Convite a quem nos visita

quarta-feira, 10 de março de 2010

Imaginar seis coisas impossíveis já antes do pequeno-almoço

Nota da redacção: O valor imprecindível de uma história, como liberta e educa... O futuro, afinal, parece não se fazer apenas na absoluta tecnologia, mas também em outras coisas que durante algum tempo redicularizamos e menosprezamos porque eram antigas ou não tinham o crivo da moda. Pensemos nisto.
A história contada faz mais do que reflectir uma coisa: a essência nela atestada perdura, habita-a por dentro.
Parece só uma Alicemania. Mas penso que é mais do que isso. O redescoberto encanto pela personagem inventada por Lewis Carroll e revisitada agora pelo mágico olhar do cineasta Tim Burton, não é apenas fruto de uma oportunidade comercial para fazer render as histórias do tempo das tetravós. O que seduz em figuras como Alice (mas também em Peter Pan, Pinóquio, etc.) é, no fundo, o poder inesgotável que as histórias têm de representar o humano e de ajudá-lo a ser (ajudá-lo a maturar, a compreender-se, a crescer...) Este regresso às histórias mostra como a nossa cultura hiper-tecnológica e sofisticada, mas também solitária e abstracta, tem necessidade da força concreta, da emoção e da sabedoria das grandes parábolas.
O filósofo Walter Benjamin apontou o dedo à Modernidade dizendo que ela tende a eclipsar os contadores de histórias e que isso é uma perda irreversível, pois a arte de contar é a arte de transmitir não apenas conceitos, mas experiências, exemplos, modelos. Numa linha semelhante, o teólogo Johann Baptist Metz chama a atenção para a urgência de reconhecer e revalorizar «as estruturas profundas narrativas» da Fé, recuperando na educação religiosa «o magistério das histórias», pois só esse garante-nos assentarmos em experiências originais e autênticas. A história contada faz mais do que reflectir uma coisa: a essência nela atestada perdura, habita-a por dentro. Por isso é que o que nós contamos volta continuamente a ser uma força.
Num dos seus livros, Martin Buber conta esta história inesquecível: «O meu avo estava já paralisado. Um dia pediram-lhe também a ele para contar uma história, uma história que ele tivesse vivido com o seu mestre. Então ele contou como esse homem santo que era Baalschem tinha o costume de saltar e dançar quando rezava. E ao contar isto o meu avo levantou-se, e o relato envolveu-o de tal maneira que ele começou a saltar e a dançar para mostrar como o seu mestre fazia. Desde esse instante ficou curado».
Não tenho dúvidas que Alice é muito útil. E que vale bem a pena escutarmos o seu conselho de imaginar, ainda antes do pequeno-almoço, uma mão cheia de impossíveis.
José Tolentino Mendonça

2 comentários:

José Ângelo Gonçalves de disse...

Quem conta histórias às crianças de hoje.As televisões, net, telemóveis. Hoje envelhecemos rapidamente porque nos faltam fantasias. O mundo está velho e doente.

Farinha disse...

Não tem nada a ver com o título do artigo.

Passados 19 dias da catástrofe da Madeira, não resisto em abordar o único sobrevivente do Pomar da Rocha (Ribeira Brava)
José Feliz perdeu pais, irmão, tios e avó na enxurrada do Pomar da Rocha, perfazendo 7 vítimas mortais.
O nome Feliz não é apelido, é o 2º nome do feliz jovem que conta 19 anos de idade.
Presentemente é natural que o jovem esteja amargurado, mas acabará por faze jus ao nome, aliás tem sido motivo de onda de solidariedade.
Eu acredito na protecção divina, e considero a sobrevivência deste jovem um sinal divino.
Um sinal para reflexão séria e isenta em especial na Madeira onde ocorreu os acontecimentos resultantes do severo temporal que se abateu sobre a Madeira.

O desvio do caudal alteroso da Ribeira de São João que convergiu através dos túneis rodoviários para a Rotunda de Francisco Sá Carneiro, envolvendo o pedestal onde assenta o busto do estadista, também é motivo de reflexão.
E termino com um 3º caso, o da imagem da virgem que se encontrava na Capela das Babosas que ficou completamente destruída pela enxurrada.
A imagem apareceu incólume.
Não custa nada pensar e refletir sobre o exposto.
Desde o dia do temporal penso nas vítimas do temporal e nestes 3 sinais evidentes.
Junto mais um sinal após o temporal, o do esforço titânico dos madeirenses envolvidos na reconstrução e limpeza.
Escrevi com fé e convicção.
Paulo Farinha