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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O analfabeto político

Serve este banquete para quem se gaba tanto de que não se mete na política e que não se interessa nada pela política. Calha bem que o Papa Francisco já disse que "política é uma das formas mais elevadas da caridade, visto que procura o bem comum". Mas, Bertolt Brecht vai mais longe e diz o seguinte:
"O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço dos feijão, do peixe, da farinha, do aluguer, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”
Bertolt Brecht

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O precursor João Batista perdeu a cabeça

Comentário à missa deste domingo II Advento. Pode servir a quem vai à missa, mas não só...
João Baptista é um sinal muito forte de que Deus nunca se esquece da humanidade e que apenas aguarda por uma ocasião propícia para fazer acontecer a sua vontade.
João é aquele que vem à frente proclamar a chegada do Messias, é chamado o precursor. Este é aquele de quem diz o profeta Isaías o seguinte: «Uma voz clama no deserto: “preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. Sejam alteados todos os vales e abatidos os montes e as colinas; endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas escarpadas; e toda a criatura verá a salvação de Deus”».
Tudo começa no deserto, esse lugar sem sentido, porque faz abundar a fome e a sede, mas também pode ser um lugar de discernimento da luz de Deus, que convida para a acção e nos revela caminhos para a vida.
Os desertos actuais, são os lugares da doença, do egoísmo, do ódio, da guerra, dos vícios, que provocam sofrimento, dor e abandono. Estas são as farturas geradas pela frieza do coração humano. Mas nesses momentos de deserto, que ninguém está livre de atravessar, pode em qualquer momento descobrir a presença afectiva de Deus que propõe outro modo de vida e outros caminhos que conduzam à felicidade. A conversão é o mote.
Neste ambiente de introspeção necessária para a conversão, que nos ajuda a recolocar a cabeça perdida com tantas coisas desnecessárias deste mundo, o poeta, romancista, músico e dramaturgo indiano Rabindranath Tagore, diz-nos do essencial neste poema com o título: ADVENTO.

Morria a noite… Um murmúrio corria
De boca em boca:
O MENSAGEIRO! O MENSAGEIRO! Aí vem
O MENSAGEIRO!
Inclinei a cabeça e perguntei: vem já?

De todas as partes parece que estalava
O sim da resposta.
O meu pensamento, atormentado, dizia:
Não tenho ainda pronta a cúpula do meu palácio
Nada está completo.

Veio uma voz do céu:
Derruba o teu palácio.
Porquê? – perguntou o meu pensamento.
Porque hoje é o dia da chegada,
E o teu palácio estorva a passagem! 
(R. Tagore)
- Com isto, continuemos felizes a alimentar a alegria da esperança, mesmo que às vezes tenhamos que perder a cabeça.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A festa do jogador quando soube que vai ser pai

Vejam o vídeo arrepiante do Thiaguinho, falecido na tragédia da Chapecoense, quando descobriu há uma semana que será pai, comemora com alegria entusiasmo. Sem muitas palavras com isto prestamos a nossa homenagem as todas as vítimas desta desgraça. Os que morreram, os familiares, o clube de futebol e todas as pessoas que sentem com profundo sofrimento a partida destes jovens.  
A vida é dura. Este vídeo é duro. E é duro pensar como vai reagir a criança que está para nascer quando estiver em idade de perceber como é a vida, a festa que fez o seu pai quando soube da notícia da gravidez da sua mãe.
Porém, resta-me serenar e perceber que se a vida foi transformada para um tragicamente para outro a vida emerge como rebento de uma festa grande que é viver, mesmo que envolto tantas vezes na tragédia e na desgraça. Meditemos neste mistério… Que nos revela um Deus morto tragicamente no jogador Thiaguinho, mas também um Deus vivo no «Thiaguinho» filho, que está no útero de sua mãe.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

As religiões no debate público

O padre Anselmo Borges, docente universitário de Coimbra, encontra-se na Madeira para apresentar o seu último livro: «Deus, Religiões (In)felicidade». Estará hoje na Universidade da madeira às 18h30, e ontem às 17h30 esteve no solar de Machico, onde tive a alegria e o prazer de o escutar.
O tema da religião deve estar sempre presente no debate público, embora na Europa estejamos a assistir a investidas graves para retirar desse debate o tema das religiões. Mas, é um facto bem evidente que as consequências que daí advêm são deveras preocupantes e graves para as sociedades em geral. O padre Anselmo não deixou de refletir que este é um sinal dos tempos, que devemos ter em contra nesta reflexão sobre as religiões no âmbito da felicidade e infelicidade. É precisamente no contexto desse paradoxo da religião que essa investida aparece, exatamente, como trata no seu livro «Deus, Religiões (In)felicidade».
As religiões devem conduzir à descoberta do mistério, que se designa por Deus, que se revela no amor e pelo amor. Quando as ações humanas se servem desse mistério para fazerem valer os interesses pessoais, políticos ou outros, deixam de estar nesse âmbito da felicidade. Assim as desgraças acontecem com prejuízo para a humanidade inteira e com graves atentados contra a natureza, a nossa casa comum.
As religiões devem guiar no caminho da felicidade, quando distorcidas da sua verdadeira natureza, que é o serviço aos outros, para se tornarem poder idêntico aos poderes do mundo, conduzem à infelicidade, à violência e à morte. Daí que faça todo o sentido, no campo da religião falar-se na promoção da justiça, na igualdade, nos Direitos Humanos, o sentido da igualdade, a distribuição da riqueza que há no mundo, o sentido do bem comum, o cuidado com a natureza e todos os valores que contribuem para o bem estar feliz de cada ser humano.
No entanto, ainda há guerras em curso por causa da religião, crucifica-se pessoas, fazem-se mutilações e violações em nome de uma interpretação literalista dos textos religiosos e, ainda mais grave, em nome de um deus sanguinário e «dominado» por cabeças humanas. Ainda hoje há quem invoque um deus para a desgraça e a infelicidade dos outros.
Assim, sendo conclui-se que já é tempo de fazer da religião um meio para felicidade e não para a desgraça. A nós todos que entendemos a religião como um caminho de libertação e não de opressão, vamos dar sempre que possível o nosso contributo para que as religiões ajudem as pessoas a serem mais humanas e fiéis ao espírito que liberta de tudo o que é negativo nesta vida para que muitos ou todos tenham a alegria de viver sempre na felicidade e na paz.
Enfim, mais que certo é que não podemos sair desta convicção, não haverá paz no mundo se não houver paz entre as religiões.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Carta de Chesterton apaixonado

Querida Mildred:
Quando me levantei esta manhã, lavei cuidadosamente as minhas botas com água e engraxei o meu rosto. Então, vestindo o casaco com graciosa facilidade com os botões virados para as costas, eu desci para o café da manhã e alegremente coloquei café nas sardinhas e levei o meu chapéu ao fogo para fritar. Estas atividades irão dar-lhe uma ideia de como eu estou. A minha família, vendo-me sair de casa através da chaminé e colocar a grelha da lareira debaixo do braço, pensaram que alguma coisa preocupava o meu espírito. E era verdade.
Minha querida amiga, «estou apaixonado».
G. K. Chesterton
Nada que não permita que tenha sido um escritor de obras admiráveis. Converteu-se ao catolicismo. Um elemento da sua vida, que não o privou do seu sentido de humor muito apurado, aliás, provavelmente serviu para enriquecer ainda mais as suas obras, o que as torna ainda mais cobiçadas pelos leitores. As cartas privadas são extraordinárias e cheias de sentido de humor bem vincado e engraçado. Fica esta carta para que esbocemos um sorriso e nos dediquemos à procura de mais elementos sobre a obra deste grande inteletual inglês.
A sua fé confirma este dado simples, mas cheio de razão desconcertante para quem enche a boca com o ateísmo: «Se não houvesse Deus, não haveria nenhum ateu». E, provavelmente, tudo isto porque «Os mistérios de Deus são mais satisfatórios que as soluções humanas».

Um madeirense de quem se fala

Não conhecia o Padre João de Freitas Ferreira. Não importa nada esse detalhe. Importa sim, que muitos tenham sentiram a sua partida deste mundo e que tenham expressado palavras tão sentidas e elogiosas em relação a um nosso conterrâneo. Até o eurodeputado Paulo Ragel escreveu um texto muito interessante no Público de 22 de novembro de 2016, que podem abrir AQUI.
Dada a importância do seu contributo para a educação e formação cultural de tantas gerações, deixamos neste Banquete o registo. Que tenha um sono tranquilo na Paz de Deus.
Enfim, fica escrito para exemplo e testemunho: «O Padre Freitas foi Igreja, foi carisma, mas não quis ser poder. Preferiu ser serviço» (Paulo Ragel).
Acabo de ser informado/alertado que a Diocese do Funchal nem uma palavra sobre a morte deste sacerdote com uma história de vida humana e sacerdotal tão relevante. É triste, mas também é normal...

sábado, 26 de novembro de 2016

O sono dos anjos deve ser bom

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre, nunca prejundicando ninguém.
Amo todas as veredas por dentro das minhas dúvidas.
São quentes e boas porque ignoro se a morte não permite mais nenhum voo
Se deixam de existir a chuva, o vento, o sol e o tempo 
O ciclo de todas as estações.
Não me importo nada de sentir o abraço no colo
Que me aconchega entre as mãos que se prontificaram
Para serem a almofada onde adormeço tranquilo
O sono dos anjos.
JLR