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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A maternidade de Maria de Nazaré e a ecologia

O grande desafio do nosso tempo é este, a ecologia. E mais concretamente as alterações climáticas ou o aquecimento global. As grandes questões da humanidade hoje têm que ver com toda a humanidade, graças às grandes vias de comunicação que a humanidade magnificamente desenvolveu. Mas, se quisermos verdadeiramente perceber o que é um problema global, concentremo-nos nesta questão sobre a ecologia, que tem que ver com toda a humanidade, com toda a natureza e com a expressão belíssima «a nossa casa comum», reforçada pelo Papa Francisco nos seus discursos e no seu grito de alerta, a Encíclica Laudato Si (Louvados Sejas). Hoje a questão de todos nós prende-se com a necessidade de salvar a nossa Gaia, a «nossa mãe terra». É o planeta terra que precisa de ser salvo, para que toda a humanidade e a natureza que a sustenta estejam a salvo. Vamos ver o que Maria de Nazaré nos pode ajudar.
Maria de Nazaré desde os primórdios do Cristianismo foi identificada como a Mãe de Deus. Em 431, o Concílio de Éfeso definiu explicitamente a maternidade divina de Nossa Senhora. Daí que tenha depois ganho grande tradição a expressão «Imaculada Conceição» aplicada a Maria de Nazaré e percebe-se tal título se considerarmos (acreditando) na sublime dádiva dada por Deus à humanidade. Maria de Nazaré, é uma mulher igual a qualquer outra mulher. O sentido e a altíssima dignidade da sua missão, ser a mãe do Filho de Deus, confere-lhe uma distinção em relação às outras mulheres. A tradição milenar deu-lhe esta dignidade sublime e apresenta-a de forma distinta. Nada de grave quanto a isso. Como todas as outras coisas do Cristianismo e de qualquer outra religião, acredita quem quer. Não deve por isso vir mal nenhum ao mundo por causa disso.
Mas vamos ao testemunho e exemplo de Maria de Nazaré para aprendermos a lidar com a vida e com a natureza. O Papa Francisco disse de Maria na sua Encíclica sobre a ecologia no nº 241 o seguinte: «Maria, a mãe que cuidou de Jesus, agora cuida com carinho e preocupação materna deste mundo ferido. Assim como chorou com o coração trespassado a morte de Jesus, assim também agora Se compadece do sofrimento dos pobres crucificados e das criaturas deste mundo exterminadas pelo poder humano. Ela vive, com Jesus, completamente transfigurada, e todas as criaturas cantam a sua beleza. É a Mulher «vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e com uma coroa de doze estrelas na cabeça» (Ap12, 1). Elevada ao céu, é Mãe e Rainha de toda a criação. No seu corpo glorificado, juntamente com Cristo ressuscitado, parte da criação alcançou toda a plenitude da sua beleza. Maria não só conserva no seu coração toda a vida de Jesus, que «guardava» cuidadosamente (cf.Lc2, 51), mas agora compreende também o sentido de todas as coisas. Por isso, podemos pedir-Lhe que nos ajude a contemplar este mundo com um olhar mais sapiente».
Os tempos que correm precisam de uma pedagogia mariana e um sentido novo de maternidade. A Igreja Católica precisa de ter um rosto materno, seguindo o exemplo do Papa Francisco, que sem medo de nada nem de ninguém avança ao encontro de toda a humanidade, expressando como é o rosto materno de Deus, que se expressa pelo amor, a ternura e o carinho que as verdadeiras mães não se cansam de manifestar em favor dos seus filhos. No lugar da maternidade verdadeira não há lugar nem espaço nem tempo para apresentar condições. Tudo é desprendido, desinteressado e sem condições. Salvemos a maternidade em todos os seus domínios e teremos a salvo toda a humanidade e a «nossa casa comum», a mãe terra.

sábado, 5 de dezembro de 2015

A Deus diz misericórdia

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre sem prejudicar ninguém.
Naquele dia descobri que de Deus
pode ser misericórdia
cada ritual divino omnisciente
e cada pessoa indelével
que deleita o olhar sobre a planície da água.

A misericórdia de Deus não tem definição
é incomparável ao tempo e à visão
que as crianças soletram com o dedo em riste
sobre as letras desalinhadas no papel da vida.

É maior que o mundo os equívocos
diante dessa misericórdia inefável
que está sobre si mesmo
infinitamente no quadro morto
dos pintores quando fizeram uma paisagem
que vale tanto ao prazer do mundo
porque os nossos olhos lhe deram existência.

A misericórdia de Deus é como Deus
infinita e eterna.

E só Deus cria e recria a misericórdia
pela luz que se acende
à tristeza que ensombra o homem
se tantas vezes se perde no caminho
que conduz à fonte.
José Luís Rodrigues

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

As leis sempre ao serviço da justiça e do bem comum

A fidelidade aos valores e aos sentimentos não podem estar dependentes da materialidade exterior nem muito menos devem ser oprimidos com a imposição da violência da lei. Não valerá muito mais uma pessoa interiormente liberta da opressão do que uma pessoa subjugada, recalcada e vergada ao peso do sofrimento da frustração.
As consequências da imposição da letra da lei são bem notórias no rosto de muita gente. Se, por um lado, o legalismo é evidente que é responsável por muito sofrimento, por muitas frustrações e muito recalcamento. Por outro, a cegueira da lei ainda é responsável por muito compadrio, muita corrupção e por muita violação dos valores da democracia. As regras, deviam em todos os casos serem um meio e nunca um fim em si mesmas. As leis devem ser um instrumento que conduz à paz e ao bem comum.
Assim sendo, perante uma circunstância legalista que gerou indefinição, a opção é clara, tomar partido do amor e acolher a vida sempre nessa base. Esta é a verdadeira lei que liberta e que salva. Não é esta a novidade essencial da mensagem cristã? Não foi Jesus Cristo que nos ensinou que o mandamento principal da vida seria o do amor?
A cada um compete olhar as coisas da vida com sabedoria e inteligência para que a fidelidade ao amor não esbarre com a imposição da lei. Toda a lei inoportuna, ineficaz, desumana e anacrónica devia ser suprimida sem qualquer sombra de dúvida, para que à nossa volta, não exista mais gente a sofrer com problemas sérios de frustração.
Resta só dizer que quem se deixou tomar pela frieza do espírito da lei sofre e faz sofrer todos os outros que estejam à sua volta. O legalismo cria monstros insensíveis à multiplicidade e diversidade das coisas do mundo e da vida. O recalcamento do amor e da paixão mina toda a vontade própria e a saúde da liberdade.
Acima de tudo desejamos gente liberta interiormente, sem teias de aranha nas suas mentes para que vivam e ensinem a viver a paixão pela vida. As regras convivem connosco e devem existir sempre, porém, requerem inteligência para que não se tornem uma opressão e uma violência contra a riqueza do amor. É certo e muito mais que certo que é preciso mais do que nunca saber amar.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Aplanar os vales e abater as montanhas

Breve reflexão para a missa deste 2º domingo do tempo do Advento
João Baptista é a voz que clama no deserto a revolução de Deus: «Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas». A voz do Filho de Zacarias, está na senda do profeta Isaías que proclama o sonho de Deus, que consiste na grande revolução que Deus deseja levar a cabo. A nós, cabe-nos prepararmo-nos para a mudança a transformação da vida, a nossa vida e a deste mundo. Não pode ser impossível fazer do mundo um lugar de paz e de saudável convivência sem prejudicar ninguém, mas fazendo tudo para todos serem felizes à nossa volta. Se me dizem que isto é impossível, então, atraiçoamos a inteligência e o engenho que nos foram dados. Não podemos amordaçar o melhor da humanidade.
Diz assim o Profeta: «No monte Sião, o Senhor do universo prepara para todos os povos um banquete de carnes gordas, acompanhadas de vinhos velhos, carnes gordas e saborosas, vinhos velhos e bem tratados»; «Aniquilará a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces, e eliminará o opróbrio que pesa sobre o seu povo, sobre toda a nação». É o sonho, o desejo, a vontade de Deus, que ecoa sobre os telhados dos tempos pela voz dos profetas.
Até porque Origines, o cristão do séc. II, confirmou que «cada um o que era antes de ter fé; e constatará que era um vale profundo, a pique, mergulhado nos abismos». Mais ainda adianta o pensador cristão Origines que «todos os vales podem ser aplanados. Eles podem ser aplanados com as boas obras e os frutos do Espírito Santo. A caridade não deixa subsistir em ti vale algum e, se possuíres a paz, a paciência e a bondade, para além de deixares de ser um vale, também começarás a ser uma montanha de Deus.
Esta urgência de Deus, nada tem a ver com a lógica dos poderes instalados deste mundo, porque não procuram o bem para todos. Os poderes actuais do mundo estão todos ao serviço dos interesses de grupos económicos e seguem a lógica do mercado. É o lucro e as mais-valias do dinheiro que movem os poderes. Mas logo se segue uma multidão imensa de pobres, porque esta lógica assenta na injustiça e no açambarcamento dos bens da natureza de forma desregrada, para fixar-se numa «economia que mata» (Papa Francisco). Por isso, há algo terrível, que vamos vendo através dos enormes sinais desastrosos assentes nos enormes desequilíbrios humanos, espirituais, sociais e ambientais a humanidade não tem futuro.
As várias cimeiras temáticas, não levam a conclusões nem levam as nações a compromissos sérios na construção do bem comum. Porque não se acaba com o escândalo da fome no mundo? Porque não se distribui a riqueza de forma partilhada, para que toda a humanidade pudesse sobreviver condignamente? - Faz falta mudar atitudes e deixar de criar subterfúgios comodistas. A mudança implica sempre expressar acções concretas de justiça e de fraternidade, é o único modo de nos preparamos para a vinda de Jesus.
Precisamos de um mundo justo, preocupado com o bem para todos. Só a vida doseada com alguma espiritualidade poderá levar-nos à felicidade, que implica transformação, mudança concreta.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O fundamentalismo não é religioso, é idolatria

O Papa Francisco no avião de regresso a Roma depois da sua estadia em África… Destaco mais esta ideia das suas declarações abordo do avião aos jornalistas que o acompanharam na viagem. Trata-se desta actual e pertinente ideia relacionada com o fundamentalismo, que permitiu que o Papa colocasse os pontos nos is e definiu que ninguém, no domínio da religião, pode atirar pedras contra ninguém... Quem desejar tomar conta de todos os assuntos tratados pode ver AQUI
Eis o assunto espinhoso: o fundamentalismo religioso que ameaça todo o planeta, como demonstra os recentes ataques em Paris. O fundamentalismo, explica o Papa, é «uma coisa ruim», uma «doença» que «existe em todas as religiões». «Até nós católicos temos alguns – muitos – que acreditam que possuem a verdade absoluta e seguem em frente sujando os demais com a calúnia, a difamação, e fazem o mal». Portanto, é necessário «combater» o fundamentalismo religioso, simplesmente porque «não é religioso, falta Deus, é idolátrico».
O fundamentalismo judeu e islâmico inquieta e entristece. O cristão-católico irrita e revolta. Basta ver Jesus e o Seu Evangelho.
Neste ambiente, andou um destacado antigo bispo de Portugal a participar em celebrações tridentinas. O Tridentismo é uma forma de ressuscitar o conservadorismo anacrónico e é também fundamentalismo contra as reformas do Papa Francisco. Custa muito ver que gente inteligente, que se diz adepta da Ecclesia semper reformanda, que dizem pregar o Evangelho da inclusão de Jesus de Nazaré contra todas as formas de exclusão, afinal, também embarca no requinte e na riqueza exagerada que este conservadorismo sempre manifesta. Uma campanha perigosa.
Há cinco ou seis séculos atrás, o fundamentalismo católico fez-se com as cruzadas contra os infiéis e foi também a negra inquisição que dividia a sociedade em bons e maus, santos e bruxos e combatia esse maniqueísmo com métodos bárbaros. Eis algo que nos envergonha hoje e são sempre elementos de arremesso duro no debate sobre a história da Igreja Católica. Porém, resta salvaguardar que não eram todos os cristãos e todos os grupos de cristãos que assumiam a violência como método principal de conversão e de evangelização do mundo. São muitos os santos e mártires que nesse tempo souberam acolher a mensagem do Evangelho como semente de amor.
Mas, todas as tentativas de retrocesso revestidas de fanatismo que por aí andam, porque contradizem a vontade de Cristo, não passam de uma roupagem idolátrica e anacrónica, que não salva senão os comodismos pessoais dos interesseiros deste mundo e enche o ego de quem gosta de encher o vazio que o assiste com a roupagem da pompa e da circunstância.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O Papa e o preservativo o eterno busilis

Hoje Dia Mundial da Luta Contra a Sida...
E continua a Igreja Católica a ter vergonha de falar do que Deus não teve vergonha de criar... 
Pode ser lida a AQUI A NOTÍCIA
No âmbito da sexualidade a Igreja Católica, tem sempre um discurso negativo que remonta a Santo Agostinho. Meteu-se por aí e face ao evoluir do mundo não sabe o que dizer e como dizer, por isso, fixa-se no mais fácil, não muda a reflexão e mantém um pensamento antigo que nada diz aos homens e mulheres de hoje. Uma posição clara no sentido de se considerar importante também o uso do preservativo como uma forma de combate a Sida faria muito bem à humanidade inteira. O Papa Bento XVI admitiu-o embora ainda timidamente. 
O Papa Francisco considera e bem que a fome, o trabalho escravo, a falta de água potável e o tráfico de armas como exemplos, são problemas mais importantes que o uso do preservativo. Sim, é certo, mas a Sida que dizima populações inteiras em África e tendo em conta que os especialistas consideram que uma das formas de combate a esta doença terrível passa pelo uso do preservativo, porque não uma posição clara nesse sentido? Que mal moral advém daí? Que mal haverá tomar uma posição clara? – As portas da misericórdia neste domínio continuam entre abertas ou melhor continuam com uma pequena fresta aberta…  

A Violência Oculta

Melhor não encontro para dizer sobre o estado de violência em que estamos mergulhados...
A primeira razão por que a violência maior actua de modo silencioso, e das poucas vezes que falamos dela falamos apenas da ponta do icebergue. Nós acreditamos que estamos perante fenómenos de violência apenas quando essa tensão assume proporções visíveis, quando ela surge como espectáculo mediático. Mas esquecemos que existem formas de violência oculta que são gravíssimas. Esquecemos, por exemplo, que todos os dias, no nosso país, são sexualmente violentadas crianças. E que, na maior parte das vezes, os agressores não são estranhos. Quem viola essas crianças são principalmente parentes. Quem pratica esse crime é gente da própria casa. 
Nós temos níveis altíssimos de violência doméstica, em particular, de violência contra a mulher. Mas esse assunto parece ser preocupação de poucos. Fala-se disso em algumas ONGs, em alguns seminários. A Lei contra a violência doméstica ainda não foi aprovada na Assembleia da República. 
Existem várias outras formas invisíveis de violência. Existe violência quando os camponeses são expulsos sumariamente das suas terras por gente poderosa e não possuem meios para defender os seus direitos. Existe uma violência contida quando, perante o agente corrupto da autoridade, não nos surge outra saída senão o suborno. Existe, enfim, a violência terrível que é o vivermos com medo. 
E existe essa outra violência maior que é considerarmos a violência como um facto normal. Existe, em suma, essa terrível aprendizagem de negarmos em nós mesmos tudo que nos ensinaram como valor humano: o ser solidário com os outros, os que sofrem. 
Mia Couto, in 'E Se Obama Fosse Africano?'