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terça-feira, 24 de maio de 2016

Se não se desenvolvem as pessoas o pior faz negócio

A cidade está pejada ainda disto que a foto ilustra. Se existe, é porque, provavelmente, a clientela é abundante. Oxalá, segundo informações veiculadas na comunicação social, que a fasquia abundante de livros vendidos na feira do livro do Funchal 2016, vá esclarecendo os madeirenses para que não se deixem levar por este tipo de conversa.
A propósito disto lembrei-me de outras práticas que consistiam na utilização de galinhas pretas, gatos pretos, enxofre, alho e alecrim entre outros elementos que variam de pessoa para pessoa, de bruxa para bruxa, de lugar para lugar. Também eram variados os métodos que seriam distintos de lugar para lugar ou de circunstância para circunstância. As tesouras e as vassouras também têm uma carga supersticiosa muito grande. O dia 13 e se juntarmos a sexta feira 13 mais carga misteriosa ganha no imaginário das pessoas. Muitos dos azares quotidianos em cada um de nós sempre fazem recorrer a elementos misteriosos ou esotéricos. Cuidem-se.
Nada disto é original. Tal como os pagãos dos tempos antigos que, por medo, lançavam os seus primogénitos para o fogo aos pés da estátua de Baal, também ainda há quem acredite que nos devemos sacrificar para ser agradáveis a um deus. Nada mais errada e contra a dignidade. 
A falta de instrução ou o analfabetismo, a falta da luz elétrica espalhada pelos caminhos, a catequese e a Liturgia da Igreja Católica que toda ela era baseada no medo do fogo do inferno, a perseguição do demónio, o desconhecimento face aos fenómenos da natureza e a pobreza reúnem as condições necessárias para que a imaginação das pessoas inventem todo este ambiente terrível. Hoje nada disto existe e nada se justifica que as pessoas percam dinheiro e tempo com superstições, bruxarias e cantos de sereias absurdos. É tempo de crescer e deixar-se conduzir pela inteligência e pelos avanços civilizacionais que vamos tendo.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Duas afirmações curiosas

1. «De forma alguma está aqui em questão a importância do património religioso porque este também faz parte da nossa cultura muito embora não seja de todos nós, pois pertence ao património do Vaticano».
2. «Compreendo que este investimento tenha sido uma estratégia política de angariação de simpatias em especial daqueles que dominam o povo cuja a falta de sabedoria, em especial na gestão irracional do medo, é uma estratégia há muito implementada no culto religioso». 
No Dnotícias do Funchal hoje 23 de maio 2016, está este escrito da Patrícia Sumares: «Ufa! Afinal há mais cultura para além das capelinhas» (podem ler AQUI na íntegra). Chamou-me a atenção estas duas afirmações tão categóricas, que a meu ver carecem de fundamento. Não havendo fundamento, são infundadas e não correspondem à realidade. 
Sobre a primeira afirmação, é mais que óbvio que todo o património da Madeira pertence ao povo madeirense e particularmente às comunidades onde esse património está ao serviço. Se for dito que muito património está mal gerido e subaproveitado, corroboro com essa ideia e defendo que poderia ser mais bem gerido se tivéssemos católicos mais militantes, preocupados e interessados em avançar para diante e colocar a render (em termos de serviço ao bem comum) o que pertence à Igreja da Madeira. Também não se diga apenas que os católicos no geral são apenas os culpados dessa situação, há outros, especialmente, quem tem em cada momento histórico a responsabilidade de gerir esse património. O Vaticano não é dono de nenhum património na Madeira nem em nenhuma diocese do mundo. O património da Igreja em geral pertence à humanidade, particularmente, aquela humanidade que contribui para o manter e que dele de alguma forma pode servir-se.
A segunda afirmação defendida pela autora, também é infundada e é injusta face ao trabalho enorme que muita expressão religiosa vai fazendo para que as pessoas se libertem do medo e de todas as amarras deste mundo que aprisionam tanta gente à indignidade e pobreza. 
Tem razão se situar esta pastoral e catequese nalguns momentos da história da Igreja Católica, hoje não existe nenhuma pastoral e catequese que se baseie nesta ideia. Os medos hoje das populações são de outra ordem, mas a existir no domínio religioso, resulta da imensa ignorância e da falta de vontade em crescer e esclarecer-se, que muita gente hoje apresenta face à vida religiosa. Agora garanto-lhe que não existe na Igreja Católica nenhuma pastoral que se baseie no medo nem sequer do inferno que foi chão que já deu uvas.

sábado, 21 de maio de 2016

Do silêncio que nos fez

Par ao nosso fim de semana. Sejam felizes sempre sem prejudicar ninguém...
Quase como no livro da Sabedoria que diz:
"o silêncio envolvia todas as coisas
e a noite estava no meio do seu curso",
veio a voz criadora da carne e fez-se o verbo ser
- foi tudo quando o silêncio fecundou a luz
e os nossos olhos estavam dentro de uma sombra.

Veio a penumbra de uma mão cheia
do infinito do céu onde cintila um ponto
para nos conduzir na vertigem da noite
e no silêncio da fértil criação
nesse momento em que todo inteiro,
seguramente era eu crente e seguro
como um ofertório vivo no altar de uma mãe.
- porque, "o milagre é um gesto sagrado" (Wittgenstein).

Nisto vi que tudo se escreve letra à letra
no mistério azulado do céu
entre o insondável da terra
que me fez infinito e livre
para olhar destemido a curva da estrada
além o futuro florescido no amor eterno.
Deixem-me beber o silêncio.
José Luís Rodrigues

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Quando o amor liberta não há medo

O Victor Cunha Rego dizia com a sua clarividência extraordinária que as dores, os medos, as espontaneidades, os amores, os ódios são demasiado tímidos. Pretendo com isto reflectir um pouco sobre os medos que nos invadem quotidianamente e que, por vezes, podem coarctar as nossas acções para o bem e para o mal.
O medo é um sentimento terrível. E são tantos os medos que nós podemos alimentar todos os momentos da vida, mesmo que à partida confessemos que não temos medo de nada.
Os pais têm medo de perder os seus filhos, para a droga, para álcool e para a prostituição. Os filhos podem ter medo de perder o apoio dos pais. Os trabalhadores têm medo de perder o emprego e faltar-lhes o dinheiro suficiente para gastar no fim de cada mês. Os cidadãos têm medo de sair à rua porque a insegurança social é muito grande. Ninguém quer ser roubado, espoliado ou espancado. Quase todos têm medo de serem presos, mas por isso não deixam de infringir a lei. Há também o medo de se ver nas malhas da justiça, porque implica ter que lidar com gente pouco honesta.
A doença e a morte também são aspectos da condição humana que todos querem exorcizar e o medo que provocam é incalculável, o estado da medicina também não anima nada e o que se houve dizer dos lugares da saúde, provoca-nos, para além do medo natural da doença, um terror insuportável.
Outros, talvez não muito poucos, ainda terão medo de Deus. E quantos não terão medo do diabo e das bruxas? - Resumindo, todos têm medo de alguma coisa, a vida é assim mesmo. Para tudo há um remédio, o amor e se esse amor liberta, não haverá medos. Um exemplo prende-se com o medo de Deus. Para o vencer, basta que deixemos Jesus nos convencer que Deus é amor e tudo virá por acréscimo. 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

O mistério da grandeza de Deus em nós

Domingo da Trindade. Singelo comentário que pode servir a quem habitualmente vai à missa (e não só) no fim de semana...
Santo Tomás, no final do seu tratado sobre a Santíssima Trindade, fala-nos das missões divinas e da habitação das três Pessoas Divinas em toda alma justa. Ele dá-nos uma certa inteligência deste mistério recordando-nos que Deus está sempre presente em todas as coisas, especificando de que maneira especial está realmente nos justos e quais são os efeitos da Sua acção neles.
Conta-se que Santo Agostinho andava certo dia a passear na praia a meditar sobre este mistério da Santíssima Trindade: um Deus em três pessoas distintas... Enquanto caminhava, observou um menino que carregava um pequeníssimo balde com água. A criança ia até o mar, trazia a água e deitava-a dentro de um pequeno buraco que tinha feito. Após ver repetidas vezes o menino fazer a mesma coisa, resolveu interrogá-lo sobre o que pretendia. O menino, olhando-o, respondeu com simplicidade:
- quero colocar a água do mar neste buraco. Santo Agostinho sorriu e respondeu-lhe:
- mas tu não percebes que isso é impossível mesmo que trabalhes toda a vida? O mar é infinitamente grande. Jamais o irás conseguir colocar aí todo dentro desse pequeno buraco...
Então, novamente olhando para Santo Agostinho, o menino respondeu-lhe: - ora, é mais fácil a água do mar caber neste pequeno buraco do que o mistério da Santíssima Trindade ser entendido por um homem! É mais fácil colocar toda a água do mar aqui dentro deste buraco que o homem conseguir entender o mistério da Santíssima Trindade. O homem é infinitamente pequeno e Deus é infinitamente grande!
A Trindade ou Santíssima Trindade é a doutrina acolhida pela maioria das igrejas cristãs que professam a Deus único preconizado em três pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Para os seus defensores, é um dos dogmas centrais da fé cristã, e considerado um mistério.
É nesse mistério que acreditamos e é desse mistério que devemos dar testemunho. Este é um mistério mais para ser contemplado do que para ser dito ou mostrado. É um mistério inefável, próximo e distante ao mesmo tempo. E reconhecer isso não é fraqueza, mas abertura ao dom enorme que Deus é e que pode fazer da nossa vida uma realidade de bem, que se vivido em plenitude fará do mundo um lugar de paz e de felicidade para todos. Dêmos mais vida ao que somos e temos com a presença de Deus em nós!

Ignorar o pobre é desprezar a Deus

Os pobres no centro das preocupações da pastoral...
Na audiência-geral desta manhã (18/05/2016) na Praça de S. Pedro, no Vaticano, o Papa Francisco refletiu sobre pobreza e misericórdia a partir da parábola do rico avarento e do pobre Lázaro.
Na sua catequese Francisco afirmou que "A misericórdia de Deus está ligada à nossa misericórdia para com o próximo e quando não temos misericórdia para com os outros, a misericórdia de Deus não encontra espaço no nosso coração fechado".
Tomando a parábola do rico avarento e do pobre Lázaro o Papa lembrou como "o portão da casa do rico estava sempre fechado ao pobre, que ali jazia esfomeado e coberto de chagas. Ignorando Lázaro e negando-lhe até mesmo as sobras da sua mesa, o rico desprezou a Deus, segundo as conhecidas palavras de Jesus: 'Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a Mim que o deixastes de fazer'".
Deste modo - sustentou o Papa -  podemos afirmar que "ignorar o pobre é desprezar Deus" e chamou a atenção para o pormenor do nome:
"[Na Parábola] Há um pormenor  interessante: enquanto o nome do rico não é mencionado, o nome do pobre, Lázaro, que, em hebraico, significa 'Deus ajuda', repete-se cinco vezes. Assim Lázaro à porta é um apelo vivo feito ao rico para que se recorde de Deus, mas o rico não acolhe este apelo. Será condenado, não pelas suas riquezas, mas por não ter tido compaixão de Lázaro socorrendo-o", afirmou o Papa
A moral da história de Jesus vem de seguida por Jesus: "A segunda parte da parábola apresenta invertida a situação de ambos no além-túmulo: o pobre Lázaro aparece feliz no seio de Abraão, ao passo que o rico é atormentado. Agora o rico reconhece Lázaro e pede-lhe ajuda, enquanto que em vida fazia de conta que não o via. Antes negava-lhe as sobras da mesa, agora pede para lhe dar de beber um pouco de água. Mas, como explica Abraão, aquele portão de casa que, na terra, separava o rico do pobre, transformou-se num 'grande abismo', que é intransponível", concluiu o Papa Francisco.
No final pediu aos crentes para "contemplarem os pobres do Mundo" tornando-se sinais de misericórdia na sua vida porque "nesta parábola Jesus une a pobreza à misericórdia" e revela-nos "o mistério da salvação".
"Possamos nós, escutando este evangelho, em conjunto com todos os pobres do Mundo, cantar com Maria: 'Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens, e aos ricos despediu de mãos vazias'".
In Educris com CTV

Viver na rivalidade

Quanto melhor seria o mundo se nas artérias da vida escorresse também o sangue do respeito uns pelos outros...
Muita gente não sabe viver na rivalidade: com os rivais do seu grupo desportivo, com os atletas competidores, com colegas que trabalham na mesma empresa, com estudantes da mesma escola, etc. É gente que não sabe perder: que não tem a humildade de aceitar a derrota e reconhecer o valor dos outros, e que recorre a atitudes agressivas por palavras ou actos, como nos tem mostrado a televisão tantas vezes.
O exemplo que vou apresentar é uma lição extraordinária de humildade e de convivência na rivalidade. Muita gente conhece – talvez mesmo sem os ter ouvido – os dois magníficos tenores espanhóis Plácido Domingo e José Carreras. Plácido é madrileno e Carreras é catalão. Por razões políticas, tornaram-se inimigos. Contratados para cantarem em todo o mundo, exigiam sempre que o seu adversário não fosse contratado para a mesma actuação.
Em 1987, Carreras foi atingido por um inimigo terrível: uma leucemia. Foi horrível a luta que o obrigou a diversos tratamentos e a um transplante de medula. Teve de ir aos Estados Unidos da América mensalmente. A sua fortuna, embora elevada, esbateu-se rapidamente. Nesta fase de dificuldades financeiras, soube que havia sido criada em Madrid uma Fundação para amparar os doentes com leucemia. Com a ajuda dessa Fundação, Carreras venceu e voltou a cantar. Com o produto que começou a ganhar fez-se sócio da referida Fundação. Ao ler os estatutos, descobriu que o fundador e presidente dessa Fundação era Plácido Domingo. Soube também que o seu adversário criara a Fundação para ajudá-lo. Plácido manteve-se no anonimato para não humilhar o cantor rival.
Foi profundamente comovente o encontro dos dois. Carreras surpreendeu Plácido Domingo num concerto em Madrid e interrompeu a actuação. Subiu ao palco, ajoelhou-se a seus pés, pediu-lhe desculpas e agradeceu-lhe publicamente. Plácido ajudou-o a levantar-se e, num forte abraço, selaram o início de uma grande amizade, que permitiu que cantassem no mesmo concerto juntamente.
Mais tarde, uma jornalista perguntou a Plácido a razão por que criara aquela Fundação para um adversário. Plácido respondeu: “Porque uma voz como aquela não podia perder-se”.
Bela história de nobreza exemplar para todos aqueles que não reconhecem o valor dos adversários e não procuram a reconciliação.
Mário Salgueirinho