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terça-feira, 4 de agosto de 2015

A emigração tem muito que se lhe diga

A RTP- Madeira, em reportagem do Clube de emigrantes Venezuelanos lá para os lados do mijadeiro em São Martinho, chamou ao microfone para botar palavra o seu inefável líder Olavo Manica com esta tirada: «Eu penso que a emigração nos enriquece». Tomara que sim. 
Mas pelo que vejo daquela emigração dos anos 60/70 não me parece que assim seja tanto. Alguns regressam iguais ou piores e com a mesma ideia de que a Madeira devia ser pobre e eles endinheirados. A Madeira devia ser católica ainda com mantilha na cabeça das mulheres e o terço na mão, mas as suas mulheres não. Esses «ricos emigrantes» vêm ansiando ver as paisagens da Madeira ainda a preto e branco como era quando eles de cá se piraram com vontade de enriquecer, não com sabedoria, mas com dinheiro. Pelo amor de Deus. A emigração é a última hipótese, o último recurso que sobrou a tanta gente que tem que sair para encontrar trabalho para ganhar dinheiro para matar a fome. A emigração é um caminho doloroso para as famílias que vão e para as que ficam. A emigração quando é um mal necessário é a evidência mais concreta para avaliarmos o quanto estamos mesmo pobres.
Pensamos só um pouco no drama desta onde de emigrantes que batem às portas da Europa, onde encontram líderes europeus energúmenos, que lhes chamam nomes feios e erguem muros altos para que a «praga» não entre. Viria dos seus países de origem toda esta gente arriscando a vida, se tivessem condições adequadas de desenvolvimento, segurança e paz? - Claro que não. É a pobreza, a insegurança, a falta de trabalho, a corrupção e todas as desgraças que a humanidade provoca a si própria que faz levantar os povos para a emigração.
A emigração enriquece quando as pessoas são bem recebidas nos países para onde foram, já vinham qualificadas ou então se procuram qualificar-se minimamente mediante as propostas para tal que os países eventualmente ofereçam. Mas se vão unicamente para encher os bolsos à conta de falcatruas e negócios escuros, a única riqueza que se pode falar é dos bolsos.   

Quando a rádio é uma escola


Uma das minhas primeiras paixões, foi sem sombra de dúvida a rádio. À luz da lanterna a petróleo escutava atentamente os parodiantes de Lisboa, as radionovelas, que delas guardo ainda na memória toda a aquela dicção perfeita das palavras bem pronunciadas e toda a graça que daí advinha para aquecer os dias sombrios e mergulhados na mais densa saudade inquietante. Aí na profundidade das cerejeiras ora cheias de folhas ora feitas pau seco a se prepararem para o novo ciclo dos frutos vermelhos, ouvia rádio nos tempos que sobravam entre o roçar da erva para alimentar as cabras e a lenha que se buscava pelas serras dentro para fazer o fogo debaixo das panelas para cozinhar os alimentos. Esse ambiente alegrava-se com rádio, que me ensinava que havia um mundo grande para se conhecer, havia música por todo o lado e não podia faltar pessoas importantes ligadas a todos os ramos da existência para partilharem o seu saber e a sua experiência. A Rádio foi para mim a minha primeira escola e logo depois os livros emprestados pela biblioteca itinerante da Gulbenkian. Bom, mas por tudo, um muito obrigado à Rádio Antena 1 por tudo o que fez despertar em mim e pelo que me sugeriu para eu procurar nas encostas do mundo e da vida. Parabéns à Antena 1 pelos seus 80 anos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A irresponsabilidade da Europa e a dureza das nossas sociedades

Eis uma possível legenda para a imagem seguinte do público de hoje:
o que vemos? - Vemos que sobra a fé para aliviar o drama. Que Deus lá no alto proteja todas as pessoas que são vítimas da loucura humana e se vêm obrigadas a ter que deixar o seu espaço para andar à deriva pelo mundo, onde o que tem de mais certo não parece ser mãos amigas que acolhem, mas dentes afiados para lhes devorar a carne e a alma.
A saga dos migrantes continua. As políticas cegas e as bacoradas de alguns líderes europeus nada resolvem. Não ouvem ninguém. Não se importam com as chamadas de atenção e os alertas do Papa Francisco. Limitam-se a empurrar para frente, a levantar muros e a fazer de conta que não têm responsabilidades nenhumas com a situação de miséria em que mergulharam os países de origem dos migrantes. O Editorial do Público de homem coloca o dedo na ferida e faz uma longa reportagem sobre este problema que deve deixar-nos a todos inquietos e preocupados face a este drama. Aconselho vivamente a leitura do Editorial do Público e todo o trabalho que a edição do dia 2 agosto nos dava conta. Podem ler o EDITORIAL AQUI e a REPORTAGEM TAMBÉM AQUI.
E como tudo isto nos deve fazer pensar: «Quem procura entrar na Europa são sobretudo populações vítimas de conflitos graves ou de políticas de pura pilhagem dos recursos dos respectivos países. Muitos deles tinham casa, emprego, bens, não andavam a pedir nas ruas de Trípoli ou nas planícies da Eritreia»… «Muitos destes migrantes também estão ligados ao velho continente por séculos de passado colonial e até por isso a Europa tem responsabilidades para com eles. Não pode lavar as mãos como Pilatos. Mas a quem não consiga ver além dos seus próprios interesses, talvez seja útil pensar nas consequências de tanta cegueira. Os muros acabam por ser derrubados. Mais cedo ou mais tarde».
Destaco o pronunciamento do pastor de Trevor Willmott da Igreja de Inglaterra, cuja paróquia inclui os 30 quilómetros de mar que separam os dois países, criticou a «falta de humanidade e compaixão» do Governo. «Tornámo-nos num mundo cada vez mais duro, e quando nos tornamos duros uns com os outros e esquecemos a nossa humanidade acabamos nestas situações de impasse», disse Willmott, numa entrevista ao semanário Observer.

sábado, 1 de agosto de 2015

Quando a teimosia cega o coração fecha-se à universalidade

A propósito de uma entrevista que o Padre Roberto concede ao Expresso. Aqui.
Caro padre Roberto:
não te conheço nem conheço as gentes de Canelas nem todas as outras pessoas que te apoiam nesta «armada» e também não conheço as autoridades envolvidas neste caso, especialmente, as da Diocese do Porto. Por aqui se vê que nada tenho que ver com o assunto. Vou apenas falar com base no que vai surgindo na comunicação social. Por aqui se pode também concluir que podes afirmar categoricamente: «se é assim, porque te metes onde não és chamado». É verdade. Nada tenho que ver com isto e nada devia dizer acerca disto. Porém, as coisas tomaram um rumo de teimosia tal que não deixa ninguém ficar indiferente.
Padre Roberto, quando somos nomeados para uma paróquia sabemos que vamos para ali a prazo, mesmo que nunca sejamos chamados para mudar ou não encontremos razões de ordem pastoral ou pessoal para mudar, estamos ali a prazo, porque tudo o que fazemos neste mundo tem um tempo, tem um prazo limitado se não for de uma forma, há uma forma que não nos perdoa, é incontornável, a morte.
Padre Roberto, parece que és um padre cheio de qualidades, onde chegas moves montanhas e as pessoas que te rodeiam estimam-te. Ainda bem que é assim e deves cultivar cada vez mais essas qualidades. Mas, parece que neste processo já metestes os pés pelas mãos. As denúncias falsas, contra um colega teu irmão no sacerdócio estão a deixaram-nos perplexos. Vieram as ser infundadas, melhor, eram falsas. Imaginas o que isso implica de sofrimento para esse outro padre, a sua família e a comunidade onde estava a paroquiar? Já pensastes o quanto uma denúncia dessas, sendo infundada, o quanto compromete a vida e o futuro dessa pessoa? - Espero não ter que ver daqui a dias a notícia de que isto não se passou de algo do género «chama-lhe antes que ela te chame».
Padre Roberto, até parece que tinhas todas as razões inicialmente para bateres o pé, mas o rumo que as coisas seguiram, revelam que te deixam mal e esta entrevista de auto defesa ao Expresso ainda se torna mais revelador.
Por isso, Padre Roberto, «larga o osso». Pega na bagagem das qualidades que pareces reunir e vai para outra. Para que serve esta teimosia? O que ganham todas as partes? Como ficará a Igreja de Canelas, a Diocese do Porto e toda a nova dinâmica e imagem pastoral da misericórdia encabeçada pelo Papa Francisco? – Muita gente está a sentir mal, incluindo eu que não sou muito dado a me deixar «adoecer» com questões de teimosias. Todo coração humano foi criado para ser livre e universal. Mas o coração de um Padre foi recriado para ser ainda mais livre e mais universal. Nada nos prende, tudo nos liberta para o mundo inteiro e para o além, o transcendente. Esta é a principal riqueza do sacerdócio ministerial.
Padre Roberto, o nosso mundo está cheio de coisas tão urgentes para serem feitas, larga-te disso e vai por esse mundo fora e abre o teu coração à universalidade. Garanto-te que serás mais feliz. 

Bispos divididos por causa das questões da família

Mas como não haveriam de estar divididos se lhes conhecemos como lidam com as questões fracturantes como estas nas suas respectivas Dioceses? – Ao conjunto dos bispos portugueses, falta-lhes a clarividência e a capacidade de síntese de um D. José Policarpo. Agora é que vemos como faz muita falta uma figura como a de D. José falecido o ano Passado.
Temos uma Conferência Episcopal pobre, é um conjunto de homens da Igreja que na sua maioria se consideram iluminados, eleitos para serem príncipes que pouco ou nada sabem da realidade concreta da vida dos nossos tempos. Neste âmbito da família não me admira nada que se mantenham assim impávidos e serenos perante o descalabro social.
Quanto à sua discordância em relação ao Papa Francisco. Manifesta que não aprenderam nada e que estamos perante uma «mudança» interessante cujo rumo está a ser marcado pelo Papa e que já não há volta a dar, mesmo que mantenham as suas pretensas posições retrógradas e anacrónicas. Ninguém trava a força transformadora do Espírito Santo. Aprendam com a história da Igreja. 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

SOMOS PADRES

Texto que o padre Tolentino Mendonça leu na Sé do Funchal, a propósito do jubileu de Bodas de Ouro do Sr. Bispo D. António Carrilho e vários sacerdotes que durante este ano de 2015 também celebram o seu jubileu de 25 e 50 anos de vida sacerdotal.  
Permita-me Senhor D. António que, saudando muito cordialmente os senhores bispos presentes, os reverendos colegas, as distintas autoridades, convidados e todos e cada um dos cristãos que enchem, nesta celebração, a nossa Catedral, dirija a Vossa Excelência Reverendíssima a primeira palavra.
Foi-me pedido que, em nome dos jubilados, expressasse os nossos sentimentos que só podem ser, antes de tudo, de congratulação e reconhecimento à Vossa pessoa, Senhor D. António. Como recorda a Presbyterorum Ordinis, a Ordem do presbiterado torna-nos “cooperadores da Ordem do episcopado para o desempenho perfeito da missão apostólica confiada por Cristo” (P.O. 2). É, portanto, na estreita comunhão consigo e com o múnus eclesial que Vossa Excelência Reverendíssima representa, que o nosso ministério encontra a sua razão e o seu sentido. Em nome de todos, queria dizer-lhe o quanto nos congratulamos pelas suas bodas de ouro sacerdotais, o quanto damos graças a Deus pelo modo como Ele tem frutificado em si e através de si, e o quanto agradecemos a generosidade fraterna de nos reunir a todos numa única celebração, onde a beleza da comunhão eclesial pôde exemplarmente brilhar. Estão aqui, presentes ou evocados, o Senhor D. Maurílio de Gouveia, que celebra os sessenta anos sacerdotais, os colegas religiosos e diocesanos que celebram setenta, cinquenta e vinte e cinco anos de ordenação, tanto os naturais da Madeira, como o conjunto de jubilados que pertence ao grupo de companheiros de curso de V. Ex.cia Reverendíssima.
Vários nomes são usados para descrever a vocação e a missão do padre no interior da comunidade eclesial. Nós que fomos ordenados há 70, 60, 50 ou 25 anos quem é que somos? Somos os presbíteros, nome que vem já referido no Novo Testamento, e que liga a nossa missão ao serviço das comunidades como “o mais velho” (o presbítero) e com especial enfoque na pregação do Evangelho de Deus, nosso “primeiro dever” (P.O. n.4). Mas a teologia católica adoptou também o termo sacerdote, e isso também somos. O que une e associa todos os baptizados é o sacerdócio de Jesus Cristo, o único sacerdote. Pelo sacerdócio ministerial ordenado o sacrifício espiritual dos fiéis consuma-se em união com o sacrifício de Cristo, em nome de toda a Igreja, até que o próprio Senhor venha.
Popularmente na Madeira chamam-se aos padres vigários e curas, termos muito expressivos em relação ao que o ministério ordenado significa. Porque Cristo é o único mediador, o único vigário, o padre é chamado a cultivar na sua vida “os mesmos sentimentos que estão em Cristo Jesus” (Fl 2,3), a centrar-se existencialmente nele, para testemunhar um amor no qual todos podem esperar. E, por isso, ele também é o cura, o cuidador, o agente comprometido da pastoral que se faz serviço às feridas e às esperanças dos homens e das mulheres de cada tempo.
Mas o nome por que somos mais chamados, o nome mais quotidiano, é também, porventura, o mais simples e o mais belo. É o nome “padre”, que quer dizer “pai”. Como acontece com os filhos, quando pensam ou se dirigem ao seu pai não são precisos mais nomes. Pai é uma palavra maior que qualquer nome próprio e que lhe traz uma iluminação funda, plena e inapagável. Basta dizer pai e está tudo dito. O afecto, a relação, o dom, e até aquilo que, tantas vezes, as palavras não conseguem dizer fica dito na palavra pai, ou na palavra padre.
Ordenados há 70, 50 ou 25 anos quem é que somos? Somos o António, o Maurílio, o Ângelo, o Damasceno, o Gil, o Bernardino, o Domingos, o Janela, o Armindo, o Manuel Augusto, o Manuel Vitorino, o Adérito, o Manuel Armando, o Manuel Couto, o Anastácio, o Paulo, o Bonifácio, o João Manuel, o Bernardino, o Zeferino, o Manuel, o Tolentino. Somos esses, mas somos apenas padres, apenas pais na fé que ajudam a crescer e crescem com o povo de Deus, procurando em tudo ser, como recorda a bela expressão de Carta de Paulo, “colaboradores da vossa alegria” (2 Cor 1,24). Rezem por nós. Muito obrigado.
José Tolentino Mendonça, Sé do Funchal, 28/07/2015

Humanidade nova faz um mundo novo

Comentário à missa deste domingo XVIII tempo comum, 2 agosto de 2015
A missa deste domingo segue a mesma temática do domingo passado. A abundância de Deus, que se manifesta sempre com um desejo enorme que cada pessoa encontre sempre o necessário para estar bem de saúde, alimentada convenientemente e acima de tudo que seja muito feliz. São estes os desejos de Deus para todos nós. Quando eles ainda não existem, devemos sentir que nos falta trabalhar mais intensamente para que a ninguém falta estas qualidades para a vida ser verdadeira vida.
A primeira leitura da missa deste domingo, recorda que Deus dá o necessário a cada um e "proíbe" juntar mais do que esse necessário, porque, efectivamente, ir além do necessário resulta sofrimento. Por um lado, emerge a tentação do "ter" em detrimento do "ser", a ganância marca o passo, a ambição desmedida torna-se regra de vida. Por outro, a sofreguidão do "ter" produz mais famintos e faz empobrecer populações inteiras. Os desequilíbrios do mundo a este nível são dramáticos e um escândalo que nos envergonha sobremaneira.
Por isso, não admira nada que a meia dúzia de ricos, fica cada vez mais rica à conta de uma enorme maioria cada vez mais pobre, esfomeada e mergulhada na pobreza, com alguns já no limiar da miséria. É grave que as políticas não estejam contra este estado de coisas.
Deus convida-nos a não nos deixarmos dominar pelo desejo descontrolado da posse dos bens, a libertarmos o nosso coração da ganância que nos torna escravos das coisas materiais, a não vivermos obcecados e angustiados com o futuro, a não colocarmos na conta bancária a nossa segurança e a nossa esperança. Só Deus e os valores que Ele nos apresenta, são a nossa segurança, só n'Ele devemos confiar, pois só Ele (e não os bens materiais) nos libertam e nos leva ao encontro da vida definitiva.
São Paulo apresenta-nos um apelo à vida nova. Isto é, cria um parâmetro sobre a nossa condição, "o homem novo". Este faz parte do ideal de Deus. O homem novo será todo aquele que integra a família de Deus, que não se conforma com a maldade, a injustiça, a exploração, a opressão, porque procura a verdade, o amor, a justiça, a partilha, o serviço. A humanidade nova pratica obras que se coadunam com a beleza, a bondade e a estética de Deus.
O homem novo, não está de forma nenhuma longe da misericórdia, da humildade, empenhado no bem para todos, com a maior das alegrias e simplicidade. O homem novo, sabe quais são e vive seriamente os valores de Deus. No Evangelho, Jesus recusa ser um simples mago, um prestidigitador, que faz coisas espectaculares (por exemplo, fazer cair do céu o maná).
O desejo de Deus para nós todos é manifestar a abundância da paz e da felicidade, por isso, estejamos atentos ao que a vida nos vai oferecendo e propondo para que possamos acolher o que nos faz falta para nos tornarmos em cada dia "humanidade nova" aptos a construirmos um mundo novo para todos.