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segunda-feira, 25 de março de 2019

Misoginia e fundamentalismo

1. «O Estado das Coisas», foi o título de um filme Wim Wenders, realizador de cinema alemão. Vi este filme magnífico em 2003. Arrecadou o prémio «Leão de Ouro» do Festival de Veneza de 1982. É uma coprodução entre a Alemanha, os EUA e Portugal.

2. O enredo anda à volta de outro filme sem história. O mais interessante do estado das coisas revela-se ao longo das interessantes sequências a preto e branco, onde se vê um grupo de mulheres, homens e crianças totalmente perdidos à procura de uma história que lhes dê sentido ao trabalho que gostariam de realizar. O estado das coisas não é só uma leitura sobre o cinema, mas também é uma visão do estado de desencanto, de perdição e de desorientação da existência nos tempos que correm.

3. Depois desta referência cinematográfica, olho o estado das coisas à minha volta e descubro que mais uma vez ficou provado que não vale mesmo nada lançar-se no fosso dos leões, como nos primeiros séculos aconteceu com os cristãos que eram lançados nas arenas dos coliseus romanos. As garras do fundamentalismo ditam as regras, quem não o venera, morre como bode expiatório. Que o digam professores, médicos, padres, juízes, entre tantos outros…

4. A estupidez comanda a vida em todos os tempos, mas hoje especialmente, se tomarmos em linha de conta a sociedade das dignidades, dos direitos e dos valores democráticos. Para uns tudo, mas para a maioria zero. Porém, o mais grave é a misoginia dos responsáveis por tudo isto, visto terem tomado conta de todos sem provas dadas de saberem tomarem conta de si mesmos. Basta que os seus fiéis executantes bêbedos de fundamentalismo vão fazendo aquele trabalho sujo, de sanear e matar as ovelhas mais atrevidas do rebanho.

5. Perante este estado das coisas, ou acordamos de uma vez por todas ou morremos todos ao frio e à fome, porque o canhão da porta da despensa foi mudando pela calada da noite, e nessa hora nenhuma compaixão se verá nem para carneiros nem para ovelhas.

sábado, 23 de março de 2019

Confissão pública em três peças

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre...
Primeira peça
perdão…
pelas palavras jogadas ao vento
saídas por entre os dedos
sem pensamento ou sem amor
indelicadas algumas vezes
pelo manto escuro da indiferença
que mata a alma e o sorriso.

Segunda peça
perdão…
por não proteger o teu nome por amor
foram ações sem estrelas e sem o mar
não era eu a perder a minha vida
era um sono esquisito a fazer-me morto
pois esquecidos foram os ensinamentos
e só ficou o refrão de uma velha canção
para aquecer os ouvidos.

Terceira peça
Perdão..
se não exalo o perfume dos sorrisos
se a alegria da fé
nas noite em que vivi acalentado
não disse a graça do inominável
e se os meus passos eternamente fugiram
da doçura constante do afeto…
nesta hora exaspero lágrimas fascinado
diante das promessas de unção
porque eu sei da alma colorida
pelas palavras misteriosas
dos véus da alma que degusta o perdão.
JLR

quinta-feira, 21 de março de 2019

Todos nasceram para paixão da bondade

São tantos os momentos da nossa vida em que encontramos várias circunstâncias adversas que nos merecem veemente resistência, indignação e repúdio até ao mais duro desprezo. A nossa humanidade, a nossa firme convição do que somos e do que desejamos de bom para nós e para os outros a isso nos exigiria. 

Porém, tantas outras vezes quando exercemos essas reações, reparamos quando a serenidade nos chega, que afinal pouco adiantou termos sido duros e até pior ainda, reparamos que os mais prejudicados com aquilo que fizemos e dissemos em nome da moral e dos bons costumes pessoais, fomos nós próprios os mais prejudicados e tudo isso deixou marcas para longo tempo e quiçá de algumas nunca mais nos libertamos.

Precisamos de fugir humildemente da cólera, do orgulho mesmo quando podemos oferecer resistência. Devia ser proibido ninguém se exaltar exageradamente e injustamente diante das afrontas, pois ao insulto não pagar com o insulto, o ódio não deve ser resposta ao ódio, a violência não ser a resposta pronta à violência, a incompreensão e a intolerância não devem encontrar espaço para o palavreado, a calúnia, a maledicência… 

Portanto, que façamos a descoberta que o mais glorioso é evitar a injustiça da injúria fazendo silêncio e sempre que possível evitar discussões estéreis. 

terça-feira, 19 de março de 2019

Manifesto pelo fim da escravidão


A aldrabice religiosa para semear o medo, casada com sujeira, mata o sonho e assassina a liberdade. Ainda bem que hoje a autonomia individual, é pão sobre a mesa da ousadia do pensamento de cada pessoa que escolhe a vida por si mesma. E a credibilidade? - Bastam sinais concretos que levantem do chão os caídos para que se sirvam do pão da liberdade e da dignidade concedida universalmente. Ninguém é dono de nada. Todos diferentes todos iguais. Quem não gosta terá que se repensar! JLR

sábado, 16 de março de 2019

A glória em nós do Tabor


16 Março de 2019
Vamos entrar para dentro da Transfiguração
façamos uma moradia, um pensado silêncio
breve ou prolongado à vontade do eu
que antecipe a iluminação
que clarifique que nunca vi

acerca da opacidade e do segredo escondido
de um Deus glória
dentro de uma face que sorri.

Vinde todos de cá de baixo onde há frio e fome
subamos a montanha
do desassossego em contemplação
o universo divinizado tem um novo nome
anda com ânimo levanta
o fardo das traições
mesmo que das flores colhidas antevejas a morte
sentida por causa das repetidas perversões.

Peço que passe um Deus como fogo por mim
que devore o matagal do egoísmo
quando se afirma na mentira que impede
a doçura persistente do meu sim
há uma batalha interna que cai pelo abismo
de onde vem o medo que trava o espanto
do mistério que esta glória nos concede. 

Ó sublime montanha do Tabor
és divinamente transfigurada por graça
sinal que afasta as sombras da gravidade de mim
se rezo limpa todo o mal que me trespassa
ora se crava fundo se há riso superficial
quando teimoso o mundo não perdoa esta dor
agora sereno desço desse espaço rarefeito
foi a grandeza de Deus e do assombro
que é o tudo do que em nós é fundamental.
JLR

sexta-feira, 15 de março de 2019

Causas grandes na mão dos jovens

Escrever nas estrelas
Este é o contexto de um tempo sem tempo para o amor, a paz, o respeito pela liberdade e diferença dos outros, porque predomina a violência terrível em toda a linha. Ela é nos atentados e massacres, abusos sexuais de toda a ordem, violência doméstica, mediocridade nos programs de TV, manipulação das pessoas a troco de bens materiais e todo o género de misérias que campeiam o nosso tempo.

Neste panorama sombrio de ódio onde se descobre o pior a humanidade, emerge um grupo de adolescentes e jovens em todo o mundo que dizem não. São eles os inspiradores de que do meio das cinzas pode emergir uma fénix revestida de paz e enfeitada de consciência ecológica. Pela greve do clima dizem à humanidade inteira verdadeiramente o que importa salvar e que a haver guerras, terão que ser com batalhas úteis, em nome da salvação do nosso Planeta Terra e o futuro da humanidade.

O movimento mundial foi encabeçado pela corajosa jovem sueca Greta Thunberg, que desencadeou a mobilização mundial dos estudantes (já começaram a chegar notícias que nos dão conta de manifestações gigantescas de jovens em várias partes do globo). Matilde Alvim e Beatriz Barroso, de 17 anos, são as duas jovens portuguesas, que começaram por dar voz à greve sobre o clima em Portugal.

Sobre a ideia derrotista que frequentemente se ouve nestes movimentos, de que a greve não vai mudar nada, disseram as duas jovens portugueses, líderes do movimento no nosso país: «A greve não vai mudar nada, mas vai plantar a semente». Muito bom e inspirador. Vamos seguir-lhe as pegadas. O futuro é dos jovens é comum dizer. E se vivem hoje com esta ideia tão bonita de que pertence-lhes plantar sementes, afinal, descobrimos, que o mal pode ser vencido. Basta querer, porque também é comum pensar-se que querer é poder. 

terça-feira, 12 de março de 2019

Problemas concretos soluções claras

Escrever nas estrelas

As várias questões que nos assolam todos os dias, sinal da derrota e incompetência que nos persegue ao mesmo tempo, merecem clareza na análise e firmeza numa luta concreta a encetar todos os dias.

A questões da pobreza, a falta de emprego, as necessárias condições de habitação, a saúde e educação, a violência familiar (vulgo violência doméstica), a emigração massiva, estão a tornar impossível a vida das populações em todo o mundo. Entre nós não fugimos esta a regra e sofremos com as suas consequências. Não devem ser as declarações de céu azul que alguns dos nossos governantes proclamam, a garantir que afinal a vida está melhor e que se vive muito melhor hoje ao contrário de nenhum outro momento da história da humanidade.

Também não vale que nos falem destes assuntos no meio de um aparato bíblico, teológico e filosófico, e, no caso, da Igreja Católica, em manancial de citações de documentos eclesiásticos. Não está provado, que tais questões pintadas com letras religiosas ou bíblicas se tornem doces ou vistosas porque têm cores que agradam a vista.

Este procedimento, longe de esclarecer, obscurece as problemáticas e não lhes dá o devido valor no contexto da história que estamos a construir e a viver no presente. Os textos cheios de citações que justificam posturas tradicionalistas, disfarçam incompetências, justificam más opções ou adiam soluções, não permitem que tenhamos uma visão integral dos problemas e muito menos suscitam a criatividade, abertura à novidade que se espera que venham responder aos desafios sempre novos colocados à humanidade de cada tempo.

sábado, 9 de março de 2019

As tentações


Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre...
Três vezes, Jesus, tentado por Satanás
Os olhos em chama estão nas mãos em brasa
O Anjo vencer do ódio é o que serás
Sente-se o amor na recusa que para nós amassa.

«Manda a esta pedra ser pão!»… Ó vil devaneio
Move montanhas, és Deus! – de joelhos vem adorar
Serás dominador das cidades do mundo inteiro
Jesus suporta com a palavra e não se deixa devorar.

«Nem só de pão vive o homem!»… Ficou dito,
E «não tentarás Deus!»… Sai daqui bicho esquisito
Satanás cobarde fugiu e a manha foi vencida.  

O poder e fama são a dor da humanidade ferida
É esta a quotidiana desgraça desta vida,
Jesus vencedor é mão para cada recaída.   
JLR

sexta-feira, 8 de março de 2019

A cegueira mata a ousadia da novidade

Os sinos devem dobrar a rebate porque não se percebeu ou faz-se de conta que não se percebeu a gravidade das coisas. Por isso, humildade e abertura ao que é novo devia ser regra essencial para toda a hierarquia da Igreja Católica. 
Não se percebe a insistência nas mesmas fórmulas e regras de piedade que hoje não colam porque não servem à maioria dos cidadãos. Serviram noutros tempos e, reconheçamos, contribuíram muito para o bem estar das pessoas e para a sua santidade. Mesmo que também em alguns momentos tenham sido aplicados, exigidos de forma desumana até ao preço da perda da liberdade e vontade das pessoas. Esse pecado existe e ainda não foi redimido.
Porém, nos tempos atuais é preciso enxergar que há um descrédito muito grande em relação à Igreja Católica. Inegável esta constatação. A sua fragilidade é constrangedora. Os escândalos que já vieram público minam a sua autoridade. Os que faltam vir podem ser fatais. Por isso, está a ser ridículo para não dizer penoso ver como estão a cair em saco roto os apelos ao pieguismo anacrónico, que face aos contexto dos tempos de hoje não colam e estão a ser ouvidos com a maior das indiferenças. Problemas novos soluções novas. Eis a luz da inteligência.
Não perceber isto é insistir em modelos de piedade do passado que hoje não servem e teimar numa cegueira que matará a ousadia do Evangelho, que se tomado a sério responde seguramente, com novidade a todos os novos desafios. 

terça-feira, 5 de março de 2019

A conversão ecológica

«A criação encontra-se em expetativa ansiosa,
aguardando a revelação dos filhos de Deus» (Rm 8, 19)

Citação (se pretender na íntegra leia aqui) da Mensagem do papa Francisco para a Quaresma de 2019:
«Esta «impaciência», esta expetativa da criação ver-se-á satisfeita quando se manifestarem os filhos de Deus, isto é, quando os cristãos e todos os homens entrarem decididamente neste «parto» que é a conversão. Juntamente connosco, toda a criação é chamada a sair «da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus» (Rm 8, 21). A Quaresma é sinal sacramental desta conversão. Ela chama os cristãos a encarnarem, de forma mais intensa e concreta, o mistério pascal na sua vida pessoal, familiar e social, particularmente através do jejum, da oração e da esmola.
Jejuar, isto é, aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de «devorar» tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração. Orar, para saber renunciar à idolatria e à autossuficiência do nosso eu, e nos declararmos necessitados do Senhor e da sua misericórdia. Dar esmola, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos, com a ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projeto que Deus colocou na criação e no nosso coração: o projeto de amá-Lo a Ele, aos nossos irmãos e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade». 
Quaresma 2019, Papa Francisco

sábado, 2 de março de 2019

Estavas aí

Para o nosso fim de semana. Carnaval... Sejam felizes, nunca prejudicando ninguém.
Estavas aí entre uma luz e uma sombra
cada passo envolto na insegurança
que a noite cobre na timidez e no segredo
do escuro que toda a indignidade vomita.

Foram mulheres que sorriram como crianças
estava lá o sonho e a esperança
porque estiveram lá naquele momento certo
o amor e uma mão que toca no ombro
para dizer,
- estavas aí...
És sorriso e paz.

JLR

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

As nossas escolhas

Todos temos de uma forma ou de outra alguma vez na vida a tarefa de escolher qualquer coisa que pensamos ser o melhor para o nosso bem e o bem de todos. Todas as escolhas têm o seu grau de dificuldade. Quando se trata de escolher pessoas, parece-me ser a tarefa ainda mais difícil. Mas alguma vez pode ser que o tenhamos que fazer. É tão triste e dramático quando as escolhas não se fazem por causa da competência e seriedade. Os critérios não podem ser acidentais ou de interesses, ignorando-se o essencial. Quando a hierarquia dos valores começa pelo aspeto físico, a simpatia, a classe social e a subserviência manifestada às chefias… Estamos perante péssimas escolhas, porque ficaram no fim ou fora do rol dos critérios a competência, a gradeza do coração e a sinceridade de caráter das pessoas. Para quem escolhe há uma grave responsabilidade e deve guiar-se sempre pelo interior, tanto o seu como o de quem pretende escolher. Porque os cargos de responsabilidade, não podem compadecer-se com irresponsáveis que num ápice, sob manias pessoais e ideias loucas podem destruir coisas que levaram muito tempo a ser edificadas.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

A indignação é pão


Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre...
Cândido Portinari. Museu Casa de Portinari
Um dia na vida
alguns são heróis anónimos
do fogo bravo
que nos consome os dedos
a língua entre as brasas
da revolta desta pobreza
cheia de dinheiro.

São estes os culpados
da podridão de gravata
à mesa de gabinetes
engomados
com as nossas cabeças
e alimentados com o pão dos outros.

É este drama que arde
a canalhice toda
dos pérfidos sentidos
que o cancro da máquina
engendra privilégios
que consomem o caminho de todos.

Tem sido esta voracidade
a irrigar as artérias
todos os montes e vales
deste tempo
sem modos nenhuns
que vão fazendo verter
as lágrimas da dor
pela solidão e abandono.

Neste quadrado
somos todos
o singelo produto
o número frio
ou o nome qualquer
na massa do mundo
que dita o fim da vontade
porque eles não gostam
da graça da liberdade.

E do meio das cinzas
a suave sensação
é a certeza
que a indignação é pão.
JLR

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Pai e mãe fora da escola

1. As escolas públicas em França estão prestes a eliminar a designação de «pai» e «mãe» nos formulários, de forma a não discriminar as pessoas do mesmo sexo. Segundo o jornal «Libération», os formulários devem passar a ter «parente 1» e «parente 2», em vez de «pai» e «mãe». Também já vi em outras notícias «responsável 1» «responsável 2», já vi também simplesmente: «encarregado 1» e «encarregado 2». E em outro «encarregado de educação 1» e «encarregado de educação 2». E ainda «progenitor 1» e «progenitor 2». Já dá para perceber a confusão que para aqui vai.

2. Enfim, nomes e mais nomes para substituir o insubstituível. Por aqui vemos logo a confusão que esta ideia esquisita começa a gerar. A criatividade humana não tem limites pelo que se vê. Longe de mim imaginar que alguma vez na vida estaria para a aqui a perder tempo e massa cinzenta com um assunto desta natureza. O que faltará para nos surpreender ainda mais este mundo e a esta humanidade… Não há limites, pelo que a vida nos ilumina.

3. Provavelmente, abaixo de Deus Todo poderoso o que temos de mais sagrado são os nossos progenitores, os nossos pais. Daí ser parte da nossa existência intocável. O seu respeito toca a todos, principalmente, as entidades dos Estados, que deviam zelar por esta dimensão da vida de cada pessoa. É  muito bem o Estado os problemas que tem que resolver quando falha a missão de ser «pai» e «mãe».  

4. É verdade que a inclusão do que é diferente deve ser uma preocupação da sociedade inteira, particularmente, do Estado, a quem compete zelar pelo bem dos cidadãos todos. Porém, nunca essa inclusão deve ser à custa dos valores e princípios que desde sempre enformaram a humanidade, que contribuem para o seu progresso e bem estar. Sim, qualquer ideia de incluir o diferente implica a obrigação de mudança de mentalidades e de comportamentos, mas sem tirar-nos aquilo que faz parte da génese do ser pessoa, do ser gente.

5. A vontade de banir do meio escolar a designação «pai» e «mãe», vai acarretar uma série problemas, que agudizarão as fragilizadas relações parentais que assistimos hoje. As crianças cada vez mais cedo saiem da alçada dos pais, por causa da vida envolvente dos nossos tempos, Ficam cada vez mais tempo entregues ao domínio da escola, se aí deixam de ouvir falar das palavras mais efetuosas da vida, «pai» e «mãe», não sobrará nada para saborearem no pouco tempo que lhes sobra lá em casa junto dos seus progenitores. Uma medida que requer reflexão ponderada e que deve ter em conta todas as pontas.

6. A meu ver é uma ideia grave. Um recuo civilizacional, que não contribuirá em nada para incluir quem pretendem que seja incluído, mas pelo contrário, noutro campo suscitará graves problemas nas paupérrimas relações entre pais e filhos que tanto afligem os tempos atuais. Espero que o bom senso impere e que em qualquer lugar da vida ninguém fique privado de sentir que a sua principal proteção está no coração do «pai» e da «mãe».

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Problemas graves requerem medidas radicais

1. Hoje é um dia importante para a Igreja. O Papa Francisco deu hoje início à inédita cimeira de bispos e responsáveis religiosos da Igreja Católica sobre o «escândalo da pedofilia» e a crise dos abusos sexuais, que classificou como uma «chaga». «O santo povo de Deus olha para nós e espera de nós não apenas condenações simples e óbvias, mas medidas concretas e eficazes a aplicar. É preciso ser concreto», referiu o Papa, perante os 190 participantes, reunidos no Vaticano.

2. A Igreja inteira e o mundo esperam desta reunião precisamente aquilo que definiu o Papa «medidas concretas e eficazes». É verdade que é isso mesmo, mas melhor seria no meu singelo ver, que se esperam «mudanças profundas e concretas» para o modo de funcionamento da Igreja Católica.

3. Vamos a algumas medidas, para que tudo isto não passe de simples curativos, que recheiam o palavreado da mudança e da transparência mas na realidade tudo fica na mesma. É preciso combater o clericalismo, mudando todo o sistema que o alimenta principalmente o homossexualismo moralista cego contra as mulheres e os heterossexuais. Por isso, seria necessária abertura total, começando no Papa, passando pelos cardeais, os bispos e pelos padres, para que o sistema permita o Sacramento da Ordem às mulheres. Porque vivemos uma situação totalmente desfazada da realidade dos tempos de hoje, que reclamam igualdade entre homens e mulheres. A Igreja neste aspeto tem o dever dar o exemplo. O patriarcalismo que a hierarquia católica ainda apresenta não tem futuro tal como está e não terá vontade nem muito menos sabedoria para estancar a «chaga» dos  abusos sexuais.

4. A redução das perversões sexuais dentro da Igreja Católica dar-se-ão quando todo o sistema funcionar saudavelmente, convivendo homens e mulheres com a sua integridade sexual devidamente equilibrada. Sejam eles hetero ou homossexuais, casados ou solteiros.

5. Este retrato da Igreja seria uma verdade mais humana e mais profundamente ligada à Palavra do Evangelho de Jesus, que chamou e contou com homens e mulheres para o Seu Reino. Poderão dizer-me, os apóstolos são doze, todos homens, eu digo, mas as primeiras testemunhas da Ressurreição de Jesus são mulheres e quem prova que não fossem também apóstolas… Enfim, para tudo há sempre argumentos. Porém, neste aspeto dos abusos sexuais, enquanto as mudanças radicais não varrerem a Igreja de alto a baixo, tudo o que se faça para combater a «chaga» não passará de remendos que surtem efeito até certa medida e até certo tempo.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Silogismo da semente

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre...
O semeador
Só floresce hoje porque floriu ontem.
as flores de hoje anunciam
o florido de amanhã
que será idêntico
ao que floresceu anteontem, ontem e hoje.

Tão certo este silogismo da semente
que numa qualquer manhã
me irradiou a luz da esperança.
JLR

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Olhar para si para ver a alegria da vida


1. A necessidade de parar para pensar a história pessoal deve ser uma constante da vida. Também a pessoa não é se não procurar pensar o seu modo de ser no que diz respeito ao passado, enquanto está a viver e quanto à perspectiva do futuro. Será muito importante esta preocupação em relação ao passado, ao presente e ao futuro na procura da felicidade.

2. O antigo Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes dizia: «Somos como o canhão, recuamos para que o projétil vá ainda mais longe». Esta necessidade de parar e de fazer silêncio, é muito importante para pensar a vida e tudo o que ela implica para a o bem próprio e do mundo. Muitas vezes o ficar quieto e o estar calado não significa, de modo nenhum, subserviência ou passividade perante as coisas que passam, mas significa procura lúcida de um bem próprio para melhor servir a vida e o mundo.

4. A paixão pela vida, pelo que sou e pelo que posso dar, obriga-me a olhar a própria história com amor e compaixão para depois me relançar outra vez sobre o que sou. Olhar a própria história é a possibilidade de reconciliar-se consigo mesmo, harmonizar o espaço, organizar-se, criar espaço para poder funcionar e relançar-se outra vez sobre as coisas da vida.

5. É preciso valorizar e acolher com amor aquilo que somos e temos dentro de nós. Não há outra história da salvação de Deus à margem da nossa história pessoal. A história da salvação é a história da humanidade. Estar contra esta forma de pensar a ação de Deus é violar o projeto de salvação de Deus para o mundo e para a humanidade toda.

6. Agora peço-vos um pequeno exercício de adaptação. Reparemos na frase de Martin Buber: «Deus não me pedirá contas de não ter sido Francisco de Assis ou mesmo Jesus Cristo. Deus vai pedir-me contas de eu não ter sido completa e intensamente Martin Buber».

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Prós e contras no Serviço Nacional de Saúde

Ontem dia 11 de Fevereiro, precisamente o dia mundial do doente, assisti ao debate da Fátima Campos Ferreira, Prós e Contras na RTP, sobre o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Ouvindo as várias posições ali explanadas, conclui-se três coisas. Duas conclusões positivas e duas negativas.

Primeira conclusão positiva, o nosso SNS, é bom e está bem posicionado perante os vários serviços de saúde por essa Europa fora. O corpo de profissionais estão bem qualificados e esmeram-se para prestar os cuidados de saúde com dignidade e seriedade aos doentes. Há investigação, por exemplo, o Hospital do Porto reserva cerca de 8 milhões de euros para esse fim. Há hospitais bem equipados e bem geridos.

Segunda, também positiva, gostei de ver a Ministra da Saúde, Marta Temido, ali presente diante das várias entidades representativas do SNS, ouvia calmamente e respondia com serenidade e segurança. Serviu para ver que Marta Temido, está dentro dos problemas, sem deixar de apontar, sem propagandear, o que tem sido feito, o que se pretende fazer e como está a ser difícil resolver problemas crónicos que se têm arrastado de governo para governo e de administração para administração de cada um dos nossos hospitais. Pelo visto, muitos dos problemas requerem boa gestão e não tanto a ferramenta de milhões de euros como tantas vezes se ouve falar. Louvo a lição da Sra Ministra da Saúde.

Terceira conclusão, negativa, o SNS numa larga maioria de hospitais, estão a ser muito mal geridos, profissionais desmotivados e materiais obsoletos (denunciado por um enfermeira). Obviamente, que esta doença grave e pelo que se ouviu “doença crónica”, estende os seus tentáculos venenosos por todos os serviços dos hospitais, gerando assim um péssimo ambiente. A desmotivação dos profissionais conduz ao desleixo. O mau ambiente conduz à desconfiança dos utentes, como se pode ver a olho nu nos problemas generalizados que a nossa população aponta em relação ao SNS.

Quarta conclusão, igualmente negativa, pelo meio disto tudo paira a ideia de que a saúde é um grande negócio. A ganância dos privados, vai fazendo das suas. Seduz políticos, daí se concluir que muita da imagem negativa do SNS está a ser empolada e instrumentalizada, pois tem servido de bola de arremesso no joguete partidário. Os privados seduzem os profissionais do SNS, que se deixam encantar com o eldorado dos serviços paralelos, permitindo com isso a desmotivação e o desleixo. As ditas “greves cirúrgicas” dos enfermeiros têm servido bem estes esquemas, mesmo que à partida lhes assista muita razão para estarem em greve.

Conclusão geral, a bem de todos nós e do futuro da nossa população requere-se responsabilidade. O SNS não deve ser um negócio, mas deve ser bem gerido e nos diversos serviços de saúde não devem faltar todas as condições exigíveis, para que os seus profissionais possam cumprir o seu dever em prol dos doentes. A saúde é o pilar fundamental da sociedade para a fazer sorrir no presente e ser a melhor garantia do seu futuro. 

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Metamorfose

Os poemas são árvores que rasgam o céu e a terra
desvelam-se pelas alturas pintadas de verde sob o manto azul
e rasgam a profundidade da terra
como letras naquilo que nos é dado ler.
um mundo misterioso e silencioso
pelo céu adentro e dentro da terra,
que a densidade do livro guarda
na mensagem como o dom do fruto
dentro do gosto e do repouso seguro,
que nos alimenta em cada instante
as mãos que colhem e que partem.
por fim te alegras satisfeito pelo espanto de saberes
do assombro da harmonia do que soletras
pelos ramos luzidios amarelados de sorrisos
que pendem como alimento que te saciam
o corpo e a alma. Árvores também são poemas.
JLR

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

O terrorismo doméstico

1. Terrorismo doméstico, silencioso, por um lado, estridente, por outro, quando tomamos conta das suas consequências.

2. As notícias de hoje dão conta que pelo menos nove mulheres foram assassinadas em Janeiro, só no primeiro mês do ano de 2019. Ontem, soubemos que um monstro matou à facada a sogra, fugindo com a filha menor, esta manhã descobriram a menina morta dentro da bagageira de um carro. Em poucas palavras eis o enrendo de uma longa metragem que há muito tempo deve ter sido rodado nesta família.

3. A sociedade em geral é machista e patriarcal, institui e valoriza práticas sociais que desqualificam ou menorizam as mulheres. Estas práticas contribuem para que todos os dias do ano tenhamos uma cultura de violência contra as mulheres, particularmente, a violência doméstica e a violação, porque, por mais que se pinte de cor de rosa um dia do ano dedicado à mulher sempre haverá homens que são levados a crer que têm o «direito» de cometer diversos tipos de violência contra a mulher, inclusive a violência física, emocional, psicológica e sexual. E reforço a ideia, as mulheres são as primeiras a se prestarem a isto. Denunciem, não deixem passar o primeiro beliscão ou puxão de cabelos, não calem o que não deve ser calado, lutem pela dignidade, sejam as protagonistas da igualdade de tratamento e de oportunidades. Ninguém é dono de ninguém e ninguém é mais do que ninguém. O mesmo discurso serve para os lugares onde a violência é exercida da mulher contra o homem, mesmo que em menor escala. 

4. A crueza dos números é preocupante. Mas salta-me à vista e provoca-me um arrepio haver gente que considera existir atitudes violentas que podem ser consideradas de normais. Tem que haver causas, que necessariamente, conduzem a isto. Tem que existir instâncias e pessoas culpadas desta vergonha. O ambiente de casa também deve estar a ajudar imenso neste descalabro. A escola faz o que pode, mas os alunos são o espelho do que receberam em casa, do que vão vendo na televisão e na internet. Obviamente, que não quero ser injusto e ofender ninguém, mas os pais devem ser colocados à cabeça dos responsáveis por esta tragédia social. Porém, e essencialmente, tudo isto é bem revelador do desastre da falta de valores em que vivemos em toda a linha. E nesta crise, destaco o vazio de autoridade a que o ambiente geral condenou todas instâncias da educação.

5. A humanidade está em marcha atrás e vai para aquele ponto de onde, felizmente, tínhamos saído da violência famosa que várias vezes ouvimos, «quanto mais me bates, mais gosto de ti», ou da pancada com o ramo de flores, ou ainda da fatalidade do «tirano no seio do lar» que tanta instabilidade emocional provocava nos membros da família. 

6. Não se mata em nome de nada nem em nome de ninguém. É isto que penso, é isto que procuro viver e ensinar. Nada deste mundo e do outro vale mais do que uma vida humana. Por isso, não se resolvem os problemas a tiro ou com outros instrumentos que se sabe à partida que vão tirar a vida a uma pessoa. Ninguém merece que assim seja. Nenhuma necessidade por mais urgente que seja merece que se viva com a violência na ponta dos dedos e com o coração carregado de ódio. Há meios próprios, mesmo que tantas vezes morosos e injustos, mas é nesses lugares que se deve procurar remediar as injustiças e o cumprimento da lei. O dia hoje começou negro e triste.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

A tua casa na noite escura


Aqui estou
Todo despido das certezas que me impuseram
Sou o tempo volátil de um pequeno pensamento
Para ficar em silêncio
Livre de mágicos e servos dos deuses
A contemplar no meu caminho a tua face

Sei que és o mais distante de todos os rostos
Nunca vi o teu sorriso nem um brilho de olhos ao menos
Mas dentro do meu mistério bati na tua porta
Onde mora a ausência deste momento
Não deixa de ser um encontro
Que com apenas palavras se fez o convite
E o meu coração não ficou ao relento

Ó tão escura esta noite interior
Porém suave e serena pelo encanto
Mesmo que sinta ser do além o teu rosto denso
Bastou que eu entrasse naquela casa pela alma
O anfitrião de quem falo é Senhor dos valores
Pude comprová-lo pelos passos em volta no jardim
Que me ofereceu o sorriso das fores
JLR

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Faz todo o sentido uma pergunta


Sei apenas que Léon Bloy (pertenceu ao grupo dos chamados católicos franceses) proclamou: «Como não amam ninguém, creem eles que amam a Deus». E mais ainda, «ninguém se aproxima de Deus afastando-se dos homens... E ninguém se dá reservando-se para Deus. Por que motivo nos teria Ele então oferecido o amor?» (Pergunta colocada pelo teólogo alemão Eugen Drewermann, que escreveu o polémico livro «Os Funcionários de Deus»).
A vida de ninguém não parece ser possível no caos e na desordem total. Mas também não parece ser possível viver com o coração a leste do amor.
Ora vejamos, todas as opções, todas as funções humanas e sociais requerem uma dose muito elevada de entrega apaixonada. Ninguém se realiza como pessoa humana sem a assunção deste sentimento como valor fundamental para felicidade e para a paz.
Por isso, é preciso fazermos do nosso dia a dia um encontro com os valores, especialmente, o do amor concreto para com as pessoas concretas, para que dessa forma se descubra a presença de Deus em cada rosto que se desvela no sorriso da alegria porque chegou a amizade. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A alegria de ver crescer os outros na liberdade

O discurso do Papa Francisco aos Bipos da América Central (SEDAC) tem uma importância muito grande para nós. Deve ser tido em conta particularmente nesta época em que há um virar de página na história da nossa Diocese. Tomei a liberdade de escortinar umas passagens que considero mais significativas e que podem iluminar o nosso caminho de «pastores:

1. «O martírio não é sinónimo de pusilanimidade nem a atitude de alguém que não ama a vida nem sabe reconhecer o seu valor. Pelo contrário, o mártir é aquele que é capaz de encarnar e traduzir na vida esta ação de graças».

2. «Na Igreja, Cristo vive no meio de nós e, por isso, ela deve ser humilde e pobre, pois uma Igreja arrogante, uma Igreja cheia de orgulho, uma Igreja autossuficiente não é a Igreja da kenosis».

3. «é importante não ter medo de nos aproximarmos e tocarmos as feridas do nosso povo, que são também as nossas feridas, e fazê-lo segundo o estilo do Senhor. O pastor não pode estar longe do sofrimento do seu povo; mais ainda, poderíamos dizer que o coração do pastor se mede pela sua capacidade de deixar-se comover à vista de tantas vidas feridas e ameaçadas».

4. «A Igreja, por sua natureza, é Mãe e, como tal, gera e resguarda a vida protegendo-a de tudo o que possa ameaçar o seu desenvolvimento: uma gestação na liberdade e para a liberdade».

5. «São bem conhecidos a amizade do Arcebispo Romero com o Padre Rutilio Grande e o impacto que o assassínio deste teve na sua vida; foi um acontecimento que marcou profundamente o seu coração de homem, sacerdote e pastor. Romero não era um administrador de recursos humanos, não geria pessoas nem organizações; Romero sentia, sentia com amor de pai, amigo e irmão. Uma medida um pouco alta, mas útil para avaliar o nosso coração episcopal, uma medida à vista da qual podemos interrogar-nos: quanto me afeta a vida dos meus sacerdotes? Que impacto deixo ter em mim aquilo que vivem, chorando com as suas dores, congratulando-me e regozijando-me com as suas alegrias? Comecemos a medir o funcionarismo e clericalismo eclesiais – infelizmente tão difusos, constituindo uma caricatura e uma perversão do ministério – por estes interrogativos. Não é questão de mudar estilos, hábitos ou linguagem (certamente importantes); é questão sobretudo de impacto e capacidade de espaço, nos nossos programas episcopais, para receber, acompanhar e sustentar os nossos sacerdotes: um «espaço real» para nos ocuparmos deles. Isto faz de nós pais fecundos».

6. «Preocupa-me ver como a compaixão perdeu a sua centralidade na Igreja. Até mesmo os grupos católicos a perderam – ou estão a perdê-la, para não sermos pessimistas. Mesmo nos meios de comunicação social católicos, a compaixão não existe. Há a estigmatização, a condenação, a maldade, a obstinação, a supervalorização de si mesmo, a denúncia de heresia... Oxalá não se perca a compaixão na nossa Igreja; oxalá não se perca, no Bispo, a centralidade da compaixão. A kenosis de Cristo é a expressão máxima da compaixão do Pai. A Igreja de Cristo é a Igreja da compaixão; e isto começa em casa. É sempre bom perguntar-nos como pastores: que impacto tem em mim a vida dos meus sacerdotes? Sou capaz de ser um pai ou consolo-me com ser um mero executor? Deixo que me incomodem? Lembro-me das palavras de Bento XVI quando falava aos seus compatriotas no início do pontificado: «Cristo não nos prometeu uma vida confortável. Quem deseja comodidades, com Ele errou direção. Mas Ele mostra-nos o caminho rumo às coisas grandes, o bem, rumo à vida humana autêntica» (Discurso às Delegações e peregrinos alemães, 25/IV/2005). O bispo deve crescer todos os dias na sua capacidade de se deixar incomodar, de ser vulnerável aos seus padres. Estou a pensar num Bispo, um Bispo emérito duma diocese grande, grande trabalhador; recebia em audiência todos os dias de manhã e frequentemente, com muita frequência, quando terminava as audiências da manhã e com uma vontade enorme de ir comer, acontecia estarem ali à espera dele dois padres sem audiência marcada na agenda. Então voltava para trás e escutava-os como se tivesse a manhã toda à sua frente. Deixar-se incomodar e deixar que a massa acabe recozida e o bife frio. Deixar-se incomodar pelos sacerdotes».

7. «O fundamental nas visitas e que não podemos delegar, é a escuta. Há muitas coisas que fazemos todos os dias e que deveríamos confiar a outrem. Aquilo que, ao contrário, não podemos delegar é a capacidade de ouvir, a capacidade de acompanhar a saúde e a vida dos nossos sacerdotes. Não podemos delegar noutros a porta aberta para eles; uma porta aberta para criar as condições que tornem possível a confiança mais do que o medo, a sinceridade mais do que a hipocrisia, o intercâmbio franco e respeitoso mais do que o monólogo disciplinar».

8. «É importante que o pároco encontre o pai, o pastor no qual «se vê espelhado» e não o administrador que quer «passar revista às tropas». Com todas as coisas em que nos diferenciamos e até mesmo aquelas em que não estamos de acordo e as discussões que possam haver – sendo normal e desejável que existam –, é fundamental que os padres sintam o bispo como um homem capaz de gastar-se e expor-se por eles, fazê-los caminhar para diante e estender-lhes a mão quando estão empantanados; como um homem de discernimento que saiba orientar e encontrar caminhos concretos e praticáveis nas várias encruzilhadas de cada história pessoal. Quando eu estava na Argentina, às vezes ouvia padres dizerem: «Telefonei para o bispo, e a secretária disse-me que ele tinha a agenda cheia, que voltasse a chamar dali a vinte dias; e nem me perguntou que queria… «Queria ver o Bispo» – «Não pode; coloco-o na lista de espera». É claro que, depois, o padre não voltou a chamar e continuou com aquilo que lhe queria perguntar – bem ou mal – dentro de si. Isto não é um conselho, mas algo que vos digo do coração: se tendes a agenda cheia, agradeçamos a Deus! Assim comereis em paz, porque ganhastes o pão; mas, se virdes o telefonema dum padre, hoje, no máximo amanhã, deveis chamá-lo para lhe dizer: «Chamaste, que se passa? Pode esperar até tal dia ou não?» Aquele padre, a partir de então, sabe que tem um pai».

9. «Etimologicamente, o termo «autoridade» deriva da raiz latina augere que significa aumentar, promover, fazer progredir. No pastor, a autoridade consiste de modo particular em ajudar a crescer, em promover os seus presbíteros, em vez de se promover a si mesmo (isto faz dele um solteirão, não um pai). A alegria do pai/pastor é ver que os seus filhos cresceram e tornaram-se fecundos. Irmãos, seja esta a nossa autoridade e o sinal da nossa fecundidade».

10. «Sentir com a Igreja é sentir com o povo fiel, o povo de Deus que sofre e espera; é saber que a nossa identidade ministerial nasce e compreende-se à luz desta pertença única e constitutiva do nosso ser. Neste sentido, gostaria de recordar convosco o que Santo Inácio nos escrevia a nós, jesuítas: «A pobreza é mãe e muro», gera e preserva. Mãe, porque nos chama à fecundidade, à geração, à capacidade de doação que seria impossível num coração avarento ou empenhado a acumular. E muro, porque nos protege duma das mais subtis tentações que nós, consagrados, temos de enfrentar: a mundanidade espiritual, o revestir de valores religiosos e «piedosos» a ambição de poder e protagonismo, a vaidade e, inclusivamente, o orgulho e a soberba. Muro e mãe, que nos ajudam a ser uma Igreja cada vez mais livre, porque está centrada na kenosis do seu Senhor. Uma Igreja, que não deseja que a sua força esteja – como dizia D. Romero – no apoio dos poderosos ou da política, mas que disso se despreende com nobreza para caminhar sustentada unicamente pelos braços do Crucificado, que é a sua verdadeira força. E isto traduz-se em sinais concretos e evidentes; isto interpela-nos e impele-nos a um exame de consciência a propósito das nossas opções e prioridades no uso dos recursos, no uso das influências e posições. A pobreza é mãe e muro, porque guarda o nosso coração para que não escorregue em concessões e comprometimentos que enfraquecem a liberdade e parresia a que nos chama o Senhor».
PAPA FRANCISCO, NO ENCONTRO COM OS BISPOS DA AMÉRICA CENTRAL (SEDAC), 24 Janeiro de 2019.