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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Faz todo o sentido uma pergunta


Sei apenas que Léon Bloy (pertenceu ao grupo dos chamados católicos franceses) proclamou: «Como não amam ninguém, creem eles que amam a Deus». E mais ainda, «ninguém se aproxima de Deus afastando-se dos homens... E ninguém se dá reservando-se para Deus. Por que motivo nos teria Ele então oferecido o amor?» (Pergunta colocada pelo teólogo alemão Eugen Drewermann, que escreveu o polémico livro «Os Funcionários de Deus»).
A vida de ninguém não parece ser possível no caos e na desordem total. Mas também não parece ser possível viver com o coração a leste do amor.
Ora vejamos, todas as opções, todas as funções humanas e sociais requerem uma dose muito elevada de entrega apaixonada. Ninguém se realiza como pessoa humana sem a assunção deste sentimento como valor fundamental para felicidade e para a paz.
Por isso, é preciso fazermos do nosso dia a dia um encontro com os valores, especialmente, o do amor concreto para com as pessoas concretas, para que dessa forma se descubra a presença de Deus em cada rosto que se desvela no sorriso da alegria porque chegou a amizade. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A alegria de ver crescer os outros na liberdade

O discurso do Papa Francisco aos Bipos da América Central (SEDAC) tem uma importância muito grande para nós. Deve ser tido em conta particularmente nesta época em que há um virar de página na história da nossa Diocese. Tomei a liberdade de escortinar umas passagens que considero mais significativas e que podem iluminar o nosso caminho de «pastores:

1. «O martírio não é sinónimo de pusilanimidade nem a atitude de alguém que não ama a vida nem sabe reconhecer o seu valor. Pelo contrário, o mártir é aquele que é capaz de encarnar e traduzir na vida esta ação de graças».

2. «Na Igreja, Cristo vive no meio de nós e, por isso, ela deve ser humilde e pobre, pois uma Igreja arrogante, uma Igreja cheia de orgulho, uma Igreja autossuficiente não é a Igreja da kenosis».

3. «é importante não ter medo de nos aproximarmos e tocarmos as feridas do nosso povo, que são também as nossas feridas, e fazê-lo segundo o estilo do Senhor. O pastor não pode estar longe do sofrimento do seu povo; mais ainda, poderíamos dizer que o coração do pastor se mede pela sua capacidade de deixar-se comover à vista de tantas vidas feridas e ameaçadas».

4. «A Igreja, por sua natureza, é Mãe e, como tal, gera e resguarda a vida protegendo-a de tudo o que possa ameaçar o seu desenvolvimento: uma gestação na liberdade e para a liberdade».

5. «São bem conhecidos a amizade do Arcebispo Romero com o Padre Rutilio Grande e o impacto que o assassínio deste teve na sua vida; foi um acontecimento que marcou profundamente o seu coração de homem, sacerdote e pastor. Romero não era um administrador de recursos humanos, não geria pessoas nem organizações; Romero sentia, sentia com amor de pai, amigo e irmão. Uma medida um pouco alta, mas útil para avaliar o nosso coração episcopal, uma medida à vista da qual podemos interrogar-nos: quanto me afeta a vida dos meus sacerdotes? Que impacto deixo ter em mim aquilo que vivem, chorando com as suas dores, congratulando-me e regozijando-me com as suas alegrias? Comecemos a medir o funcionarismo e clericalismo eclesiais – infelizmente tão difusos, constituindo uma caricatura e uma perversão do ministério – por estes interrogativos. Não é questão de mudar estilos, hábitos ou linguagem (certamente importantes); é questão sobretudo de impacto e capacidade de espaço, nos nossos programas episcopais, para receber, acompanhar e sustentar os nossos sacerdotes: um «espaço real» para nos ocuparmos deles. Isto faz de nós pais fecundos».

6. «Preocupa-me ver como a compaixão perdeu a sua centralidade na Igreja. Até mesmo os grupos católicos a perderam – ou estão a perdê-la, para não sermos pessimistas. Mesmo nos meios de comunicação social católicos, a compaixão não existe. Há a estigmatização, a condenação, a maldade, a obstinação, a supervalorização de si mesmo, a denúncia de heresia... Oxalá não se perca a compaixão na nossa Igreja; oxalá não se perca, no Bispo, a centralidade da compaixão. A kenosis de Cristo é a expressão máxima da compaixão do Pai. A Igreja de Cristo é a Igreja da compaixão; e isto começa em casa. É sempre bom perguntar-nos como pastores: que impacto tem em mim a vida dos meus sacerdotes? Sou capaz de ser um pai ou consolo-me com ser um mero executor? Deixo que me incomodem? Lembro-me das palavras de Bento XVI quando falava aos seus compatriotas no início do pontificado: «Cristo não nos prometeu uma vida confortável. Quem deseja comodidades, com Ele errou direção. Mas Ele mostra-nos o caminho rumo às coisas grandes, o bem, rumo à vida humana autêntica» (Discurso às Delegações e peregrinos alemães, 25/IV/2005). O bispo deve crescer todos os dias na sua capacidade de se deixar incomodar, de ser vulnerável aos seus padres. Estou a pensar num Bispo, um Bispo emérito duma diocese grande, grande trabalhador; recebia em audiência todos os dias de manhã e frequentemente, com muita frequência, quando terminava as audiências da manhã e com uma vontade enorme de ir comer, acontecia estarem ali à espera dele dois padres sem audiência marcada na agenda. Então voltava para trás e escutava-os como se tivesse a manhã toda à sua frente. Deixar-se incomodar e deixar que a massa acabe recozida e o bife frio. Deixar-se incomodar pelos sacerdotes».

7. «O fundamental nas visitas e que não podemos delegar, é a escuta. Há muitas coisas que fazemos todos os dias e que deveríamos confiar a outrem. Aquilo que, ao contrário, não podemos delegar é a capacidade de ouvir, a capacidade de acompanhar a saúde e a vida dos nossos sacerdotes. Não podemos delegar noutros a porta aberta para eles; uma porta aberta para criar as condições que tornem possível a confiança mais do que o medo, a sinceridade mais do que a hipocrisia, o intercâmbio franco e respeitoso mais do que o monólogo disciplinar».

8. «É importante que o pároco encontre o pai, o pastor no qual «se vê espelhado» e não o administrador que quer «passar revista às tropas». Com todas as coisas em que nos diferenciamos e até mesmo aquelas em que não estamos de acordo e as discussões que possam haver – sendo normal e desejável que existam –, é fundamental que os padres sintam o bispo como um homem capaz de gastar-se e expor-se por eles, fazê-los caminhar para diante e estender-lhes a mão quando estão empantanados; como um homem de discernimento que saiba orientar e encontrar caminhos concretos e praticáveis nas várias encruzilhadas de cada história pessoal. Quando eu estava na Argentina, às vezes ouvia padres dizerem: «Telefonei para o bispo, e a secretária disse-me que ele tinha a agenda cheia, que voltasse a chamar dali a vinte dias; e nem me perguntou que queria… «Queria ver o Bispo» – «Não pode; coloco-o na lista de espera». É claro que, depois, o padre não voltou a chamar e continuou com aquilo que lhe queria perguntar – bem ou mal – dentro de si. Isto não é um conselho, mas algo que vos digo do coração: se tendes a agenda cheia, agradeçamos a Deus! Assim comereis em paz, porque ganhastes o pão; mas, se virdes o telefonema dum padre, hoje, no máximo amanhã, deveis chamá-lo para lhe dizer: «Chamaste, que se passa? Pode esperar até tal dia ou não?» Aquele padre, a partir de então, sabe que tem um pai».

9. «Etimologicamente, o termo «autoridade» deriva da raiz latina augere que significa aumentar, promover, fazer progredir. No pastor, a autoridade consiste de modo particular em ajudar a crescer, em promover os seus presbíteros, em vez de se promover a si mesmo (isto faz dele um solteirão, não um pai). A alegria do pai/pastor é ver que os seus filhos cresceram e tornaram-se fecundos. Irmãos, seja esta a nossa autoridade e o sinal da nossa fecundidade».

10. «Sentir com a Igreja é sentir com o povo fiel, o povo de Deus que sofre e espera; é saber que a nossa identidade ministerial nasce e compreende-se à luz desta pertença única e constitutiva do nosso ser. Neste sentido, gostaria de recordar convosco o que Santo Inácio nos escrevia a nós, jesuítas: «A pobreza é mãe e muro», gera e preserva. Mãe, porque nos chama à fecundidade, à geração, à capacidade de doação que seria impossível num coração avarento ou empenhado a acumular. E muro, porque nos protege duma das mais subtis tentações que nós, consagrados, temos de enfrentar: a mundanidade espiritual, o revestir de valores religiosos e «piedosos» a ambição de poder e protagonismo, a vaidade e, inclusivamente, o orgulho e a soberba. Muro e mãe, que nos ajudam a ser uma Igreja cada vez mais livre, porque está centrada na kenosis do seu Senhor. Uma Igreja, que não deseja que a sua força esteja – como dizia D. Romero – no apoio dos poderosos ou da política, mas que disso se despreende com nobreza para caminhar sustentada unicamente pelos braços do Crucificado, que é a sua verdadeira força. E isto traduz-se em sinais concretos e evidentes; isto interpela-nos e impele-nos a um exame de consciência a propósito das nossas opções e prioridades no uso dos recursos, no uso das influências e posições. A pobreza é mãe e muro, porque guarda o nosso coração para que não escorregue em concessões e comprometimentos que enfraquecem a liberdade e parresia a que nos chama o Senhor».
PAPA FRANCISCO, NO ENCONTRO COM OS BISPOS DA AMÉRICA CENTRAL (SEDAC), 24 Janeiro de 2019.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Para tomar nota sobre o pecado original

A opinião é do teólogo italiano Vito Mancuso, ex-professor da Università Vita-Salute San Raffaele, de Milão, em artigo publicado no jornal Avvenire, 27-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto:

«não se trata simplesmente do fato de que a humanidade é "um pau torto" (o que que muitos enfatizaram em todos os tempos), mas muito mais radicalmente do fato de que tal "tortura" se deve a um pecado do primeiro homem e de que tal pecado se transmite nas suas consequências a todos os seres humanos, que, assim, nascem pecadores pelo simples fato de nascerem, como afirma o Tridentino, com o dito de que o pecado é "propagatione, non imitatione, transfusum", isto é, não depende da liberdade, mas sim da natureza, reconhecendo o pensamento do tardo Agostinho para o qual toda a humanidade era uma massa condenada.

Contra tal dogma, eu defendo que o centro do cristianismo nos impõe a considerar que não existe nenhuma inimizade entre Deus e o bebê que nasce, e que, portanto, o dogma do pecado original deve ser reescrito em termos de "caos" original, entendendo com isso a condição humana necessitada de disciplina por causa da obscura força destrutiva que ela pode ter.

Eu defendo, em outras palavras, que o centro do cristianismo consiste em tal laço entre Deus Pai e a humanidade a ponto de tornar insustentável a ideia de que os homens são pecadores aos olhos de Deus pelo simples fato de serem homens, ideia que eu considero uma ofensa à criação e à paternidade divina. E, com isso, eu considero que não se torna vão de modo algum o drama do mal e do pecado, mas apenas se evita uma falsa solução para ele».

Novo bispo do Funchal Nuno Brás

Na entrevista que o novo bispo do Funchal, Nuno Brás, concedeu à Voz da Verdade, órgão de informação da Diocese de Lisboa, após a sua nomeação para bispo da Diocese do Funchal, proferiu a seguinte frase: «Procurar que a vida cristã ali (na Madeira) seja incrementada» (Lisboa, 12 Janeiro de 2019).

Pelo mote desta frase vamos desbravar um pouco uma singela leitura de quanto ela trás de positivo e quanto pode ser marcante quanto às novas iniciativas pastorais que inspirem este desejo. Se assim não for podemos estar diante de um engano ou houve fuga da boca para a verdade irrefletidamente, porque a frase até está da seguinte forma: «vou para o Funchal sem ideias pré-concebidas, procurando conhecer a realidade da Diocese e depois procurando também que a vida cristã ali seja incrementada. Que continue como ela está e, mesmo, mais viva». Enfim, permitam-me que pergunte, será também uma leve picardia inconsciente contra a ação dos seus “amigos” que o precederam? - Muito bem, adiante...

A Ilha da Madeira está a derramar pelas beiras de catolicismo na fronteira do populismo rasca, que em muitos momentos naqueles sobejamente referenciados 500 anos da Diocese marcaram o povo da Madeira para o bem e para o mal.

Por isso, não se descarte as muitas ocasiões onde imperou o mal, sempre o mal contra os mais frágeis em benefício de mordomias e benefícios para os poderosos. Sim, somos enfermos, quase moribundos da falta de Cristianismo. A instituição católica da Madeira sempre que enveredou pela lógica pura e dura do poder na mão de alguns, esqueceu os Evangelhos e, particularmente, descartou o protagonista desta sublime narrativa, Jesus Cristo.

Sabemos de bispos senhores absolutos que ditavam as regras, perseguiam e mandavam calar quem incomodasse as suas vidas principescas, sabemos de um clero rei e senhor das populações que ditavam as regras, intervindo bem e mal descaradamente na vida privada das pessoas em geral. 

Sabemos das pregações do medo do inferno e da condenação eterna contra os escravizados pelos poderosos que tomavam de assalto a terra e o pão do povo miserável e simples desta terra. 

Sabemos mais recentemente de uma pastoral toda ela marcada pelo “casamento” entre o poder do tempo e do templo. As pregações exaltadas pelos salvadores da pátria, Salazar e entre nós o Alberto João e o seu PPD. 

Sabemos da exclusão de padres e leigos que reclamavam que seria melhor a luz do Evangelho do que a lógica dominadora dos poderosos deste mundo. 

Sabemos que quem destoava do pensamento único, se reclamasse a opção pela atenção à cultura, aos pobres e aos que estão fora das redomas das igrejas seriam saneados ou estrategicamente ignorados. 

Sabemos e vimos uma pastoral totalmente voltada para o marianismo exagerado e as devoções populares, muitas delas desafinadas de Jesus Cristo. Uma pastoral da ignorância e sem qualquer vontade de colocar as pessoas a pensarem pela sua própria cabeça. Vimos uma Diocese de privilegiados que podem tudo, podem saber de tudo e os outros totalmente marginalizados.

Neste sentido, temos que reconhecer e embalar pela constatação do novo bispo do Funchal, falta-nos Cristianismo. Este capítulo pode e deve ser preenchido com esta frase e ponto, falta-nos em toda a linha Jesus Cristo e o Seu Evangelho. Não falta terreno entre nós a requer sinais concretos que nos façam ver e perceber por onde passa Cristo.

Nesta linha de pensamento sabe bem quando alguém começa precisamente por alertar esse fato, reconhecendo que nos falta cristianismo e que vai precisamente começar a sua missão por esse caminho. O ideal é o mais elevado, a oposição será gigantesca. Basta-nos observar as malhas que tecem toda a oposição ao Papa Francisco, que começou precisamente pelos que estão dentro, cardeais, bispos e padres.

Toda a tarefa que comece e acabe por aqui, o Cristianismo, encontra séria oposição, ainda mais em lugares habituados a escravizar, sanear e caluniar pessoas, quando ao mesmo tempo acendem velas aos santinhos e a Nossa Senhora. Por isso, neste capítulo não auguro bons auspícios para quem chega imbuído deste desejo, quando se sabe que o terreno está minado pela inveja, a maledicência, a intriga, o descarte e todas as formas de domínio de alguns sobre os demais, que carateriza tão bem a ilha da Madeira. As maldades contra os animais, o racismo ou intolerância sobre os que regressam da Venezuela e os índices de violência doméstica, são bem reveladores...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

A fé não é uma muleta

Nalguns momentos pensou-se que a fé seria uma muleta para os fracos. Todos os que fossem diminuídos de inteligência, ignorantes, doentes, pobres, fracos em alguma coisa, recorriam à fé como uma muleta para os safar do seu caminhar cambaleante. Quanto pensamento gasto a engendrar que a religião só seria para pobres e fracos…
O sono - Salvador Dali

Ao lado desta visão criou-se a ideia que os inteletuais, os sábios, os inteligentes, os ricos… Não precisariam dessa muleta, então podiam, recorrer a outra condição para se situarem na vida, dizem-se orgulhosamente agnósticos, ateus, indiferentes, confessos de alguma expressão religiosa, mas não praticantes. Visto pelo mesmo prisma de que a fé pode ser uma muleta, também estas expressões podem ser uma muleta. Qualquer coisa que se assuma na vida pode ser uma muleta. O que importa saber é como cada um se situa face à religião que professa e face ao agnosticismo ou ateísmo ou indiferença que diz assumir para a sua vida.

Para o assunto em causa o mais importante será compreender que a fé não é uma muleta em nenhuma circunstância, mas um caminho que em nenhum momento recusa a dúvida e o pensamento como procura fundante deste acolhimento para servir a construção deste mundo.

Em qualquer circunstância o que se exige é que as pessoas sejam sérias, se a fé está unicamente apenas para quando surgem os insucessos e as frustrações e a ela se recorre como último recurso para a cura, estamos aqui perante uma muleta. Se o agnosticismo, o ateísmo e a indiferença servem para manifestar superioridade acusando os de terem a fé como muleta, estamos também perante muletas que dão imensa utilidade à arrogância. Nenhuma condição deve servir para acusar ninguém nem para fazer da existência pessoal a única forma para ser e estar no mundo.

Na diversidade dos caminhos se levados a sério e se induzem à luta pelo bem comum, são meios excelente e eficazes para a construção do mundo naquilo que mais se espera que aconteça. Que nele habite uma humanidade fraterna, amiga e empenhada na construção da beleza, da bondade e da verdade.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Domingo do Batismo de Jesus

Venha o que vier, sejamos felizes. Jamais prejudicar alguém...
E desço à verdura das tuas mãos
Como as manadas que buscam as minhas

Faltam-me apenas os pés feridos dos que peregrinam
Faltam-me no chão duro das promessas
Os joelhos

Queria tanto andar em redor, rodear-te, se soubesses como
Queria amar-te tanto

O que sei da unidade é a túnica
Tirada à sorte. O que sei da morte e da vida
É o livro escrito por dentro e por fora

Silêncio escrito por dentro
Palavra escrita a toda a volta da história
O que sei do céu
É a mão com que sossegas os ventos
Desço à escritura como os veados aos salmos
                                                                                             Daniel Faria

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Na companhia do silêncio

Agora que já está mais que consumada a viragem do ano, assentamos no chão da normalidade da vida. Sempre precisamos de companhia que nos ajude, que dê sentido ao que somos e ao que fazemos. Mesmo que pareça esquisito trago aqui à liça para a reflexão o que todos nós sabemos, mas que frequentemente esquecemos, o valor da companhia do silêncio. Porque os silêncios são a melhor força interior para vencer os obstáculos que se colocam diante de uma história pessoal.

Como se encontra esse silêncio? - Numa busca constante pelos lugares e pelas mediações que façam ecoar essa condição da alma. Com toda a certeza que não será no rebuliço de uma cidade movimentada com carros e muitas pessoas. Também não será na confusão diária das tarefas e das relações conturbadas com os colegas de trabalho. E não será na ocupação total do tempo com muitas atividades. Nem muito menos perante o vazio das propostas que alguns meios de comunicação social nos apresentam.

Só o recolhimento pode proporcionar a descoberta do silêncio, que se pode encontrar em qualquer lugar que cada um considere apropriado para fazer o desvelamento dessa realidade como possibilidade de encontro interior com o valor da vida e com a realização de todo o bem que conduz à felicidade.

Muitos fogem dos silêncios da vida como se fossem sinónimos de solidão. Mas, o silêncio é sempre necessário e a vida sem silêncios não tem muito sentido.

A solidão, não serve e deve ser exorcizada por todos. A luta contra a solidão deve ser uma constante na vida de qualquer pessoa. A procura do silêncio ou dos momentos de silêncio deve ser uma condição que todos e cada um devem alimentar como valor essencial para o equilíbrio das opções e da vida toda. Nenhum caminho será longo na companhia do silêncio.