Convite a quem nos visita

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Jorge Sampaio

Pelo muito que deixou, mas principalmente pelo testemunho de serviço público e de entrega a causas nobres. O seu trabalho com os refugiados é deveras relevante, assentava no combate ao maior mal do mundo: «o medo e a ignorância». Por tudo isto e também pela frase seguinte, merece o nosso apreço e gratidão: «NENHUMA GUERRA É COMPARÁVEL À PIOR DAS CRISES». Devia servir para ensinar os belicistas que semeiam morte e destruição pelo mundo fora, em nome de razões que só eles viram serem justas. Será para mim um Presidente da República inesquecível.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Saltos Altos

A noite de ontem foi preenchida com a redobrada felicidade de assistir ao espetáculo no Teatro Municipal Baltazar Dias, a peça em formato de bailado, Saltos Altos. É mais um grito de alerta sobre os temas reincidentes sobre a condição da mulher no que diz respeito a ser bastas vezes desconsiderada nos vários patamares da vida em sociedade.

A peça Saltos Altos direciona ao espectador um forte murro no estômago, todo o universo da mulher, a igualdade de género, as lutas constantes para que sejam forçadas a construírem uma imagem que esteja muito acima daquilo que são realmente. A manutenção do equilíbrio em cima dos saltos altos (sinal e símbolo indispensável do universo feminino), é uma violência injustificável, se tivermos em conta que a mulher não foi criada para suster o corpo acima daquilo que a natureza determina. O que isso acarreta de malefícios sob pressão psicológica e em termos da saúde física.

Por conseguinte são denunciadas todas as injustiças que ainda fazem erguer uma monumental clivagem de sofrimento. A linguagem que anda de boca em boca diariamente, é bem reveladora dessa injustiça que menoriza a condição de ser mulher. E é tão grave que tanta gente, maiormente representantes de instituições respeitáveis, que deviam estar na linha da frente no combate a este status quo, mas, ao contrário, esforça-se exaustivamente e extensivamente, mesmo que algumas vezes redunde o ridículo, para justificar a permanência desse vocabulário da soberba patriarcal e do machismo…

Tão bom que a maioria do elenco da peça tenham sido jovens a dizerem não, chega de ansiedade e de todos os obstáculos a que estão sujeitas as mulheres na família e na sociedade em geral. Gostei particularmente quando o grupo responde ao texto magnificamente sincronizado: NÃO.

Na sinopse está dito: «O que quer dizer viver num patriarcado? Uma sociedade igualitária não combina com patriarcados nem matriarcados! - “Eu não quero aceitar as coisas que não posso mudar, quero mudar as coisas que não posso aceitar.” (Angela Davis)». É esta a luz que faz falta às sociedades para se iluminarem, para que de uma vez por todas deixem de ser agremiações de pessoas que se movem por interesses de poder e domínio à conta do sofrimento esclavagista de largas maiorias.

Saltos Altos é um grito-alerta muito bem-vindo nestes tempos que estão a retomar de forma desavergonhada regras absurdas contra as mulheres. Os talibãs ressuscitados, vieram revelar que os altos padrões, definidos pelas sociedades, da «mulher inferior ao homem» ou da «mulher perfeita», estão vivos e mantêm-se na cabeça de muita gente e tomara que fossem só em sociedades consideradas menos evoluídas. 

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

O campo planta todo o mundo janta

Após uma leitura atenta da obra «A Agricultura Madeirense e Eu», do Eng.º Duarte Caldeira, venho a terreiro dar a minha opinião sobre a obra.

Antes de mais apraz-me dizer que será um livro incontornável para quem venha a ter desejos de fazer a hercúlea e heroica história da agricultura na Madeira. Apreciei o capítulo especial sobre o Porto Santo, as suas especificidades, o potencial produtivo que ele oferece, cujo segredo está no aproveitamento das águas, na ação política e na vontade de trabalhar dos porto santenses.

Como alguém já definiu e eu corroboro, esta obra é «enciclopédica». Basta reparar logo que perpassa todas a áreas e atividades relacionadas com a agricultura na Madeira. A história como tudo começou desde chegada dos primeiros habitantes, o que fizeram, o como fizeram.

Assim, feita a descoberta das especificidades dos terrenos, a sua transformação em poios, desenvolveu-se de seguida a engenharia da água e a sua canalização - a obra mais extraordinária que a Madeira tem a par das monumentais paredes empedradas com a pedra «viva» da Madeira – as diversas chamadas de atenção às autoridades políticas, as denúncias das muitas asneiras que se fizeram neste campo, as abalizadas e comprovadas sugestões… Não falta aturada reflexão sobre a fruticultura, a bananicultura, a vitivinicultura, a cana-de-açucar, a horticultura, a criação de gado e o pastoreio, a pecuária... Enfim, uma panóplia de assuntos relacionados com todos os domínios da agricultura que devem ser tidos em conta por todos nós, porque a agricultura é fundamental para as populações, a sua fixação e o seu desenvolvimento.

Não deixa de reclamar uma forte atenção para comercialização dos produtos, a joia da coroa da agricultura, que deve ser feita com benefício justo para o agricultor, coisa que não aconteceu durante muitos anos e que veio contribuir bastante para o abandono agrícola que sofremos. Os intermediários e os grupos económicos que se alaparam ao suor do agricultor para o explorarem, foram dos principais a contribuírem para a fuga de muitos agricultores, o empobrecimento populacional das comunidades rurais e daí a descaraterização da nossa paisagem.  

No final do livro deu voz às florestas. Alerta para a praga dos incêndios e de como podem ser combatidos ao longo de todo o ano e não apenas quando as labaredas consomem o património ambiental.

Tem um belíssimo capítulo sobre jardinagem.

A obra termina com um nota sobre o autor, onde ele se apresenta de forma simples, mas com conhecimentos científicos e com a sua comprovada experiência em todas estas matérias, particularmente, na produção de vinhos Terras do Avô. Não se nota qualquer resquício de altivez, mas de forma simples, fala-nos de técnicas experimentadas cientificamente em diálogo franco com a experiência concreta dos agricultores.

Por isso, estou plenamente de acordo quando se diz, que hoje temos mais agricultores de gabinete do que agricultores a mexer na terra. A geração do Eng.º Duarte Caldeira comprova o contrário, que é possível, ciência agrícola, inovação tecnológica e prática concreta.

Esta obra para mim serviu mais uma vez para perceber a fortuna fertilizante que é a nossa amada terra da Ilha da Madeira, que se lamenta ter sido esquecida, despreza, abandonada…

Esta obra merece ser lida, estudada nas escolas para que as gerações mais novas despertem para o potencial de enormes possibilidades que a Madeira tem e o quanto podem os seus terrenos aráveis oferecerem de sustento à existência dos madeirenses e os que nos visitam saborearem do melhor do mundo que a nossa agricultura pode oferecer quanto à excelência de paladares.

Caro Eng.º Duarte Caldeira, parabéns por esta obra emblemática. Espero que seja valorizada e que sirva a muitos para despertarem para esta atividade tão antiga quanto é a humanidade, a agricultura.

E com o mote, que é preciso não esquecer, «se o campo não planta a cidade não janta», se faz esta obra rica de conteúdos importantes para a história da agricultura da Madeira. Que seja reavivado este grito de guerra dos trabalhadores rurais que lutam pela valorização da terra, mas também que seja uma constatação empírica do quanto será importante hoje e no futuro fazer valer qual é que é a origem da alimentação que chega à mesa das pessoas.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Perdão às mulheres

Bertrand Russel escreveu: «a teoria da verdade deve ser tal que admita o seu contrário, a falsidade». Por conseguinte, poderemos afirmar que depois de se retirar todas as inverdades, o que resta poderá ser verdade. Eu convivo com isto, embora algumas vezes, pareça que vou vacilar. 

Havia um princípio antigo nas casernas dos exércitos que nunca se devia duvidar das verdades ditas pelas autoridades, eles é que sabem e estão sempre bem informados. Quem está para baixo não sabia de nada.

Deve ter vindo então a regra da submissão geral dos povos, obedecer sempre às nossas autoridades superiores, porque eles estão sobejamente informados, e no caso das chefias religiosas, estão mais perto do céu e por isso a sua voz é escutada mais depressa por Deus. Não sei se tem funcionado em todas as situações. Não quero saber se tem havido falhas de comunicação quanto a isso.

Vem este intróito a propósito da celeuma que anda no ar por causa do tratamento que o mundo masculinizado dá à condição e ao papel das mulheres na vida familiar e social. Certo é que a subordinação das mulheres em relação aos homens continua.

No 26 de Agosto, é celebrado o Dia Internacional da Igualdade Feminina. Tendo em conta este pretexto sou levado a pensar que há muito para pedir perdão às mulheres.

Perdão por anos e anos de machismo pretensamente auto suficiente, porque na hora da verdade, são elas que salvam os homens.

Perdão pela manutenção de uma linguagem contra as mulheres profundamente ofensiva e humilhante. E quando assim é, eu não considero que isso esteja sob a contemplação da liberdade de expressão, por isso, devemos deixar andar.

Perdão por ainda existirem muitas mulheres que se calam e vivem subjugadas pacificamente diante das ditaduras dos (seus) homens. E que consideram irrelevante e inglória esta luta pela igualdade.

Perdão pelo não reconhecimento de que determinado vocabulário é anacrónico e, como alguns dizem, ser lesivo dos Direitos Humanos Universais. Fazer tudo para contornar isso e enfeitar com palavreado ao abrigo de metáforas abusivas, é ofensivo contra as mulheres.

Perdão pela comparação absurda entre os versículos bíblicos com os versos dos Lusíadas de Luiz Vaz de Camões. A Bíblia, é um livro vivo que reúne vida passada para iluminar a vida presente. Não pode ser comparada com um poema épico determinado por um momento histórico irrepetível, que deve ser apreendido tal como é e aconteceu. A Bíblia tem outra função, nunca pode ser letra morta, mas realidade viva, que se faz carne em cada tempo e em cada contexto histórico. Se assim não for não pode converter-se em alimento espiritual e litúrgico para a vida concreta de cada tempo.

Perdão por se fazer da Bíblia um livro estático, inalterável perante a existência que se altera todos os dias. As religiões têm este pecado terrível para confessar.

Perdão pelo menosprezo e desprezo pelas mulheres dentro de instituições que deviam ser exemplares quanto à prática da igualdade de oportunidades para homens e mulheres em igualdade de circunstâncias.

Perdão por causa da (nossa) hierarquia da Igreja Católica ser tão benévola e promotora dos «feminismos masculinos», mas tão dura com as características idiossincráticas das mulheres.

Perdão por uma instituição, como a nossa Igreja Católica, que bebeu do Evangelho sete Sacramentos, mas só seis deles é que podem ser concedidos às mulheres, o Sacramento da Ordem, que é só para homens machos.

Perdão por se fundamentar esta discriminação e outras que por aí ainda andam, na Bíblia Sagrada e, particularmente, no Evangelho de Cristo, onde Ele se revela o Mestre por excelência na prática da inclusão.

Perdão por continuarmos teimosamente com um Evangelho coisa do passado, pois só faz sentido crer, na «Palavra de Deus», quando ela é viva e eficaz na realidade concreta de todos os tempos.  

Perdão por estarem reduzidas as mulheres na nossa Igreja Católica a simples serviçais de homens que se dizem «chamados» por Deus, que se gabam de serem seus representantes, quando Dele irradia a igualdade, a fraternidade, a misericórdia e o perdão incondicional.

Perdão pela «loucura» de uma hierarquia misógina, que não olha a meios nem mede as palavras para manter uma rede de benefícios e privilégios à conta do insulto do vocabulário que considera ser letra morta, só porque dá jeito. Péssimo contributo a autores fundamentais da Bíblia e à doutrina que devia ser sempre dinâmica, viva e eficaz como ensinamento, referência ética e valor incontornável na busca do sentido da existência.

Perdão por este estado de coisas graves nos tempos que correm, onde o populismo, o «talibanismo» se impõem sob o domínio das armas para serem utilizadas contra as mulheres e as crianças, o elo mais fraco nas sociedades patriarcalistas, onde o machismo zarolho em que vivemos encontra caminho livre para vingar.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Podemos ser todos criminosos à solta

Todo o crime começa inocentemente ou com atitudes manifestamente ingénuas.

Os alemães que escreviam sinais nas casas comerciais dos judeus, começaram a participar num processo que levou à tragédia criminosa da eliminação dos judeus. O mesmo se pode dizer de outros tantos milhões de alemães que se deixaram ficar indiferentes ao que se estava a passar.

Também hoje assistimos a algo semelhante, com outros contornos e em contextos diferentes, mas estamos a passar pela mesma indiferença e pelo mesmo encolher de ombros.

A violência contra as mulheres que grassa pelo mundo fora não pode ser resolvida com a ideia de que é um problema delas e de cada povo onde tal violência está a ser legitimada com regras estapafúrdias impostas pela loucura patética do machismo.

Os Direitos Humanos e a luta pela sua aplicação universal, não podem ser um ornamento de retórica para encher a boca com discursos hipócritas em determinadas ocasiões solenes. O mundo é um só, a humanidade é uma só, por isso, é exigido aos responsáveis pelos povos que não façam dos Direitos Humanos Universais tábua rasa e que tenham diante deles a pior das atitudes, dois pesos e duas medidas.

Também faço parte do meio mundo que se escandaliza com a leitura de São Paulo tirada da Carta aos efésios, que me custa a crer que seja mesmo do punho do Apóstolo dos Gentios, este que se bateu com São Pedro para que o Cristianismo não se reduzisse a meia dúzia de iluminados judeus, porque a preciosidade que ele representava em termos de liberdade e dignidade universal, não podia ser apenas uma simples seita para meia dúzia de judeus que se tinha rebelado contra a religião judaica.

A leitura em causa é um manifesto absurdo de vocabulário. É urgente serem retirados estes termos desta passagem paulina, mesmo que digam que logo a seguir o texto é direto quanto ao amor que os maridos devem nutrir pelas mulheres. Digam o que disserem, expliquem o que quiserem explicar, mas estas palavras ferem os ouvidos: «Sede submissos uns aos outros, no temor de Cristo. As mulheres submetam-se aos maridos como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a cabeça da Igreja, seu corpo, do qual é o Salvador. Ora, como a Igreja se submete a Cristo, assim também as mulheres se devem submeter em tudo aos maridos» (Ef 5, 21-23).

Quando se ouve esta linguagem em qualquer circunstância, a consequência imediata é que se deixe de ouvir mais nada do que vai ser dito. Neste sentido, por um lado, mantendo-se este texto para uso nas missas, resulta no descrédito de São Paulo e a sua riquíssima doutrina sai seriamente beliscada. Por outro, é a própria Igreja Católica, mais uma vez a demonstrar como é adepta do machismo parolo, mas, pelo que se vê, terrorista e violento que cresce por esse mundo fora.

Este texto deve ser banido das missas ou traduzido em linguagem decente, que não ofenda ninguém, mas que promova a responsabilidade de todos para com todos, sem quaisquer resquícios de maldade contra ninguém. Pois, Deus não é macho nem fêmea. É Deus, que não embarca em poderes loucos deste mundo que não olham a meios para se sentarem em tronos edificados com a carne e o sangue das vítimas.

sábado, 14 de agosto de 2021

Dia da Assunção de Nossa Senhora

Liturgia 15 de Agosto

Primeira leitura: Ap 11,19a;12,1-6a.10ab)

Salmo 44 (45)
Segunda leitura: 1 Cor 15,20-27
Evangelho: Lc 1,39-56

O dia da Assunção de Maria, entre nós é vulgarmente denominado de Nossa Senhora do Monte, padroeira da Madeira. Pela Madeira dentro vamos encontrar também para este dia várias invocações para o mesmo evento mariano e para a mesma entidade, Maria de Nazaré, a Mãe de Deus. Algumas pessoas ficam intrigadas com os vários nomes atribuídos a Maria. Não tem nada de estranho, visto que na tradição bíblica e depois na tradição judaico-cristã, vamos encontrar várias designações para os acontecimentos e para as figuras principais da religião. Por exemplo, Deus, o Espírito Santo, Jesus Cristo e Nossa Senhora.

Quanto às leituras que hoje nos são propostas, destacamos três palavras, uma de cada leitura: luta, ressurreição e esperança. A luta da visão do Apocalipse entre a mulher e o dragão, é a luta para quando estamos fracos; nas dificuldades; nas tentações nas perseguições… O exemplo de Maria para esses momentos ajuda-nos.

Detenhamo-nos no momento em que Maria junto da Cruz está sofrendo e padecendo. Esta maternidade sofrida continua no tempo. Maria no céu acompanha todos os padecimentos do tempo onde a maternidade é sofrida. Se neste mundo nos é dada uma mãe para nascermos, para a vida terrena, no céu, Deus deu-nos a Sua Mãe para sermos gerados na ordem do sobrenatural, da vida eterna, a vida divina. Por isso, não devemos descurar a intimidade com ela, falando-lhe do nosso carinho, da nossa gratidão, das nossas lutas, dos nossos êxitos, dos nossos sucessos e insucessos, das nossas tristezas e alegrias, felicidades e infelicidades… Devemos falar-lhe do que somos e do que temos.

A segunda leitura fala da ressurreição. Jesus entrou de uma vez por todas na vida eterna com toda a sua humanidade, a qual ele recebera de Maria. Nós com Ele e por Ele, também entraremos nessa dimensão da vida plena e eterna.

No Evangelho descobrimos a esperança. A esperança é a virtude daqueles que, experimentando o conflito, a luta diária entre a vida e a morte, entre o bem e o mal, creem na Ressurreição de Cristo, na vitória do Amor. Escutamos o canto de Maria, o Magnificat: é o cântico da esperança, é o cântico do Povo de Deus no seu caminhar através da história.

Sobre a esperança, o Papa Francisco diz: «Se não há esperança, nós não somos cristãos. Por isso gosto de dizer: não deixeis que vos roubem a esperança. Que não vos roubeis a esperança, porque esta força é uma graça, um dom de Deus que nos leva para frente, olhando para o Céu. E Maria está sempre lá, próxima dessas comunidades, desses nossos irmãos, caminhando com eles, sofrendo com eles, e cantando com eles o Magnificat da esperança».

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

A Quinta Pedagógica dos Prazeres

É óbvio que o remorso já anda no ar, porque ele é como um verme roedor que alanceia o coração e perturba a paz da alma.

Deve ser grande o regozijo interior do autor e fundador da quinta mais falada nos últimos vinte anos na Madeira e ultimamente por causa da saída do seu mentor e criador principal, Pe Rui Sousa. Não lhe faltam elementos anedóticos para se rir, eles são medalhas que lhe querem atribuir, coisa que naquela quinta é uma banalidade quase quotidiana. Dos produtos que a quinta produz, bem poucos é que já não foram medalhados. Há votos de louvor, que agora chovem quando isso não interessa para nada. Podia sim interessar apoios concretos, incentivos e carinho por uma obra já considerado um caso de estudo, porque ao contrário da maioria das obras que nascem por todo o lado e que trazem o condão de serem com jovens e para jovens, esta surge do regaço de uma população maioritariamente envelhecida. Esta obra trouxe as mãos já cansadas e os rostos enrugados de pessoas idosas, que ali descobriram que eram úteis, que produziam e que podiam acrescer um pouco mais à sua pensão de sobrevivência.

Tudo o que seja novo nesta terra é olhado com inveja, gera desconfianças, desprezo e nuvens colinosas que se acastelam no horizonte antevendo maus agoiros como adeja nos ares o francelho de garras aduncas. Ainda mais triste quando são as garras dos seus pares e da instituição que devia estar na linha da frente na defesa incondicional dos seus.

O Pe Rui Sousa «sai de cara levantada» como ele disse no Domingo no final da Missa do Santíssimo Sacramento, que ele vincou como sendo a sua última Missa como Pároco daquela Paróquia. Para minha felicidade estive presente, senti a comoção e a tristeza espelhadas no rosto das pessoas simples, os tais idosos que moveram mundos e fundos ao lado do seu timoneiro, para fazerem navegar o batel contra ventos e vagas alterosas das conjecturas vexatórias dos mercenários e das urtigas dos canteiros da religião.

Nos campos onde eram antes carquejas e silvados, nasceu trigo, aveia para alimento dos animais e pereiros que produzem pêros deliciosos para a cidra e os seus derivados. Na quinta germinaram plantas aromáticas, bagas de variada espécie e árvores de fruta que depois de transformadas deram licores e compotas maravilhosas premiadas internacionalmente.

Um homem, um padre, um povo simples, por sinal, maioritariamente idoso, emprestou a sua vontade, o seu querer, o cérebro e as mãos, para construir aquilo de que alguns diziam ser impossível e se fosse não passaria de anedota para entreter incautos.

Eis um oásis no meio de tantos desertos do vazio que nos rodeia, quanto à falta de criatividade, coragem e falta de vontade para sair das banalidades do status quo uniformizado para consumo sem reflexão, sem autonomia e muito menos sem sombra nenhuma de contestação.

Está aí a obra visionária do Pe Rui Sousa, que concretizou com vinte anos de antecedência a doutrina que o Papa Francisco delineou na sua Encíclica Laudato Si (24 de Maio de 2015). Uma «quinta Laudato Si», um claustro que faz sorrir São Francisco de Assis, um testemunho concretizado de que é possível salvar o Planeta, «a Nossa Casa Comum», tão ameaçado pela loucura da ganância da humanidade. A Quinta Pedagógica dos Prazeres, demonstra que é possível equilibrar a diversidade da natureza. Plantas, animais e pessoais inalando a mesma brisa que passa e todos em saudável convivência expressando a alegria de que é possível uma convivência conjugada na partilha fraterna da felicidade. O movimento que ali se gera nas tardes de Domingo, é bem revelador da importância educacional deste espaço e do quanto isto beneficia toda a a economia local da freguesia dos Prazeres, só não vê quem anda cego ou anda a dormir.

Para todos há o tempo para sair. Ninguém é eterno nas obras e neste mundo. Saber sair é benéfico e poder ser também motivo para rebentar novas ideias e novos rumos. Por isso, quero crer que a obra continua. Pois, é desejo de mais de metade deste mundo. Vamos crer que o bom senso prevalecerá e que esta obra será ainda melhor do que tem sido até agora. Se não for, prova-se mais uma vez que uns nascem para dar vida e outros nunca passam de medíocres cangalheiros sempre prontos para enterrar o trabalho dos outros.

A evangelização dos tempos de hoje não descuram nenhuma vertente humana e esta da diversidade ambiental está profundamente presente no Evangelho e sempre fez parte da doutrina do Cristianismo. Bastará nomear essas duas faces de uma mesma identidade ecológica, Francisco, o de Assis e, Francisco, Papa. 

Boa fortuna em saúde ao Pe Rui Sousa e bons auspícios para novos empreendimentos que estou seguro que surgirão, se lhe for emprestada mais vida e saúde. Um orgulho para mim especialmente que o admiro e de quem sou amigo.        

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Há pessoas que não nos merecem

O Pedro Pablo Pechardo (PPP) conquistou a medalha de ouro numa final que dominou por completo, e ajudou a fazer destes Jogos Olímpicos os melhores de sempre para Portugal. 

Mas, tem um mas. O PPP não nasceu em Portugal. Nasceu em Cuba, numa sociedade diabolizada entre nós, porque o sistema político dominante é o comunismo.

A questão de ter nascido em Cuba não interessa para nada.

As questões de ordem clubística valem zero e não há paciência para discutir isso.

A sua cor de pele é mais escura do que a nossa, isso também não interessa para nada.

Ele diz que «em Cuba sou um traidor», para nós também isto não interessa rigorosamente nada. Porém interessa-nos muito que ele diga isto: «mas eu já não sou cubano, sou um dos cinco campeões olímpicos portugueses».

O PPP é um como nós. Nos jogos deste teor representa as nossas cores. É português e ponto final.

As sociedades atuais são constituídas por pessoas vindas de todas as partes do mundo. Por isso, na hora do triunfo deles não deviam interessar para nada as questões da origem, as de ordem racial e do clube a que pertencem. 

A humanidade só tem uma raça e ponto final, que é a raça humana.

Para mim o PPP é um igual a nós quando ganha e quando perde. Oxalá escolham o nosso país para viverem tantos outros valores que andam pelo mundo à procura de um lugar seguro para fazerem valer as suas potencialidades. A nossa atitude, pelo exemplo do sucesso de PPP, deve ser uma só, acolher com entusiasmo quem nos escolhe. E pelo que se vê esta forma de estar em sociedade tem valor máximo: ouro. 

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Padre João Gonçalves

Sem filtros censórios, aqui está o discurso na íntegra proferido no Domingo dia 01 de Agosto, no final da Missa Nova do Pe João Gonçalves. Quem tem medo do pensamento livre está deslocado dos princípios evangélicos e destituído de sensibilidade face aos valores democráticos da liberdade (de expressão...), igualdade e fraternidade... 

Foto: Duarte Gomes

O Pe João na entrevista que deu ao Jornal da Madeira, falou do seu avô Lino, que o ensinava a olhar a natureza e a importância da sua harmonia para o nosso bem estar, pode, por isso, dizer aos Amasias deste tempo como disse o corajoso Profeta Amós a Amasias assim: «Eu não era profeta, nem filho de profeta. Era pastor de gado e cultivava sicómoros. ‘Foi o Senhor que me tirou da guarda do rebanho e me disse: vai profetizar ao meu povo de Israel’» (Amós 71,15). O zeloso sacerdote do templo real Amasias, queria um templo limpo, sem interferências laivosas de coragem profética ou outras investidas que viessem a perturbar a ordem estabelecida pela ordem real.

Felizmente, são ainda alguns homens e mulheres que hoje também podem afirmar o mesmo, diante das nomenclaturas da paz podre das sociedades montadas sobre a injustiça e as desigualdades sociais. Jovens conscientes deste mal são necessários cada vez mais, para que proclamem corajosamente a verdade e a justiça que os povos em todos os lugares do mundo buscam. Mas, é preciso estar sempre resolutamente seguro faz convicções porque as vergastadas da calúnia, a ama da difamação e tudo o que seja possível ser feito para abater os defensores do Evangelho vai sempre acontecer.

Para os tempos sombrios que nos assolam o Padre João é um sinal de esperança. E particularmente, para nós padres do funchal, esperamos que seja uma lufada de ar fresco para dentro de um presbitério oprimido pela tristeza, a divisão e o desencanto. E às vezes inverosímeis maldades de uns contra os outros. As chagas do Síndrome de Burnout clerical do nosso presbitério precisam do óleo rejuvenescido da tua esperança, sabedoria e entusiasmo.

Que o Pe João seja um facho de luz que ajuda a esbater as sombras da inquietação, da incerteza e dos «vazios» deste tempo, acentuados pela pandemia, como ele tão bem referiu na entrevista citada. É um rapaz corajoso, espiritualmente e intelectualmente bem preparado para assumir esta nova etapa na sua vida, o presbiterado. Pessoas deste jaez intelectual são bem vindas à construção desta obra misteriosa e inacabada de Deus. E quanta falta faz pessoas assim a uma Igreja da Madeira onde escasseia a reflexão amadurecida e o pensamento diversificado e livre! Já me deste mostras de coragem e determinação. São Fortes princípios basilares da idiossincrasia do ser padre. Bem hajas por essa surpreendente lucidez e coragem.

A vontade da casa paterna articulara-se para nomear de «João» o agora novo presbítero de São Roque do Funchal, o nome mais gracioso na cultura bíblica. João significa «Deus é cheio de graça»; «agraciado por Deus» ou «graça e misericórdia de Deus» e «Deus perdoa».

O nome João tem origem no hebraico Yehokhanan, Iohanan, composto pela união dos elementos Yah, que significa «Javé, Jeová, Deus», e hannah, que quer dizer «graça». Significa «Deus é gracioso, agraciado por Deus, a graça e misericórdia de Deus, Deus perdoa». Vocabulário sobejamente utilizado nas homilias e mensagens do Papa Francisco.

É um dos nomes judeus mais populares em todo mundo desde a Antiguidade, que como o tempo passou a ser comummente adoptado também pelos cristãos.

Vou voltar a pegar nas palavras do Pe João no Jornal da Madeira, onde revelaste uma nova linguagem, um novo discurso, uma profundidade teológica rara, coisa que não se via na Igreja da Madeira há vários anos. Pelas tuas palavras e pela graça do te nome, tens bagagem mais do que suficiente para ajudares a preencher os «vazios», como afirmaste belissimamente: «o papel do sacerdote é ir a esses lugares vazios e trazer uma nova esperança, uma nova alegria, uma nova cor que a mensagem do Evangelho sempre quer transmitir». Interessante diagnóstico dos «lugares vazios» e as «tantas feridas do nosso tempo», que fizeste sob a inspiração da inquietante autora Etty Hillesum que tanto admiras. Continua com essa feliz admiração por esta incontornável autora.

Pelo que deduzo os tais vazios são, o esquecimento dos valores universais, que foram substituídos por outras noções, entendidas como mais úteis ao único propósito da vida actual, nomeadamente, a satisfação do prazer e do ego de cada um. Por isso, estamos sob o domínio da ditadura da obsessão pela conquista do poder, a veneração da tecnologia que deu lugar ao vazio de Deus e da dimensão espiritual da existência, a mania da velocidade a decorrer sob a pressão desenfreada da pressa, a sede de dinheiro, a busca da fama e a fome das importâncias dadas por tachos e títulos anacrónicos, a relativização dos princípios e a subjugação de toda a vivência espiritual ao primado do materialismo que rebentou com todos os lugares antes ocupados pelos valores fundamentais que norteavam a nossa vida ocidental. A desvalorização da fraternidade e o sentido da igualdade ao jeito de Deus que se apresenta diante da nossa esperança e fé numa tríplice dimensão em igualdade de circunstância divina. A nossa Igreja Católica tem um papel crucial a desempenhar neste domínio para ser exemplo e luz para as sociedades.

Enfim, mais se poderia elencar. Vamos ao pequeno símbolo que a comunidade Paroquial de São Roque te quer ofertar, é uma estola bordada por mãos de uma senhora da Madeira. Este é um símbolo de uma história e de uma memória com duas faces, uma feliz e outra negra. Feliz porque salvou muita gente. Mas também negra porque o preço da manufaturação desta arte acarretou muitas dores físicas e psicológicas. Este sinal bordado da Madeira faz parte da nossa querida Madeira, onde a pobreza era a primeira paisagem, mas que poderia ser ainda pior se não existisse uma agulha segurada pelas mãos amorosas de tantas mulheres que nesse trabalho do bordado salvaram da fome a sua prole. Quando a ostentares, lembra-te dessa memória e que na Eucaristia que celebrares, se reavive em ti o desejo transformador do mundo para os desígnios libertadores de Deus.

Por tudo caro Pe João, bem vindo ao regaço do sonho transformador pelo serviço corajoso da partilha da vida feita pão partido do amor, distribuído para todos sem fazer aceção de ninguém. E que te ofereças sempre inteiro à religião emanação do Espírito e da vida. Sinto uma pena enorme por causa de não ter existido vontade e engenho para te valorizar em altos estudos fora do reduto ilhéu da menoridade em que vivemos e temo que o teu valor se reduza outra vez à condição de pião que andará de paróquia em paróquia apenas.

Oxalá o Espírito Santo te tenha traçado para altos voos. Parabéns a ti caro Pe João, aos teus pais e família e que a tua felicidade seja o primeiro motivo da nossa admiração por ti. Que Jesus de Nazaré seja sempre o teu único Mestre e que Nossa Senhora te proteja.

sexta-feira, 30 de julho de 2021

A confusão entre católico e cristão

Há uma confusão geral entre uma coisa e outra. Pode-se ser cristão sem ser católico. Pode-se ser-se católico e ser cristão. Como se pode ser católico e não ter nada de cristão.

Muitas vezes vejo combater a expressão «sou católico não praticante» com argumentos cristãos, evangélico, para dizer que se é ou não é e que quem se diz católico tem que ser coerente, praticar o Cristianismo e o Evangelho. Tudo muito certo, se o catolicismo tantas vezes não tivesse cedido à mania de ser uma simples agremiação de adeptos igual a tantas outras que a sociedade inventou.

As sondagens sempre foram dizendo que os portugueses são «católicos, devotos de Fátima e liberais nos costumes». Não vejo nada de anormal nisto, porque corresponde efetivamente à realidade. Por mim ainda acrescentaria que a maioria está sim no rol dos «católicos não praticantes», mas que segue valores e princípios cristãos na sua prática quotidiana. A sociedade cresceu e desenvolveu-se, seguem os avanços científicos, a mentalidade e os costumes estão de acordo com os avanços sociais e tecnológicos, por isso, não me admira que exista a recusa de teimosias anacrónicas e costumes antigos que algum catolicismo queira manter.

A vida muda, as pessoas mudam e os comportamentos também mudam. Assim, condenar isto é contribuir para afastar as pessoas e para a sua recusa do catolicismo. São tantos a dizerem, como eu digo também, acredito em Cristo, não acredito na igreja católica da mesquinhez, do clericalismo e das hierarquias patéticas que se enfeitam tipo monarcas para serem adorados. Isso acabou e a sociedade de hoje recusa tudo isso. Ou o catolicismo se torna um testemunho de fraternidade ou não tem utilidade nenhuma, pois se for um singelo redil de arrebanhamento de pessoas, anda muito mal e aí sim, perverte o Evangelho e nada tem de Cristianismo.   

A maioria não liga às baboseiras pouco ou nada esclarecidas de muito clero católico que por esse país acima continua a viver a modos e com linguagem da idade média. Ainda bem. A sociedade desenvolveu-se. Pela riqueza e facilidade da comunicação global sabe-se na hora dos avanços científicos e reconhece a defesa dos Direitos Humanos, a generalidade das pessoas acredita que apesar das misérias todas, o caminho democrático da sociedade é sempre o melhor, a educação universal abriu as cabeças e tornou independentes as pessoas. Também se perdeu os medos e o discurso da condenação eterna às penas do inferno não colhe mais nenhum adepto. A imagem de Deus hoje é de misericórdia, de liberdade, porque deixa livre a humanidade para usar a inteligência, o coração e a sua autonomia. As agremiações conservadoras e fechadas sobre si mesmas, claro que não gostam de ver ovelhas livres, mas presas às saias do pensamento único.

Diante de tudo isto mudou a sociedade, agora precisa o catolicismo de mudar muito e tornar-se verdadeiramente naquilo que reclama dos outros, ser de verdade cristão evangélico. Essa infidelidade à fonte destruiu o catolicismo e se o conduzir à morte será bom.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Manifesto solidário aos burlões

«Não havia nexexidade», diria o diácono remédios.

A nossa terra enferma de seriedade. Uma crítica negativa e uma denúncia só são tidas em conta se forem feitas por alguém de fora e mais ainda se for denunciado lá fora. Mais uma vez se provou esta constatação com o alemão Peter Giesel, pessoa inteligente que veio à Madeira e destapou a careca dos burlões e da incúria das nossas autoridades, com o vídeo no seu canal do Youtube, «Achtung Abzocke».

Quanto aos abusos que se praticam no Mercado dos Lavradores, devem remontar aos primeiros anos da colonização da Madeira, já foram sobejamente denunciados por tantos madeirenses «comidos» ali por outros madeirenses. Vilões a enganar vilões. Qual o madeirense que não sabe disto e que já não tinha passado por experiências deste género?

As autoridades agora tremeram e deram-se de conta de que afinal na ilha não entram mais vilões iguais aos que cá estão. Entra também gente inteligentemente atenta, que repara no logro da imagem que se vende da ilha Madeira. No entanto, receio que os verdadeiros culpados deste caso não serão «grandes» que andam a pressionar as autoridades fiscalizadoras da vida social, para não atuarem
nem autuarem os prevaricadores, os burlões e os abusadores dos espaços públicos. Os culpados vão ser os pobres mexilhões, encadeados na engrenagem do funcionamento desta terra, porque se esqueceram de que são pobres e que não terão as mesmas possibilidades de se safarem como outros a outro nível as têm.

É lamentável o vídeo do alemão. É lamentável que tenha sido necessário um alemão ter dado com a boca no trombone para que quem nunca deve dormir acordasse. É lamentável que as vozes de cá sejam tantas vezes secundarizadas, ignoradas, ridicularizadas e algumas vezes madeirenses queimem vivos na praça pública outros madeirenses porque ousaram apontar o que anda mal na vida social.

Há meses que ando a alertar para uma cratera que nasceu no meio da Praia do Almirante Reis, onde devem pernoitar bêbedos e drogados que pululam pela cidade. Esta cratera está rodeada de lixo asqueroso. Um pouco mais adiante estão duas tendas em circunstâncias idênticas. Uma bandalheira geral que não interessa às autoridades. Vou aguardar que venha um alemão com voz mais autorizada que a minha, que faça um vídeo sobre estes adereços encantadores para turismo.  

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Jardim da Serra – homenagem às bordadeiras

 05 de Julho de 2021

No topo dos píncaros dos montes nasceu o Jardim da Serra. Terra de flores, de frondosas árvores, cerejeiras, pereiros, castanheiros, vinhedos de sercial a cobrir as encostas agrestes, que prometem lá para diante o néctar divinal de Baco, bucho verdejante para ladear os caminhos, as casas, os quintais e as quintas... Tanto num pequeno mundo que brada aos céus e à terra a divinal criação da existência numa feliz conjugação na busca da felicidade que todos almejam.

O melhor de tudo de qualquer terra é as suas gentes. O Jardim da Serra não foge à regra. Ali estão as suas gentes carregadas de humildade, simplicidade no falar e prontidão no sorriso fácil e no gosto pelo acolhimento devotado para quem quer que seja. Não fogem ao trabalho, qualquer trabalho. Por isso, este reduto é regalo paradisíaco que os céus criaram como dádiva para o mundo, o nosso mundo, o meu mundo.

Naquele mundo primeiro do que sou, encontrei desde tenra idade as mulheres que dia e noite seguravam a ponta da agulha acabada de lhe terem enfiado a linha no buraco depois de a terem molhado com a saliva numa das pontas. Ali estavam horas e horas até se queixarem de dores nas costas e nas pernas. Dores sagradas que anteviam algum dinheiro para comprar pão para saciar a fome das proles numerosas que as casas abrigavam numa santa alegria.

No dia da comemoração dos 25 anos de elevação a freguesia, 4 de Julho de 2021, no Jardim da Serra, encontrei três artífices desses tempos, a srª Agostinha, a Srª Filomena e a Srª Maria, encenando um quadro daquele habitual que enformou a minha infância. Não resisti a me meter com elas e gravei estes breves momentos para partilhar com além mundo este quadro singelo mas muito significativo do que era a vida dura das mulheres do Jardim da Serra ou de qualquer bordadeira fosse onde fosse.

Assim eram elas, simples e humildades, nas conversas sobre os acontecimentos familiares, da vizinhança e algumas coisas do mundo. Não deixavam de contar as suas piadas ou peripécias caricatas dos conhecidos da zona, para que no entremeio soltassem belíssimas gargalhadas festivas para lhes exorcizar as dores das costas e das pernas.

A felicidade está no pouco, não na abundância. Por isso, tinha valor um conjunto de garanitos bem feitos a ladear um ilhó, o caseado bem apertado a serpentear uma folha, o rechelieu encadeado no interior de folha ou numa flor de rosa e o ponto de corda formando ramos com olhos fechados cá e lá, sob o testemunho das cavacas que se distribuíam por todo o bordado. Esta arte pura e dura de mulheres que não escolheram o tipo de arte que queriam, mas que foram escolhidas pela necessidade de matar a sua fome e a dos seus.

Tanto e tudo num pano singelo que oferecia uma obra de arte inigualável para ser absorvida pelos olhares do mundo, aqueles olhos da alma que valorizam o engenho, a criatividade e tenacidade das pessoas simples deste mundo imenso que é o mundo das bordadeiras. 

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Sempre o lado das vítimas

O lado dos poderosos é mais cómodo. É mais interessante e aliciante, porque arrasta mordomias, privilégios, benesses variadas e glória prazerosa para o ego. 

Mas este caminho não é o do Evangelho de Jesus de Nazaré. O caminho do Mestre é o partido das vítimas em todas as circunstâncias.

Os tempos inquisitoriais que nós vivemos, não se compadecem com as vítimas. A multidão ululante das redes sociais, onde pululam bruxos/as, juízes, caluniadores e carrascos não se compadece dos frágeis e das vítimas que cada vez mais aparecem como fruto das desigualdades e injustiças estruturais que as sociedades montaram para benefício de alguns contra o bem estar da maioria.

Por isso, de Jesus de Nazaré e do Seu Evangelho, bebemos a inspiração para que nenhum comodismo, nenhuma moda, nenhum vento que passe, atrapalhe o bom senso que manda estar sempre do lado das vítimas, mesmo que isso nos custe um bom pedaço da vida.  

O vazio da comunicação social em geral, toda ela financiada por grupos económicos poderosos, lançou um vazio preocupante sobre as nossas cabeças. Tudo manietado. Todos os agentes da comunicação social condicionados. A pluralidade informativa é zero. A diversidade de opinião é chão que já deu uvas. Por isso, contraditoriamente, para o bem e para o mal, resta-nos ainda as redes sociais, que no meio de tanta miséria, ainda oferecem alguma coisa onde se pode escolher sob a mediação de uma aturada filtragem.

É deveras intrigante que quando se esquece as vítimas para valorizar um prato de lentilhas, sob o alto preço da perda da dignidade, do caráter e dos valores evangélicos que são a razão de ser da condição cristã, fica o mundo mais pobre ainda e perde-se completamente a razão de ser da existência daquelas instituições que bebem do Evangelho. Daí a cada vez mais emergente falta de credibilidade e o aumento da indiferença face às instituições que nunca deviam esquecer o lado das vítimas.  

Devia ser normal abençoar o amor vivido sob qualquer espécie de relação. Então se se pode abençoar animais, plantas, infra estruturas e objetos variados… Porque não pode ser abençoado o amor, experimentado de qualquer forma? – Responde-se assim, a ideia que devia ser regra prioritária é sempre em primeiro lugar as vítimas, as pessoas. É irritante notar que tantas vezes é mais importante um papel ou um formulário do que a pessoa concreta e as suas circunstâncias.

Devia ser normal a inclusão das vítimas, fossem elas quais fossem. Obviamente, que humanamente custa, mas não é princípio evangélico amar a todos, particularmente, os inimigos? – Por isso, é inaceitável que as pessoas fiquem privadas da comunhão ou excomungadas, quando contraíram uma segunda relação, porque falhou a primeira e agora tentam refizer as suas vidas. Reparemos neste absurdo, sob o domínio tenebroso da violência doméstica, se alguém matar o cônjuge, pode depois confessar-se e fica logo integrado na comunhão, mas uma segunda ou mais relações de amor não podem participar na comunhão.  

Bom senso é o que se precisa. E pensar um pouco no sofrimento que ensombra a vida das vítimas pode fazer de cada um de nós um agente determinado pela libertação daqueles que andam sob o jugo terrível dos fardos que as estruturas impiedosas deste mundo oferecem.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Condenado por suspeitas

Hoje 24 de Junho de 2021, é o tradicional dia de São João Batista, condenado pelo cruel Herodes, à morte por degolação por causa das intrigas da adúltera Herodíades. A sua filha dançou diante de todos e agradou a Herodes. «Pressionada pela mãe, ela disse: quero, num prato, a cabeça de João Batista». A cabeça de João foi levada num prato, foi entregue à jovem, e esta levou-a à sua mãe» (Mateus 14, 8-11). A história, obviamente, com outros contornos repetisse por este mundo fora.  

A Igreja Católica deve ser a única instituição que condena por suspeitas e por intrigas, a exemplo dos piores regimes ditatoriais que este mundo tem experimentado ao longo da história da humanidade.

Outra vergonhosa condenação do pe Anastácio Alves. Condenado só por suspeitas de pedofila, sem investigação séria, julgamento adequado e condenação exemplar. Tristemente não faltam exemplos nesta Instituição Igreja Católica de condenações deste género. Acreditei ingenuamente que o Papa Francisco viesse pôr fim a este procedimento.  

Antes de dizer mais alguma coisa, reafirmo que face à pedofilia devemos ter tolerância zero. Mas também salvaguardo que ninguém deve ser condenado só porque existem suspeitas. Quando elas existem as autoridades competentes devem proceder a uma aturada investigação, julgar o caso e condenar exemplarmente todo o bandalho que tenha cometido tais actos hediondos contra crianças. Isto serve para padres, pais, padrastos, padrinhos e madrinhas, todos os cidadãos que tenham cometido qualquer atitude ilícita contra menores. Ninguém está acima da lei.

Mas, voltemos ao caso do pe Anastácio Alves. Um processo muito mal conduzido desde o início. Andou a sociedade madeirense a falar e foi falando, onde havia padres e bispos que metiam os pés pelas mãos, fornecendo sem medida elementos brejeiros para alimentar a má língua, que é apanágio da mediocridade que nos assiste.

Dizem que veio agora a confirmação do Papa Francisco e da Congregação do Clero do Vaticano da sentença que a Diocese do Funchal tinha aplicado contra o pe Anastácio Alves. Devem estar felizes, porque saiu a água toda do capote. Mas, é preciso também dizer-se que serve este o caso para desviar as atenções e esconder os outros casos onde pairam as suspeitas, mas que só sabe lá Deus, porque também não são condenados como foi condenado o Pe Anastácio Alves. A ser assim condenar em nome de suspeitas, então que se comece a eito, que não escape ninguém que esteja sob os holofotes da suspeita. Dois pesos e duas medidas é que não.

O comunicado da «sentença» que sacode por completo a água do capote de alguém, entala o Papa Francisco, que tem tido um procedimento corretíssimo com as vítimas de pedofilia, pede-lhes perdão, quando erra, remedeia o erro, coloca fora do ministério padres, bispos e até cardeais quando devidamente condenados e até tem integrado outros quando a realidade após os processos os inocenta. Por isso, não havia necessidade desta maneira de proceder tão deprimente. Ainda mais se considerarmos que resulta de sérias contradições, porque com outros casos as coisas não têm tido posições tão determinadas. Porque será?

Quanto às parangonas que anunciam que «pe Anastácio Alves deixou de ser padre», não pode ser, porque a mesma instituição que retira o sacerdócio passa a vida a gabar-se do seguinte: «uma vez padre, padre para sempre»... E, salve-se, a Igreja Católica não é dona dos sacramentos, é administradora, o único dono é Jesus Cristo, só Ele pode dar e tirar. Por isso, enquanto não existir um processo cabal que obedeça aos parâmetros legais em vigor, com um conveniente julgamento civil e eclesiástico, para mim, Anastácio Alves, será o padre Anastácio.

terça-feira, 22 de junho de 2021

O sonho que é pesadelo

Há um Funchal de flores nos jardins, árvores frondosas, pássaros com cantos agradáveis aos ouvidos da alma, patos nas ribeiras que não deixam de procriar mesmo que ameaçados pelas investidas das ratazanas. Há um Funchal imparável, que segui o rumo dos ritmos da natureza e cumpre o seu dever consoante o ribombar das estações do ano.

Porém, há um Funchal do desleixo e dos desleixados. Um Funchal conspurcado nos cantos das ruas e dos passeios por onde deambulam os carros e os peões. As ribeiras estão um desmazelo impressionante, correm águas às cores e não passa nada, porque o elemento que lhes deu cor veio do céu ou germinou das profundezas da terra, é «inócuo para o ambiente» (bela expressão que não lembraria ao requintado vocabulário queirosiano e muito menos ao de Camilo Castelo Branco, que é vocabulário impróprio para consumo de iletrados).

Para quem habitualmente faz da cidade o seu terreiro, bem vê como está votado ao desleixo o Funchal e como o abuso toma conta dos espaços comuns da cidade. As esplanadas só não sobem paredes porque vai ser difícil sentar-se numa cadeira a meio das paredes exteriores dos prédios. Os jardins andavam selvagens, mas já passamos a ver alguns jardineiros todos os dias a aparar as plantas, a picar a terra e a retirar ervas daninhas, as mangueiras vertem água para ver se ressuscitam quem andava meio morto. Há algo no horizonte que se advinha o que seja, que parece provocar estes cirúrgicos cuidados.

A zona do Jardim do Almirante Reis está feia, relvados descuidados, lixo por todo o lado, por vezes cheiro nauseabundo da estação de tratamento de resíduos, ali plantada para oferecer um autêntico mamarracho à frente de um Jardim e de um hotel. Os passeios estão cheios de lixo e os corredores circundantes ao calhau da beira mar, são uma vergonha, eles são sacos de plástico, eles são garrafas de vidro e de plástico, eles são copos espalhados e papéis por todo o lado. Apenas isto e só isto para não falar de excrementos e urina que oferecem um «bom nojo» todos os dias para bem passa por esta zona. Esta zona, muito frequentada por jovens durante o dia e durante a noite, merecia mais caixotes do lixo colocados próximos uns dos outros. Todo o corredor que circunda o Calhau à frente do jardim do Almirante Reis, não tem nenhum caixote do lixo que seja. Vigilância e pessoal de limpeza naquela zona, vai ser preciso vir o Papa à Madeira para que tal aconteça.

Vamos à cereja no topo do bolo.

O Funchal está cheio de vagabundagem, que o politicamente correto determinou que são «sem abrigos», quando toda a gente sabe que na Madeira todos têm abrigo.

O que há na nossa cidade é uma multidão de desocupados, doentes mentais e uma larga maioria destruída pelo álcool e a toxicodependência. Casas devolutas a serem ocupadas para tráfico de drogas, outras convertidas em casas de chuto e albergues de prostituição às claras diante dos olhos de toda a gente.

Temos nas ruas da nossa cidade uma série de pessoas doentes, que as autoridades estão a fazer o mais fácil, abandonar e andar como entender. Por causa da ditadura do politicamente correto, fecham os olhos e ninguém faz nada. Porém, esta mendicância oferece-nos uma cidade desordenada, sem rumo, cada um anda como quer e faz o que quer. Por isso, há consumo de álcool e drogas nos passeios e nos bancos dos jardins e zonas de lazer, facto que provoca todos os dias brigas e agressões graves de uns contra os outros, suscitando nas pessoas à volta medo e insegurança.

Este desleixo reinante não trava a mendicância, aumenta-a e, por causa, dela, temos em cada esquina um pedinte e não há esplanada nenhuma que não tenha duas ou três pessoas a estender a mão a pedir moedas. Bem observo o constrangimento dos turistas quando almoçam nas esplanadas, antes, durante e depois da refeição, aparece-lhes sempre uma mão estendida a pedir uma moeda.

Belos cartazes de turismo, temos dentro da nossa cidade e na melhor região para turismo do mundo (oi, se não fosse a melhor região de turismo, estávamos bem arranjados). Ainda me salta na cabeça a conversa que tive com uma jovem vinda de Israel passar uma semana à Madeira, quando ela me disse, «não foi isto que me venderam da Madeira».

Há uma panóplia de situações graves que fazem do nosso Funchal, um local desmazelado e pouco cuidado, mas como este texto já vai longo deixo em jeito de rol mais dois assuntos que mereciam uma reflexão bem aturada.

Um, é que vejo uma população do Funchal bastante adormecida. Vamos ver se acorda nas eleições.

Dois, a desorganização ou péssimo serviço prestado no Cemitério de São Martinho, onde se pratica taxas de luxo, mas o serviço é feio, a belo prazer são se sabe de quem, no lugar que devia ser dos lugares mais bonitos da nossa cidade. A melhor forma para atenuar a dor, sempre foi e sempre será servir a beleza. Não é o que acontece na nossa cidade neste momento.

terça-feira, 25 de maio de 2021

Luisa Paolinelli - alertas importantes


A partir do minuto 36.21 ficou este alerta....

«A Igreja Católica devia abrir-se mais às mulheres, eu sei que está se à abrir à parte laica, o bispo de Setúbal escolheu uma mulher para a Cúria, por isso, seria importante dar mais participação às mulheres. Eu leio o Evangelho não vejo a mulher como parte do fermento, vejo a mulher como o fermento. Ela é fermento, acho que Jesus a viu a assim. As interpretações que vieram a seguir, que colocaram a mulher num lado carnal, de tentação, do pecado… Houve aquela dicotomia muito grande do que é que é Eva e Maria. Eu acho que quando leio o Novo Testamento, eu vejo a importância que Jesus dá à mulher e há uma parte em que fala dela como fermento para puder fazer o pão, portanto, ela é essencial. Eu acho que neste momento a Igreja Católica podia fazer um passo nesse sentido, parece-me que aceita muitas coisas, mas no que toca à mulher está a fazer passos muito pesados ainda, sofridos… Face a um mundo ainda muito patriarcalista, eu acho que a Igreja podia dar um exemplo, podia estar na vanguarda. Não sei bem onde é que o Papa Francisco diz o seguinte, foram as mulheres que durante séculos sofreram mais por causa de uma certa marginalização e que a mulher deve ser integrada na igreja, deve fazer parte de uma forma laica, mas também de uma forma mais ativa na organização estruturante da igreja».

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Somos a carne dos nossos lugares

É o piso onde se segura o pé, os caminhos empoeirados, o pó que eu respirava sem forma de fugir dele quando passavam os carros vazios ou cheios de carga para a venda no Mercado dos Lavradores. Esse quadro bucólico ou romântico como alguma literatura pode fazer crer, só trazia sofrimento e angústia. Mesmo assim tantas vezes ouvia gargalhadas de prazer, mas outras vezes lamentos doridos pelo cansaço e pela doença mal tratada pelas maquinações da pobreza.

São esses tempos que me perseguem, porque bebia água que vertia as fendas das rochas basálticas de ambos os lados das ribeiras. Não sabia o que era «água imprópria para beber». Mais tarde, muito mais tarde fizeram-me essa advertência e ensinaram-me esse qualificativo para a minha saúde, mas só muito tempo depois de já ter consumido muita água mesmo sem esse qualificativo científico tão religiosamente venerado nos tempos de hoje.

Nesse tempo não caía em armadilhas inesperadas como as que caio agora. Era tão puro e tão inocente que considerava a maldade de outra ordem, não tinha tantas consequências nocivas. Assim como antes, hoje tenho frio e calor. Tenho excesso de fome, não a fome de pão, mas fome daquela ordem do bem, da verdade e da justiça. E não falta a advertência, segundo dizem, os entendidos da saúde e da imagem ideal, que tenho excesso de gorduras.

Fiquem sabendo, vivo nesta carne que somos nós, corpo que veio do pó da terra e ao pó há de voltar, é animal, é vegetal, é banhado de mar e tão fortemente humano o lugar da minha esperança. Tenho dito.

Uma esperança de pequenas coisas, pequenos gestos capazes de revolver os poios que abandonamos impiedosamente. Hoje eles choram saudade no coração da gente. Estão lá perdidos, sem paredes, mas com a mesma terra coberta de ervas e infestantes que vieram do mistério do mundo. Neste emaranhado de crueldade, lembro-me daqueles nomes de tantos lugares que eu pisava, mas que eu nunca mais vi nem eles me viram. Só regresso a eles pela memória. Eles são a Courela, a Courelinha, a Manga, a Manguinha, a Moita do Pestana, as Moitas da Cova, o Poio do Pestana, o Poio do Alegre, a Manga do Alegre, o Poio do Poço, a Banda do Moiro, o Poio Abaixo do Caminho, o Poio do Caminho, o Poio do Lombo, o Poio do Lombinho, o Poio da Pereira Cabaça, o Poio da Cerejeira Grande, a Terça, o Chote, os Poios do pé da Porta e etc… Foi este chão que pisei primordialmente e foi nele que saboreei o pão da esperança no sentido mais genuíno do termo.

Sem querer contrariar nada deste agora que os entendidos me oferecem cheio de qualidades, o mais certo é que eu ainda me vejo na mesma carne, é nela e dela que eu vivo. Esta esperança de pequenas coisas, em pequenos gestos capazes de revolver a terra seca e infértil em que nos tornamos, para fazer voltar carne e ternura aos corações de pedra que construímos. Por isso, precisamos de crianças educadas, letradas, que gostam de ler e de escrever, para que se tornem adultos honestos, que não vivam além da ganância e da concorrência desleal ou numa competição desenfreada sem sentido nenhum. Bate o toque da esperança no fim da produção de armamentos, que continuam a matar pessoas e a destruir o meio ambiente que nos rodeia, este chão que somos, e pisamos há muitos e muitos anos.

Somos capazes de coisas boas. E ainda sobram tantas coisas boas. Penso não estar fora do meu chão e vivendo no ar, ao sentir e anunciar isto. Eu sinto e muitos comigo também o sentem. Esperar no chão onde parece não haver esperança é próprio da nossa condição. Não desistir também o é. A mesma terra que rasga o impossível esconde o possível. Bastará um querer que seja resiliente diante da aparente infertilidade.