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segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

A fé não é uma muleta

Nalguns momentos pensou-se que a fé seria uma muleta para os fracos. Todos os que fossem diminuídos de inteligência, ignorantes, doentes, pobres, fracos em alguma coisa, recorriam à fé como uma muleta para os safar do seu caminhar cambaleante. Quanto pensamento gasto a engendrar que a religião só seria para pobres e fracos…
O sono - Salvador Dali

Ao lado desta visão criou-se a ideia que os inteletuais, os sábios, os inteligentes, os ricos… Não precisariam dessa muleta, então podiam, recorrer a outra condição para se situarem na vida, dizem-se orgulhosamente agnósticos, ateus, indiferentes, confessos de alguma expressão religiosa, mas não praticantes. Visto pelo mesmo prisma de que a fé pode ser uma muleta, também estas expressões podem ser uma muleta. Qualquer coisa que se assuma na vida pode ser uma muleta. O que importa saber é como cada um se situa face à religião que professa e face ao agnosticismo ou ateísmo ou indiferença que diz assumir para a sua vida.

Para o assunto em causa o mais importante será compreender que a fé não é uma muleta em nenhuma circunstância, mas um caminho que em nenhum momento recusa a dúvida e o pensamento como procura fundante deste acolhimento para servir a construção deste mundo.

Em qualquer circunstância o que se exige é que as pessoas sejam sérias, se a fé está unicamente apenas para quando surgem os insucessos e as frustrações e a ela se recorre como último recurso para a cura, estamos aqui perante uma muleta. Se o agnosticismo, o ateísmo e a indiferença servem para manifestar superioridade acusando os de terem a fé como muleta, estamos também perante muletas que dão imensa utilidade à arrogância. Nenhuma condição deve servir para acusar ninguém nem para fazer da existência pessoal a única forma para ser e estar no mundo.

Na diversidade dos caminhos se levados a sério e se induzem à luta pelo bem comum, são meios excelente e eficazes para a construção do mundo naquilo que mais se espera que aconteça. Que nele habite uma humanidade fraterna, amiga e empenhada na construção da beleza, da bondade e da verdade.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Domingo do Batismo de Jesus

Venha o que vier, sejamos felizes. Jamais prejudicar alguém...
E desço à verdura das tuas mãos
Como as manadas que buscam as minhas

Faltam-me apenas os pés feridos dos que peregrinam
Faltam-me no chão duro das promessas
Os joelhos

Queria tanto andar em redor, rodear-te, se soubesses como
Queria amar-te tanto

O que sei da unidade é a túnica
Tirada à sorte. O que sei da morte e da vida
É o livro escrito por dentro e por fora

Silêncio escrito por dentro
Palavra escrita a toda a volta da história
O que sei do céu
É a mão com que sossegas os ventos
Desço à escritura como os veados aos salmos
                                                                                             Daniel Faria

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Na companhia do silêncio

Agora que já está mais que consumada a viragem do ano, assentamos no chão da normalidade da vida. Sempre precisamos de companhia que nos ajude, que dê sentido ao que somos e ao que fazemos. Mesmo que pareça esquisito trago aqui à liça para a reflexão o que todos nós sabemos, mas que frequentemente esquecemos, o valor da companhia do silêncio. Porque os silêncios são a melhor força interior para vencer os obstáculos que se colocam diante de uma história pessoal.

Como se encontra esse silêncio? - Numa busca constante pelos lugares e pelas mediações que façam ecoar essa condição da alma. Com toda a certeza que não será no rebuliço de uma cidade movimentada com carros e muitas pessoas. Também não será na confusão diária das tarefas e das relações conturbadas com os colegas de trabalho. E não será na ocupação total do tempo com muitas atividades. Nem muito menos perante o vazio das propostas que alguns meios de comunicação social nos apresentam.

Só o recolhimento pode proporcionar a descoberta do silêncio, que se pode encontrar em qualquer lugar que cada um considere apropriado para fazer o desvelamento dessa realidade como possibilidade de encontro interior com o valor da vida e com a realização de todo o bem que conduz à felicidade.

Muitos fogem dos silêncios da vida como se fossem sinónimos de solidão. Mas, o silêncio é sempre necessário e a vida sem silêncios não tem muito sentido.

A solidão, não serve e deve ser exorcizada por todos. A luta contra a solidão deve ser uma constante na vida de qualquer pessoa. A procura do silêncio ou dos momentos de silêncio deve ser uma condição que todos e cada um devem alimentar como valor essencial para o equilíbrio das opções e da vida toda. Nenhum caminho será longo na companhia do silêncio.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Ano novo problemas velhos

2018-2019
A canga é grande de ano para ano. 2017, carregou 2018, este vai enfiar o barrete a 2019 e este também não vai fugir à regra e não terá também tempo suficiente para não sobrecarregar 2020. É assim ano após ano. Estupidamente interminável. Porque nunca será mais foguete ou menos foguete de artifício que vir a pôr cobro a esta fatalidade.

Se eu fosse o ano novo não aceitava senão coisas novas. Porém, felizmente, eu não sou o ano novo e não tenho o poder da solução para todos os problemas. Mas garanto que se eu fosse o ano novo, o ano velho piava baixinho e não me entregaria a carga de problemas velhos, que ele não encontrou tempo e vontade para solucionar.

Para muita boa gente o ainda saudoso Santo Papa João Paulo II, dizia o seguinte, provavelmente, num daqueles momentos de boa disposição, que também o caraterizava: «a estupidez também é um presente de Deus, mas não se pode abusar». Este prisma, que nos inspira sobremaneira, podemos aferir que muitos dos problemas derivam precisamente do abuso na prática da estupidez. Vejamos então…

- A guerra e todo o género de violências físicas e psicológicas que comandam o nosso quotidiano são estupidez (falo das guerras grandes feitas entre os estados, que derivam do negócio das armas que deliciam os capitalistas e os governantes do mundo inteiro, mas também falo daquela violência quotidiana das nossas casas, por exemplo, a disparatada e muito estúpida violência doméstica).

- As desigualdades ou a falta de equidade neste mundo é uma crua estupidez que alimenta o egoísmo e a maldade humana.

- A destruição do nosso serviço de saúde é o máximo da estupidez quando sabemos à partida que todos mais tarde ou mais cedo necessitarão de cuidados de saúde. A politiquice que o norteia também nos envergonha e o muito malabarismo para justifica o injustificável não nos ludibria.

- A irresponsabilidade dos governos que nós temos são a face visível da estupidez quando abusada, porque governam em função de interesses mesquinhos de alguns grupos económicos ou amigos do partido a que pertencem, mesmo que isso hipoteque a vida de toda a sociedade e das gerações vindouras. E a estupidez é tanta que não olha à destruição da «nossa casa comum», a nossa «mãe terra». Mais ainda quando tudo isso implica altos custos para o erário público, sobrecarregando todos os cidadãos com impostos que levam ao sofrimento à morte.

- A estupidez é ainda desmedida perante a bênção dos poderes que se acasalam pornograficamente para conseguirem os seus intentos mesquinhos. Para isso não falta água benta para lavar as vergonhosas «uniões de fato», que a este nível os poderes justificam na troca de favores mútuos. Resta a caridade que alimenta os pobres ainda a serem mais pobres ou então dependentes do beija mão senhorial desta sociedade obcecada por mordomias exclusivamente para alguns, aqueles que tiveram mais certo.

- A fome pelos tachos agudiza-se ano novo adentro. Um problema velho, mas que o famigerado ano de 2019, sobrecarregará devido à abundância de eleições. Já vemos a estupidez a marcar passo em função desse eldorado do emprego para os incompetentes, os lambe botas do costume que até venderão a alma se para tal for necessário, mesmo até antes de terem vendido a sua progenitora.

- A beatice patética perdurará ano novo adentro, qual problema velho, que se alimenta estupidamente do fundamentalismo, do anacronismo, da hipocrisia para combater quem eventualmente lembre que precisamos de respostas novas para os problemas sempre novos que todos os dias a diversificada humanidade coloca diante dos olhos. O Papa Francisco deve saber bem do que falo!

- A estupidez não terá limites na aplicação das leis e dos critérios para ajuizar e agir perante cada uma das pessoas. Porque, problema sobejamente velho, é que uns são filhos de Deus e outros, mesmo que esperneiem serão sempre filhos da outra... Enfim, as discrepâncias continuarão a existir, uns a acreditar que Maria de Nazaré é Virgem espiritualmente e fisicamente. Mas pode haver que alguns, mesmo assim, duvidem, mas logo serão metidos na ordem, porque o santo dogma do discurso não pode ser violado, a santa tradição não tolera inteligência e a ousada da criatividade. A abusada estupidez não tolera que os contextos tragam também sinais de Deus nos tempos que correm, Deus é estático, a acção de Deus não muda… Ah, perversa estupidez!

Enfim, a lista poderia ainda ser mais preenchida. Mas fiquemos com estes elementos, só para vermos como a passagem de um ano para o outro vem carregada de sofrimento para quem vem. Lutemos, para que o ano de 2019 seja bom.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

A família e a sociedade

A família de Nazaré faz-nos pensar um pouco sobre todas as famílias de hoje. A família continua a ser uma forma de crescimento humano e de educação fundamental para a pessoa. E bem sabemos que a sociedade do presente e do futuro depende essencialmente da família.
Todos reconhecemos que a família atual está a atravessar dificuldades muito graves. É certo que assim seja, porque os problemas que advêm daí estão à vista de todos. Porém, requer-se uma acentuada intervenção na educação para que a família retome o seu lugar na sociedade. Mais reconhecemos que a família em crise arrasta consigo toda a sociedade. Cada vez mais, reconhecemos que se todos os pais e todas mães se fossem verdadeiramente responsáveis pelos seus filhos a nossa sociedade estaria melhor e os problemas não seriam tão graves no que diz respeito à convivência social. 
A todos é pedido que se empenhem na educação para que a família continue a ser a principal escola de crescimento e de educação de todos os homens e mulheres, dentro dos parâmetros que a antropologia a definiu. Caso não exista esta consciência entraremos no caos e na perversão geral que tanto nos comove ou escandaliza hipocritamente. O discurso sobre o respeito, a fidelidade e a castidade, é, hoje, muito complicado, porque facilmente se apelidam as pessoas que o defendem ou o vivam no seu dia a dia, de que são retrógradas, cotas e de tradicionalistas. Os valores estão em crise, é visível por todo o lado. Os mais novos não estão com o mínimo de aptidão para receber e viver com valores.
Hoje, o que dá é ser o que o momento proporciona, porque não interessa a estabilidade emocional e a fidelidade aos valores. Nem muito menos que os compromissos perdurem. O que importa é viver a ocasião intensamente. Toda a instituição, como valor perene e estável, sofre muito com esta forma de pensar e viver dos tempos atuais.
Porém, mesmo que estes considerandos sejam um pouco negativos no que diz respeito à família, gostaria de salientar que existe uma multidão de pais e mães muito responsáveis e preocupados. São estes que desejo homenagear e incentivar, manifestando que o seu trabalho dedicado à educação dos vossos filhos é a missão mais nobre e sinal de que o amor de Deus ainda está bem presente neste mundo conturbado. Pelo coração de cada um de vós, Deus revela a grandeza do Seu amor pela humanidade. Bem hajam por terem assumido esta missão de serem pais.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Postal de Natal - Fazer Natal 2018

Para todos os que me têm enviado mensagens de Natal (e também para os outros) aqui deixo o meu agradecimento e retribuo os mesmos sentimentos e desejos. Boa Festa e feliz Natal para todos...
 
Fazer Natal 2018
Fazer Natal acolhendo na terra a surpresa do céu
Fazer Natal vendo Jesus no coração dos desamparados
Fazer Natal é não falhar a festa com o festejado
Fazer Natal é levantar-se do chão e dar largas ao sonho
Fazer Natal é levantar o som do silêncio cada vez mais alto
Fazer Natal não é a tradição, mas a alegre novidade
Fazer Natal é acordar do sono da indiferença
Fazer natal é acordar do sono do ódio
Fazer Natal é acordar do sono da vingança
Fazer Natal é sair do túmulo da passividade
Fazer Natal é tomar a sério o mundo e a vida
Fazer Natal é ser luz no encontro do perdão frequente
Fazer Natal é ser sal condimentando o abraço da paz
Fazer Natal é dizer uns aos outros tu és «meu irmão/minha irmã»
Fazer Natal é humanizar-se para divinizar-se
Fazer Natal é abrir as portas a todos os que têm boa vontade
Fazer Natal é deixar entrar no mundo a lógica do perdão
Fazer Natal é gritar contra a fome
Fazer Natal é gritar contra a guerra
Fazer Natal é recusar a mentira que oprime
Fazer Natal é dizer sempre a verdade que liberta
Fazer Natal é sair das coisas habituais
Fazer Natal é dar azo à novidade criativa do amor
Fazer Natal é dizer não à indiferença 
Fazer Natal é ser fiel porque se deve o respeito
Fazer Natal é libertar-se da lamúria
Fazer Natal é deitar ao lixo o «dizer mal uns dos outros»
Fazer Natal é encontrar Deus não como uma singela tradição
Fazer Natal é encontrar Deus na alegria de ser pessoa
Fazer Natal não é correr como louco a consumir
Fazer Natal é ouvir o Pp Francisco «Por favor, não mundanizemos o Natal»
Fazer Natal é encontrar a luz pobre da gruta de Belém
Fazer Natal não é procurar a crista da moda que dita o mundo
Fazer Natal não é encher-se de presentes
Fazer Natal é não banquetear-se apenas com almoços e jantares
Fazer Natal é descobrir Deus pobre
Fazer Natal é ajudar e acolher ao menos um pobre
Fazer Natal é acolher todas as surpresas de Deus boas e más
Fazer Natal será, enfim, «como José, darmos espaço ao silêncio; se, como Maria, dissermos «eis-me aqui» a Deus; se, como Jesus, estivermos próximos de quem está só; se, como os pastores, sairmos dos nossos redis para estar com Jesus» (Papa Francisco, Audiência geral, 19.12.2018, Vaticano).
Fazer Natal é ser Natal com Deus e nunca fora de Deus…
Bom Natal!
JLR

sábado, 22 de dezembro de 2018

O Magnificat

É Natal. Sejamos Natal para que se renove em nós a esperança...
É visita e conceição,
Tanto é que superabundou a graça
Que me livra de tudo o que me magoa e me ameaça.

Ai o pecado e o desencanto!
Quanto mais sofro esta dor sentida,
Mais exalto o dom com espanto
De ter sido bafejado pela vida.

Esta perplexidade diária,
É humana,
De alguém fatigado
E pouco animado sem nada,
Mas a prescrever como o médico
A receita para a cura esperançada.

Ai, noite escura, salienta a lua cheia,
Almejada e conjugada,
Pelo tu e pelo eu
Oh que beleza de cenário 
E pela luz interior desta vontade, 
Eis o meu desejo solidário.

Meu Deus que momento,
Ditou o encantamento,
dos olhares em visita
Para quem é chegado,
Mas mais ainda para que é visitado.

Foi assim naquele tempo,
É hoje também concebido,
Se for seriamente recebido,
Para quem merece a vida.

Porque se a vê livre e sentida,
Em tudo o que lhe foi concedido,
Para o mal da dor sempre se  liberta, 
Pois para o dom que lhe é próprio, 
Saboreia-o e caminha agradecido.
JLR