, todas as tentativas para entender esse acontecimento, sejam elas de adversários, de amigos ou de seguidores, deixam sempre um grande vazio, a impressão de que há algo que escapa a todas as indagações, sejam elas de que tipo forem. Estamos perante o incompreensível. O que não podemos é acrescentar-lhe elaborações ridículas.
Parto do princípio de que gostar de sofrer é uma doença. Nada no Novo Testamento nos diz que Jesus precisava de psiquiatra. A desqualificação ia em sentido contrário: era um comilão e um beberrão (Lc. 7, 34). Mas não são doentes as pessoas que sofrem por muito amar. Uma coisa é amar o sofrimento e outra, muito diferente, é ser capaz de dar a vida por amor.
Jesus aparece na cruz perdido no sofrimento, num sofrimento sem qualquer sentido: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? No entanto, o centurião romano, vendo como havia expirado, confessou: de facto este homem era Filho de Deus (Mc.15, 33-39).
S. Paulo, depois da experiência que teve de Cristo, que lhe transformou a vida, não suportava que o aconselhassem a apresentar Jesus Cristo, pondo de lado a crucifixão. Paulo não cede: “os judeus pedem sinais e os gregos andam em busca de sabedoria; nós, porém, anunciamos Cristo crucificado, que, para os judeus é escândalo, para os gentios é loucura, mas, para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, é Cristo poder de Deus e sabedoria de Deus”.
Jesus é Cristo, é o Messias, precisamente porque é, apenas, o poder e a sabedoria do puro amor.
In Público de 1 de Abril de 2012
(Imagem Google)