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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Os Santos - heróis anónimos de Deus
Todos os Santos e na gíria popular o dia do «Pão Por Deus». Também ainda se conhece o mês de Novembro como o «mês das almas». Vamos por isso neste texto procurar dar sentido à santidade que deve acompanhar a vida de todos e de cada um. É óbvio, que a palavra tem uma conotação cristã, mas não é por isso, que não se possa proclamar para todos os valores que este vocábulo encerra. O povo sente muito profundamente a realidade dos santos e dos defuntos. Por um lado, com Todos os Santos, evocam-se todos esses heróis anónimos da Igreja que mediante a sua fé em Cristo e no Seu Evangelho deram a vida pelo serviço dos outros. Por outro, com Todos os Fiéis Defuntos lembramos outra multidão ainda maior, todos os irmãos que nos precederam já falecidos, que se encontram no lugar de Deus ou ainda não. O «Pão por Deus», evoca uma outra realidade da vida, um sentido outro na busca da partilha como obra de amor pelos desafortunados deste mundo. Destes três aspectos, o mais invoca pela generalidade das pessoas é o dia de finados. Não são por acaso as multidões que visitam os cemitérios por estes dias. Esta tendência pelo culto da morte ou pelo culto dos mortos, alastra cada vez mais e ganha mais forma neste tempo necrófilo que estamos a viver. A morte toca a todos e por todos é exorcizada até às entranhas.
Falemos um pouco do sentido da santidade que nos deve acompanhar sempre e em cada hora desta vida. Porque se assim for, melhor será para enfrentar a fronteira da morte e da vulnerabilidade desta vida terrena.
Muitas vezes a santidade é algo que nos ultrapassa e parece muito distante da vida. Mas não é assim. «Ser santo» é ser feliz e, por conseguinte, é estar em comunhão com Deus e com todos aqueles que nos rodeiam. Por outras palavras, diremos que «ser santo» é ter feito a descoberta do sentido da vida para o passado, para o presente e para o futuro. No vocabulário cristão diremos que «ser santo», está reservado para todos aqueles que descobriram a partir de Deus a plenitude da vida.
Feita a descoberta do «céu», nada nos faz abater. A morte cristã é a passagem para a «casa do Pai». O céu, o purgatório e o inferno são lugares da «casa do Pai», são sempre experiências do céu, experiências de Deus presente ou ausente. Poucos pensam assim. Por isso, o medo da morte e tudo o que a envolve continua a estruturar a mente de crentes e não crentes. Neste sentido, a descoberta da felicidade, faz-se pelo caminho do amor.
Logo depois, mais nada haverá a temer. Deixemos por estes dias o nosso coração ser tocado pelo mistério e depois face ao silêncio de Deus deixemos a nossa alma descansar nos prados verdejantes do seu amor infinito. Esta é a verdadeira santidade, o melhor alimento para cada dia da nossa vida.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Dois Testamentos uma só Bíblia

Nota: este texto também foi publicado hoje, 28 de Outubro de 2009, na secção Cartas do Leitor do Diário de Notícias do Funchal.
A polémica levantada por José Saramago, trouxe à ribalta uma série de pessoas, arredadas das questões religiosos, com opiniões muito interessantes sobre a Bíblia e sobre a religião. Graças a José Saramago por isso. Mas, temo que no fim nada reste senão mais uma polémica, onde cada um colocou a sua opinião e não chegamos a conclusão nenhuma nem muito menos restará uma síntese sobre as diversas visões.
Senti necessidade de expressar o meu ponto de vista e não pretendo opinar sobre o livro em causa, que ainda não li, mas que lerei oportunamente. Quero salientar que está a tornar-se perigoso separar a Bíblia em dois blocos estanques, Antigo Testamento e Novo Testamento. Não há um Deus do Antigo e outro Deus do Novo Testamento. Por isso, o Papa Bento XVI chama a atenção para dois aspectos muito importantes para a compreensão da Bíblia. Primeiro, é «fundamental para a compreensão teológica dos livros sagrados, a unidade das Escrituras». Segundo, é preciso dar «atenção aos géneros literários, o estudo do contexto histórico e o exame do que habitualmente se designa por Sitz im Leben (contexto vital)». O documento do Concílio Vaticano II sobre a Palavra de Deus a «Constituição Dogmática sobre a revelação divina» (Dei Verbum), confirma esta necessidade. Todos os estudos sobre a Bíblia também o atestam como caminho elementar para compreender a Revelação de Deus. Ainda cito, como prova disso, o teólogo católico talvez o mais importante do século 20, a saber Karl Rahner que, de modo único, escreveu em 1957 o artigo importante «Antigo Testamento como período da história da salvação».
É perigoso defender e ficarmos com a ideia de que o Deus do Antigo Testamento é o Deus tirânico e sádico, o Deus do Novo Testamento é o Deus bonzinho de Jesus Cristo, o Deus amor. Esta visão está errada e não serve para ninguém. Toda a Bíblia na sua diversidade é um todo e manifesta uma unidade convergente para a Pessoa e projecto de Jesus Cristo. Assim, encontrar a Palavra de Deus é encontrar a Cristo, dizia São Jerónimo. Sem ela, o Cristianismo torna-se vago, insustentável, insuficiente.
Nos dois Testamentos, descobre-se um Deus amor, compassivo e justo para todos e, especialmente, para as vítimas. Toda a história de Israel é, numa face, uma história idêntica a todos os povos, cheia de sangue e de morte. Na outra, está um Deus bondoso, compassivo e justo que acompanha o seu povo e o conduz para a Terra Prometida – lembremo-nos da travessia do deserto, os Profetas e o Cântico dos Cânticos a título de exemplo.
O Antigo Testamento conduz para o Novo e este encontra as suas raízes históricas no Antigo. Jesus Cristo é o ponto de encontro dos dois Testamentos. Na verdade, em Jesus Cristo realizam-se as grandes aspirações do Antigo Testamento, do mesmo modo, que ele é o alicerce dos conteúdos do Novo. O Novo Testamento dá testemunho da ressurreição de Jesus Cristo e do dom do Espírito Santo que faz de nós membros da Família de Deus (cf. Rm 8, 14-16; Ga 4, 4-7). Mas este dom realizado em Cristo e proclamado pelo Novo Testamento tinha sido profetizado pelo Antigo Testamento (cf Jer 31, 31-33; Ez 36, 26-27). Assim, temos a Revelação de Deus em dois testamentos, com 73 livros, mas numa só Bíblia.