Convite a quem nos visita

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

As crianças da Síria estão sofrendo

Esta canção das crianças da Síria é um apelo comovedor.
Podemos partilhar e, em nós mesmos, pensar: Que posso fazer para mudar a sua situação dramática? - O nosso contributo para mostrarmos como toda a guerra é injusta e como fere de morte os inocentes...

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Nos dias do luto pela morte de Eusébio

Nos tempos da morte de um rei, que este ano coincidiu com o Dia exaltante dos Reis vindos do Oriente, os Magos, que sempre trazem alegria, mas este ano trouxeram também morte de um ser humano igual a todos os outros, destinado como todos os outros a passar pelo crivo da morte. Mas parecia que não. Aliás se pensarmos bem, a visita dos Magos são também uma premonição da morte. O Sanguinário Herodes deseja também entregar presentes e adorar o Menino, mas com o desejo de sanar pela morte aquele que lhe faz sombra ao poder.
Os que elegemos heróis não deviam morrer, foram tantos a dizer isto nestes dias de luto. Facilmente, esquecemos que morremos todos, mas queremos que alguns não tivessem que morrer, mas que não sabendo muito o porquê, teria de ser assim, para não nos sentirmos tão órfãos e tão solitário na solidão do cemitério. Muito mal andamos quando esta irracionalidade nos persegue, muito mal estamos se queremos exigir de alguns o que não é possível face aos desígnios da vida e da natureza. Morrer é tão normal como nascer. Não podemos por isso exigir injustamente que alguns por serem considerados heróis não morram. Isso é egoísmo. Mais ainda se sabemos logo à partida que esses ditos heróis são exemplares na preparação da sua finitude. O Eusébio da Silva Ferreira provou isso mesmo, tinha preparado a sua morte. Aquela volta ao relvado do Benfica é bem evidente disto que se diz.
A vida fica mais saborosa sem heróis e quando os pequeninos e os simples, que somos afinal todos nós, são os primeiros a escutar o poeta que grita:
«Vem, pecado, ó belo pecado?
Que os teus esbraseantes beijos
vermelhos derramem ardente vinho tinto no nosso sangue!
Faz soar a trompa do mal imperioso
E atravessa a nossa fronte a coroa da exaltante ilegalidade!
Ó deusa da Profanação
Mancha sem vergonha o nosso peito
Com a mais negra lama do descrédito!»
O som das palavras deste poema vai bater certo no coração dos sem voz e vez. Dos infelizes e dos humildes. Como todos aqueles que nas nossas encostas fixaram o lugar da sua existência. Aqueles mesmos que sem acesso à internet, jornais e telemóveis ou outras técnicas que pululam por aí, cujo único fim é apenas queimar o nosso tempo e dinheiro. Ou então, servem para alimento dos desejos e vícios desmedidos da mentalidade hedonista e consumista da nossa sociedade. Com um isso, se fazem os heróis, os maiores, os grandes, os imortais… Pobre irracionalidade a nossa.
Ninguém se indigna perante tamanha violência. Todos se sujeitam benevolentes a esse espírito dos tempos novos, onde é normal o esquecimento, a cegueira, a arrogância, a irracionalidade e a falsidade. O luto quando morrem os considerados heróis está justificado precisamente aqui neste inebriamento do que nos é imposto, mesmo que seja absurdo tantas vezes. Por isso, destoar neste ambiente, é tremendamente perigoso. 
Deixem os caminhos do povo simples como estão. Deixem-nos encontrar para si o que desejam. Deixem que eles sejam o que são. Isso mesmo, autênticos poetas. Gente sábia que aprendeu tudo na escola da vida. Onde os mestres nunca souberam impor nada com a arrogância de mestres porque nunca souberam que eram mestres sábios. Apenas gente sem se contaminar pelo estrelato da heroicidade.
Do fundo dos abismos, diz São Paulo que emerge a luz. «Em tudo nós somos oprimidos, mas não esmagados, andamos hesitantes, mas não abandonados, perseguidos, mas não desamparados, abatidos, mas não aniquilados» (2 Cor 4, 10). Perante tudo isto, não me contamino com a irracionalidade de dizer barbaridades anacrónicas, o meu caminho continua seguro, quero encontrar a luz da esperança e as razões que justificam o meu sonho.
Por exemplo, aquela de que se o Eusébio tivesse hoje 20 anos seria ainda muito melhor do que aquilo que foi... Será legítimo pensar isto sobre uma pessoa, mesmo que tenha sido um herói? – Quem sabe se pudemos dizer que o Afonso Henriques se vivesse hoje, que Portugal não faria, Portugal seria a Europa toda? – Vamos lá serenar, que cada pessoa é o que é no seu tempo, na sua época. Não ouvi ninguém dizer que se o Eusébio vivesse hoje podia ser um nabo a jogar à bola. É pena que a plêiade de heróis que já povoou o nosso mundo não esteja entre nós para reagirem com a sabedoria que lhe reconhecemos a esta nossa irracionalidade.
Melhor será descobrir mais uma vez, que haverá sempre um silêncio capaz de mostrar que vale a pena viver e que na consciência de cada um de nós, mais ou menos com heroicidade, esse silêncio fala como a voz do sábio que explica a ciência do motor do viver. Deixemos também esse silêncio falar connosco.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Peregrinação interior

Para o fim de semana de cada um de nós... Sejam felizes!
Todas as vezes que bebo um gole de água cristalina
rego o silêncio interior que o jardim escuro nos dá
e nisso bebi o tempo que sacia a sede do amor divino.

Mais adiante naquela hora incansável do sonho
vieram todos os peregrinos do mundo inquietos
à procura do sentido que chorou a rocha de Moisés.

Nisto falta a educação para a ternura do encontro
na reconciliação desta paz que a singela oração oferece
mesmo que contada pelos dedos aquece a feliz satisfação.

Somos peregrinos do interior em sangue que pulsa o órgão
nas artérias das cidades e deste mundo até à morte
que não é o fim a terra coalhada de folhas secas e brancas.

O regadio no jardim mecanizado onde se planta as flores
e a relva para ser pisada quando deambulam os artistas
na procura da inspiração trazida pelo mistério do vento.

Nisto se escreve as palavras vindas de longe como um som
que depois as crianças soletram nas sílabas encadeadas
nos primeiros nomes que dizem no terreiro do coração.

No meu deambular peregrino mais o dom das palavras
que expresso no optimismo cheio de esperança que vejo
mais longe no fruto perene da paixão da inquietude.

José Luís Rodrigues

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O Deus sem dono

Domingo de Reis, Epifania...
Comentário à Missa do próximo domingo, 5 Janeiro de 2013

O dia da Epifania é, tradicionalmente chamado, o Dia de Reis. A Epifania é o reconhecimento dos direitos messiânicos de Jesus de Nazaré por não-judeus, é a manifestação de Jesus ao mundo pagão. Uma tradição mais tardia falou de Reis Magos, aplicado a estes sábios que vieram do Oriente adorar o Menino, e pretendeu com isso, provavelmente, reforçar a glória de Jesus Cristo.
Este menino, que nasceu não tem dono. Foi enviado por Deus ao mundo por meio de uma mulher, para toda a humanidade. Muito mal vamos nós se nalgum momento nos consideramos os mais amigos de Jesus e que isso nos dará o direito de sermos donos do seu Reino. O menino do presépio de Belém é de todos aqueles que o acolhem no coração como salvador. Não pode, por isso, ser propriedade de uma forma de religiosidade ou que a nossa oração será a única que descobre e domina Jesus.
A Epifania é este momento do acontecer de Deus, que se abre para além das fronteiras do nosso pensamento limitado. O nome de Deus na frieza da gruta de Belém extravasa os nossos esquemas limitados pelas fronteiras do egoísmo e do espírito de vingança que frequentemente nos atacam.
O Deus do amor que agora nasce manifesta-se, em primeiro lugar às gentes simples e pobres das serras de Belém, falo dos pastores. Essa gentalha que não tinha lugar certo para espalhar o seu gado e, só por isso, eram repugnantes, ladrões e desprezados por todos. A boa notícia é dirigida a esses em primeiro lugar. Aos que não tinham lugar nem vez na sociedade Deus revelou-se em primeira mão, porque a simplicidade do seu amor acontece nos simples do coração e não no coração de gente cheia de boas intenções e com promessas que nunca as cumprem.
A grande mensagem que nos fica deste Dia dos Reis, resume-se a esta novidade: Deus nasce não apenas para alguns mas para todos os homens. O Deus Menino é a luz celeste (Ouro) que se abaixa até ao mais fundo da humanidade para a elevar para o alto (Incenso); e é o Deus santo e fonte de santidade (Mirra) que pretende santificar não apenas um povo mas todos os homens do mundo.
É surpreendente e quase comovedora esta abertura de Deus e arrasa todas as tentativas de apropriação de uma realidade que não pertence a ninguém, porque não é deste mundo. Vem do lugar santo de Deus para elevar e divinizar todos os homens. 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Votos para 2014 paz e felicidade sempre

Um Feliz 2014... Que o engenho e a arte nos acompanhem. 

Funchal a cidade da poncha em tempos de festa

 A cidade do Funchal está cheia. Não falta animação para todos os gostos. Não faltam barracas por todo lado, todas requintadamente a vender uma variedade enorme de coisas, poncha e mais poncha de todos os sabores. Lá nisto foram criativos. Poncha, poncha, e mais poncha para baixo e para cima. A Praça do mar tem uma suposta feira das Casas do Povo com um monte de barracas para vender produtos tradicionais da Madeira. Todas as barracas vendem poncha. Outra criatividade impressionante. Pareceu-me ver apenas uma barraca a vender souvenirs da Madeira, nada de anormal.
Acho que estou enganado sobre a utilidade desta feira. Será que serve para embriagar os poncheiros «Patas rapadas» para os fazer militantes do partido mais democrata do mundo? – O tempo dirá sobre a consistência desta iniciativa e sobre a nossa suspeita.  
Mas podemos continuar a caminhada e encontramos mais ingredientes pela cidade. A Avenida Arriaga também tem barracas. Todas com enorme criatividade. Vendem poncha. Uma ou outra vende flores importadas.
Mas o melhor estava para vir sobre este banho de criatividade que delicia turistas e o pessoal aqui do burgo madeirense.
O Jardim Municipal tem apresentado nestes dias da festa, uma animação muito interessante a condizer com a época e com os tempos da crise. Ontem, por exemplo, assisti à animação do despique e ao espetáculo da «Aldora e Silvestre». Todos se fartam de gozar com a crise e com o famoso buraco da Madeira. Tomara que os buracos fossem só de caruncho, mas pela cantiga parece que a Madeira está esburacada por caruncho graúdo… Fico deveras impressionado como se consegue juntar ali a maior plêiade de «povo superior» e uma fatia considerável de «patas rapadas» a manifestar a sua criatividade de forma destemida a gozar com os governantes previdenciais que fizeram a «Madeira Nova» e responsáveis pelo caruncho da Madeira Nova. Ninguém sai dali sem que lhe cheguem a roupa ao pêlo. Muita orelha desta terra deve ferver nestas noites da festa e não é só por causa da poncha. Toma que a Madeira quando lhe chega a mostarda ao nariz levas de cima pra baixo.
A Aldora enfiou uma série de piadas sobre o buraco da Madeira que impressiona as árvores e até os turistas se riem com a bravura da mulher. Nem sei o que pensar destes «patas rapadas» que descem à cidade para gozarem com isto tudo e manifestarem a sua bravura ingrata diante do nariz de quem tudo deu a favor da Madeira Nova. São os mesmos que antes andavam de pata rapada e descalça sobre a terra batida e calçada fria, os que lavavam o rabiosque nas poças da ribeira uma vez à semana, os que não sabiam o que eram uma casa de banho e aliviavam-se nas retretes no meio dos poios ou debaixo das paredes por essas encostas da Madeira velha. A memória é curta neste povo ingrato.
Agora, depois de terem estradas alcatroadas, água canalizada e energia elétrica e todos os bens providenciais da Madeira Nova, saem da casca e sob a capa da música manifestam a ingratidão desenfreada contra os buracos, as obras escaqueiradas pelos temporais que tanto serviram a meia dúzia de privilegiados do regime chamado Madeira Nova, os empreiteiros falidos, desgarradas e despiques sobre a crise, os desempregados, a gente manhosa e um Fum fum fum de cantaroladas que fazem tremer as pedras.
Uma ingratidão impressionante. Não fora estes ingratos terem descido à cidade, os nossos passeios pelas artérias do Funchal ficavam mais tristes e só sabiam a poncha e a encontros de gente perdida de bêbeda. Se os turistas se reduzem a esta Sodoma poncheira dos tempos modernos não sei o que levam da Madeira. Só espero que comprem uns Cd’s da «Aldora e Silvestre», pelo menos levam além-fronteiras umas piadas foleiras sobre a crise. Que as enfiem isso sim bem fundo nas orelhas dos safados dos troiquistas que andam a tramar o nosso povo, mais os nossos «queridos» providenciais desgovernantes. Um bom ano para todos e sejam felizes.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Dia Mundial da Paz 1 Janeiro de 2014

Mensagem do papa Francisco para o Dia Mundial da Paz (1/01/14)
Estamos às portas do Dia Mundial da Paz, 1 de Janeiro de 2014. O Papa Francisco escolheu como tema «A Fraternidade» para a mensagem que escreveu para este dia. Um texto extraordinário que devia ser lido por todas as autoridades deste mundo, especialmente, os governantes que têm o dever de promoverem a fraternidade entre as populações que estão à sua responsabilidade. Alguns acharão que é um tema útil e pertinente. Outros que é um tema retrógrado ou despropositado. Outros ainda acharão que é um bom tema para ser pregado, falado mas sem consistência prática nenhuma. E quem sabe se alguns acharão também que o tema está fora de contexto e não ajuda nada falar-se agora sobre um tema que não serve em nada perante a austeridade e diante do descalabro da desigualdade em que está o nosso mundo mergulhado. Haverá de tudo a considerar ou a desconsiderar o tema.
A nós cabe-nos salientar a importância do tema. O que ele tem de importante e quanto é pertinente para este tempo onde as pessoas se violentam umas às outras. Mais ainda se considerarmos como está globalizada a indiferença em relação aos conflitos regionais, à emigração em massa de povos vindos de África e as populações jovens das nações até há pouco tempo consideradas ricas, mas que foram sugadas até ao tutano pela sacrossanta austeridade. E outro elemento considerado prejudicial para a paz prende-se com a fome que ainda existe no mundo. Neste âmbito considera o Papa Francisco: «a persistente vergonha da fome no mundo», mais fica dito sobre este assunto, porque é a pior vergonha da humanidade, que ao invés de ser fraterna, afinal, a maioria das vezes se manifesta claramente fratricida. Diz assim o Papa: «De facto, é um dever impelente que se utilizem de tal modo os recursos da terra, que todos se vejam livres da fome. As iniciativas e as soluções possíveis são muitas, e não se limitam ao aumento da produção. É mais que sabido que a produção atual é suficiente, e todavia há milhões de pessoas que sofrem e morrem de fome, o que constitui um verdadeiro escândalo» (nº9). Oiçam, por favor, senhores do tempo...
Assim sendo, a melhor via da paz é a fraternidade. Em boa hora o Papa Francisco ressuscita este tema e apresenta uma magnífica mensagem para o Dia Mundial da Paz. Mensagem para o 47.º Dia Mundial da Paz: «Fraternidade, fundamento e caminho para a paz». A partir do texto, que pode ser lido integralmente aqui (http://www.vatican.va/holy_father/francesco/messages/peace/documents/papa-francesco_20131208_messaggio-xlvii-giornata-mondiale-pace-2014_po.html), escolhemos 26 palavras a que atribuímos excertos do documento. Eis qual é a afinal o vocabulário para pensar a fraternidade e a paz...

Ambição
«As justas ambições duma pessoa, sobretudo se jovem, não devem ser frustradas nem lesadas; não se lhe deve roubar a esperança de podê-las realizar. A ambição, porém, não deve ser confundida com prevaricação; pelo contrário, é necessário competir na mútua estima (cf. Rm 12, 10).» (8)
Amor
«“Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 34-35). Esta é a boa nova que requer, de cada um, um passo mais, um exercício perene de empatia, de escuta do sofrimento e da esperança do outro, mesmo do que está mais distante de mim, encaminhando-se pela estrada exigente daquele amor que sabe doar-se e gastar-se gratuitamente pelo bem de cada irmão e irmã.» (10)
Armas
«Enquanto houver em circulação uma quantidade tão grande como a atual de armamentos, poder-se-á sempre encontrar novos pretextos para iniciar as hostilidades. Por isso, faço meu o apelo lançado pelos meus Predecessores a favor da não-proliferação das armas e do desarmamento por parte de todos, a começar pelo desarmamento nuclear e químico.» (7)
Crime
«[As] muitas formas de corrupção» e as «organizações [criminosas] ofendem gravemente a Deus, prejudicam os irmãos e lesam a criação, revestindo-se duma gravidade ainda maior se têm conotações religiosas.
Penso no drama dilacerante da droga com a qual se lucra desafiando leis morais e civis, na devastação dos recursos naturais e na poluição em curso, na tragédia da exploração do trabalho (…); penso na prostituição que diariamente ceifa vítimas inocentes, sobretudo entre os mais jovens, roubando-lhes o futuro; penso na abominação do tráfico de seres humanos, nos crimes e abusos contra menores, na escravidão que ainda espalha o seu horror em muitas partes do mundo, na tragédia frequentemente ignorada dos emigrantes sobre quem se especula indignamente na ilegalidade.» (8)
Cristo
«Em Cristo, o outro é acolhido e amado como filho ou filha de Deus, como irmão ou irmã, e não como um estranho, menos ainda como um antagonista ou até um inimigo. Na família de Deus, onde todos são filhos dum mesmo Pai e, porque enxertados em Cristo, filhos no Filho, não há «vidas descartáveis». Todos gozam de igual e inviolável dignidade; todos são amados por Deus, todos foram resgatados pelo sangue de Cristo, que morreu na cruz e ressuscitou por cada um. Esta é a razão pela qual não se pode ficar indiferente perante a sorte dos irmãos.» (3)
Cruz
«A cruz é o «lugar» definitivo de fundação da fraternidade que os homens, por si sós, não são capazes de gerar. Jesus Cristo, que assumiu a natureza humana para a redimir, amando o Pai até à morte e morte de cruz (cf. Fl 2, 8), por meio da sua ressurreição constitui-nos como humanidade nova, em plena comunhão com a vontade de Deus, com o seu projeto, que inclui a realização plena da vocação à fraternidade.» (3)
Desigualdade
«Se por um lado se verifica uma redução da pobreza absoluta, por outro não podemos deixar de reconhecer um grave aumento da pobreza relativa, isto é, de desigualdades entre pessoas e grupos que convivem numa região específica ou num determinado contexto histórico-cultural. Neste sentido, servem políticas eficazes que promovam o princípio da fraternidade, garantindo às pessoas – iguais na sua dignidade e nos seus direitos fundamentais – acesso aos «capitais», aos serviços, aos recursos educativos, sanitários e tecnológicos, para que cada uma delas tenha oportunidade de exprimir e realizar o seu projeto de vida e possa desenvolver-se plenamente como pessoa. Reconhece-se haver necessidade também de políticas que sirvam para atenuar a excessiva desigualdade de rendimento.» (5)
«É necessário encontrar o modo para que todos possam beneficiar dos frutos da terra, não só para evitar que se alargue o fosso entre aqueles que têm mais e os que devem contentar-se com as migalhas, mas também e sobretudo por uma exigência de justiça e equidade e de respeito por cada ser humano.» (9)
Deus
«O necessário realismo da política e da economia não pode reduzir-se a um tecnicismo sem ideal, que ignora a dimensão transcendente do homem. Quando falta esta abertura a Deus, toda a atividade humana se torna mais pobre, e as pessoas são reduzidas a objeto passível de exploração. Somente se a política e a economia aceitarem mover-se no amplo espaço assegurado por esta abertura Àquele que ama todo o homem e mulher, é que conseguirão estruturar-se com base num verdadeiro espírito de caridade fraterna e poderão ser instrumento eficaz de desenvolvimento humano integral e de paz.» (10)
Economia
«As sucessivas crises económicas devem levar a repensar adequadamente os modelos de desenvolvimento económico e a mudar os estilos de vida. A crise atual, com pesadas consequências na vida das pessoas, pode ser também uma ocasião propícia para recuperar as virtudes da prudência, temperança, justiça e fortaleza. Elas podem ajudar-nos a superar os momentos difíceis e a redescobrir os laços fraternos que nos unem uns aos outros, com a confiança profunda de que o homem tem necessidade e é capaz de algo mais do que a maximização do próprio lucro individual.» (6)
Especulação
«Penso nos tráficos ilícitos de dinheiro como também na especulação financeira que, muitas vezes, assume carateres predadores e nocivos para inteiros sistemas económicos e sociais, lançando na pobreza milhões de homens e mulheres.» (8)
Ética
«As próprias éticas contemporâneas mostram-se incapazes de produzir autênticos vínculos de fraternidade, porque uma fraternidade privada da referência a um Pai comum como seu fundamento último não consegue subsistir. Uma verdadeira fraternidade entre os homens supõe e exige uma paternidade transcendente. (1)
Família
«Convém desde já lembrar que a fraternidade se começa a aprender habitualmente no seio da família, graças sobretudo às funções responsáveis e complementares de todos os seus membros, mormente do pai e da mãe. A família é a fonte de toda a fraternidade, sendo por isso mesmo também o fundamento e o caminho primário para a paz, já que, por vocação, deveria contagiar o mundo com o seu amor.» (1)
Fome
«A persistente vergonha da fome no mundo leva-me a partilhar convosco esta pergunta: De que modo usamos os recursos da terra? As sociedades atuais devem refletir sobre a hierarquia das prioridades no destino da produção. De facto, é um dever impelente que se utilizem de tal modo os recursos da terra, que todos se vejam livres da fome.» (9)
Igreja
«A Igreja faz muito em todas estas áreas, a maior parte das vezes sem rumor. Exorto e encorajo a fazer ainda mais, na esperança de que tais ações desencadeadas por tantos homens e mulheres corajosos possam cada vez mais ser sustentadas, leal e honestamente, também pelos poderes civis.» (8)
Indiferença
«Nos dinamismos da história – independentemente da diversidade das etnias, das sociedades e das culturas –, vemos semeada a vocação a formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros. Contudo, ainda hoje, esta vocação é muitas vezes contrastada e negada nos factos, num mundo caracterizado pela «globalização da indiferença» que lentamente nos faz «habituar» ao sofrimento alheio, fechando-nos em nós mesmos.» (1)
Irmãos
«No coração de cada homem e mulher, habita o anseio duma vida plena que contém uma aspiração irreprimível de fraternidade, impelindo à comunhão com os outros, em quem não encontramos inimigos ou concorrentes, mas irmãos que devemos acolher e abraçar. (…) A consciência viva desta dimensão relacional leva-nos a ver e tratar cada pessoa como uma verdadeira irmã e um verdadeiro irmão; sem tal consciência, torna-se impossível a construção duma sociedade justa, duma paz firme e duradoura.» (1)
Guerra
«Às guerras feitas de confrontos armados juntam-se guerras menos visíveis, mas não menos cruéis, que se combatem nos campos económico e financeiro com meios igualmente demolidores de vidas, de famílias, de empresas.» (1)
Natureza
«A natureza está à nossa disposição, mas somos chamados a administrá-la responsavelmente. Em vez disso, muitas vezes deixamo-nos guiar pela ganância, pela soberba de dominar, possuir, manipular, desfrutar; não guardamos a natureza, não a respeitamos, nem a consideramos como um dom gratuito de que devemos cuidar e colocar ao serviço dos irmãos, incluindo as gerações futuras.» (9)
Paternidade
«A raiz da fraternidade está contida na paternidade de Deus. Não se trata de uma paternidade genérica, indistinta e historicamente ineficaz, mas do amor pessoal, solícito e extraordinariamente concreto de Deus por cada um dos homens (cf. Mt 6, 25-30). Trata-se, por conseguinte, de uma paternidade eficazmente geradora de fraternidade, porque o amor de Deus, quando é acolhido, torna-se no mais admirável agente de transformação da vida e das relações com o outro, abrindo os seres humanos à solidariedade e à partilha ativa.» (3)
Política
«Os cidadãos devem sentir-se representados pelos poderes públicos, no respeito da sua liberdade. Em vez disso, muitas vezes, entre cidadão e instituições, interpõem-se interesses partidários que deformam essa relação, favorecendo a criação dum clima perene de conflito.» (8)
Prisões
«Penso também nas condições desumanas de muitos estabelecimentos prisionais, onde frequentemente o preso acaba reduzido a um estado sub-humano, violado na sua dignidade de homem e sufocado também em toda a vontade e expressão de resgate.» (8)
Reconciliação
«Desejo dirigir um forte apelo a quantos semeiam violência e morte, com as armas: naquele que hoje considerais apenas um inimigo a abater, redescobri o vosso irmão e detende a vossa mão! Renunciai à via das armas e ide ao encontro do outro com o diálogo, o perdão e a reconciliação para reconstruir a justiça, a confiança e esperança ao vosso redor!» (7)
Relação
«Em muitas sociedades, sentimos uma profunda pobreza relacional, devido à carência de sólidas relações familiares e comunitárias; assistimos, preocupados, ao crescimento de diferentes tipos de carências, marginalização, solidão e de várias formas de dependência patológica. Uma tal pobreza só pode ser superada através da redescoberta e valorização de relações fraternas no seio das famílias e das comunidades, através da partilha das alegrias e tristezas, das dificuldades e sucessos presentes na vida das pessoas.» (5)
Serviço
«Cada atividade deve ser caracterizada por uma atitude de serviço às pessoas, incluindo as mais distantes e desconhecidas. O serviço é a alma da fraternidade que edifica a paz.» (10)
Sobriedade
«Há uma forma de promover a fraternidade – e, assim, vencer a pobreza – que deve estar na base de todas as outras. É o desapego vivido por quem escolhe estilos de vida sóbrios e essenciais, por quem, partilhando as suas riquezas, consegue assim experimentar a comunhão fraterna com os outros. Isto é fundamental, para seguir Jesus Cristo e ser verdadeiramente cristão.» (5)
Solidariedade
«As inúmeras situações de desigualdade, pobreza e injustiça indicam não só uma profunda carência de fraternidade, mas também a ausência duma cultura de solidariedade.» (1)