Convite a quem nos visita

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O trabalho é essencial para a construção do bem comum

A necessidade de produzir cada vez mais e melhor, não pode subjugar a pessoa humana a uma simples força de trabalho, tão bem ilustrada por Charlie Chaplim, no seu magnífico «Tempos Modernos». A competitividade, condição essencial do progresso e do desenvolvimento, deve ser respeitadora da dignidade humana a todos os níveis. Para que tal diálogo se estabeleça com rentabilidade para todos, deve a lei prever mecanismos de interacção entre todos os interessados no trabalho humano. As empresas não podem desejar a produtividade se não estão em diálogo permanente com os seus trabalhadores nem podem somar a sua produtividade se não fomentam o real e efectivo cumprimento dos direitos e dos deveres.
Não se pode considerar o trabalho como uma opressão necessária. Quem assim pensar não descobriu ainda a verdadeira dimensão do trabalho humano, que radica na disponibilidade para o serviço à comunidade dos homens.
Diante deste pensamento sobre o trabalho humano, somos levados a deduzir que o trabalho é sempre uma vocação que nos realiza como seres humanos cheios de plenitude e nos convoca para a verdade da vida que Deus nos oferece a cada instante.
Neste sentido, não trabalhar é a pior forma de vida. Pois, até podemos dizer que quem não trabalha não vive ou quem vive sem trabalho está fora do sentido autêntico da vida. Estar no desemprego é experimentar a depressão, a marginalização, o desespero e o pior dos sentimentos que pode existir no coração de uma pessoa, ver-se como um parasita inútil.
Todos os trabalhadores são chamados a amarem de verdade as suas ocupações como mediações necessárias para a realização humana e como caminho eficaz de construção da paz e do bem comum.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Linguagem de amor

Maravilhosa reflexão...
Há muita gente que olha para um deficiente e não vê mais que a sua limitação cerebral ou motora. Mas o olhar do nosso coração, esse ultrapassa essa barreira e descobre as excelentes qualidades que aí jazem escondidas, tantas vezes menosprezadas pelos próprios familiares.
Page era um rapaz com grave deficiência cerebral desde nascença. Não falava, não ouvia e via apenas e mal por um dos olhos. Vivia para um mundo estranho, apenas seu.
Após alguns anos de exercícios de recuperação, conseguiu ler rudimentarmente. Seus irmãos nem sempre o apoiaram com a compreensão necessária.
Certo dia, Page e os irmãos foram visitar a avó, de oitenta e tal anos, internada num lar de idosos. Era sem dúvida a última visita, a visita de adeus, tal o estado debilitado da anciã. À volta da cama, o grupo familiar disfarçava a emoção e o motivo da visita, dizendo palavras evasivas.
Inesperadamente, o deficiente abriu caminho por entre os familiares e aproximou-se da cama da avó, chorando. Tomou o rosto magrinho da avó entre as mãos e ali ficou longo tempo afagando-o e molhando-lhe a camisa com as lágrimas, enquanto uma comunicação terna de gemidos se estabelecia entre a avó e o neto.
Ficaram todos tão emocionados como surpreendidos. Afinal aquele deficiente compreendera com o coração o motivo daquela visita. Embora muito limitado, tinha um dom precioso e desconhecido da família: não tinha capacidade para enganar. Não conseguiu disfarçar. Exprimiu à sua maneira o que sentia.
O irmão mais velho desejou naquele momento ser mais parecido com Page.
Saíram do quarto. A avó esboçou com os lábios um gesto ténue de beijar, dizendo adeus.
O deficiente tinha falado em sua linguagem intuitiva de amor: tinha dito o que os outros não tinham tido a coragem nem a capacidade de dizer...  
Mário Salgueirinho