Mensagem do papa Francisco para o Dia Mundial da Paz (1/01/14)
Estamos às portas do Dia Mundial da Paz,
1 de Janeiro de 2014. O Papa Francisco escolheu como tema «A Fraternidade» para
a mensagem que escreveu para este dia. Um texto extraordinário que devia ser
lido por todas as autoridades deste mundo, especialmente, os governantes que
têm o dever de promoverem a fraternidade entre as populações que estão à sua
responsabilidade. Alguns acharão que é um tema útil e pertinente. Outros que
é um tema retrógrado ou despropositado. Outros ainda acharão que é um bom tema
para ser pregado, falado mas sem consistência prática nenhuma. E quem sabe se
alguns acharão também que o tema está fora de contexto e não ajuda nada
falar-se agora sobre um tema que não serve em nada perante a austeridade e
diante do descalabro da desigualdade em que está o nosso mundo mergulhado. Haverá
de tudo a considerar ou a desconsiderar o tema.
A nós cabe-nos salientar a importância
do tema. O que ele tem de importante e quanto é pertinente para este tempo onde
as pessoas se violentam umas às outras. Mais ainda se considerarmos como está globalizada
a indiferença em relação aos conflitos regionais, à emigração em massa de povos
vindos de África e as populações jovens das nações até há pouco tempo
consideradas ricas, mas que foram sugadas até ao tutano pela sacrossanta
austeridade. E outro elemento considerado prejudicial para a paz prende-se
com a fome que ainda existe no mundo. Neste âmbito considera o Papa Francisco:
«a persistente vergonha da fome no mundo», mais fica dito sobre este assunto,
porque é a pior vergonha da humanidade, que ao invés de ser fraterna, afinal, a
maioria das vezes se manifesta claramente fratricida. Diz assim o Papa: «De
facto, é um dever impelente que se utilizem de tal modo os recursos da terra,
que todos se vejam livres da fome. As iniciativas e as soluções possíveis são
muitas, e não se limitam ao aumento da produção. É mais que sabido que a
produção atual é suficiente, e todavia há milhões de pessoas que sofrem e
morrem de fome, o que constitui um verdadeiro escândalo» (nº9). Oiçam, por favor, senhores do tempo...
Ambição
«As justas ambições duma pessoa, sobretudo se jovem, não devem ser frustradas
nem lesadas; não se lhe deve roubar a esperança de podê-las realizar. A
ambição, porém, não deve ser confundida com prevaricação; pelo contrário, é
necessário competir na mútua estima (cf. Rm 12, 10).» (8)
Amor
«“Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns
aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois
meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 34-35).
Esta é a boa nova que requer, de cada um, um passo mais, um exercício perene de
empatia, de escuta do sofrimento e da esperança do outro, mesmo do que está
mais distante de mim, encaminhando-se pela estrada exigente daquele amor que
sabe doar-se e gastar-se gratuitamente pelo bem de cada irmão e irmã.» (10)
Armas
«Enquanto houver em circulação uma quantidade tão grande como a atual de
armamentos, poder-se-á sempre encontrar novos pretextos para iniciar as
hostilidades. Por isso, faço meu o apelo lançado pelos meus Predecessores a
favor da não-proliferação das armas e do desarmamento por parte de todos, a
começar pelo desarmamento nuclear e químico.» (7)
Crime
«[As] muitas formas de corrupção» e as «organizações [criminosas] ofendem
gravemente a Deus, prejudicam os irmãos e lesam a criação, revestindo-se duma
gravidade ainda maior se têm conotações religiosas.
Penso no drama dilacerante da droga com
a qual se lucra desafiando leis morais e civis, na devastação dos recursos
naturais e na poluição em curso, na tragédia da exploração do trabalho (…);
penso na prostituição que diariamente ceifa vítimas inocentes, sobretudo entre
os mais jovens, roubando-lhes o futuro; penso na abominação do tráfico de seres
humanos, nos crimes e abusos contra menores, na escravidão que ainda espalha o
seu horror em muitas partes do mundo, na tragédia frequentemente ignorada dos
emigrantes sobre quem se especula indignamente na ilegalidade.» (8)
Cristo
«Em Cristo, o outro é acolhido e amado como filho ou filha de Deus, como irmão
ou irmã, e não como um estranho, menos ainda como um antagonista ou até um
inimigo. Na família de Deus, onde todos são filhos dum mesmo Pai e, porque enxertados
em Cristo, filhos no Filho, não há «vidas descartáveis». Todos
gozam de igual e inviolável dignidade; todos são amados por Deus, todos foram
resgatados pelo sangue de Cristo, que morreu na cruz e ressuscitou por cada um.
Esta é a razão pela qual não se pode ficar indiferente perante a sorte dos
irmãos.» (3)
Cruz
«A cruz é o «lugar» definitivo de fundação da fraternidade
que os homens, por si sós, não são capazes de gerar. Jesus Cristo, que assumiu
a natureza humana para a redimir, amando o Pai até à morte e morte de cruz
(cf. Fl 2, 8), por meio da sua ressurreição constitui-nos
como humanidade nova, em plena comunhão com a vontade de Deus,
com o seu projeto, que inclui a realização plena da vocação à fraternidade.»
(3)
Desigualdade
«Se por um lado se verifica uma redução da pobreza absoluta, por
outro não podemos deixar de reconhecer um grave aumento da pobreza
relativa, isto é, de desigualdades entre pessoas e grupos que convivem
numa região específica ou num determinado contexto histórico-cultural. Neste
sentido, servem políticas eficazes que promovam o princípio da fraternidade,
garantindo às pessoas – iguais na sua dignidade e nos seus direitos
fundamentais – acesso aos «capitais», aos serviços, aos recursos educativos,
sanitários e tecnológicos, para que cada uma delas tenha oportunidade de
exprimir e realizar o seu projeto de vida e possa desenvolver-se plenamente
como pessoa. Reconhece-se haver necessidade também de políticas que sirvam para
atenuar a excessiva desigualdade de rendimento.» (5)
«É necessário encontrar o modo para que todos possam beneficiar dos frutos da
terra, não só para evitar que se alargue o fosso entre aqueles que têm mais e
os que devem contentar-se com as migalhas, mas também e sobretudo por uma
exigência de justiça e equidade e de respeito por cada ser humano.» (9)
Deus
«O necessário realismo da política e da economia não pode reduzir-se a um
tecnicismo sem ideal, que ignora a dimensão transcendente do homem. Quando
falta esta abertura a Deus, toda a atividade humana se torna mais pobre, e as
pessoas são reduzidas a objeto passível de exploração. Somente se a política e
a economia aceitarem mover-se no amplo espaço assegurado por esta abertura
Àquele que ama todo o homem e mulher, é que conseguirão estruturar-se com base num
verdadeiro espírito de caridade fraterna e poderão ser instrumento eficaz de
desenvolvimento humano integral e de paz.» (10)
Economia
«As sucessivas crises económicas devem levar a repensar adequadamente os
modelos de desenvolvimento económico e a mudar os estilos de vida. A crise
atual, com pesadas consequências na vida das pessoas, pode ser também uma
ocasião propícia para recuperar as virtudes da prudência, temperança, justiça e
fortaleza. Elas podem ajudar-nos a superar os momentos difíceis e a redescobrir
os laços fraternos que nos unem uns aos outros, com a confiança profunda de que
o homem tem necessidade e é capaz de algo mais do que a maximização do próprio
lucro individual.» (6)
Especulação
«Penso nos tráficos ilícitos de dinheiro como também na especulação financeira
que, muitas vezes, assume carateres predadores e nocivos para inteiros sistemas
económicos e sociais, lançando na pobreza milhões de homens e mulheres.» (8)
Ética
«As próprias éticas contemporâneas mostram-se incapazes de produzir autênticos
vínculos de fraternidade, porque uma fraternidade privada da referência a um
Pai comum como seu fundamento último não consegue subsistir. Uma
verdadeira fraternidade entre os homens supõe e exige uma paternidade
transcendente. (1)
Família
«Convém desde já lembrar que a fraternidade se começa a aprender habitualmente
no seio da família, graças sobretudo às funções responsáveis e complementares
de todos os seus membros, mormente do pai e da mãe. A família é a fonte de toda
a fraternidade, sendo por isso mesmo também o fundamento e o caminho primário
para a paz, já que, por vocação, deveria contagiar o mundo com o seu amor.» (1)
Fome
«A persistente vergonha da fome no mundo leva-me a partilhar convosco esta
pergunta: De que modo usamos os recursos da terra? As sociedades
atuais devem refletir sobre a hierarquia das prioridades no destino da
produção. De facto, é um dever impelente que se utilizem de tal modo os
recursos da terra, que todos se vejam livres da fome.» (9)
Igreja
«A Igreja faz muito em todas estas áreas, a maior parte das vezes sem rumor.
Exorto e encorajo a fazer ainda mais, na esperança de que tais ações
desencadeadas por tantos homens e mulheres corajosos possam cada vez mais ser
sustentadas, leal e honestamente, também pelos poderes civis.» (8)
Indiferença
«Nos dinamismos da história – independentemente da diversidade das etnias, das
sociedades e das culturas –, vemos semeada a vocação a formar uma comunidade
feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros. Contudo,
ainda hoje, esta vocação é muitas vezes contrastada e negada nos factos, num
mundo caracterizado pela «globalização da indiferença» que lentamente nos faz
«habituar» ao sofrimento alheio, fechando-nos em nós mesmos.» (1)
Irmãos
«No coração de cada homem e mulher, habita o anseio duma vida plena que contém
uma aspiração irreprimível de fraternidade, impelindo à comunhão com os outros,
em quem não encontramos inimigos ou concorrentes, mas irmãos que devemos
acolher e abraçar. (…) A consciência viva desta dimensão relacional leva-nos a
ver e tratar cada pessoa como uma verdadeira irmã e um verdadeiro irmão; sem
tal consciência, torna-se impossível a construção duma sociedade justa, duma
paz firme e duradoura.» (1)
Guerra
«Às guerras feitas de confrontos armados juntam-se guerras menos visíveis, mas
não menos cruéis, que se combatem nos campos económico e financeiro com meios
igualmente demolidores de vidas, de famílias, de empresas.» (1)
Natureza
«A natureza está à nossa disposição, mas somos chamados a administrá-la
responsavelmente. Em vez disso, muitas vezes deixamo-nos guiar pela ganância,
pela soberba de dominar, possuir, manipular, desfrutar; não guardamos a
natureza, não a respeitamos, nem a consideramos como um dom gratuito de que
devemos cuidar e colocar ao serviço dos irmãos, incluindo as gerações futuras.»
(9)
Paternidade
«A raiz da fraternidade está contida na paternidade de Deus. Não se trata de
uma paternidade genérica, indistinta e historicamente ineficaz, mas do amor
pessoal, solícito e extraordinariamente concreto de Deus por cada um dos homens
(cf. Mt 6, 25-30). Trata-se, por conseguinte, de uma
paternidade eficazmente geradora de fraternidade, porque o amor de Deus, quando
é acolhido, torna-se no mais admirável agente de transformação da vida e das
relações com o outro, abrindo os seres humanos à solidariedade e à partilha
ativa.» (3)
Política
«Os cidadãos devem sentir-se representados pelos poderes públicos, no respeito
da sua liberdade. Em vez disso, muitas vezes, entre cidadão e instituições,
interpõem-se interesses partidários que deformam essa relação, favorecendo a
criação dum clima perene de conflito.» (8)
Prisões
«Penso também nas condições desumanas de muitos estabelecimentos prisionais,
onde frequentemente o preso acaba reduzido a um estado sub-humano, violado na
sua dignidade de homem e sufocado também em toda a vontade e expressão de
resgate.» (8)
Reconciliação
«Desejo dirigir um forte apelo a quantos semeiam violência e morte, com as
armas: naquele que hoje considerais apenas um inimigo a abater, redescobri o
vosso irmão e detende a vossa mão! Renunciai à via das armas e ide ao encontro
do outro com o diálogo, o perdão e a reconciliação para reconstruir a justiça,
a confiança e esperança ao vosso redor!» (7)
Relação
«Em muitas sociedades, sentimos uma profunda pobreza relacional,
devido à carência de sólidas relações familiares e comunitárias; assistimos,
preocupados, ao crescimento de diferentes tipos de carências, marginalização,
solidão e de várias formas de dependência patológica. Uma tal pobreza só pode
ser superada através da redescoberta e valorização de relações fraternas no
seio das famílias e das comunidades, através da partilha das alegrias e
tristezas, das dificuldades e sucessos presentes na vida das pessoas.» (5)
Serviço
«Cada atividade deve ser caracterizada por uma atitude de serviço às pessoas, incluindo
as mais distantes e desconhecidas. O serviço é a alma da fraternidade que
edifica a paz.» (10)
Sobriedade
«Há uma forma de promover a fraternidade – e, assim, vencer a pobreza – que
deve estar na base de todas as outras. É o desapego vivido por quem escolhe
estilos de vida sóbrios e essenciais, por quem, partilhando as suas riquezas,
consegue assim experimentar a comunhão fraterna com os outros. Isto é
fundamental, para seguir Jesus Cristo e ser verdadeiramente cristão.» (5)
Solidariedade
«As inúmeras situações de desigualdade, pobreza e injustiça indicam não só uma
profunda carência de fraternidade, mas também a ausência duma cultura de
solidariedade.» (1)