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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Tempos tristes que não auguram bom futuro

A linguagem estalou com o verniz dos tempos que correm, porque a mentira vale muito mais, mas mesmo muito mais do que toda a verdade. São poucos os que são escravos da palavra e muitos os que se limitam a dizer palavras ocas que depois não induzem à fidelidade do seu cumprimento. Já não conto, porque seria impossível contar, as vezes em que sou aliciado com o rol de palavras, palavras e mais palavras.
O que terá levado, a que as pessoas durmam descansadas, mesmo que enganem meio mundo com as suas mentiras descaradas e com o seu palavreado oco? Porque se tornou tão fácil viver sem qualquer sombra de peso na consciência? Porque se tornou tão fácil viver de igual modo mesmo que de manhã se diga verdade e à noite se enfie ouvidos dentro a mais descarada mentira?
No meu singelo observar, considero que os tempos correm tristes, porque são poucos os lugares da vida e do mundo que escapam a esta triste realidade. Por exemplo, a política (reparem, refiro apenas a política, mas podia referir todas as estruturas da nossa sociedade) é o que todos muito bem sabem, não há respeito por ninguém. Vejamos o que se passa numa sessão de debate parlamentar, vejamos como são as campanhas eleitorais e vejamos como se tratam as questões da economia, da educação, da saúde e todas as questões sociais.
Por fim, o povo é o bombo da festa. Está satisfeito. Basta-lhe vegetar à sombra da ignorância e comprazer-se com os arrotos da abundância de festas, passeios e todo o género de presentes. Os tempos estão tristes e o país atravessa uma grande crise. Ainda estou para crer nessa crise que se chama défice. Porque só acredito verdadeiramente na crise dos bolsos vazios das pessoas. A pobreza toma conta de muitas das nossas famílias. Os tempos estão tristes e ninguém se importa nada com isso. É pena!   

terça-feira, 1 de julho de 2014

Autonomia ganha autonomia perdida

Madeira - o Dia da região
O antigo bispo de Aveiro, D. António Marcelino, um dia escreveu o seguinte: «todas as pessoas, homens e mulheres, levam consigo, a tempo inteiro, e sem que alguém possa interferir nesta sua capacidade, serem capazes tanto do bem como do mal. O ambiente que nos cerca e os tempos que vivemos nem sempre favorecem a melhor opção, empurrando-nos para o que muitas vezes nós detestamos. Será sempre actual a palavra de S. Paulo ao dar conta, desolado, do que lhe ia na alma: “Ai de mim, que faço o mal que não quero e não faço o bem que quero!” Quem há aí que não tenha tido, em algum dia ou em muitos dias, esta dolorosa sensação?» – Pergunta.
Vamos à autonomia ganha. Ninguém, no seu perfeito juízo, nega a imprescindível obra em prol das populações da Madeira. Não há como negar a luz eléctrica que iluminou todos os recantos da ilha e os míseros cantinhos das nossas casas, permitiu que entrasse a «amiga» televisão, que graças a Deus, rebentou com a maçadora reza desbobinada e outros mais submissos costumes que o macambúzio e subjugado povo da Madeira transportava a mando do poder eclesiástico; não há como negar a chegada da água canalizada que alterou a pia da loiça de madeira ou pedra para uma pia de alumínio e que converteu as «retretes» em «casas de banho» e não há como negar a chegada da estrada como se fosse um milagre que veio permitir o automóvel até ao portal de cada habitação…
Embora não sendo idoso recordo cada um destes momentos como momentos mágicos, importantes para nós. Sou ainda do tempo da «retrete», das veredas e da lamparina da cozinha e da luz tipo um jarro, onde se deitava petróleo para ser bebido pela torcida que fumegava. Com esse brilho carregado de odor a petróleo, aprendi as primeiras letras e li muitos livros que vinha buscar à biblioteca itinerante da Gulbenkian. O pior de tudo ainda era a falta de água canalizada, para resolver-se esta lacuna essencial, transportávamos água de várias nascentes. Isso implicava um sacrifício tremendo e sobrecarregava em fardo muito pesado a vida de toda a gente. O desenvolvimento que a Madeira teve, para que este estado de coisas terminasse ou a vida ficasse mais suave, com maior qualidade para uma grande parte de todos nós, merece todo o nosso apoio e louvor.
Porém, passado este tempo do saneamento básico, o poder político devia canalizar a sua atenção para outras realidades e centrar a sua ação na promoção das pessoas. Esta é a autonomia perdida. O «milagre» chamado Madeira, não passa de abundante betão e de muitas obras inúteis.
A «Madeira Nova do povo superior» como eufemisticamente se denominou durante muito tempo, tem como já vimos uma face muito nobre e interessante para todos nós, mas tem uma outra que a todos envergonha e preocupa sobremaneira.
Podia o Dr. Alberto João Jardim ser um Moisés – que me perdoe Deus a invocação do nome de Moisés - se quisesse, chegar a tão grande altura, se não fora este emaranhado de falcatruas politiqueiras levadas a cabo com a legitimidade do voto e com a conivência de uma Igreja que abdicou de ser profética em nome do vil metal, mandando às urtigas o ensinamento da prática evangélica do Seu Mestre Jesus Cristo, que quando confrontado com os «poderes» definirá claramente, «a Deus o que é de Deus e a César o que é de César».
Na autonomia perdida para muitos falou mais alto o dinheiro para fazer obras, não importando para quem e para quê. Importa que todos estejam satisfeitos no meio da abundância. Assim, todos cumpriram o seu papel. O poder mostrava obra feita, o povo deliciado com o «pão e circo» (especialmente nas inaugurações) e a Igreja assoberbada com as mordomias do poder político fechou os olhos a tudo, porque já diz o nosso povo: «quem manda pode» e «quem dá o dinheiro é que manda». Assim, foi o barco mar adentro exactamente como todos desejavam, melhor, como os apetites satisfeitos queriam que fosse.
Nesta interminável viagem deparamo-nos com muita idolatria, muitos ídolos que todo o poder produz e nunca deixarão de o ser, mesmo que entronizados, cuidadosamente, em lindos altares ou colocados em mísulas douradas. Traduzem-se na ânsia do ter, do poder e do gozar sem limites; nas atitudes orgulhosas de quem se julga o centro do mundo e não reconhece aos outros o seu valor nem o direito a terem opinião; na insensibilidade perante os mais pobres, fazendo vista grossa a uma vida enterrada em provocantes supérfluos; no comodismo de em nada querer participar em relação ao bem da comunidade; na arrogância em desejar que tudo e todos rodem à sua volta e nunca admitir os erros próprios; na indiferença empobrecedora perante pessoas e situações que pedem compreensão e ajuda… Esta face entristece a alma que se inquieta com a injustiça e a insensibilidade dos poderes perante a dignidade humana.
Não deseja ter que concluir em 2014 que celebramos o dia da Madeira assim como que neste contrabalançar em autonomia ganha e autonomia perdida. A este nível os delírios são enormes e devem ter que ver com os ventos da mudança que o povo almeja em jubilosa esperança. Que não falte tempo e lucidez para não haver deslumbramentos, mas sentido e vontade de dedicação à justiça, à igualdade e ao bem comum. A Madeira precisa deste valores como do pão para a boca.