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terça-feira, 23 de agosto de 2016

Corpo e alma reencontrados

O Blogue Banquete da Palavra fecha aqui por alguns dias para férias. Fiquem bem e se for o caso tenham umas férias felizes. Se voltam ao trabalho ou se continuam nele, fiquem bem e acolham sempre toda a actividade com amor e façam tudo pelo amor, porque «sem o amor o homem é apenas um cadáver em férias» (Erich Remarque).  
Chegou o momento em que se para no meio caminho
serve para sentir intensivamente a brisa que passa
refrescar o pensamento folha a folha
e deter-me sossegado sem pressas
em cada ideia conjugada na história da amizade.
Não sei nem quero saber de mais nada
das quezílias quotidianas antigas e presentes.
Só olho para a paisagem presente neste olhar
e de que serviria olhar para outro la do
se basta a hora e o momento retemperado
na meia encosta do sonho e na margem do mar.
Saboreemos esta dádiva que se chama férias
a paragem que os ritmos mudam e retemperam
o corpo abatido da correria temporal do ano
mais ainda o espírito misterioso que nos move.
Então tiro férias de mim que me fatigo
férias das dúvidas que me derrubam
da atenção crítica que me dá gozo
das ilusões que me fazem sorrir e enlouquecer
com os pés assentes na terra pois isso é breve.
E tudo isto sem fixação é apenas um pouco
na imensidão do universo e da existência
pois sendo tantas vezes ao ano repetidamente
também me custa e cansa.
José Luís Rodrigues

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O cartoon de uma santa e de um pecador

O cartoon é de José Alves, com o Presidente do Governo Miguel Albuquerque, crucificado, sendo ele o pecador imolado no alto da cruz após o calvário infernal do incêndio da semana passada. A secretária Regional da Inclusão, Rubina Leal, replica Santa Teresa do Menino Jesus segurando a cruz com o «pecador» crucificado. Justifica o Funchal Notícias que «por essa performance, e com a devida vénia ao Cristianismo, fazemos aqui esta alusão: o pecador é o crucificado Albuquerque e o “santo” é a santa Leal». Por fim, convida os seus leitores a tiraram as suas ilações fazendo referência a Fernando Pessoa: «Sentir? Sinta quem lê!».
Nos tempos de crise precisamos de humor e sentido crítico apurado. Mas convém não sair muito do razoável, se tivermos em conta que há crises que requerem urgentemente uma união de todos os cidadãos, de todas as entidades e instituições. Até porque há muita cinza no chão e cheiro a queimado por todo lado.
Não me choca o cartoon e fez-me rir porque achei graça. Mas, depois de pensar um pouco em Santa Teresa do Menino Jesus, na grandeza da sua pessoa e da densidade da sua mensagem, pareceu-me, que se excedia um pouco e que há críticas que não ajudam muito ou nada na união que muitos cidadãos responsáveis insistentemente têm apelado.
Mas, adiante e que nada nos perturbe o coração e a alma, para fazermos o que deve ser feito em prol do bem comum e da salvação da nossa casa comum, que entre nós se chama Madeira.
Aliás da pagela de onde se inspirou o cartoon, que reproduzimos aqui, há uma grande figura que nos convida a seguir determinados. Foi o que nos mandou o dizer de outra Santa Teresa, a de Ávila: «Nada te turbe, / .../ Sólo Dios basta». Para nós hoje, podemos ler à luz deste ditame, que nos desinibe e nos responsabiliza, de que «O proveito da alma não está em pensar muito, mas sim em amar muito». De resto, «a humildade é o cimento de todo este edifício». Assim, vamos sempre seguros que todos os bens da natureza são a outra parte da humanidade e, porque assim é, requer a união de todos à volta desta causa com todo o respeito uns pelos outros.

A nossa casa comum chama-se Madeira

A Madeira, a nossa Madeira, «a nossa Casa Comum», como belissimamente tem dito o professor João Batista, que a meu ver é uma das pessoas que se pode escutar com atenção em matéria de assuntos relacionados com as calamidades que têm assolado a nossa terra. Sabe do que fala, diz com paixão tudo o que sabe sobre a Madeira e aponta preocupado a urgência de mudança de comportamentos em relação à forma como lidamos com a natureza, a paisagem e o território que é a «nossa casa comum» (a Madeira). Caso não se faça essa urgente mudança de comportamentos «estamos na Madeira a prazo».
Face a isto e a tudo o que se tem passado nos últimos dias, onde vemos tanta falta de humildade, tanta desunião e alguma descoordenação e tanta gente a se promover à custa da catástrofe e a desgraça dos outros, digo e redigo e não me cansarei de dizer, a Madeira é demasiado importante para estar só e apenas na mão dos políticos ou de alguns grupos instalados na montanha da burocracia e dos privilégios. Cabe a todos os cidadãos deitar mãos à obra e construirmos uma Madeira onde a preocupação com o equilíbrio ambiental, a beleza da paisagem, o respeito pelas regras e o ordenamento do território, fazem parte dos comportamentos e opções de todos os cidadãos.
Tudo é demasiado sério e importante para estar só e apenas na mão de alguns. Ainda mais se considerarmos que muitos desses tais vivem especialmente cumprindo mandatos muito fixados nos seus interesses e da família partidária a que fazem parte.  
Não esqueçamos, a Madeira é demasiado importante para nos demitirmos da responsabilidade que compete a todos. Não deixemos por mãos alheias aquilo o que é de todos nós. 

A poesia está na rua

Isto é, passamos seguros pelo passo da vida e por entre sorrisos, saudações e apertos de mão, alguém remata com esta densidade e beleza. Obrigado poeta que encontrei na rua da Boa Viagem, ainda mais e precisamente numa das ruas da nossa cidade com este lindo nome…
«A vida tem prazer e tem dor
Ambos são dois mundos
A dor conta-se em segundos
O prazer conta-se em horas».

Infelizmente, fixei a quadra e não fixei o nome do poeta. Obrigado por esta dádiva logo pela manhã.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A insustentável leveza do ser humanidade

Quando somos barro mole nas mãos das forças da natureza.
Quando o coração os argumentos humanos calam ou quando geram confusão e descrédito.
Quando o excesso de fogo e água destroem a vida e os bens.
Quando não se crê na totalidade humana, porque emergem as máscaras, as vaidades, o ego diminuído ou excedido ao máximo.
Quando os legalismos e as tradições são o mais importante contra a morte, o dever da solidariedade, do luto e da amizade.
Quando há idolatria disseminada como erva daninha nas matas do coração que devia estar sempre moralmente cuidado e tratado com o remédio do amor.  
Quando Deus não é considerado como Senhor Criador da existência, marginalizado ou expulso para fora dos parâmetros da totalidade e da salvação.
Quando se elegem pessoas, instituições e bens como reis e senhores do sentido último da vida.
Quando o perdão não está presente. Porque confessar ou pedir perdão é visto como uma derrota, uma mágoa inesquecível e o rancor guia os passos quotidianos, porque se torna difícil lançá-lo para longe.
Quando as incapacidades e impotências não são reconhecidas e assumidas, porque se rejeita Deus, bastando o poder do prazer rápido e curto.
Quando a paz não acontece, a alegria está difícil, a santidade não é possível, a liberdade é libertinagem ou ação irresponsável, a solidão um drama sem sentido que conduz ao desespero…
Quando a vontade Deus não é reconhecida como necessária, basta hoje e amanhã, logo se verá.
Quando a maturidade não se realiza com simplicidade e humildade.
Quando o homem passar a reconhecer-se limitado e porque isso, se unir uns com os outros, profundamente crente que vencerá junto com os demais, desse modo aberto ao transcendente, verá que vencerá toda a sua fragilidade e encontrará mais felicidade hoje e amanhã.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

O que terá de especial o Imperador Carlos de Áustria?

Estou fulo com o que tem provocado na nossa o Imperador Carlos de Áustria, beatificado há alguns anos em altas parangonas por alguns responsáveis da nossa terra. Ele que residiu numa Quinta no Monte, agora reduzida também a cinzas, e que jaz luxuosamente na Igreja de Nossa Senhora do Monte. A abundante geração de filhos, netos e outros juntamente com mais alguns loucos religiosos e políticos da Madeira Nova, promoveram a beatificação do privilegiado Imperador Carlos de Áustria que os ventos da sorte e dos privilégios mundanos fizeram desembarcar na Madeira a 19 de Novembro de 1921.
O beato em causa fez render uma pipa de massa para que o Vaticano o reconhecesse como beato, que a única coisa que fez pela Madeira foi ter-se exilado luxuosamente neste lugar. As grandes qualidades do homem passam pela fertilidade, tinha uma família numerosa, que os vilões do monte se encarregaram de limpar e dar de comer. Participava diariamente na missa paroquial e no período de convalescença comungava devotamente e morreu como um anjo rodeado de mordomias numa quinta esplendorosa no Monte.
Apenas com isto fez-se um beato, quando exemplos destes havia e há paletes pela Madeira inteira. Só que este era imperador, os outros são vilões anónimos que só Deus se importava com eles e que a sua oração os altos dignatários não reconhecem como válida.
Nunca vi romarias, peregrinações ou uma movimentação da Madeira inteira e de fora dela à volta do Imperador Carlos de Áustria. Pensei que após a sua beatificação a Madeira e a Igreja da Madeira dessem uma volta de cento e oitenta graus, fazendo deste lugar um exemplo de verdadeira devoção, solidariedade e ajuda aos pobres. O que se viu foi um calendário cumprido, voltou ao descanso eterno as cinzas do Imperador debaixo do olhar admirado de Nossa Senhora do Monte, aquela mulher de Nazaré que cantou o seguinte no Magnificat: «Derrubou os poderosos de seus tronos * E exaltaram os humildes. Aos famintos encheu de bens * E aos ricos despediu de mãos vazias». Será que o este imperador foi um desses poderosos, despachado pelo sonho de Deus?
Mas agora volta o Imperador em força. Ouvi na televisão o Presidente do Governo que a Quinta do Imperador seria recuperada e que vamos ter na Madeira o Museu do Romantismo. A quinta em causa ardeu misteriosamente, mas a prioridade agora, dada a ansiedade dos madeirenses por um Museu do Romantismo, vai ser recuperada e lá vamos ter o que mais ansiamos neste momento.
Não pode ser a prioridade um museu, quando ainda á pessoas jogadas de um lado para outro, voltaram em força as histórias dramáticas de situações vividas pelos idosos e outros nos nossos hospitais que os incêndios agravaram. Há famílias que perderam tudo. Ainda se chora os mortos e se trata os feridos. Há uma anarquia quanto às ajudas. As autoridades não se entendem. A paisagem está negra como breu. A desordem é geral. As campanhas e disputas da politiquice rasca continuam por todo o lado, a ver quem chega primeiro e quem dá mais. Uma série de coisas que agravam a crise hoje e que nos colocam em sobressalto quanto ao futuro.
Por isso, sr. Presidente do Governo da Madeira deixe-se de romantismos e vamos ao que é prioritário, os habitantes da Madeira e todos os meios necessários para terem qualidade vida com a dignidade que têm direito.
Mais um museu do romantismo ou outra coisa qualquer que aí venha fora do âmbito das prioridades, é um péssimo sinal e revela o quanto anda a viver esta terra de romantismo que encegueira e esconde a verdadeira realidade de pobreza e miséria em que estamos mergulhados.  

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Senhora do Monte, estamos órfãos

É uma orfandade que vem não da tua proteção misteriosa no céu, mas das lacunas que a terra reduzida a cinzas oferece desolação, negritude e tristeza.
Os que deviam inspirar-nos confiança no futuro, semeando sobre a cinza, adubo que ajudasse a fertilidade, continuam debitando o vazio, o silêncio ensurdecedor e as ideias loucas, porque desnecessárias perante o estado de coisas que se vive neste momento. O presente é negro, mas o futuro também não parece vir a encontrar outra tonalidade.
Temos tanto povo triste. Outro tanto indiferente. E outro tanto mal educado que recusa qualquer mudança no que diz respeito aos comportamentos. Mas pior que isso é nos vermos entregues a autoridades que não dizem o que devem dizer e se o dizem, tragicamente, não dizem coisa com coisa. Esta orfandade dói o corpo e a alma.
Mas que raio de sorte foi esta que nos coube, que não apareça nem sequer um simples rasgo de pensamento, uma palavra que se diga certeira, uma opção que nos inspire confiança, que nos faça acreditar também nas coisas e nas pessoas deste mundo… Fico deveras inerte perante as cinzas, mas mais pasmado me vejo perante a tão confrangedora escassez de massa cinzenta nas autoridades que nos coube a má sorte de nos dar nestes tempos diferentes (porque preocupantes) que vivemos.
Bastava, para nos tranquilizar um pouco, que alguém dissesse seguramente, alto e bom som, tempos diferentes requerem comportamentos diferentes, para que tenhamos as consequências adequadas a esses comportamentos. Mas olha que nada aparece de novo, de diferente e audaz convicção que nos reanimasse na esperança com os pés bem seguros sobre o chão, mesmo que ele ainda se nos depare pintado de negro pela cinza.
Por isso, olho para o alto do pedestal da Senhora do Monte, a Nossa Nobre Padroeira, e rezo confiante, apesar do estado de alma meio zonzo e tomado de indiscritível desamparo, mas sabendo que Tu, Senhora do Monte estás aqui neste «círculo imenso», que digo como o diz o grande Padre António Vieira: «O círculo criado, que cerca o mundo, é o Céu; o círculo incriado e imenso, que cerca o Céu, é Deus; e o círculo imensíssimo que cercou a esse Deus imenso, é Maria». (Sermão de Nossa Senhora do Ó (1640), Pe. António Vieira).
Ou seja, O amparo nesta terra de orfandade, especialmente, vejo-o em Maria que cercou Deus, que é o círculo que cerca o mundo, e por isso o seu ventre é tão e ainda mais imenso. Além disso, como Deus não era circunferência, não podia ser cercado, mas a imensidão do ventre de Maria é tão grande que conseguiu cercar Deus e com Ele também nos cercou. Então sempre bastará que encontre forças para viver seguinte: «Comparai-me o mar com o dilúvio. O mar tem praias, porque tem limite; o dilúvio, porque era mar sem limite, não tinha praias: (...) Assim a imensidade de Deus — quanto a comparação o sofre. — Está a imensidade de Deus no mundo e fora do mundo; está em todo lugar e onde não há lugar; está dentro, sem se encerrar, e está fora, sem sair, porque sempre está em si mesmo» (Sermão de Nossa Senhora do Ó (1640), Pe. António Vieira).
Ó Senhora do Monte, rogai por nós… És o que nos resta de seguro.