Convite a quem nos visita

quinta-feira, 27 de abril de 2017

O caminho faz-se caminhando

Domingo III da Páscoa...
A localização de Emaús tem diversas tradições, todas a Oeste de Jerusalém. Deste Evangelho, próprio de Lucas, discute-se a origem. Talvez seja um convite a percorrer o próprio itinerário de fé, caminhando com Jesus? – Esta visão basta para o que se pretende reflectir.
Toda a Páscoa é um convite a seguir o caminho da vida a bom passo. Nessa caminhada escuta-se a voz de Jesus Vivo e Ressuscitado, que garante que estará connosco mesmo que não o vejamos. O caminho faz-se andando e o amor faz-se amando, se quisermos fazer uma alusão aos poetas quando afirmam. São João da Cruz: «O amor não cansa nem se cansa»; «Onde não há amor, põe amor e colherás amor» e António Machado, poeta Sevilhano que dirá: «O caminho faz-se caminhando»: «Caminhante, as tuas pegadas / São o caminho e nada mais; / Caminhante não há caminho, / O caminho faz-se ao andar. / Ao andar faz-se o caminho / E ao olhar-se para atrás, / Vê-se a senda que jamais, / Se há-de voltar a pisar. / Caminhante não há caminho, / Somente sulcos no mar». Ora bem no texto do Evangelho descobrimos a imagem da humanidade em dois discípulos a fazer a caminhada até Emaús, mas, caminham consternados, derrotados e desiludidos com os factos recentes passados em Jerusalém. Qual humanidade hoje a fazer o caminho com o desalento e o desânimo, porque afundada pelas crises monetárias, pelas guerras inacabáveis, pelas violências constantes, a insegurança derivada de vários medos, o desemprego que faz mergulhar uma multidão imensa de pessoas na fossa da fome e do desespero, imensos jovens sem oportunidades de emprego e de um futuro feliz...
Nesse caminho, Jesus lança-nos a pergunta: «que fizestes do dom da Minha Morte Pascal?» E nós fazemos outras: foi em vão a Sua morte? Não serviu para percebermos que só pelo amor a humanidade será feliz? Não percebemos ainda que a dignidade humana e os Direitos Humanos devem ser respeitados para que a humanidade inteira se realize na harmonia do bem? Não serviu para perceber ainda que Deus nos criou para a vida e não para a morte? Para onde caminhas humanidade, que te auto flagelas e matas frequentemente? (…) Há um o caminho e uma mensagem que se levada à prática pode libertar do lamaçal em que a humanidade tantas vezes se deixa atolar.
Há também uma refeição, que é o lugar do encontro, o Sacramento dessa presença misteriosa, porque só «reunidos à mesa Me reconhecereis Ressuscitado». A importância da Eucaristia vê-se claramente neste encontro de Emaús. No partir do pão Jesus é reconhecido e convida à saída de si mesmo para se lançar ao encontro dos outros, especialmente, os mais necessitados, para viver a densidade eucarística da partilha fraterna. Cada momento desse encontro é uma meta que dá entusiasmo à vida, porque retempera na coragem e leva ao desprendimento de si para se abrir aos outros.
Nesta abertura à partilha no itinerário da fé, devemos nos sentir comunidade que peregrina para a Páscoa definitiva. Por isso, pedimos «Senhor, Tu que fazes connosco este caminho aberto ao Transcendente, faz que não nos detenhamos até chegar ao encontro definitivo». 
Afinal, o Emaús de cada um de nós pode estar longe materialmente falando, mas com Jesus Ressuscitado ao nosso lado, podemos afirmar, «Emaús aqui tão perto».

terça-feira, 25 de abril de 2017

25 de abril: o antes e o depois na Igreja católica


1. A ambiguidade. Os silêncios estudados. O material suprimia constantemente o espiritual. A confusão entre a cidade dos homens e Reino de Deus. As amizades interesseiras entre a autoridade temporal e a autoridade religiosa. Confusão geral entre templo e tempo. São alguns dos aspetos que caracterizaram a Igreja católica no tempo do regime de Salazar.
No entanto, não podemos afirmar que a Igreja toda estava de acordo com o regime de então nem que aprovava em uníssono a atitude e as posições da Igreja oficial face ao Estado Novo.

2. As divisões, a falta de diálogo, a abertura à diferença, a falta de tolerância… Foram também uma constante no interior da Igreja durante este período. (Quero deixar aqui bem assente que faço estas considerações a partir dos testemunhos que tenho escutado e dos textos que vou lendo sobre esses tempos, porque de vida pessoal foram apenas alguns anos inconscientes que me foi dado viver nessa época. Mas, a perceção que tenho hoje do mundo e da vida também me ajudam muito a pensar).

3. Hoje, felizmente, a Igreja aprecia a democracia reclama-a para todos os países, porque, este sistema político é o melhor que se experimentou até agora no que diz respeito à vivência das oportunidades, liberdades e garantias dos cidadãos.

4. A oposição à ditadura de Salazar de alguns sectores da Igreja começou cedo. Mas por causa das circunstâncias sempre se manifestou como casos isolados num universo grande de ambiguidades e silêncios muito pesados. De qualquer forma não se pode negar que foram subsídios válidos para uma posterior oposição consciente de muitos católicos contra um regime injusto e cerceador das liberdades.

5. Não se pode esquecer, neste contexto, o Pe Abel Varzim, o bispo do Porto D. António Ferreira Gomes - justamente homenageado pelo Presidente da Repúblico, o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, neste 25 de abril de 2017 - entre tantos outros católicos, por exemplo, o grupo do «Tempo e o Modo», da livraria e editora Moraes, liderada por António Alçada Baptista.

6. A Igreja faz-se de homens e mulheres do tempo concreto. Por isso, está sujeita, como entidade humana que é, às contingências dos altos e dos baixos próprios da vida humana. E continuamos a sonhar que a Igreja um dia se liberte verdadeiramente dos silêncios estudados, da ambiguidade pensada e da exagerada diplomacia. Esperamos que em todos os sistemas políticos, a Igreja seja o arauto fiel das palavras de Jesus, o seu único mestre.

MATÉRIA NEGRA

Deus e eu
Esta semana escutamos Emanuel Bento, antigo jornalista... Oferece-nos um poema muito interessante e exclusivo para este espaço semanal «Deus e eu».
A obscura força em que mergulham as palavras
essência da memória dos tempos e dos homens
de tudo que existe e há-de existir
das pedras paradas e caladas
de onde vens tu
que silêncio se quebrou
quando o primeiro Deus falou
quem foi o escolhido que primeiro o ouviu
se nada antes existiu
eco ainda do espanto
da sua e nossa divina solidão
caminhamos ao encontro da sílaba inicial
reproduzindo a luz que chega tão mas tão devagar
Ó Deus que tanto procuramos e nunca encontramos
mesmo sabendo que em nós moras e demoras…
Emanuel Bento

segunda-feira, 24 de abril de 2017

O discurso e prática

1. Dizer e praticar pode ser uma questão de hábito. Tantas vezes vou dizendo que dá o mesmo trabalho ser simpático e delicado ou ser indelicado e antipático. Muitas pessoas queixam-se que políticos, padres e outros formadores de opinião têm um determinado discurso e uma prática completamente oposta. É grave quando assim acontece.
 
2. Nada nos aborrece mais do que constatarmos que há distância entre o que é dito e o que é feito. O discurso pela tolerância, o perdão, a simpatia, a solidariedade ou a caridade entre tantos outros apelos que se vividos fazem muito bem à vida e embelezam o mundo. Quando tudo isto faz parte da palavra e da prática ilumina a realidade concreta do viver de todas as pessoas, mesmo até aquelas que não sintam nenhuma preocupação com isso.  
 
3. Porém, quando a faltam esses valores ou sentimentos - não sei bem se são valores ou sentimentos, até acho que eles se confundem e estarão bem próximos e devem ser valores/sentimentos ao mesmo tempo para serem verdadeiros - na prática de quem os anuncia e prega, reveste-se de uma gravidade impressionante. À partir muita gente, com toda a razão irrita-se, mas considero que não merecem tanto, porque a exasperação não irá beliscar em nada quem assim precede e fará muito mal a quem a alimenta, por isso, devemos perante tais comportamentos incongruentes manifestar compaixão e em certa medida ignorar.
 
4. O discurso religioso está cheio disto. Os agentes religiosos têm em mãos anunciar um ideal que tem uma exigência que requer todas as forças humanas, psicológicas e espirituais para ser atingido. Mas, sendo eles fruto da humanidade são os primeiros a falhar quanto à sua prática. A tarefa é logo à partida é muito exigente e nalguns detalhes quase impossível de concretizar. Daí que sujam de quando em vez tantas manifestações de revolta e repúdio contra os agentes religiosos.
5. Mas, o discurso religioso não pode ser justificado com tudo. Há no discurso religioso uma parte exclusivamente religiosa, mas deve também ter uma parte profundamente humana, uma outra que não descora a educação e ainda outra que apela ao respeito e tolerância no convívio com os outros. O discurso religioso ou tem «carne», isto é, vida concreta, ou não serve para nada, é um discurso para quem vive acima das nuvens.
6. Daí que o discurso religioso deve ser consequente minimamente na atenção e educação para com todos. A tolerância deve ser princípio basilar da sua ação, não deve faltar a compaixão com todas as vítimas de qualquer situação que as tenha feito sofrer, o perdão como caminho quotidiano, mesmo que isso implique muita paciência e aquilo que se designa tantas vezes «engolir sapos». Em nome da promoção da humanidade tudo vale a pena, em nenhuma discurso em qualquer área humana deve deixar de estar presente essa principal preocupação. Faltando isso, o melhor é estar calado sempre.

sábado, 22 de abril de 2017

Olhar de Eva

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre, nunca prejudicando ninguém.
Adão e Eva
tema recorrente do pintor Lucas Cranach.
Se te vejo esperança minha
Entre duas metades de uma maçã
Partida pelo fogo do olhar de Eva
Quando foi tomada pela vontade
Ardente, daquela hora luzidia e madura.

Disse que foi para sentir o gosto de Deus 
Na simbiose perfeita do fruto criado.

Antes desta feliz desobediência
A divindade que se deu no amor
Formou a ambiental geografia do Éden.

É seguro que a totalidade original da Obra 
Ergueu penedos, árvores, ervas, animais...
E os frutos de todas as cores e sabores.

Bendito seja a grandeza do inominável 
Que nenhum pecado desta vida
Seguramente nunca superou.
JLR

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Ver e crer na Misericórdia de Deus

Domingo II da Páscoa e a Divina Misericórdia
Não é nada fácil acreditar sem ver. Todos nós temos experiências quotidianas que marcam profundamente essa realidade. Não gostamos de receber ou comprar a coisa mais insignificante sem primeiro vermos bem o que nos vai chegar às mãos.
Porém, Jesus garante-nos que a Sua ressurreição está sempre acontecendo. E serão muito felizes todos aqueles que acreditarem sem terem visto concretamente a pessoa de Jesus. Quer isto dizer que a ressurreição, é uma realidade profundamente espiritual que acontece no fundo da existência de cada pessoa que acredita de verdade para que a vida seja em Abundância para si e para os outros. Nenhum argumento prova de verdade que a ressurreição aconteceu nem importa provar a ninguém que tal acontecimento é um facto da história. O mais importante de tudo é que cada pessoa seja capaz de acolher com sinceridade na sua vida pessoal esta proposta de esperança que Jesus nos oferece para que nos livremos do desespero e da infelicidade.
A ressurreição mostra-nos claramente que a vida venceu a morte e que com esse acontecimento inaugura-se o tempo escatológico da acção do Espírito Santo. A era do Espírito começa com as palavras de Jesus ressuscitado, atestando que sem a acção transformadora do Espírito Santo nada será possível realizar. Estamos diante da realização da promessa de Jesus: “Não vos deixarei abandonados, vou enviar-vos o Espírito...” (várias vezes pronunciou esta ou outras frases semelhantes nos Evangelhos).
Neste domingo também estamos diante do mais que curioso episódio de Tomé, um dos doze, que não estava presente por ocasião das primeiras aparições de Jesus. Claramente nega tal facto e à maneira tipicamente humana, assegura que não acreditará sem ver e sem tocar no lugar dos cravos.
A expressão: «Vimos o Senhor», leva-nos a imaginar que deveria ser muita a alegria que transparecia nos rostos dos Discípulos que corriam ao encontro de Tomé para dar-lhe essa grande notícia. Não é que Tomé, um homem prudente, se mostra incrédulo e joga bem alto! Mas querem enganar quem! «Não acredito sem ver e tocar!» – dirá profundamente seguro de si mesmo. Porém, logo depois também afirmará com grande convicção: «Meu Senhor e meu Deus». A fé em Cristo ressuscitado, é o outro nome da felicidade, porque é a possibilidade última para o único sentido da vida que salva, a eternidade.

A Divina Misericórdia
A Devoção à Divina Misericórdia é de origem polonesa, cuja divulgação se deve a Santa Faustina, considerada uma grande mística pela Igreja Católica, e que teria recebido instruções do próprio Cristo, através de aparições, para que a mesma divulgasse a Sua Misericórdia Divina. 
O processo de beatificação desta Santa iniciou-se por iniciativa do então Cardeal Arcebispo de Cracóvia, Karol Wojtila, e posteriormente foi canonizada pelo mesmo bispo, já quando era o Papa João Paulo II. 
Segundo os católicos, Jesus Cristo não apenas ensinou a Irmã Faustina os pontos fundamentais da confiança e da misericórdia para com os outros, mas também revelou maneiras especiais para vivenciar a resposta à Sua misericórdia. A isto chama-se de devoção à Divina Misericórdia. A palavra "devoção" significa o cumprimento das nossas promessas. É uma entrega da vida ao Senhor, que é a própria Misericórdia. 
A compaixão e o amor aos outros como forma de conduta de vida, faz o cristão, que deve dar beleza ao nosso mundo com tais valores, especialmente, na sua atenção aos mais fracos da sociedade. A Misericórdia só se percebe na atenção de cada um ao outro.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

DEUS E EU – O CÉU E A TERRA

Deus e eu - Esta semana um texto desconcertante de Maria Conceição Pereira, exclusivo para os leitores deste blogue...
Os seres humanos relacionam-se com Deus, ou com os Deuses, desde o fundo dos tempos, com o fim de superarem os seus medos e explicarem os mistérios da vida. Mas as religiões, em sentido formal, foram nascendo e se organizando com o desenvolvimento das civilizações.
Em nome de Deus já se cometeram crimes atrozes e ainda hoje se invoca o nome de Deus, para o bem e para o mal, pois ainda subsiste o hábito de “rogar pragas” e creio que a Igreja Católica ainda aplica, nalguns casos, a excomunhão. Para não falarmos em religiões (ou religiosos) que espalham o ódio e a vingança, em vez do amor e da paz.
Na minha opinião, o mais importante é a relação íntima da crente (ou do crente) com Deus, a forma como tenta chegar até Ele e não tanto o cumprimento formal dos rituais, por vezes de forma vazia de sentimentos e apenas convencional, cumprir os preceitos, como diziam os fariseus na época de Cristo.
Eu vivo num mundo repleto de seres humanos e de outros seres vivos. E sendo eu um ser racional, tenho responsabilidades para com os meus semelhantes e com a harmonia da nossa Casa Comum, o Planeta Terra que, para os crentes, foi criado por Deus para aqui vivermos felizes e solidários e, pelas nossas acções, alcançarmos a vida eterna junto de Deus.
Para mim, as boas acções são aquelas que contribuem para o bem-estar dos seres criados, humanos e inumanos, e ainda para um ambiente sustentável, sadio, sem maldades nem destruição. Enquanto seres racionais temos responsabilidades na condução da nossa vida pessoal, social e política. Na conjugação destas três componentes: pessoal, social e política, reside, ou não, a harmonia e o equilíbrio de toda a vida na Terra, para todos os seres criados por Deus, segundo a consciência de quem é crente.
Eu sei que há diversas formas de viver a vida e de se relacionar com Deus, de forma íntima ou cumprindo os rituais das igrejas onde os crentes se integraram, mas considero que não basta cumprir formalidades sem nos responsabilizarmos por toda a envolvência que nos rodeia, porque só estamos vivos ou vivas se houver condições propícias para a vida. E estar vivo ou viva, é uma responsabilidade. A vida é uma dádiva. Quantos não chegaram à minha idade? Quantos pereceram devido às doenças e outras vicissitudes? Se eu ainda aqui estou, se me foi concedida a dádiva da vida até hoje, devo fazer algo por merecê-la. Daí que sinto obrigação de dar o meu contributo para o bem de todos, de modo a merecer esta vida que Deus me concedeu.