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sábado, 30 de abril de 2016

Regresso

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre sem prejudicar ninguém.
Se me compenetro solitário
sobre um silêncio de uma mesa
regresso ao momento daquele
sorriso enrugado pelo tempo
e pelo trabalho incansável da terra
onde aquele avô semeava pão
por Deus e à sua conta
que as outras mãos femininas
da avó preparavam antes do encontro
naquele altar sagrado e divino
sobre a mesa da ceia eucarística
entre irmãos que degustavam
o convívio da alma daquela casa.

Pois se regresso a esse mundo antigo
quase que choro sentida uma saudade
daquele olhar miudinho encostado
ao bordão da esperança
incensada pelo fumo claro e aromático
por entre os dedos acastanhados
pelos cigarros Santa Maria
que nos valia a alegria nos portais das casas
sentados sobre as pedras rudes e vivas
do basalto irregular no cimo das paredes
nas tardes de domingo.

O poema que me transporta à infância
por mais que a ele regresse
nunca nele transparece
toda a densidade
que vi naqueles rostos harmoniosos
de uma gente que a terra segurou ao chão
eternamente neste pobre coração.
José Luís Rodrigues

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Onde é que isto vai parar?

Manchete do Dnotícias, 29 de abril de 2016
Tenho sérias dúvidas quanto a esta iniciativa. Não compreendo que um serviço público tenha que prestar a conta a cada cidadão que dele se sirva, quando a vocação única desse organismo é estar ao serviço do cidadão. Que o faça em termos gerais, muito bem, deve fazê-lo em nome da transparência democrática, podendo até fazê-lo quanto ao gasto que é feito em média por cada cidadão que dele usufrua.
Mas a ser feito a cada cidadão com cabeçalho a apresentar o seu nome, morada e outros, não me parece boa política. Aqui temos um mau exemplo e pode fazer suscitar os piores sentimentos de uns cidadãos em relação a outros. Uns mais gastadores, outros menos, uns merecerão e outros não. Os ciúmes, invejas e revoltas de uns contra os outros não tardarão.
Os serviços públicos tendencialmente gratuitos são pagos por todos os contribuintes para que tal serviço esteja para todos os cidadãos. Esta é uma solidariedade organizada que merece ser respeitada e que ninguém tem o direito de pôr em causa. Estes serviços são universais e ponto final. Ainda mais se falamos nos serviços respeitantes à saúde.
Não venham agora com medidas avulso prejudiciais para os bons sentimentos dos cidadãos, que há muito tempo compreenderam que os serviços públicos de saúde são pagos por todos nós e que funcionam o mais universal possível. Mais ainda não podem em nome de algo que não sabemos o quê, implementar medidas deste género para esconder a anarquia em que mergulhou o Serviço Regional de Saúde e os disparates levados a cabo pelos irresponsáveis que no governo e nos hospitais andaram a fazer durante os últimos anos.
Mas, se for para contabilizar tudo e escarrapachar a conta ao cidadão individualmente, então que se faça em tudo e com todos os serviços públicos. Também devem os cidadãos apresentar a conta ao Estado pelas demoras infindáveis quando solicitam o atendimento dos diversos serviços, especialmente, as horas infindáveis que levam para atender uma pessoa nas urgências dos hospitais. Que os prejudicados façam as contas das horas que perdem nessas demoras (tempo é dinheiro, lembram-se?) tanto as vítimas como os seus acompanhantes. Que sejam apresentadas todas as contas dos prejuízos que os serviços tantas vezes fazem acontecer porque não cumprem a tempo e horas o que lhes foi solicitado.
Parece que é melhor estarem quietos e não levantem precedentes patéticos para que não surjam dissabores graves para quem está à frente dos balcões a atender os cidadãos, porque senão é caso para perguntarmos, onde é que isto vai parar?   

O Paráclito

Comentário para a missa deste domingo VI da Páscoa. Servem para quem habitualmente vai à igreja e não só.
O Paráclito é o defensor. O advogado de defesa se preferimos um conceito mais próximo dos nossos dias. É este mistério silencioso que nos acompanha desde sempre. Realidade de amor, do amor de Deus. E tudo o que é do amor é misterioso, carregado de silêncio, mas criativo e aberto ao assombro da vida no encontro com os outros.
Nos tempos da vida prática de Jesus alguns julgamentos eram realizados do seguinte modo. Reuniam uma grande assembleia para julgar alguma pessoa que tivesse cometido algum crime. O juiz que presidia ao julgamento em determinado momento perguntava a assembleia se haveria alguém disposto a defender o criminoso, se alguém se levantasse, saía do seu lugar e colocava-se ao lado do réu, esta pessoa assumia a sua defesa, por isso, recebia a designação de Paráclito.
Jesus, ao falar do Espírito Santo, apresentando-o como defensor dos seus discípulos, pegou na figura do Paráclito, sobejamente conhecido por todos, para ensinar o que seria o Espírito Santo, o defensor de todos os que assumissem a missão do anúncio do Reino de Jesus. Este é o único Espírito que salva e que pode dar garantias de futuro. Nada nos deve demover desta procura.
O Espírito de Deus é um caminho de salvação que nos garante uma possibilidade de encontro para sermos felizes e ganharmos coragem para defender com tenacidade as causas em que nos envolvemos. Então, se muitas coisas falham, é porque nos falta o Espírito que nos remeta para o interior, porque de exterioridades estamos mais que saturados, para que aí nos encontremos para buscar o essencial que nos leve ao encontro com os outros, isto é, todos aqueles que Deus nos coloca diante da vida para realizarmos o amor na «luta» pela justiça e pelo bem comum.
Que o Espírito de Deus nos faça sempre novos na criatividade que o amor em nós sempre proporciona. Pois, que nos livre do egoísmo, da ganância de que pode ser possível sermos gente sem mais ninguém e que a luz do coração nos revele sempre sabedoria para levarmos à prática na relação com os outros o alerta de Saint-Exupéry: «Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos». Deixemos então que o que somos e o que realizamos pelas tarefas do dia a dia sejam guiadas por essa realidade interior, mesmo que cheia de mistério, mas se tomada como essencial, condimenta o nosso mundo com a grandeza da felicidade e do bem para todos.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Para arrancar um sorriso hoje e todos os dias

Hoje dizem que é o dia mundial do sorriso. Então porque estou vivo sorriu hoje e todos os dias enquanto a vida permitir que essa dádiva seja possível. Porque:
Nada te perturbe, Nada te espante,
Tudo passa, Deus não muda,
A paciência tudo alcança;
Quem a Deus tem, Nada lhe falta:
Só Deus basta.

Eleva o pensamento, Ao céu sobe,
Por nada te angusties, Nada te perturbe.
A Jesus Cristo segue, Com grande entrega,
E, venha o que vier, Nada te espante.
Vês a glória do mundo? É glória vã;
Nada tem de estável, Tudo passa.

Deseje às coisas celestes, Que sempre duram;
Fiel e rico em promessas, Deus não muda.
Ama-o como merece, Bondade Imensa;
Quem a Deus tem, Mesmo que passe por momentos difíceis;
Sendo Deus o seu tesouro, Nada lhe falta.
SÓ DEUS BASTA!
Santa Tereza D'Ávila 

Valorizar tudo o que temos agora

O que é mais dramático nesta vida é precisamente, nos agarrarmos tanto a ela como se fossemos eternos neste mundo. Não há garantia nenhuma quanto a isso. Mas disfarçamos, para que essa verdade nunca nos convença. Por isso, sofremos muito, choramos muito quando acontecem as perdas. E porque as perdemos, fazemos com que elas tenham sido e sejam o mais importante do mundo para nós, eram indispensáveis e sempre são boas depois de já não as termos. É uma certa hipocrisia compensatória que vai preenchendo o vazio e a saudade que tais perdas sempre vão deixando. O que se diz dos mortos é bem revelador. O espírito dos mortos deve rir a bandeiras despregadas. É pena que não possamos ter essa visão, que nos poria em sentido, face à figura triste que tantas vezes fazemos.
São Paulo é bem claro quanto ao que devia orientar o pensamento e a conduta de cada um de nós enquanto nos é permitido andarmos por aqui, para que fossemos capazes de dar mais valor o que temos agora e com quem estamos agora. Diz assim, o maior autor de epístolas bíblico: «Não olhamos para as coisas visíveis, mas para as invisíveis, porque as visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas» (2 Cor 4, 18). Um pensamento brilhante e que nos deveria convencer de que a realidade daqui é sempre a prazo, com dores e prazeres, com esperança e desesperança, com amor e desamor, com mentira e verdade, com paz e guerra, com ganhos e perdas… Aliás, com tudo o que faz parte deste mundo, que sempre faz manifestar mais o que miserável em detrimento do que é mais belo e glorioso.
Neste sentido, falta-nos compreender que esta vida, precisa que paremos e que passemos a usar mais cabeça conjugada com a riqueza do coração para que cada dia que passa, sejamos gente ao lado de gente, pessoas com alma... Não precisamos de ser sempre materialistas nem muito menos sempre espiritualistas ou espirituais. O mundo não se faz com materialistas e espiritualistas, esse dualismo não serve o mundo nem faz bem à vida. Faz-se a vida, a nossa vida entre uma coisa e outra, que se liga por um fosso, para o qual não temos explicação. Estamos aí nesse fosse misterioso, sem explicação, o que nos vai ajudar a gostarmos muito deste mundo, convencidos que estamos a prazo nesta estadia por aqui.
Assim sendo, estou seguro que podemos começar a valorizar mais as coisas e as pessoas agora e não apenas depois quando as perdemos.  

terça-feira, 26 de abril de 2016

Mensagem do Papa Francisco: Ser Feliz

A felicidade é o maior bem que Deus nos concede. O caminho cristão é um modo de ser feliz. A vida não teria sabor se assenta numa ninharia e se está resumida ao puro consumo. A lógica dos bens materiais não realiza ninguém e apenas ocupa o coração, mas não dá resposta ao sentido da vida.
As eternas questões que acompanham a natureza humana – Donde viemos?; o que somos? E para onde vamos?... – Não estão em pacote nas prateleiras bem recheadas dos nossos supermercados.
Como fundamento para proclamar que o ser cristão equivale a ser feliz. O Anjo quando anuncia a Maria, que Ela era bendita diante de Deus, e, por isso, tinha sido eleita para ser a mãe do salvador. As palavras são as seguintes: «Alegra-te, cheia de graça!...» (Lc 1, 28). A resposta de Maria também será exemplar, porque nos ensina profundamente como a fé só faz sentido porque é mediação de felicidade. As suas palavras, são o som da riqueza espiritual alguma vez pronunciadas. Escutemos esse ressoar antigo, mas sempre muito actual: «A minha alma proclama a grandeza do Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador,...» (Lc 1, 46s). A densidade desta resposta à proposta de Deus fala por si mesma. O Papa Francisco com a seguinte mensagem convocando-nos para o desafio «ser feliz!», diz bem que pode ser possível, basta que cada um de nós se deixe guiar pela força do «querer é poder»...

Podes ter defeitos, estar ansioso e viver irritado algumas vezes, mas não te esqueças que a tua vida é a maior empresa do mundo.
Só tu podes evitar que ela vá em decadência.
Há muitos que te apreciam, admiram e te querem.
Gostaria que recordasses que ser feliz, não é ter um céu sem tempestades, caminho sem acidentes, trabalhos sem fadiga, relacionamentos sem decepções.
Ser feliz é encontrar força no perdão, esperança nas batalhas, segurança no palco do medo, amor nos desencontros.
Ser feliz não é apenas valorizar o sorriso, mas também refletir sobre a tristeza.
Não é apenas comemorar o sucesso, mas aprender lições nos fracassos.
Não é apenas ter alegria com os aplausos, mas ter alegria no anonimato.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver a vida, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz não é uma fatalidade do destino, mas uma conquista de quem sabe viajar para dentro do seu próprio ser.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar ator da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no longínquo de nossa alma.
É agradecer a Deus cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um “não”.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que seja injusta.
É beijar os filhos, mimar aos pais, ter momentos poéticos com os amigos, mesmo que eles nos magoem.
Ser feliz é deixar viver a criança livre, alegre e simples, que vive dentro de cada um de nós.
É ter maturidade para dizer ‘enganei-me’.
É ter a ousadia para dizer ‘perdoa-me’.
É ter sensibilidade para expressar ‘preciso de ti’.
É ter capacidade de dizer ‘amo-te’.
Que tua vida se torne um jardim de oportunidades para ser feliz…
Que nas tuas primaveras sejas amante da alegria.
Que nos teus invernos sejas amigo da sabedoria.
E que quando te enganares no caminho, comeces tudo de novo.
Pois assim serás mais apaixonado pela vida.
E podes facilmente encontrar novamente que ser feliz não é ter uma vida perfeita.
Mas usar as lágrimas para regar a tolerância.
Usar as perdas para refinar a paciência.
Usar as falhas para esculpir a serenidade.
Usar a dor para lapidar o prazer.
Usar os obstáculos para abrir as janelas da inteligência.
Nunca desistas….
Nunca desistas das pessoas que amas.
Nunca desistas de ser feliz, pois a vida é um espectáculo imperdível!

Eduardo Lourenço o senhor pensamento

Um diálogo com o pensador Eduardo Lourenço e a jornalista Fátima Campos Ferreira gravado no Centro de Arte Contemporânea da Fundação Calouste Gulbenkian. Vários foram os temas que por ali perpassaram: o silêncio, o mundo em geral hoje, o pensamento, a Europa, o regresso à infância, a adolescência, a juventude, o nosso país (a sua história, o presente e futuro), a perda, o que somos, para onde vamos, para que estamos, a morte... Tudo tão excelente, por isso, um diálogo imperdível.