Convite a quem nos visita

Sábado, 25 de Maio de 2013

A desilusão

Uma pequena coisa em poesia para ajuda no fim de semana...
Entre uma subida de alegria expectante
Pode fazer-se um passo leve de desânimo
Quando se vê um rosto que se ansiava numa tarde.
Mas disse depois não quero beber a taça
Do vinho novo nesta paz que diz a colina do sol.
Agora fico-me nesta perda de não saber
O que foi o pensamento que a alegria moldou
Nos campos verdes da serenidade
Quando no sonho as flores disseram
Toda a certeza da esperança.
Não quero... Não digo da desilusão
O sofrimento que bate do vazio
Quando o som do vento penetrou os ossos
Com o frio húmido desta certeza palpitante
Que desejei na hora daquela festa.
E há desilusão porque alguém fez ilusão
Coisa no vazio à porta do nada.
José Luís Rodrigues

Sexta-feira, 24 de Maio de 2013

A Santíssima Trindade


Mesa da palavra
Comentário à Missa do próximo domingo
26 de Maio de 2013
Santo Tomás, no final de seu tratado sobre a Santíssima Trindade, fala-nos das missões divinas e da habitação das três Pessoas Divinas em toda alma justa. Ele dá-nos uma certa inteligência deste mistério recordando-nos que Deus está sempre presente em todas as coisas, especificando de que maneira especial está realmente nos justos e quais são os efeitos da Sua acção neles. 
Conta-se que Santo Agostinho andava certo dia a passear na praia a meditar sobre este mistério da Santíssima Trindade: um Deus em três pessoas distintas... Enquanto caminhava, observou um menino que carregava um pequeníssimo balde com água. A criança ia até o mar, trazia a água e deitava-a dentro de um pequeno buraco que tinha feito. Após ver repetidas vezes o menino fazer a mesma coisa, resolveu interrogá-lo sobre o que pretendia. O menino, olhando-o, respondeu com simplicidade: - quero colocar a água do mar neste buraco. Santo Agostinho sorriu e respondeu-lhe: - mas tu não percebes que isso é impossível mesmo que trabalhes toda a vida? O mar é infinitamente grande. Jamais o irás conseguir colocar aí todo dentro desse pequeno buraco... Então, novamente olhando para Santo Agostinho, o menino respondeu-lhe: - ora, é mais fácil a água do mar caber neste pequeno buraco do que o mistério da Santíssima Trindade ser entendido por um homem!. É mais fácil colocar toda a água do mar aqui dentro deste buraco que o homem conseguir entender o mistério da Santíssima Trindade. 
O homem é infinitamente pequeno e Deus é infinitamente grande! A Trindade ou Santíssima Trindade é a doutrina acolhida pela maioria das igrejas cristãs que professam a Deus único preconizado em três pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Para os seus defensores, é um dos dogmas centrais da fé cristã, e considerado um mistério. 
É nesse mistério que acreditamos e é desse mistério que devemos dar testemunho. Este é um mistério mais para ser contemplado do que para ser dito ou mostrado. É um mistério inefável, próximo e distante ao mesmo tempo. E reconhecer isso não é fraqueza, mas abertura ao dom que Deus é e que pode fazer da nossa vida uma realidade de bem, que se vivido em plenitude fará do mundo um lugar de paz e de felicidade para todos.  Dêmos mais vida ao que somos e temos com a presença de Deus em nós!

Quinta-feira, 23 de Maio de 2013

A crise e o capitalismo selvagem segundo o Papa Francisco

Dada a oportunidade, não podia deixar de salientar aqui a importância da denúncia do Papa Francisco sobre as consequências do capitalismo selvagem. Um capitalismo selvagem que a humanidade viveu como se fosse já o paraíso na terra. Pois, era o tempo dos máximos dos máximos, ganhar pouco era miserabilismo, ter todos os bens materiais possíveis era a felicidade, gozar a vida o quanto mais e melhor possível era a realização pessoal mais adequada. Uma festa enorme carregada de ilusões que nos conduziu a esta desgraça da crise.
A crise, onde se sentou no trono o desemprego. Os mínimos dos mínimos é melhor que nada. Daí que se admire e se exalte alguém que tem a ousadia de criar o mínimo, porque é sempre melhor que nada.
Não é aceitável nem uma nem outra mentalidade. É condenável a mentalidade do capitalismo que não olha a meios para conseguir os fins, mesmo que para tal tenha que explorar ao máximo em função dos lucros e do bem estar de meia dúzia de privilegiados. As pessoas e a natureza, pouco ou nada contam e quando contam será para render ao máximo em função do bem estar desses alguns. A outra mentalidade que está a emergir, contenta-se com a exploração mesmo que a outro nível e teremos que aceitar que um dos países intervencionados pela troika, como é o nosso caso, apresente o maior índice de vendas de carros topo de gama no grupo dos países onde manda a troika. Inaceitável.
A maioria tem que se contentar com os mínimos, enquanto outra minoria mesmo que explore, deve ser exaltada, porque cria algum emprego, vende alguma coisa (mesmo que sejam camisolas). Tudo ao mínimo dos mínimos porque em tempos de miséria sempre é melhor ter alguma coisita, quando há bem pouco tempo se achava que nenhuma família vivia com o salário mínimo, agora já vive. Este volte face consoante as modas ou os contextos sociais, políticos e económicos são inaceitáveis e revelam as várias faces do mesmo capitalismo selvagem.
O Papa deixou duras críticas ao «capitalismo selvagem» durante uma visita à casa «Dom de Maria», dirigida pelas religiosas de Madre Teresa de Calcutá, que acolhe pessoas necessitadas, no Vaticano. Vejamos, «um capitalismo selvagem ensinou a lógica do lucro a qualquer custo, de dar algo a fim de receber, da exploração sem pensar nas pessoas ... e vemos os resultados na crise que estamos enfrentando», disse o papa.
A visita, que decorreu na tarde de terça-feira, visou assinalar o 25.º aniversário da entrega da gestão desta casa de acolhimento a Madre Teresa por João Paulo II.
Neste âmbito o Papa Francisco elogiou a hospitalidade «sem distinção de nacionalidade ou religião» que se vive na instituição, pedindo que se recupere o «sentido do dom», da gratuidade e da solidariedade.
Com olhos postos na tragédia do mundo, o Papa Francisco, releva que «na fronteira entre Vaticano e Itália, esta casa é um forte apelo a todos nós, à Igreja, à Cidade de Roma, a ser sempre mais família, abertos ao acolhimento, à atenção e à fraternidade».
Como que desejando e propondo uma alternativa ao capitalismo selvagem que conduziu à desgraça dos povos apresenta o seguinte: «já a palavra 'dom' define a identidade desta casa – pois doa acolhimento, apoio material e espiritual. Seus hóspedes, provenientes de todo o mundo, também são um dom para esta Casa e para a Igreja: vocês nos dizem que amar a Deus e ao próximo não é algo de abstrato, mas de profundamente concreto. Vocês doam a possibilidade aos que aqui trabalham de servir Jesus em quem está em dificuldade, em quem precisa de ajuda. Todos devemos recuperar o sentido do dom, da gratuidade e da solidariedade. Um capitalismo selvagem ensinou a lógica do lucro a todo custo, do dar para obter, da exploração sem olhar para as pessoas.... e os resultados nós vemos na crise que estamos vivendo. A música desta Casa é o amor».
Por fim, a última característica, se qualifica como um dom «de Maria». Maria de Nazaré, fez da sua existência um incessante e precioso dom a Deus. «Maria é um exemplo e um estímulo para aqueles que vivem nesta Casa, e para todos nós, a viver a caridade para com o próximo não como uma espécie de dever social, mas partindo do amor de Deus, da caridade de Deus». Que o Papa Francisco seja uma inspiração para os líderes mundiais, para que segundo a sua mensagem se entreguem à prática de políticas que defendam os povos, as famílias a se reconstruírem com dignidade. Que em nenhum contexto fiquemos satisfeitos com os mínimos dos mínimos, porque se assim for não faltará muito para se ouvir louvores à pobreza e ao miserabilismo. Ambos «filhos legítimos» do capitalismo selvagem em todos os tempos e contextos.

Quarta-feira, 22 de Maio de 2013

O que sou e o que posso ser quando digo Pai-Nosso

Porque pode ser-vos útil, partilho convosco uma reflexão que realizei para um trabalho pastoral sobre uma oração que sempre nos acompanha ao longo da vida e que pode fazer parte de todos os momentos, a oração do Pai-Nosso. Na alegria esta oração ajuda-nos a darmos graças. Na tristeza e no desânimo ajuda-nos a retemperar as forças e a encontrarmos luz para seguir em frente. Na doença e na morte convida à esperança e à cura espiritual. Nos conflitos a serenar e a encontrar a paz pela força do perdão. Na desordem do mundo a encontrar equilíbrio e a certeza que Deus é maior do que tudo. Na relação com a natureza a louvar o dom que cada planta e cada animal por mais insignificantes que sejam são vestígios do poder criador de Deus. E mais e mais momentos que cada pessoa sempre encontra em cada dia onde decorre o encontro com o que somos e o que desejamos ser como alimento de que a vida pode ser uma felicidade quando sabemos conjugar a oração com as subidas e descidas nas montanhas da vida.
Na oração do Pai-Nosso estão contidas todas as coisas que se devem desejar e todas aquelas de que se deve fugir. Entre as mais desejadas estão as que se amam mais, isto é, DEUS. Por isso, a primeira que pedimos é a glória de Deus, dizendo: «santificado seja o Vosso Nome».
A Deus, fazemos três pedidos:
1) É o de poder alcançar a vida eterna, quando dizemos: «Venha a nós o Vosso Reino».
2) É para que façamos a vontade e realizemos a justiça de Deus, e pedimos isso quando dizemos: «seja feita a Vossa Vontade».
3) É para que se realizem as coisas necessárias à vida, e pedimos isso quando dizemos: «o pão nosso de cada dia nos dai hoje».
A estes três pedidos Jesus alude quando diz sobre o primeiro: «procurai antes de mais o Reino de Deus»; sobre o segundo: «a sua justiça», e sobre o terceiro: «e tudo o resto vos será dado por acréscimo» (Mt 6, 33).
Das coisas a evitar e das quais devemos escapar são aquelas contrárias ao bem. E o bem que devemos desejar é sempre o mais elevado. O primeiro é a glória de Deus. E nenhum mal é contrário a ela porque resulta quer do bem quer do mal: do mal enquanto Deus o rejeita, do bem porque o premeia. O segundo, é a vida eterna, e este é contrário ao pecado, porque ela é perdida com o pecado. Para o remover dizemos: «perdoai-nos as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos tem ofendido». O terceiro bem são a justiça e as boas obras, e a este bem são contrárias as tentações, porque elas impedem-nos de fazer o bem. Para remover este mal pedimos: «não nos deixeis cair em tentação». O quarto bem são as coisas necessárias à vida. Às quais se opõem as adversidades e as tribulações. Para remover pedimos: «livrai-nos do mal. Ámen».

Terça-feira, 21 de Maio de 2013

Conclusões da reunião do Conselho de Estado

Como habitualmente estivemos atentos às notícias sobre o que se vai passando e como não podia deixar de ser após grande expectativa na comunicação social sobre a altíssima reunião do Conselho de Estado, tomamos conta das conclusões e das reflexões que produziram os eminentes conselheiros do nosso país. Não vale a pena trazer aqui à conversa o que foi concluído. Uma infinidade de blablás que nos deixa perplexos. Estão voltados para a Europa, como se já não houvesse país ou não existisse um povo por estas bandas que precisa de ser salvo.
Agora, reparemos bem na fotografia que acompanha este texto e nas pessoas que compõem este eminentíssimo Conselho de Estado. Uma tragédia grega divertida de nulidades que não nos mereciam atenção nenhuma se não nos custasse muito caro alimentar este bando do reumático.
Se nos concentramos na fotografia que saiu deste Conselho de Estado, chegamos logo à conclusão, o que seria de nós se não fosse esta gente. Uma grande parte desta gente vive à pala do Orçamento de Estado com pensões de reforma luxuosas e insultuosas em relação à maioria dos portugueses que faz um enorme esforço mensalmente para cumprir com as suas obrigações e alimentar a sua família. Muitos deles acumulam rendimentos obscenos, em duplicado alguns deles, que bradam aos céus nestes tempos de penúria para a maioria do povo português.
Esta gente não tem vergonha e à cabeça está o Presidente da República, que legitima uma austeridade desumana e não se deixa afectar nada por isso. Este Conselho de Estado custa os olhos da cara ao país, pelo que se vai vendo é uma estrutura do Estado perfeitamente inútil e nestes tempos difíceis irritante porque nada diz e passeia-se em altas bombas e rodeia-se do maior dos luxos.
Não há um laivo de exemplo quanto a sacrifícios. Ninguém recusa nada, antes, luta para ter o que acha que tem direito, porque são «direitos adquiridos» ou estão bafejados pelo crivo da lei, como se não fossemos todos cidadãos de plenos direitos e deveres face à Constituição, que eles querem destruir. Enquanto andarmos assim com estas encenações patéticas, encabeçadas pelo mais alto representante da nação e por todos os que por aí abaixo se vão entretendo com mordomias e benesses chorudas à conta dos nossos impostos, não vamos lá.
Quem nos dera que deste Conselho de Estado tivessem vindo atitudes exemplares, palavras de ânimo para incentivar o povo português e que não se esquecessem dos alertas que têm sido feitos por tantas personalidades profundamente implantados junto do concreto do nosso povo. Quem não permite que se lhes abeire gente que grita que tem fome, que tem a água e a luz cortadas, porque não conseguiu pagar a conta entre outras contas que já não são pagas há muito tempo, não pode saber do que se passa nem mito menos ser sensível em relação às dificuldades que passa o nosso povo... Quem se anima com alguns míseros números e com palhaçadas de algumas gotas de sucesso não pode trabalhar em função daquilo que importa mesmo, está a leste da realidade.
Por isso, acordemos, vamos reflectir, lutar contra esta gente que destruiu o nosso país e por conseguinte não pode ser esta gente a levantar o país, como seria possível a raposa que papou o galinheiro todo pode depois voltar a encher o galinheiro. Venha sangue novo, que bem precisamos disso e não tenhamos medo das auroras dos tempos novos nem das pessoas que os encabeçam. É isso a democracia.

Segunda-feira, 20 de Maio de 2013

Novo Patriarca de Lisboa

Após um longo processo de um «diz-se que se diz» no Patriarcado de Lisboa e fora dele, eis que nos chegou a notícia da nomeação de D. Manuel Clemente, até agora bispo do Porto, para Patriarca de Lisboa. Foi com grande satisfação que recebi a notícia. Foi para mim um excelente professor de História da Igreja. Sempre acompanhei com interesse a sua atenção e diálogo com a cultura. A sua reflexão sobre a história da Igreja Universal, Portuguesa e a sua atenção zelosa em relação à cultura, é um dado enorme na pessoa de D. Manuel que não podemos de forma nenhuma descurar.
Agora todos dizem que era uma nomeação previsível. Após as várias peripécias quanto à saída de D. José Policarpo, não sei se seria assim tão previsível. Quem sabe se a presença do Papa Francisco não tenha agora alguma coisa que ver com o regresso de D. Manuel Clemente a Lisboa como Patriarca? - Não tenho dúvidas nenhumas que sim. Mas duvido muito que alguma claque sacerdotal de Lisboa esteja assim tão entusiasmada como nos querem fazer crer? Porém, para a Igreja portuguesa geral esta nomeação parece-me ser recebida com entusiasmo.
O Patriarca de Lisboa, não é o chefe da Igreja Portuguesa, como muita gente pensa e veicula. No entanto, por se tratar da Diocese da capital do país, o seu responsável ganha um papel relevante e todos assumem como o rosto principal da Igreja Portuguesa. O facto é esse, quer queiramos ou não. Por isso, será sempre interessante e animador para todos nós que para Lisboa seja nomeada uma figura que reúna uma dose elevada de inteligência, sabedoria e projecção nacional, exactamente, como é o caso de D. Manuel Clemente.
Desejamos os maiores sucessos para D. Manuel Clemente como Patriarca de Lisboa e que o seu saber seja um grande bem para a Diocese de Lisboa e que daí venham sinais e dinâmicas pastorais que influenciem toda a Igreja em Portugal. Bem precisamos de criatividade pastoral que coloque todas as dioceses do país na tradição profética da Bíblia e que soprem novos ventos no diálogo cultural, para que a Igreja Católica ganhe uma presença eficaz na construção dos valores na sociedade portuguesa. Que a escola do diálogo cultural levado a cabo por D. Manuel Clemente na Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais e na Diocese do Porto, seja agora fortemente concretizada em Lisboa e que daí se estenda a todo o país.

Sábado, 18 de Maio de 2013

A costa azul

Curto ensaio poético para o fim de semana...
Eis que um dia disseram-me tudo sobre uma costa azul
Nesse desenrolar de vales e montes
Onde as casas se encaixam cheias de medo do abismo
Como eu tomado pela vertigem quando o mais alto dita o som
De me ver dominado pela fala trémula do espanto.

Eis o que um dia disseram-me os antigos que sabem tudo sobre o azul
Dos dias calmos junto da praia do esquecimento bem-vindo
Onde se contou as pedras do marulhar constante do mar
E ai senti uma brisa fresca de desejo ardente
Do futuro radiante para todos os que anseiam a paz.

Eis o que um dia disseram-me outros que tais sobre o dia na costa azul
Uns vinham e outros iam pela terra e pelo mar
Até as nuvens o querer dos povos estava sobre o pódio
Do vivo azul do dia e da noite sem rancor
Sem que nenhum sentisse senão a vitoria imensa sobre a morte.

Eis que um dia me disseram que a costa azul se fez em volta
De todos os corações cheios do sangue da vida.
E nesta certeza não morri
Antes tu e eu ressuscitamos para sempre.
José Luís Rodrigues