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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

As duas faces da aldeia global

É impressionante como o fundamentalismo religioso é  capaz de contagiar até fora do contexto onde está mais fortemente inserido. A curiosa história de Ângela, contada pelo Expresso, é deveras surpreendente e reveladora de quanto pode a loucura humana chegar a todas as partes do mundo, graças aos novos mecanismos de comunicação via internet. Ângela é a filha de 19 anos de um casal alentejano fugiu para a Síria no início do mês de agosto e casou-se com um guerrilheiro do Estado Islâmico, também ele português.
No Facebook, Ângela usa as seguintes palavras para descrever a luta jihadista na Síria: «Quando olhamos para o cano de uma arma vemos o paraíso, quando um avião sobrevoa as nossas casas estamos prontos para receber a bomba, quando um pai cai mártir o filho está pronto para substituí-lo. Faremos tudo para manter e expandir o nosso estado islâmico. Como se pode ganhar a um povo que não teme a morte?»
Em Menbij, no nordeste da Síria, junto à fronteira com a Turquia, ninguém a conhece por Ângela. Ali chama-se Umm. O marido também não é Fábio. É Abdu. Ele cresceu na linha de Sintra, nos arredores de Lisboa. Ela na Holanda, para onde os pais alentejanos emigraram. Ele já está na Síria há mais de um ano. É jihadista, combatente nas fileiras do exército radical do Estado Islâmico (EI). Ela chegou lá este mês. Nunca se tinham visto, mas já estavam noivos há vários meses no Facebook. Através da rede social partilharam radicalismos e ambições de vida, são ambos muçulmanos convertidos, extremistas, defensores do califado islâmico, adversários do Ocidente e dos países «infiéis». E são ambos portugueses.
Afinal, percebe-se que aquilo que nos tranquiliza, porque parece distante, hoje, está mesmo à beira da nossa casa. Somos todos vizinhos. E para nossa tragédia, eis a outra face da expressão «aldeia global». Tudo pode chegar-nos quer o bem quer o mal. Isso é por um lado, é muito bom e alegra-nos, mas por outro, assustadoramente inquietante e revelador de que o mundo está perigoso em todo lado.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Só Deus basta perante o desconcerto deste mundo

Perguntam-me frequentemente qual o objectivo da religião, qualquer religião. Aqui deixo esta nota como possível resposta a esta inquietação.
O objectivo da religião é (re)ligar o transcendente com a vida deste mundo e vice-versa. Sem isso a humanidade cai no vazio e no sem sentido. A religião e a par a espiritualidade servirão o sentido da vida e a felicidade.
Tudo se torna inútil e perigoso quando em qualquer religião emerge o fundamentalismo, a sacralização do poder, o espiritualismo e alienação. Eis o que se está a passar com os grupos radicais que emergem do interior do Islão. Tudo isto é extremamente perigoso para todos nós, porque agrava ainda mais a crise da fraternidade no mundo, o maior problema que nos assiste hoje e dele derivam todos os outros problemas, à cabeça a fome e a guerra.
O nosso mundo faz proliferar uma estirpe de idólatras que vivem alimentados na sacralização do poder. É sempre muito bom que se considere que nenhuma religião tem a verdade toda e se o ideal é o amor para todas, qualquer religião deve pensar-se como caminho entre muitos caminhos possíveis para chegar a Deus, ao bem e à felicidade. Todas as religiões são verdadeiras, mas também abrigam muita falsidade.
Para nós cristão, a religião e a espiritualidade que se deseja estão no Evangelho de Jesus. Vemos aí um Deus que não quer ser adorado pelo medo nem pela opressão dos costumes e dos ritos falaciosos, anacrónicos. É o Deus que busca, que acolhe e que está em todos os lugares da vida, especialmente, onde a vida é desbaratada pela injustiça dos poderosos contra os mais frágeis.
Nenhuma religião se pode dizer «dona única» deste Deus que tem muitos nomes, que perdoa sempre porque é misericórdia e amor incondicional. Digo «Deus sempre», mas Aquele que é tudo em todos para libertar e salvar contra todas as formas de opressão.
Santa Teresa de Ávila tem um lema interessante, que resume muito bem o que se pretende com esta reflexão e que pretende ser luz perante o desconcerto deste mundo em vivemos: «Só Deus basta».