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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Irregularidades pouco raríssimas

Comensal divino
1. Só fica surpreendido com a eufemística designação de irregularidades da «Raríssimas», quem tem andado distraído. Já esqueceram os depósitos escandalosos das Cáritas, os bifes do Banco Alimentar e de todas as falcatruas que a luz do dia tem revelado nos últimos anos relacionados com a pouca caridade ou falta dela nestas instituições subsidiadas pelo orçamento geral do Estado e pelos donativos dos cidadãos. Também sei de casos de mordomias que líderes de instituições de solidariedade social gozam por aí.

2. Não se pode generalizar, é certo. Há pessoas irrepreensíveis em todas as instituições, que pelos quais coloco as mãos no fogo. Mas, não tapo o sol com a peneira, no sentido que sob a capa da caridade, todos os que lá andam são uns anjinhos, que nunca lambem os dedos depois de mexerem no frasco do mel. As denúncias dos últimos anos vão revelando que anda por ali muita sujidade e muito aproveitamento.

3. Não se compreende que instituições voltadas para a solidariedade implantem comodamente direcções e alguns associados, no enorme rol de privilegiados a viverem à grande e à francesa à conta das benesses, que provêm dos orçamentos públicos ou dos donativos provenientes da rica generosidade dos cidadãos. O Estado tem que ter mecanismos de controlo do dinheiro que disponibiliza para fazer funcionar estas instituições.

4. Mas, há um dado que me inquieta muito nesta caridade institucionalizada que é o seguinte, não compreendo que a maior parte destas instituições vivam exclusivamente da fatia de dinheiro proveniente dos orçamentos públicos e que para sustentarem o seu funcionamento tenham que ter mais pessoal assalariado do que utentes. Muitas delas apresentam igual número de utentes e profissionais, algumas até têm mais profissionais do que utentes, porque se alimentam com a generosa fatia de dinheiro proveniente dos orçamentos públicos.

5. Obviamente, que surgem os aproveitamentos quer em termos de visibilidade pública, a vaidade que alguns líderes destas instituições ostentam nos meios de comunicação social é bem reveladora de como trabalham para a imagem e para a sua promoção pessoal. Mas também outros como a srª Presidente da Raríssimas, que não se contentava com pouco, precisava de bom salário, roupas ricamente luxuosas e de viagens caras. Um nojo, quando tudo isto tem como fim a solidariedade com doentes profundos, os pobres dos mais pobres indefesos… Oxalá, que esta situação venha a clarificar-se e que o Estado se organize melhor. Deve colocar na ordem estas instituições da caridade e a meu ver deve criar ou alimentar as instituições totalmente públicas, sem que sejam necessários pequenos reizinhos a gerir a seu bel prazer os dinheiro que está destinado a todos. O bem comum de todos nós a sim o exige e os nossos impostos não são para mordomias, mas para inclusão toda a população.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Receita contra o negativismo

“Mas não é fácil deixar-se consolar; é mais fácil consolar os outros do que deixar-se consolar. Porque, muitas vezes, nós ficamos presos ao negativo, ficamos presos à ferida do pecado dentro de nós e, muitas vezes, há a preferência por permanecer ali, sozinho, ou seja, na cama, como aquele do Evangelho, isolado, ali, e não levantar-se. ‘Levante-se’ é a palavra de Jesus, sempre: ‘Levante-se’”.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Redescobrir a hermenêutica

Ao sétimo dia
1. O fundamentalismo lê os textos com olhos de morto. O pior do mundo, das famílias, das igrejas e das comunidades é que subsista nelas este «pecado» terrível, que alguns tomam como se fosse a maior das virtudes.

2. Os textos sagrados da Bíblia cristã, ganharam uma melhor clarividência e sabedoria, desde o momento, em que se passou a utilizar a hermenêutica, que «obrigou» a pegar na lupa do método «histórico crítico», que permitiu depois descobrir-se, que a hermenêutica deve olhar os textos no seu contexto histórico e no seu lugar social.

3. Face a esta luz na interpretação dos textos, chegou-se à crítica purificadora das imagens patriarcais de Deus: o Deus do poder absoluto; o Deus dos exércitos e do Deus dominador/castigador… O Deus masculinizado e musculado não existe. Foi graças à hermenêutica que se chegou a esta dádiva libertadora. Passou a existir uma compreensão de um Deus Pai/Mãe, cheio de misericórdia e amor ao nosso serviço. Confirma-nos o Evangelho de Lucas: «Felizes esses servos, que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes. Em verdade vos digo: cingir-se-á e mandará que se sentem à mesa e, passando diante deles, os servirá. Se vier à meia-noite ou de madrugada felizes serão se assim os encontrar» (Lc 12, 35-38).

4. Assim, a hermenêutica é arte que nos dá a possibilidade que o outro pode ter razão. Por isso, de Deus faz-se silêncio e escutar essa substância dá sentido à vida e fortifica a fraternidade. Então, confirma-se por aqui: «Deus é o silêncio do universo e o ser humano é a voz que dá sentido a esse silêncio» (José Saramago).

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A maternidade de Maria

Comensal divino 
Imaculada Conceição - 2017
Maria mãe da conceição
Imaculada Maria Senhora mãe de Deus
É nossa por Jesus num abraço de ternura.
Maternidade sem mácula para nascer
Em função do mistério único que gerou
É bendito o ventre que à luz Te transportou
E dos seios virgens o leite Te fez crescer.

Maria como mãe de Jesus
Coro Iesus, coro est etiam Mariae
(a carne de Jesus é também carne de Maria)
Divino empréstimo foi pedido
Ah! Bendita seja essa mulher
Que nos braços delicados segura suave
O Deus Menino revestido pela injustiça
Mas quente e coberto de beijos desta boca
Mãe Lua, mãe Terra, mãe Luz sobre o mundo
Para todos na fraternidade se amarem
E na humildade em redor de ti se ajoelharem.

Maria como mãe dos cristãos
Todos pela vida feliz darem as mãos
Muitos pela graça de serem filhos de Deus
Nos braços no amor da grandeza de uma mãe
Que nos fermenta como pão no olhar que embalou
A novidade dos tempos de que somos todos irmãos.

Maria associada à Paixão
O Sumo Sacerdote entregou-se em Santo Sacrifício
Elevação única e a mais nobre auto imolação
Na visão lacrimejante de uma mãe junto da cruz
É também sacerdotisa lavada pela dor materna
Só porque chora a dor humana que diz mãe
Mas eleva-se ante o mistério que acalentou
É o bem maior do céu e da terra para todos
Que a missão da mãe e do filho divinamente ditou.

Maria Assunta
Naquele fim em que tudo começa para nós
Corpo e alma foram glorificados sem pecado
Um túmulo vazio ao mundo foi revelado
De uma mãe imaculada por especial consideração
Se não há pecado não pode haver morte e corrução.

Rogai por nós Santa Mãe de Deus…
JLR

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A conversão que edifica o bem e a felicidade

Pão quente da Palavra
1. A missa deste segundo domingo do Advento coloca-nos diante de um desafio importante, a conversão. Isto é, é da vontade de Deus que nós nos encontremos no bem e que procuremos purificar o coração de todas as coisas que se vão instalando aí dentro e que depois perturbam a relação com os outros e a verdadeira descoberta do sentido da vida cheio de felicidade. Pela parte de Deus descobrimos a sua vontade em nos conceder um mundo novo onde impere a liberdade, a justiça e a paz. Porém, este mundo só acontecerá quando a humanidade entender que não há outra alternativa à felicidade senão esta que Deus lembra pela força da Sua Palavra.

2. A Primeira leitura apresenta-nos um profeta anónimo da época do exílio do povo de Deus, que garante a fidelidade de Deus, que deseja conduzir o Seu povo pelo caminho direito e livre de escolhos até à terra da liberdade e da paz. Ao povo é pedido que se converta e que se purifique do comodismo, do egoísmo, dos rancores, das vinganças e de todas as armas que conduzem à tristeza e à morte.

3. Na segunda leitura, temos uma passagem da segunda carta de São pedro onde encontramos uma perspectiva de fé que por vezes pode ser tentada pela dúvida, no homem que vive na história sob o peso do mal, das contradições e da morte. Mas a certeza é esta, não percamos a esperança, pois, um dia perante Deus, «é como mil anos e mil anos como um dia».
A ideia principal desta Carta narra isto, reflectindo a objecção dos que suspeitam e são cépticos ou até «escarnecedores cheios de zombaria» que perguntam: «Onde está a promessa da Sua vinda? Desde que os nossos pais morreram, tudo continua da mesma maneira, como no princípio do mundo» (2 Pd 3, 3-4). Ora, a vida mergulhada no mal e na miséria, alimenta-se pelo sonho de uma realidade nova que um dia vai surgir. Também se aprende com o poeta (Sebastião da Gama): «pelo sonho é que vamos» e de outro poeta: «Eles não sabem, nem sonham, / que o sonho comanda a vida, / que sempre que um homem sonha / o mundo pula e avança / como bola colorida / entre as mãos de uma criança» (António Gedeão, In Movimento Perpétuo, 1956).
Não percamos a vontade de construir um mundo novo à nossa volta, não adiemos esse ideal para depois da morte ou sempre para amanhã, mas que pautemos a vida no empenho na transformação do mundo e na construção de «novos céus e a nova terra onde habita a justiça» para que a missão de sermos gente se cumpra na fidelidade ao bem que em nós começou pela força de Deus. Sejamos merecedores dessa realidade.

4. No Evangelho, descobrimos João Baptista a convidar todos os homens e mulheres de todos os tempos a acolherem o Messias libertador. Este Messias será Aquele que manifestará a vida nova de Deus e que por isso convidará a humanidade a viver na dinâmica do amor fraterno para que ninguém fique para trás como tem reafirmado até à saciedade o Papa Francisco. Também será este Messias que oferecerá a liberdade verdadeira, porque nunca será uma liberdade fora do crivo da responsabilidade, porque requer respeito por si mesmo, pela natureza e pelos outros.
Tudo isto acontecerá, insiste João Baptista, em quem fizer um caminho essencial de conversão, de mudança de vida «velha» que fez sofrer e da mentalidade tacanha que conduz ao fechamento egoísta profundamente desumano que vai acompanhado a humanidade por todo o lado. Que não nos falte a vontade de dar uma reviravolta ao que não nos serve para que aconteça a construção da vida à nossa volta na base de valores que edificam tudo o que é necessário à felicidade.

Deus e eu

Deus e eu, com a Helena Ornelas, professora, nascida, criada e vive no Porto Santo... Benvinda ao Banquete da Palavra com este manjar de palavras sobre a tua relação com o Mistério que neste cardápio, comensal divino nos serves em prato excelente como «Deus e eu» servido na mesa da vida concreta. Muito obrigado cara amiga Helena.

Nasci e cresci numa família católica. Desde que me lembro gente que as vivências em Igreja fizeram parte de mim e dos meus.
         Cedo integrei um grupo de jovens, por sua vez integrado no Movimento Encontros de Jovens Shalom, que me mostrou um Deus de amor, desafiador, inquieto, desinstalado, absolutamente transparente e pleno. Movimento que respira e coloca em prática os ensinamentos do Concílio Vaticano II e que pede aos jovens que sejam verdadeiros protagonistas da História da Salvação e de uma Igreja serva, livre e pobre. Tudo o que vivi nestes tempos (cerca de nove anos) tornaram-se escola de e para a vida.
         Hoje realizo-me enquanto mãe, esposa, professora do 1º Ciclo, catequista, mas, acima de tudo, sou uma eterna aprendiz, que observa, lê, escuta, questiona, olha para o Mundo e muitas vezes pergunta: “Quo Vadis”?
         A minha relação com Deus é a de uma busca constante da sua presença, embora já me tenha zangado com Ele algumas vezes, mas nada que uma boa conversa a dois não se resolva, até porque Ele nunca se zangou comigo e eu não sou de ficar amuada por muito tempo…
         Em que Deus eu acredito? Num Deus libertador, que sempre dá uma nova oportunidade (a começar por nos permitir acordar todos os dias e nos dar muitas horas para fazermos e sermos melhores), que teima em se fazer presente nas coisas mais simples.
         Aqui transponho para a época que se aproxima e nela encontro a maior prova da simplicidade que falei: um Deus que se faz Menino e marca a diferença desde o primeiro momento ao nascer num estábulo e que mostra aos que querem ver que a verdadeira essência da vida se torna plena num olhar terno de uma Mãe que deita o filho numa manjedoura.
         Este Deus que quer, afinal, de mim e de cada um de nós? Simplesmente que sejamos ligados ao essencial, que nos mantenhamos vigilantes e que passemos nesta vida terrena de uma forma atuante e verdadeira, sem embustes e ricos em valores. Isto porque Deus não se fez Menino só para sermos bonzinhos um mês por ano e muito menos para vivermos no reino do faz de conta. Deus, o meu Deus, veio até nós para nos provar que a lei do amor é A lei. 24 horas por dia, todos os meses.
         E é este Deus, o meu Deus, que me permite chorar, rir, cantar, brincar, ser séria, dar um murro na mesa quando é preciso, ser boa pessoa, sem ser ingénua e… amar!
         É este Deus que procuro dar a conhecer, sem medo.
         É a este Deus que agradeço o dom da vida, a família, os amigos, o meu trabalho que tanto gosto e me realiza, a minha alegria, a minha teimosia em querer ver sempre o copo meio cheio, as minhas conquistas, os meus desafios, os meus retrocessos, tão necessários para manter os pés firmes no chão e assim poder sempre recomeçar.
         É por tudo isto que Lhe canto convictamente o meu louvor, porque também Ele já fez em mim muitas maravilhas e também em mim pousou os seus olhos, fazendo com que eu sempre encontre um poço com águas cristalinas, nos momentos em que a sede teima em me impedir de avançar…
         Magnificat, Senhor meu Deus! Para sempre!

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

A religião é inimiga do Evangelho

1. Nada de novo quanto a este título. Nem sempre a religião estabelece verdadeira «comunhão» com os fundamentos da sua razão de ser. No caso da Religião Cristã falamos do Evangelho do Seu Mestre Jesus Cristo.

2. Não é nada de novo relativamente à ideia de que às vezes a religião cristã - embora para sermos mais honestos, deve-se dizer o catolicismo - é «inimiga» do Evangelho. Tudo começou com Aquele que falava do Evangelho – que significa Boa Notícia para os pobres ou para a humanidade, porque é a maior novidade da história de salvação universal pelo amor contra todas as formas de violência, essa realidade tenebrosa que sempre fez nortear a humanidade inteira sempre em prejuízo para si mesma. É de Jesus Cristo que falamos. Por essa causa foi morto, insultuosamente pregado numa cruz, a condenação mais aviltante, por isso, reservada para os piores criminosos.

3. Duas distinções importantes a fazer-se para que se perceba os consequentes comportamentos. Primeira, o Evangelho é desprendimento, liberdade de pensamento e de vida. Segunda distinção, faz entrar na vida concreta de cada pessoa a misericórdia, a inclusão de todos, solidariedade com as vítimas, a libertação dos pecadores e dos pobres, enfim, é a prática do amor com todos e para todos.

4. Toda a religião tem doutrina a todos os níveis, que até pode ser na prática a mais luminosa e teoricamente a mais lúcida do mundo. Mas, toda a religião com poderes, com hierarquias, com interesses, com vida cómoda, com economia e finanças para gerir… Não se lhe distingue diferença alguma, porque tem uma lógica mundana e que se coloca ao mesmo nível de qualquer outra organização humana, viola descaradamente os seus princípios originários e esquece tudo o que ensinou e exemplificou o seu Mestre.

5. Por aqui podemos deduzir, porque anda debaixo de fogo constante o Papa Francisco e tantos outros que em nome do Evangelho reclamam que a religião se torne verdadeiro serviço para todos. Assim, se percebe também que os verdadeiros inimigos do Evangelho não estão fora do âmbito religioso, mas dentro, particularmente em todos aqueles que não abdicam da vida principesca que a oportunidade da religião lhes confere.