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quinta-feira, 12 de março de 2009

O desconserto do mundo

Toda a gente fala de crise. Poucos saberão realmente do seu sentido e o que ela significa, mas, muitos a sentem na pele como se de um cravo agudo se tratasse. Penso que toda esta crise ou este desconserto do nosso mundo, tem a ver com a falta de valores, e estou de acordo com o teólogo Leonardo Boff, que afirma que a crise só se resolverá quando a boa-vontade se tornar um valor universal. De facto, a vontade mal conduzida gera as piores atrocidades. O que de mal pode fazer a má-vontade!
O desconsero do nosso mundo tem a ver com o mau uso da vontade de alguns, por isso, a crise surgiu porque se perdeu a ética e a noção de uma moral respeitadora dos bens alheios. Esta má consciência de que os bens do mundo são de todos e para todos, conduziu-nos para este mal estar geral. Assim, a razão principal do desconserto do mundo está relacionado com uma palavra triste e feia: roubar.
Alguns culpados desta crise são os ladrões, ladrões grandes, os chamdos ladrões ricos, que se situam nos ninhos das grandes empresas multinacionais e nos governos das nações. Outros ladrões pobres, que roubam casas aqui ou ali, para comprarem algumas doses de droga ou tomar uns copos, são pouco culpados da crise do mundo, contribuem para a nossa insegurança e o mal estar das famílias. Mas, são ladrões pobres.
Como consertar o mundo? - Através da restituição dos grandes valores roubados pelos ladrões ricos. O Padre António Vieira, no Sermão do Bom Ladraão, já fala disso mesmo. Ali ele conduz-nos à analogia de Jesus em casa de Zaqueu e o diálogo de Jesus com o Bom Ladrão. Zaqueu é um ladrão rico, que tem muito para restituir, porque roubou muito na cobrança dos impostos e desviou dinheiro que pertencia a todos. Por isso, o Senhor dir-lhe-á apenas quando Zaqueu se prontifica a restituir tudo o que roubou com o dobro, «Hoje a salvação entrou nesta casa», apenas isto e não que Zaqueu já está salvo, só estará verdadeiramente, quando restituir tudo o que roubou dos pobres. No alto da Cruz no diálgo com o Bom Ladrão, as coisas são distintas, o Senhor conduzirá «hoje mesmo» o Bom Ladrão para o Paraíso, porque ele é um ladrão pobre, roubou apenas um carneiro ou um cabrito, roubos de pouca monta, por isso, quase nada tem para restituir, por isso, já está salvo e entra «hoje mesmo» no Paraíso juntamente com o Senhor.
Face a isto, somos levados a crer, que o nosso mundo só se conserta verdadeiramente quando os ladrões ricos forem chamados a restituir o que roubaram. Mais ainda, a ética tem que se tornar o valor mais excelente de todos os que têm cargos de responsabilidade sobre os outros seus semelhantes. E mais ainda, a boa-vontade deve tornar-se valor universal. Só assim o nosso mundo encontrará o caminho da justiça para todos. Urge cumprir o que proclamou sabiamente João Paulo II, perante o desafio da globalização da economia e da técnica, é preciso a humanidade descobrir também a globalização da solidariedade.

terça-feira, 10 de março de 2009

Comentário à Missa do Próximo Domingo

15 Março 2009
Domingo III Tempo da Quaresma – Ano B
O que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens
1 Cor 1, 22-25
Quem é Jesus? – São Paulo responde assim: «pregamos Cristo crucificado, escândalo para os Judeus e loucura para os Gentios, mas, para aqueles que são chamados, tanto Judeus como Gregos, força de Deus e sabedoria de Deus» (1Cor. 1, 23-24). Extraordinária esta formulação do Apóstolo dos Gentios. Jesus como «escândalo» e como «loucura». Como encarar estes atributos aplicados a Jesus, quando todos nós a maior parte das vezes acreditamos e pregamos um Jesus longe da vida, muito das orações intimistas e do comodismo da consciência? A história da Igreja está muito marcada por uma catequese acerca de Jesus, totalmente desencarnado, apenas divino, sem história e sem este mundo, onde nós habitamos. A catequese forjou um Jesus pacato, muitas vezes somente tristonho e afeminado como se pode constatar nalgumas pagelas. São Paulo destrona essa realidade e mostra que Jesus, é o Cristo do alto da Cruz, que acolheu esse destino para ser escândalo e loucura. Não esteve com ponderáveis tolos, quanto às suas opções. O Evangelho deste domingo, mostra que, afinal, este Jesus, está bem dentro da história do mundo e da vida. A purificação do Templo de Jerusalém é prova de que estamos diante de um Cristo activo e bem empenhado na construção do mundo e da História. Jesus não é apenas o reformador do Templo mas Aquele que o substitui. Jesus é o Templo novo. A nova religião que convida à libertação e à eternidade, é a religião Cristã. Desta feita não temos um Jesus inactivo, pacato ou submisso, mas um Jesus que intervém na História, para a transformar em realidade libertadora para todos. Obviamente, que para nós seria mais fácil um Jesus apenas remetido à sua divindade, lá das alturas, que legitimasse os poderes deste mundo e que autorizasse alguma igreja ser patética com as excomunhões anacrónicas e com as condenações de alguns dos seus membros, porque ousaram pensar de modo diferente do institucional. Assim, somos levados a procurar diariamente a verdade sobre a nossa vida espiritual. Porque também diariamente somos confrontados com as raivas absurdas que nos descontrolam o pensamento e as palavras. As teimosias nas nossas ideias fixas e manias pessoais, são frequentemente uma propensão que nos ataca e que requerem uma dose elevada de limpeza ou de arrependimento. Diante das brigas inúteis entre vizinhos, colegas e companheiros de trabalho, o arrependimento deve estar sempre presente para que a reconciliação da amizade seja também uma constante na vida de cada pessoa e, sobretudo, se são pessoas que acreditam na pessoa de Jesus. Nisto Jesus Cristo em nós será «escândalo e loucura» para muitos. Porque a lógica de Jesus nada tem a ver com a lógica guerreira e concorrencial que este nosso mundo apresenta. Por isso, deixemos que o verdadeiro sinal da libertação se faça realidade no nosso coração, para que a vida toda se torne o verdadeiro sacrário onde o amor de Deus habita eternamente.