Convite a quem nos visita

sábado, 29 de agosto de 2015

Parece que a vida humana não vale nada

Para esta manhã tinha pensado escrever sobre a crueldade dos refugiados. Tinha muito para dizer inspirado no tanto que já foi dito. Porém, começo a pensar que vivemos sob uma «ditadura» de palavras e mais palavras que não conduzem a consequências que resolvam minimamente o drama de tantos irmãos nossos que fogem da guerra, da pobreza, da violência, do saque e do desrespeito da dignidade humana.
Tendo em conta que as autoridades da velha Europa não fazem nada, simplesmente encolhem os ombros e debitam também palavras de uma pretensa indignação, tem que ser nós cidadãos a alertar e a fazer uma corrente de denúncia constante desta crueldade desumana em que mergulhou a humanidade.
Não se entende que a humanidade avance imenso na tecnologia, na sofisticação a todos níveis da mobilidade e da comunicação, mas regrida tanto nos valores, especialmente, no valor da vida humana.
É preciso acolher e combater todas as formas de violência que conduzem a esta tragédia. Há grupos criminosos armados em tudo isto, é preciso travá-los. Há políticas erradas, é preciso reconhecê-lo e encetar outras políticas que olhem pelas pessoas e não tanto em nome do vil metal. Há religião distorcida que mata em nome de um deus que alguns engendraram, é preciso assumir que isso é crime e que não fiquem imunes de responsabilidades os seus autores mesmo que se agarrarem à religião ou a um deus menor sem alma. Há ditadores nos países de origem dos refugiados, é preciso arredá-los do poder. Há exploração do norte rico em relação ao sul pobre, é preciso pensar nisso. Há perda de valores, é preciso retomá-los. Há violação dos Direitos Humanos, é preciso lembrá-los. Há uma Europa que deixou de ser cristã, cujo valor do acolhimento dos estrangeiros é muito importante, é preciso não esquecer as origens da Europa e todos os valores cristãos que educou os povos. Há de tudo um pouco, por isso, é preciso que os povos europeus se empenhem mais na construção da humanidade sem que para isso tenham que encerrar portas e levantar muros.
A imagem caricatural aqui ao lado muito tem a dizer-nos sobre as causas da crueldade das imagens que nos chegam deste drama horripilante dos refugiados que chegam às portas da Europa. Não pode ser assim e o procedimentos dos interesses materiais não podem prevalecer perante o valor da vida humana, a dignidade e o direito de ser gente. Nós cidadãos devemos indignar-nos sobremaneira e procurar todas as formas de denúncia, pressão e sensibilização das autoridades europeias para que tomem medidas corajosas para minorar este drama. Não vejo diferença nenhuma quando contemplo hoje os barcos apinhados de gente em relação aos vagões dos nazis que na segunda guerra mundial transportavam os judeus em condições miseráveis para os campos da concentração da morte. Parece que a vida humana, apesar dos avanços tão solenes e sofisticados, pouco ou nada vale para a humanidade hoje. E isso é triste, muito triste.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Madeirense novo bispo de Sétubal

Grande notícia...
Parabéns amigo Padre Ornelas Carvalho e parabéns à Diocese de Setúbal. Esperemos que seja tão bom pastor como foi brilhante professor e missionário.
Mais informação AQUI

sábado, 15 de agosto de 2015

Dá muito que pensar a oração do Pai-Nosso

Meus amigos e caros leitores do Banquete da Palavra: Vamos encerrar por algum tempo este comensal. Uns dias de férias não nos farão mal. Por isso, fiquem bem que nós também vamos fazer por isso. Regressamos a 15 de setembro, se Deus assim o permitir. Deixamos aqui a desmontagem do que representa o Pai-Nosso. Boas férias.  
Não digas «pai», se a cada dia não te comportas como um filho.
Não digas «nosso», se vives isolado no teu egoísmo.
Não digas «que estais nos céus», se só pensas nas coisas terrenas.
Não digas «santificado seja o vosso nome», se não o honras.
Não digas «venha a nós o vosso Reino», se o confundes com coisas materiais.
Não digas «seja feita a vossa vontade», se não a aceitas quando é dolorosa.
Não digas «o pão-nosso de cada dia», se não te preocupas com quem passa fome.
Não digas «perdoai-nos as nossas ofensas», se manténs rancor contra o teu irmão.
Não digas «livrai-nos do mal», se não tomas posição contra o mal.
Não digas «ámen», se não compreendeste nem levaste a sério a palavra do Pai-nosso.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Conclusão: vamos à procura da luz

Enfim... Hoje é o último momento celebrativo da novena de São Roque, às 20 horas na Igreja de São Roque do Funchal... Todos estão convidados.
Nona Novena
Novena dos Aliados
 Hoje terminamos esta caminhada reflexiva e celebrativa sobre a procura da luz. Não sei se vos serviu de alguma coisa? A mim serviu para momento de oração e também serviu para perceber quanto pode ser rica a reflexão sobre a luz. O nosso mundo precisa de luz e precisa, sobretudo, que se faça luz sobre tudo o que ele contém de trevas.
Mas, deixemo-nos de rodeios e passemos à escuta de mais alguns textos de mais alguns autores sobre a temática da luz. António Mega Ferreira, termina o seu belíssimo texto, depois de passear a sua pena por vários poetas, escultores e pintores, por exemplo, Sophia, João Cabral de Melo, Rubens, El Greco, Don DeLillo entre outros. O seu texto termina com esta pergunta, tirada de Don DeLillo: «Há estrelas mortas que ainda brilham porque a sua luz ficou aprisionada no tempo. Como situar-se em face desta luz, que, em bom rigor, não existe?» E continua: «Um homem quando vem da morte, diz, ao rosto amado: minha luz». Provavelmente foi esta expressão que Cristo também utilizou quando depois da morte, ao terceiro dia, aparece às mulheres e aos Apóstolos cheio de luz. Não terá o mesmo sentido a expressão que Cristo utiliza: «Dou-vos a minha paz...»? – Ao rosto que Cristo ama, que são todos os seus discípulos, revela-lhes a luz e deseja-lhes paz. Esta é a expressão máxima do amor divino feito história concreta.
Por outro lado, dado que «só o poema contém a luz que nos faz ver», apresento o poema de Octavio Paz, «Este Lado»: «Há luz. Não lhe tocamos nem vemos. / Nas suas vazias claridades / repousa tudo o que vemos e tocamos. / Eu vejo com as pontas dos meus dedos / o que os meus olhos apalpam: / Sombras, mundo. / Com as sombras traço mundos, / dissipo mundos com as sombras. / Ouço palpitar a luz do outro lado». O poema apresenta-se como é a festa da luz. O poeta ora perturbado com as sombras do mundo, ora angustiado porque a vida perde-se na azáfama do agora, mas, ao mesmo tempo, sente que do outro lado a luz está e é essa certeza que o anima. Esta mensagem é fabulosa. Para nós serve, para entender que a vida faz-se nas sombras, «com as sombras faço mundos», mas não me quero esquecer que do outro lado a luz palpita, para me encher de alegria e felicidade.
As imagens de Noronha da Costa, pintura construída à luz da vela e com a luz da vela, são quadros fantásticos, que nos remetem para o eterno das coisas. A penumbra construída pela luz da vela são sombras, mas o centro revelado pela luz que brilha é o palpitar da eternidade. Na penumbra dos dias devemos perceber que o futuro está já aqui nesse brilho da luz, mesmo que seja uma singela e humilde vela.
Perante esta embalagem descobrimos um texto muito belo de Hugo Gonçalves, que diz assim: «Toda a Matéria é Combustível». Repare-se, então, na beleza das suas palavras: «Sentamo-nos no passeio, esperando o final das chamas. Estaremos assim, próximos, no mesmo lugar, cada vez menos. Quando amanhecer, trocaremos apertos de mão em vez de beijos, como fazem os adultos. Mas por enquanto, continuaremos aqui, esperando a luz do sol que elimina a tristeza, sorrindo sempre que acertamos com pedras nas janelas que resistem ao fogo». Muito interessante. Sempre pensei que a tristeza nada é perante a luz do sol. Por isso, não gosto dos dias sombrios, tristes e muito menos gosto da noite. Pois, venha o sol para iluminar os dias e acabar sempre com o terror da noite. Já o ilustre amante da pobreza radical, São Francisco de Assis, ensinou na sua oração: «a noite é irmã gémea da manhã».
Então face a esta realidade da vida e ao medo que possa provocar qualquer elemento do universo, da natureza e da vida, «Venha mais Luz» como pedia João Lima Pinharanda, porque é o que cada um pode pedir quando o escuro da vida o persegue.
Mas, também vamos ao encontro de um texto extraordinário de José Augusto Mourão. No início do seu texto descobre-se uma citação muito sugestiva de Mestre Echkart, que diz assim: «Não poderia ver bem a luz que brilha sobre o muro se não voltasse os olhos para onde ela jorra. E mesmo aí, se a capto onde ela jorra, preciso de ser libertado desse jorrar; devo captá-la tal como ela plana em si mesma. E mesmo assim direi que não deve ser assim. Não a posso captar nem no seu contacto nem no seu jorrar nem mesmo quando plana em si mesma, porque tudo isso é ainda um modo. É preciso captar Deus como um modo sem modo, como um ser sem ser, porque não há modo». Agora parece estarmos perante uma procura da luz que se identifica mais com a presença de Deus. Pois, esse é o caminho, procurarmos a luz para vermos Deus, mesmo que seja na penumbra dos dias e na escuridão da noite que a vida também ás vezes oferece.
José Augusto Mourão, estrutura o seu texto da seguinte forma, primeiro que tudo, lá está um título muito enriquecedor, repare-se: «Diante do sal que nos olhos luz». Desde logo somos levados à Palavra do Evangelho, quando Jesus proclama: «Vós sois o sal da terra»; «vós sois a luz do mundo». Porém, o autor divide em quatro partes o seu texto: primeiro, «Habitar»; segundo, «O espelho do mundo»; terceiro, «desvendar»; quarto, «Coda». Mas olhemos para cada uma das expressões.
1. Habitar, é «A morada para o homem o domínio aberto à presença do Deus (do insólito)». Tenho dito. A habitação de cada pessoa é o lugar por excelência da presença de Deus. A ideia da casa ou da habitação como lugar da intimidade com Deus é sempre reincidente em muita literatura.
2. O espelho do mundo, aí se reflecte o sentido da vida. Basta procurar e acolher o reflexo de Deus presença constante. 3. Desvendar, é a tarefa da luz. 4. A palavra Coda, é um túmulo sobre o qual se celebra o encontro com o divino. Para nós cristãos, foi a partir do túmulo que se percebeu que o corpo ali depositado tinha entrado na luz. Por isso, no fim desta caminhada celebro convosco que para toda a vida e para todas as vidas a verdadeira oferta da luz é a Ressurreição.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Candeia que vai à frente alumia duas vezes

Mais um dia para reflexão e celebração da luz... Hoje na Igreja de São Roque às 20 horas.
Oitava novena
Novena da Paz
Lá vamos nós nesta viagem com a luz e à procura da luz. Na novena de ontem terminamos com a luz a identificar-se com a esperança. Bem me parecia ter aprendido que a melhor definição para a luz era a de acolhê-la como um anseio. A esperança é um anseio. Por isso, nos tinha dito Manuel Alegre que «Era essa luz que no meio da mágoa e da saudade e das multidões do mundo e do exílio eu trazia dentro de mim, um pequeno astro cintilante que apontava um país azul, uma luz só luz».
Mário Caeiro e Marc Pottier ensaiam coordenar uma iniciativa há vários anos, chamada «Luzboa» Bienal Internacional da Luz. Os dois perguntam-nos: «Qual é o teu sonho?». A resposta radica na luz. Ora vejamos: «- Oferecer a todos a luz, oferecer as estrelas no céu...» Mais adiante, acrescentam: «O meu sonho é sonhar. Como tu, transfigurar a noite, reflectir o dia...». Por isso, «a luz é boa». Porque entendem sair da luz tudo o que desejam e sonham para o mundo das trevas: «que a luz revela, projecta, desenha, surpreende e diz. E que a luz é uma espécie de metáfora-conhecimento, ritual, espiritual, mecânica, lógica e poderosa expressão de que são feitos os sonhos. Qual é o nosso sonho? Luzboa». Também será por isso que a «toda a luz é boa» que os adultos ensinam às crianças que perante a perda pela morte de um familiar estimado (p. ex. o avô, a avó, um tio, um irmão, a mãe ou o pai…) sempre ensinam que aquelas pessoas são agora uma estrela que brilha no céu, coisa que faz as crianças ficarem satisfeitas.  
Num texto de Sara Pina, descobre-se uma palavra fortíssima, mas que para a autora se identifica com a luz, falamos da palavra «eternidade». Pois então, o que é a eternidade? – É o seguinte: «A noite rendilhada de estrelas. Nada mais». Porém, o buraco não é o fim e a eternidade não pode existir na escuridão, por isso, «O buraco sem luz não pode esperar mais. Foram-se as estrelas e nasceu o dia». A luz é o sinal da eternidade. O nosso horizonte é esse, o da eternidade. Pela luz, porque é já sinal do eterno, vamos ao encontro da plenitude e da glória. A esperança, que também significa a luz, tem este horizonte, tem este lugar seguro de que a vida não pode acabar no buraco escuro da morte.
Mais adiante, encontramos um texto extraordinário, escrito pela pena de Luís Sepúlveda, onde conta um episódio curioso do tempo dos Maias, escutemos o curto episódio com atenção: «Nas ruínas da cidade Maia de Chichén erguem-se várias pirâmides orientadas segundo a deslocação solar e, todas elas, têm esculpida uma serpente que desce desde a ponta até à base da construção. Pelo lombo dessa serpente desliza a luz durante centenas de anos e mal esta tocava no chão os Maias davam o dia por começado. Todos os seus afazeres estavam determinados pelo preciso momento em que a luz e a terra se uniam fugazmente. Esse minúsculo momento de união entre o indiscutível, o insaciável, o incorpóreo, a luz, e o mundo, era para eles a única eternidade possível, e assim o certifica o Popol-Vuh, o livro sagrado dos Maias: ‘a luz desce pelas costas da serpente, deixa para trás o já feito, em sombras e ao acender as suas faces indicar-nos-á o que fazer. Assim será até ao fim do tempo, que é o fim da luz’». Esta atenção ao jogo da luz entre a noite e o dia é algo de muito cativante para nós e como os nossos antepassados sabiamente entendiam a vida a partir desse casamento entre a luz e as trevas.
A luz dá sentido ao mundo e às coisas do mundo: «a luz convida a darmos um nome a tudo aquilo que se vê e a soma de todos os nomes resulta na canção da luz». Por isso, não devia existir mal maior no mundo, se todos soubessem conjugar harmoniosamente o jogo da luz e das trevas. Para quem viva na luz não pode fazer mal nem a si próprio nem aos outros, porque na luz «não há lugar para o mal sobre o seu império».
Mas também sabem bem a escuta dos versos de Kenzaburo Oe: «Uns dizem que vimos uma grande luz / mas é mentira / vimos a morte da luz». Os versos rezam assim, porque ressoam do contexto, onde a morte falou alto, muito alto, mesmo que tenha sido sob o efeito de uma grande luz, lembramo-nos de Hiroshima. Pois é, é a memória das trevas que continua neste mundo tão forte como a luz, mas não devia ser assim, claro, se todos os homens quisessem. Sim, quisessem, porque para a luz basta querer, e logo a luz faz-se. Já Nossa Senhora, a Mãe de Jesus, ficou conhecida por essa palavra que ao mesmo tempo significa vontade e luz: Fiat (faça-se) e apareceu o Sol da humanidade inteira, Jesus Cristo.
Outro autor que nos faz reflectir sobre a luz termina o seu texto deste modo. A luz «É o discurso da terra, dos milhares de minerais que se foram formando no decorrer dos milhões de anos, e fazem-nos lembrar que a vida é efémera, frágil e que este planeta é de todos e não somente dos donos do dinheiro. Eu ouvi esse discurso e fi-lo meu, graças à luz que é a voz da vida».
Talvez seja por causa desta forma de pensar e ver a vida que João Lopes, escreveu o nome Luzia, que é o nome dos nomes. Porque, acrescenta: «chamo-te Luzia porque és tu que me trazes o sol de outra galáxia». O sol que embeleza a vida e o mundo. Tudo a partir de um nome se torna realidade autêntica, cheia de esperança e de eternidade. Eis a luz.
Ao terminar ainda vemos a letra suave e poética de Tereza Coelho que nos ensina a cantar Primavera assim: «Primavera, primavera, és linda como haver morte» (não soa bem, mas foi o que aconteceu mesmo e o que a autora nos revelou do seu pensamento), «porque essa frase incluía a luz, a noite, e toda a imensidão possível». No fundo, quer segredar a todos que a vida é esse mistério intocável, que requer de nós o maior respeito e a mais profunda veneração. Porque nem toda a luz é para nós, mas a luz suave do amor pode ser nossa, basta que o interruptor da alma se deixe acender sempre e em cada hora da vida. Mas, apesar de tudo e contra tudo e todos somos, segundo a Alexandra Quadros: «Meninos de luz». E eu quero acreditar que Deus assim nos fez, para ser luz como «candeia que vai à frente aluminando (alumiando) duas vezes»…

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Nem tudo o que luz é ouro

Continuamos à procura da luz. Hoje na Igreja de São Roque às 20 horas...
Sétima Novena
Novena da Mocidade
Este é um grande desafio da nossa existência. Saber escolher a melhor parte, para que a felicidade e o sentido da vida sejam uma realidade muito forte no coração de cada homem e mulher. A humanidade não é feliz e continua enterrada na miséria porque não encontra a melhor parte. É preciso descobrir qual é a sabedoria que nos conduz à verdadeira escolha. A melhor parte depois de descoberta nunca mais lhe será tirada.
Sempre senti uma grande simpatia e encanto particular pelo episódio contado por São Lucas no Seu Evangelho. Diz assim o autor com a sua delicadeza cirúrgica referindo-se a Jesus: «Estando em viagem, entrou num povoado, e certa mulher, chamada Marta, recebeu-o em sua casa. Sua irmã, chamada Maria, ficou sentada aos pés do Senhor, escutando-lhe a palavra. Marta estava ocupada pelo muito serviço. Parando, por fim, disse: ‘Senhor, a ti não importa que minha irmã me deixe assim sozinha a fazer o serviço? Diz-lhe, pois, que me ajude’. O senhor, porém, respondeu: ‘Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas; no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só importa. Maria, com efeito, escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada’» (Lc 10, 38-42).
Também o realizador Fassbinder me fez pensar nesta passagem da Escritura, quando vi o seu filme magnífico «Marta». Nessa ocasião senti que o realizador tinha rezado este momento da vida pública de Jesus.
A questão que se coloca é a de se saber escolher a melhor parte na vida e para a vida. Mas, qual será o conteúdo da melhor parte? A melhor parte terá de ser uma descoberta pessoal e única para cada pessoa. Só Deus na pessoa de Jesus, pode identificar-se como sendo a melhor parte, mais nenhuma criatura reúne condições para impor o que quer que seja a ninguém. A melhor parte é sempre Deus e a Sua Palavra.
A partir destes pressupostos, vamos tentar delinear alguns aspectos que nos ajudem a descobrir a melhor parte. Antes de mais, é preciso perceber o carácter incondicional na nossa vida. Muito da vida de cada um de nós assenta nessa base. A incondicionalidade deve ser uma constante em todas as opções. Por isso, nada deve perturbar a escolha das opções que se pretenda realizar, para que sejam verdadeiras e sinceras todas as escolhas.
Toda a escolha implica uma renúncia. A nossa vida está cheia desta experiência. Quantas escolhas foram feitas e que depois implicaram elevados sacrifícios e renúncias incontáveis? Desta realidade está cheia a vida deste mundo e não nos parece que tal seja uma desgraça, mas antes, uma riqueza extraordinária que se descobre no coração da humanidade.
A ideia de escolha de Deus é muito diversa da nossa ideia de escolha. Para nós a escolha implica muitas considerações vantajosas, pessoais e para o âmbito familiar. Deus escolhe de modo distinto. Na Sua ideia de escolha não está presente a exclusão de ninguém. Deus chama e escolhe alguns para que todos se deem conta de que são amados. A base da escolha de Deus é sempre o amor não apenas por alguns, mas o amor por todos.
Neste sentido, aprendemos agora que as nossas escolhas teriam outro valor e outro sentido se estivessem sempre como base o amor. As opções pelo matrimónio ou pela vida religiosa de modo especial, não acertam, por vezes, porque não estão fundamentadas naquilo que é essencial. Deste modo, feita a escolha, faço a fundamentação não em mim e nas minhas convicções pessoais, mas em Deus. A Sua Palavra e o Seu amor por todos fundamentam a minha escolha. Por causa desta certeza São Paulo ensinou o seguinte: «Depois disto, que nos resta dizer? Se Deus está connosco, quem estará contra nós? (...) Pois estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes, nem a altura, nem a profundeza, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor» (Rm 8, 31; 38-39).
Muitas vezes estamos habituados a pensar que a escolha trás consigo a ideia de perfeição e a santidade. Nada disto devia acercar-nos o pensamento. A escolha surge para melhor servir a todos e dar testemunho que Deus ama a todos de forma incondicional.
Porque pensamos de modo distinto desta visão, quando surgem as críticas menos simpáticas, logo aparece o desprezo, as caras macambúzias e com raiva contra tudo e contra todos. Tudo isto acontece nos grupos humanos quando o sentido da escolha não está assente no serviço e na total disponibilidade, por isso, a escolha muitas vezes cria pequenos ditadorzinhos soberbos sem cabeça. Saber escolher é essencial e sentir-se escolhido com humildade também não é menos essencial.
Termino com a ideia de que o sentimento de pertença não pode confundir-se com o sentimento de posse. Se pertenço à família, à empresa, à escola, à paróquia ou Igreja, devo saber estar e exercer a minha função sem qualquer sentimento de posse. A pertença mútua entre Deus e o seu povo, não se manifesta em termos de sentimentos de posse, nem ninguém é propriedade de ninguém. Tudo está em função do amor e nada está contra o amor.
Quem ama não põe condições. Simplesmente escolhe a melhor parte porque se sentirá feliz e porque é feliz saberá como corresponder para a felicidade dos outros. Porque soube escolher a melhor parte com sabedoria e inteligência, logo desde o início da sua procura definiu conscientemente que nem tudo o que luz é ouro. 

No debate/diálogo nasce a luz

Seguimos analisando, reflectindo e celebrando o tema da luz... Hoje será assim às 20 horas na Igreja de São Roque...
Sexta Novena
 Novena da Cruz
 Como não poderia deixar de ser para melhor fundamentarmos e compreendermos esta ideia da luz como consequência do debate de ideias, vamos à Sagrada Escritura e vemos logo palavras interessantes sobre o que é e quem é a luz. A luz, como criatura maravilhosa da Natureza, é símbolo de Deus: «O que foi feito nele era a vida, e a vida era a luz dos homens; e a luz brilha nas trevas, mas as trevas não a apreenderam» (Jo 1, 4-5).
Por meio de Cristo, também Ele luz, «o Verbo era luz verdadeira que ilumina todo o homem... Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque as suas obras eram más... «De novo Jesus lhes falava: ‘Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida’... ‘Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo’» (Cf. Jo 1,9; 3, 19; 8, 12; 9, 5). A luz brilha nos nossos corações, «...para os incrédulos, dos quais o deus deste mundo obscureceu a inteligência, a fim de que não vejam brilhar a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus... Por quanto Deus, que disse: ‘Do meio das trevas brilhe a luz, foi ele mesmo que reluziu nos nossos corações, para fazer brilhar o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Cristo» (2 Cor 4, 4.6).
Somos convidados a ser luz do mundo. Reparemos no apelo formidável de Mateus: «Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte» (Mt 5, 14). Por isso, Lanço-vos um desafio, imaginemos como seria a nossa cidade sem luz elétrica… Imaginemos a nossa casa sem luz elétrica. Depois ensaiemos o sentido e o significado de tal escuridão face ao esplendor da luz.
Passadas as principais citações sobre a luz nos textos do Novo Testamento, vamos agora ao encontro de outras expressões e palavras que nos revelam, em síntese, a necessidade da luz ou então de como devemos aprender que a nossa vida sem luz é um castigo terrível. Uma agonia insuportável. Porque o diálogo nunca seria possível nem muito menos saborearíamos o que deriva do debate e do diálogo das ideias.
A definição de Mário Assis Ferreira é interessante, a luz «é um anseio». Mais acrescenta ainda, como palavra final, que encerra o desejo da luz para sempre no coração de todos: «E só as trevas não cabem nessa luz». Porque antes tinha dito que há «...uma luz necessariamente branca: porque o branco é harmonia, a síntese de todas as cores». A expressão poética revela que a vida não tem sentido sem a luz. Por isso, todos precisam da luz interior que conduza para o sentido da vida e com ele nos revelem o esplendor do prazer que pode ser uma vida em cada pessoa. Com a luz a vida é uma festa. Sem a luz a vida não tem gosto. É uma perdição.
Por isso, desejamos a luz para cegueira do mundo, que neste tempo ganhou contornos universais. As trevas do ódio, da fome, a imigração/emigração que hoje ganha contornos dramáticos (por isso, ficou dito o seguinte na opinião de Vicente Jorge Silva: «Que Europa é esta onde seres humanos são reduzidos a gado – ameaçados de morrer no mar, assaltados por cães ou fechados dentro de cercas?») e da guerra saneiam a vida e todas as obras que a humanidade a custo procura «dar à luz».
João Magueijo, engendrou um conto interessante de um jovem que deseja escrever livros e publicá-los, por isso, vai para a cidade, «porque na cidade se encontra a luz». Mas na procura frenética para encontrar um título para o seu livro, encontrou um que lhe diz tudo e assim ficou sendo chamado o seu primeiro romance: «Dar à luz». O autor do conto remata finalmente o seguinte, concordando com o título criado pela sua personagem: «E, mais uma vez, esperaria que a luz singular das suas palavras cintilasse, por fim, sobre a cegueira universal». Eu também quero crer nisso mesmo.
Alexandre Melo mostrou como numa sala escura podemos ouvir a música e como podemos entrar na luz, mesmo que rodeados pelas mais densas trevas. A luz mais importante não é a exterior, mas a de dentro, a que vem de dentro e conduz depois para dentro. No interior descobre-se a luz verdadeira. Por isso, repare-se na beleza das palavras: «Viu que estava no interior de uma sala ricamente decorada. Olhou para o seu lado direito e a luz nascente permitiu-lhe distinguir, entre céus azuis, brisas verdes e suaves arvoredos, um casal de jovens enamorados contemplando uma carta e um outro rapaz que aliciava uma rapariga com a oferta de uma flor... À medida que a luz ia revelando a sala, percebeu que podia dar vida, cor e movimento a todas estas cenas e personagens». E da vida simples do quotidiano, pode nascer a mais rica e intensa luz. Basta procurar e deixar que dessas coisas da vida ecoem os brilhos de tudo o que existe de positivo, a luz. 
O Manuel Alegre mostrou que «Uma luz só luz». E em apenas uma luz descobrimos uma pequenina luz, que é «Uma pequenina luz» do poema de Jorge de Sena que dizia assim: «Uma pequenina luz bruxuleante e muda / como a exactidão como firmeza / como a justiça. / apenas como elas. / Mas brilha. / Não na distância. Aqui / no meio de nós. / Brilha». Depois percebemos todos com Manuel Alegre que esta «pequenina luz», era «em todas as línguas do mundo» a luz da esperança. E ainda acrescenta o autor de «Cão como nós»: «A mesma sobre que já tinha escrito Stephan Zweig, quando em plena guerra, nos dias do desespero e do opróbrio, prestou homenagem a Romain Rolland: «Este pequeno ponto luminoso, este astro delicado / a esperança / brilhava sobre os homens oprimidos». Não pode dizer mais, porque basta-me esta luz, a luz da esperança para sentir a vida e Deus tão perto do meu coração.