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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Luz e trevas do amor e do ódio

Hoje dia 6 de agosto damos início às novenas em honra de São Roque, na Paróquia de São Roque do Funchal. Será todos os dias até ao dia 14 às 20 horas, nos dias 15 e 16 haverá a festa em honra do padroeiro desta freguesia. Cada uma das novenas consiste no seguinte, primeiro haverá oração do terço às 19.30 horas e depois segue-se a missa solene às 20 horas com a respectiva invocação da novena desse dia. As reflexões este ano seguem o tema da LUZ, por ser o ano de 2015 o Ano Internacional da Luz. Em cada dia a homilia orienta-se por um subtema. O tema de hoje é o que acompanha o título desta reflexão: «Luz e trevas do amor e do ódio». No Banquete da Palavra, todos os dias irei tentar partilhar convosco uma pequena achega da reflexão da novena do dia. Depois das novenas como é habitual, haverá animação no adro da Igreja, não faltando música e barracas com comes e bebes típicos dos arraiais madeirenses. Todos estão convidados.
Novena da Alegria, Terça, Bugiaria e Igreja Velha:
Parece que o mundo gosta mais de trevas do que luz. São tantas as trevas que ofuscam a luz e que emana do ódio e da dimensão selvagem que habita cada homem e cada mulher. Deixar dominar essa dimensão gera tantas tempestades, tantas guerras, tantos crimes, tanta violência, tanta fome, tanta destruição, tantos milhões em campos de refugiados, tantos milhões de drogados, tantos milhões doentes de sida, tantos milhões sem emprego, tantos perseguidos por causa da sua religião, tantos desertos sem pão, sem amor, sem Deus.
Parece que o mundo (melhor, os homens e as mulheres que nele habitam) devia estar mais civilizado com o passar dos séculos, mais justo, mas fraterno, mais perto dos que sofrem, mais aberto à justiça, à partilha, a lutar pela felicidade, pela paz, pelo amor, afinal, a ser mais rápido a acender o interruptor de onde emana esta luz. Mas, tristemente, o mundo parece estar cada vez mais cruel, carnificina, raivoso de ódio, sedento de sangue derramado, destruidor de vidas, de casas, de culturas, de bens e riquezas históricas. Não pode ser este o mundo de Deus, não pode ser este o nosso mundo.
Por isso, há trevas densas que ofuscam o bem e a verdade, a paz e a justiça, a luz que deveria iluminar inteligências e corações. Trevas que sujam a vida, a honra, a dignidade. Trevas que impedem tantos de serem honestos, dignos e inundam a sua existência com o mal, porque se tornam corruptos, criminosos, ladrões e sem qualquer sombra de escrúpulos, assumem uma escalada desenfreada de luxo, opulência, violência, corrupção que chega a comprar e vender seres humanos e à matança em massa de aldeias e tribos. 
Dá uma dor de alma ver homens, mulheres e crianças que, fugindo à guerra, à fome, à tortura, compraram um lugar num navio para virem para outro lugar mais seguro, no sul da Europa, onde tivessem aconchego, pão para o estômago e sorriso nos lábios, e a meio do Mediterrâneo foram deitados ao mar e quase todos morreram afogados. Custa pensar nas dezenas ou centenas de cabeças decepadas e penduradas em fios elétricos, numa violência atroz, em genocídio ignóbil e vergonhoso.
Mas há luz no meio destas trevas densas de mal, de pecado, de crime. Começamos hoje a celebrar as novenas em honra de São Roque, que nos preparam para a sua festa na nossa Paróquia nos dias 15 e 16 deste mês de Agosto. Ele é luz nos caminhos do mundo, é refúgio e exemplo de que podemos ser cristãos a sério cuidando dos outros como nossos irmãos contra as investidas do rancor e do ódio. Ele é o exemplo seguro de que o amor de Deus triunfará.

Os divorciados não estão excomungados

O Jesus que passa saúda, cumprimenta, acolhe, cura, perdoa e aceita convite para entrar na casa dos piores da sociedade. Vemo-lo com Madalena, a prostituta; com Zaqueu, o publicano (cobrador de impostos), o centurião romano, com os pobres, com os doentes (leprosos, cegos e endemoninhados). Uma série de gente de quem o Evangelho nos dá conta. Ao lado ficavam na sua os fariseus, que Jesus chamará de hipócritas, túmulos caiados, raça de víboras… Porque se mantinham na doutrina, intransigentes ao pé da letra e agarrados ao poder que dominava impondo fardos pesados aos outros, os quais eles não eram dignos de lhes tocar sequer com a ponta de um dedo.
Resumidamente, é este o ambiente do Evangelho do Jesus que passa. Hoje o Jesus que passa está em cada homem e cada mulher que pautam as suas vidas pela compaixão, pela verdade e pela justiça. Sabem desde o primeiro momento quando descobriram o Evangelho que passar ao modo de Jesus é saber ver a realidade tal como ela se apresenta e nela reparar que há pessoas que sofrem, que morrem, que são marginalizadas, excluídas da comunhão ou friamente descartadas porque algo falhou nas suas vidas. Por causa das tricas e laricas relacionadas com o matrimónio, há uma multidão enorme de divorciados da Igreja, excluídos ou que se auto excluíram ou porque foram postos aí fora da mesa do pão da salvação, porque alguém tinha uma doutrina que aceita só puros. Tudo ao contrário do Evangelho, que não se inibe de ensinar que quem mais precisa é quem está doente. Até porque claramente Jesus se apresenta para os manchados, os pecados e contra os considerados salvos, puros. Não serve andar com Deus na boca e o diabo no coração.
Tudo isto vem a propósito do pronunciamento do Papa Francisco ontem na Ala da Sala Paulo VI no Vaticano sobre os que se divorciaram no matrimónio e que alguma Igreja Católica imediatamente os divorciou da comunhão. Disse o Papa Francisco que os divorciados que se voltaram a casar «são parte da Igreja e não devem ser tratados como excomungados».
Pode ser que o Sínodo marcado para Outubro deste ano da graça de 2015, pejado de altos dignatários eclesiásticos (cardeais e bispos de todo o mundo) venha a dizer o contrário e até votarem contra isto como fizeram comodamente os «pilatos» dos bispos portugueses, que se esconderam por detrás de votos sobre questões que se deve tratar com toda a transparência e lealdade. A família não pode ser objecto de votos. É o que é e ponto final.
Porém, se o Sínodo decidir o contrário daquilo que o Papa já afirmou cai em saco roto, ninguém ligará patavina, a não ser os eternos fariseus que antes preferem fixar-se na segurança da doutrina e na letra da lei, contra os ventos do Espírito Santo que sopra livre com o discorrer do tempo, da vida e do mundo.
Ontem será um dia histórico e marcou este dia o Papa Francisco, porque ele é Jesus que passa, encolhendo os ombros compassivos diante dos fariseus que ficam. Por nós, preferimos seguir o Papa Francisco e faremos tudo para que a luz da misericórdia e do amor de Deus esteja com todos para que ninguém se sinta descartado ou excluído da salvação.
Esperemos então que toda a Igreja, especialmente, aquela que lida com o concreto das pessoas, tenha em conta esta palavra do Papa. Até porque vem sendo hábito na Igreja que a palavra do Pontífice marca o ritmo dos tempos pastorais. Senhores cardeais e bispos, esperemos que este pronunciamento do Papa seja «palavra da salvação». Não fora ele a «Sua Santidade», como gostam tanto de referir quando fazem as vossas homilias e discursos.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A emigração tem muito que se lhe diga

A RTP- Madeira, em reportagem do Clube de emigrantes Venezuelanos lá para os lados do mijadeiro em São Martinho, chamou ao microfone para botar palavra o seu inefável líder Olavo Manica com esta tirada: «Eu penso que a emigração nos enriquece». Tomara que sim. 
Mas pelo que vejo daquela emigração dos anos 60/70 não me parece que assim seja tanto. Alguns regressam iguais ou piores e com a mesma ideia de que a Madeira devia ser pobre e eles endinheirados. A Madeira devia ser católica ainda com mantilha na cabeça das mulheres e o terço na mão, mas as suas mulheres não. Esses «ricos emigrantes» vêm ansiando ver as paisagens da Madeira ainda a preto e branco como era quando eles de cá se piraram com vontade de enriquecer, não com sabedoria, mas com dinheiro. Pelo amor de Deus. A emigração é a última hipótese, o último recurso que sobrou a tanta gente que tem que sair para encontrar trabalho para ganhar dinheiro para matar a fome. A emigração é um caminho doloroso para as famílias que vão e para as que ficam. A emigração quando é um mal necessário é a evidência mais concreta para avaliarmos o quanto estamos mesmo pobres.
Pensamos só um pouco no drama desta onde de emigrantes que batem às portas da Europa, onde encontram líderes europeus energúmenos, que lhes chamam nomes feios e erguem muros altos para que a «praga» não entre. Viria dos seus países de origem toda esta gente arriscando a vida, se tivessem condições adequadas de desenvolvimento, segurança e paz? - Claro que não. É a pobreza, a insegurança, a falta de trabalho, a corrupção e todas as desgraças que a humanidade provoca a si própria que faz levantar os povos para a emigração.
A emigração enriquece quando as pessoas são bem recebidas nos países para onde foram, já vinham qualificadas ou então se procuram qualificar-se minimamente mediante as propostas para tal que os países eventualmente ofereçam. Mas se vão unicamente para encher os bolsos à conta de falcatruas e negócios escuros, a única riqueza que se pode falar é dos bolsos.   

Quando a rádio é uma escola


Uma das minhas primeiras paixões, foi sem sombra de dúvida a rádio. À luz da lanterna a petróleo escutava atentamente os parodiantes de Lisboa, as radionovelas, que delas guardo ainda na memória toda a aquela dicção perfeita das palavras bem pronunciadas e toda a graça que daí advinha para aquecer os dias sombrios e mergulhados na mais densa saudade inquietante. Aí na profundidade das cerejeiras ora cheias de folhas ora feitas pau seco a se prepararem para o novo ciclo dos frutos vermelhos, ouvia rádio nos tempos que sobravam entre o roçar da erva para alimentar as cabras e a lenha que se buscava pelas serras dentro para fazer o fogo debaixo das panelas para cozinhar os alimentos. Esse ambiente alegrava-se com rádio, que me ensinava que havia um mundo grande para se conhecer, havia música por todo o lado e não podia faltar pessoas importantes ligadas a todos os ramos da existência para partilharem o seu saber e a sua experiência. A Rádio foi para mim a minha primeira escola e logo depois os livros emprestados pela biblioteca itinerante da Gulbenkian. Bom, mas por tudo, um muito obrigado à Rádio Antena 1 por tudo o que fez despertar em mim e pelo que me sugeriu para eu procurar nas encostas do mundo e da vida. Parabéns à Antena 1 pelos seus 80 anos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A irresponsabilidade da Europa e a dureza das nossas sociedades

Eis uma possível legenda para a imagem seguinte do público de hoje:
o que vemos? - Vemos que sobra a fé para aliviar o drama. Que Deus lá no alto proteja todas as pessoas que são vítimas da loucura humana e se vêm obrigadas a ter que deixar o seu espaço para andar à deriva pelo mundo, onde o que tem de mais certo não parece ser mãos amigas que acolhem, mas dentes afiados para lhes devorar a carne e a alma.
A saga dos migrantes continua. As políticas cegas e as bacoradas de alguns líderes europeus nada resolvem. Não ouvem ninguém. Não se importam com as chamadas de atenção e os alertas do Papa Francisco. Limitam-se a empurrar para frente, a levantar muros e a fazer de conta que não têm responsabilidades nenhumas com a situação de miséria em que mergulharam os países de origem dos migrantes. O Editorial do Público de homem coloca o dedo na ferida e faz uma longa reportagem sobre este problema que deve deixar-nos a todos inquietos e preocupados face a este drama. Aconselho vivamente a leitura do Editorial do Público e todo o trabalho que a edição do dia 2 agosto nos dava conta. Podem ler o EDITORIAL AQUI e a REPORTAGEM TAMBÉM AQUI.
E como tudo isto nos deve fazer pensar: «Quem procura entrar na Europa são sobretudo populações vítimas de conflitos graves ou de políticas de pura pilhagem dos recursos dos respectivos países. Muitos deles tinham casa, emprego, bens, não andavam a pedir nas ruas de Trípoli ou nas planícies da Eritreia»… «Muitos destes migrantes também estão ligados ao velho continente por séculos de passado colonial e até por isso a Europa tem responsabilidades para com eles. Não pode lavar as mãos como Pilatos. Mas a quem não consiga ver além dos seus próprios interesses, talvez seja útil pensar nas consequências de tanta cegueira. Os muros acabam por ser derrubados. Mais cedo ou mais tarde».
Destaco o pronunciamento do pastor de Trevor Willmott da Igreja de Inglaterra, cuja paróquia inclui os 30 quilómetros de mar que separam os dois países, criticou a «falta de humanidade e compaixão» do Governo. «Tornámo-nos num mundo cada vez mais duro, e quando nos tornamos duros uns com os outros e esquecemos a nossa humanidade acabamos nestas situações de impasse», disse Willmott, numa entrevista ao semanário Observer.

sábado, 1 de agosto de 2015

Quando a teimosia cega o coração fecha-se à universalidade

A propósito de uma entrevista que o Padre Roberto concede ao Expresso. Aqui.
Caro padre Roberto:
não te conheço nem conheço as gentes de Canelas nem todas as outras pessoas que te apoiam nesta «armada» e também não conheço as autoridades envolvidas neste caso, especialmente, as da Diocese do Porto. Por aqui se vê que nada tenho que ver com o assunto. Vou apenas falar com base no que vai surgindo na comunicação social. Por aqui se pode também concluir que podes afirmar categoricamente: «se é assim, porque te metes onde não és chamado». É verdade. Nada tenho que ver com isto e nada devia dizer acerca disto. Porém, as coisas tomaram um rumo de teimosia tal que não deixa ninguém ficar indiferente.
Padre Roberto, quando somos nomeados para uma paróquia sabemos que vamos para ali a prazo, mesmo que nunca sejamos chamados para mudar ou não encontremos razões de ordem pastoral ou pessoal para mudar, estamos ali a prazo, porque tudo o que fazemos neste mundo tem um tempo, tem um prazo limitado se não for de uma forma, há uma forma que não nos perdoa, é incontornável, a morte.
Padre Roberto, parece que és um padre cheio de qualidades, onde chegas moves montanhas e as pessoas que te rodeiam estimam-te. Ainda bem que é assim e deves cultivar cada vez mais essas qualidades. Mas, parece que neste processo já metestes os pés pelas mãos. As denúncias falsas, contra um colega teu irmão no sacerdócio estão a deixaram-nos perplexos. Vieram as ser infundadas, melhor, eram falsas. Imaginas o que isso implica de sofrimento para esse outro padre, a sua família e a comunidade onde estava a paroquiar? Já pensastes o quanto uma denúncia dessas, sendo infundada, o quanto compromete a vida e o futuro dessa pessoa? - Espero não ter que ver daqui a dias a notícia de que isto não se passou de algo do género «chama-lhe antes que ela te chame».
Padre Roberto, até parece que tinhas todas as razões inicialmente para bateres o pé, mas o rumo que as coisas seguiram, revelam que te deixam mal e esta entrevista de auto defesa ao Expresso ainda se torna mais revelador.
Por isso, Padre Roberto, «larga o osso». Pega na bagagem das qualidades que pareces reunir e vai para outra. Para que serve esta teimosia? O que ganham todas as partes? Como ficará a Igreja de Canelas, a Diocese do Porto e toda a nova dinâmica e imagem pastoral da misericórdia encabeçada pelo Papa Francisco? – Muita gente está a sentir mal, incluindo eu que não sou muito dado a me deixar «adoecer» com questões de teimosias. Todo coração humano foi criado para ser livre e universal. Mas o coração de um Padre foi recriado para ser ainda mais livre e mais universal. Nada nos prende, tudo nos liberta para o mundo inteiro e para o além, o transcendente. Esta é a principal riqueza do sacerdócio ministerial.
Padre Roberto, o nosso mundo está cheio de coisas tão urgentes para serem feitas, larga-te disso e vai por esse mundo fora e abre o teu coração à universalidade. Garanto-te que serás mais feliz. 

Bispos divididos por causa das questões da família

Mas como não haveriam de estar divididos se lhes conhecemos como lidam com as questões fracturantes como estas nas suas respectivas Dioceses? – Ao conjunto dos bispos portugueses, falta-lhes a clarividência e a capacidade de síntese de um D. José Policarpo. Agora é que vemos como faz muita falta uma figura como a de D. José falecido o ano Passado.
Temos uma Conferência Episcopal pobre, é um conjunto de homens da Igreja que na sua maioria se consideram iluminados, eleitos para serem príncipes que pouco ou nada sabem da realidade concreta da vida dos nossos tempos. Neste âmbito da família não me admira nada que se mantenham assim impávidos e serenos perante o descalabro social.
Quanto à sua discordância em relação ao Papa Francisco. Manifesta que não aprenderam nada e que estamos perante uma «mudança» interessante cujo rumo está a ser marcado pelo Papa e que já não há volta a dar, mesmo que mantenham as suas pretensas posições retrógradas e anacrónicas. Ninguém trava a força transformadora do Espírito Santo. Aprendam com a história da Igreja.