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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

As nossas escolhas

Todos temos de uma forma ou de outra alguma vez na vida a tarefa de escolher qualquer coisa que pensamos ser o melhor para o nosso bem e o bem de todos. Todas as escolhas têm o seu grau de dificuldade. Quando se trata de escolher pessoas, parece-me ser a tarefa ainda mais difícil. Mas alguma vez pode ser que o tenhamos que fazer. É tão triste e dramático quando as escolhas não se fazem por causa da competência e seriedade. Os critérios não podem ser acidentais ou de interesses, ignorando-se o essencial. Quando a hierarquia dos valores começa pelo aspeto físico, a simpatia, a classe social e a subserviência manifestada às chefias… Estamos perante péssimas escolhas, porque ficaram no fim ou fora do rol dos critérios a competência, a gradeza do coração e a sinceridade de caráter das pessoas. Para quem escolhe há uma grave responsabilidade e deve guiar-se sempre pelo interior, tanto o seu como o de quem pretende escolher. Porque os cargos de responsabilidade, não podem compadecer-se com irresponsáveis que num ápice, sob manias pessoais e ideias loucas podem destruir coisas que levaram muito tempo a ser edificadas.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

A indignação é pão


Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre...
Cândido Portinari. Museu Casa de Portinari
Um dia na vida
alguns são heróis anónimos
do fogo bravo
que nos consome os dedos
a língua entre as brasas
da revolta desta pobreza
cheia de dinheiro.

São estes os culpados
da podridão de gravata
à mesa de gabinetes
engomados
com as nossas cabeças
e alimentados com o pão dos outros.

É este drama que arde
a canalhice toda
dos pérfidos sentidos
que o cancro da máquina
engendra privilégios
que consomem o caminho de todos.

Tem sido esta voracidade
a irrigar as artérias
todos os montes e vales
deste tempo
sem modos nenhuns
que vão fazendo verter
as lágrimas da dor
pela solidão e abandono.

Neste quadrado
somos todos
o singelo produto
o número frio
ou o nome qualquer
na massa do mundo
que dita o fim da vontade
porque eles não gostam
da graça da liberdade.

E do meio das cinzas
a suave sensação
é a certeza
que a indignação é pão.
JLR

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Pai e mãe fora da escola

1. As escolas públicas em França estão prestes a eliminar a designação de «pai» e «mãe» nos formulários, de forma a não discriminar as pessoas do mesmo sexo. Segundo o jornal «Libération», os formulários devem passar a ter «parente 1» e «parente 2», em vez de «pai» e «mãe». Também já vi em outras notícias «responsável 1» «responsável 2», já vi também simplesmente: «encarregado 1» e «encarregado 2». E em outro «encarregado de educação 1» e «encarregado de educação 2». E ainda «progenitor 1» e «progenitor 2». Já dá para perceber a confusão que para aqui vai.

2. Enfim, nomes e mais nomes para substituir o insubstituível. Por aqui vemos logo a confusão que esta ideia esquisita começa a gerar. A criatividade humana não tem limites pelo que se vê. Longe de mim imaginar que alguma vez na vida estaria para a aqui a perder tempo e massa cinzenta com um assunto desta natureza. O que faltará para nos surpreender ainda mais este mundo e a esta humanidade… Não há limites, pelo que a vida nos ilumina.

3. Provavelmente, abaixo de Deus Todo poderoso o que temos de mais sagrado são os nossos progenitores, os nossos pais. Daí ser parte da nossa existência intocável. O seu respeito toca a todos, principalmente, as entidades dos Estados, que deviam zelar por esta dimensão da vida de cada pessoa. É  muito bem o Estado os problemas que tem que resolver quando falha a missão de ser «pai» e «mãe».  

4. É verdade que a inclusão do que é diferente deve ser uma preocupação da sociedade inteira, particularmente, do Estado, a quem compete zelar pelo bem dos cidadãos todos. Porém, nunca essa inclusão deve ser à custa dos valores e princípios que desde sempre enformaram a humanidade, que contribuem para o seu progresso e bem estar. Sim, qualquer ideia de incluir o diferente implica a obrigação de mudança de mentalidades e de comportamentos, mas sem tirar-nos aquilo que faz parte da génese do ser pessoa, do ser gente.

5. A vontade de banir do meio escolar a designação «pai» e «mãe», vai acarretar uma série problemas, que agudizarão as fragilizadas relações parentais que assistimos hoje. As crianças cada vez mais cedo saiem da alçada dos pais, por causa da vida envolvente dos nossos tempos, Ficam cada vez mais tempo entregues ao domínio da escola, se aí deixam de ouvir falar das palavras mais efetuosas da vida, «pai» e «mãe», não sobrará nada para saborearem no pouco tempo que lhes sobra lá em casa junto dos seus progenitores. Uma medida que requer reflexão ponderada e que deve ter em conta todas as pontas.

6. A meu ver é uma ideia grave. Um recuo civilizacional, que não contribuirá em nada para incluir quem pretendem que seja incluído, mas pelo contrário, noutro campo suscitará graves problemas nas paupérrimas relações entre pais e filhos que tanto afligem os tempos atuais. Espero que o bom senso impere e que em qualquer lugar da vida ninguém fique privado de sentir que a sua principal proteção está no coração do «pai» e da «mãe».

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Problemas graves requerem medidas radicais

1. Hoje é um dia importante para a Igreja. O Papa Francisco deu hoje início à inédita cimeira de bispos e responsáveis religiosos da Igreja Católica sobre o «escândalo da pedofilia» e a crise dos abusos sexuais, que classificou como uma «chaga». «O santo povo de Deus olha para nós e espera de nós não apenas condenações simples e óbvias, mas medidas concretas e eficazes a aplicar. É preciso ser concreto», referiu o Papa, perante os 190 participantes, reunidos no Vaticano.

2. A Igreja inteira e o mundo esperam desta reunião precisamente aquilo que definiu o Papa «medidas concretas e eficazes». É verdade que é isso mesmo, mas melhor seria no meu singelo ver, que se esperam «mudanças profundas e concretas» para o modo de funcionamento da Igreja Católica.

3. Vamos a algumas medidas, para que tudo isto não passe de simples curativos, que recheiam o palavreado da mudança e da transparência mas na realidade tudo fica na mesma. É preciso combater o clericalismo, mudando todo o sistema que o alimenta principalmente o homossexualismo moralista cego contra as mulheres e os heterossexuais. Por isso, seria necessária abertura total, começando no Papa, passando pelos cardeais, os bispos e pelos padres, para que o sistema permita o Sacramento da Ordem às mulheres. Porque vivemos uma situação totalmente desfazada da realidade dos tempos de hoje, que reclamam igualdade entre homens e mulheres. A Igreja neste aspeto tem o dever dar o exemplo. O patriarcalismo que a hierarquia católica ainda apresenta não tem futuro tal como está e não terá vontade nem muito menos sabedoria para estancar a «chaga» dos  abusos sexuais.

4. A redução das perversões sexuais dentro da Igreja Católica dar-se-ão quando todo o sistema funcionar saudavelmente, convivendo homens e mulheres com a sua integridade sexual devidamente equilibrada. Sejam eles hetero ou homossexuais, casados ou solteiros.

5. Este retrato da Igreja seria uma verdade mais humana e mais profundamente ligada à Palavra do Evangelho de Jesus, que chamou e contou com homens e mulheres para o Seu Reino. Poderão dizer-me, os apóstolos são doze, todos homens, eu digo, mas as primeiras testemunhas da Ressurreição de Jesus são mulheres e quem prova que não fossem também apóstolas… Enfim, para tudo há sempre argumentos. Porém, neste aspeto dos abusos sexuais, enquanto as mudanças radicais não varrerem a Igreja de alto a baixo, tudo o que se faça para combater a «chaga» não passará de remendos que surtem efeito até certa medida e até certo tempo.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Silogismo da semente

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre...
O semeador
Só floresce hoje porque floriu ontem.
as flores de hoje anunciam
o florido de amanhã
que será idêntico
ao que floresceu anteontem, ontem e hoje.

Tão certo este silogismo da semente
que numa qualquer manhã
me irradiou a luz da esperança.
JLR

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Olhar para si para ver a alegria da vida


1. A necessidade de parar para pensar a história pessoal deve ser uma constante da vida. Também a pessoa não é se não procurar pensar o seu modo de ser no que diz respeito ao passado, enquanto está a viver e quanto à perspectiva do futuro. Será muito importante esta preocupação em relação ao passado, ao presente e ao futuro na procura da felicidade.

2. O antigo Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes dizia: «Somos como o canhão, recuamos para que o projétil vá ainda mais longe». Esta necessidade de parar e de fazer silêncio, é muito importante para pensar a vida e tudo o que ela implica para a o bem próprio e do mundo. Muitas vezes o ficar quieto e o estar calado não significa, de modo nenhum, subserviência ou passividade perante as coisas que passam, mas significa procura lúcida de um bem próprio para melhor servir a vida e o mundo.

4. A paixão pela vida, pelo que sou e pelo que posso dar, obriga-me a olhar a própria história com amor e compaixão para depois me relançar outra vez sobre o que sou. Olhar a própria história é a possibilidade de reconciliar-se consigo mesmo, harmonizar o espaço, organizar-se, criar espaço para poder funcionar e relançar-se outra vez sobre as coisas da vida.

5. É preciso valorizar e acolher com amor aquilo que somos e temos dentro de nós. Não há outra história da salvação de Deus à margem da nossa história pessoal. A história da salvação é a história da humanidade. Estar contra esta forma de pensar a ação de Deus é violar o projeto de salvação de Deus para o mundo e para a humanidade toda.

6. Agora peço-vos um pequeno exercício de adaptação. Reparemos na frase de Martin Buber: «Deus não me pedirá contas de não ter sido Francisco de Assis ou mesmo Jesus Cristo. Deus vai pedir-me contas de eu não ter sido completa e intensamente Martin Buber».

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Prós e contras no Serviço Nacional de Saúde

Ontem dia 11 de Fevereiro, precisamente o dia mundial do doente, assisti ao debate da Fátima Campos Ferreira, Prós e Contras na RTP, sobre o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Ouvindo as várias posições ali explanadas, conclui-se três coisas. Duas conclusões positivas e duas negativas.

Primeira conclusão positiva, o nosso SNS, é bom e está bem posicionado perante os vários serviços de saúde por essa Europa fora. O corpo de profissionais estão bem qualificados e esmeram-se para prestar os cuidados de saúde com dignidade e seriedade aos doentes. Há investigação, por exemplo, o Hospital do Porto reserva cerca de 8 milhões de euros para esse fim. Há hospitais bem equipados e bem geridos.

Segunda, também positiva, gostei de ver a Ministra da Saúde, Marta Temido, ali presente diante das várias entidades representativas do SNS, ouvia calmamente e respondia com serenidade e segurança. Serviu para ver que Marta Temido, está dentro dos problemas, sem deixar de apontar, sem propagandear, o que tem sido feito, o que se pretende fazer e como está a ser difícil resolver problemas crónicos que se têm arrastado de governo para governo e de administração para administração de cada um dos nossos hospitais. Pelo visto, muitos dos problemas requerem boa gestão e não tanto a ferramenta de milhões de euros como tantas vezes se ouve falar. Louvo a lição da Sra Ministra da Saúde.

Terceira conclusão, negativa, o SNS numa larga maioria de hospitais, estão a ser muito mal geridos, profissionais desmotivados e materiais obsoletos (denunciado por um enfermeira). Obviamente, que esta doença grave e pelo que se ouviu “doença crónica”, estende os seus tentáculos venenosos por todos os serviços dos hospitais, gerando assim um péssimo ambiente. A desmotivação dos profissionais conduz ao desleixo. O mau ambiente conduz à desconfiança dos utentes, como se pode ver a olho nu nos problemas generalizados que a nossa população aponta em relação ao SNS.

Quarta conclusão, igualmente negativa, pelo meio disto tudo paira a ideia de que a saúde é um grande negócio. A ganância dos privados, vai fazendo das suas. Seduz políticos, daí se concluir que muita da imagem negativa do SNS está a ser empolada e instrumentalizada, pois tem servido de bola de arremesso no joguete partidário. Os privados seduzem os profissionais do SNS, que se deixam encantar com o eldorado dos serviços paralelos, permitindo com isso a desmotivação e o desleixo. As ditas “greves cirúrgicas” dos enfermeiros têm servido bem estes esquemas, mesmo que à partida lhes assista muita razão para estarem em greve.

Conclusão geral, a bem de todos nós e do futuro da nossa população requere-se responsabilidade. O SNS não deve ser um negócio, mas deve ser bem gerido e nos diversos serviços de saúde não devem faltar todas as condições exigíveis, para que os seus profissionais possam cumprir o seu dever em prol dos doentes. A saúde é o pilar fundamental da sociedade para a fazer sorrir no presente e ser a melhor garantia do seu futuro. 

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Metamorfose

Os poemas são árvores que rasgam o céu e a terra
desvelam-se pelas alturas pintadas de verde sob o manto azul
e rasgam a profundidade da terra
como letras naquilo que nos é dado ler.
um mundo misterioso e silencioso
pelo céu adentro e dentro da terra,
que a densidade do livro guarda
na mensagem como o dom do fruto
dentro do gosto e do repouso seguro,
que nos alimenta em cada instante
as mãos que colhem e que partem.
por fim te alegras satisfeito pelo espanto de saberes
do assombro da harmonia do que soletras
pelos ramos luzidios amarelados de sorrisos
que pendem como alimento que te saciam
o corpo e a alma. Árvores também são poemas.
JLR

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

O terrorismo doméstico

1. Terrorismo doméstico, silencioso, por um lado, estridente, por outro, quando tomamos conta das suas consequências.

2. As notícias de hoje dão conta que pelo menos nove mulheres foram assassinadas em Janeiro, só no primeiro mês do ano de 2019. Ontem, soubemos que um monstro matou à facada a sogra, fugindo com a filha menor, esta manhã descobriram a menina morta dentro da bagageira de um carro. Em poucas palavras eis o enrendo de uma longa metragem que há muito tempo deve ter sido rodado nesta família.

3. A sociedade em geral é machista e patriarcal, institui e valoriza práticas sociais que desqualificam ou menorizam as mulheres. Estas práticas contribuem para que todos os dias do ano tenhamos uma cultura de violência contra as mulheres, particularmente, a violência doméstica e a violação, porque, por mais que se pinte de cor de rosa um dia do ano dedicado à mulher sempre haverá homens que são levados a crer que têm o «direito» de cometer diversos tipos de violência contra a mulher, inclusive a violência física, emocional, psicológica e sexual. E reforço a ideia, as mulheres são as primeiras a se prestarem a isto. Denunciem, não deixem passar o primeiro beliscão ou puxão de cabelos, não calem o que não deve ser calado, lutem pela dignidade, sejam as protagonistas da igualdade de tratamento e de oportunidades. Ninguém é dono de ninguém e ninguém é mais do que ninguém. O mesmo discurso serve para os lugares onde a violência é exercida da mulher contra o homem, mesmo que em menor escala. 

4. A crueza dos números é preocupante. Mas salta-me à vista e provoca-me um arrepio haver gente que considera existir atitudes violentas que podem ser consideradas de normais. Tem que haver causas, que necessariamente, conduzem a isto. Tem que existir instâncias e pessoas culpadas desta vergonha. O ambiente de casa também deve estar a ajudar imenso neste descalabro. A escola faz o que pode, mas os alunos são o espelho do que receberam em casa, do que vão vendo na televisão e na internet. Obviamente, que não quero ser injusto e ofender ninguém, mas os pais devem ser colocados à cabeça dos responsáveis por esta tragédia social. Porém, e essencialmente, tudo isto é bem revelador do desastre da falta de valores em que vivemos em toda a linha. E nesta crise, destaco o vazio de autoridade a que o ambiente geral condenou todas instâncias da educação.

5. A humanidade está em marcha atrás e vai para aquele ponto de onde, felizmente, tínhamos saído da violência famosa que várias vezes ouvimos, «quanto mais me bates, mais gosto de ti», ou da pancada com o ramo de flores, ou ainda da fatalidade do «tirano no seio do lar» que tanta instabilidade emocional provocava nos membros da família. 

6. Não se mata em nome de nada nem em nome de ninguém. É isto que penso, é isto que procuro viver e ensinar. Nada deste mundo e do outro vale mais do que uma vida humana. Por isso, não se resolvem os problemas a tiro ou com outros instrumentos que se sabe à partida que vão tirar a vida a uma pessoa. Ninguém merece que assim seja. Nenhuma necessidade por mais urgente que seja merece que se viva com a violência na ponta dos dedos e com o coração carregado de ódio. Há meios próprios, mesmo que tantas vezes morosos e injustos, mas é nesses lugares que se deve procurar remediar as injustiças e o cumprimento da lei. O dia hoje começou negro e triste.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

A tua casa na noite escura


Aqui estou
Todo despido das certezas que me impuseram
Sou o tempo volátil de um pequeno pensamento
Para ficar em silêncio
Livre de mágicos e servos dos deuses
A contemplar no meu caminho a tua face

Sei que és o mais distante de todos os rostos
Nunca vi o teu sorriso nem um brilho de olhos ao menos
Mas dentro do meu mistério bati na tua porta
Onde mora a ausência deste momento
Não deixa de ser um encontro
Que com apenas palavras se fez o convite
E o meu coração não ficou ao relento

Ó tão escura esta noite interior
Porém suave e serena pelo encanto
Mesmo que sinta ser do além o teu rosto denso
Bastou que eu entrasse naquela casa pela alma
O anfitrião de quem falo é Senhor dos valores
Pude comprová-lo pelos passos em volta no jardim
Que me ofereceu o sorriso das fores
JLR