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terça-feira, 5 de agosto de 2014

A vingança mata implacavelmente

O encantamento da relação amorosa é das coisas mais belas que Deus criou, mas depois disso descobrir-se que a relação vai assentar na base da vingança, vemos emergir um terrível desânimo. Mais adiante, depois do corte de relação, entramos logo no domínio do ódio e do rancor. Dois aspectos tenebrosos que a natureza inventou para colocar em prova o ser homem e o ser mulher nesta terra de relação. Estes dois filhos da vingança pintam o quadro negro da humanidade. Esta humanidade cansada de coisas feias que não levam ao prazer, à festa e à alegria da existência. A vida não pode ser com vingança e não pode ninguém ser pessoa permanentemente com um coração preenchido com este espírito do mal.
Quando a vingança toma conta do coração humano, encontramos pessoas amargas e feridas até ao mais fundo do ser, porque lhes falta o essencial do sentido da vida. A vingança mata toda a possibilidade do sonho comum da fraternidade. Depois da vingança nascer o desejo do sonho do amor como elemento crucial para criar a relação plena que leva à felicidade, está votado à morte. A fraternidade deixou de ter lugar na existência deste mundo depois do nascimento da vingança.
A vingança cerceia a realização do eu e do tu e não permite a realização da reconciliação e muito menos permitirá a festa do perdão, pois, são estes os elementos verdadeiros do sentido da comum união – a comunidade, que é para todos os efeitos um valor essencial para a sobrevivência e para a realização pessoal. A vingança está aí no dia a dia da existência a matar toda a possibilidade da paz e do entendimento humano.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Os corruptos vamos à missa

Perante a loucura de termos de salvar mais um banco, quando a salvação devia passar pela restituição do dinheiro desviado/roubado, presos os trafulhas e nunca pelo eufemismo capitalização (quer dizer, injecção de dinheiro tirado dos nossos impostos). Mas, que raio de país é este que só salva os poderosos? E as famílias aflitas, não por causa de falcatruas, mas por causa da escravatura que a «economia que mata» votou a sociedade em geral? E tantas outras situações de paupérrimo povo que é preciso salvar? - A propósito de tudo isto vamos ler a seguinte reflexão que tive o trabalho de traduzir para publicar na nossa querida língua... Não percam, explica tudo o que se está a passar.
Por José Maria Castillo
Existem dois tipos de corruptos. Os activos e os passivosAtivos são aqueles que matam, roubam, mentem, ofendem ou magoamPassivos são aqueles que se calam ou cruzam os braços diante dos abusos e das injustiças cometidas por outros que teriam que denunciar, mas os corruptos passivos ficam quietos para não complicar a sua vida. Com a atividade de uns e passividade de outros produz-se a sociedade corrupta, de onde resulta toda a violência e todo sofrimento indescritível.
Quando se chega a este extremojá não se trata somente de que, num determinado paístem pessoas corruptasIsso sempre aconteceu. Mas quando a corrupção se pode generalizar ou pela ação ou pela omissão de outros, então - e é o que estamos experimentando agora em Espanha - o que acontece é que o tecido social está danificado até ao extremo que temos que falar. Com todo o direito, de uma sociedade corrupta.
Perante uma situação assim, como é lógico, está a mão da cobiça de uns, a ambição de outros, a falta de vergonha dos poderosos, o medo de covardes, etc, etc e etc. E tudo isto é verdadeiro. Mas não sei se trazer alguma solução ou talvez acrescentar mais lenha ao fogo, a tudo o que eu disse, eu quero adicionar mais um elemento. Refiro-me à religião. Digo isto porque me parece que a religião está desempenhando nesta situação lamentável, uma papel mais importante do que podemos suspeitar.
Por que digo isso? Porque, inevitavelmente, resulta suspeitoso que o Sul da UE, que são tradicionalmente os países cristãos-católicos, são precisamente os países que se afundaram mais na crisePorque terá sido nestes países onde a corrupção econômica se tornou mais generalizada e com factos mais repugnantes e grosseirasComo se explica que sectores tão "tradicionalmente católicos" da nossa "Espanha católica" sejam sectores tão escandalosamente corruptos?
A minha opinião sobre o assunto é o seguinte. A observância de práticas religiosas e a fidelidade aos rituais sagrados, inevitavelmente, implica uma consequência que pode ser perigosa e tende a ter efeitos perniciosos. O que quero dizerRefiro-me principalmente quemuitas vezes, os rituais religiosos acalmar a consciência pesada do criminoso. Por exemplo, um empresário que ganha cada vez mais em cada ano, se esses ganhos são explicados (em grande parte), porque paga salários que não chegam aos € 500 por mês, sem dúvida que este empresário é um criminoso, embora os seus papéis estejam em regra e de acordo com o que os outros infratores têm legisladoMas se somarmos a tudo isto que o empresário pode, além de criminoso, ser religioso  por pouco religioso que seja – então "estamos perdidos". Este que paga um salário de miséria, não se esquecerá da sua misériaObservância religiosa é responsável por dizer ao criminoso que "Deus é bom" e perdoa-nos os nossos pecados e misériasAssim funcionam rituais religiosos. E assim funciona a consciência humana trabalha em muitos casos.
Termino com uma pergunta. Porque poucos bispos (e há honrosas excepçõestêm a língua tão solta quando se trata de assuntos relacionados com o aborto ou a homossexualidade, enquanto a mesma língua é tão tímida, está tão calada quando se trata de despedimentos, do abuso de imigrantes, dos desempregados, dos jovens sem futuro, dos políticos que organizam a economia de modo que alguns são saciados com milhões, enquanto o afundamento da classe média e os trabalhadores estão perdendo a esperança de recuperar os direitos perdidosAlém disso (alargando a questão)porque dizemos que somos pessoas religiosas e estamos tão calados e tão submissos a este estado de coisas tão desumanas e tão desumanizador? Temo que, como disse lucidamente Martin Luther King"o silêncio das pessoas boas" é o mais prejudicial para todos nós. Sem dúvida alguma, os corruptos passivos tomam a parte de leão.