Convite a quem nos visita

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

As cinco coisas que nos fazem felizes

Olho para a janela
E vejo a beleza do Mar
A beleza do céu
O movimento do mar
As ondas inacabadas
O horizonte que não se
Sabe onde irá acabar
O céu azul
Trazendo com ele
Forças para que quando
Olharmos para ele não desistirmos.
Nuvens de variadas formas
Brancas como a alegria, força
Que sentimos dentro de nós.
Cada nuvem tem uma
Missão, um desejo para realizar.
As aves que voam, até
Encontrarem um lugar onde fiquem
Felizes, caminham sem destino
Vão olhando em seu redor toda
A pureza do céu, toda a verdade.
O vento que vem ao nosso
Encontro trazendo mensagens,
Conselhos.
A luz do sol, dando magia
Para continuarmos felizes com
O que temos para dar
Força de enfrentar a vida de uma
Maneira verdadeira, simples e alegre.
Ana Isabel Ferreira
Nota do autor do blog: Caros amigos, este poema foi urdido por esta jovem, Ana Isabel Ferreira, da catequese que acontece todos os Sábados pelas 16 horas, sob a minha orientação. Um momento único este que a Ana Isabel, me proporcionou. Estivemos a ver durante duas semanas o filme sobre a extraordinária vida de São Francisco de Assis, «Irmão Sol, Irmã Lua», de Franco Zeffirelli. O encanto dos jovens e a ressonância que daí veio é extraordinária. Deixemos os jovens serem sujeitos da vida e da sua história.

sábado, 28 de novembro de 2009

«O Arcebispo de Dublin exprimiu, na televisão, a sua vergonha diante do acontecimento de sacerdotes abusadores sexuais de crianças, pelo atentado a essas crianças, ao sacerdócio e a Deus. Em todas as matérias da vida, não são consentidas ambiguidades ou meias palavras. Há sempre justificações para o crime. Repudiar este, sem nunca nos excluirmos da responsabilidade, é um acontecimento de rara limpidez moral. Nunca as vítimas podem ser abandonadas!»
In «Ao Compasso do Tempo» - Crónica de 27 de Novembro de 2009, D. Januário Torgal Ferreira, «Páginas de um diário».
Nota da redacção: Um grande exemplo para outras situações tão graves como estas que aconteceram e acontecem em tantas paragens do mundo e da Igreja...

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo I Tempo do Advento
29 de Novembro 2009
Vigiar

É este o Tempo do Advento, aquele tempo que nos prepara para o encontro com o homem, empoeirado, de barbas raladas e grandes, passando ao lado de um rio, que está ali diante de todos nós. E Ele da outra margem faz-nos um aceno afectuoso, certo que em nós existe abertura suficiente para acolher uma graça, um dom ou uma possibilidade de redenção. É isso o Natal.
O Tempo do Advento, são as quatro semanas que antecedem o Natal. Uma das palavras fortes deste tempo, é a palavra vigiar. É uma palavra interessante, porque nos convida a olhar a realidade da vida e do mundo com esperança, como um caminho seguro que nos mostra uma luz verdadeira, nem que seja ao fundo túnel desta existência carregada de tantos pesadelos difíceis de encarar. Nada pode ser o fim, está sempre lá no fundo a luz da salvação, basta confiar e acreditar na pessoa que nos aponta nessa direcção, Jesus Cristo.
Este é o tempo da expectativa do «ainda não», mas que nos remete para a certeza do «já» presente na história. Neste contrabalançar expectante, descortinamos vias de possibilidades sempre novas que nos conduzem ao nascimento da vida em cada pessoa que não hesita em abrir-se ao sublime da vida transcendente. Essa é a vida revelada pelo nascimento do Filho de Deus.
Neste tempo de preparação vigilante, somos chamados a dizer não a tudo o que ofusca a luz. Não a todo o género de violência, a todo o desrespeito pelos outros, às crises que nos cerceiam a liberdade e nos remetem para o medo do futuro, não ao consumismo desenfreado que já começou como primeira preocupação para o Natal, não ao individualismo e ao carreirismo tolo que gera muita injustiça, não à veneração do ego como valor da actividade frenética que caracteriza o nosso tempo, não à espiritualidade privatizada e solitária... Eis o tempo em que devemos procurar uma luz que nos torne mais solidários, mais amigos uns dos outros. Porque, o Natal, ou faz da humanidade uma família ou nunca passará de uma festa que enche o olhos e nada mais.
Que este tempo nos faça tomar a sério a sabedoria africana que diz: «Uma pessoa torna-se pessoa através de outras pessoas». A vigilância deve levar sempre à construção do Bem-Comum.

Hino à Tolerância

«Já será grande a tua obra se tiveres conseguido levar a tolerância ao espírito dos que vivem em volta; tolerância que não seja feita de indiferença, da cinzenta igualdade que o mundo apresenta aos olhos que não vêem e às mãos que não agem; tolerância que, afirmando o que pensa, ainda nas horas mais perigosas, se coíba de eliminar o adversário e tenha sempre presente a diferença das almas e dos hábitos; dar-lhe-ão, se quiserem, o tom da ironia, para si próprio, para os outros; mas não hão-de cair no cepticismo e no cómodo sorriso superior; quando chegar o proceder, saberão o gosto da energia e das firmes atitudes. Mais a hão-de ter como vencedores do que como vencidos; a tolerância em face do que esmaga não anda longe do temor; então, antes os quero violentos que cobardes. Mas tu mesmo, Marcos, com que direito és tolerante? Acaso te julgas possuidor da verdade? Em que trono te sentaram para que assim olhes de cima o resto dos humanos e todo o mundo em redor? Por que tão cedo te separas de compreender e de amar? Tens a pena do rico para o pobre, dás-lhe a esmola de lhe não fazer mal; baixaste a suportar o que é divino como tu; e queres que te vejamos superior porque já te não deixas irritar por gestos ou palavras dos irmãos. Mais alto te pretendo e mais humilde; à tolerância que envergonha substitui o cálido interesse pedagógico, o gosto fraternal de aprender e de guiar; não levantes barreiras, mas abate-as; se consideras pior o caminho dos outros vai junto deles, aconselha-os e guia-os; não os deixes errar só porque os dominarias, se quisesses; transforma em forte, viva chama o que a pouco e pouco se dirige a não ser mais que um gelado desdém».
In Agostinho da Silva, in 'Considerações'
Nota do autor do blog: A violência contra quem quer que seja é um acto de covardia que brada aos céus. A pedagogia da tolerância e do respeito pelo outro é o caminho de Deus, e, por isso, deve ser o caminho das criaturas humanas criadas pelo grande amor deste Deus criador, sempre apaixonado pela tolerância e pelo respeito...

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Quem são os leigos?

Às vezes são quase como os «coitados» que não são padres nem freiras nem frades. São a maioria na Igreja Católica, continua a ser dada alguma atenção aos fiéis leigos, mas pouca. Alguma hierarquia da Igreja «brinca» a alguns encontros para mostrarem que eles são importantes e dão-lhes algumas migalhas. Fazem-se umas conferências para que eles tenham alguma sabedoria, formatada segundo uma determinada visão oficial, tudo bem delineado antecipadamente para não se romper o redil. O pensamento único na Igreja é uma tentação recorrente.
O esquecimento e menoridade dos leigos vem de longe, repare-se, a título de exemplo, no seu conhecido livro sobre a História da Igreja, comentando os resultados do Concílio de Trento, Daniel-Rops afirma: «É de admirar que, entre tantas sessões, não tenha havido uma que traçasse o retrato do verdadeiro cristão leigo... como se tinham traçado os do bispo e do sacerdote».
Só o Concílio Vaticano II irá repor alguma dignidade aos leigos. Mas, só passados 20 anos do Vaticano II, o Papa quis voltar-se para um tema que teve destaque no Concílio e dedicou o Sínodo dos Bispos de 1987 ao estudo de aspectos relativos aos fiéis leigos. O documento pós-sinodal, a exortação Christifideles Laici, apresenta temas dignos de estudo. Não vamos aqui analisar os temas desta exortação, está por aí e pode ser lida e estudada por quem assim o desejar.
Este assunto dos leigos na Igreja requer um estudo bastante apurado, é um tema complexo e as soluções não são fáceis de encontrar se a Igreja não abrir mão de outros temas carentes também de solução e de adaptação à realidade do nosso tempo. Ora vejamos o seguinte elenco: as questões sobre a vida em geral, nas quais incluo os temas sobre a sexualidade. A hierarquia tal como se apresenta desde os tempos medievais, cheia de títulos anacrónicos e repleta de mordomias, é, por vezes, um insulto aos fiéis leigos e de modo especial aos pobres. O celibato é um cravo que mina o trabalho vocacional. O não querer abrir mão com total transparência dos assuntos da Igreja que dizem respeito a todos, por exemplo, a economia e o património da Igreja. Os sacramentos, são sete, a humanidade masculina pode receber todos os sacramentos, mas a humanidade feminina apenas pode receber seis sacramentos, porque o sacramento da Ordem lhe está vedado. As incongruências no discurso são reveladores, muita conversa sobre a comunhão e a unidade, mas na prática, fazem-se acepção de pessoas, uns são mais do que outros. Estes aspectos são alguns entre tantos, que senão resolvidos, reduzem os fiéis leigos, a meros espectadores, bons para darem esmolas, remetidos à assembleia, porque não são «idóneos» para serem autores da construção da Igreja.
É preciso ousar e empenhar-se a fundo para que os leigos tenham espaço livre para se empenharem com verdadeira militância na vida da Igreja em todos os aspectos que fazem parte dela. Não se chegará a nada, enquanto as migalhas que são dadas aos leigos sossegarem a consciência de alguma hierarquia e que tais leigos se satisfaçam pacificamente com o pouco que lhes é dado.
O grande mal actual, é que a Igreja esteja também moribunda daquilo que enfermam as nossas sociedades. Não há militância. Poucos estão para ser interventivos e exigirem com a sua acção militante as mudanças necessárias. Neste domínio dos leigos precisamos de um verdadeiro milagre na Igreja para bem do mundo inteiro.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Comentário à Missa do Próximo Domingo

22 de Novembro de 2009
Domingo XXXIV Tempo Comum - CRISTO REI
A escola de Jesus
Jesus, por fim, assume que é Rei, como diz Pilatos. Não o um rei dos jogos do poder, da corrupção e do domínio sobre os demais. É o Rei da verdade, só isso diz tudo. Quem segue esta verdade, pertence ao seu reinado.
De que se trata esta realeza? - Trata-se de uma realeza ao contrário. É um reinado do avesso. Nada tem a ver com a realeza dos reis deste mundo. Não se trata de um Jesus Rei, rodeado de gente importante, exércitos ávidos de combate e poder. O Reino de Jesus, é antes dos famintos, dos que têm sede e fome de justiça, dos peregrinos, dos sem roupa, dos desempregados que já são tantos entre nós, dos doentes e dos prisioneiros...
Nietzsche, no seu «Anticristo», proclamará que o «Reino de Deus», é uma «lastimável mentira», que serviu para a Igreja fixar os seus valores que chama «vontade de Deus». Nisso consistia o domínio e o poder da Igreja. Neste sentido, para este autor o Cristianismo é uma religião da «decadência» e não da libertação da humanidade. Em muitos momentos da história da Igreja e ainda nalguns meios da Igreja na actualidade devemos dar razão ao autor de «Assim falou Zaratrusta». Mas, de acordo com o sentido do Evangelho e a postura de Jesus, descobre-se um sentido cheio de libertação no Reino de Jesus. Por esta verdade, Jesus estende os braços na Cruz, como um derrotado humanamente falando, mas do ponto de vista espiritual, Ele vai até ao fim pela verdade que salva. A aparente derrota de Jesus, é a lógica do poder posta do avesso. Jesus é um Rei que não se coaduna com as injustiças sociais, pessoais e institucionais.
A sua morte na Cruz é o resultado da sua acção contra tudo o que não promove a dignidade da vida e do amor. É o preço a pagar pela sua radical preferência pelos desafortunados deste mundo. Na escola de Jesus, só se ensina uma única matéria: o Reino! Este Reino que se aprende da vida e do exemplo do Mestre. O exemplo de Jesus e a Sua vida radicam na partilha que resulta na fraternidade. É este Reino que sonhamos para o mundo, o nosso mundo. Urge acabar a lógica do domínio do forte sobre o mais fraco, é preciso acabar com a ganância geradora de pobreza. Urge semear a vida para todos. Urge considerar cada um como um ser único e digno de ser amado, como acontecia na escola de Jesus.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A CARTA

O jornal italiano La Ditesa, publicou, há tempos, uma carta dirigida a César, Imperador de Roma, por Públio Lêntulo, governador da Judeia, antecessor de Pôncio Pilatos. Foi encontrada pelos monges «Lazaristas» em 1928.
A carta diz o seguinte: «Soube, ó César, que desejavas ter conhecimento do que passo a dizer-te. Há aqui um homem, chamado Jesus Cristo, a quem o povo chama profeta, e os seus discípulos afirmam ser o Filho de Deus. Realmente, ó César, todos os dias chegam notícias das maravilhas deste Cristo: ressuscita mortos, cura doentes e surpreende toda a Jerusalém. Belo e de aspecto insinuante, é uma figura tão majestosa que todos o amam irresistivelmente. O rosto moreno, com uma barba espessa, é de uma beleza incomparável. O olhar é profundo e grave... É o mais belo homem que imaginar se pode, muito semelhante a sua mãe, a mais bela figura de mulher que jamais por aqui se viu. Diz-se que ninguém o viu rir. Algumas vezes o têm visto chorar. É amigo de todos e mostra-se alegre. Quando repreende apavora. Quando adverte, chora. Na conversação é amável com todos. Se Tua Majestade, é César, desejas vê-lo, avisa-me, que eu logo to enviarei. Nunca estuda e sabe todas as ciências. No dizer dos hebreus nunca se ouviram conselhos semelhantes, nem tão sublime doutrina como a que ensina este Cristo. Muitos judeus o têm por divino e crêem nele. Também muitos o acusam a mim, dizendo, ó César, que ele é contra a Tua Majestade porque afirma que reis e vassalos são todos iguais diante de Deus.
Ando apoquentado com estes hebreus, que pretendem convencer-me de que ele nos é prejudicial. Os que o conhecem e a ele têm recorrido afirmam que só têm recebido benefícios e saúde. Estou pronto, ó César, a obedecer-te e cumprirei o que ordenares. Adeus».

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A Nova Igreja do Jardim da Serra

Faz-se realidade um sonho antigo. Um sonho não apenas de um só, mas de um povo inteiro, o povo do Jardim da Serra. Foram necessários passar quase 50 anos para que este povo visse o seu sonho tornar-se realidade. Aí está a nova igreja feita de argamassa, visibilidade de um corpo que sonhava e trabalhava para que o dia chegasse. Não há outra obra, que me lembre, entre nós, onde se possa aplicar de forma tão evidente a expressão do poeta, «Deus quer, o Homem sonha e a obra nasce» (Fernando Pessoa). As vontades estiveram juntas e tudo nasceu para o bem deste povo, votado também a algum ostracismo e abandono. Já chegava a injúria de ser da serra ou do alto como se tratasse do buraco dos leprosos. A cidade era longe e a Serra distante mesmo quando lhe chamavam Jardim.
Nesta hora não convém esquecer as várias famílias que sonharam e deram as suas ofertas generosamente para este projecto de Deus e da humanidade. Não digam agora que muito disto advém dos impostos (o Erário Público), é verdade que grande parte daí vem, mas melhor será dizer que vem daquele povo que ama o trabalho e que contribui como todos os outros para o bem público com os seus impostos.
Após estes anos também são muitos os que sonharam ver, mas já partiram do convívio dos mortais, para eles fica a nossa homenagem e que lá no lugar da imortalidade possam alegrar-se com a concretização deste ideal.
Pois bem, termino, pedindo a Deus força e coragem ao povo do Jardim da Serra, o meu querido povo – aqui foi o meu berço – para que feita a Igreja todos a amem e nela sintam o abraço do transcendente, que nos retempera para a luta da vida feliz para todos. E não esqueçamos quem encontrou antes a sintonia da razão, «Para fazer uma obra de arte não basta ter talento; não basta ter força; é preciso viver um grande amor» (Wolfgang Amadeus Mozart). O nosso povo sabe desta música há muitos anos. Toda a sorte do mundo para este povo, que se edifica nos vales e lombos do tempo quase tocando o céu da esperança de outro Jardim.
Próximo Domingo 15 de Novembro será a bênção e sagração da nova igreja de S. Tiago Menor, o padroeiro do Jardim da Serra, que a sua bênção se derrame sobre os nossos corações.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo XXXIII Tempo Comum
15 de Novembro de 2009
Tudo Passa
Os tempos correm tristes. A depressão toma conta de muita gente. A situação económica do país contagia os estados de alma de toda a gente. As medidas de austeridade provocam sobressaltos em muitos sectores e pouco ou nada parecem resultar. Ninguém escapa a um certo desânimo e parece não ter lugar o sentido da esperança. Porém, cabe-nos recordar que em cada manhã a vida volta a ressuscitar e a dádiva de sabermos que os nossos olhos se reabrem para a luz da manhã deve ser um dom maravilhoso que todos devemos saber contemplar. A regra do «tudo passa» é importante.
Mas, não pode esta certeza privar-nos de denunciar que os tempos estão tristes, não só porque continuamos a ouvir palavras sobre o terrorismo, a violência, a miséria, os refugiados, o sida, a droga, a corrupção... Mas também, porque ouvimos em todo lado, palavras ofensivas, palavrões, de pessoas que se esperaria elevação e dignidade. As ofensas roçam a linguagem do calhau e poucos se indignam com isso. Parece já não existirem pessoas que merecem respeito.
A linguagem estalou com o verniz dos tempos que correm, porque a mentira vale muito mais, mas mesmo muito mais do que toda a verdade. São poucos os que são escravos da palavra e muitos os que se limitam a dizer palavras ocas que depois não induzem à fidelidade do seu cumprimento. Só uma palavra se faz luz e reacende a verdade sobre o futuro, porque, felizmente, tudo passará menos uma palavra, aquela que Jesus faz ecoar no deserto do mundo, «Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão». Se assim não fosse, o que seria de nós?
Por fim, o povo é o bombo da festa. Está satisfeito. Basta-lhe vegetar à sombra da ignorância e comprazer-se com os arrotos da abundância de festas, quiçá, migalhas que caiem da mesa dos corruptos ou dos ditos democratas que este mundo «pariu» para nos governarem. Os tempos estão tristes. Ainda estou para crer na crise que os verdadeiros ladrões inventaram. Só acredito na crise dos bolsos vazios da generalidade das pessoas. A pobreza toma conta de muitas das nossas famílias. Os tempos estão tristes e ninguém se importa nada com isso. É pena!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Sobre o cartaz para a semana dos Seminários

Nota: Porque encontro abundante reflexão no meu pensamento para classificar o cartaz da Semana dos Semínários que estamos a celebrar, prefiro calar e deixar falar com mais clareza e erudição a nobre Agustina Bessa-Luís e D. António Marcelino. Mas lá que o cartaz é horrível, lá isso é... Não compreendo esta Igreja «encabeçada» de «colarinho branco», desprezada pela maioria dos leigos, mas cada vez mais valorizada e apregoada por algum clero. É pena que os nossos Seminários estejam convertidos não em viveiros de grande espiritualidade e cultura, onde a diversidade seria um bem e o caminho essencial da educação. Ao invés estão reduzidos ao pensamento único e ao formalismo anacrónico. É pena. Não me apetece rezar nem fazer muita publicidade sobre os nossos Seminários, mas fiquem descansados os meus correligionários, tudo faço para que este meu enjoo não me domine. Vamos a três passos de reflexão. O dito cartaz pode ser visto por aí nas paróquias.
Pimeiro passo: A Glorificação das Aparências
«Não sei o que acontecerá quando formos todos funcionários aureolados pela organização de aparências que acentua a satisfação dos privilégios. A aparência vai tomando conta até da vida privada das pessoas. Não importa ter uma existência nula, desde que se tenha uma aparência de apropriação dos bens de consumo mais altamente valorizados. Há de facto um novo proletariado preparado para passar por emancipação e conquistas do século. As bestas de carga carregam agora com a verdade corrente que é o humanismo em foco — a caricatura do humano e do seu significado».
Segundo passo: A Saturação da Servidão
«Hoje estão em causa, não as paradas, que é tudo em que as multidões são adestradas, ou a guerra, a que se convidam; está em causa toda uma dinâmica nova para criar o habitat duma humanidade que atingiu a saturação da servidão, depois de há milénios ter dado o passo da reflexão. As pessoas interrogam-se em tudo quanto vivem. A saturação da servidão não é uma revolta; é um sentimento de desapego imenso quanto aos princípios que amaram, os deuses a que se curvaram, os homens que exaltaram. (...) Mas foi crescendo a saturação da servidão, porque a alma humana cresceu também, tornou-se capaz de ser amada espontaneamente; tudo o que servimos era o intermediário do nosso amor pelo que em absoluto nós somos. Serviram-se valores porque neles se representava a aparência duma qualidade, como a beleza, o saber, a força; esses valores estão agora saturados, demolidos pela revelação da verdade de que tudo é concedido ao corpo moral da humanidade e não ao seu executor. Um grande terror sucede à saturação da servidão. Receamos essa motivação nova que é a nossa vontade, a nossa fé sem justificação a não ser estarmos presentes num imenso espaço que não é povoado pela mitologia de coisa alguma. Somos novos na nossa velha aspiração: a liberdade é doce para os que a esperam; quando ela for um facto para toda a gente, damos-lhe outro nome».
Agustina Bessa-Luís, in 'Dicionário Imperfeito'
Terceiro passo: Um mundo sempre igual, cada dia mais diferente
«Viver e actuar numa sociedade à qual se deve respeitar a autonomia, não se pode fazer pela negativa, refugiando, por exemplo, a expressão religiosa na área do privado, fazendo juízos críticos sobre o declinar do religioso, aceitar de modo passivo a dessacralização da sociedade e o que se exprime como simplesmente humano, considerado o normal de uma sociedade moderna.A Igreja tem de reinventar a sua presença, sem complexos de culpa no processo, nem juízos de um triunfalismo que aguarda a derrocada para fazer a festa da vitória. O projecto a Igreja é o serviço à sociedade e às pessoas, como fermento, como sal e como luz, traduzido em propostas sérias e viáveis, de livre aceitação e generoso seguimento. A história já lhe ensinou que o seu êxito não se mede por critérios profanos, que a luz não se pode colocar debaixo do alqueire, que o fermento só dá força à massa em contacto com ela, e que o sal que não cai sobre os alimentos, os deixará sempre sem sabor.A Igreja, fiel ao Evangelho mais que qualquer força social, tem capacidade para se regenerar, para abrir e andar por caminhos novos. Será que só os seus detractores sabem que essa é a sua força?»
D. António Marcelino, in «Correio do Vouga» 04/11/2009

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Para reflectir - Caridade Hipócrita

«Nos últimos tempos, preocupava-o sobretudo as misérias das classes - por sentir que nestas democracias industriais e materialistas, furiosamente empenhadas na luta pelo pão egoísta, as almas cada dia se tornavam mais secas e menos capazes de piedade. «A Fraternidade (dizia ele numa carta de 1886, que conservo) vai-se sumindo, principalmente nestas vastas colmeias de cal e pedra onde os homens teimam em se amontoar e lutar; e, através do constante desaparecimento dos costumes e das simplicidades rurais, o Mundo vai rolando a um egoísmo feroz. A primeira evidência deste egoísmo é o desenvolvimento ruidoso da filantropia. Desde que a caridade se organiza e se consolida em instituição, com regulamentos, relatórios, comités, sessões, um presidente e uma campainha, e do sentimento natural passa a função oficial - é porque o homem, não contando já com os impulsos do seu coração, necessita obrigar-se publicamente ao bem pelas prescrições dum estatuto. Com os corações assim duros e os Invernos tão longos, que vai ser dos pobres?...»
Eça de Queirós, in "A Correspondência de Fradique Mendes"
Nota: Uma reflexão importante para os nossos tempos que se preocupa tanto com tudo muito bem organizadinho e regulamentado preto no branco... Já o Evangelho de Jesus Cristo apela para o extraordinário valor que é dar discretamente e espontâneamente.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Comentário à Missa do próximo Domingo

Domingo XXXII do Tempo Comum
8 de Novembro de 2009
Dar e dar-se
Dar coisas é fácil. Mas, mais importante do que dar coisas é preciso dar-se. Este é o grande desafio que as leituras da missa deste domingo nos lançam. Aquele que dá do que lhe sobeja, nada lhe custa, porém, o que dá nas suas necessidades, é mais custoso e parece que diante de Deus tem mais valor.
Os escribas de antes e de agora, gostam de destaque social e de muitas palmas, depois das benesses que vão fazendo. Nada disso Jesus valoriza, para grande desconcerto destes grandes. Antes Jesus faz sobressair e valoriza a atitude do pobre que dá, embora dê pouco, mas fá-lo com interioridade e discretamente. Quantos exemplos destes encontramos pela vida fora.
Não vamos deixar de salientar que felizmente encontramos pessoas que têm muitos bens e praticam dádivas com generosidade e discretamente, mas outros há que desejam ser bajulados e paparicados porque deram alguma coisa. O desprendimento não é um valor fácil de se viver. Outra grande multidão de gente, na sua penúria sabe governar a sua vida de tal forma que chega para si e para os seus e ainda lhes sobra para partilhar. Uma certeza há, a quem muito dá, nada lhe falta. Deus é assim.