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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Aquele era o tempo em que as mãos se fechavam

Texto de Pedro Abrunhosa para ser lido nestes tempos em que natureza se ri das más acções da humanidade...
"Aquele era o tempo em que as mãos se fechavam"
"E nas noites brilhantes as palavras voavam,
Eu via que o céu me nascia dos dedos"
"E a Ursa Maior eram ferros acesos. Marinheiros perdidos em portos distantes,"
"Em bares escondidos, em sonhos gigantes.
E a cidade vazia, da cor do asfalto,
E alguém me pedia que cantasse mais alto."
"Quem me leva os meus fantasmas,
Quem me salva desta espada,
Quem me diz onde é a estrada?"
"Aquele era o tempo em que as sombras se abriam, Em que homens negavam o que outros erguiam."
"E eu bebia da vida em goles pequenos, tropeçava no riso, abraçava venenos. De costas voltadas não se vê o futuro nem o rumo da bala"
"Nem a falha no muro. E alguém me gritava com voz de profeta. Que o caminho se faz entre o alvo e a seta."

"Quem leva os meus fantasmas,
Quem me salva desta espada,
Quem me diz onde é a estrada? ""De que serve ter o mapa se o fim está traçado, ""De que serve a terra à vista se o barco está parado,"
"De que serve ter a chave, se a porta está aberta, ""De que servem as palavras, se a casa está deserta?"
"Quem me leva os meus fantasmas,
Quem me salva desta espada,
Quem me diz onde é a estrada?"
(Pedro Abrunhosa)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Porque precisou Jesus de se baptizar?

Comentário à missa do próximo domingo
12 janeiro de 2014
Pessoalmente para João, o baptismo de Jesus terá sido o seu auge experiencial. João terá ficado admirado por Jesus se ter proposto para o baptismo. Esta experiência motivou a sua fé e o seu ministério. João baptizava num determinado lugar do rio Jordão, quando Jesus se aproximou, na margem do rio. A síntese bíblica do acontecimento é resumida, mas denota alguns factores fundamentais no sentimento da experiência de João. Nesta altura João encontrava-se no auge das suas pregações. Teria já entre os 25 e os 30 discípulos e baptizava judeus e gentios arrependidos. Neste tempo os judeus acreditavam que Deus castigava não só os iníquos, mas as suas gerações descendentes. Eles acreditavam que apenas um judeu poderia ser o culpado do castigo de toda a nação. O baptismo para muitos dos judeus não era o resultado de um arrependimento pessoal. O trabalho de João progredia.
Os relatos Bíblicos contam a história da voz que se ouviu, quando João baptizou Jesus, dizendo «este é o Meu filho amado com o qual Me alegro». Refere que uma pomba esvoaçou sobre os dois personagens dentro do rio, e relacionam essa ave com uma manifestação do Espírito Santo. Este acontecimento sem qualquer repetição histórica tem servido como base a imensas doutrinas religiosas. 
A cena do baptismo de Jesus revela portanto, essencialmente, que Jesus é o Filho de Deus, que o Pai envia ao mundo a fim de cumprir um projecto de libertação a favor da humanidade inteira. Como verdadeiro Filho, Ele obedece ao Pai e cumpre o plano salvador do Pai, por isso, vem ao encontro da humanidade, solidariza-se com ela, assume as suas fragilidades, caminha com ela, refaz a comunhão entre Deus e a humanidade que o pecado havia interrompido e conduz cada mulher e cada homem ao encontro da vida em plenitude. Da actividade de Jesus, o Filho de Deus que cumpre a vontade do Pai, resultará uma nova criação, uma nova humanidade. 
Neste Jesus que João baptiza, está a esperança da renovação do mundo. Ele é o sinal do amor de Deus a favor de todos. Assim, tudo o que seja desesperança há-de encontrar uma luz, um sentido novo Neste Filho de Deus que se deixa marcar pelo amor. Este mundo onde reina a injustiça, a malvadez contra os mais fracos, a soberba que acolhe os amigalhaços ou os mais bafejados pela dita sorte, não marcará jamais o seu lugar perante a força vibrante do anúncio da fraternidade, a igualdade e a liberdade do encontro do Deus do amor, que este Filho representa.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

As duas vergonhas

Não sei quem é o autor... Porém, é útil para a reflexão pessoal.
Não é vergonha ter defeitos. Mas ver os dos outros e não os próprios...
Não é vergonha ser trabalhador. Mas fugir ao trabalho...
Não é vergonha cair. Mas ficar caído...
Não é vergonha sucumbir. Mas sucumbir no prazer...
Não é vergonha não ter dinheiro. Mas gastá-lo mal gasto...
Não é vergonha errar. Mas preservar no erro..
Não é vergonha ser ignorante em alguns assuntos. Mas presumir-se sábio em todos eles...
Não é vergonha comer o que a bondade de alguém põe na mesa. Mas ainda por cima dizer mal...
Não é vergonha rezar ao levantar-se pela manha. Mas portar-se como pagãos pelo dia adiante...
Não é vergonha pregar a paz com os inimigos. Mas andar em guerras constantes com os amigos e parentes...
Não é vergonha usar os cabelos compridos. Mas sim ter ideias curtas...
Não é vergonha ouvir os ditos dos homens. Mas não ouvir a voz da consciência...
Não é vergonha ficar a dever. Mas sim não pensar em pagar...
Não é vergonha ter vergonha. Vergonha é não a ter...

As crianças da Síria estão sofrendo

Esta canção das crianças da Síria é um apelo comovedor.
Podemos partilhar e, em nós mesmos, pensar: Que posso fazer para mudar a sua situação dramática? - O nosso contributo para mostrarmos como toda a guerra é injusta e como fere de morte os inocentes...

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Nos dias do luto pela morte de Eusébio

Nos tempos da morte de um rei, que este ano coincidiu com o Dia exaltante dos Reis vindos do Oriente, os Magos, que sempre trazem alegria, mas este ano trouxeram também morte de um ser humano igual a todos os outros, destinado como todos os outros a passar pelo crivo da morte. Mas parecia que não. Aliás se pensarmos bem, a visita dos Magos são também uma premonição da morte. O Sanguinário Herodes deseja também entregar presentes e adorar o Menino, mas com o desejo de sanar pela morte aquele que lhe faz sombra ao poder.
Os que elegemos heróis não deviam morrer, foram tantos a dizer isto nestes dias de luto. Facilmente, esquecemos que morremos todos, mas queremos que alguns não tivessem que morrer, mas que não sabendo muito o porquê, teria de ser assim, para não nos sentirmos tão órfãos e tão solitário na solidão do cemitério. Muito mal andamos quando esta irracionalidade nos persegue, muito mal estamos se queremos exigir de alguns o que não é possível face aos desígnios da vida e da natureza. Morrer é tão normal como nascer. Não podemos por isso exigir injustamente que alguns por serem considerados heróis não morram. Isso é egoísmo. Mais ainda se sabemos logo à partida que esses ditos heróis são exemplares na preparação da sua finitude. O Eusébio da Silva Ferreira provou isso mesmo, tinha preparado a sua morte. Aquela volta ao relvado do Benfica é bem evidente disto que se diz.
A vida fica mais saborosa sem heróis e quando os pequeninos e os simples, que somos afinal todos nós, são os primeiros a escutar o poeta que grita:
«Vem, pecado, ó belo pecado?
Que os teus esbraseantes beijos
vermelhos derramem ardente vinho tinto no nosso sangue!
Faz soar a trompa do mal imperioso
E atravessa a nossa fronte a coroa da exaltante ilegalidade!
Ó deusa da Profanação
Mancha sem vergonha o nosso peito
Com a mais negra lama do descrédito!»
O som das palavras deste poema vai bater certo no coração dos sem voz e vez. Dos infelizes e dos humildes. Como todos aqueles que nas nossas encostas fixaram o lugar da sua existência. Aqueles mesmos que sem acesso à internet, jornais e telemóveis ou outras técnicas que pululam por aí, cujo único fim é apenas queimar o nosso tempo e dinheiro. Ou então, servem para alimento dos desejos e vícios desmedidos da mentalidade hedonista e consumista da nossa sociedade. Com um isso, se fazem os heróis, os maiores, os grandes, os imortais… Pobre irracionalidade a nossa.
Ninguém se indigna perante tamanha violência. Todos se sujeitam benevolentes a esse espírito dos tempos novos, onde é normal o esquecimento, a cegueira, a arrogância, a irracionalidade e a falsidade. O luto quando morrem os considerados heróis está justificado precisamente aqui neste inebriamento do que nos é imposto, mesmo que seja absurdo tantas vezes. Por isso, destoar neste ambiente, é tremendamente perigoso. 
Deixem os caminhos do povo simples como estão. Deixem-nos encontrar para si o que desejam. Deixem que eles sejam o que são. Isso mesmo, autênticos poetas. Gente sábia que aprendeu tudo na escola da vida. Onde os mestres nunca souberam impor nada com a arrogância de mestres porque nunca souberam que eram mestres sábios. Apenas gente sem se contaminar pelo estrelato da heroicidade.
Do fundo dos abismos, diz São Paulo que emerge a luz. «Em tudo nós somos oprimidos, mas não esmagados, andamos hesitantes, mas não abandonados, perseguidos, mas não desamparados, abatidos, mas não aniquilados» (2 Cor 4, 10). Perante tudo isto, não me contamino com a irracionalidade de dizer barbaridades anacrónicas, o meu caminho continua seguro, quero encontrar a luz da esperança e as razões que justificam o meu sonho.
Por exemplo, aquela de que se o Eusébio tivesse hoje 20 anos seria ainda muito melhor do que aquilo que foi... Será legítimo pensar isto sobre uma pessoa, mesmo que tenha sido um herói? – Quem sabe se pudemos dizer que o Afonso Henriques se vivesse hoje, que Portugal não faria, Portugal seria a Europa toda? – Vamos lá serenar, que cada pessoa é o que é no seu tempo, na sua época. Não ouvi ninguém dizer que se o Eusébio vivesse hoje podia ser um nabo a jogar à bola. É pena que a plêiade de heróis que já povoou o nosso mundo não esteja entre nós para reagirem com a sabedoria que lhe reconhecemos a esta nossa irracionalidade.
Melhor será descobrir mais uma vez, que haverá sempre um silêncio capaz de mostrar que vale a pena viver e que na consciência de cada um de nós, mais ou menos com heroicidade, esse silêncio fala como a voz do sábio que explica a ciência do motor do viver. Deixemos também esse silêncio falar connosco.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Peregrinação interior

Para o fim de semana de cada um de nós... Sejam felizes!
Todas as vezes que bebo um gole de água cristalina
rego o silêncio interior que o jardim escuro nos dá
e nisso bebi o tempo que sacia a sede do amor divino.

Mais adiante naquela hora incansável do sonho
vieram todos os peregrinos do mundo inquietos
à procura do sentido que chorou a rocha de Moisés.

Nisto falta a educação para a ternura do encontro
na reconciliação desta paz que a singela oração oferece
mesmo que contada pelos dedos aquece a feliz satisfação.

Somos peregrinos do interior em sangue que pulsa o órgão
nas artérias das cidades e deste mundo até à morte
que não é o fim a terra coalhada de folhas secas e brancas.

O regadio no jardim mecanizado onde se planta as flores
e a relva para ser pisada quando deambulam os artistas
na procura da inspiração trazida pelo mistério do vento.

Nisto se escreve as palavras vindas de longe como um som
que depois as crianças soletram nas sílabas encadeadas
nos primeiros nomes que dizem no terreiro do coração.

No meu deambular peregrino mais o dom das palavras
que expresso no optimismo cheio de esperança que vejo
mais longe no fruto perene da paixão da inquietude.

José Luís Rodrigues

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O Deus sem dono

Domingo de Reis, Epifania...
Comentário à Missa do próximo domingo, 5 Janeiro de 2013

O dia da Epifania é, tradicionalmente chamado, o Dia de Reis. A Epifania é o reconhecimento dos direitos messiânicos de Jesus de Nazaré por não-judeus, é a manifestação de Jesus ao mundo pagão. Uma tradição mais tardia falou de Reis Magos, aplicado a estes sábios que vieram do Oriente adorar o Menino, e pretendeu com isso, provavelmente, reforçar a glória de Jesus Cristo.
Este menino, que nasceu não tem dono. Foi enviado por Deus ao mundo por meio de uma mulher, para toda a humanidade. Muito mal vamos nós se nalgum momento nos consideramos os mais amigos de Jesus e que isso nos dará o direito de sermos donos do seu Reino. O menino do presépio de Belém é de todos aqueles que o acolhem no coração como salvador. Não pode, por isso, ser propriedade de uma forma de religiosidade ou que a nossa oração será a única que descobre e domina Jesus.
A Epifania é este momento do acontecer de Deus, que se abre para além das fronteiras do nosso pensamento limitado. O nome de Deus na frieza da gruta de Belém extravasa os nossos esquemas limitados pelas fronteiras do egoísmo e do espírito de vingança que frequentemente nos atacam.
O Deus do amor que agora nasce manifesta-se, em primeiro lugar às gentes simples e pobres das serras de Belém, falo dos pastores. Essa gentalha que não tinha lugar certo para espalhar o seu gado e, só por isso, eram repugnantes, ladrões e desprezados por todos. A boa notícia é dirigida a esses em primeiro lugar. Aos que não tinham lugar nem vez na sociedade Deus revelou-se em primeira mão, porque a simplicidade do seu amor acontece nos simples do coração e não no coração de gente cheia de boas intenções e com promessas que nunca as cumprem.
A grande mensagem que nos fica deste Dia dos Reis, resume-se a esta novidade: Deus nasce não apenas para alguns mas para todos os homens. O Deus Menino é a luz celeste (Ouro) que se abaixa até ao mais fundo da humanidade para a elevar para o alto (Incenso); e é o Deus santo e fonte de santidade (Mirra) que pretende santificar não apenas um povo mas todos os homens do mundo.
É surpreendente e quase comovedora esta abertura de Deus e arrasa todas as tentativas de apropriação de uma realidade que não pertence a ninguém, porque não é deste mundo. Vem do lugar santo de Deus para elevar e divinizar todos os homens.