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quinta-feira, 4 de junho de 2015

Na Eucaristia descobrir Deus pão amassado com a vida

Comentário à missa domingo do Corpo de Deus, 7 junho de 2015
A descoberta de Deus é essencial para a verdadeira relação com Ele. Muitos dos jovens - e não apenas estes - não têm relação com Deus, recusam Deus ou são indiferentes a Deus porque não O descobriram como valor e como caminho que leva ao sentido da vida e a uma verdadeira promoção da dignidade humana.
O afastamento das coisas religiosas tem muito a ver com o materialismo e com a perda de valores do mundo actual, mas não é só. Muitas razões existirão. Porém, depreendemos que procurar razões é muito fácil, mais difícil é encontrar métodos, meios e formas que nos levem a propor Deus como um valor absoluto que conduz os corações a desejarem estabelecer verdadeira relação com Ele.
Porém, uma das principais razões, que já vimos, foi a de se ter mostrado Deus como uma lei que imponha tradições e comportamentos religiosos. Esta religiosidade pecou por ser muito pobre e não levou à descoberta de Deus tal como Ele é. Por isso, falta olhar para a ternura do presépio de Belém, vermos aí tal como Deus se apresenta, uma criança pobre e despojada de qualquer auréola que não tenha nada a ver com a profundidade humana. Um Deus pequenino, simples e pobre, como qualquer dos mortais, que nasceu na frieza de uma gruta para não ser motivo de distanciamento em relação a ninguém.
Ora, é este Deus próximo que é preciso apresentar como proposta que leve à descoberta, para posterior relação de verdadeira amizade. Um Deus alimento, pão amassado com a vida de cada pessoa. É existência mergulhada na nossa existência.
Uma imagem de Deus frieza, distante da compaixão, da misericórdia e do amor nada tem de verdadeiro. Deus uma lei ou uma regra de conduta não pode ser causa de relação verdadeira, mas antes influência, mesmo que sobrenatural, de comportamentos com base no medo e no receio do futuro. Ora esta visão de Deus é antes idolatria, criação de Deus feita à medida do poder e da manha deste mundo que pretende dominar e humilhar os mais fracos. Este deus não é, não pode ser o Deus eucarístico que Jesus oferece como alimento.
Diante de tudo isto o que é ter fé? - Ter fé é acreditar na possibilidade da vida mesmo diante do absurdo. Nada está perdido perante a força da vida, que nos leva a crer que o futuro não é uma ameaça, mesmo que o agora esteja totalmente minado pela mais cruel miséria. A fé, considera Deus como essa entidade suprema, que dá segurança em relação ao futuro.
A descoberta de Deus leva a relação a uma pureza de fé muito bonita. Para quem Descobre Deus, o mundo não caminha para uma catástrofe, mas para uma plenitude.
Por fim digo como diz a grande filósofa e teóloga feminista/ecofeminista, Ivone Gebara: «Por isso espero... Que o coração humano não seja soberbo e ganancioso. Que nos eduquemos para não desequilibrar a instável balança de nossa vida, para não destruir a beleza que nos rodeia, para não ficar indiferente à dor alheia, para não sermos os únicos a participar do banquete de maravilhas que a Terra azul nos oferece. Minha fé e minha esperança se encontram, se dão as mãos, se assemelham, se misturam, se atraem, se conflitam, vivem uma da outra. O que espero não são os novos céus e nova terra. O que espero não é a visão beatífica e a vitória total do bem... O que espero não é a Justiça total. Isto me deixaria até embaraçada, pois não sei qual seria esse Bem maior ou essa Justiça total imaginada por tantos. Prefiro evitar os totalitarismos do bem, assim como tentamos evitar os totalitarismos do mal. Sei que 'céus', 'terra sem males', 'bem absoluto' são imagens tecidas de culturas passadas. Sei que são linguagens a serem sempre decifradas de novo, visto que nutriram e nutrem os segredos de vida e as esperanças de muitas e de muitos».
Que o Deus pão amassado a partir do trigo da esperança nos torne cada vez mais saborosos na partilha do amor que levanta do chão e convida à alegria da vida. O mundo precisa disso para que seja o verdadeiro lugar do encontro fraterno da humanidade.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Devo ir à missa por pura obrigação?

Muito interessante...
Não tenho vontade alguma de ir à missa do domingo. Não seria mais sincero ficar em casa e fazer uma oração a Deus?
Muitos perguntam-se se devem ir à missa ao domingo mesmo sem vontade, por pura obrigação. Para responder à esta pergunta é preciso antes entender como é o funcionamento da alma humana e de como se pode prestar culto a Deus.
O homem é constituído de corpo e de alma e é a alma que deve comandar o corpo, mesmo que os 'sentimentos' do corpo não estejam colaborando. É como um pai que leva o seu filho à missa: a alma é o pai e o corpo é o filho. Ora, o filho esperneia e diz que não quer ir, mas o pai é firme e exerce um ato de vontade sobre o filho.
A alma humana possui três áreas: a inteligência, a vontade e a afetividade (sentimentos). Elas devem obedecer a essa hierarquia, deste modo, quando a pessoa sente dificuldade em ir à missa é porque a afetividade está querendo sobrepor-se às demais, porém, a sua inteligência sabe o que é o certo e determina à vontade, ordena à afetividade que vá mesmo assim.
Não se trata de hipocrisia. Quando uma parte do indivíduo não quer ir à missa é justamente nesse momento que se vislumbra a oportunidade de mostrar a Deus o quanto o ama, pois uma oração que é feita na luta é uma oração que tem mais valor porque é feita sem a consolação.
Nenhuma das três áreas da alma devem ser excluídas da vida espiritual, mas elas devem obedecer à hierarquia. A inteligência é a área usada para o ato principal da vida espiritual: a oração. A vontade também pertence à vida espiritual e quando é ela quem comanda, a isso se dá o nome de devoção. Finalmente, quando a afetividade (sentimentos) entram na vida espiritual ocorre a consolação.
Contudo, mesmo que o indivíduo não receba consolações na vida espiritual, ou seja, quando ele está passando por um período de aridez, de deserto, não deve desanimar, pois esta é a área que está mais em contato com o corpo e, portanto, não é tão sublime.
Neste momento, a vontade deve vir em socorro da afetividade e o indivíduo deve perpetrar atos de devoção em que, mesmo não sentindo grande consolação, os gestos concretos de vontade por ele realizados, ajudarão o intelecto, a razão, a parte superior de sua alma a prestar o culto a Deus. Aquele culto referido por São Paulo como logiké latréia, ou seja, uma adoração lógica, do Logos, um culto espiritual em que o indivíduo dobra a sua inteligência diante da sabedoria infinita de Deus para pedir-Lhe tudo aquilo que convém para a salvação da própria alma e das outras pessoas.
In Aleteia