Convite a quem nos visita

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Quaresma

Singelo poema alusivo a este tempo que estamos a viver, a Quaresma... 
Sejam felizes sempre sem prejudicar ninguém.
Vens no ano o convite na liturgia
para o aperfeiçoamento do todo que és
é um tempo de graça ofertada
que se prepara com total dedicação
pois é este hoje que nos desperta para amanhã
como dádiva generosa de um dom e mais nada
que se vive na comunidade sincera
se ali se encontra fértil a paz viva e irmanada.

Quarenta dias ditaram e fecundaram o deserto
de Jesus incomodado pelo demónio contra o ser
a luta perversa pelo poder dos dias não deixou de ver
pois tudo o que rezou e jejuou lucidamente
fez vencer a ardilosa e diabólica tentação
mesmo que sendo a cruz o destino que te espera
e foi feliz o final que se imolou no altar da salvação.

A radicalidade da existência lembra-te
o pó na imposição das cinzas em terra solidão
quando ainda és corpo e tempo neste mundo
que só Deus faz grande o tudo que nunca fostes
e na pequenez do princípio nos coube em sorte
que insuflou o povo no Espírito que nos destes
a vida sempre nova em toda a hora da nossa morte.

Na feliz abstinência se renúncia ao muito de nada
da soberba da carne que guarda o ódio e o rancor
então curva-te no silêncio da oração que anima
faz-te dom e pão da partilha mesmo que esmolada
para todos os que precisam porque não têm nada
no sentido do afeto mesmo que discreto do regaço
faz a confissão da injustiça do vil pecado
e logo reconciliado faz saber a toda a gente
que não tem preço o calor de um simples abraço.

Não será a cruz sem a glória que se busca
deste viver quaresmal sombrio intermitente
e também sem aleluia e penitente
mas certeza última recolhida espiritualmente
que na cor roxa do mistério é virtude
onde se antecipa o reino intemporal
quando todas as manhãs serenas do divino
serão luz celeste para nós da plenitude.
José Luís Rodrigues

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A transfiguração de Jesus é um convite ao essencial

Comentário à missa domingo II tempo da Quaresma, 1 de março de 2014
Transfigurar-se significa modificar-se ou passar por alguns poucos instantes por uma outra pessoa ou figura; significa passar por uma breve mudança instantânea. Seja essa mudança consciente ou inconsciente.
Ao tratar-se de seres divinos ou místicos a transfiguração é frequente na revelação do divino aos humanos. A ideia comum sobre a questão é de que durante o dia passamos por muitas mudanças físicas e mentais. Por isso, em cada minuto não somos a mesma coisa. Nós somos fruto do tempo e das circunstâncias. O ambiente quotidiano vai fazendo muito daquilo que somos e responsabiliza em muito as nossas atitudes. Quer dizer, somos fruto do momento. Assim se pode explicar um pouco o que é a transfiguração.
No texto do Evangelho de São Marcos que será lido neste próximo domingo nas missas, a transfiguração de Jesus, literariamente, a narração da transfiguração é uma teofania – quer dizer, uma manifestação de Deus. Portanto, o autor do relato vai colocar no quadro todos os ingredientes que, no imaginário judaico, acompanham as manifestações de Deus (e que encontramos quase sempre presentes nos relatos teofânicos do Antigo Testamento): o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino. Isto quer dizer o seguinte: não estamos diante de um relato fotográfico de acontecimentos, mas de uma catequese (construída de acordo com o imaginário judaico) destinada a ensinar que Jesus é o Filho amado de Deus, que traz aos homens um projeto de salvação que vem de Deus, que convida à prática do amor incondicional.
A humanidade do nosso tempo não está virada para a transfiguração daquilo que impede a felicidade e a fraternidade, porque continua dominada pela lógica que este mundo impõe que viola a vida plena, porque não tem em conta o amor como dom total levado até às últimas consequências. As preocupações egoístas na base dos interesses pessoais continuam em força, não importa nada o serviço simples e humilde pelos outros, especialmente, os débeis, os marginalizados, os infelizes, os sem sorte, sem lugar e vez no banquete da vida. Importa assegurar para si o poder interesseiro, o domínio sobre os outros, que alimente o prazer de estar do lado dos vencedores, porque não importa a vida vivida como um dom, com toda a simplicidade e humildade, mas uma vida «enorme» a encher a vista, mesmo que emaranhada no jogo complexo de conquistas, de honras, elogios, palmas, glórias e sucessos a qualquer preço.
São Paulo, ensina-nos, afinal, que nada pode estar contra nós, porque Deus é por nós. Mas, o que mais há neste mundo é medo de Deus. A presença de Deus provoca medo a este mundo, porque os corações desta geração estão ocupados com coisas desnecessárias em relação à fé, isto é, em vez de acreditarmos de verdade no Seu amor e na Sua misericórdia, concebemos um Deus todo-poderoso que castiga e se vinga de nós. Esta visão de Deus é totalmente destorcida e não tem sentido diante das palavras e gestos amorosos de Jesus.
Neste sentido, chega de anunciar um Deus contra o que quer que seja. Vamos proclamar e viver um Deus simples e amigo de todos. Um Deus que não se compadece com a violência, a maldade, a inveja, a exploração, a fome e a nudez.
Neste meu singelo manifesto, quero proclamar um Deus que detesta e vomita, todas as formas de alienação ou ópio, todos os ritualismos desumanos que ainda subsistem na nossa Igreja, todos os apelos aos sacrifícios ou promessas, que mais não são exploração desenfreada dos fracos e dos pobres, todos os caminhos que levam à luta do poder pelo poder, todas as formas de dominação religiosa sem Evangelho, todos os caminhos que estão pejados de escárnio, de discriminação e ostracismo dentro da nossa Igreja e no mundo. Por fim, vamos estar com Deus, para que nada nos impeça de viver com felicidade, realizando a Sua vontade.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O Jejum e a Festa

Quaresma 2015
O título desta reflexão trata-se de um livro romance do escritor indiano Anita Desai, que descreve a situação da vida em família e da mulher em diferentes culturas. Um jejum na perspectiva cristã, dado que a tradição do jejum na Igreja sempre esteve associado à preparação de uma festa, a grande festividade da Páscoa de Jesus Cristo.
A Quaresma convida-nos ao jejum, hoje, não tanto ao simples gesto de deixar de comer carne ou outra iguaria, mas à renúncia perante o ódio, o rancor, a vingança que conduzem à violência e à barbárie. Neste âmbito, descobrimos o quanto podemos fazer pela paz e que devemos pensar no mundo em que vivemos onde a fome devasta vários milhões de pessoas anualmente, onde se esbanja de uma forma desmedida sem controlo nenhum e onde se produz uma abundância de lixo sem precedentes em nenhum momento da história humana.
O jejum não pode ser apenas uma renúncia barata, isto é, não pode ser apenas uma forma de renúncia de carne para comer peixe. Por isso, penso que pouco servirá um jejum que renuncia à carne para comer lagosta ou outro prato de peixe muito mais caro do que um de carne. Neste sentido, o jejum não se limita apenas ao cumprimento de fórmulas exteriores, mas é antes uma atitude interior de vida que promove o bem em favor de todos. Se o jejum se resume às atitudes puramente materiais ou materialistas não ganha sentido nenhum.
O jejum e a alegria da festa é uma serena luta em favor da paz em todo mundo. Muito melhor seria para a humanidade toda se os políticos de todo o mundo procurassem fazer um verdadeiro jejum das armas. Um mundo sem armas seria o resultado da verdadeira atitude do jejum.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Folha amachucada

Quaresma 2015
Um professor tinha numa das turmas, um garoto muito irrequieto que implicava frequentemente com os companheiros: discutia, insultava, agredia.
Certo dia, o professor quis dar ao pequeno uma lição especial. Chamou-o, entregou-lhe uma folha em branco e ordenou: vais amachucar esta folha o mais que puderes.
O rapazinho agarrou a folha, apertou-a na mão, amachucou-a com toda a sua força. A folha ficou amolgada, vincada, feia, quase inutilizável.
Em seguida, o mestre disse ao aluno que endireitasse aquela folha: desdobrando-a com todo o cuidado e alisando-a o melhor que pudesse. O pequeno desdobrou-a e alisou-a o melhor que pôde. Mas a folha apresentava sinais das amolgadelas que sofrera. Esticou-a ainda mais, mas sempre visíveis os traços das amolgadelas.
Então o professor explicou ao aluno: recebeste a folha limpíssima e lisa. Amachucaste-a e ficou irreconhecível. Tentaste pô-la como antes, mas, não obstante o teu esforço, ficou irremediavelmente marcada. Assim acontece quando desgostas alguém por palavras ou por acções, maltratando, ferindo e esmagando. Passado algum tempo, reflectiste e arrependeste-te. Tentaste limpar essas rugas, essas manchas que puseste na pessoa que ofendeste. Arrependido, tentaste voltar ao primeiro relacionamento com a pessoa ofendida: falaste com simpatia, trataste com amabilidade, mas por mais simpático que sejas, por mais desculpas que peças, por melhor que te comportes, as marcas das tuas ofensas continuam a fazer sofrer quem foi ofendido e a ti próprio que injustamente e ingratamente feriste. Folha amolgada nunca mais será igual...
Mário Salgueirinho

sábado, 21 de fevereiro de 2015

A luz de outro dia

Poema para o fim de semana. Sejam felizes sempre prejudicar ninguém...
Eu penso em tudo o que nesse passado já foi
Tudo o que poderia ter sido voou
O sofrimento que já não sinto
A fé inocente dos antigos
O dia de ontem que uma dor vergou
Mais o que se lembra da alegria
Não que se goste de memórias
Mas porque nesta luz imensa
É já outro dia que o mistério revelou.
José Luís Rodrigues

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Tenho pena que Portugal esteja a ser instrumentalizado

Muito bem dito... Só não ouvem os agachados dos desgovernantes portugueses que vão submissos beijar a mão da srª. Merker e do sr. Wolfgang Schäuble... A atitude de favor dos desgovernantes portugueses é indigno e vergonhoso para o nosso povo.

"Portugal está a ser instrumentalizado - pela Alemanha - para provar aquilo que não é susceptível de ser provado: que o programa de ajustamento é fantástico, é bom, o que é preciso é cumpri-lo. Do ponto de vista do país acho que efectivamente não é nada gratificante, é uma ideia que me perturba e me desgosta. Tenho pena que Portugal não esteja ao lado daqueles que pugnam efectivamente por outra situação e que - mais uma vez lhe digo - esteja a ser instrumentalizado, apresentando-se como um exemplo de sucesso".
No seu comentário no programa «Política Mesmo», a ex-ministra das Finanças de Cavaco Silva criticou a posição do Governo português relativamente à questão grega, que viu nesta quinta-feira uma recusa da Alemanha em aceitar uma extensão do empréstimo por mais seis meses.  
Ferreira Leite confessou também que não gostou de ver a ministra das finanças, Maria Luís Albuquerque, sentada ao lado do homólogo alemão. Apresentado pelo ministro das Finanças Wolfgang Schäuble como a prova de que os programas de austeridade resultam, a comentadora lamentou que Portugal esteja a ser um instrumento nas mãos da Alemanha. «Tenho pena que Portugal seja apresentado como exemplo de sucesso», lamentou-se. E disse mais: «Não sei de onde vem a força moral da Alemanha para impor medidas»
A comentadora aplaude as palavras de Jean-Claude Juncker, considerando que o presidente da Comissão Europeia fez bem ao reconhecer que a austeridade é uma receita sem resultado e que não teve em conta os efeitos sociais de cada país. 
«Aquelas receitas, que eram postas de uma forma única, para tratar as doenças dos países estavam erradas. Nem sempre estavam ajustadas às especificidades de cada país [...]. Muito fundamentalmente, eram receitas que não atendiam em nada às consequências sociais das medidas que estavam a ser tomadas».
Fonte: TVI-24, Programa Política Mesmo de Paulo Magalhães.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O batismo e o deserto é o lugar da descoberta do que somos

Comentário à missa deste domingo I Quaresma, 22 fevereiro de 2015
O batismo é um dos vários requisitos indispensáveis para a salvação. São Pedro, compara o batismo ao dilúvio dos dias de Noé. O dilúvio salvou Noé da corrupção e da perversidade do velho mundo. O batismo salva-nos da corrupção e do pecado da nossa velha vida. Uma vez que o texto afirma que o batismo nos salva, a questão é indiscutível. Por isso, vejamos o que diz o texto: "Ser batizado não é tirar a imundície corporal, mas alcançar de Deus uma boa consciência…", isto é, pelo batismo alcançamos a salvação de Deus.
Depois de recebermos o batismo a nossa vida não entra num caminho tipo "mar de rosas", sem problemas, sem sofrimentos e sem as peculiaridades de qualquer história pessoal. Todos estamos sujeitos às contingências desta vida. Não devemos temê-las, mas antes devemos robustecer-nos com os ensinamentos de Jesus para as vencermos sempre. O batismo é o primeiro requisito desta força interior que Deus nos quer oferecer. O deserto pode ser toda a nossa propensão para a esterilidade do amor. Uma vida toda carregada de egoísmo, de violência e de ódio contra os outros é uma vida no deserto árido sem sombra de existência verdadeira.
As tentações fazem parte da vida e podem ser uma constante no nosso pensamento e no nosso coração. Porém, se, sob a condição de batizada, à maneira de Jesus, acreditamos de verdade na mediação fiel do Espírito Santo, nada nos pode demover daquilo que escolhemos para as nossas caminhadas pessoais.
Após o batismo de Jesus no Rio Jordão, por João Baptista, o Espírito Santo tomou conta de Jesus e conduziu-O para o deserto. O Espírito Santo, é a força do amor de Deus Pai que anima o Filho para o recolhimento do deserto ao encontro do silêncio, da oração e do encontro com o Pai. O deserto de Jesus é uma busca de reflexão como preparação para a missão. O Espírito Santo enche Jesus e protege-O das tentações diabólicas.
As tentações, fazem parte da vida e podem ser uma constante no nosso pensamento e no nosso coração. Porém, se, sob a condição de batizada, à maneira de Jesus, acreditamos de verdade na mediação fiel do Espírito Santo, nada nos pode demover daquilo que escolhemos para as nossas caminhadas pessoais. Assim, o batismo não é o único requisito para a salvação hoje, mas não podemos ser salvos sem ele. "Respondeu Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus" (Jo 3, 5).